MENSAGEM ao LEITOR
BIO

BEM-vindo!

Sou brasileiro, casado com a doce Emília, do blog "A Turista Acidental". Estamos grávidos de gêmeos, que nascerão em julho próximo, e embora isso nada tenha a ver com um blog de viagens, tem muito com o futuro deste aqui.

Sou empresário, tenho 62 anos e boa parte deles dediquei à família e ao trabalho. Aos 35 comecei a viajar internacionalmente, e desde então visitei 60 países. Entre eles alguns dos mais fascinantes do planeta que abrigam cada qual alguns dos sítios mais admiráveis e encantadores que se podem imaginar. Felizmente, para alguns quando ainda estavam a salvo dos excessos do turismo, o de massa, que arruina qualquer lugar.

Para alguns países retornei tantas vezes que acabei tornando-me íntimo. Já fiz cerca de 90 viagens internacionais, voei por 40 cias. aéreas diferentes (algumas extintas) em 391 vôos para fora do Brasil e dentro de outros países.

Segundo o Haroldo Castro - jornalista-fotógrafo que já esteve em 160 países -, fazendo o teste "Viajologia" em seu site, que considera não só países visitados, mas lugares, monumentos e patrimônios, além de transportes, experiências e situações em viagens, alcancei "Mestrado em Viajologia". Mas isso não é nada. Ou quase nada diante de gente que tem pós-doutorado em viagens. Se eu conseguisse resumir definindo o que esses quase trinta anos viajanto significaram em termos de aprendizado, diria que foi perceber que quanto maior a flexibilidade de adaptação aos ambientes, mais e melhor consigo extrair deles, melhores tornam-se minhas viagens. Muitas, incontáveis marcas as viagens me deixaram. A simpatia e a humildade legítima dos birmaneses e dos uzbeques estão entre as mais inesquecíveis.

Ainda que nada me pareça mais excitante que viajar, também fotografar e escrever tenho gosto desde a infância. Então, fazê-los sobre viagens tornou-se natural. Publicar o que fotografo e escrevo, todavia, foi bem mais recente, desde março de 2006, quando inaugurei o Fatos & Fotos de Viagens. Lá se vão quase nove anos. Quem diria que duraria tanto!

Muito obrigado pela visita e comentários.

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Sexta-feira
Dez052014

A mais incrível viagem de nossas vidas

              O mundo é redondo, ninguém tem dúvidas. Mas quando turisticamente ele começa a ficar plano demais, penso na África. Olho o globo e me concentro na sua porção menos convencional. É quando percebo que autenticidade e novas ideias de viagens tornam-se tão mais escassas quanto mais destinos visito. Ideias ousadas, quero dizer. Dessas para lugares incomuns, pouco explorados e onde eu possa viver experiências autênticas e encontros marcantes.

                Não sei quantas vezes já disse, mas viajar pelo mapa me traz imenso prazer. Corro os olhos por ele, detendo-me nos detalhes, e descubro lugares que não conhecia. Passo então a desejá-los. Continuo e revejo países que visitei, tornando a reviver seus sons, cores, imagens e cheiros. Cada um tem os seus. E quando eles retornam da lembrança, provocam quase os mesmos doces e imensos prazeres de quando estive lá. É a magia das viagens fazendo das suas, resgatando lembranças e dando uma nova dimensão a um continente fabuloso que ali está reduzido pela escala do mapa.

              Tudo torna-se tão atraente e desejável, mesmo sob a perspectiva limitada de um mapa. Amplio sua escala aproximandoo a ponta do indicador de sua superfície, tocando-a e deslizando, guiando meu olhar sobre tantas e tão verdadeiras gemas preciosas de uma imensa mina de preciosidades turísticas: o continente africano. Que delícia é viajar pelo mapa! Quem nunca passou os dedos por um globo terrestre sem viajar numa viagem sobre o mapa mundi?

                Os olhos vagueiam por terras africanas cruzando desertos da Namíbia, encontraando a mais bela e diversificada vida animal do planeta, entrando nas igrejas cavernosas de Lalibela, circulando por mercados de fetiches de voodoo no Togo, caminhaando pelas ruas labirínticas de Zanzibar, pelas planícies sem fim do Serengeti, pela Cratera de Ngorongoro. Navego numa canoa mokoro no Delta do Okavango, encontro os Masai Mara, assisto às grandes migrações do leste, observo orangotangos na densa floresta Bwindi - no coração de Uganda - , escalo a Table Mountain de Cape Town, percorro a labiríntica medina de Marrakech, mergulho nas águas idílicas de Moçambique e Madagascar, deparo-me com a mítica cidade desértica de Timbuktu, encanto-me com as casas de adobe de Tiébelé e por fim revisito a Etiópia. Paro por bom tempo na Etiópia, a tão querida Etiópia. De cabo a rabo gostamos do país. A bem da verdade, muito além de suas mais óbvias atrações: Lalibela e o Vale do Omo.

                 No mapa da Etiópia relembro o prazer de navegar entre hipopótamos e crocodilos no Lago Chamo, experimento de novo a loucura de alimentar hienas em Harar (com um pedaço de carne preso na ponta dum espeto seguro entre meus dentes!), revivo as surpresas enquanto visito novamente as ruínas de um império quase desconhecido - o aksumita -, e percebo que tudo parece que foi ontem. Provavelmente foi lá, na Etiópia que nos arrebatamos definitivamente pelo continente africano.

                E continuo a viagem no meio dessa paisagem. Tudo me fascina e me faz lembrar que foi ali, em solo africano, que uma vez andei e caí de um camelo, afundei até os joelhos nas areias fofas do Sahara, conheci povos nômades, encontrei grandes animais a um metro de meus olhos, me perdi nas labirínticas medinas de Marrakech e Túnis, conheci tribos do Vale do Omo, uma gente que só pensava existir em revistas National Geographic e nas fotos de Jimmy Nelson. Visitei a Biblioteca de Alexandria, conheci Lucy - o hominídio mais antigo que se tem notícia -, vivi experiências de deixar o coração, até mesmo de perdê-lo. Afinal, se todo mundo tem um lugar onde deixou o coração, parte do nosso ficou por lá, do norte, no Magreb - Marrocos, Egito e Tunísia - ao sul, onde vivemos memoráveis encontros com os big five em safaris encantadores, mas também no leste, Etiópia, onde as experiências foram tão magníficas que não me espantaria se resolvessem escrever seu nome seguido duma exclamação: Etiópia! Que incrível poder sentir os cheiros etíopes numa simples viagem pelo mapa...(*1).

                  Nossa próxima viagem já estava marcada, comprada e acertada. Íamos para a África. Para a África Ocidental, no próximo dia 20 de Dezembro de 2014. Às 11 da manhã do dia seguinte chegaríamos a Lomé, Capital do Togo, onde começaríamos nosso roteiro através do Togo, Benin, Gana e Burkina Faso. Tiramos os vistos e tudo já estava pronto. Estávamos empolgados porque passaríamos nosso Natal, o Ano Novo e meu aniversário mais incomuns. E então...

                Mas por que iríamos para África? Por que não iremos mais? Por causa da epidemia de Ebola? Dos conflitos políticos no Burkina Faso? Não. O Ebola não ocorreu nesta parte da África Ocidental. E o retrato da África feito pela mídia internacional está longe de ser verdadeiro: é retocado e modificado. Como no Instagram. De modo que faz parecer o inferno na terra, oropositalmente ou não. Afortunadamente o mundo não é tão assustador quanto se lê por aí. E embora a região esteja muito longe de figurar entre os 100 destinos mais atraentes do planeta, é esse o motivo porque nos atrai tanto: a notável variedade de experiências e encontros que se podem viver por ali.

                 Muito do desejo desta viagem foi por lembranças do passado: na década de 70 meu pai fez uma grande e memorável viagem pelo continente. De costa a costa. Foram muitos os méritos de sua incrível jornada, o maior deles foi ter posto uma África não turística nos meus planos. Visitou o Gabão, Gana, Costa do Marfim, Angola, Moçambique, Etiópia, Suazilândia, África do Sul, Ilhas Maurício e Ilhas Salomão. Foi conhecer lavouras de cacau (*2) e café, a trabalho, mas “turistando” enquanto dava. Nunca esquecerei de seus relatos. Eram provocantes e me aguçavam a curiosidade as histórias que eu ouvia entusiasmado. Falava de encontros com feiticeiros comprando fetiches para a prática do vodu num mercado a céu aberto, de indivíduos correndo atrás dele por tê-los fotografado e "retido" suas almas na câmera (*3), da grande bagagem física e intelectual, das recordações, dos casos, fotografias e preciosas peças de artesanato, enfim, de um verdadeiro microcosmo da África que ele trouxe na bagagem e na memória. Todos eram lugares de uma vitalidade cultural surpreendente para mim, então um jovem sem a menor perspectiva de viajar para lugares assim. Tinham um charme exótico e uma originalidade intrigantes que não largaram mais de minha memória, alimentando futuras e novas ideias de viagens.

                 Por que, afinal, não vamos mais para a África Ocidental?

                Porque faremos a melhor e mais encantadora viagem de nossas vidas. Afinal, o que pode ser mais especial do que o encantador privilégio de ser pai? Especialmente ser pai quando se tem idade para ser avô? Vivo hoje esse momento em minha vida. Vida que dediquei toda à família e ao trabalho. Já conquistei estabilidade profissional e financeira e hoje sou mais um entre tantos homens que se casam, se separam, casam de novo, constituem novas famílias e renovam o privilégio da paternidade. Tive um filho aos 30 anos, casei-me novamente muitos anos depois com minha doce Emília (há cinco anos e meio) e agora serei pai aos 63 anos. Sim, estamos grávidos. De gêmeos!

                 Dois sereszinhos tão esperados, imaginados, queridos, sonhados e desejados quanto não consigo contar. Ontem - na sexta semana de gravidez - fizemos o primeiro ultra-som. E ainda que minúsculos - o bebê um mede 5 mm e o bebê dois mede 3 mm - escutamos seus coraçõezinhos. Músculos, ossos e cérebro estão começando a se formar. Mãos e pés mais se parecem com pequenas pás e o coração bate duas vezes mais rápido que o da mamãe. Ainda é cedo para sabermos os sexos, não há nada mais delicioso do que imaginar as três possibilidades: dois meninos, duas meninas ou um menino e uma menina. Só os sentiremos mexerem-se daqui umas nove ou dez semanas, em seus primeiros movimentos dentro da barriga da mamãe. Avô? Ainda não sou. Mas as coisas estão muito bem encaminhadas nesse sentido.

                 Alguém já disse que paternidade tardia não tem contraindicações. Afinal, é a oportunidade de aperfeiçoarmos nossas habilidades paternas, sobretudo de nos desculparmos aos primogênitos pela falta delas e não cometermos os mesmos erros. Então, prometo a você, minha doce Emília, que darei meu melhor para enfrentar as demandas de dois bebês em nossas vidas. E digo: teremos além de dois filhos, jovens companheiros de viagens, seres que acrescentarão nova dimensão às nossas experiências, aos nossos prazeres quando explorarmos o mundo.

                  É tudo pura questão de tempo. Mesmo assim não posso conter a ansiedade de viver o melhor dos dois mundos: viajar com nossos filhos. Por bom tempo ele não entenderão minha urgência (ou ansiedade) em lhes mostrar o mundo, sobretudo esperando que gostem tanto de viajar por ele quanto nós dois. E muito antes de os levarmos à Disney, viajarmos a Bangkok, a Angkor Wat, à África, a Maurícios, ao Marrocos...

                 Por um bom tempo não poderemos viajar de avião. Mas aproveitaremos o período de segurança – daqui até o final do quinto mês de gravidêz - para uma escapada no Carnaval a Curaçao e, esperamos, à Espanha, para uma visita aos nossos queridíssimos amigos Tony e Cecília Galvez, e com eles assistirmos às procissões da Semana Santa em Zaragoza.

                 Desejo a todos que tenham um grande Natal. E que tenham um Ano Novo perfeito, ainda melhor do que o nosso. Onde quer e entre quem quer que estejam. Não viajaremos à África Ocidental mas estaremos entre familiares e amigos comemorando o melhor que temos por agora: a preciosidade que minha doce Emília carrega no ventre. Até lá! E obrigado a todos que visitaram o Fatos & Fotos deViagens em 2014, que viajaram e inspiraram-se nos meus relatos, que desejaram os destinos que visitei e comentaram apoiando minhas ideias e reflexões.

Notas:

 (*1) Sim, alguns países têm cheiro. Entram pelo nariz, fixam-se no cérebro e não nos deixam mais. A Etiópia é assim; além de tudo, tem cheiro. E quando me ponho a escrever sobre o país, revejo minhas fotos, passeio pelo mapa em seu território, lembro-me dos seus cheiros. Os de Harar, de Axum, de Gondar e de Lalibela. Parece que países assim, que têm cheiros, fixam-se melhor na memória da gente.

(*2) Setenta por cento do cacau do mundo vem da África Ocidental. O Brasil já foi grande exportador, mas a praga "vassoura de bruxa" dizimou as lavouras brasileiras no Sul da Bahia, onde meu pai foi produtor.

(*3) Muitas pessoas acreditam que fotografias roubam suas almas, as aprisionam dentro da câmera fotográfica. A crença tem origem no animismo e no vodu. É claro que acho tudo isso uma superstição tola e infantil, incutida por religião.  Mas em viagens é preciso saber respeitar crenças, sobretudo porque do contrário podemos fazer pessoas sofrerem de verdade. Então é preciso pedir permissão para fotografá-las ou então fazê-lo discretamente, sem a menor chance de que percebam.

Terça-feira
Nov042014

TALLINN, Estônia - Um "conto de fadas" (mas do EPCOT Center!)

Talvez eu não estivesse preparado para Tallin. Ou então não tenha reparado bem os seus detalhes...

                  MINHA primeira impressão de Tallin foi que a cidade vendeu sua alma pro turismo de massa. Ou, como disse o Lonely Planet, "invejou tanto as maiores cidades turísticas do mundo que tornou-se a "Bangkok dos Bálticos". A segunda impressão demorou. Foi só depois de eu ter passado por todas as armadilhas turísticas, lojas de suvenirid de âmbar e matrioscas russas, artesanato barato e de mau gosto, de não comer (mas me fartar) nos restaurantes "pega-turistas" e seus funcionários vestidos a caráter (medieval!) agenciando os passantes (o melhor exemplo deles - The Olde Hansa - talvez a mais evidente tourist trap da cidade) e, claro, de não andar naqueles horríveis trenzinhos turísticos completamente incompatíveis com o cenário da cidade.

                  Era meu último dia na Capital da Estônia. Vínhamos da encantadora, elegante, sofisticada Riga. Ao contrário daquela, Tallin me pareceu quase vulgar. E estridente. Fala alto, rebola exageradamente e ainda usa roupas transparentes. Levou tempo para eu me dar conta de que estava numa das cidades medievais muradas mais encantadoras da Europa. Ainda assim Tallinn não me provou o contrário: não dá pra dizer que apesar de sua incrível personalidade medieval, a gente viva ali um "conto de fadas". É o que costumam afirmar, mas não.

                  O máximo que cheguei perto foi me sentir num "conto de fadas" do EPCOT Center. Os contrastes entre as não-turísticas Vilnius e Riga são tão evidentes que eu não poderia deixar de enxergar a realidade: o turismo de massa transforma os lugares, os descaracteriza e rouba tempero e charme.

                 E se é verdade que o turismo de massa transforma os lugares, também é que nunca o faz pra melhor. Como turista que sou, fico bem à vontade para criticar o turismo de massa, sobretudo fugir dele (quando posso). O que definitivamente é bem diferente de criticar quem viaja em excursão, simplesmente porque compreendo que para muitos não há outra maneira de fazer turismo. Seria de uma ignorância vergonhosa alguém como eu escrever um relato de viagem e imaginar-se um não "incentivador do turismo", negar cruzeiros marítimos e excursões como uma forma legítima e por vezes agradável dele. Negar isso é uma tolice simplista ou arrogância prepotente. Entretanto é preciso abordar o tema. E são poucos os que conseguem fazê-lo sem que pareçam assim, arrogantes ou pretensiosos. Mas, ao contrário, de um ângulo atraente, técnico e inovador, como o fez Elizabeth Becker, autora do livro Overbooked: The Exploding Business of Travel and Tourism, no qual classifica o turismo de massa como um dos exemplos de indústria mais potencialmente destrutiva do mundo. 

Em todo lugar deve sempre haver alguma coisa que nos agrade. Tudo depende do nosso jeito de olhar 

                 Já fui a muitos lugares convencionais e um monte de outros incomuns. E quanto mais viajo, melhor compreendo que há lugares super-valorizados, com reputação não merecida, fama exagerada e postos na posição pela propaganda. Tipo "100 lugares para visitar antes de morrer". Também descobri que os melhores destinos não são necessariamente os mais raros, tampouco apenas os não turísticos, aqueles classificados como "por descobrir".  Também há prazeres e magia nos turísticos. É só nos prepararmos para eles. Talvez tenha sido isso: eu não estava preparado para Tallin. Ou ainda não tenha prestado atenção aos seus detalhes.

Visite Tallinn, mas antes veja este vídeo:

Quarta-feira
Out292014

RIGA, um inesperado tesouro no Báltico  

               NÃO é fácil descrever Riga. Ela não tem lá muitas cores, sons e alvoroço. Também não aquele calor humano que cativa qualquer visitante. Mas entra na gente. De um jeito estranho, mas elegante. Não é o absurdo imponente de Praga, nem de longe tem sua imponência. Não, mas por certo é muito mais elegante. E ainda não estragada pelo turismo de massa, como Praga.

                 O patrimônio aquitetônico é bem mais discreto, ainda assim notável. Pode parecer camuflado, mas está por ali. Percebe-se. É cidade para expectativas mais discretas, mas tem lá seus meios de conquistar. Deve dispôr de alguma alquimia incomum, porque exige  tempo mais preciso e atenção mais dedicada para que o visitante a admire. Não há tantas cidades assim, afinal. Dessas que nos fazem pensar antes de admirar. Riga chega primeiro mesmo ao intelecto. Mas ainda que depois, também ao coração.

                PARECE que distinção é a propriedade com que ela incorporar-se no visitante. Bem mais lenta e discretamente do que na Capital tcheca. Exige tempo para que faça sentido sua história trágica, ainda que tão romântica a sua aura. Distinção, nobreza, cultura ficam nas camadas mais superficiais do que história e patrimônio. Mas para os amantes da arte e da arquitetura em diversos estilos - do maneirista da Rua Zirgu à profusão de prédios em estilo eclético, art nouveau e barrocos de seu centro histórico -, é cidade para encantar. Assim como para comer bem (muito bem!) e barato. Para os que apreciam a cultura do café, da cerveja, os amantes dos bons bares, os que apreciam boas livrarias e museus, lojas elegantes, um deleite.

                JULGA-SE que a Capital da Letônia tenha sido fundada em 1201 por cruzados alemães - os Cavaleiros Teutônicos - que desejavam cristianizar a área, até então de pagãos, na confluência dos rios Riga e Daugava,e nas costas do Golfo de Riga. Foi quando começaram a contrução dos primeiros edifícios nos estilos românico, renascentista e gótico. Os cavaleiros medievais, percebendo que sociedades tribais não durariam muito tempo naquelas épocas, começaram a modernizar a Lituânia: as práticas da velha economia foram abandonadas, comerciantes de fora foram convidados a instalarem-se no país, tecnologia militar ocidental foi importada e então estabelecido o Grão-Ducado da Lituânia.

             DESDE então os cruzados tornaram-se elite na cidade. E mantiveram sua posição mesmo depois do país ter mudado de mãos. Deixaram suas marcas na arquitetura, na linguagem e noutros lugares. Ainda que os suecos a tivessem assumido em 1621, tornando-a a maior cidade sueca fora da Suécia até 1710.  

                  FAZ bem menos tempo, todavia, que Riga libertou-se do "muro" soviético: foi em setembro de 1991. As três repúblicas bálticas - Estônia, Letônia e Lituânia, então chamadas Pribaltika - declararam a Moscou sua independência da União Soviética tornando-se os Estados Bálticos. O nome é genérico, define o grupo das três repúblicas situadas na estratégica costa leste do mar do mesmo nome, nordeste da Europa. Seu povo parece ainda não ter-se esquecido das contínuas invasões. sobretudo das últimas, quando parte dele foi deportada para a Sibéria, trabalhou como mão-de-obra escrava e foi exterminada. Nem de quando ficaram escondidos do mundo pela cortina de ferro, da turbulência de suas vidas, do sofrimento. Afinal, estes sempre fizeram parte de sua história.

 

                  TALVEZ seja o motivo porque o visitante note logo os primeiros traços da personalidade dos letões: recato e discreção. Só depois perceberão a elegância e educação, ainda que apenas um pouquinho só menos evidentes.

                 E parece que Moscou não querer deixar que as marcas da presença soviética se apaguem: ela ainda é bem perceptível. De certa forma,pelo que notamos, a "proximidade" russa até preocupa os letões. Fora isso, tudo tem personalidade própria. E na Capital, tudo está perto para ser visitado numa cidade extremamente amigável ao turista, facilmente explorável a pé. E extremamente mais barata do que em Moscou e Praga. O ar estava fresco e limpo no fim do Outono. Penso que cheirava a mar. O céu - ainda que quase sempre nublado - deixava a luz do Sol passar, mantinha boa claridade para fotografias. Chuva pegamos por instantes, tempo bastante para aproveitarmos um dos lindos, deliciosos cafés da cidade. A temperatura era fria, mas agradável. O ar, seco, perfeitamente suportável na casa dos 10 graus. Não vi cães nem gatos, apenas na forma de estátuas ornamentando edifícios. A comida é deliciosa e bem apresentada, o café, espetacular, a cidade é tranquila, residencial e aparentemente pouco turística.

                   EU não recomendaria nenhuma ordem inalterável por onde começar ou terminar uma viagem pelas preciosidades do Báltico porque a logística vai de cada um e provavelmente a ordem dos fatores não alteraria o produto. Mas eu não teria feito melhor escolha: primeiro a Lituânia, depois a Letônia e por fim a Estônia. A primeira - discreta e gentil, receptiva e pouco visitada, provinciana Vilnius - teria sido "apagada" pela imponência de Riga se a visitássemos depois. Ainda que a última, Tallinn, tenha sido muito comprometida pelas impressões negativas do turismo de massa que a cidade me deixou. 

                 CHAMA-SE Monumento à Liberdade, ou Milda, como é conhecido popularmente. Foi erguido em 1935 no ponto onde houveram as manifestações nacionalistas de independência de 1991, ao lado do agradável parque e do Rio Daugava. Não é exatamente o ponto por onde se começa um roteiro de visita à cidade, mas o marco que divide a cidade em duas: a nova e a antiga Riga. É uma coluna alta e esguia em cujo topo há a estátua em brnze de uma mulher segurando três estrelas sobre sua cabeça. Elas representam as três regiões culturais da Letônia: Kurzeme e Vidzeme, Latgale. Na base há uma inscrição "pela pátria e liberdade". O memorial honra os soldados mortos em ação durante a Guerra da Independência da Letônia.

               É um símbolo da liberdade, independência e soberania do país, executado em granito, com 42 metros de altura, ornado em parte por placas de travertino e cobre e serve como ponto central de encontros públicos e cerimônias oficiais.

                 BEM perto fica o Relógio de Laima, colocado alí em 1924, tinha a finalidade prática de ajudar os habitantes de Riga a chegarem a tempo em seus horários de trabalho. Em 1936 ele foi decorado com o nome e o logotipo do fabricante de produtos de confeitaria Laima, o maior e mais famoso do país. Após a segunda guerra mundial foi usado para exibir informações políticas, e em 1999 foi reformado, retornando ao seu desenho original. A Praça do Relógio de Laima é um dos pontos mais movimentados da cidade e de encontro de moradores e visitantes da cidade. 

                  OS letões chaman Vecriga a Cidade Antiga, o coração da cidade, onde está seu legado mais importante e imponente, onde o visitante conhece as múltiplas faces da cidade, do medieval - época de sua fundação há mais de 800 anos - ao contemporêneo. Por um labirinto de ruas sinuosas, por calçadas bem cuidadas em pedra fina, onde percebem-se as atividades mais vibrantes. Ali, cada um dos séculos passados deixou suas marcas, tornou o lugar um excepcional, encantador sítio para explorar-se a pé, quando então revelam-se aos poucos mas constantemente seus tesouros. 

                  NELE encontram-se o Castelo de Riga, onde trabalha o Presidente, o Saeima (Parlamento), o Banco Central de Latvia, assim como uma série de galerias de arte, cafés, restaurantes, lojas e escritórios. Por ali fica a Catedral Dome - reconhecida e classificada como uma das mais acústicas do planeta e por seu gigante órgãocom 6.768 tubos!, onde concertos acontecem regularmente, que em sua época Franz Liszt compôs uma peça musical em sua honra. A Catedral de Riga, ou Doma Baznīca, é o maior templo do Báltico. A pedra fundamental da Catedral de Riga foi lançada em 1211, mas sua última restauração ocorreu no final do século XIX, quando a Catedral adquiriu a sua atual aparência com características dos estilos românico, gótico, barroco e Art Nouveau, naquela que considera-se a maior igreja medieval da Letônia e dos Estados bálticos. 

                 NA Cidade Velha também ficam o Museu de História e Navegação, a Igreja de São Pedro, a Sinagoga, o Museu da Ocupação, o Relógio Laima, a Ópera Nacional, a Catedral Ortodoxa da Natividade, o Bergs Bazaar (onde comemos num dos mais incríveis restaurantes da viagem, no Hotel Bergs), o Mercado Central, entre outros.  No Museu da Ocupação (soviética e alemã) eu diria que a visita é necessária, ainda que algo deprimente.

            O Museu é fundamental para quem deseja conhecer (e compreender bem), através da excepcional maneira como a descreve, a história recente do povo durante as ocupações sucessivas. O museu apresenta a a história dos cinquenta anos de ocupação da Letônia (de 1940 a 1991), desde a primeira ocupação soviética (de 1940 a 1941), a ocupação alemã socialista  (de 1941 a 1945) à segunda ocupação soviética (de 1945 a 1991). 

                   A curiosa House of the Blackheads (Casa dos Cabeças Pretas), na Praça da Prefeitura, onde no centro está a Estátua de St. Roland, patrono de Riga, ao lado do museu, originalmente chamada New House, constuída em 1334, numerosas vezes reconstruída desde 1522. Na praça defronte a este prédio há um marco onde há 500 anos aquela que supões seja a primeira Árvore de Natal foi colocada. E ao fundo outro belo exemplo arquitetônico, a Casa Schwab Os prédios geminados chamados Three Brothers (Três Irmãos), na Mazā Pils iela 19, um grupo encantador de prédios residenciais, cada um de um século diferente, o mais antigo do século XV, onde podemos ficar vários minutos admirando as características arquitetônias e ornamentais de cada qual, sem que fiquemos entediados ou com vontade de sair.

                     A Casa do Gato é um dos mais famosos edifícios antigos de Riga. É bonita sua arquitetura, mas a importância está na história, curiosa e genial história. O nome vem da escultura dos dois gatos pretos empoleirado no topo das torres de seu telhado. Conta a história conta que o escultor morreu ao cair do prédio quando as colocava no lugar. O mais curioso, no entanto, não foi a desgraça do escultor, que fatalmente caiu enquanto as montava, senão o motivo que levou o proprietário do edifício mandar instalá-las. O rico comerciante o fez depois que sua adesão à Câmara de Comércio, cujo edifício sede fica exatamente defronte à Casa do Gato, foi rejeitada à poderosa guilda pelos alemães etnocêntricos. O gato foi posicionado com sua cauda reta para cima e com o fiofó do animal voltada para a câmara. A posição era um claro insulto aos membros do clube de comerciantes, que imediatamente exigiram na justiça a retirada ou deslocamento das estátuas do o animal para uma posição não ofensiva. Eles ganharam o caso e o gato então teve que ser reposicionado como se vê até hoje.

                  O conjunto de prédios chamados Jacob's Barracks Jacob’s com telhados vermelhos ao longo da Rua Torņa abriga bares, restaurantes, lojas de souvenirs, salões de beleza e agências de viagens. Foram construídas no século XVIII, na base das fortificações da cidade, até a década de 1990 usados por vários exércitos, desde então foram restaurados várias vezes, até a última, em 1997. São tidos como uma fronteira entre a história antiga e a contemporânea da cidade. Ali perto ficam a Torre de Pólvora e defronte fica o Swedish Gate no outro lado da Rua Torņa.

                  NÓS gostamos muito de visitar o Mercado Central, provavelmente mais do que a maioria dos visitantes, talvez porque sejamos especialmente interessados em mercados do gênero. Onde quer que eles estejam no mundo, os visitamos. O de Riga não é exatamente uma "obrigação" turísica, mas se o visitante tiver tempo, antes de deixar a cidade deve conhecê-lo.

                  PERTO da estação de trens, consiste numa série de setores cuja seleção de alimentos de todos os tipos é impressionante, na variedade e na qualidade. De queijos típicos a peixes e frutos do Mar do Báltico. Dentro dos galpões, originalmente hangares de zeppelins construídos pelos alemães na I Guerra Mundial, barracas oferecem de roupas usadas a flores frescas (que flores!), de frutas a pães, decarnes a legumes e verduras.  

                   DIZEM que se deve ter cautela na visita, porque turistas carregando câmeras têm sido empurrados, embora o crime de rua seja incomum em Riga. Freqüentamos o mercado, evidentemente que atentos, mas não nos entimos em nenhum momento inseguros.  

                 ALÉM da beleza evidente das áreas históricas, de quase todos os prédios descritos acima, do alto da torre da Igreja de São Pedro pode-se ver como a cidade espalha-se para além da Cidade Velha, e ver-se os blocos de apartamentos soviéticos, o prédio estilo Stalin, arranha-céus modernos, a Ponte estaiada Vansu sobre o rio Daugava, a Torre "Eiffel" de TV, os cinco antigos hangares de Zeppelin que compõem o mercado Central, o Monumento da Liberdade e o Hill Park, onde havia as muralhas da cidade, um dos muitos espaços verdes dessa agradáveis cidade arborizada.  

               SAUDADES, Riga!

__________

(*) NOTAS:

Recomendo vivamente o guia Lonely Planet Estonia, Latvia & Lithuania (*4) (com um capítulo para uma escapada a Helsinki desde de Tallinn).  Lonely Planet http://www.lonelyplanet.com/latvia/riga/sights

Destaco os blogs Viajar pelo Mundo, bem ilustrado com ótimas fotos e bons textos - da Claudia Liechavicius -, o Viaggio Mondo - da Fê Costa -, dois não burocráticos e honestos blogs de viagens amadores entre os que mais gosto. Também li o Álbum de viagens - escrito por Vinicius Buccazio e Marcelo Schor, cujas viagens também sãoefetivamente feitas pelos autores ou seus convidados, pagas pelos próprios”. Nestes as imagens e relatos foram úteis na medida certa: deram-me ferramentas para os meus primeiros passos na pesquisa turística daqueles países e não me conduziram como um guia de excursão: mostraram-me opções de caminhos a seguir, mas não me guiaram por eles, senão deram-me liberdade de optar por qualquer um.

Sempre que estou a escrever dou uma passada no Vou sair pra ver o céu, do Davi Carneiro. Mas aí é mais para buscar inspiração de como escrever. Jornalista de viagens, o autor diz que suas "prioridades são as narrativas, vídeos, fotos, reportagens, jornalismo e literatura de viagens. Um blog onde encontrem-se textos do autor e de outros, onde o pré-requisito é apenas um: contar boas histórias de viagens, inspirar sabores, lugares, culturas, risco, pinceladas, movimento, sensações e pessoas." Se você também não gosta de enganação, gostará de lê-los.

A revista portuguesa Volta ao Mundo número 238, edição de Agosto de 2014, traz matéria sobre a Lituânia, com o título "O encanto dos lugares tranquilos", com texto excepcional e fotos lindas, como afinal são característicos da revista.

Você já sabe, mas não custa lembrar: 1) Aqui não tem jabá, mas honestidade, ética e transparência. Acima de tudo. 2) Este não é um blog profissional ou comercial. 3) Amador e não suportado por nada ou por ninguém (além de mim, claro). 4) Não recebo 'brindes' em troca de cobertura positiva para o que quer que seja, minhas viagens são auto-financiadas e os produtos e serviços aqui mencionados são feitos por liberalidade minha, sobretudo não têm conhecimento dos mesmos. 5) Não sou recompensado de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação - por qualquer produto ou serviço aqui mencionado. Tudo é feito com a suposição de que o leitor saiba identificar os objetivos do blog e que verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão. Da cia aérea aos hotéis citados.

 

Sexta-feira
Out172014

Nossa viagem à Pribaltika. Que destino!

INTRODUÇÃO - Meus sonhos de viagem à Pribaltika   ______________________________

Olhando pela janela ... (do Museu de Art Nouveau de Riga)

                NÃO costumo descrever meus sonhos. É simples: abro os olhos e já me esqueci deles. Suponho até que muitos sejam bons, pois consigo recuperar leves mas boas lembranças. É possível até que meus melhores sonhos sejam os de viagens. Mas ainda assim, sonhos são sonhos. Segundo Freud, em sua teoria simples mas essencial para evitarmos exageros interpretativos, crenças, misticismo e dogmas religiosos que tentam explicá-los, "sonhos são pensamentos". Simples assim: enquanto sonhamos, pensamos coisas registradas no cérebro. Exatamente como quando acordados. A diferença é que acordados elas são organizadas, mas dormindo, uma bagunça.

                   MEUS sonhos (ainda que não me recorde bem deles), costumam refletir com frescor o que vivi, pesquisei e observei durante a vida. Mas são como todos os sonhos. desarrumados. Um conjunto de imagens, de emoções, de coisas registradas no cérebro e agrupadas sem nexo, de um jeito carente de ordem. Posso compar meus sonhos a filmes toscos, produções caseiras classe "z": sem roteiro, direção e edição de imagens. Além de tudo, mal interpretados. Mas não sei bem porquê, meus sonhos bálticos até que eram bem organizadinhos. Digamos que tinham uma atmosfera próxima da realidade, ainda que tratassem-se de devaneios próprios aos sonhos. Talvez por isso eu não os tenha esquecido quando acordei.

Nos meus sonhos, falavam uma linguas estranhas... 

                 VOU contá-los: eu olhava por uma janela e via torres ponteagudas de igrejas, catedrais góticas de pedra, muralhas medievais, edifícios coloridos com fachadas suportadas por atlantes, ruas estreitas, prédios de telhados inclinados, casas de madeira e ouvia gente falando língua esquisita... Depois ia às ruas e via castelos medievais de antigas monarquias, florestas e montanhas, cavaleiros em cruzadas montados a cavalo, lagos de águas cristalinas... Eu percorria lugares pouco visitados, atraentes e tão bonitos...

Eu via edifícios coloridos de fachadas suportadas por atlantes

               FOI na véspera de me meter no avião que tive o último de meus sonhos bálticos. Fui vivê-los. Mas despertei preocupado: havia o "perigo" real do imaginado não corresponder à realidade. Afinal, as loucuras (e delícias!) de meus devaneios poderiam ser muito diferentes do que eu veria, até melhores do que a realidade. Passei então a me preocupar com outra coisa. Era quase como sonhar um novo sonho: o de escrever bem sobre a Pribaltika.

             Pribaltika! Achei bem legal saber que assim os soviéticos se referiam à Estônia, Letônia e Lituânia. No dia de partir comecei a escrever as mal traçadas linhas de sempre. Não sem antes conferir no mapa e no Google onde afinal ficava a tal Pribaltika que eu visitaria, as três pérolas turísticas pequenas nações e quase desconhecidas do novo Velho Mundo.

O tempo passou, parei de sonhar meus sonhos bálticos e fui viver a realidade (uma ampulheta numa fachada de Riga)

               PESSOAS são assim, diferentes. Inclusive nos sonhos. Mas como diria minha avó, "até aí morreu Neves". Pode parecer óbvia a afirmação, mas nem todos sabem disso. Há quem não goste de sonhar e planejar viagens. Eu adoro ter um plano. Sempre gostei de ter planos na vida. Flexíveis, mas planos. Mas eu estava às voltas com o trabalho e as tarefas me ocupavam tanto que não houve tempo para o que tanto gosto: ler e pesquisar o destino, planejar a viagem. Para mim, planejamento é a chave para o sucesso de uma viagem. Não haveria porque ser diferente com a Pribaltika.

    Planejamento, a chave para entender Riga e tirar dela o melhor         

                NÃO me refiro às tarefas relacionadas à logística, hospedagem, essas coisas. Não ficam mais comigo, dsde que deixei-as com minha doce Emília. Além de enciclopédia geográfica e histórica ambulante, e mais-que-perfeita companheira de viagens, promotora das melhores idéias de viagens e destinos, tem sido tão eficiente na organização de tudo que não me atrevo a interferir. Vai que desanda! Me refiro a ler. Ler para saber. E sonhar. E então, à noite, enquanto durmo, meu sonhos parecem potencializados por essa falta de reflexões, pesquisas e leituras do dia. Viram uma bagunça maior ainda.

                NO dia de embarcar parei de sonhar com a viagem. E a me preocupar com outro "sonho": o de escrever bem sobre ela. Então desandei a escrever. Como nunca. Quase não reconheci em mim tanta hiperatividade criativa. Masvá lá que haja muitas maneiras de contar uma viagem. Bem ou mal, é verdade, mas nenhuma certa ou errada. Apenas diferentes. E o que é descrever bem uma viagem? Por certo não é a minha maneira, pois reconheço a inabilidade.

                 LÁ se vão oito anos tentando fazer isso aqui sem conseguir! Sim senhor, oito anos escrevendo esse blog! Da empolgação e encantamento à apatia e desejo de abandoná-lo esse blog já passou por muitas. E dizer que o comecei porque era a maneira mais fácil de manter a família informada sem ter que encher suas caixas postais com fotos e e-mails.

Sonho sonhado, sonho vivido, viagem bem feita. Mas eu conseguiria saber contá-la?

                ESTOU falando de quem sabe. Sobretudo de quem escreve com o coração o que os olhos viram. Se para quem viaja e escreve não basta fazer bem a viagem, é preciso saber contá-la, e se a linguagem existe é pra isso, gosto quando alguém sabe descrever um lugar me fazendo sentir parte dele. Sobretudo quando não tenta "convencer-me", mas inspirar-me. É difícil errar quando se esrceve assim. São muitos os que levam seus leitores a imaginarem-se autores do que lêm, a assumirem o papel de protagonistas, como se passos, histórias e descobertas fossem do leitor, não de quem os descreve. E a motivá-lo. Eu faria uma longa lista de autores com tais capacidades, mas a encerro breve para não entediar o leitor. Então, entre os que li e gosto e os que preciso ler eestou certo de qye valerão a pena, destaco os excepcionais e fundamentais para quem pretende orientar-se no que seja a boa escrita, os que seduzem com as palavras: William Dalrymple, Tziano Terzani, Paul Theroux, Bruce Chatwin, Jack Kerouac, Nick Tosches.

                QUALQUER dia eu volto aqui pra contar sobre Riga, esse inesperado tesouro Báltico, um sonho de cidade. Saudades, Riga!

Segunda-feira
Out132014

Letônia sob as cores do Outono

INTRODUÇÃO - Se eu voltasse a Samarkanda...

Às margens do Lago Galvė, em Trakai, Lituânia, as cores do Outono

                 SE apenas a vontade determinasse a escolha do destino nessa escapada, teríamos ido ao Sri Lanka. Talvez à Mongólia ou mesmo a Zanzibar. Ou então a Berlim, Budapest... Quem sabe até a Samarkanda, a inesquecível pérola da Rota da Seda. Todo mundo tem sua lista de desejos. Nós também. Por isso não nos faltam lugares que desejamos visitar. Novos ou a rever. Uma vez fizemos a nossa, anotamos os países que sonhamos conhecer. Os possíveis, claro. A lista somou uns quarenta além dos que já visitamos. Nela dividimos destinos entre “longos” e para “escapada”.

Antes do Inverno chegar, ainda se pode voar de Balão sobre Vilnius

                 Estônia, Letônia e Lituânia - ou intimamente, Lietuva, Latvia e Eesti - estavam entre os mais interessantes para a estação, acessíveis às nossas pretensões e cabiam como uma luva para uma escapada. São pequenos, acessíveis, ainda guardam seus mistérios e proporcionam boas surpresas turísticas. Tirando o óbvio - o prazer do divertimento -, viajar proporciona felicidade, prazeres que continuam muito tempo depois que a viagem acabou. Mas eu não poderia imaginar que esta seria uma viagem tão proveitosa. Especialmente pelo bate-e-volta a Helsink e a caminhada por Frankfurt nesta escapada de Outono.

  

                 Parte da tarde até o início da noite passamos em Frankfurt. Voamos Lufthansa (*1) e pousamos às 14:45 na cidade alemã. Nosso vôo para Vilnius seria às 20:25, tínhamos então, três a quatro horas para uma escapadela à quinta maior cidade da Alemanha. Um convite a sairmos do aeroporto. Pegamos um trem na enorme estação (S-Bahn) do enorme aeroporto, próxima da área de desembarque do terminal 1, onde chegam os vôos do Brasil, Compramos dois bilhetes na máquina de auto-serviço ao preço de cerca de 4,00 euros. Pegamos o trem S8 (há também o S9) que para nas plataformas 1 a 3 e seguimos até a Hauptbahnhof . Chegamos em 15 minutos à estação de trens de maior movimento da Alemanha e passamos um surpreendente sábado na cidade.

Em Outubro o frio ainda é suportável e as cores quentes

A Barroca Vilnius, primeira Capital  dessa "Nova Europa" __________________________

                 Depois do desembarque e recuperação das bagagens seguimos para a cidade, que tarde da noite me pareceu monocromática, desbotada, quase desoladora, uma reminiscência soviética que eu não imaginava encontrar.  Mas logo chegamos à Cidade Velha, e então Vilnius me pareceu atraente, bem cuidada, algo intrigante. No maior centro histórico em estilo barroco por essas bandas do planeta, nomeado Patrimônio Mundial pela UNESCO, fica o Kempinski Hotel Cathedral Square (*1). A elegância é notável por fora. E àquela hora lhe destacava uma bela iluminação. Todavia ainda não sabíamos que localização era sua melhor virtude. Àquela altura, quase uma da manhã, eu só pensava numa deliciosa cama e dormir umas horas até a manhã seguinte.

                   Vinte e três anos se passaram desde que a Lituânia declarou-se desanexada da URSS e uma república nova. Aqui e ali há lembretes (ou cicatrizes), do teror soviético, mas são muito pouco perceptíveis. Muita coisa mudou desde então, e mesmo numa curta estada pudemos conhecer bem suas histórias antiga e recente. O Lonely Planet a descreve como “bizarra, linda e encantadora”. Mas a capital seduz seus visitantes com sua surpreendentemente barroca cidade velha, repleta de torres das igrejas ortodoxas católicas, tão importantes que a Unesco a declarou patrimônio da humanidade.

                    Seja vista do alto de sua colina, no nível das ruas ou do topo de uma torre de igreja, Vilnius é inequivocamente uma cidade de grande beleza. Ainda que discreta. Sua mais notável característica, todavia, é não ser turisticamente deturpada. É pequena, de tal modo que é fácil explorá-la a pé. É silenciosa, cidade, limpa, bonita. O trânsito é discreto. Quase não se ouvem buzinas. Para turistas numa escapada cidades compactas são ultra apropriadas para explorar. E desde que a Lituânia não faz parte da zona do euro, tudo é incrivelmente barato.

                  Estávamos às portas da Cidade Velha. Prontos para explorarmos suas ruas estreitas, igrejas, museus, cafés e restaurantes. Não é possível ao visitante notar o quanto os três pequenos países, ainda que vizinhos, sejam tão diferentes entre si. Por inúmeras e complexas razões. Aqui os soviéticos parecem ter deixado um legado arquitetônico bem menos óbvio do que em Riga, por exemplo, como veremos numa outra matéria, ainda que em todas a arquitetura seja o que melhor expressa a personalidade das três capitais.

                 A propósito da história, a fundação da cidade deve-se ao sonho profético do grão-duque de Gediminas, que reinou no século XIV. Um lobo de ferro apareceu-lhe no alto de um monte e ele procurou um padre para que lhe explicasse a alegoria. A resposta do religioso foi “construa um castelo e uma cidade no topo do monte”. E ali até hoje existe a ruína do que foi o Complexo de palácio e castelo, um dos cartões postais de Vilnius, ainda que realmente pouco atraente, a não ser pela vista que proporciona. Como algumas cidades medievais, há resquícios de muralhas que a rodeavam e protegiam, mas é no centro histórico onde concentra-se o que ela tem de mais atraente: seus mais de 1500 edifícios de estilos que vão do barroco ao renascentista, entre eles o gótico e o clássico.

                   Vilnius parece tão amigável, calma e descontraída que é fácil esquecer sua história tumultuada, os muitos ataques que sofreu desde o século XIV. Nos anos dourados chegou a ser capital de um poderoso império antes de ser novamente invadido, desta vez pela Rússia. Napoleão também andou saqueando Vilnius. Foi em 1812, antes que os russos a tomassem novamente. Os alemães ocuparam a cidade durante a segunda guerra mundial, mas antes a Rússia foi lá e a incorporou à antiga URSS. O país finalmente alcançou a independência em agosto de 1991.

                 Como em boa parte desse pedaço do Velho Mundo, as pessoas não são muito extrovertidas, ainda que simpáticas, sobretudo educadas. Sobretudo por sua notável discreção, elegância e elogiável característica de falarem baixo. O custo de vida turístico é muito atraente. E a gastronomia é relativamente fraca, especialmente comparada a Riga e Tallinn. Para os apreciadores de café, como nós, os países bálticos são uma festa. Há inúmeros bons e simpáticos cafés para saborosas paradas entre uma exploração e outra. Provavelmente o dia de qualquer turista começará visitando uma de suas igrejas.

                  É o que mais há para se visitar em Vilnius. Parece haver mais igrejas por metro quadrado de cidade do que na Bahia. Mas sabe-se que são 28 nesta parte de Vilnius, 21 delas católicas romanas e 4 ortodoxas russas. O restante fica entre as de comunidades luteranas e outras. Há também uma sinagoga. Havia muitas, hoje só uma. Infelizmente, como sabemos, neste lado do mundo os judeus padeceram e foram perseguidos e exterminados. Mas uma vez na cidade não se pode negar que os lituanos sejam profundamente religiosos.

                   Algumas entre as mais importantes igrejas da Cidade Velha foram fechadas durante a ocupação soviética, entre elas as de São Nicolau, de Santa Teresa, do Espírito Santo e de Santana, além de todas as ortodoxas russas (exceto a Paraskeviya). "Fechadas" quer dizer "proibidas celebrações de missas". Quase todas são muito bonitas, bons exemplos de arquitetura e ornamentação, a despeito dos diferentes estilos. A cidade tem outros encantos que revelam-se numa simples (mas longa) caminhada exploratória, mas é impossível deixar de esbarrar em suas igrejas.

                  Na Rua Stikli, por exemplo, fica a Igreja de São João. Além da visita, vale uma subida ao topo de sua torre para uma vista panorâmica da cidade antiga, diferente daquela do do morro do castelo. Há também dois museus, o do Holocausto e o das Vítimas do Genocício, chamado Museu da KGBE também o Palácio Presidencial, o Complexo do Castelo, a Torre Gediminas e o Palácio Real. A Porta da Alvorada (Gate of Dawn) é um dos principais pontos turísticos da cidade antiga. Onde também ficam a Prefeitura, a Rua Pilies e a Vikieciu Gatvé.

A curiosa República de Užupis     ________________________________________________

                 Užupis é um curioso “bairro” de Vilnius, próximo à Cidade Velha, do outro lado do Rio Vilnia. É lugar de artistas, o que frequentemente leva a quem o descreve como "Montmartre da Lituânia". De fato há galerias de arte e artistas plásticos como no bairro parisiente, além de cafés de restaurantes, mas sua maior particularidade é que Užupis auto-proclamou-se uma república independente. Foi em 1997. Nomearam-na Nepriklausoma Užupio Respublika.

                 Na época da dominação soviética consideravam Užupis um bairro perigoso, de periferia. Hoje tem governo, bandeira, hino, parlamento, constituição e moeda próprios. Até um exército, composto por onze homens. Todos ministros de estado! Não se tem notícia que alguém (além de seus habitantes) que reconheçam sua legitimidade.

 

                 O presidente de Užupis, por outro lado, diz que o cidadão uzupiense "tem direito a ser indistinto, incompreendido e aceitar sua pouca importância", reservados que são, talvez por terem sofrido tantas atrocidades. Vale a visita. Sobretudo divertir-se lendo a inusitada constituição. 

 Trakai      _______________________________________________________________________

                 Nenhuma visita à Capital fica completa sem uma ida a Trakai. São apenas 28 quilômetros de distância. Há ônibus em diversos horários entre ambas e o trajeto leva cerca de 30 minutos. É um dos bonitos castelos da Europa, uma espécie de balneário à beira do Lago. O castelo fortaleza é um dos poucos que situam-se numa ilha, e a ele tem-se acesso por uma longa ponte de madeira. É bem mantido, tem salas de exposições e eventos artísticos durante o ano, especialmente no verão, onde acontecem torneios típicos da era medieval.

                 Entretanto uma visita à pequena vila de Trakai me pareceu bem menos turística, curiosa e atraente que ao castelo. Em charmosas, aparentemente aconchegantes casas de madeira, viviam os caraítas, turcos que chegaram aqui desde a Crimea no fim do século 14 para serem  guarda-costas de Grão-Duque Vytautas. Há um pequeníssimo museu dedicado aos caraítas que vale a pena a visita. Na mesma rua há um restaurante famoso, o Kybynlar, tocado por uma família local, que serve o kibinai, um pastel de forno recheado com carnes diversas.

  

                 Saímos de Vilnius com uma leve impressão de que jamais nos esqueceríamos dos bálticos, que ao final, em Tallinn, tornou-se uma certeza.

NOTA:

(*1) Para evitar qualquer mal entendido, aqui não tem jabá, mas honestidade, ética e transparência. Acima de tudo. Profissionalismo não, porque este é um blog amador. Ainda assim não é suportado por nada, nem por ninguém além de mim. Não recebo 'brindes' em troca de cobertura positiva para o que quer que seja, minhas viagens são auto-financiadas e os produtos e serviços aqui mencionados são feitos por liberalidade minha, sobretudo não têm conhecimento dos mesmos. E mais, não são recompensados de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação. Cada produto ou serviço aqui mencionado é feito com a suposição de que o leitor saiba identificar os objetivos do blog. E que verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão. Da cia aérea aos hotéis citados.

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 A seguir:

 A elegante Riga e o maior conjunto de ediufícios Art nouveau da Europa