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Quarta-feira
Jul232014

DIZI para o almoço. Um dia no Bazaar de Kashan

                - ESTOU com fome Sr. Majid, estou com MUITA fome!... (minha barriga não ronca, mas a fome é um incômodo que costuma me arrasar o humor. A paciência também. Reconheço o efeito na minha personalidade, antes até de quem me acompanha. É simples: o estado-de-espírito sempre elevado enquanto viajo não resiste ao mau-humor quando faminto. Não é papo de gordo, não. A fome tem o poder de potencializar tudo o que eu tenho de ruim. E ainda que não se torne uma tragédia, é um aborrecimento. Pra mim, que dirá pra quem me acompanha! Então...)

A luxuosa cúpula de Timche-ye Amin od-Dowleh 

                 - Preciso comer alguma coisa. Qualquer coisa, Sr. Majid.

                 - Querem comer dizi?, perguntou nosso motorista-guia. “É o que temos a esta hora”, completou.

               Era um Domingo sonolento em Kashan. Tudo estava fechado na pequena cidade interiorana. Quando entramos no bazar ainda não, mas logo todos saíram - de compradores a trabalhadores - e os lojistas começavam a fechar as portas.  Deviam ser umas duas da tarde, por aí. Então não pensei duas vezes, nem consultei minha doce Emília (ela topa tudo mesmo),me permiti a indelicadeza sem mais delongas e aceitei a sugestão do Sr. Majid. Então, prontamente (mesmo sem fazer idéia do que fosse dizi, tampouco se do reino animal ou vegetal), respondi-lhe:

                 - Quero comer qualquer coisa, Sr. Majid, por favor. Só não vivo, cru ou apimentado!  

O dizi comemos sobre o banco-mesa e sob a cúpula de Timche-ye Amin od-Dowleh

                 O dizi é um prato popular. E barato. Vugarmente chamam-no "comida de pobre" (como se isso tirasse de comida simples o prazer de matar a fome). Eu não estava nem um pouco preocupado com a aparência da comida  que basicamente consiste numa sopa feita com pedaços grotescos de carne, grão de bico e batatas. Apreciada de modo simples (mas nem por isso menos delicioso), comer o dizi foi pra lá de saboroso e o agradável ato de matar quem me matava, a fome. A experiência foi memorável.  

   

                 Enquanto o dizi não chegava eu não sabia se devia me dedicar a aplacar a impaciência e o mau-humor comendo pão sírio, se matava a curiosidade de ver o dizi sendo preparado na tosca cozinha ou se fotografava o Timche-ye Amin od-Dowleh. Fiz os três, não muito bem, reconheço, mas fiz. Estávamos dentro do Bazzar de Kashan, e num de seus setores mais espetaculares. E sob um domo belíssimo. Éramos apenas três vivendo um momento tão atmosférico, ocasião perfeita que só ao final da visita a Kashan percebi ter sido a mais marcante - ainda que despretensiosa e simples - entre as desta viagem ao Irã. O prato estava delicioso. De verdade.

                 Não julgue pela aparência das fotos, caro leitor. Mesmo assim o sabor delicioso sabor não acompanhou em proporção o encantamento de estar ali. De olhar em detalhes e sem pressa o lugar completamente vazio de clientes, tão antigo e magnificamente ornado em cada canto de sua preciosa arquitetura persa. Eu queria viver tão intensamente quanto possível cada segundo. Caminhava e observa, sentia, tocava o que podia. Cada detalhe, especialmente porque não teríamos nova oportunidade de ter o Timche-ye Amin od-Dowleh assim, só pra nós.

Sobre a mesa-banco, sob a cúpula de Timche-ye Amin od-Dowleh. Só para nós

                 Há escadas para subir ao teto do bazar e observar a cidade e a cobertura de Timche-ye Amin od-Dowleh de cima. Basta pedir a um dos lojistas - ou bazari - para levá-lo até lá ou, se estiver com um guia, fica ainda mais fácil. Não fomos. E era domingo, tudo estava fechado. Mas deve ser magnífico ver Timche-ye Amin od-Dowleh assim.

                  A luxuosa cúpula foi construída na época seljúcida, teve renovações no período safávida, mas foi totalmente concluído apenas em 1868. Sob ela há uma praça com lojas de tapetes e o "café" onde comemos o dizi.

Na Casa de Chá do Sr. Mahmoud, especialidade do dia: Dizi

                 Sentados de pernas cruzadas sobre bancos-mesa de madeira, forrados com tapetes persas, éramos apenas nós e o proprietário do “puxadinho”, o único lugar (talvez por isso o mais concorrido pelos raros turistas e muitos locais) para comer em todo o complexo àquela hora: a “casa de chá” (se assim podemos chamá-la) do Sr. Mahmoud. Depois chegou alguém, um senhor bem pobre, a quem o dono do “restaurante” deu dizi a comer. Perguntamos o motivo e ele nos disse que o sujeito era muito pobre. Então, disse-lhe que fazia questão de pagar por sua refeição o mesmo preço que a nossa, pedindo-lhe que incluisse o preço em nossa conta.  Claro que tudo foi dito a ele em farsi por nosso motorista-guia, Sr. Majid.

 

                  O dizi também chama-se Ab-Goosht. É um guisado com pedaços grandes de batata e carne de cordeiro, além de grão de bico temperados basicamente com cebolas, tomates e especiarias, tudo em muita água. Goosht, em persa, significa carne, e “Ab”, água.  Então Ab-Goosht é “água e carne”. Os comensais usam um "pilão" para amassarem os grãos de gão de bico com a carne no fundo do prato, depois de separados os sólidos do líquido, uma espécie de consomê que fica na panela individual e especial. E então o caldo ralo da sopa é derramado sobre o prato, com as batatas.

                  Então, pedaços de pão fino são rasgados sobre essa sopa. O pão é deixado de molho por algum tempo até que a sopa fique mais espessa. E como é  saborosa!  Embora o dizi seja gorduroso por causa da carne, com o pão fica aparentemente uma refeição aparentemente mais facilmente digerível. Tudo é acompanhado por chá. Saborosa tenho certeza de que era. E muito substancial. Ou teria sido minha fome que me fez gostar tanto? Mesmo que há muitos anos eu não coma comidas pesadas, frituras ou gordurosas, não senti a sensação mais comum de quando eventualmente o faço: quando o estômago parece estar "comendo" o fígado e os restos digestivos parecerem subir pelo esôfago em vez de pelas vias normais.

- Mais chá?, perguntou o Sr. Majid. “Por que não?”, respondi. “Obrigado!”

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A seguir: 

KASHAN, uma boa parada

 Vida interiorana e tranquila em Kashan

Sexta-feira
Jul182014

IRÃ - Melhor do que ir foi voltar

                    MINHA viagem ao Irã (ou sobre viagens e chatos)  ________________________

                 MUITAS vezes tenho tanto a dizer de uma viagem que não sei por onde começar. É claro que de um blog de viagens espera-se que um post comece falando do destino. Turisticamente falando, quero dizer. Então, há vários tipos de relatos de viagens: dos guias aos diários, dos investigativos aos jornalísticos. Também os que enfatizam as impressões e reflexões do autor, por vezes até mais do que o próprio destino. Gosto destes. De ler e de escrevê-los. Dão personalidade, tornam-os diferentes, evitam que esbarrem-se na possobilidade de serem enfadonhos. Não escrevo tim-tim por tim-tim o que ver, o que comer, o que fazer e tudo mais no lugar. Ainda que isso seja bem útil, acho sem sentido trabalhar inútilmente nalgo que já há infinitamente melhor nos lonely planet e bradt guides da vida.

                 ME satisfaço divagando sobre meus prazeres em viagens. Sobre a falta deles também. E com isso eventualmente inspirar e motivar o leitor. A ler e conferir. Sobretudo a fazer como acha melhor, conhecer com seus próprios meios. Neste caso, sobre o Irã. Já que é preciso ser conciso, tentarei. Mesmo falando de coisas tão instigantes, complexas e contraditórias.

                 DIZEM que quanto melhor a auto-estima de um viajante maiores seus prazeres em viagem. Mas devo confessar que nem sempre consigo conciliar um com outro. Alguém com a minha idade - e mesmo assim com uma apreciável capacidade de entusiasmar-se (como um adolescente), impressionar-se (como um principiante) e emocionar-se (como um jovem romântico) - precisa ter a complacência de um monge enquanto viaja. Para quando o destino tão sonhado - aquele que tinha tudo para ser a “viagem de uma vida” - não o entusiasma, impressiona, emociona ou comove. A paciência do monge é para que não se aborreça, permita-lhe no máximo entediar-se. E jamais sentir-se um chato porque não gostou do que todos gostam.

                 A condição para ser um chato é que um chato nunca se chateia. Só aos outros. Muito já se escreveu sobre eles. Inclusive sobre chatos viajantes. De outra maneira, claro. Todos que conheço e o fizeram são culturalmente bem mais equipados, têm maior competência e são dotados de Q.I. mais gordos que o meu. Phil Cousineau, por exemplo, disse que "não há destino chato. Nem desculpa para viagem ruim". Nunca o li, pelo menos não em profundidade, mas temos a mesma idade, o que me licencia para interpretar seu pensamento com uma auto-crítica. Minha, não dele. Enquanto no Irã, eu vestia aquilo como uma luva: "se não há destino chato, chato então é quem acha que um destino é chato". E se é melhor ter ido e não gostado ao invés de arrepender-se por não ter ido e poder ter gostado, também é que todo lugar tem potencial de ser bem mais bacana quando é visto ao seu modo. E que por mais chato que ele seja, o contário não é sensato, estraga o prazer de viajar.

                 Martha Medeiros - bem mais jovem que eu e também extremamente mais talentosa (é claro que ela não vai ler isso, mas se o fizer, não foi por gentileza, viu, D. Martha?) - escreveu (em outras palavras) quase o mesmo que o Sr. Cousineau.  Sobre ser maçante. Só que a Sra. Martha, mais elegante, não me fez vestir a carapuça assim tão justinha como uma luva. Mas que vesti, vesti. O importante é que seu pensamento mostra-nos como é possível evitar as chatices que podem - e não raramente o fazem - rondar quem viaja: “Viajar é transportar-se sem muita bagagem para melhor receber o que as andanças têm a oferecer. Viajar é despir-se de si mesmo, dos hábitos cotidianos, das reações previsíveis, da rotina imutável, e renascer virgem e curioso, aberto ao que lhe vai ser ensinado. Viajar é tornar-se um desconhecido e aproveitar as vantagens do anonimato. Viajar é olhar para dentro e desmascarar-se.

                 DEVO dizer que ambos - Martha e Cousineau -, autores que escrevem como ninguém acerca de experiências em viagens, me acompanharam por quase todo o Irã. E antes que algum leitor pense que tive o privilégio da companhia presencial de ambos, não. Meu prazer foi bem maior (desculpem, D. Martha e Sr. Cousineau): viajei com minha doce Emília. Nada melhor do que viajar com gente que se combina feito pão e vinho. Não preciso dizer mais nada, só que Emília não parecia entediada. Eu já achava a primeira metade da viagem muito maçante. Ela, ao contrário, era um entusiasmo só. Chegou a escrever sobre isso no A Turista Acidental, que sentia pena ao ver aproximar-se a hora de partir (enquanto eu achava que se não era nada mal estar ali, melhor do que ter ido era estar voltando!).

                 ENFIM, aqueles autores me fizeram refletir por boa parte da viagem ao Irã, no quanto não devemos nos culpar por não gostarmos de um destino (mesmo que nossa cara-metade esteja se encantando com ele). Ao contrário do que possa parecer, não deve ser sacrifício nossas tempestades cerebrais. Afinal, os seres cerebrotônios viajantes sempre são levados a boas reflexões em viagens. Sobretudo se forem maduras, sérias e equilibradas, daquelas que ensinam a gente a viajar cada vez melhor e a enxergar o mundo como ele é. É por isso que algumas viagens, às vezes, consomem mais o intelecto do que o físico.

                ENQUANTO eu passeava pelo Irã, especialmente durante as longas viagens de carro, essas reflexões sobre o país me incendiavam o cérebro, cunduzidas pelos pensamentos dos dois escritores. Todavia eu não experimentava nenhum conflito: "não há problemas se o Irã não está sendo a "viagem de minha vida".  

                 TUDO comigo costuma funcionar muito bem. Pelo menos intelectualmente (e enquanto viajo, devo frisar). Simplesmente nunca o faço olhando pra mim, senão para o destino. Entrego-me a ele. Jamais com reservas. É fácil, porque viajo para onde escolho, não por obrigação, trabalho, a convite ou por remuneração. Escolhemos ir ao Irã. E mesmo não sendo exatamente chato, apenas longe de ser encantador, teoricamente eu não poderia auto-classificar-me necessariamente um chato só porque o disse o Sr. Cousineau. A minha “culpa” era pela decepção de não ter-me emocionado.

                 EU percebia melancolia em tudo, uma “não felicidade” aparente nas pessoas. Não via animais de estimação nas ruas, mas casas fechadas, ruas vazias. Nem uma só criança jogando bola, brincando de velocípede, de bicicleta ou de pega-pega com seus amiguinhos. Tudo me parecia muito amplificado por uma vida social sombriamente dirigida pela religião. Daquelas mais radicais, que mais desvalorizam a mulher, que tornam tudo proibído, controlável, soturno e sombrio. Não me recordo de nenhum outro país tão pouco vibrante quanto o Irã, e povo tão superficialmente contido quanto o iraniano. Tudo me parecia tão sem gosto, tão sem som, sem sal, sem festa, sem música, sem dança nem alegria. Que diferença do Uzbequistão! Nenhum cachorro latia, nenhuma criança chorava, nenhum pátio de escola tinha crianças em algazarra. As iranianas são obrigadas a cobrir os cabelos em público. Abusam da maquiagem para compensar. Namorar em público, nem pensar. Em público só trocando mensagens por celular. Mulheres são proibidas de cantar no país. As saias têm que cobrir os joelhos, e têm de sentar na parte de trás dos ônibus, enquanto  homens sentam-se na dianteire. Um apartheid de gêneros que a ditadura religiosa às. obriga. São cruéis com as mulheres. Em vez de incentivar sua beleza, obrigam-nas a escondê-la. Mas ainda assim não são tratadas como nos países árabes: não vivem enclausuradas nem são proibidas de estudar e trabalhar. Todavia a situação ainda é ultrajante. Os homens são mais felizes, não podem apenas vestir camisetas sem mangas e bermudas. E são loucos por carros, mas por aqueles carros dos anos 80. E pelo iraniano Samand! Lugares pra dançar são proibidos. Claro, bebidas alcoólicas também. Aí inventam festas dentro de casa, mas com as janelas bem fechadas que é para abafar o som, pros vizinhos e a polícia não ouvirem. Ficar mais à vontade só em casa. Os cinco canais de TV são controlados pelo Estado. E por aí vai...

                A melhor maneira de ver um destino é ver por si próprio. É o que torna as viagens mais significativas.” Infelizmente não fui eu o autor da preciosidade (pra variar). Novamente o Sr. Cousineau. Pode haver conselho mais apropriado a um viajante? Ainda que seja ótimo não ter problemas em divergir, tampouco reconhecer opiniões contrárias, nada como viajar inspirado, para gostar, aberto e receptivo. É o melhor para quando não gostamos, sabermos que é absolutamente normal desgostar do que todos gostam. Sobretudo que nem sempre é bom fazer parte da unanimidade. Provavelmente é o que ainda mantém vivo meu desejo de escrever e publicar: poder divergir.

                 VIAGENS, com frequência, são enriquecedoras. Intelectualmente, quero dizer. Umas mais, outras menos. Não existe nada mais estimulante e compensador pra mim do que viajar. Sobretudo quando conheço como vive, come, dança, canta, habita e trabalha o povo dos país que visito. E ainda que a experiência seja superficial (só convivendo a gente consegue perceber todas as características e diferenças culturais do modo de vida) mesmo assim é encantador participar dela. Entretanto, já não é tão fácil um destino surpreender-me. Ao menos não tão inesperadamente, nem com a mesma freqüência e intensidade de trinta anos atrás. Com tantas viagens na bagagem, algumas verdadeiramente surpreendentes em níveis difíceis de ultrapassar, e com a Internet e todos conectados a tudo o tempo todo, quase já não encontro mais o “surpreendente” e o “a descobrir”. Sou do tempo de mandar postais em viagens. Vocês que são jovens, sabiam que eles chegavam ao destinatário bem depois de o remetente voltar pra casa? Lamento que já não haja mais tanto "desconhecido" por descobrir, que hoje o que mais encontre seja gente viajando e compulsivamente consultando seus Facebooks, Twitters, Instagrams e Whatsapps, checando novos posts em vez de se concentrarem na própria viagem, naquilo que vêem.

                  É claro que ainda há alguns lugares remotos e isolados no mundo que desejo visitar, sobretudo pouco explorados turisticamente, como o Irã. Notáveis países como o Irã, imaginariamente com enormes possibilidades de encantar. É o que me faz tão bem, que me impulsiona às viagens: encontrar destinos desafiantes. Fomos a Mianmar, à Etiópia, ao Quirguistão, à Índia e ao Uzbequistão recentemente, lugares notáveis onde experimentei - do primeiro ao último minuto de permanência - o que devem ter sentido os grandes viajantes da humanidade. Sem nenhuma pretensão, caro leitor!, é apenas um mero exagero filosófico, uma "viagem" na reflexão, algo como sonhar poder visitar o Polo Norte antes que ele derreta ou um povo escondido que jamais viu a civilização. Hoje é preciso sorte para isso. E quem a tiver suficiente, provavelmente sentirá o que contaram os grandes viajantes da antiguidade. De Cristóvão Colombo a Marco Polo.

           CHEGAMOS a sonhar com viagens assim. Não fosse a sorte (e suas conseqüências) de ambos vivermos momentos de excepcionais oportunidades de crescimento nos negócios, extremamente felizes e motivados com nossas atividades profissionais, e totalmente absorvidos por projetos pessoais que nos impedem de pensar em viagens por um bom tempo, já teríamos comprado nossas passagens para Gana, Togo e Benin, ou ao Sri Lanka, concretizado o sonho de uma viagem de moto pra qualquer lugar do mundo, finalizado os roteiros pelo Azerbaijão, Geórgia e Armênia e definido alguns outros destinos que desejamos para próximas viagens.

           MAS, voltando ao Irã, eu já contei no post anterior que os dias em Esfahan foram um refresco no desassossego que me acompanhou por toda a viagem. Em Kashan pareceu me acompanhar a simpatia que senti por Esfahan, ainda que ambas tenham sido tão distintas e minhas doses de admiração imensamente diferentes. Kashan me fez voltar a perceber a melancolia padronizada inerente ao Irã. Mas ali dei um desconto. Era Domingo, aquele que julgo o pior dia para um turista. Pior, era véspera da Ashura. E o fato de que sempre me incomodam pessoas, cidades e países obcecados por religião. Tenho muita implicância com mitologia e religiões. Não é raro ver que religiões afastam pessoas da razão e da racionalidade, que abrem caminho para fanatismos e crendices. Meu fascínio é pela ciência, pela arte, psicologia, história, geografia, sociologia, música, natureza, antropologia, filosofia e arquitetura. Entre outras coisas que não imbecilizam as pessoas.

           CÃES são proibidos no Irã. Consideram-nos “impuros”. Um decreto religioso de um aiatolá qualquer proibiu-os como animais de estimação. Alegam que representam um costume ocidental desprezível, sobretudo condenável. “A amizade com cachorros é uma imitação cega do Ocidente. Há muitas pessoas no Ocidente que amam seus cães mais do que suas esposas e filhos.”, disse o tal aiatolá pra atolar a vida das pessoas. O cerco aos animais é terrível. E justamente por ter dois pés atrás com religiões, ainda que não deva julgar o que não conheço ou compreendo, me surpreendo como atitudes de auto-flagelação (ashura) e eliminação (morte) de cães, como coisas assim podem passar tão longe do sentimento de amor e compaixão que todas as religiões pregam. Ou, então, que se sabedoria e moralidade forem isso aí, quem diria!, logo no Irã, berço da filosofia, terra da compaixão, da ciência, de estudiosos, de filósofos, mestres da literatura, da poesia, de passado brilhante, co-fundadora da civilização humana, nação cheia de valores morais memoráveis e copiáveis, herdeira de um respeito universal incomparável.

           FECHANDO minhas divagações, nossa viagem terminava em Kashan. Já não havia mais a possibilidade da culpa pelo erro da primeira impressão. E mesmo com toda a minha sensibilidade e receptividade aos costumes e cultura de qualquer povo, eu não fora capaz de subverter meu sentimento crítico. Minha experiência no Irã fora o bastante para me fazer crer que viajar é uma das coisas mais fantásticas da vida, sobretudo por me fazer tanto admirar a humanidade quanto por vezes achá-la meio ridícula ou estúpida, mesmo com todo respeito por suas diferenças e singularidades, até diante de seu lado mais obscuro. E como não ando por aí fazendo investigações e avaliações sobre a felicidade alheia (sou ciente de que cada um é feliz do jeito que quer e pode), ainda assim não creio na possibilidade de alguém ser inteiramente feliz vivendo impedido de suas mais básicas liberdades. Como no Irã. Sobretudo por desígnios religiosos. E como sou um impuro (adoro cães e jamais admiraria quem tira sangue do corpo por motivos religiosos), em Kashan, última cidade que vistamos no Irã, pouco antes da ashura, percebi que foi bom, foi muito bom ter ido ao Irã, mas imensamente melhor ter voltado. O que eu estava mesmo era feliz por discordar do Sr. Cousineau.

A encantada e o chato

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A seguir (qualquer dia desses...):

KASHAN, Irã - Melhor do que ir é voltar

Sexta-feira
Jul112014

ESFAHAN - Para gregos e baianos 

Beleza, unidade e equilíbrio. Irretocáveis

COMO dois e dois são quatro   __________________________________________

          É impossível definir num só parágrafo o que a dinastia safávida representou para a arte islâmica, especialmente na ornamentação arquitetônica. Mas uma vez em Esfahan é fácil para um observador perceber o quanto ela acrescentou e enriqueceu a arquitetura persa, assimilando tendências artísticas do classicismo sírio, do Império Bizantino, do orientalismo persa sassânida e do exotismo turco. E também é perfeitamente aceitável compará-la ao barroco europeu. São do mesmo período. E ambas apresentam lá seus excessos, um certo gosto pela exuberância e pelo luxo. Aplicado à arquitetura e à ornamentação, o "barroco persa" é bem mais discreto e elegante que seu irmão europeu, e foi na Praça Naqsh-e Jahan, em Esfahan, onde atingiu seu apogeu, tornou-se tão notável que terminou consagrando-se um patrimônio inquestionável da humanidade com obras de mestres do urbanismo, da arquitetura e da ornamentação. Não sem motivo consideram esta praça uma das mais espantosamente belas que o homem já projetou e construiu. 

           A arte no período safávida teve desenvolvimento maior do que em qualquer outro período artístico iraniano. Especialmente durante o reinado de Abbas I. Foram tempos de glória artística, mas também de um dinamismo notável no desenvolvimento religioso, social, político e comercial no Irã. A Dinastia safávida durou de 1501 a 1722, pum eríodo em que as artes alcançaram novos patamares na arquitetura, crescendo em brilho e opulência junto com as cidades.

          É nas fachadas e no interior das mesquitas e palácios desta praça que o estilo safávida - de elevado equilíbrio e sentido estéticos - revela-se tão sublime. Ali a beleza é tão surpreendentemente perfeita - no equilíbrio, na forma e no conteúdo -, que é impossível apontar defeitos. A combinação de cores, padrões e desenhos é tão precisa que não seria exagero associá-la à aritmética. Prelo menos não no efeito que provocam no observador: matemáticamentetodos perdem o fôlego. Como dois e dois são quatro.

Masjid Shah (detalhes dos padrões) - Pascal Coste

          OBSERVÁVAMOS tanto para o conjunto quanto para os detalhes com o olhar vívido de encantamento e admiração. É possível que sentíssemos tudo um pouco mais forte porque não conseguíamos conter um indisfarçável orgulho, o priviégio de estarmos ali. Absorvidos por aquela beleza monumental, o que víamos percebíamos não apenas com os olhos, mas com a mente e o coração. E vivemos momentos de absoluta serenidade, de verdadeira doçura na contemplação, de deliciosos prazeres fotográficos.

Tornar o que é monumental em delicado, um dos méritos da arte e da arquitetura safávida

       OS projetistas e idealizadores da Praça Naqsh-e Jahan tornaram estruturas pesadas em obras delicadas, especialmente quando as revestiram com tapetes persas cerâmicos. Onde havia uma parede e teto para cobrir, o faziam com mosaicos cerâmicos. Ao observá-los não precisamos de muita imaginação para associá-los aos espetaculares tapetes persas. 

 Um Tabriz encantador de incomuns tons de azul. Padrões que nos remetem às mesquitas safávidas

        TAPETES que se vendem a poucos passos dali, no Grande Bazar de Esfahan E mesmo sem comprá-los, podem-se vê-los, tocá-los, pisá-los e até mesmo receber lições precisas da arte na tecelagem de tapetes. Basta ir à melhor loja de tapetes da cidade: a Silk Road (*).

    Os efeitos ornamentais e seus efeitos evidentes: admiração e encantamento

           COM bom gosto admirável, habilidade fenomenal e capacidade de trabalho, as enormes mesquitas e palácios tornaram-se delicados edifícios. De tão magnífica expressão quanto a dos tapetes persas. Tais efeitos decorativos ornamentais são particularmente notáveis na Mesquita do Sheikh Lotfollah, a primeira construída pelo Xá Abbas quando mudou a capital de seu império para Esfahan, em 1598.

Mesquita do Sheikh Lotfollah

            E os padrões repetem-se nos lenços de seda que cobrem as cabeças femininas. Belíssimos e em intermináveis formas de expressão artística, praticamente a única estampa possível às iranianas. E também às turistas, obrigadas ao uso dos lenços enquanto estiverem em solo iraniano.

INTRODUÇÃO    __________________________________________________________________________

            MELANCIAS, chá, shirini-e berenji, olhar fotográfico e o deserto de Shiraz a Esfahan

         FOTÓGRAFOS - mesmo amadores e ruins - costumam desenvolver um olhar diferenciado. Um olhar não crítico, quero dizer. Ou complacente. Não é melhor nem pior do que qualquer outro jeito de olhar, é apenas fotograficamente mais atento e receptivo. Diria até condescendente para com o que vê. Exercitam o sentido para ficar de “prontidão”, a serviço de produzir a “melhor composição de sua vida”.  

Com celular ou câmera profissional: puro prazer ao fotografar

           COM esse olhar limpo - que ao contrário do embaçado não impede, facilita a percepção - os que fotografam paisagens, natureza, monumentos, pessoas e coisas por puro prazer, com o tempo vão apurando seu jeito de olhar. Não importa com que câmera, de celular, compacta ou profissional. 

  Atento aos detalhes, procurando pelo que ninguém vê

             COM a prática, esse viajante que escreve e fotografa (com uma pesada câmera Nikon D 800 com uma battery grip pendurada no ombro) segue vivendo seu prazer exercendo (e exercitando) esse tal de "olhar fotográfico", a maneira particular de ver, uma tal  de "apreciação lisonjeira" com que definiu Pierre Verger (ou teria sido Cartier Bresson?). Ao que enxergam com "olhar fotográfico", fotógrafos são recompensados com o que julgam serem bons resultados, além de enormes prazeres. Fotográficos ou não.

            DIZEM por aqui que fotografo bem. Mas também que fotografo mal. Que não tenho sequer noções fundamentais de enquadramento e composição. Que escrevo mal também. Isso eu nem discuto. Ainda assim, ambas são atividades tão prazerosas e valiosas que bem o mal as fazendo consagram-se como alguns entre os melhores prazeres que tenho ao viajar.

  Vivendo um prazer: exercendo o tal de "olhar fotográfico"

          HÁ quem assegure que olhar assim prejudica a atenção e a percepção. Eu não discordo, mas como fotógrafo-viajante-amador considero a atitude o fortalecimento do meu jeito de olhar, o aperfeiçoamento de ver o todo e os detalhes, para então imaginariamente compôr uma fotografia para então clicar. É como se deslimitasse meus horizontes com esse olhar treinado, procurando pelo que ninguém vê. Olhares fotográficos são ativos, observam tudo evitando passividade, que impede, de maneira a observarem todos os seus detalhes que formam o todo.  

Enxergando com "olhar fotográfico": enormes prazeres. Fotográficos ou não

NA ESTRADA de Shiraz a Esfahan, sobre um deserto fosco, sob um céu leitoso   _________

          NAQUELE momento os dois lados da estrada eram um deserto só. A perder de vista. Um solo árido, ocre e fosco dominava os horizontes. Ainda brilhava o Sol, que ali naquela terra tão seca quase não reflete seus raios. E o céu, leitoso, efeito de uma permanente névoa seca que parece impedir parte dos raios solares chegarem ao chão. É permanente esse céu no Irã. E mesmo com toda a condescendência do meu olhar, as nove horas e 500 quilômetros de entediante monocromatismo paisagístico-rodoviário entre Shiraz e Esfahan já se faziam sentir no corpo e no intelecto.    

            A viagem fora medianamente confortável e bastante posotiva do ponto de vista turístico. Desde que saímos de Shiraz, paramos em Persépolis, visitamos Pasárgada e Naqsh-e Rostan, almoçamos na estrada perto de Pasárgada...

... ‘pic-nicamos’ no acostamento no meio do deserto, saboreamos sobre porta-malas do carro uma deliciosa melancia - fruta inteira primorosamente fatiada por Mr. Masjid, homem de muitos talentos revelados ao longo de nossa viagem, um encantador motorista, companheiro inseparável em dois terços de nossa estada no Irã.

               Também tomamos chá preparado por ele e comemos shirini-e berenji, os deliciosos biscoitos de arroz tradicionais que compráramos em Yazd dias antes, na mais tradicional "biscoiteria-de-um-biscoito-só" do país. O timing da viagem fora perfeito: a noite cairia ao chegarmos em Esfahan e terminaria no ponto em que nossas costas já reclamassem repouso. Mas provavelmente ainda com energia para uma volta por seu maior cartão-postal.

 

              Chegando à cidade deixamos tudo no Abbasi Hotel (*), inclusive o cansaço e a decepção com a hospedagem. É o hotel mais famoso do país, mas decididamente, a lendária hospitalidade iraniana não está ali. Para os padrões iranianos é um cinco estrelas, mas como em todos os demais hotéis desta categoria no Irã, não se enquadraria talvez na de três estrelas no Brasil. Mesmo quando tentam ser cinco estrelas, reformando carevanserais antigos - como em Kashan, e ocupando edifícios lindos e antigos, como este em Esfahan, eles têm muito a aprender, muito a percorrer. O hotel é bonito apenas em seu pátio com aparência de caravanserai. É o único lugar agradável, seu único charme. A Recepção e o Lobby são terrivelmente cafonas. Os quartos, esfarrapados. Os empregados não poderiam ser menos preocupados com isso. Talvez tenha sido ali o único lugar onde encontrei iranianos antipáticos. 

                Mas, afinal, eu estava em Esfahan! E de banho tomado, barba feita, seguimos a pé (e entusiasmados!) para conhecer turisticamente a mais importante cidade do Irã.  

               Eu esperava muito do Irã quando viajamos pra lá. Ainda que jamais sem pensar que o destino me surpreenderia como o Uzbequistão, seu parente mais próximo. Muito menos que tiraria da Índia, de Mianmar, do Camboja, da Síria e outros destinos os primeiros lugares entre meus favoritos. O Irã tinha tudo para ser favorito, mas não foi. Tem uma arquitetura bonita, uma civilização antiquíssima e exemplar, tem arte, história, poesia e uma gente bonita e extremamente acolhedora. São tão elegantes, delicados, discretos e educados que conquistam mesmo o mais experiente e exigente viajante. Mas no Irã não há vida nas ruas. Não há música, dança, liberdade, algria, expressividade, Ná há felicidade aparente. Nem animais nas ruas e nas casas. Cães são proibidos! Tudo é soturno, sombrio. Dos mártires aos religiosos pintados nas paredes dos edifícios. Nada jamais me chegou nem distante do que é ser vibrante. Ao contrário, eu só via melancolia em tudo. E pessoas obcecadas por religião. Aquilo era muito perturbador. Os dias passavam lentamente demais, desencantadores demais, frios demais.

  Palácio de Ali Qapu Esfahan

               Em nenhum lugar o Irã aparentou prosperidade. É como Cuba, ainda vive na década de 1970. Só que lá a culpa maior é da religião, que dirige, controla e limita a vida das pessoas, tanto quanto jamais pude constatar em qualuqer outro lugar do mundo. Especialmente o mundo islâmico (ainda não visitei a Arábia Saudita). Tudo aquilo me incomodava. Eu não consegui me conformar porque Irã não me encantou. É claro que vi e vivi inúmeras coisas maravilhosas no Irã. Mas eu vivia imaginando o quanto poderia ser espetacular se fosse livre. E persa na sua excência.

               Eu jamais voltarei ao Irã? Provavelmente não. Ainda tenho em conta cerca de 30 países que adoraríamos visitar. Além de muitos que desejamos retornar. Alguns até mesmo indefinidamente. Como não tenho mais tempo de vida para realizar tais desejos, provavelmente eu jamais voltaria ao Irã.

Abbasi Hotel. Só vale hospedar-se no prédio antigo. No anexo, foi decepcionante

        Então, nada me animava mais vivamente do que estar em Esfahan. A cidade representava a possibilidade de uma redenção, um  resgate, o rompimento de minhas impressões turísticas mornas para com o país. Até então, em certos momentos, até mesmo de desapontamento. Pior, daquela sensação angustiante de falta de encantamento. Sem culpas, claro, mas não me encantar com o Irã me afligia muito, ainda que nunca eu viaje com compromisso de gostar, mesmo extremamente aberto e receptivo para tanto. Mas a ansiedade transbordava, porque Esfahan representava a última chance potencial do Irã revelar-se um pouquinho encantador como destino turístico, o que até então estivera longe de acontecer. Até então, porque  Esfahan fez comigo o que provavelmente faz com todos: agrada a gregos e baianos!

ESFAHAN - Tão bela. De dia ou de noite  _________________________________________

              Que noite perfeita aquela. Minaretes, abóbodas, arcadas, portais e colunas, vendedores de sorvete, turistas de caleches, senhoras de chador, familiares em grupo, bicicletas, namorados discretíssimos, pais e filhos. Foi como vi pela primeira vez Naqsh-e Jahan: uma beleza sem precedentes, tanto na arquitetura monumental quanto na vibração e na vida daquela praça. Havia um contraste encantador entre o céu, com resquícios de luz solar, e as luzes da praça. Havia beleza em tudo. Sobretudo nas pessoas, que tornavam ainda mais sensível uma vibração especial. O clima era magnífico, e assim Esfahan foi se revelando tão acolhedora quanto irressistível que logo estávamos seduzidos por seu encanto.

  Meidam Iman: obra prima de arquitetura e urbanismo, cartão postal de Esfahan

            Seu cartão-postal - a Iman Square -, é a maior atração da cidade. Não levei câmera naquela noite, apenas meu olhar fotográfico. Àquela altura, quinze dias de intensas atividades turístico-fotográficas, com uma câmera pesando nos ombros e uma mochila esquentando as costas, foram suficientes para que eu sentisse grande alívio ao livrar-me de ambas. Nem que fosse por algumas horas.

NAGHSH-e JAHAN - A maior preciosidade monumental de Esfahan  _________________

             A praça, assim como outras obras-primas de arquitetura persa da cidade, tem valor excepcional. Que excede as fronteires do Irã, até mesmo as do mundo islâmico. Tem um valor universal.  Saímos para "viver" a praça, o que significa passear no tempo e na hitória de Esfahan, no mesmo lugar onde europeus, turcos, indianos e chineses reuniam-se na corte persa, então centro de um vasto império que se estendia do rio Eufrates, no atual Iraque, ao rio Oxus, no Afeganistão. No século XVII, a grandeza e riqueza de Esfahan inspiraram uma rima, Isfahan nesf-e jahan, ou "Isfahan é a metade do mundo." E foi no período safávida - entre os séculos XI e XVIII - que a Pérsia destacou-se entre seus vizinhos do Oriente, da Turquia otomana à Índia mogol.

           O apelido - "metade do mundo" - corresponde apenas à metade de seus méritos. A esplêndida capital da dinastia safávida, da antiga Pérsia, era uma espécie de coração cultural do mundo islâmico, especialmente em termos de arte, arquitetura e urbanismo. Em Esfahan estão algumas das obras-primas da arquitetura iraiana islâmica. A Mesquita Sheikh Lutf Allah (ou Masjed-e Sheikh Lotf-ollāh) - na Praça Naghsh-i Jahan - é apenas uma dessas obras de importância absolutamente universal.

Sheikh Lotfallah Mosque

            Não havia muito o que visitar àquela hora, senão tomar um café expresso surpreendentemente bom e nos embrenhamos pelo bazaar, única atração visitável à noite, fora a praça em si. Talvez nada em todo o Irã conseguira evocar tanto a antiga Pérsia quanto as arcadas da praça e as abóbodas do Bazar-e Bozorg. Nos impressionamos antes com os 90 mil metros quadrados da Naghsh-e Jahan, praça que eu percebia absolutamente magnífica, não importava quantas e quais descrições eu houvesse lido.  Sim, eu sabia que estava numa das maiores praças do mundo - a segunda, na verdade -, menor apenas que a Praça da Paz Celestial, em Beijin. Mas a chinesa não tem a graça, a vibração, o astral nem a categoria arquitetônica da Naghsh-e Jahan. Sobretudo sua magia e sedução. De noite ou de dia.

              verdadeiras surpresas turísticas para além de praça, ainda que esta seja onde sentimos imensos prazeres viajantes. Sobretudo porque em quase todos os lugares parecíamos os primeiros e únicos turistas a passarem por ali. Observar a praça ao anoitecer  e observar seu seu esplendor arquitetônico, enquanto turistas iranianos passeiam de charrete em torno da praça, é uma experiência encantadora.

Praça Naqsh-e Jahan (por Eugène Flandin)

             Mas Esfahan deve ter um motivo para ser tão surpreendente, e por certo, deve ir um pouco além de sua praça. Não sei bem porquê, entretanto, além das atrações monumentais,  foram pequenas coisas que me fizeram sentir especialmente atraído pela cidade.

Azadegan Teahouse. Até não parece, mas é um café

         Como a surpreendente Azadegan Teahouse. Numa rua secundária próxima à praça Naqsh-e Jahan, o lugar é extremamente excêntrico. Ainda que mencionado com destaque no Lonely Planet, havia apenas três ou quatro iaranianos e nós dois os únicos estrangeiros entre os clientes. Ali vivemos uma entre tantas experiências marcantes e inesquecíveis. A casa é cusiosíssima, recoberta em todas as paredes e teto por uma coleção de objetos variadíssimos, de lamparinas a rádios antigos. Um verdadeiro "café-antiquário" com cara de brechó. Assim como a igreja e o bairro armênios próximos do Rio Zayandeh, foram surpresas fora do comum.

Holy Savior Cathedral - Սուրբ Ամենափրկիչ Վանք


         Edifícios a circundam inteiramente, construções lineares de dois andares com arcadas, mesquitas, madrassas, um palácio e o imenso bazar da cidade: a Mesquita do Xá (Shah Abbas, o Grande) no lado sul, o Palácio de Ali Qapu, no oeste, a Mesquita de Sheikh Lotf Allah, no lado este, e ao lado norte o Qeysarieh Portal, o grande portão do Grande Bazar de Isfahan

Nas vitrines do bazar, uma infinidade de artesanatos de ótima qualidade

            A partir de 1602, Abbas começou a reconstruir o centro da cidade. Primeiro, a grande Avenida de Chahar Bagh, depois a Meidan (praça) e os edifícios que a rodeiam: o Bazaar (em 1619), o Palácio real de Ali Qapu (em 1602), a Mesquita do Xá (em 1602), a Mesquita do Sheikh Lotfallah (em 1602), a ponte de trinta e três arcos sobre o Zilldeh Rudh, o aqueduto de Jubi para regar os jardins que enfeitam a cidade. Ele também patrocinou uma florescente escola de pintura, de tapetes para o palácio real e outros edifícios. Abbas I foi inigualável nas realizações de urbanismo, arquitetura e arte de Esfahan.  

            Abbas foi um dos xás mais enérgicos da história iraniana, mas também grande entendedor e promotor da arquitetura, literatura, pintura, caligrafia, cerâmica, têxteis, tecelagem de tapetes e arte em metais. Sua paixão pela arquitetura foi parte de um maior fascínio com o planejamento urbano, algo que espelhou-se nas suas ambiciosas atividades políticas, econômicas e sociais. 

Bazar-e Bozorg

           NA entrada do bazar há cafés repletos de apreciadores da bebida e do fumo, e nenhum turista. Então, foi um lugarencantador para nos misturarmos à gente local.

            Era o ciclo de ouro dos safávidas. No centro do deserto o tirano Shah Abbas I criou esta cidade bonita, planejada, desenhada e pensada com base nos conceitos urbanísticos da época, sob a genialidade do arquiteto da corte - Ali Akbar-i-Esfahani. Orientado por seus estudos, vocação e preceitos islâmicos, sob a direção do Xá, Isfahan tornou-se a Capital do império. Sob todos os pontos-de-vista, não importava ali quantas fotos e descrições eu tivesse visto e lido antes de conhecê-la: a cidade me surpreendeu. 

             Ajudado por mercenários britânicos, Abbas I derrotou turcos, expulsou portugueses da ilha de Ormuz e unificou a Pérsia reforçando a adesão ao shiísmo e estabelecendo o farsi como língua oficial. Na política interna dedicou-se a desenvolver a infra-estrutura econômica do reino. Construíu estradas e pontes, desenvolveu o comércio com a Índia e outras nações do oriente. Foi também o maior construtor da era safávida, deixou exemplos do seu ímpeto construtivo e urbanístico por todo o território do império, sobretudo em Esfahan, uma das mais famosas cidades planejadas do mundo antigo. A idealização e o planejamento urbanístico eram uma característica do monarca, provavelmente a mais notável.

            Em Esfahan, o Xá Abbas elevou a característica pessoal e sua competência ao plano máximo: a Praça Naqsh-e Jahan. Ainda que gigantesca nas dimensões e nos seus edifícios, especialmente os que ficam no centro de cada um dos quatro lados, mesmo assim imaginou estruturas que ainda que tão altas e volumosas aparentam ser tão delicadas e modestas.

            O desenho de implantação da praça teve orientação norte-sul. Devido a ele, tanto as mesquitas ao longo do lado sul quanto a do Sheik Lotfolah, do lado leste, tiveram que ser deslocadas perpendicularmente de tal forma que ficassem alinhadas em direção a Mecca.

            O projeto foi desafiador exatamente por este motivo: uma vez que a orientação da qibla (parede de oração virada para Meca) não se alinharia com o eixo da praça, resolveram o problema orientando seu interior na direção correta, criando todavia uma entrada, uma passagem deslocada do alinhamento e fora do eixo da mesquita. A solução não é exatamente o que se poderia chamar de “elegância”, mas é sem dúvidas a maior curiosidade da mesquita e o que lhe dá tanta personalidade.

Implantação deslocada perpendicularmente para alinhar as mesquitas em direção a Mecca

          Essa perspectiva é precisamente o que tornou o conjunto mais atraente e menos monótono, e ainda que tenha sido uma condição religiosa, a solução arquitetônica demonstra a genialidade do autor. Afortunadamente, muito pouco foi adicionado ou modificado desde então. O Shah Abbas I, mais importante imperador dos safávidas, responsável por algumas das obras mais importantes da cidade, como pontes, mesquitas e a praça, segundo historiadores, mandou fazer a praça para agradar a comerciantes, governantes e religiosos, sua tentativa política de centralizar e concentrar o poder num só lugar. Especialmente numa época em que facções militares e provinciais ameaçavam a estabilidade do império, que duraria de 1501 a 1722.  

                     Abbas era um homem de extremos e instável, cujo humor podia rapidamente ir do amor à ira. Tinha um harém com centenas de mulheres e rapazes mas seu foco era o poder. Por ele cegou seu pai, irmão e dois filhos, depois matou um terceiro filho, a quem temia como uma ameaça política. 

Foi construída em 1602, mas os prédios ao seu redor erigiram-se entre 1598 e 1629

  Masjid Shah, view of the courtyard by Pascal Coste (public domain)

                       Ao longo dos anos aquele imenso retângulo urbano no coração de Esfahan vem sendo usado para tudo, servindo como alternativa, e às vezes simultaneamente, como mercado, ponto de encontro social, local de execução pública, de eventos diversos, festivais e exercícios militares. Até para campo de partidas de polo. Shah Abbas era grande jogador do esporte. Não cheguei a vê-los, mas dizem que os postes de mármore que marcam os gols ainda estão de pé em ambos os lados da Maidan-eh Naghsh-eh Jahan.

                       Hoje são jardins, calçamento e um grande espelho d'água, não mais o chão de areia, os vendedores ambulantes e os jogadores de polo que ocupam o centro da praça, mas a vista ao redor dela permanece inalterada. Originalmente, além do que há hoje, funcionavam um caravansarai, banhos públicos, uma real casa da moeda e um hospital.

Para perder-se e comprar, não há melhor lugar

                        Naquele noite estava tomada pelo povo. Locais em sua maioria e uns raros turistas. O amplo gramado que se estende de ponta a ponta pelo centro da praça, tem um grande espelho d´água central, com fontes, limitado em todos os lados por grandes monumentos. A praça tem uma vida vribrante que eu não encontrara em nehuma outra cidade do Irã, exceto Teerã. Mas esta não tem o charme da história de Esfahan. Até então nada no Irã me parecera suntuoso. Nem brilhante arquitetônicamente. Até conhecer aquela fabulosa praça, um perfeito espaço de convivência social e turística da cidade. Todos se misturam. E convivem. Iranianos em maior número, um pouquinho de europeus, americanos e nós brasileiros. Não havia cachorros na praça, como aliás em todo o país. Só cavalos. Puxando charretes.

                        Estar na praça à noite pela primeira vez é como viver um  conto de Sherazade, e ainda que aparentemente incompatível com a vibração da praça, um quê de romantismo que segue o visitante, como a poesia de Hafez e Sa’adi segue quem visita Shiraz. Además, seus moradores parecerem mais acostumados e menos curiosos com os turistas estrangeiros do que seus compatriotas de Teerã. Demonstram sua endêmica hospitalidade e discreta simpatia, isto é, incomum é ouvir o "Hey Mister, where are you from?". Há um motivo: Esfahan é a cidade mais visitada do Irã, nacional e internacionalmente.

                       Esfahan é para se conhecer caminhando, para se perder no bazar, experimentar o convívio nas ruas, fazer pic-nic junto à ponte, admirar a praça monumental e percorrer suas mesquitas. E comprar tapetes. Mágicos tapetes. Belíssimos, variadíssimos tapetes persas. Pessoalmente, numa viagem motivam-me bem mais as construções, os monumentos, a antiguidade, a história, a geografia, os animais e a natureza. Mais até do que as pessoas. Alguns queridos leitores deste blog sabem também que especialmente a arquitetura islâmica. Nenhum lugar tomou tanto de nosso tempo em Esfahan do que a Silk Road Carpet.

                       A loja fica no Grand Bazaar (Bazar-e Bozorg), onde um dos sócios, Bessi, judeu iraniano com um inglês perfeito e sem sotaque nos deu verdadeiras aulas sobre tapetes persas. O Bazaar, além dos tapetes e tudo mais, tem lojas com o melhor e mais fino artesanato, verdadeiras obras de arte, as melhores que encontrei em todo o Irã.

GRANDE Mesquita de Esfahan - A sublime beleza, a perfeição da arte persa  ______________

                       IMAM (Shah) Mosque, ou Royal Mosque ou Masjid-i-Shah é como a chamam. Ela domina o lado sul da espetacular praça Naghsh-e Jahan. É um ponto focal, que atrai e envolve cada espectador daquela praça monumental, com sua beleza e monumentalidade, como exemplo da triunfalidade da arte islâmica expressa em todos os tons de azul-aquarela e amarelo-ouro. Seja em suntuosos, intrincados, gigantescos mosaicos cerâmicos que revestem cada centímetro dos seus quilômetros de paredes e tetos, seja nos estuques de suas abóbodas, no alinhamento de suas colunas. É possível que a tenham chamado de “real” por causa de seu patrono.

          Mas não seria errado pensar que também fizeram a praça assim para enfatizar seu tamanho e esplendor, maior e mais magnífico exemplo de arquitetura da era safávida, modelo máximo de extravagância arquitetônica e ornamental, glória monumental de Esfahan. A data de início de construção da mesquita real é incerta. Algumas fontes dão como 1590, um pouco mais cedo, no contexto do desenvolvimento urbano, iniciado em 1602. Há quem afirme que Abbas a iniciou em 1611. Ali Reza, o calígrafo responsável para as inscrições no prédio, datou a entrada principal em 1616. Embora Abbas exercesse grande pressão sobre seu arquitecto Ostad Abu al-Qasim e sua equipe de trabalhadores, a mesquita estava incompleta quando o Xá morreu em 1628, com setenta de idade. É provável que a obra ainda tenha demorado cerca de dois anos depois disso até completar-se (*).

            Foram dezoito construção, iniciada ou não em 1611, sendo que o suntuoso portal ficou pronto primeiro, provavelmente em 1615, completanto com equilíbrio a contrapartida do o Portal Qeysariyeh - do Grand Bazaar, no lado oposto. 

Com lojas que dão para a praça e para dentro do bazar, uma infinidade de motivos para se perder

        O islã teve impactos notáveis no estilo de arquitetura iraniana, aqui perfeita, incomparavelmente exemplar. Quando vejo um exemplo de arquitetura persa como o desta mesquita sou levado a refletir no que a humanidade é capaz de produzir motivada por religião. Nesta caso - a Mesquita Real, chamada hoje Imam (Shah) Mosque - uma obra-prima, nada mais. Possivelmente não há de se encontrar outro exemplar que a supere em monumentalismo e beleza. Estima-se o uso de 18 milhões de tijolos na sua construção e 472 mil telhas. Com efeito, o edifício deve ser incluído entre feitos arquitetônicos notáveis do mundo. Foram usadas sete cores no telhado e nas paredes: branco, azul, amarelo, turquesa, rosa, beringela e verde, alcançadas com o desenvolvimento extensivo das técnicas de esmaltação durante o século XVII, como a consequente melhoria de sua qualidade. 

                       Nem mesmo o psicodélico interior da pequena mesquita Nasir al-Mulk, de Shiraz, cuja formosura entretanto está no domínio da luz solar, fazendo-a penetrar por vitrais e produzindos reflexos e sombras coloridas, efeitos de iluminação notáveis. Creio que não haja nenhuma obra de edificação mais associável ao islamismo do que uma mesquita. Em tantos exemplos belíssimos arquitetônicos, estruturais, ornamentais espalhados pelo mundo. Da Tailândia à Turquia, do Egito ao Afeganistão, do Irã ao Uzbequistão, da Malásia ao Quirguistão, do Iraque ao Paquistão, do Casaquistão ao Marrocos, de Brunei ao Turcomenistão, da Síria à Jordânia. Sem parar por aqui. Perdi a conta de quantas vezes imaginei estar nesta ou naquela mesquita pela primeira vez e tê-la achado a mais bonita do mundo.

                          Não conheço todas, evidentemente. Mas conheço muitas. E como qualquer um, tenho minhas preferidas: a de Damasco (na Síria), a de Delhi (na Índia), a de Córdoba (na Andaluzia, Espanha), todas as do Uzbequistão (não só de Samarkanda, mas também de Bukhara e Khiva) e, finalmente, a de Esfahan. Não na ordem, necessariamente. Dizem que a mais bonita das mais bonitas é a Mesquita Azul de Mazar e Sarif em Balh, no Afeganistão. Olhando fotografias posso apenas equipará-la às de Samarkanda, mas nunca à de Esfahan. No estilo, todavia, são as que mais me agradam e, provavelmente, também a gregos e bahianos. Mais ou menos como Esfahan, cidade que agrada a todos indistintamente.

                  Mas aqui em Esfahan não apenas nesta mesquita a Pérsia mostrou seus méritos arquitetônicos e ornamentais. O país, e mesmo a cidade, estão cheios de exemplos carregados de arte e perfeição em bom número de mesquitas, praças, palácios que inspirando uma elegante beleza. E ainda que tenham variado em estilo em algumas regiões - especialmente na geometria dos desenhos, nos materiais e no conceito de ornamentação -, com maior freqüência usavam cores em tons de azul turqueza em espetaculares mosaicos de padrões geométricos, florais e com versos do Corão. Alguns são primorosamente revestidos em cada centímetro de suas alvenarias com mosaicos. Outros, revelam o talento de seus projetistas no desenho de suas plantas, nas colunas, abóbodas e nos tetos ornados com estuque em desenhos mais ou menos intrincados.

                   A mesquita de Esfahan é de tirar o fôlego, assim como outros e belos exemplos que vi por todo o Uzbequistão. No Irã, além de Esfahan, da Imam (Shah) Mosque - o melhor exemplo de arquitetura islâmica persa há outras notáveis, como a Sheikh Lotfollah, na mesma praça da cidade, a Nasir al-Mulk, de Shiraz, a Grande Mesquita de Yazd , a Sheikh Safi, de Ardebil, e a Goharshad, de Mashhad.

Primorosa nos mosaicos em sete tons de azul, nas belíssimas inscrições caligráficas

                       A cúpula e o portal monumental são deslocadas no alinhamento da praça, assim como seus quatro minaretes que por si bastariam para torná-la uma entre as mais bonitas que já visitei. No lado oposto à entrada principal do bazar, sua planta tem característica notável, para mim a mais interessante caracterísrtica desta fabulosa construção. O mundo muçulmano contribuiu numa ampla gama de artes com um rico patrimônio cultural da humanidade, mas em particular na arquitetura e na arte islâmica decorativa. Não sem motivo esta obra prima foi tema da fabulosa série Around the World in 80 Treasures, apresentada por Dan Cruickshank na BBC. Digna da classificação, é tão magnífica e impressionante - em todos os detalhes, dos arcos às cúpulas, dos mosaicos às colunas - quanto as de Samarkanda, no Uzbequistão.

                        Dizem que o desenho fundamental de uma mesquita - do ponto de vista da planta baixa - deriva de várias fontes, entre elas algumas até inesperadas: igrejas cristãs e salões de audiências de palácios persas. Mas parte relevante da arquitetura islâmica persa do período safávida foi influenciada pela arquitetura timúrida, do Uzbequistão, feita sob mando e supervisão de Timur. Detalhes que me trouzeram de volta encantadoras lembranças de Samarkanda enquanto visitava Esfahan, das mais lindas mesquitas que já tive o privilégio de conhecer na Ásia Central. Infelizmente esta foi um desafio fotografá-la, de certa maneira uma decepção deparar-me com seu pátio tomado por uma feiosa estrutura de um gigantesco toldo para abrigar os que comemorariam o dia da Ashura, quando xiítas auto-flagelam-se batendo em suas costas e ombros com artefatos metálicos, um ritual de luto pelo aniversário da morte do imã Hussein, neto do Profeta Muhammad.

A estrutura metálica feiosa corrompendo a paisagem

              O Palácio de Ali Qapu, cujo nome significa “sublime portal”, serviu como porta de entrada para um complexo de jardins reais que se estendiam ao longo da Avenida de Chahar Bagh, atrás da praça. Sobre o terraço a corte olhava para a praça e seus jardins, assistia aos eventos, mirava a Mesquita Imperial (agora Mesquita Imam), a Mesquita do Sheikh Lotfollah e o Grande Bazar. O interior é coberto com pinturas atribuídas a Reza Abbassi, pintor oficial da corte de Abbas. Ele e seus alunos criaram cenas naturalistas que incluíam representações de formas humanas e de animais, motivos proscritos na arte islâmica, todavia comumente presentes no período safávida, que tinha tradição na pintura em miniatura.

  Palácio de Ali Qapu

             Contemporâneo deste edifício, ao qual se assemelha, o pavilhão Chehel Soutoun, um prédio construído para entreter delegações, para recepções, festas, recepções e eventos da corte.  Chehel Soutoun é uma das belezas da era safávida de Esfahan. Seu nome significa “quarenta pilares”, porque suas 20 colunas longas de madeira refletem-se na água do lago adiante, dando a ilusão de que são 40. É uma atração importante, ainda que não muito visitada como a praça. 

Palácio Chehel Soutoun (por Eugène Flandin, acima, e por mim, abaixo)

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 NOTAS:

 (*) O livro “Travel Guide to Esfahan, Kashan and More”, publicado no Irã em 2003 pela Rowzaneh Publications de Teherã, edição de 2007 (ISBN 964-334-171-2), com texto e layout de Oksama Beheshti e fotografias de S.A. Hamid Beheshti, conta que o Xá Abbas, presentindo o fim de sua vida aproximar-se, ordenou insistentemente a aceleração dos trabalhos de construção da mesquita. É uma dessas histórias que a gente não sabe se são histórias, estórias ou lendas. Então, Abbas teria ordenado ao arquiteto da corte, Ali Akbar-i-Esfahani, que algumas paredes fossem erigidas antes mesmo da conclusão de suas fundações (!!).

Muito provavelmente é um exagero. Coisa de “quem conta um conto e aumenta um ponto”, porque levantar uma parede antes de suas fundações soa tão ingenuamente elementar quanto incompatível com a inteligência e personalidade do xá. Mesmo que ele fosse quase analfabeto. Todavia, decididamente, o xá não era tolo, e dificilmente um homem com sua visão urbanística e arquitetônica ordenaria tal absurdo. De toda forma, a lenda diz que o arquiteto da corte, Ali Akbar-i-Esfahani, contrariado com a impossibilidade de executar a absurda ordem, e evitando a conhecida ira do tirano, escondeu-se por um lomngo tempo. E quando julgou haver passado tempo suficiente para provar a impossibilidade de executar a ordem do xá, reapareceu e obteve o perdão real (!!).

O homem a quem se atribui a ordem desproposital derrotou turcos, expulsou portugueses da ilha de Ormuz e unificou a Pérsia reforçando a adesão ao shiísmo e estabelecendo o farsi como língua oficial. Na política interna dedicou-se a desenvolver a infra-estrutura econômica do reino. Construíu estradas e pontes, desenvolveu o comércio com a Índia e outras nações do oriente. Foi também o maior construtor da era safávida, deixou exemplos do seu ímpeto construtivo e urbanístico por todo o território do império, sobretudo em Esfahan, uma das mais famosas cidades planejadas do mundo antigo. A idealização e o planejamento urbanístico eram uma característica do monarca, provavelmente a mais notável. Um grande entendedor e promotor da arquitetura, literatura, pintura, caligrafia, cerâmica, têxteis, tecelagem de tapetes e arte em metais, todavia tinha na arquitetura sua paixão maioor, e no planejamento urbano um fascínio. 

 Segundo o arquiteto e arqueólogo francês André Godard a cidade de Esfahan "é acima de tudo um plano urbano com linhas, massas e perspectivas arrebatadoras, um magnífico conceito nascido meio século antes de Versalhes." Para mim, então, é difícil acreditar que um homem que imaginasse tal obra mandasse subir uma parede sem fundações. De todo modo - realidade ou invenção romântica -, a decoração e a ornamentação do interior da mesquita continuaram por algum tempo depois da morte do xá. E mesmo bem depois, em 1630 e 1666, foram dados alguns toques ornamentais.

 (*) Abbasi Hotel -  Aqui não tem jabá,  o que escrevo não tem filtros. Oconteúdo dste blog é um reflexo do que vejo, sou e penso. Não sou blogueiro que escreve por comissão, nem para pagar fam trips ou receber agrados, mimos, presentes e afins. Não faço viagens que não sejam de nossa escolha. Os produtos e serviços aqui mencionados não têm o conhecimento dos mesmos, não são recompensados de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação - e se o fiz foi por liberalidade, com o intuito de informar o leitor. A hospedagem no Abbasi Hotel foi paga por mim, assim como todas as despesas da viagem. Portanto, não viajamos a convite do hotel. Minhas opiniões são independentes, assim como as escolhas, elogios, críticas, menções e relatos. Não há qualquer compromisso, a não ser com a informação, com a motivação e a inspiração do leitor. Cada link ou produto citado é posto com a suposição de que o leitor saiba identificar e perceber os objetivos do blog, que as verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador doserviço em questão.

Fique seguro: este é um blog gratuito para o leitor. Não é necessário doar dinheiro, desconfiar de que as matérias são pagas, ler anúncios disfarçados, supor que o hotel comentado tenha sido por comvite, engolir parcerias, comprar alguma coisa ou receber propaganda subliminar enquanto o lê.

(*) Silk Road Carpet

 

Segunda-feira
Jun232014

PERSÉPOLIS, Irã - 518 A.C. Uma viagem às fronteiras do tempo

 Portão de todas as Nações

                NÃO há viagem mais fantástica do que voltar no tempo. E ainda que seja improvável mover-se desse modo - para trás ou para frente - ou mesmo impossível viver a plenitude desta sensação, chega-se bem próximo de suas fronteiras ao visitar um sítio arqueológico com a idade e a importância de Persépolis: retornar 2.532 anos no tempo, viajar até 518 A.C.

 Portão de todas as Nações

                Nenhuma cidade me encantou especialmente no Irã. Exceto Esfahan. E mesmo assim, não do jeito que mais óbviamente costuma capturar o coração de seus visitantes: por sua magnífica arquitetura persa, seus admiráveis exemplos de obra de arte islâmica. Por ambas eu já fora incomparavelmente fisgado no Uzbequistão - em Bukhara, Khiva e Samarkanda. Àquela altura eu já estava irremediavelmente encantado com aquela elegância indiscreta tão comum ao iraniano. E por sua inconfundível hospitalidade natural, Mas em Esfahan - elegância e hospitalidade foram tão notáveis quanto foi possível sentir uma vibração incomparável na cidade.

 A entrada no complexo, subida da grande escadaria

                Esfahan é alegre, além de acolhedora cidade. É instigante permanentemente sentir tantas coisas especiais enquanto a visitamos. Ainda não consigo decifrar todas. Um dia, talvez, eu possa, quando me dedicar a escrever sobre Esfahan com o cuidado e carinho que ela merece. Ambas - Esfahan e Persépolis - não por menos ocupam os dois melhores lugares da minha memória desta viagem.

 Esfahan: admiráveis exemplos de obra de arte islâmica

PERSÉPOLIS - É preciso tocar para crer

                Ao entrar no complexo e seguir a grande escadaria que leva ao Palácio Apadana, me deparei com um grande painel de relevos esculpidos em pedra. Representando pessoas e animais alinhados em fila, membros dos Estados do Império Aquemênida, as figuras belíssimas trazendo nas mãos presentes para o rei, entre eles egípcios, armênios, etíopes, assírios, indianos. Elas têm cabelos, rostos, barbas, roupas e presentes tão finamente reproduzidos que num primeiro instante foi difícil crer, na possibilidade de que aquilo tivesse sido produzido há mais de 2500 anos e na incrível singularidade dos seus traços. A representação da diversidade cultural e multiétnica  foi tão bem definida naqueles desenhos entalhados na pedra que precisei aproximar os olhos. Mas ver para crer não foi suficiente: aproximei-me ainda mais e foi incontrolável o desejo de tocar.

 Alinhados em fila, figuras belíssimas trazendo nas mãos presentes para o rei

   

                Um par de lamassus, ser celestial protegia os reis persas. Parte humano, parte touro alado, ainda hoje intimida tanto quanto impressiona. É uma das estruturas mais incríveis de Persépolis.

Lamassus, ser celestial a proteger os reis persas em Persépolis

               Tremendamente valorizada pelos iranianos hoje, era a superpotência da época.Vimos famílias admiradas e aparentemente orgulhosas, um sentimento especial que também experimentei enquanto a visitava. Mesmo em ruínas, que o que se vê seja apenas uma pequena fração do original, Persépolis também não deixou barato: ainda que não seja uma cidade, que não haja equivalência ao que seja explorar a urbanidade de Esfahan, que não se experimente um décimo de sua vida e vibrações, o sítio arqueológico é bem mais do que “o mais importante do Irã”, ou que um dos patrimônios da UNESCO mais expressivos do planeta. É um grande orgulho nacional, um imenso privilégio tê-lo visitado, um entusiasmo notável que se sente em Persépolis durante toda a visita.

 Iranianos valorizam Persepolis e os turistas

                 Apesar de Persépolis ser uma das atrações máximas do Irã, estar entre seus pontos turísticos mais notáveis e visitados, tomei algum cuidado com minhas expectativas, sobretudo depois da decepção com Pasárgada. Mas entre os restos de monumentos desintegrados encontrei requintes e detalhes surpreendentes entalhados em pedra, o que me fez compreender que aquela realmente deve ter sido a cidade mais rica do planeta, que permaneceu prosperando por centenas de anos até ser literalmente reduzida a cinzas, quase completamente destruída por Alexandre o grande.

                Hoje é possível ver apenas resíduos de um império, o que sobrou daquelas estruturas fabulosamente ornamentadas, destruídas pelo sanguinário macedônio e suas tropas depois de a invadirem, matarem, saquearem e queimarem tudo o que não conseguiram levar. Para visitar esse incrível lugar paga-se pouco menos de um dólar americano. E nada é mais indicado numa viagem rodoviária entre Shiraz a Esfahan do que após duas horas parar em Persépolis

 Apenas restos do que foi um palácio monumental

                 Quando se entra em Persépolis pelo Portão de todas as Nações a escala monumental das estátuas aladas e das colunas de pedra nos levam a imaginar o quanto deve ter sido monumental o complexo. E quase inacreditável a possibilidade de construir aquilo há mais de 2500 anos sem as ferramentas e meios que temos hoje. Dali em diante tudo o que se vê segue a mesma proporção e do mesmo jeito permanece intrigando. Até nos deparamos com o primeiro dos fenomenais painéis entalhados em relevos. São detalhes cuja qualidade fina e delgada é tão impensável para a época que passam a parecer  inacreditáveis. Todos contam as histórias da grandeza da antiga Pérsia com tamanha perfeição escultórica que torna-se incpntrolável o desejo de tocar para crer.

Numa das ruínas mais fabulosas do planeta, os entalhes mais preciosos

                 Não ficou pedra sobre pedra arqueológica o que significa visitar uma das ruínas mais fabulosas do planeta. Caminhando entre o que sobrou do original, fui encerrando, a cada passo, as possibilidades de voltar ainda mais no tempo da história do Irã. E também a tentativa de aquilatar a real imponência histórica daquele país. Aquelas ruínas (ainda que bem explicadas) são difíceis de compreender, quer por sua complexidade histórica, quer pela opulência e beleza de seus traços. Que ferramentas teriam usado os artesãos há mais de 2500 anos para produzir tal fineza entalhada em pedra?, eu me perguntava. Creio que todas as dúvidas que se acumularam ao fim de minha visita devam também povoar a mente de outros que a visitam. E ainda que o que se vê hoje sejam ruínas, fazem parecer bem menos fabulosa do que antes de ser destruída por Alexandre, o Grande (*), que Persépolis seja apenas uma sombra do que foi no passado, ainda assim é fenomenal.  

Griffin, figura mitológica persa: corpo de leão, cabeça de águia

                Antiga capital do império aquemênida, fica a 70 km de Shiraz, a cerca de 650 km ao sul de Teerã. As magníficas ruínas de Persépolis tocam o pé da montanha Kuh-i-Rahmat, na planície de Marv Dasht, ocupam um imenso terraço elevado, metade artificial, metade natural. Se hoje o que resta é pouco, mas ainda impressionante, imagino o que teria sido no auge do esplendor do império, há 2.532 anos. Fundada por Darius I em 518 A.C., foi tornando-se aos poucos um impressionante complexo de palácios inspirados em modelos mesopotâmicos. De fato não encontrei importância nem qualidade similares em nenhum outro sítio do gênero que eu já tenha visitado no mundo.

 Painéis com 2500 anos  

                Palácios e templos eram protegidos por muralhas que tinham até dezoito metros de altura. Cercavam e impediam a quem não interessava o acesso às incríveis grandezas de um império cujos domínios chegavam ao Egito, à Grécia e Índia. Xerxes I e Artaxerxes III continuaram construindo novos palácios e monumentos, o que ocorreu por cento e cinquenta anos. Dizem que umas 20.000 mulas e uns 500 camelos foram usados para que os macedônios carregassem todo o tesouro saqueado de Persépolis, distribuído entre seus grandiosos palácios. Especialmente os do magnífico Palácio de Apadana, um dos sítios mais importantes com complexo, cuja grandiosidade é possível avaliar observando suas colunas, cada qual com vinte metros de altura. E numa procissão triunfal, deixavam para trás palácios fumegando e corpos mutilados.  

                 O fogo que consumiu Persépolis foi tão destruidor que apenas colunas, escadas e monumentos em pedra permaneceram. Tudo mais foi queimando, especialmente no grande palácio, onde todas as grandes obras não executadas em rocha foram consumidas. O Palácio de Xerxes, que planejara e executara a invasão da Grécia em 480, recebeu dedicação especial de Alexandre o grande, tendo sido especialmente brutal sua destruição vingativa.

                O Irã tem algumas das civilizações mais antigas do mundo, cidades fenomenais igualmente entre as mais antigas que se podem visitar, seja na forma de ruínas abandonadas, como Persépolis, seja nas encantadoras e cheias de vida, como Esfahan.  O país todo é intrigante, mas em nenhum ponto me pareceu tanto quanto Persépolis.

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Notas:

(*) Alexandre III da Macedônia, ou Alexandre o Grande, rei da Macedônia, foi um célebre conquistador do mundo antigo, o melhor de todos os tempos, pois jamais perdeu uma batalha em seu desejo de expansão territorial, desde a atual Grécia até o Afeganistão, passando pela Turquia e o Oriente Médio. 

Terça-feira
Jun032014

JAIPUR, Índia - Doces lembranças, vivas saudades

Uma janela, uma árvore frondosa... BADA GUNBAD - Lodhi Garden, Old Delhi

UMA coisa é ler, outra é experimentar. Para compreender a Índia, é preciso ler. Eu li. Li muito. Tanto quanto pude. Tomei um banho de conhecimento, mas nada igualou-se ao que eu viveria, nada preparou-me sobretudo para enxergar beleza na pobreza. Uma ironia? Talvez.

É possível que àquela altura eu já estivesse ensandecido com a Índia. Ou arrebatado, sei lá. Mas viagens são assim, nos pregam peças: seis dias na Índia e eu pensava já ter experimentado tudo. Mal sabia que a Índia ainda me deixaria tantas marcas, que me revelaria tantas surpresas, traria experiências tão memoráveis e sensações tão inesquecíveis. Àquela altura o coração ainda não apertava de saudades, a viagem ia em meio e os dias eram cheios, mas foi no sexto dia que eu comecei a perceber que teria uma enorme sede de voltar. E um ano depois, ao retornar, que a sede seria insaciável. 

HÁ viagens assim, que entram na gente, grudam, não nos deixam jamais. Parece que nunca regressamos delas. Todas têm suas surpresas, é verdade, mas algumas são mais inquietantes, mexem mais com a gente, alteram nosso estado de espírito, abrem janelas e portas,  passagens suntuosas pelas quais ingressamos e do outro lado saímos transformados. No modo de viajar, no de enxergar o mundo, em como olhar as pessoas e compreender as diversidades. Deve ser assim com todos os que viajam por prazer. E para onde escolhem, onde sentem o êxtase que é viajar. E jamais voltam pra casa inalterados. Os que escrevem, ao voltarem, percebem que precisam de todo cuidado, porque escrevero destino, descrever a viagem e suas experiências é uma sujeição permanente aos excessos, erros mais comuns de quem viaja e encanta-se. À Índia, o exagero é exceder-se nos adjetivos, escorregar nos estereótipos, arriscar-se a descrever o que viu mas não enxergou.

LOTADA, suja, pobre, barulhenta, fedida e estressante, é a mais pura verdade. Mas também encantadora, monumental, bonita e emocionante. Foi assim que eu percebi a Índia, uma terra exótica de história, patrimônio, cultura, cores e sabores em tal diversidade que qualquer viagem pra lá é um sem fim de venturas e aventuras. E todas sublimes.

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JAIPUR, 12 de Novembro de 2010

Forte Amber 

ERA nosso sexto dia na Índia. Depois do cosmopolitismo de Delhi, do romantismo de Agra, das surpresas com Fatehpur Sikri, da escapada à pequena Sikandra - onde visitamos a Tumba de Akbar, obra prima da arquetetura mogol -, fomos a Jaipur, outro esplendor do passado mogol. Sete horas de estrada depois, chegávamos a esse microcosmo da Índi: Jaipur.

Eu não fazia idéia da cidade. Mas me pareceu limpa. Especialmente comparada a Agra, que por vezes parecia uma lixeira com uma cidade dentro. Vacas, cães vadios sarnentos, cabras, lixo, cores, caos de movimento, aromas intrigantes, por vezes nauseantes, gente, vendedores de tudo, sobretudo de pedras "preciosas", miséria, fedor, fezes, esmolés, amputados, deformados.

O céu era leitoso, aquele misto de poluição e névoa característico da Índia. A cidade era só um pouco mais serena, a realidade, todavia, continuava cruel, ainda que menos insistente que a de Agra. Levei mais tempo do que imaginara para curtir-me dos males que a miséria indiana produz. As cenas que meus olhos já andavam se acostumando, o estômago ainda não conseguia digerir.  

Turbante rajastani, safa (*)

FOI em Jaipur que percebi pela primeira vez a diferença entre miséria e pobreza. E o gigantesco contraste entre riqueza e pobreza. Mas ainda não era fácil ignorar as crianças. Continuavam lindas, apesar de toda a sujeira grudada em seus rostos. Os olhos - sempre escuros e grandes - revelavam o mesmo sofrimento, um olhar penetrante, mas doce. Pediam esmola. Metade de mim queria dar-lhes, a outra racionalizava negando o que pediam.

Lindas, doces, apesar de toda a sujeira grudada em seus rostos

O coração apertava diante da aberração, daquele contraste com tantas crianças igualmente lindas, mas saudáveis, bem nutridas, vestidas e amparadas, como tantas que vimos, sozinhas ou em grupos de escolares uniformizados em excursões pelo país.

  AO fim de nosso "ciclo indiano" (o tempo que passamos na Índia), acabei criando um véu. Era uma espécie de proteção, tentativa de evitar desconforto e conflitos. Eu endureci. E me envergonhava disso. A vontade era abraçá-las. Todas. Sobretudo não ignorar seus dedinhos batendo no vidro do carro ou puxando a manga de minhas camisas. Sempre que podia, eu o fazia. 

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Taj Rambagh Palace (*)

- Welcome, sir. Welcome, ma'am... Abriram as portas de ambos os lados do carro e retiraram nossa bagagem. Descemos e fomos conduzidos pelo Lobby à Recepção. Puro êxtase reviver a realeza, chegar ao hotel. Foi quase emocionante, especialmente depois de sete horas de estradas indianas.

O Taj Rambagh Palace é um extrato retificado, o sumo concentrado levado à última fase de apuramento, ao mais alto grau de requinte, auge, cume, quintessência do luxo e da nobreza rajputs. Hoje não é preciso ter sangue azul ou ser convidado dos marajás para viver como eles por uns dias na Índia. No Rajastão, basta hospedar-se num dos inúmeros palácios da época hoje convertidos em hotéis luxuosos. Em Jaipur, o Taj Rambagh Palace, palácio que ocupa 47 hectares, ainda é a mais elegante, icônica e atmosférica construção da cidade. Voltamos no tempo, à realeza de 1835. 

O antigo pavilhão de caça, escola privada da realeza, foi convertido em hotel em 1957, o primeiro num sítio histórico da Índia. Talvez ainda seja favorito das estrelas de Bollywood, de Hollywood e de socialites. O hotel é uma atração, vale tanto visitá-lo quanto dormir nele. Os hóspedes recebem um tratamento que provavelmente era o dispensado à nobreza. A sensação de grandeza nos acompanha por toda estada. O Rambagh Palace foi um dos grandes entre os enormes destaques hoteleiros desta nossa viagem à Índia.  Dos serviços ao "palace room", do spa aos  restaurantes, das instalações à ambientação, tudo foi absolutamente tão fabuloso, uma experiência tão inesquecível...

... que sequer precisávamos cruzar ao fim de cada jornada turística com Judi Dench e Maggie Smith no lobby, quando retornavam do set de filmagem de "O Exótico Hotel Marigold", hospedando-se no mesmo hotel. Não sou chegado a demonstrações típicas de fãs, mas não vou negar que fiquei encantado com aquelas duas damas do cinema. Também não recebermos o convite para um breve passeio pela cidade, no carro original do marajá, conduzido por um motorista atencioso que trajava um belo uniforme e um turbante pag rajastani, comprido, que vai até quase os pés.

O Palácio Rambagh evoca as melhores imagens da nobreza indiana. Por quase dois séculos foi ocupado por gerações de membros dessa realeza. Em 1925 foi convertido em palácio, passou a ser residência do Marajá de Jaipur, onde  permaneceu até 1957, quando então foi convertido em hotel de luxo pelo Marajá Sawai Man Singh II.  Em 1972 a cia. Taj Hotels Resorts and Palaces assumiu a operação do empreendimento. Passou então a ser uma das "jóias da coroa" entre os hotéis-palácios da Índia. E mantém na melhor tradição da hospitalidade a sua majestade.  

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A Cidade de Jai - Doces lembranças, vivas saudades.

CIDADE da inovação, da criação, Jaipur é rosa, toda rosa, a cor que a reveste suas fachadas, uma homenagem ao Príncipe de Gales quando a visitou em 1853. Desde então tornou-se moda, caiu no gosto popular, virou tradição. O monocromatismo pode até sugerir tédio, mas ao contrário, revela-se gracioso e simpático. A cidade de Jai faz parte de um roteiro lógico pelo Rajastão. Seja por sua localização central, seja pelas boas conexões com o restante do país. O nome foi inspirado no de seu fundador, o guerreiro e astrônomo Maharaja Sawai Jai Singh II, de um império - o mogolque nasceu em 1526, começou seu ocaso no início do século XVIII e acabou em 1857, com o início da do domínio britânico.

O projeto urbanístico é de 1727, quando o império mogol enfrentava seu declínio e Jai Singh decidiu mudar-se da fortaleza no alto do morro para um novo lugar na planície. Assim nasceu Jaipur, cidade planejada, desenhada pelo arquiteto bengali Vidyadhar Bhattacharya com nove setores retangulares que simbolizam as nove divisões do Universo. 

O Hawa Mahal. 152 janelas com treliças

A despeito de sua idade, Jaipur tem um plano moderno: a planta é em grade, na qual ficam os edifícios públicos, as residências nobres, os alojamentos e o comércio, com claras divisões reservadas aos ricos, à classe média e às pessoas comuns. Em linhas retas, ruas largas cruzam a cidade. Um muro alto fazia sua defesa, por onde sete passagens monumentais permitiam a entrada controlada. Ainda permanecem, mas quase escondidos por um crescimento que os foi engolindo. 

JAIPUR é uma grande atração turística. Entre os indianos e os estrangeiros. Tem um charme meio romântico, mas sei lá se é assim que todos a vêem. Mas pra mim à algo comum às demais cidades do Rajastão, talvez pelo que resta de uma realeza que já não há, mas que ainda está sedimentada em tradições, história e cultura. Andando por ela, por vezes o passado ganha ares de presente, especialmente ao visitarmos os magníficos palácios e fortalezas onde viviam marajás. Parece que o passado é mais explícito que o presente.

Jaipur e seu plano moderno, com planta em grade 

Palácio do Vento, o Forte Amber, o Observatório e o Palácio da Cidade  

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O Hawa Mahal

Construído em 1799, é o monumento mais reconhecido de Jaipur. Tem cinco andares de uma curiosa arquitetura semi-octogonal composta por 152 janelas com treliças. Um bela peça que mistura arquitetura rajput com arte mogol. Originalmente foi concebido para que as mulheres da côrte pudessem assistir as procissões, cortejos e festivais, assim como a vida cotidiana na rua abaixo, sem misturarem-se a ela. O palacete é apenas um cenário, nada mais que um paredão de janelas com um interior inexpressivo. É apenas um lugar onde as mulheres reais praticavam o voyerismo. 

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O Palácio da Cidade

UMA grande área dividida por uma série de pátios, jardins e edifícios. Jai Singh construiu o muro externo e novas adições foram feitas mais tarde, algumas no início do século XX. O Tripolia Gate - a entrada principal do Palácio - era usado exclusivamente pela realeza. Visitantes entravam pelo Atish Pol, poucos metros adiante.  Pátios, jardins e edifícios abrigam estruturas palacianas como o Chandra Mahal, o Mubarak Mahal, o Taj Badal, o Shri Govind Dev Temple e o City Palace Museum.

 

  Amber Fort

HÁ um portão magnífico, uma pesada estrutura de metal na abertura para o pátio senhorial. Nesse primeiro pátio fica o Mubarak Mahal, ou Palácio Auspicioso, que abriga o setor têxtil do Maharaja Sawai Man Singh II no que é hoje um museu.  É um edifício de dois andares construído em 1890 como casa de lazer e repouso do Maharaja Madho Singh II, mais tarde usado como Khas Mahakma, uma espécie de secretaria geral. Atualmente funciona como aposentos da guarda real do museu, que contém com uma coleção de roupas e têxteis. Há também a Torre do Relógio, perto do Mubarak Mahal, e o pavilhão Sileh Khana, com uma coleção de armas.

O Diwan-E-Am (Sala de Audiência Pública) tem decoração intrincada e uma coleção de manuscritos, seu tesouro. Também se destaca na arquitetura e ornamentação o Diwan-E-Khas (Sala de Audiência Privada),  um grande espaço aberto com uma dupla fileira de colunas de arcos recortados em estilo hindu. Adiante fica o Chandra Mahal, ou o Palácio da Lua, majestosa, graciosa residência de sete andares do ex-governante e ponto central do complexo, com belas vistas dos jardins e da cidade. Os apartamentos são mantidos em ordem, com o mesmo luxo. O museu de Maharaja Sawai Man Singh II tem uma extensa coleção de arte, tapetes, esmaltados e armas antigas. que abriga os presentes ofertados oficialmente ao Marajá de Jaipur. Dali é que se tem a bela vista dos jardins e da cidade. Pinturas, decorações florais, paredes e tetos com espelho adornam o palácio. Todo o lugar tem beleza e luxo.

No piso térreo do Chandra Mahal, fica o museu do Maharaja Sawai Man Singh II, com uma extensa coleção de arte, tapetes, louças e armas do século 15. As pinturas, especialmente, incluem peças do Rajastão, persas e mogóis. Há uma seção com vestidos e trajes dos antigos marajás e maharanis, esposa do marajá, de Jaipur. De frente para o Chandra Mahal ficam o Taj Badal e o templo Govind Devji.  O Pol Atish, portão principal do palácio, leva ao grande pátio no meio do qual fica o Mubarak Mahal, em mármore branco.

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O Amber Fort

Jaipur tem três fortalezas surpreendentes: Amber Fort, Jaigarh Fort e Nahargarh Fort. Mais além dos palácios e das outras atrações da cidade, nossos olhares e curiosidade fixavam-se neles mais do que em qualquer outra atração. Exploramos o fabuloso Amber Fort, o mais imponente e glorioso deles.

Pela estrada que contorna o sopé da colina onde no todo está o forte, magníficas paisagens surgem pela janela do carro. Vez por outra, a superfície do Lago Maota refletia e duplicava a paisagem, formava ângulos, cenários formidáveis. Neste ponto a imponência da muralha se sobrepõe a tudo mais que há no interior do palácio. Quando nos aproximamos, por trás do lago, pudemos ver o vai e vem de elefantes carregando turistas, vencendo o íngreme caminho até a Pol Suraj, portão monumental que dá acesso ao complexo. Uma opção turística às escadarias que o povo usa. Dali vimos o palácio-fortaleza envolto pela bruma indiana, aquele ar leitoso eterno na Índia. E dali mesmo já era possível notar que estávamos para visitar mais um exemplo da notável arquitetura rajput-mogol do século16.

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Os elefantes de Amber

É uma daquelas coisas turísticas que nem Ganesh, Shiva ou Parvati juntos fazem a gente escapar na Índia. Os elefantes de Amber são muitos. Dizem que há pouco mais de 100 deles trabalhando em regime rotativo. Todos os dias, caminham 22 quilômetros para ir e voltar de Mahavaton-ka-Mohalla - na cidade velha de Jaipur - até sua base no Forte Amber. Chegando lá, carregam turistas, dois de cada vez, do sopé ao topo da colina. A viagem dura 20 minutos. É uma subida dura. Para eles, claro. Por isso fazem apenas 5 viagens por dia, segundo determina o Elephant Welfare Office, entidade criada para proteger esses incríveis animais, sobretudo depois que os turistas começaram a protestar contra os maus tratos aos animais. O governo atuou, construiu a base para eles junto ao forte e controla seu trabalho, fazendo com que descansem e recebam tratamento e manejo adequados.

Cada subida custa o equivalente a 13 dólares.  Ficam ainda mais bonitos "vestidos" com pinturas coloridas em suas trombas, faces e traseiros. Sentamo-nos no assento às costas do elefante. As pernas vão pra fora, mas alguns cruzam-nas sobre o assento. Fotografar é quase impossível. Ao menos obter bons resultados. O “passeio” é inconfortável, instável, mas curioso e interessante, mas não vou esconder que tive ímpetos de saltar em movimento, atender à vontade de seguir o caminho a pé.

Assim que chegamos ao ponto de embarque a ansiedade cresceu na mesma proporção da fila de turistas. Estávamos encantados com a vista enquanto aguardávamos nossa vez de embarcar num dos animais. Já podíamos enxergar a escada e a plataforma de embarque, e nem mesmo os insistentes vendedores ambulantes conseguiram subtrair meu entusiasmo por estarmos ali. Dão nos nervos. Afinal, são mil turistas por dia pra embarcarem nos elefantes ao topo da colina. A subida parece organizada, elefantes subindo pela esquerda, descendo pela direita, obedecendo à mão inglesa. Mas a condução é indiana, naquele estilo "indian way of drive" das ruas e estradas: colado ao da frente, pressionando por passagem, sobretudo os mais lentos. Qualquer lacuna, ainda que improvável, para uma ultrapassagem.  

O nome Amer ou Amber deriva de Ambikashwar. Paredões poderosos protegiam o forte contra invasões. É o que dá sua aparência externa áspera, grave, sisuda, fechada. O interior não, é relaxante e acolhedor. O interior é fabuloso: um palácio que tem no seu projeto a melhor expressão das artes decorativas e arquiteturas mogol e hindu, ambas unidas em mais um projeto das Mil e Uma Noites entre tantos que vimos na Índia. Composto por um enorme complexo de portões, praças, escadas, pavilhões e palácios construídos por astutos marajás que assim nestas fortalezas conseguiam proteger seus bens de insasores. No interior do complexo as principais atrações chamam-se Diwan-e-Aam, Diwan-e-Khaas, Ganesh Pol, Jaleb Chowk, Singh Pol, Jai Mandir, Yash Mandir, Sukh Mandir, Sheesh Mahal, Suhag Mandir, Shila Devi Temple, Bhool Bhulaiya e Zanana Dyodhi.

A arte decorativa do interior do forte é encantadora. As paredes são adornadas em estilo rajasthani com belas pinturas retratando a caça - esporte predileto dos rajputs - e a guerra, porque afinal, eram guerreiros, aventureiros, revolucionários e conquistadores. Também há trabalhos decorativos com pedras preciosas, espelhos e estuque.

O Salão dos Espelhos, como no Forte de Agra e tantos outros no Rajastão, me pareceu o mais bonito, delicado e elegante. Dizem que apenas uma vela bastava para iluminar todo o salão, pois a luz refletia-se em milhares de pequenos espelhos que revestem o interior. Mas tem também o Ganesh Pol, caminho para os apartamentos reais, com uma imagem de Ganesha esculpida numa única peça de coral. Sobe-se a escada até o Diwan-i-Am, onde o marajá costumava ouvir o público e suas petições, um lugar que se destaca por duas fileiras de colunas. No terceiro pátio estão outras residências reais, o Jai Mandir (Hall of Victory) com a seus mosiacos e esculturas, e do lado o oposto o Niwas Sukh (Hall of Pleasure), cuja porta de madeira é feita em sândalo, onde um típico canal corre no interior da sala para descer a temperatura no verão.  A partir dali, a vista do Lago Maota é a mais clara. É até possível enxergar patos nadando. O Zenana (Ladies House) ocupa boa parte do forte e abriga os quartos femininos.

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O Observatório Jantar Mantar

Uma coleção de instrumentos astronômicos-arquitetônicos. É curioso, apenas curioso. Entre os outros mais reconhecidos e visitados monumentos turísticos de Jaipur, construído no século 18 pelo Maharaja Sawai Jai Singh II, onde enormes instrumentos que servem à observação dos astros e seu estudo, entre os quais se destaca o enorme Relógio do Sol. Foi neste monumento que achei as pessoas bem mais atraentes e interessantes do que a atração em si.

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O Sri Jagat Shiromani Temple, Amber, Jaipur

Um oásis de tranquilidade, sem turistas. No caminho para o templo construído por Sringar Devi Kankawat, mãe de Jagat Singh, um edifício-escultura em mármore - do torana ao chatri de Garuda e ao templo em si, dedicado a Radha-Krishna - construção iniciada em 1599 e concluída em 1608, passamos por alguns dos lugares mais tranqüilos, serenos desta agradável esticada a um sítio não convencional em Jaipur.

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(*) Aqui não tem jabá. O que escrevo não tem filtros, é um reflexo do que vejo, sou e penso. Não sou blogueiro que escreve por comissão, nem para pagar fam trips ou receber agrados, mimos, presentes e afins. Não faço viagens que não sejam de nossa escolha. Os produtos e serviços aqui mencionados não têm o conhecimento dos mesmos, não são recompensados de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação - e se o fiz foi por liberalidade, com o intuito de informar o leitor. 

A hospedagem no Taj Rambagh Palace foi paga por mim, assim como todas as despesas da viagem. Portanto, não viajamos a convite do hotel. Minhas opiniões são independentes, assim como as escolhas, elogios, críticas, menções e relatos. Não há qualquer compromisso, a não ser com a informação, com a motivação e a inspiração do leitor. Cada link ou produto citado é posto com a suposição de que o leitor saiba identificar e perceber os objetivos do blog, que as verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador doserviço em questão.

Fique seguro: este é um blog gratuito para o leitor. Não é necessário doar dinheiro, desconfiar de que as matérias são pagas, ler anúncios disfarçados ou receber propaganda subliminar enquanto o lê.

 Taj Rambagh Palace 

http://www.tajhotels.com/Luxury/Grand-Palaces-And-Iconic-Hotels/Rambagh-Palace-Jaipur/Photo-Gallery.html

Virtual tour 360 graus

http://taj.photowebasia.com/rambagh-palace/index.html

 (*) Shilpa Shastra é o termo usado para descrever a ciência antiga, cujos textos descrevem as normas para a iconografia religiosa hindu - como por exemplo prescrever as proporções de uma figura humana esculpida - assim como algumas regras da arquitetura. A literatura pertinente à ciência tem sido fonte de estudos de escultores e arquitetos para a compreensão dos projetos de templos e fortalezas por toda a Índia. O Shilpa Shastra é composto por textos principais chamados Mukhya shastras e por versões concisas chamadas Upashilpas. A maioria desses trabalhos foram escritos em sânscrito, mas há muito escrito em tâmil. O Vastu Shastra contém textos antigos, medievais, relacionados ao planejamento urbano e à arquitetura que assumiu enorme importância entre os bem-educados e afluentes na Índia urbana.

(*) São dois tipos de turbantes rajastanis: o safa, tira de tecido de cerca de nove metros de comprimento e um de largura, enrolada na cabeça, e o pag, semelhante, também de tecido, mais comprido, indo até quase os pés.

(*) Venturas e aventuras

 Ventura
ven.tu.ra
f (lat ventura, de venturu) 1 Fortuna boa ou má. 2 Sorte, acaso, destino. 3 Sorte feliz; felicidade. 4 Fortuna próspera. 5 Risco, perigo. Antôn (acepções 3 e 4): desventura. À ventura: ao acaso, à sorte, à toa. Por ventura: por acaso, talvez.

 Aventura
a.ven.tu.ra
sf (lat adventura) 1 Acontecimento imprevisto. 2 Ação ou empresa arriscada. 3 Conquista amorosa. 4 Sucesso romanesco. 5 Patuscada. 6 Risco. 7 Acaso, sorte.