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Terça-feira
Set232014

As Cascatas do Nilo Azul, Bahir Dar e os Mosteiros do Lago Tana, Etiópia

INTRODUÇÃO - Etiópia: para viajar, olhar e pensar     __________________________

                EU fotografava a ponte pênsil sobre a garganta do Nilo Azul enquanto uma família etíope a cruzava; vinha de longe, e por certo percebera que eu os registrava desde o começo de sua longa travessia. Ao final, pararam na cabeceira da ponte, fizeram uma pose coletiva, sorriram pra mim e bati a última foto deles. Mesmo surpreso com a simpatia e espontaneidade, esperei que me pedissem dinheiro. Afinal, eu já estava acostumado com isso depois de uns dias no país. Então eles passaram por mim, continuaram seu caminho e me disseram "hello, faranji!" (alô, estrangeiro!), me deram um último sorriso e despediram-se. Não pediram nada. Nem mesmo para verem o resultado da foto na câmera. Foram assim nossos dias na Etiópia, tornando óbvio o quanto o país é encantador, especialmente quanto mais receptivos éramos a ele. São dessas coisas que a gente só descobre viajando. Afinal, mesmo que pensemos o contrário, o mundo é como ele é, não como o imaginamos ou nos preparamos para vê-lo. E em todas as suas imensas variações.

                  QUEM viaja assim - para divertir-se -, percorre meio caminho para ser feliz em viagens. Quem não rejeita a comida, ignora os costumes, se aborrece com tudo e não evita as pessoas, percebe o mundo como ele é:  mergulhando na cultura. E vestidos!, "molhando" o corpo e a mente.

                  PENSAR sob os efeitos dos estereótipos, nem pensar. O bom turista embarca e não se aborrece com as diferenças culturais. Ao contrário, mas as admira e respeita, ainda que lhe seja reservado o direito de discordar e não apreciar a comida diferente, a falta de sua marca de refrigerante, a má qualidade de um hotel ou serviço ou constatar que ninguém fala sua lingua.

Mesmo quando as trilhas eram difíceis, éramos recompensados com alguma nova beleza ou experiência

                  VIAJAR para a Etiópia significa viver uma realidade desconfortável, é verdade. Mas compreendendo-as como inerentes às viagens àquele país, tornam-se perfeitamente contornáveis. Quando nos prepararmos para destinos assim, e disponibilizamos nossas melhores doses de paciência e abstração, as horas incômodas passam bem mais rapidamente. Creio que devam me entender os que viajam por decisão, por prazer, por escolha e diversão.

                 VIAJANTES apaixonam-se pela Etiópia por muitas razões. Sobretudo porque é um país de curiosidades exóticas, destino inusitado, perfeito para quem viaja sabendo que não vai em férias convencionais, mas para experiências soberbas. E que voltará premiado com riquezas turísticas em qualidade e quantidade surpreendentes. E por experiências e encontros transcedentais. É um dos motivos porque considero a Etiópia um destino tão subestimado. E também porque jamais a esquecerei. Digo mais: se você pensa em algo exclusivo no continente africano, pouco influenciado pelo ocidente, jamais colonizado, deve desejar a Etiópia.

              NÃO por menos uma das estrelas em ascensão no turismo internacional, dito de "aventura", mas que todavia nada tem de aventureiro. Uma vez lá, descobre-se um país com muitas atrações, de ruínas antigas a tribos isoladas, da cultura à religião, da comida às etnias, das montanhas às florestas, da arquitetura à cultura popular. E se viagens são tão mais atraentes quanto surpreendentes os encontros e descobertas, a Etiópia cumpre bem seu papel: é única. Portanto, incomparável. Onde a tal "sensação de singularidade" é tão presente que somos recompensados naquilo que nem supomos ser em viagens: na vida.

                 HÁ mosteiros ancestrais de uma religião exclusiva, nascida bem antes de a Europa ser cristã: a copta etíope, que chegou ali por via independente na época do império axumita, cuja capital ficava em Axum, e onde seus reis acreditavam-se descendentes do rei Salomão e da rainha de Sabá. Bastam uns dias no país para o visitante perceber que a história etíope é assim, marcada por mistérios e lendas, sobretudo religiosas e mal contadas. 

                  AS antigas igrejas e retiros monásticos do Lago Tana são apenas mais um entre os muitos lugares que um turista poderá ouví-las. Eu já estava preparado para qualquer nova excentricidade histórica, social, cultural, natural e geográfica, especialmente depois de visitar o Sul, o Vale do Rift e as Tribos do Omo. Então, a 40 quilômetros da pequenina Bahir Dar, onde chegamos de avião desde Adis Ababa, conhecemos o Lago Tana. O fabuloso lago, maior da Etiópia, fonte do Nilo Azul, com 37 ilhas onde em algumas há mosteiros ornamentados com belíssimos afrescos até hoje não bem interpretados. Isolados do mundo por séculos, também são únicos, do desenho à religião, do partido à ornamentação.

Decolamos de Addis Ababa para Bahir Dar e logo estávamos sobre o Lago Tana

 OS Mosteiros do Lago Tana     _______________________________________________

                 DEPOIS do sul, onde conhecemos um lado muito diferente do país, com tribos entre as mais expoticas do mundo, no remoto Vale do Omo, fomos para o norte, o lado histórico montanhoso e verdejante, onde ficam os Castelos de Gondar, Aksun e Lalibela, as montanhas Simien e o lago Tana, por onde navegamos pra uma pequena ilha com um mosteiro que até hoje parece esquecido pela civilização.  

                 AS ilhas do Lago Tana abrigam cerca de 20 dessas igrejas monásticas. Muitas delas são do século XIV, do reinado de Amda Tsion, embora a algumas atribuam idades mais avançadas, como a Narga Selassie e a Metseli Fasilidas, do período de gonderino. Mas como toda história religiosa na Etiópia é mística e de lendas, não se sabem exatamente as idades dos sete dos mosteiros mais importantes. Provavelmente são do século XIV. Ornamentados com belas e curiosas pinturas, são enciclopédias visuais históricas que contam muito da cultura religiosa da época.

                 SETE dos mais acessíveis, que ainda servem à sua função original são Kebran Gabriel, Ura Kidane Mehret, Narga Selassie, Daga Istafanos, Medhane Alem de Rema, Kota Maryam e Mertola Maryam. Muitos permaneceram desconhecidos até a expedição pioneira do Major Robert Cheesman, primeiro europeu a visitar todas as ilhas no Lago Tana em 1930. Tudo foi documentado no livro Lake Tana and the Blue Nile: An Abyssinian Quest, em 1936. Arquitetonicamente, todavia, são extremamente simples, nada comparáveis em complexidade e dificuldade aos mosteiros de rocha talhada de Lalibela, tampouco aos do império axumita.

                VISITAMOS o Ura Kidane Mihret, que dizem ser o mais famoso. Não é facilmente acessível. Pega-se uma lancha na beira do lago de Bahir Dar e o destino é uma península a poucos quilômetros da costa, onde fica o mosteiro. É um agradável passeio de meia hora um pouco sacolejante, quase entediante, onde a vida que a gente vê passar é lenta. E respingada por água trazidas do topo das marolas que o vento produzia, pra dentro do barco. O barco atraca num cais e logo caminhamos por uima trilha estreito e com pedras e raízer através de uma densa floresta.

O telhado originais de palha foi substituído por outro mais duradouro: de folha de zinco ondulado

                DEPOIS, mais meia hora de uma boa caminhada por uma trilha entre a floresta. Eu não estava preocupado com o fato de a malária ser endêmica na Etiópia, especialmente Bahir Dar. Havíamos tomado medicamento recomendado por nosso médico antes de viajar e mantínhamos a dosagem prescrita durante a viagem. O que me preocupava era o fato de que o passeio, ou esforço para chegar até ali poderia não ser recompensado pelo que veríamos.

Rusticidade, caráter mais charmoso do templo Ura Kidane Mihret

               PASSAMOS por comunidades simplíssimas e então chegamos ao mosteiro. A visão que tivemos não foi nada encantadora, até me fez pensar que efetivamente eu me desapontaria. Mas tudo é tão notavelmente imperturbado pela civilização, tão ausente de modernidade, e o interior do templo é tão belo, a permanência tão serena, a ausência de turistas tão surpreendente que a experiência foi pra lá de positiva e prazerosa, sobretudo reflexiva.

                A história de qualquer mosteiro na Etiópia é complexa e profundamente calcada em misticismo e lendas. Mas as ornamentações são tão lindas, o clima tão sereno, que a visita a qualquer um deles adquire um significado excepcional. Sobretudo ao Ura Kidane Mihret, bem maior do que eu poderia supor quando chegamos ali.

Tiramos os sapatos, entramos no templo...

                 O silêncio era pleno, absoluto. A rusticidade encantadora. Ouviam-se apenas cantos dos pássaros. No interior, o silêncio parace orientar a atenção para as paredes, belíssimamente ornadas. Cada qual tem pinturas religiosas que representam passagens bíblicas, dizem que a maneira de transmitir aos fiéis nem sempre letrados as mensagens religiosas. Nem todas serenas e pacíficas. Há algumas cenas cruéis de cabeças cortadas, jugulares jorrando sangue, membros sangrando, cadáveres, pessoas penduradas de cabeça para baixo, soldados com rifles. 

Então o que era simples ficou pra fora. Dentro, uma profusão de magníficas pinturas ortodoxas etíopes invadiram nosso olhar...

                TODOS os personagens pintados de frente têm feições etíopes com grandes olhos negros. São os cristãos. Os de perfil eram os infiéis. E por trás dos painéis - onde fica o maqdas, lugar que abriga os tesouros dos mosteiros - só têm acesso os religiosos, especialmente manuscritos e peças de arte eclesiástica, objetos reais e outros valores.

                A visita, enfim, é uma experiência. O mosteiro é afastado de tudo e o que é original, ambientalmente falando, está preservado com pouca intervenção humana. Faz sentido. Se alguém escolhe passar a vida retirado num mosteiro, nada melhor do que fazê-lo num lugar tão sereno quanto o centro dessa ilhota no meio do imenso Lago Tana. Que dizem ser assim há pelo menos quinhentos anos.

                UM magnífico tesouro de belas obras de arte contidas atrás de portas misteriosas nos levou à ilhota em algum lugar daquele imenso lago de 2.156 km². A beleza das pinturas ornamentais do templo, ainda que se possam encontrar semelhança com a de outros, no Ura Kidane Mihret suas cores são mais vibrantes. E cada centímetro de parede é decorada com essas pinturas de cenas bíblicas que podem ser entediantes do ponto de vista religioso para um ateu, mas extremamente impressionáveis sob o ponto de vista de um amante da arte.

               AINDA mais especialmente as que representam São Jorge, o padroeiro do país. Por fora a construção é extremamente rústica: adobe e pau-a-pique sob telhados de zinco. Por dentro a rusticidade permanece, mas é disfarçada pela belíssima decoração. E é a serenidade que acompanha o visitante que marca sua passagem por ali. Seguramente o Ura Kidane Mihret é um dos mais bonitos templos religiosos que se pode visitar na Etiópia. E não são poucos no país. Ficamos cerca de meia hora e saímos certos de que valeu a pena cada minuto do esforço para chegar até lá e voltar.  

AS Cascatas do Nilo Azul    _________________________________________________

                 SAÍMOS de Bahir Dar para visitar as cachoeiras do Nilo Azul. Oficialmente chamam-nas cascatas Tis-Isat neste braço do Rio Nilo que aqui chama-se Azul. Mas não tem nada tenha a ver com a cor: a água é castanha, cor dos sedimentos que lá embaixo no Egito tornam as terras tão férteis. Esta parte do Nilo tem origem no Lago Tana, de onde flui por cerca de 30 km antes de precipitar-se nas cataratas do Nilo Azul, descendo dos 1830 metros de altitude do Lago Tana, por uma série de vales e cânions segue até Cartum, no Sudão. Ali junta-se ao Nilo egípcio e segue seu curso até o Mediterrâneo. A parte onde se começa a trilha  a pé para ver as cascatas fica às margens da cidade Tis Abbay.

                 AS Cataratas do Nilo Azul valem a visita. Só isso. Não espere encontrar estrondosas quedas dá água como as de Foz do Iguaçú, mesmo em época de seca. As águas minguaram desde que em 2003 construiu-se uma barragem rio acima. Mas estamos no Nilo. e isso muda tudo. Depois de deixarmos a aldeia e cruzarmos o rio numa barca, seguimos uma trilha que serpenteia campos cultivados até chegarmos às cataratas. Não nos impressionamos nem com o tamanho nem com o volume d´água. Mas é a fonte do Rio Nilo, que fornece 85% do fluxo de água do rio mais longo do mundo. E a despeito de seu volume reduzido aqui, ainda tem lá sua beleza, nos leva a imaginar sua imponência original. Toda a área que a cerca é linda. E não é todo dia que a gente conhece um lugar como esse. Até que tivemos sorte, havia razoável volume de água fluindo...

Sexta-feira
Set122014

Manouchehri House é o hotel "da hora" em Kashan, mas...  

Manouchehri House: restauração primorosa, hotelariao medíocre

                 DIFICILMENTE, em qualquer outro lugar - de blogs a mídias sociais, de páginas profissionais às de resenhas hoteleiras - um leitor interessado em avaliações hoteleiras encontrará críticas negativas ao Manouchehri House. É o hotel "da hora" em Kashan. Não tenha dúvidas: ele é imensamente superior à média da hotelaria iraniana, especialmente à sua (pequena e pobre) concorrência. Mas isso não o torna um bom hotel. Nos hospedamos nele, um prédio histórico e tradicional, escondido (literalmente!) numa área residencial antiga, entre ruas estreitas e labirínticas, muros altos que impedem a vista. Antes de tudo é um incrível patrimônio de arquitetura persa, felizmente minuciosamente restaurado.

    Casas vizinhas ao Manouchehri House, precisando de restauração

                         É um hotel surpreendente sob todos os pontos de vista, até na falta de qualidade. Há pontos positivos (poucos) e negativos (muitos). Reconstruído a partir de uma ruína, foram o bom gosto de seu dono - Saba Manouchehri -, e o talento do designer e do arquiteto contratado - Shanhnaz Nader Esphanahi e Akbar Helli -, que tornaram a casa histórica um lugar que vale a pena conhecer. Muitíssimo mais pela beleza e partido arquitetônicos, pela nobreza do projeto, do que pela qualidade dos serviços. A experiência de conhecer os detalhes da restauração é imensamente mais prazerosa do que a experiência de hospedar-se.

                 A despeito de ser um empreendimento politicamente correto, uma bela restauração que eleva o padrão hoteleiro do Irã, país parado nos anos 70 em termos de hotelaria, o Manouchehri House um dia poderá ser de verdade um hotel boutique de padrão cinco estrelas. Mas está longe de seu alvo. Nas instalações e nos serviços. Já fiquei eu hotéis ruins, o que não é o caso do Manouchehri House, é preciso que fique claro. Mas mm Mianmar, no Uzbequistão e mais recentemente na Etiópia hospedei-me em hotéis que se fossem classificáveis com estrelas seriam negativas. Nem por isso me incomodaram tanto quanto o Manouchehri House.  

                  Ao contrário, de certa forma até me divertiram, porque nada como encontrar o que se espera de uma propaganda e de avaliações de usuários. Nada me incomoda mais do que o que é pretensioso: neste hotel apenas o edifício vale pela a hospedagem, reforço, um belo exemplo de casa tradicional iraniana como tantas em ruínas que encontram-se ao seu redor. Este começou a funcionar em 2011 depois de primorosa restauração que custou três anos. Mas se o ponto for observar a arquitetura de casas e palacetes tradicionais, Kashan tem atrações suficientes em quantidade e qualidade que preenchem qualquer requisito: as fabulosas Abbasian House, Khaneh Borujerdi ha e Tabatabei Residence.

A cortinhinha, ali em cima noprimeiro andar, separa o quarto do resto do hotel. Inclusive o barulho

                 Como meio de hospedagem tem serviço frio, desinteressado, melancólicamente ruim e precário. Certamente agradaria a quem vem de uma viagem hospedando-se em hotéis bem mais simples (e não necessariamente ruins) mas não a quem foi ali para conhecer as pretensões hoteiras deste. Os quartos são relativamente confortáveis, medianamente equipados, muito limpos. Considerando-se os padrões iranianos, claro. Mas há falhas incrivelmente graves. Sejam no projeto, seja nas instalações. Que dirá nos serviços. O restaurante me serviu um pão de véspera depois de eu implorar por alguma coisa pra comer quando chegamos ao hotel, famintos, às cinco da tarde. Nem por um café da manhã servido em porções ridículas por um empregado que não dava conta do serviço.

                Nem por todos os defeitos construtivos surpreendentes para hotéis daquele padrão e com suas pretensões de ser 'boutique' e de luxo. As escadas são exageradamente íngremes e estreitas, acentuadamente curvas, perigosas e inseguras, completamente fora dos padrões mínimos de medidas dos degraus, cujo corrimão é uma bara de ferro tosca. Escadas que que não se sobem, escalam-se. Pior, havia lugar para construir uma normal. Um absurdo ver hóspedes tendo que carregar sua bagagem por uma escada daquelas, a despeito de toda a dificuldade de içá-las assim. O ter que hospedar-me numa habitação cuja porta de entrada é fechada com um gancho, mantendo uma fresta que não permite qualquer intimidade.  O banheiro tem chuveiro muito mal projetado que literalmente alaga parte do apartamento e a totalidade do banheiro. Alagar não é exagero.

                O café da manhã é fraquíssimo e o barulho nas dependências do hotel é uma realidade. Dia e noite. A varanda é aberta para a recepção, onde as pessoas circulam e conversam como se fosse ao lado de sua cama. É impossível dormir enquanto não se calam e deixam de circular. E corda-se sempre mais cedo do que o desejado quando começam a falar e a circular.

                  O silêncio não foi impassível como eu esperava de um hotel daqueles. Sobretudo porque está num lugar ermo, tranquilo, naquele fim de mundo. Ao contrário. Cortinas, não janelas, separam o quarto do pátio do hotel. Entram luz e barulho. De dia e de noite. Um passo, uma colherinha caída no chão, um olá ecoam de tal forma no belo pátio entre aquelas quatro paredes que minha noite foi ruim e o amanhecer infernal. Para ir do quarto ao banheiro é preciso passar por uma varanda (fechada por cortina) e ter cuidado pra não topar com um desnível considerável de um ambiente para outro.

                  Vale dizer novamente que se você pesquisar encontrará comentários que classificam o Manouchehri House como "Perfeito!", um "Paraíso em Kashan", "Amazing", com "Serviço perfeito e comida deliciosa" (não havia comida no hotel!), "Incrível!", "Soberbo" e muitos outros adjetivos. Hospedei-me nele, razão porque é preciso desconfiar do Tripadvisor e acreditar bem mais no Booking (onde apenas quem efetivamente hospedou-se pode comentar e classificar, tendo antes que passar por avaliação do site o que escreveu). Um viajante bem informado e experiente não fica exatamente desapontado com os serviços e padrões dos hotéis no Irã.

                  Todos os hotéis são linearmente medianos, têm equipe antipática ou ineficiente, exceto a do que nos hospedamos em Teerã, eficiente, eficaz e sobretudo simpática. Em todos os demais variavam de simplesmente frias e displicentes a antipáticas ou protocolarmente secas, ainda que eventualmente eficientes. Um curioso contraste entre os profissionais de hotelaria e o povo iraniano, lineramente no mais alto grau de simpatia, prestatividade, educação e receptividade.

                A hospitalidade iraniana é indiscutível e notável. Mas ela não está nos hotéis do país, senão nas ruas e nas casas. 

 Vizinhança, o que o Manouchehri House tem de melhor

NOTA: para evitar qualquer mal entendido, aqui não tem jabá. Mas tem honestidade, ética e transparência. Acima de tudo. Profissionalismo não, porque este é um blog amador. Não suportado por nada, nem por ninguém mais que eu mesmo. Não recebo 'brindes' em troca de cobertura positiva para nada. Minhas viagens são auto-financiadas. E os produtos e serviços aqui mencionados são feitos por liberalidade minha, sobretudo não têm conhecimento dos mesmos. E mais, não são recompensados de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação. Cada produto ou serviço aqui mencionado é feito com a suposição de que o leitor saiba identificar os objetivos do blog. E que verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão.

Segunda-feira
Ago252014

Gondar, a "Camelot" da Etiópia 

                 A imaginação parece não ter fronteiras. Que nos digam os sonhos. Mas o mundo real sim, e são elas que separam o previsível do surpreendente.  Para o que serviriam, afinal, as viagens, se não para surpreender-nos? Quem olhar para as fotos deste post sem ler seu título perceberá que são castelos medievais. Não há pontos para dúvidas: têm torres, fossos, grossas muralhas defensivas e tudo mais o que era típico dessas construções na Idade Média no Velho Mundo. Logo, não estaríamos errados associá-los a paisagens toscanas e mediterrâneas. Mas o leitor suspeitaria que estão na África? Provavelmente não.

Tem torres com cúpulas o Castelo do Rei Fasiladas

                 Eu poderia começar descrevendo a beleza daquele luminoso dia em Gondar. Ou então o nosso giro a pé pela cidade, pela beleza natural rural da região das Montanhas Simien, suas colinas verdejantes pontilhadas de casas rústicas e gado pastando, pelas sinuosas estradas contornando seus picos e rochedos, sobre o mais delicioso spris (*) que provamos em todo o país ou sobre a incrível igreja ortodoxa Debre Birhan Selassie. Mas não, vou fazê-lo pelo mais inusitado encontro que tivemos na Etiópia, um de seus mais valiosos e surpreendentes patrimônios: o Recinto Real, com os Castelos de Gondar. Estávamos diante de uma das partes menos conhecidas da História, a despeito da compreensível atração que aquela arquitetura invulgar na Áftrica possa ocasionar.

                   Medievais. Castelos medievais na Etiópia, construções sem equivalentes em toda a África, mesmo a despeito de todo conhecimento histórico da humanidade, é surpreendente. O "estilo goderiano medieval" não deixará de surpreender nem o viajante mais informado. Gondar, alémd e tudo, é muito atraente turisticamente, seja por suas igrejas, por seus castelos ou pela natureza montanhosa que a rodeia. Mas é o Recinto Real seu sítio mais incomparávelmente surpreendente.

                  A história conta que a nação experimentou 200 anos de prosperidade, especialmente uma época de grande movimento comercial. E Gondar foi capital entre 1632 e 1855, o que favoreceu o desenvolvimento de um estilo renascentista próprio, expresso na arte, arquitetura, música, no ensino acadêmico e na literatura. Especialmente na época do Rei Fasilidas, imperador etíope que governou o país de 1632 a 1667, um período de aproximação entre o país africano e a europa, encerrando seu o longo isolamento. O Imperador Fasilides Alam Sagad foi um dos governantes mais notáveis da então Abissínia, antigo nome da Etiópia. Além de fundar a cidade de Gondar, tornou-a um dos centros de negócios mais significativos da África.

                  Durante a guerra contra o líder muçulmano Ahmed Gragn, em 1543, soldados portugueses ajudaram o imperador da Etiópia, Gelawdewos, filho do Imperador Lebna Dengel, instalando-se em torno do Lago Tana, onde permaneceram até o reinado do Imperador Susneyos (1607-1632).  Missionários das igrejas católicas espanhola e romana, assim como em 1622, missionários portugueses, converteram com êxito o Imperador Susneyos ao catolicismo. Nesta época a Igreja Ortodoxa da Etiópia enfrentou um desastre imprevisto, porque após a conversão ao catolicismo o imperador proibiu a fé ortodoxa, perseguindo e matando milhares de cristãos ortodoxos.

                Como era de se esperar, exceto ele próprio, o Imperador Susneyos, tornou-se profundamente impopular e a nobreza e o clero ortodoxo revoltaram-se contra ele. Em 1632, Susneyos foi forçado a transferir o trono para seu filho, o príncipe Fasiladas Alam Sagad, que assim que tornou-se imperador começou a reparar os danos causados pelo pai, primeiro restabelecendo a paz, reunindo Igreja e Estado, estabelecendo uma aliança entre a Igreja Copta Etíope e os Estados muçulmanos do país e expulsando os portugueses.  Todavia, mesmo sem eles, não se pode negar que a marca de nossos patrícios na arquitetura destes palácios-castelos, o qual mais tarde denominou-se "portugo-etíope".               

                  Mesmo sabendo o que visitaríamos, a sedutora imagem dos Castelos de Gondar me surpreendeu como se nada soubesse. A manhã era luminosa, fazia seus efeitos naquelas construções. E formavam imagens belíssimas que tornavam o conjunto um dos mais admiráveis que já experimentei. Diferentes da experiência antropológica que os encontros com as tribos do Vale do Omo representam, todavia de mesmo assombroso impacto.

  

                  Bem conservados, os castelos ficam numa pequena área na cidade de Gondar. O cerco fortificado que se assemelha aos dos castelos medievais europeus é um complexo intrigante. Construído pelo imperador e seus sucessores, ao longo dos anos foram adicionando-lhe construções até tornar-se um complexo de residências reais, edifícios administrativos, alojamentos de empregados, hospedaria para visitantes e animais, biblioteca, chancelaria e até alojamentos para leões de "estimação".

                  Antes do declínio, no final do século XVIII, a corte real tinha desenvolvido de um complexo fortificado chamado Fasil Ghebbi com seis edifícios, entre principais e auxiliares, rodeados por uma muralha de 900 metros de comprimento, com doze entradas e três pontes. Não à toa consagra-se um dos pontos turísticos mais notáveis e inesperados de toda a África e um Patrimônio da Humanidade nomeado pela UNESCO.

                  Diferentes versões da história contam que artesãos portugueses e etíopes os construiram.  A "cidade" teria esse estilo por influência de missionários jesuítas. Seja qual for a verdadeira versão, o Palácio de Fasilidas, por exemplo, um castelo-fortaleza quase intacto, tem torres e ameias inconfundíveis com outro estilo senão o medieval europeu. O Palácio do Rei Fasiladas foi a primeira construção do complexo, e Castelo de Mentewab, por exemplo, foi construído pelo Rei Bakaffa, imperador entre 1721 e 1730.

                 A maioria dos monumentos está bem preservada, tanto na autenticidade quanto no estado de conservação, ainda que algumas intervenções de conservação inadequadas, levadas a cabo entre 1930 e 1936, segundo a UNESCO, quando usaram cimento e concreto armado, tiveram impactos nos materiais originais. A situação inverteu-se parcialmente com os trabalhos de restauração realizados pela UNESCO na década de 1970, quando substituiram o concreto pela a mistura original de cal e cimento. Programas de conservação subseqüentes foram implementados desde 1990, a fim de manter-se a autenticidade do complexo.

 (*) Spris, delicioso suco de frutas puro e cremoso servido em camadas

Segunda-feira
Ago182014

JODHPUR, Índia - Momentos longos, dias curtos

 Do mar ao céu, das flores às pedras, todos os tons de azul numa cidade 

                     HÁ viagens que regressar custaque quando estamos lá vivemos tão ávidamente os dias que passam a ter um significado maior do que todas as demais, por melhores que tenham sido. Talvez porque entrem pelos poros e vão ao sangue, em vez de pelos olhos ao cérebro. "Instalam-se" na gente, como parasitas, mas ao contrário de sugarem, agregam valor. Costumam denominá-las "viagens de uma vida". Não há exagero. Estas modificam nosso modo e conceito ao encararmos novas viagens.

                     A primeira de nossas viagens à Índia encerrou um capítulo e abriu novo à minha vida de viagens. Melhor, encerrou um volume de um obra e iniciou outro. Tornou-se clássica, ainda que tantas e tão belas outras já fizesse. Mas à Índia é a que permanece entusiasmando, mesmo anos depois. E fresca na memória, emoções e recordações, parece que retornamos ontem. AINDA brilham como nenhuma outra a qualquer destino. Índia nos fez viver momentos intensos durante todos os dias. Tanto que passavam rápidos como faíscas.

Na rua do RAAS Hotel Jodhpur. Bem perto da Torre do Relógio e do Sardar Market

                Eram momentos longos e dias curtos. E a mesma veemência com que vivíamos experiências diárias, novas nos dias seguintes se apresentavam. E com igual intensidade as vivíamos. Eram dias fabulosos, tanto quanto não seria razoável esperar por outros tão magníficos. Mas sempre havia um novo dia, uma tal nova sucessão de surpresas e encantamentos que eu já os terminava quase sem me importar como foram, mas pensando no seguinte: um novo palácio, fortaleza, templo. Todos juntos, um encontro, um acontecimento, uma descoberta. Seria possível a magia do dia anterior reproduzir-se no seguinte? Sim, sempre havia o dia seguinte para me surpreender. Então, não sem motivo, desde então nenhum outro país  igualou-se no fascínio como a Índia. E assim vou lhes contar como foi nossa visita a Jodhpur, a caminhho do Deserto de Thar.

 Jodhpur, a caminho do deserto  _____________________________________________________

 O Deserto de Thar, nas portas de Jodhpur

                O vôo foi cancelado. Em vez de na manhã daquele 13 de Novembro embarcarmos no IT 4301 da Kingfisher, saímos cedo para mais uma viagem de carro pelas estradas indianas, desta vez de Jaipur a Jodhpur. E para um novo capítulo da nossa viagem pelo Rajastão e Utar Pradesh. De uma rosa à iutra azul, a viagem foi longa. Não fosse o encantador motorista que nos acompanhou pelo Rajastão, teria sido bem mais cansativa do que potencialmente são todas viagens rodoviárias pela Índia. Se há alguém a quem dedicarmos esta viagem é ao nosso motorista. Foram cinco horas, provavelmente tão repletas de emoções quanto foi a descoberta do caminho marítimo para as Índias em 1498.

 RAAS Jodhpur Hotel. Por dentro, modernidade...

                    Assim que deixamos de nos encantar com o Hotel RAAS Jodhpur (*) - pequeno espetáculo hoteleiro bem no olho do furacão, um verdadeiro oásis-refúgio em Jodhpur - saímos a pé em direção à Torre do Relógio, no centro do Sardar Market, o Mercado de Jodhpur, onde se vende de tudo, de frutas, chá e especiarias a bugigangas.

Praça e Arco do Sardar Market 

                    À sombra do Mehrangarh Palace, bem perto da torre do relógio, o RAAS é um hotel butique dos mais atraentes em que me hospedei. Tem personalidade, é instalado num antigo haveli de arenito vermelho do final do século XVIII e há modernidade interna, que todavia não é interfere na fachada original em pedra esculpida.

Vacas nas ruas, defronte às casas de seus donos, uma tradição...

                  A paz do hotel no lugar em que ocupa não é quebrada de pronto ao sairmos de seu portão e pormos nossos pés fora dele. Estamos a passos do centro de diversas atrações populares e de atividades cotidianas da cidade, onde culmina toda idéia do que sejam burburinho, vida, comércio, sons, cores. No caminho até ali passamos por ruas estreitas, prédios e as casas que "comeram" as calçadas. Mas tudo é sereno, com pouca gente e algumas vacas estacionadas placidamente defronte ao que parecem ser suas casas. Não consigo descrever. A criatividade nem sempre acontece para sair da mente e chegar à ponta dos dedos  quando tento descever lugares assim.  

 

Olhares perdidos, turistas nem tanto

                   Crianças na janela com olhares perdidos, vacas refesteladas, homens e mulheres - ora caminhando, ora trabalhando -, motos e tuk-tuks, tudo era uma sucessão de experiências a cada passo, a cada virada de rosto. Deixei-me levar. Dizem as lendas que por aqui andam fantasmas à noite. Não esbarrei com nenhum, provavelmente porque não acredito em fantasmaneles. As estórias nem a diversidade me espantavam mais depois de alguns dias na Índia, tudo já aparentava ser familiar, ainda que tão exótico, mas continuava intenso e veemente nos efeitos.

Tuk-tuks de Jodhpur. Diferentes de todas as outras cidades

                   Predominantemente rural, próxima ao Deserto do Thar, Jodhpur todavia é a segunda maior cidade do Rajastão, o que acentua a sensação de adensamento populacional e construtivo tão comum à Índia. Dizem que é antiga, das mais antigas do país. A cidade é azul. Em todos os tons possíveis de azul. Milimetricamente pintada de azul. O azul da cor de todos os mares e céus, mas de um turqueza predominante, a reveste e lhe dá um charme incomparável no Rajastão. As razões são ainda uma especulação: vão de motivos religiosos a afastar mosquitos. Mas não importa, os azuis tiram qualquer possibilidade de associar a cidade à esterilidade e aridez do deserto que a rodeia.

 Fortaleza Mehrangarh, a maior atração de Jodhpur

                   Aqui em baixo domina a vista o Forte Meherangarh. Construído ao redor dos anos 1450 pelo então governante Rao Jodha, é mais que uma fortaleza antiga hoje desativada, é história. De uma época romântica e ao mesmo tempo sangrenta.

                   No interior há palácios, monumentos, jardins e um museu. Sete portões precisam ser atravessados para chegarmos ao forte. Eles têm marcas de sucessivas batalhas. E nomes, como Jayapol e Fattehpol, por exemplo. Nos domínios da fortaleza - uma das mais fantásticas do Rajastão - as casinhas azuis lá embaixo formam um mar, um visual encantador, perfeito. A cidade então mostra-se atraente vista de cima ou de baixo. Casinhas quadradas coladas umas às outras, feito um mar azul que se estende por uma longa área da cidade antiga

Jodhpur - Cidade Velha

                   Assim como as balas de canhões nos portões do Forte Mehrangarh, Jodhpur também nos deixou marcas, todavia apenas uma entre tantas que nos deixaram nossos incríveis momentos na Índia.

 RAAS Jodhpur Hotel. Por fora, tradição...

(*) Aqui não tem jabá. O que escrevo não tem filtros, é um reflexo do que vejo, sou e penso. Não sou blogueiro que escreve por comissão, nem para pagar fam trips ou receber agrados, mimos, presentes e afins. Não faço viagens que não sejam de nossa escolha. Os produtos e serviços aqui mencionados não têm o conhecimento dos mesmos, não são recompensados de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação - e se o fiz foi por liberalidade, com o intuito de informar o leitor. 

A hospedagem no RAAS Jodhpur Hotel foi paga por mim, assim como todas as despesas da viagem. Não viajamos a convite do hotel. Nunca o fazemos. Minhas opiniões são independentes, assim como minhas escolhas. Sobretudo elogios, críticas, menções e relatos. Não há compromisso que não seja com a informação, a motivação, a orientação e a inspiração do leitor. Cada produto ou serviço aqui mencionado é feito com a suposição de que o leitor saiba identificar os objetivos do blog. E que verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão.

Fique seguro: este é um blog gratuito para o leitor. Não é necessário doar dinheiro, desconfiar de que as matérias são pagas, ler anúncios disfarçados ou receber propagandas subliminarem enquanto lê.

Segunda-feira
Ago112014

Estônia, Letônia e Lituânia, as três senhoras do Báltico

                      EU gosto de "falar" ao leitor. Sei que ele está aí, que ele vive, que pensa e respira. Mesmo que eu não o veja nem ouça. Ainda mais porque sei que ele gosta de viagens. É o que me motiva a lhe escrever. E o tenho feito com um prazer renovado, porque não escrevo guias de viagens, mas impressões e reflexões pessoais ligadas ao tema. Então o tenho feito como se escrevesse cartas, quase como se estivesse proseando com você, caro leitor. E sei que você sabe que imagens valem mais que mil palavras, que não seria razoável um amante da fotografia como eu discordar do pensamento. Mas também creio que você deva reconhecer que palavras podem enriquecer muito as imagens. Sobretudo as de um relato de viagens. Você sabe, apenas os mestres da literatura de viagens podem prescindir das imagens. E mesmo assim conseguirem transporá-lo.

                     SE aqui, nesse ambiente eletrônico os textos longos são inadequados, se para os padrões de um blog eles não conseguem mantê-lo atraído, as imagens valem muito, um pouco mais. Quando então consigo que imagens e palavras complementem-se afinadamente, um relato de viagens torna-se perfeito. Se isoladamente já não é fácil fazê-los assim, que dirá afinaram-se quando juntinhas.

                    PARA quem não escreve burocraticamente(*) como eu, se os relatos são extensos, não prendem, o leitor reclama. Se curtos, não atendem, e o viajante que espera dicas decepciona-se. Quem relata viagens como eu - sobretudo tendo coragem de reconhecer sua falta talento e amadorismo - sabe bem do que falo.

                    EU não passo mesmo é de um turista. Bem aquele do clichê definido pela pretensiosa "sabedoria" que classifica “turista” como ser inferior a “viajante”. Conceito antiquado! Mas veja lá!, adoro ser turista, só lamento ser um pretensioso escritor de viagens e metido a fotógrafo. Reconheço. E alguns leitores também. Mas sou desses turistas que como todo viajante que viaja a turismo é tão turista quanto alguém pode ser: busca seus prazeres turísticos como qualquer turista padrão. E se assim o faço, se sou turístico, se viajo pelo simples deleite que é viajar e explorar, quem me lê sabe que aqui encontrará relatos e fotos dessas viagens que faço e minhas impressões sobre os destinos, mas também um pouco de divagações viajantes.

                      DESTA vez, caro leitor, não vou me estender muito na introdução desta viagem. Da próxima viagem. Mas preciso lhe dizer algo: minhas últimas viagens têm sido por lugares tão exóticos e tão pouco explorados que tenho sido levado a pensar que já não há mais mistérios no planeta. A idade avança e prega suas peças. Mas basta que olhe um mapa com olhar explorador para encontrar uma centena de razões para pensar diferente. E a continuar com minha vontade de conhecer o mundo. Largar mão de ser tolo, de achar que só há o que descobrir em lugares que ninguém foi. Ela não passa, essa minha vontade de conhecer o mundo não passa. Sei que um dia me cansarei disso, desse complexo, trabalhoso, oneroso ato de viajar. E que o cansaço matará o desejo de viajar. A idade é implacável. Ela incondicionalmente nos pega, e provavelmente nos faz deixar de ter tesão de sair da zona de conforto. Só espero que comigo isso venha tarde, bem tarde. Por isso vou sonhando e cuidando da saúde e do trabalho, para que o entusiasmo e as possibilidades continuem me permitindo o imenso desejo de conhecer o mundo, o enorme prazer que viajar me proporciona.

                     ESTOU entusiasmado. Basta surgir a possibilidade de viajar novamente para logo perceber que é tolice achar que descobrir já não é mais possível. Que nosso mundo tornou-se tão plano que já não estimula, que nada mais atrai nem surpreende. Mas até mesmo redescobrindo o já visto é possível entusiasmar-se numa viagem. E agora acabamos de definir nossa próxima: desta vez vamos "descobrir" três países europeus em que jamais estivemos. E dos menos visitados. E se toda viagem que faço é com esperança de novas descobertas, se estou certo de que elas acontecerão, se a mente é exploradora, o corpo nunca sabe o que virá pela frente. E então, mesmo que às vezes descobertas ocorram mais no intelecto que no olhar, na imaginação que no concreto, elas acontecem. E se bastam. É assim que viajo, caro leitor. Por gosto. E por iniciativa. Com olhar viajante, a mente livre, os sensos de receptividade e curiosidade despertos. É assim que me torno pronto para que toda a magia de viajar acabe deixando de ser só uma esperança. Sobretudo com minha doce Emília, quem tirou da cartola esse coelho: Estônia, Letônia e Lituânia.

                     IREMOS aos países bálticos. Ou a "Nova Europa", como definem os modernos. A Tallin, Estônia; Riga, Letônia e Vilnius, Lituânia(**). Voaremos pela Lufthansa(***) do Brasil, via Frankfurt, até Vilinus, de Air Baltic(***) entre Vilnius, Riga e Talin, e depois de Talin ao Brasil via Frankfurt novamente de Lufthansa. Em Vilnius ficaremos no Kempinski Hotel Cathedral Square, em Riga no Dome Hotel e em Tallinn no Hotel Telegraaf.

                      EU voltarei aqui pra te contar. Mas só depois, porque agora tenho muitos posts mal escritos com imagens mal feitas para publicar.

                      FOI boa a prosa, caro leitor. Obrigado por me "ouvir" e um grande abraço!

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(*) Este não é um blog burocrático. Aqui não tem jabá! O que escrevo não tem filtros, é reflexo do que vejo, sou e penso. Não sou blogueiro que escreve por comissão, nem buricraticamente (para pagar fam trips ou receber agrados, mimos, presentes e afins). Não faço viagens que não sejam de nossa escolha e todos os produtos e serviços mencionados aqui não têm o conhecimento dos mesmos, não são recompensados de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação - e se o fiz foi por liberalidade, apenas com o intuito de informar o leitor. 

 (**) Em setembro de 1991 as repúblicas bálticas - Estônia, Letônia e Lituânia - declararam a Moscou sua independência da União Soviética. Tornaram-se os Estados Bálticos, nome genérico que das três repúblicas na costa leste do mar Báltico, nordeste da Europa, compostos pelas novas nações independentes.  A União Soviética, após 69 anos, então se dissolveu oficialmente em 31 de dezembro de 1991, tornando-se a Federeção Russa.

 (***) Os hotéis e cias. aéreas aqui mencionados foram pagos por mim e a preços de mercado, assim como todas as demais despesas da viagem. Não viajamos a convite de hotéis, cias. aéreas nem empresas de turismo. As opiniões, escolhas, elogios, críticas, menções e relatos são independentes e francos. Não têm compromisso que não seja com a informação, a motivação, a orientação e a inspiração do leitor. E ainda assim feito com a suposição de que o leitor saiba identificar os objetivos deste blog, diferenciá-lo dos blogs jabá e sobretudo que verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão todas as informações aqui obtidas.  Fique seguro: este é um blog gratuito para o leitor: não é necessário doar dinheiro, desconfiar de que as matérias são pagas, ler anúncios disfarçados ou receber propagandas subliminarem enquanto lê.