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Terça-feira
Mar252014

Cada vez se lê menos, se escreve pior e se quer ganhar mais fácil 

                 NÃO há nada melhor nem mais digno do que ganhar dinheiro honestamente. Sobretudo com trabalho. E se o trabalho for bom, então, nem se fala: é a glória dos trabalhos remunerados. Blogs dão trabalho. E muito. Quem tem um, sabe. E ainda que sejam poucas, há boas e honestas maneiras de remunerá-lo, de ganhar algum dinheiro sem ter que vender a alma ao anunciante, escrever post patrocinado (disfarçadamente ou não), ter a vida (do blog) mediada pela monetização, escrever sobre viagens e destinos para os quais foi pago para visitar e encher uma página com anúncios horrorosos.

                  Entretanto, nem todo blogueiro que almeja ganhar dinheiro com um blog age com respeito ao leitor e ao mercado, senão focado em seu bolso. E ainda que isso não seja privilégio da atividade (sempre tem gente - de artista a profissional liberal - se vendendo ao mercado, pagando e recebendo jabá, às vezes até por qualquer merreca ou mimo). É o que diferencia os desprezáveis dos respeitáveis.

                  Vejo agora surgir uma nova modalidade nessa onda da monetização os blogs. A "onda" dizimou meu interesse nos blogs e crer que parte substancial dos leitores de blogs, não só os de viagem. A onda da monetização, quero deixar claro, não a modalidade a que me refiro: pedir dinheiro ao leitor através de doação.  Trata-se de um “financiamento coletivo”. Chama-se crowdfunding e consiste em amigos, família e estranhos ajudarem um blogueiro a custear seu blog através de doações, ajudando a mantê-lo e eventualmente até a remunerar o blogueirro, dando lucro. É algo tão simples quanto genial. E para mim, o grande mérito do crowdfunding é obrigatóriamente ser transparente: se você gosta (e acha que deve), doa um dinheirinho e pronto! Sem constrangimentos. Continua lendo seu conteúdo, satisfeito por ter ajudado alguém que o agrada. Mas se não doar, também continua a ter acesso livre ao mesmo blog. Não há qualquer censura ou restrição a quem não retribuiu. Bacana isso, não?

                 Se eu contribuí? Não. E nem o faria. Mesmo apoiando a iniciativa, gostando muito de alguns blogs e de seus autores. Não o fiz e nem o faria. E sem contrangimentos, porque conceitualmente, mesmo vendo mérito em remunerar alguém que escreve e publica um blog, se históricamente ele o fez, foi por inciativa própria, amadoristicamente e por prazer. Portanto, não vejo porquê eu deva remunerá-lo quanto seu autor decidir no meio do caminho passar a cobrar pelo que fez e faz. Assim, seu patrimônio informativo é público, gratuito. Se o publicou assim, gratuitamente, foi porque quis. E não me sentiria nem um pouco culpado (ou como recomendado por uma leitora na caixa de comentários, "responsável") caso seu autor (por mais admirável que eu o considerasse, não conseguindo manter seu blog resolvesse encerrá-lo não obtendo sucesso em angariar soma necessária (ou esperada) para que seu blog continue ativo.

                 Comparo a prática a alguém tomar a iniciativa de jogar-se num trabalho voluntário, ter imenso desgaste físico, gasto de tempo e algum custo financeiro e no meio do caminho resolver cobrar pelo que faz. Eu mesmo tenho imenso trabalho com o Fatos & Fotos de Viagens, todavia jamais cobraria a responsabilidade da minha remuneração aos meus leitores, sobretudo através de doações. É uma questão meramente conceitual: meu trabalho é voluntário. Se algum dia eu não puder suportá-lo, resolver ganhar dinheiro com ele (algo profundamente digno e justificável), procuraria outra forma de remuneração tão digna e transparente quanto a do crowdfunding). Provavelmente seria através de anúncios. Ou vendendo produtos produzidos por mim, desde que não ambos comprometessem a credibilidade do meu blog nem as minhas opiniões.

               Todavia o crowdfunding surgiu no Brasil. É assunto passageiro, não tenho dúvidas. Ainda que eu olhe pra isso com atenção e respeito, é muito pequena a possibilidade de alguém ganhar dinheiro (substancial e representativo, quero dizer) com um blog de viagens, sobretudo através de doações. É tão pequena que não passará de ser. É tão óbvio que a remuneração será irrisória que não me compensaria o custo do desgaste conceitual que ela me acarretaria. Esta é apenas mais uma tentativa equivocada de monetização, entre tantas que ajudam a afundar os blogs de viagens, direta e indiretamente. Blogs já foram populares, onde reuniam-se multidões de fãs, de leitores e comentaristas. Até mesmo “comunidades” formavam-se ao seu redor. Hoje não. É difícil pensar em mídia mais decadente no Brasil do que a blogosfera em geral com fins lucrativos. E o que era comunidade virou panelinha. Comentários? Agora são um, dois, no máximo três, incluindo-se no total as respostas do autor. Blogs profissionais com dois comentários (e às vezes nenhum!) em cada post é uma realidade muito mais importante que a quantidade de visitantes.

                Tirando os blogs de moda e os de cíticas de comidas (reconhecidamente os reis da jabalândia), o resto só cai em audiência, sobretudo comentários. E alguns por razões muito óbvias, outros nem tanto. O tema "viagem" nunca teve nem terá para a sociedade brasileira o mesmo "peso" de importântia e atração que os temas "moda" e "gastronomia".

                 O “Zarpei - Diário, Fotos e Aventuras pelo Mundo”, por Adriano Teles (não conheço e jamais havia ouvido falar até epsquisar o assunto), foi o primeiro que conheci a adotar o crowdfunding. Agora o Gabriel quer viajar acaba de lançar seu blog às doações voluntárias. Se alguém deve ou não patrocinar e suportar um blog é questão pessoal. Até mesmo o do Gabriel, que me cabe incentivar, e torcer a favor, porque, volto a dizer, além de ser prática digna de suportar, sobretudo porque (ainda) é um blog para se levar a sério. Mas o assunto, por certo, renderá algum debate. E, naturalmente, obterá apoio de uns e desaprovação de outros. Todavia, estou me referindo ao crowdfunding como uma campanha decente para angariar fundos, limpa e transparente, sem subterfúgios ou meias-palavras. Como o Grabriel: claro, sperio, objetivo e transparente. Nesse pântano de sacanagens em que se consagra a monetização dos blogs, o crowdfunding é uma bóia no mar de lama. E o Gabriel um sujeito que merece estar na bóia.

                Já há até sites especializados em crowdfunding no exterior. Conceitualmente alguns são um pouco mais amplos, como o Trevolta,  nova start-up cujo objetivo é suportar alguém que queira obter dinheiro através de doações para seus projetos. É bacana. É muito bacana. Eu, por exemplo, apoiaria projetos com os quais eu simpatizasse, desde que tivessem nascido com esse objetivo: remunerarem-se através de doações.

                O novo conceito - engenhoso - de angariar fundos para financiar algum projeto por quem se inspire em idéias, trabalhos e projetos de terceiros, tem também no GoFundMe - The World’s #1 Personal Fundraising Websites – um crowdfunding pra qualquer pessoa e qualquer evento, e no Fundly, outro site de doações, opções para qualquer pessoa facilmente doar dinheiro on-line. O Fund your travel, por exemplo, é específico para quem busca fundos para empreender viagens. Viagens patrocinadas mas particulares. E quem pesquisar o assunto encontrará dezenas de outras alternativas. 

                Há outras maneiras - bem mais trabalhosas - de ganhar dinheiro com blogs. Entre elas a que eu mais apoio e simpatizo, a que torço efusivamente pelo sucesso, e para que sejam rentáveis e remunerem verdadeiramente o trabalho dos blogueiros que a praticam: a venda de produtos produzidos pelo próprio blogueiro: guias de viagens.

              É o caso do Tony Galvez, fotógrafo e viajante, que junto com sua esposa Cecília Galvez produzem guias de viagens extremamente bem feitos, ricamente ilustrados, bonitos e muito úteis. Tenho a maior admiração por eles. E são o melhor exemplo de dignidade no trabalho, de profissionalismo, de seriedade, de compromisso com o leitor. Decididamente estão entre os raros blogueiros profissionais não vendidos. Em toda a sua trajetória, jamais deram um passo com o qual eu discordasse, fosse produzindo livros fotográficos encantadores, seja agora com seus guias de viagem  bacanas e mais bem feitos de toda a blogosfera. São GUIAS de VIAGEM, não folhetinhos, panfletos. Trabalho minucioso. O Passaporte BCN é um deles. O primeiro trabalho bacana, caprichado e aparentemente tão cuidadoso quanto posso imaginar a capacidade do casal de fazer outros iguais. Agora lançam Sevilha e Zaragoza, já disponíveis no seu site para compras. Desejo tanto, mas tanto sucesso a ambos que vou comprar alguns exemplares para presentear a amigos viajantes, especialmente àqueles que me pedem dicas de viagens para estes destinos. Mesmo que já tenhamos a honra de termos sido presenteados.  Além de amigos pessoais que respeitamos e admiramos, Tony e Cecília são profissionais que enxergam os blogs de viagem duma maneira tão rara, com a qual melhor me identifico, que não posso deixar de incentivar e divulgar seu trabalho. E porque fazem algo efetivamente consistente, diferentemente de todos os outros blogs profissionais.

                 Os sintomas da perda de interesse pela blogosfera não estão apenas no rumo que ela tomou. A decadência é um tanto mais óbvia: a saturação digital e a busca por novidades de quem usa a Internet. Mas os motivos da decadência nem sempre são tão evidentes, ao menos não tanto quanto os que levaram (e ainda levam) ao declínio a banda mais antiga das redes sociais: Orkut, Facebook e Twitter, nesta ordem. É certo que a velocidade que acaba com alguns blogs não é igual a que acaba com outros, assim como tais efeitos não são tão devastadores para uns quanto para outros. 

                  A base de toda rede social é, em si mesma, um dos motivos porque todas acabam morrendo: qualquer um publica o que deseja, com ou sem critérios: verdades, inverdades, superficialidades, conteúdo sério, mentiras, difamações, piadas, coisas romantiquinhas, mensagens bobinhas, comunicados importantes, banalidades, notícias consistentes, politicamente corretas, opostamente incorretas, assuntos genuínos ou publicados por jabá e/ou dirigidos pela monetização. Ainda que haja muito menos blogs caça-níqueis e blogueiros vendidos do que blogs e blogueiros honestos, as vantagens da liberdade de cada um fazer o que bem entende na Internet acarreta riscos e tem suas conseqüências em toda a blogosfera. Óbviamente, nem sempre positivas: todos colhem respectivamente seus frutos e a blogosfera passa a valer pelos ruins não pelos bons.

                 Como diz a matéria da Revista Época de 17 de Março (2014, edição 824) -Chega de Facebook, cansados de estar em lugares onde todos estão, os usuários de Internet buscam alternativas no universo das redes sociais". E a mais popular de todas elas - Facebook - assim como os blogs, acabarão um dia.

                 É por essa razão que os geniais criadores de mídias digitais inventam dezenas de outras, cada qual com sua peculiaridade, segmentação e especificidade. A matéria da revista relaciona 50 redes sociais criadas para quem quer fugir da mesmice. São opções ou quase desconhecidas ou estrondosamente populares. Todas atraentes para quem procura novidade e cansou-se de "postar", "curtir" e "cutucar", bobices ou não, até de expôr-se digitalmente. Quase todos se cansam da mesmice e da popularidade excessiva. E nesse mundo das redes sociais (entre as quais incluo os blogs), a popularidade pode ser tão desastrosa quanto o populismo é para a política. Todo pântano em que se escondem as imundícies um dia secam, e trazem à tona a sujeirada escondida abaixo da linha da superfície. E quem vive se vangloriando de seus milhares de likes e seguidores não percebe que nem um nem outro atestam qualidade, honestidade e transparência. 

O fato é que estamos em crise!

                 Nós não, o Brasil, caro leitor. Em crise generalizada. De excelência, de qualidade, de credibilidade, de seriedade e às vezes de falta de vergonha na cara. No campo ds blogs, por exemplo, a crise é bárbara. Vejam só o e mail que recebi dia desses, de um tal "searchlaborator" (que diabos será isso?!) me oferecendo "post para o seu blog":  "Olá, Alexandre! (eu me chamo Arnaldo!). Primeiramente, parabéns pelo blog. Achei o conteúdo muito bacana e divertido de ler. (legal seria se ele não dissesse o mesmo pra todos). Estou trabalhando em nome da Sony (!) e gostaria de saber se posso oferecer (!!) um post para o seu blog (!!!). Seria sobre notebook e tablet, de como eles podem ajudar muito a vida de um viajante (!!!!). O post seria único e conteria um link para o site da Sony. (legal, de novo. A pobrezinha da Sony paga você pra oferecer propaganda de graça em blog alheio!)

 Estaria interessado? (não, obrigado, Marcelo!) Se sim, por favor, entre em contato no email.

 Saudações,

Caio Blanco

Online Marketing Researcher

www.searchlaborator

 Minha resposta:

 "Caio Blanco (foi duro resistir à vontade de chamá-lo de "Caio Neglo"), o Fatos & Fotos de Viagens não publica posts patrocinados nem propagandas gratuitas.De qualquer natureza, tenham ou não relação com o blog. De notebook a caminhões, de hotéis a destinos. Todavia, havendo interesse da Sony (ou de muitos outros anunciantes) em inserirem propaganda paga (através de anúncio ou banner), será um prazer desenvolvermos o assunto e avaliarmos uma proposta.

 Obrigado pela consulta."

                 Fico imaginando quantos blogs receberam mensagens semelhantes. E eventualmente quantos blogueiros encantaram-se com a idéia de talvez ganharem um mimo: um tablet da Sony, por exemplo. Nada contra empresa, ao contrário, sou fã de seus produtos. Se bem que no caso o que ele oferecia era apenas a honra de o Fatos & Fotos de Viagens figurar no site da gigante japonesa.

                 É claro que há exceções em todas as áreas, mas mediocridade e cara de pau assim são assustadoras. Pior, é generalizada, disseminada na sociedade, na política, no comportamento social, no comércio, na indústria, na forma de conduzir no trânsito, na imprensa, nos taxis, na educação, na formação profissional, na TV (onde vale até beijo gay pra salvar novela da mediocridade), no rádio, na música, escolas, universidades, na polícia, nas instituições governamentais, nos livros e revistas, nas redes sociais. Sobretudo na imprensa. Enfim, a pobreza intelectual é um fato, a incompetência uma realidade, a superficialidade uma lástima. E tudo me parece tão persistente quanto assustador, tão renitente quanto desanimador. Qualquer potencial criativo e inovador é arrasado pela busca desenfreada de popularidade e/ou dinheiro. Seja lá onde, como e quando for. Qualquer bobagem vende. Qualquer superficialidade vale. E tem apoio popular. E tudo é feito como se linearmente todos os cidadãos fossem desmiolados. Quem somos e para onde vamos com isso tudo? Para mim parece não haver resposta possível. A culpa é nossa, que dá audiência e importância a tudo isso, que somos seletivos, que não sabemos o que queremos, que aceitamos consumir qualquer porcaria. E por vezes até incentivar e aplaudir.

                 Os tempos são outros. Enquanto a Internet cresce e disputa interesse e atenção de cada vez mais leitores, e também as verbas do mercado publicitário (antes privilégio da imprensa, rádio e TV), e felizmente vai atingindo camadas cada vez mais populares do nosso Brasil, de outro lado, mas na mão inversa, descendo a ladeira, a imprensa encolhe e enxerga um futuro negro. Tarde damais? Provavelmente sim. Talvez não haja tempo para corrigir os rumos e apagar os excessos do passado. A culpa é só da Internet? Claro que não. E também não é tão simples assim de ser analisada, sobretudo definida, como a decadências dos blogs. Mas a mediocridade sim, sabemos que tem boa conta nessa história. Entretanto é sempre bom lembrar que as velhas mídias não são piores que as novas. As últimas também inventam suas notícias, aceitam propostas como do cara da agência de publicidade aí de cima, e pode ser tão medíocre, superficial e apoiar-se em tantas fontes não confiáveis quanto a velha mídia. E pode ser vendida, irresponsável e incompetente, ou viver da monetização e do jabá. A liberdade de pensamento, assim como a livre manifestação de idéias na Internet seria ainda mais válida e elogiável se não andasse trilhando os mesmos caminhos da velha imprensa. Ainda que a mediocridade não deixasse de existir apenas porque estamos na era digital. Ela é inerente ao ser humano. Felizmente a Internet acabou com o monopólio da informação e o cerceamento da opinião. Os tempos são outros, da Internet, onde cada um pode dizer o que quer e já não ser mais possível censurar como as seções de "Cartas dos Leitores" dos jornais e revistas, tentando conter opiniões.

                 No campo do jornalismo de viagens, a Revista Viagem & Turismo é apenas mais um exemplo dessa mediocridade que assola quase a totalidade da imprensa brasileira: a de janeiro de 2014 trouxe na capa a chamada "Santiago. Tá do caramba!" (meu Deus, que título do cara...mba!). A edição de fevereiro tinha "#partiu! Sul da Itália" (deu vontade de fazer um trocadilho com o #pqpartiu!, mas vou poupar o leitor). A de março, "Olé! Espanha" (!) é um arroubo de criatividade. Não vou nem comentar o conteúdo. Seria injusto, afinal, faz tempo que não leio a V&T e outras revistas do Grupo Abril que eu lia: de Veja à Quatro Rodas, de Duas Rodas à Viagem & Turismo. Não confio numa palavra, conteúdo e matéria de qualquer uma delas, simplesmente porque todas sucumbiram à monetização e ao popularesco. Qualidade é o que menos importa, então, nivela-se tudo por baixo achando que a classe que lê revista de viagens é necessariamente retardada mental apenas por ser popular. Boa parte da culpa é da própria Editora Abril - cujos cortes profundos na estrutura interna, com o intuito de amenizar os efeitos da queda de circulação de suas revistas - não é exclusivamente da "evolução" do mercado digital. Sabe quais as revistas mais cresceram na Editora? Caras, Mundo Estranho, Tititi e Minha Novela! O público também tem sua dose de cupa. Também não é fácil a situação das revistas da Editora Globo. 

                 A colunista social Danuza Leão, da Folha de S. Paulo, foi demitida. Ela e mais 40 colaboradores e empregados. Tudo bem que Danuza Leão seja sinônimo de superficialidade e assunto sem relevância, e por vezes tenha opiniões tão desastradas e escrevesse tanta merda quanto a colunista Hildegard Angel, do O Globo, mas ambas faziam o maior sucesso. Mas a imprensa está em crise. O Estadão também defenestrou Nelson Motta (se bem que esse tenha me surpreendido, ainda que merecesse, depois de cassificar comentaristas de sua coluna como "escoiceadores" e "relinchadores" apenas porque discordaram de suas opiniões). É assim também na Internet, especialmente nos blogs. O fato é que o Estadão definha, o Valor Econômico - das editoras Folha e Globo-  diminui a redação e elimina encartes, a Editora Abril passa por uma crise nunca experimentada e a Internet segue promovendo sua devastação na mídia tradicional, sobretudo mais rapidamente nas que não acompanharam a tecnologia e nas que fizeram pouco dela. Vivemos a moda da cultura do curto prazo, da pouca leitura, da informação ralinha. Todos caem, por méritos próprios ou da coletividade.

 Do merchandising ao jabá

                 O jabá - que extermina o jornalismo e já o fez com a indústria fonográfica - é uma ferramenta do demo: acaba exterminando os dois juntos: jabasista e jabaseiro. É o que acontece com a blogosfera. Quem olhar para ela com imparcialidade (sem interesse jabasístio, é claro) não deixará de estabelecer comparações entre a mediocrização generalizada da imprensa, das revistas de viagens brasileiras e a decadência dos blogs. Ambos já tiveram seus tempos de glória, hoje são apenas mais um exemplo de crise de identidade, do "vale tudo" pela propaganda e pela busca da monetização, não importa se ao custo da queda de qualidade editorial e do lay out, do conteúdo óbvio, dos títulos debilóides, do extermínio da credibilidade e de tudo mais que eu lamento tanto e há tanto tempo. Os blogs jabasísticos seguem seu caminho: cada dia mais vazios de conteúdo, mais guiados pelo jabá, sem a menor sem cerimônia tornando-se verdadeiros Amaury Jr. e seus programas ‘infomerciais’. Há quem goste, é claro. De ambos. De blogs caça-níquel e dos programas-jabá do Amaury Jr.

Jabá: prática de matérias patrocinadas que o leitor lê como se fossem dicas pessoais de blogueiros

                  A coisa funciona assim: blogueiros são contatados por agências de criação de conteúdo ou de propaganda ou de marketing e passam a pautar-se por marcas, produtos, serviços. Vivem para isso alguns. Como o carinha da Sony aí de cima fez, saem oferencendo tudo a todos e alguns aceitando. E tudo quanto possível passa a ser escrito por dinheiro. Ou por mimo. Daí começam a redigir e publicar matérias positivas sobre um produto, serviço ou marca que estejam lhes pagando. Alguém aí acredita na imparcialidade deles? Algum leitor aí acredita que um elogio patrocinado seja opinião verdadeira do blogueiro? Acreditando ou não, o autor do blog recebe o seu: dinheiro, viagem, hospedagem, passagem aérea, um bem material ou até mesmo um simples mimo, um presentinho, um notebookezinho ou um tabletzinho da Sony.

                 Antigamente, na imprensa, o jabazeiro era visto como picareta. Hoje há até associações que defendem o jabá, ainda que disfarçadamente: desde que seja claro que é jabá, vale tudo! Até aceitar jabá. E foda-se a credibilidade. Disfarçadamente a coisa é ainda mais séria: tentam ludibriar o leitor com matérias aparentemente isentas, mas que são verdadeiramente informações patrocinadas. O caso é que nem todo blogueiro é habilidoso e consegue disfarçar. Isso porque ainda tem leitor que acredita. Não, hoje não, a prática que invadiu parte da blogosfera de moda e era exclusiva dela agora faz carreira em parte da blogosfera de viagens profissional e amadora. Só que o mercado de viagens não vale um décimo de atenção que o de moda. E essa gente que acredita que ficará rica com blog de viagem parece esquecer-se de que credibilidade é tão difícil de construir quanto um castelo de cartas. E tão frágil quanto este. E em vez de pensar numa midia decente e nova, trabalhar efetivamente em algo sério, assiste os blogs despencarem em interesse e audiência fingindo não enxergar.E provavelmente culparão quem não tem culpa.

 Por que não levar a sério os blogs jabaseiros? Por que levar a sério e suportar os não jabaseiros?

                Porque no jabá não há lisura com o público leitor. Simplesmente. Ainda que nos blogs de viagem isso represente apenas a ponta do iceberg, seja apenas mais um lastimável exemplo da crise generalizada de excelência, de competência, de visão de longo prazo, de criatividade, de bom gosto, de seriedade e sobretudo de falta de vergonha. Especialmente porque o dinheiro - na versão jabá - ainda não se mostrou plenamente como "ferramenta do demo" na blogosfera de viagem. Mas é questão de tempo. E felizmente ainda não é a maioria dos blogs que entrou nessa de jabá.

 "Ainda falta entender se o jabá é aceito na blogosfera por não representar uma afronta aos leitores ou se, em vez disso, é praticado por ser uma interessante fonte de receita. Se a segunda opção for verdadeira, a pergunta futuramente talvez vá girar em torno do fim das verbas para essa finalidade." (blog e jabá por Cassio Politi)

                  Se compararmos as revistas de viagens e os blogs brasileiros às estrangeiras - Volta ao Mundo, a Viaje Mais, a Afar, a Mucho Viaje, a Lonely Planet, por exemplo - o resultado será ainda mais vergonhoso. Eu sei, sei muito bem que houve e continuará havendo quem defenda a V&T. Assim como associações que defendem e acolhem blogs que chupam conteúdo alheio. Aqui mesmo no blog há leitores que já elogiaram a revista. Mas não me importo. Essa gente um dia vai cair do salto alto. Também sou dado a escrever sobre minhas reflexões psico-filosóficas. E nem sempre o faço para agradar ou ser simpático, senão para registrar o que sou contra, o que desgosto, o que penso e os descaminhos dos blogs de viagens. Shame on you! Aliás, quando alguém vai fazer um blog "shame on you"(*) baseado nos blogs de viagens jabazeiros?

O mundo é cheio de surpresas. A Internet, ainda mais!

                Portanto, não se surpreenda se o autor do Fatos & Fotos de Viagens encher o saco disso tudo e pular fora da blogsfera. Porque para inspirar e motivar o leitor, o autor precisa antes estar inspirado e motivado.

                Em termos de evolução, então, a Internet vive surpreendendo. Por exemplo: o crescimento vertiginoso dos livros digitais. Não nego que me surpreende perceber que em breve não teremos mais livros impressos, apenas os eletrônicos. Ou os de arte, de grande formato. Quem diria! Tudo me leva a crer que não vai passar do começo deste século o fim do ciclo iniciado por Gutemberg. Algo absolutamente impensável no século 19, que atingiu o topo no século 20 e começou a declinar no início do 21. O fim do livro impresso, ainda que apenas mais uma das surpresas que a evolução nos prega, é uma realidade, mas espero vivamente que não pegue a todos os livros. Pelo menos não os guias de viagens e os livros de arte.

                 Eu não fecho os olhos para este fato: o mundo editorial está como o CD para o fonográfico, como o Fax esteve para o e-mail, a fotografia digital para a analógica, o videotape para o Blue ray, o ICQ para Facebook e por aí vai. Sempre houve gente teimosa, como os de ontem que afirmavam que a fotografia digital jamais acabaria com as câmeras analógicas. Que o diga a Hasselblad - ícone das câmeras analógicas de altíssima qualidade - hoje produzindo apenas digitais! Algumas com 50 Mp, mais do que a fotografia analógica já conseguiu. Até o cinema tornou-se digital. Quem não aceita, sobretudo não comprende a evolução, anda feito o curupira, pra trás. Quem não se prepara para ela, torna-se uma Kodak.

                  E qual o rumo que a tecnologia tomará? Ninguém pode resumir isso, tampouco antever. Mas ela mesma pode nos dar sérias e consistentes pistas: o ICM (integração cérebro máquina), por exemplo, é uma parte da terceira fase da internet e dos softwares: haverá instrumentos inteligentes capazes de fazer sozinhos a gestão de uma empresa na rede. Programas de e-mails captarão informações e darão conta da agenda e da contabilidade das empresas. Tim Berners-Lee, físico que idealizou a internet, trabalha nisso e já há gente usando a tecnologia na Alemanha. Fantástico, não?

O boom da blogosfera acabou. Agora tudo circula pelas redes sociais

                 O universo da Internet, especialista em surpreender, é tão grande na velocidade das mudanças quanto na facilidade de ser descartável. Para alguns, todavia, é difícil acompanhá-las. Sobretudo compreendê-las. Mas quem precisa da Internet para manter-se ativo e visível, até sobreviver, não poderia alienar-se: se até bem pouco havia hipertextos e hiperleitores, hoje tudo é síntese, há minileitores tornando sucesso os que miniescritores escrevem pra eles. E todos - escritores e leitores - por imitação, vão seguindo o mesmo estilo. Como rebanhos tocados. Atualmente apenas os “envelhecentes” suportam mais do que os 140 caracteres do Twitter e as ainda mais sintéticas legendas de fotos do Instagram. Se existe algo mais fugaz que o ciclo de vida de uma foto “instagrada” na Internet, com menos segundos de vida, por favor me diga, prezado leitor. Como é de praxe na rede, ali elas seguem seu caminho para o esquecimento. Só que com um pouco mais de pressa.

                 No entanto, acredite, também estas mídias não estão aí pra sempre. Algumas já começam a apresentar sinais de fadiga. O Twitter, por exemplo, recebia 120 milhões de visitantes únicos por mês. Hoje não passa dos 89. É pouco? Claro que não, mas desce a ladeira a audiência. Só não enxerga quem tem cegueira digital. Mas a queda é sintomática. Assim acontece com os blogs: um dia foram, mas em pouco tempo deixarão de ser. Pouca gente dará bola pra eles, senão para o Twitter, Instagram, Facebook e cia. ou qualquer nova mídia que surgir. E surgirá. Saturação digital é isso aí: usuários da Internet vivem atrás de novidades e descartam o que não é com uma facilidade incrível. E simplesmente deixam de frequentar e comentar em blogs. Um blog vive de comentários, o "salário" do blogueiro. Se então tornam-se escassos, o autor perde o tesão. E o blog perde o sentido.

Sempre haverá blog com conteúdo bom e ruim. É o leitor quem decide qual vai seguir

                Felizmente o mundo é assim: nos permite mais escolhas do que podemos escolher. Eu escolhi não me deixar envolver pelas lorotas de blogueiros de modas, de viagens, de críticas gastronômicas, de vinhos, de filmes, tudo movido a mimo e jabá. Um mico que nem mesmo o jabazeiro mais cara de pau consegue disfarçar. É certo que eu adoraria ver sumir do mapa digital essa gente e os termos das empresas geradoras de conteúdo, coisas como “parceria”, “colaboração”, “guest post”, “post patrocinado”, “curtidas no Face“, "tuíte patrocinado", "searchlaborator", “publieditorial”, “publicidade”, “publipost”, "tag", "categorização", "conteúdos colaborativos" e "criação de conteúdo".

               Só não aprovaria ver sumirem a #faltadevergonhanacara e o #faltaoleodeperoba! Afinal, fãs falsos e comprados no Twiter e no Facebook não valem nada, não geram nada, não consomem nada, não produzem nada, a não ser para esses caras de pau. Ter 500.000 curtidas e fãs no face não implica nada. Nem audiência. Seja lá onde for, num blog, TV, jornal, revista ou rádio. Tudo lorota. Igual usar scripts para aumentar seguidores no twitter.

                  Para alguns todavia, é preciso mais tempo e esforço para crer que blogs e as mídias digitais correntes estão com os dias contados. Provavelmente também são os que não acreditavam no fim da Kodak, do Orkut, do Second Life, dos photoblogs, do ICQ, do MSN, do fax e, da fotografia analógica e, em breve, do telefone fixo. Foi com o fim do telex e a explosão do telefax, na década de 80, que aprendi a enxergar essas mudanças mais rapidamente. E perceber que se umas acabam, outras tomam seu lugar, evoluindo ou não. Então, sobre a Internet, jamais pensei que seu conteúdo e mídias fossem permanentes, senão que algumas são até bem fugazes.

                 Por motivos óbvios acho ingenuidade (de alguns) e tolice (de outros) afirmarem que os blogs não estão cursando seu ciclo final de vida como meio de expressão, sobretudo pretensiosa e ainda mais tola a afirmação de que os blogs de viagens são a sétima maravilha do mundo digital, que interferem profunda e marcantemente no mercado turístico e de viagens, que influenciam fortemente o mundo e os milhões de viajantes brasileiros.

                 Quem quiser saber mais e melhor desta história (sobretudo para não ser engolido por ela), deveria ler “Adeus, Facebook – O mundo pós-digital”, de Jack London(*). O livro já valeria apenas pelos prefácios de Affonso Romano de Santana, Márcio Moreira Alves, Max Gheringer e Hélio Gurovitz. Mas não, o conteúdo é um lembrete. Especialmente para quem ainda acredita e investe em blogs e twitter como as mídias do futuro. Ou que no presente crê que durarão para a eternidade. Nada mais recomendável para "baixar a bola" de quem acredita que os blogs de viagem são mais importantes para o mercado turístico do que a descoberta de Lucy - fóssil de hominídio mais antigo já encontrado, na Etiópia - para a humanidade.

                 Como diz a matéria da Revista Época de 17 de Março (2014, edição 824) - “Chega de Facebook - Cansados de estar em lugares onde todos estão, os usuários de Internet buscam alternativas no universo das redes sociais", especialmente à mais popular de todas elas: o Facebook. Alguém aí acha que blogs e Facebook não acabarão um dia? É por isso que geniais criadores de mídias digitais inventam dezenas de outras, cada qual com sua peculiaridade, segmentação e especificidade. A matéria da revista relaciona 50 redes sociais criadas para quem quer fugir da mesmice. Há opções quase desconhecidas, outras já estrondosamente populares, mas todas para quem quer novidade e se cansou de curtir e cutucar bobices e de se expôr digitalmente. Todo mundo um dia se cansa da mesmice. E da popularidade excessiva. No mundo das redes sociais (onde incluo os blogs), a popularidade pode ser tão desastrosa quanto o populismo. Todo pântano em que se escondem as imundícies um dia secam e razem à tona a sujeirada. Em resumo, quantidade de likes e de seguidores, felizmente não atesta qualidade. Tampouco honestidade e transparência.

             João Kléber, apresentador de programas de TV como "Você na TV", "Te Peguei na TV" e "Teste de Fidelidade", é um exemplo de popularidade e sucesso estrondosos. Ninguém pode negar. Ainda que muitos desprezem tal gênero de popularidade e os caminhos para alcançá-la, já não me espantam pessoas que valorizam popularidade a qualquer custo. Nessa mesma mão já trafegaram o Ratinho, entre outros. João Kléber - em seu retorno à televisão aberta brasileira - mostra apenas que o gosto pelo vulgar e pelo popularesco consagra-se mais uma vez no que a TV brasileira realmente busca: audiência. A qualquer preço. Não necessariamente atrelada à qualidade. Então, não importa a que preço. Como em alguns blogs. Há quem os elogie, que os siga, suporte, admire e esteja lá no Face e tuíter dando likes, mostrando que quantidade estratosférica de fãs já não quer mais dizer bom gosto nem reconhecimento de qualidade.

                 Cansou dos blogs e Facebook? Não se preocupe! Você é apenas mais um saturado digital. Um ex-um viciado digital que passa a contar com novas alternativas. Para a Internet tem sempre alguém desenvolvendo novas alternativas. 

                  Publiquei este post pelo mesmo motivo porque o faço há tempos: lamento que estejamos em crise. E também por ser ferrenhamente contrário ao jabá e à monetização, especialmente o que ambos estão fazendo com a blogosfera. O tema, claro, é sujeito ao contraditório. Estejam livres, então, leitores anônimos, disfarçados e escondidos ou não, para descerem o pau. Até pra falarem bem da Viagem & Turismo, o que, afinal, também não é novidade. Eu me divirto muito com as críticas. E sou ferrenho defensor da liberdade de expressão. Ainda que muitas sejam imensas tolices.

                 Obrigado, leitor, por vir até aqui. Parabéns, blogueiro que não entrou nessa. O Fatos & Fotos segue seu rumo, agonizando. Seu autor, vai muito bem, obrigado, mas para motivar e inspirar, precisa antes estar motivado e inspirado.

                 O último a sair, por favor apague a luz!

 NOTAS:

(*) Jack London, fundador da Booknet, primeiro negócio virtual de sucesso e famoso no Brasil, que mais tarde seria rebatizada de Submarino e se transformaria no maior site de e-commerce do Brasil. Hoje dedica-se agora ao cinema digital, tem previsões confiáveis para o futuro das tecnologias, fundou a Tix, empresa de comercialização de ingressos online,  a Armazém Digital, especializada em livros digitais, a Multicine, empresa especializada em “levar cinema para onde não tem cinema”. O homem que acreditou que o brasileiro poderia comprar livros pela rede há 14 anos, quando a internet apenas engatinhava, parece novamente estar um pouco adiantado na história empresarial. A digitalização dos filmes encontra resistências no setor. Igualzinho como na fotografia digital, a qualidade das imagens é questionada. A película ainda sobrevive como principal tecnologia do mercado: em 2008, dos 323 filmes lançados no Brasil, apenas 52 saíram no formato digital, segundo a Ancine. Mas London não tem dúvida de estar diante do futuro do cinema. Nos Estados Unidos, o digital avança com força: este ano, a AMC, uma das maiores redes dos EUA, anunciou que trocará todos os seus projetores por digitais até 2012. “As empresas ganham agilidade e podem programar vários filmes ao longo do dia”, diz.    FONTE: Pequenas empresas, grandes negócios.

http://revistapegn.globo.com/Revista/Common/0,,EMI86692-17138-3,00-COMO+GANHAR+DINHEIRO+COM+A+REVOLUCAO+DIGITAL.html

 (*) Os blogs e o mercado

Obviamente que o crescimento dos blogs não passou despercebido pelo mercado publicitário e pelas grandes marcas. Hoje os principais blogs do país, principalmente os que falam sobre moda e beleza, são forrados de propagandas, sendo que esse veículo passou a ser parte importante da estratégia de marketing de muitas empresas. Porém, o problema não está no anúncio. O que tem dado o que falar na blogosfera e que já estampou as capas de jornais de todo o país, é o fato de que diversas blogueiras postam textos e informações que vêm das assessorias de imprensa e acabam indicando os produtos de seus anunciantes como se fosse uma “dica de amiga”. As meninas também recebem presentes das empresas, os chamados “jabás”, e em troca postam elogios à marca sem nem ao menos indicar para a leitora de que aquilo é um publipost.

Mas no ano passado, surgiu o Shame on you, blogueira, um blog mantido pela mineira Priscila Rezende, conhecida como Titia Shame, que tem como objetivo destronar as rainhas da beleza na web e revelar todas as suas gafes: desde os looks cafonas, passando pelo show de horrores no “toscoshop”, pelos erros crassos de português, até chegar na crítica ferrenha aos jabás. Hoje, Titia Shame goza da confiança de mais de 40 mil pessoas que já curtiram sua página no Facebook, e foi ela quem descobriu e denunciou em seu blog o caso das blogueiras com a Sephora, assim como incentivou seus seguidores a fazerem a denúncia no órgão que regula a atividade publicitária brasileira.

 Shame on you  http://blogueirashame.com.br/

Sábado
Mar152014

Deserto de Atacama - Triunfo da Natureza  

O imensamente belo, sereno, misterioso e invulgar Deserto de Atacama

         NÃO bastasse a Cordilheira dos Andes - assustadoramente bela vista do avião - uma outra vastidão, imensamente bonita, serena, misteriosa e invulgar apimentava meu desejo de terminar o vôo Santiago-Calama. Sobretudo pousar logo! E então, prontamente vivenciar aquele triunfo, alegoria, verdadeira luxúria da natureza: o Deserto de Atacama.

         Ainda hoje não estou convicto de que a excitação era pelo encontro com o deserto ou pelo alívio ao fim de um vôo tão turbulento. Numa van, a caminho de San Pedro de Atacama, o "portão do deserto", a pouco mais de 100 quilômetros de distância, eu  refletia que se sair do avião fora um grande alívio, entrar no carro um reconforto.

Lagoas e vulcões da Trilha das Lagunas Altiplanicas (Salares do Altiplano) 

 Assim que nos afastamos de Calama em direção a San Pedro o cenário começou a mudar, revelar o que afinal se espera de um deserto: terra crua, aridez, poeira, montanhas e algum verde, rasteiro, como é próprio aos desertos. E quanto mais nos aproximávamos de Atacama, mais o cenário tornava-se invulgar e novo, a terra mostrava sua cor dominante e monocromática. Os tons do deserto agora iam aparecendo nas montanhas, mesmo com cumes nevados, nos vulcões acinzentados, nas lagunas ora verdes, ora azuis, nos planaltos ocres ou avermelhados, enfim, numa complexa natureza do deserto neste lado do mundo. A viagem foi mais rápida do que eu esperava e logo chegávamos ao Explora(*).

Salar de Atacama, Lagoa Chaxa 

           San Pedro de Atacama é a base para a exploração daquela exuberância natural atacamenha. Na periferia do vilarejo fica o Explora (*), distante 15 minutos a pé do agradável centrinho da cidade. Chegamos ao nosso quarto e tivemos uma surpresa: uma impactante vista  colossal pelo janelão espantosamente grande do quarto, uns dez metros de de vista escandalosa aberta para o Licancabur.

            A paisagem era arrebatadora, especialmente à luz da tarde. Víamos "rabos de raposa", muros de adobe e o vulcão espetacular ao fundo. O "encontro" foi tão emocionante, algo assim como deve ser para quem vê o mar pela primeira vez.  E ainda que todos os demais dias avistássemos o Licancabur - não apenas de nossa janela, mas de todo o Atacama - ele jamais perdeu seu encanto, sua misteriosa capacidade de magnetizar nosso olhar. Há mais de quarenta vulcões na região, entre ativos e inativos, mas nenhum, nenhum se iguala àqueles seis mil metros de Licancabur.

Licancabur, o vulcão. Simétrico, cônico, perfeito 

  Simétrico, cônico, perfeito, quase na Bolívia, mas parecia tão perto. Inacessível, assim eu o imaginava. Ao ponto de ninguém jamais ter ousado trilhá-lo. Mas que nada! Soube que a arqueóloga Ana María Barón nos anos 80 conduziu expedições aos vulcões da região, inclusive ao Licancabur. Mas ainda assim aquilo me parecia mais uma saga interminável do que uma trilha montanhosa até seu topo. É difícil sim, mas absolutamente possível subir ao topo do vulcão. Tudo, é claro, dependendo do preparo físico e entusiasmo psicológico do "aventureiro".

"Recepcionados" pelo Licancabur ao Atacama, ainda nem sabíamos o quanto mais aquele imenso deserto nos reservava. Sabiamos que eram gêiseres, cordilheiras, desertos, gargantas, fontes termais, lagos e salares e algo mais. Que estávamos em alguns dos contrastes paisagísticos e geológicos mais incríveis do planeta. E ainda que eu já estivesse irremediavelmente seduzido, só os conhecia por foto. E tudo já me parecia poético demais. Ainda que para um deserto, o dramatismo inóspito pudesse me sugeir.

Por vezes parece lunar, outras terrestre, algumas marciana

O Explora explora?

Não tenho dúvidas de que o hotel mais famoso de Atacama seja bom. Mas também estou certo de que está longe de ser ótimo. E também de ser luxuoso. É comum que lhe classifiquem nessa categoria, ou então na de "luxo-rústico". Discordo de ambas. A simplicidade é o tom dominante, não o luxo, que efetivamente não há. Por isso o achei caro demais para o que proporciona. E ainda que relativamente confortável e equipado, que sua proposta esteja absolutamente correta (conforto sem se distanciar da essência do deserto), falta Internet nos quartos, não há ar condicionado e TV, o ventilador de teto é ruidoso, o mobiliário é rústico e o banheiro em ardósia e com cortina.

 

Todavia, o saldo foi positivo. Poucos os aspectos negativos. Entretanto, para um hotel com sua pretensão de classificação, sobretudo com os preços que cobra, não ter TVs e Internet nos quartos e servir uma comida mediana são pontos marcantes, ainda que pra mim TV não faça a menor diferença, mas a falta de sua companhia poderá ser entediante para muitos hóspedes em seus momentos de relaxamento no quarto, antes de dormir ou nos dias que tiraram para descansar das trilhas. A comida é mediana, mas não ruim. Tem boa apresentação, mas é grave ter sido sempre servida em porções insuficientes, ao ponto de às vezes não satisfazer.

 

O Explora e suas piscinas. Como tudo no hotel, rústicas e atraentes

            O hotel aparentemente é rústico demais quando comparado aos da concorrência do mesmo padrão. Mas seu status (ainda) lhe permite cobrar o que cobra, certamente também por sua localização, pelo pioneirismo, pela estrutura (caríssima!) e pela excelência das atividades relacionadas à exploração do deserto -  dos trekkings e passeios às cavalgadas e bicicletas. Provavelmente o Explora seria incomparávelmente superior aos seus concorrentes. A filosofia do empreendimento é defensável e elogiável, mas é a equipe do hotel, excepcionalmente atenciosa, simpática, prestativa e eficiente, foi o que eventualmente nos faria retornar.

Explora e Licancabur

           Fizemos todos passeios que quisemos sem qualquer restrição por parte dos organizadores, ainda que observadas suas recomendações, suas orientações e questões técnicas relacionadas com a necessidade de adaptação à altitude, aos graus de dificuldade das trilhas, às roupas e proteções necessárias contra a secura do ar, à altíssima incidência de raios ultra-violeta e às eventuais dificuldades de respiração devido à altitude.

Salares do Altiplano- Laguna Aguas Calientes

Há cerca de 50 possibilidades e meios de explorações a pé, a cavalo ou de bicicleta oferecidos pelo Explora. Ele aproveita e explora. Todos estão incluídos nos preços das diárias. São passeios que duram de algumas horas a um dia inteiro. Ou - no caso de travessias à Colômbia, por exemplo - alguns dias. Uns são de fácil execução, outros têm maior grau de dificuldade.

 

No final da trilha à Laguna Aguas Calientes, um piquenique ao ar livre

Todas, entretanto, são explorações quase inteiramente seguras e realizadas em grupos relativamente pequenos (os nossos tiveram quatro, seis e oito pessoas, respectivamente), com guias bilíngües em espanhol e inglês. Ou portunhol, já que provavelmente 80% dos hóspedes eram brazucas.  As explorações de um dia inteiro têm piqueniques ao ar livre, carinhosa e cuidadosamente arranjados pela equipe ao fim de cada jornada, produzidos e embalados na cozinha do hotel. Até prová-los não se imagina o quanto são úteis e agradáveis.


 

Explora

             O Explora(*) mantém o status de "ideal para a exploração do Deserto do Atacama".  Nisso sem dúvidas ele funciona soberbamente. Seus guias - contratados ou free-lancers - são profissionais com certificação Wilderness First Responder (WFR), o que lhes garante conhecimento e habilidade necessários a prestar socorro em lugares remotos.  E das cerca de 50 excursões à escolha do hóspede, cerca de 15 são muito populares, entre elas a subida ao Licancabur.

Janelas par

a o Licancabur

           No Explora leva-se quase uma vida dupla. Aparentemente pode haver certo antagonismo nisso, entre a condição de "explorador" e de hóspede de resort de "luxo" relaxando em suas piscinas fantásticas. Mas não, integram-se perfeitamente ambas as atividades.

        Quantos dias? Ficamos seis. Seriam necessários dez para concretizarmos o desejo de fazer todas as trilhas que queríamos, mas o tempo foi bastante, justinho, sobretudo porque estou certode que no sétimo dia eu sentiria o tédio batendo à nossa porta. Além disso, esticamos" a viagem em mais quatro dias, dois na simpática e curiosa Valparaíso, mais dois na Capital, Santiago.

Cactos colunares e centenários

       O regime do hotel é de pensão completa: três refeições e bebidas do cardápio incluídas. Os extras são raros, a não ser que peçam vinhos de primeira e massagens no SPA. As refeições têm todavia aparência melhor que o sabor, variaram entre mediana e relativamente saborosa durante nossa estada. Mas dizem ainda assim são melhores do que a maioria dos hotéis. Para nós, exceto pelo churrasco excepcional que o hotel proporcionou aos hóspedes uma determinada noite, a melhor refeição que tivemos foi fora da cidade. Há muitos, muitos e bons restaurantes em São Pedro, e quem hospeda-se no Explora (com pensão completa) acaba deixando de aproveitar as ótimas experiências culinárias fora do hotel.

Os prazeres de uma vida dupla no Explora: aventura e relaxamento  

            Um "equipo" de diretores de guias ocupa uma sala muito bem munida de mapas, tabelas de horários, dados e conhecimento de cada trilha. É nela que os hóspedes toda tarde combionam e acertam os detalhes das atividades para o dia seguinte. Tecnicamente os guias orientam detalhes de cada trilha, definindo e formando os grupo de trilheiros para as respectivas caminhadas. Apresentam seus graus de dificuldade e cacarterísticas técnicas, especialmente altitudes, distâncias e equipamento necessário.

Trilha Guatín a Puritama. Não parece, mas é no deserto

         Esta é a parte mais difícil: decidir-se por uma exploração, porque as opções e paisagens são variadas. Todavia, enhá as mais notáveis: os gêiseres de El Tatio, os Vales da Lua e da Morte, o Salar de Atacama, as Lagunas do Altiplano e a trilha Guatín a Puritama, para citar apenas entre as mais importantes.  

Menu do dia: trilhas, caminhadas, cavalgadas e bicicletas

           Há outras opções de hospedagem? Sim, claro, mas cuidado: alguns são boas, todavia ficam muito distantes de San Pedro de Atacama, o que pode fazê-lo arrepender-se de não estar a apenas uns quinze minutos a pé do vilarejo, para explorar seus restaurantes e atrações.

Trilha Lagunas Altiplanicas (Salares do Altiplano) - Laguna Tuyaito

         Talvez a experiência mais exclusiva num hotel de Atacama seja o Observatório do Explora. E de fato ela é absolutamente fantástica para quem gosta do firmamento e de astronomia. Com um telescópio potente, "visitamos" alguns pontos de nossa galáxia. A imaginação, as fantasias da  "viagem" pela imensidão infinita de Universo fica por conta de cada um, mas alí no Atacama encontram-se as melhores condições do mundo para a observação do espaço. Não por outro motivo lá estão o Observatório La Silla, o Very Large Telescope da Colina Paranal, o Observatório Gemini e o radiotelescópio Atacama Large Millimeter Array (ALMA), centros internacionais de pesquisa instalados no deserto.

Trilha das Lagunas Altiplanicas (Salares do Altiplano) Laguna Aguas Calientes 

 Porque um olhar poético sobre o deserto? Porque é deserto, mas nem tanto

Porque ao contrário do que nos sugerem os desertos - silêncio, desolação e morte -, o Atacama evoca sedução e vida, romantismo e poesia. É deserto, mas nem tanto. Chega mesmo a ser acolhedor, apesar de sua aridez escancarada. E tem sobre ele um céu como não há noutro lugar. Em sua terra, o silêncio é notável. E há até flores. Definitivamente não é um deserto comum, de dunas de areia, quase sem vida, como o Saara por exemplo, a não ser por aquele lagartinho estranho que fica trocando as patas entre o ar e a areia evitando queimá-las. Ou os besouros rola-bosta insetos detritívoros persistentes que tiram o sustento do cocô de camelos.

O Vale é da Lua, mas às vezes parece Marte 

O Atacama é poético sim. E tal sensação vem de sua incrível diversidade de vida, naturais quanto humanas, da paisagem, do solo, que por vezes é de sal puro, de onde supõe-se que nada nasce, que se nasce não cresce, não vive nada. Mas numa laguna salar é possível ver flamingos alimentando-se de micro organismos, esvoaçando lindamente sobre as salgadíssimas águas de onde retiram a sobrevivência. E em alguns sítios plantam-se milho e quinua. E vêem-se raposas, coelhos e ouvem-se pássaros. Há lhamas, alpacas, vicunhas e, creio, mais nenhum outro camelídeo.

Raposa do Atacama, um raro exemplar da vida animal do deserto

Por vezes chega sua natureza é luxuriante, ainda que estejamos na retidão de um deserto. Foi assim que senti o deserto em Puritama, ainda que não seja ali apenas que o Atacama consagra-se em bem mais que um deserto, senão o triunfo da natureza impondo-se sobre tudo e todos. Um vasto deserto de raros, de doces, de envolventes momentos, de encantos do encontro com uma natureza curiosamente longe de ser inóspita, mas espantosamente atraente, sedutoramente convidativa. Quando estamos nele, só pensamos em ficar. Quando estamos longe, só em voltar.  

Deixar apenas pegadas, trazer apenas lembranças:  uma lei para o montanhista

Nós, apaixonados pela natureza das montanhas, pelos desertos, pelas trilhas, off-road e caminhadas, sempre dormíamos pensando que ele estaria ali, no dia seguinte, nos esperando. E nunca deixávamos de querer estar perto dele. Eu estava certo de que adoraria aquele deserto, mas não tanto quanto ele me cativou. Deserto, sublime deserto!, às vezes monocromático - como a Lua -, outras colorido: azuis, verdes e vermelhos como seu fosse uma terra tropical. Pode ser tanto extra-planetário quanto aqui mesmo da Terra.

Lhamas de tererê do Atacama

            Trilhas, trilhas e mais trilhas. Nossos dias no Atacama

         Nossa opção foi explorar ao máximo, enfrentar as dificuldades com determinação. Afinal, não fomos ali pra descansar ou relaxar. Então começamos nosso primeiro dia com uma caminhada de intensidade moderada, relativamente longa, de quase três horas: a Trilha Cuchabrache.

       Vimos formações naturais, os arredores do rio San Pedro, vegetação, fauna e flora, sítios arqueológicos, cruzamos planaltos arenosos, desfiladeiros erodidos por milhões de anos de ventos e cursos de água e retornamos ao hotel maravilhados. Extremamente entusiasmados ao fim de nossa primeira trilha, já estávamos ansiosos por marcar no hotel as seguintes

A primeira trilha, Cuchabrache

           Tanto o padrão dos guias quanto dos motoristas situam-se entre os melhores que se podem desejar. Desde o cuidado com o passageiro ao descer da vam (colocam um banquinho de madeira para pisarmos antes do chão!) às aulas de cultura atacamenha, de geologia, de geografia e arqueologia. É o que faz o Explora valer a pena.

A última trilha, o aparentemente interminável Vale da Lua

           Quem vai ao Deserto de Atacama o faz para penetar na sua beleza, para transitar por seus espaços, tocar no que for possível, deixar sua zona de conforto, tornar-se explorador no lugar de espectador, ingressar no território árido, cru e seco, para percorrer trilhas de diferentes graus de dificuldade, das mais fáceis às mais extenuantes. E também conhecer a cultura dos atacamenhos, chinchorros e aymaras, povos que habitam a região há 11.000 anos. Mesmo nas trilhas não se escapa de cruzar com sua cultura: ruínas, petroglifos, história, culinária e até artesanato.

Gêiser da Trilha Rio Blanco

           Mas cuidado! Tudo pode parecer lindo, mas não vá ao Atacama sem planejar. Era fim do Verão e a temperatura extremamente agradável, ao contrário do início da estação. O "calor" era suportável e à noite a temperatura descia uns dez graus. E ainda que seja comum ler "não chove há mil anos no Atacama", chove sim, mesmo que num curtíssimo espaço do ano, mas que pode infernizar a vida do visitante. Se pensar em ir no Inverno, lembre-se de que as temperatuas são negativas e há neve e gelo.

Às vezes, as distâncias parecem intermináveis e o final das trilhas, no infinito...

            As principais atrações - entre as cerca de cinquenta trilhas e explorações do Deserto de Atacama - são: o Vale da Lua, o Vale da Morte, o Salar de Atacama, as Lagoas Cejar e Chaxa, as Lagunas Altiplânicas Miscanti e Miñique, a Aldeia de Tulor, Pukara de Quitor, os povoados de Toconao e Machuca, o Gêiser de Tatio , o Salar de Tara e o Vulcão Licancabur são as mais atraentes.

           O Vale de la Luna e o Vale de la Muerte são os lugares onde as formações geológicas têm o aspecto mais extra-terrestre ao deserto. O Salar de Atacama - gigantesca região de sal - com as Lagunas Chaxa e Cejar, são um espetáculo. Foi ali que vimos o por do sol. E no Rio Puritama, uma das trilhas mais bacanas, de cenário variado, de  gargantas e rios a cactus colunares e deliciosas termas.

Guatín - Puritama. No final das trilha, uma surpresa deliciosa: o banho nas águas termais...

           O Atacama é como um templo para exploradores. O lugar onde podem melhor manifestar seu amor, admiração e respeito à natureza. Para escritores de viagens, uma profusão de adjetivos, para fotógrafos, a possibilidade de registrarem imagens tipo National Geographic.

Sobe-se. Sobe-se muito na Trilha Cuchabrache. Lá debaixo até aqui..

  Todo o Atacama é uma terra belíssima, desenhada por milhões de anos de processos geológicos e erosões, ora com a cara de Lua, ora com a verdadeira face da Terra. De uma vida animal surpreendente para lugar tão seco: pássaros, mamíferos e répteis. A vida selvagem limitada sim, mas linda e única. E sob a imensidão do céu de Atacama, arqueólogos exploram as camadas da terra procurando respostas e descobertas de antigas culturas e civilizações. E os astrônomos olham para os confins do mesmo céu - com telescópios de lentes ou de ondas radiofônicas - desvendam nas estrelas os segredos de uma dimensão espacial ainda insondável.

Deserto, sublime deserto...

            Do Céu à Terra é seco. Tanto quanto se pode sentir penetrar um ar rarefeito que a garganta resseca e os lábios racha. O Sol a pele queima. Até descascar. O ar rarefeito o peito aperta. Mas a despeito de todas estas dificuldades, de todo esforço físico que explorar o deserto nos exige, em nenhum outro lugar do planeta fui tão impelido a destrinchar até seu último grão de terra. Não o fiz, mas trouxe a vontade de voltar.

Trilha Rio Blanco. Fomos os primeiros turístas a percorrê-la

San Pedro de Atacama

Para chegar até lá não há dificuldade se o caminho escolhido for o mais fácil: de avião até Santiago do Chile, depois até Calama, e por fim uma viagem de hora e meia de carro até San Pedro de Atacama, simpático e pequeno povoado de construções de adobe, ruazinhas empoeiradas, com cerca de 3 mil habitantes. Mas vimos gente, brasileiros especialmente, indo de moto.

San Pedro de Atacama nasceu porque era parada para os colonizadores espanhóis no século XVIII. Hoje, além de base para explorações ao Deserto de Atacama, é o principal centro da cultura atacamenha. Os visitantes hospedam-se em pousadas simples ou hotéis completos, dentro e fora da cidade, mas ninguém resiste a reservar um dia para explorar - de dia e de noite - suas ruas, lojas, restaurantes e atrações.

Uma das muitas igrejinhas antigas da região

Caracoles é a rua principal do simpático vilarejo com boas opções de hospedagem, de comida, lojas para atividades no deserto e roupas e equipamentos de montanhismo, artesanato, agências de viagens e facilidades turísticas, especialmente telefone e internet. A cidadezinha é divertida, ainda que viva do turismo. Para hospedar-se há dos mais incríveis hotéis às mais simples pousadas e albergues. Ficamos no Explora (*), mas há outras opções de luxo e completas, como o Tierra Atacama, o Awasi e o Kunza(*).

A igrejinha de Machuca, minúscula aldeia atacamenha

           Turisticamente falando, a cidedezinha tem na Igreja de San Pedro, bem antiga, do começo do século XVI, sua atração histórica mais importante. É bonita por dentro e por fora, ainda que extremamente simples e rústica. Feita por espanhóis, foi recentemente restaurada, inclusive o telhado feito de madeira de de cactus, que ameaçava despencar. O interior tem charme singelo, uma característica exclusiva das igrejas da região. 

           Outra atividade importante para quem quer conhecer um pouco da cultura atacamenha e pré-colombiana é uma visita ao Museo del Padre Le Paige, pequeno, mas bem curioso e mantido, com sortido acervo em exposição. Entre outras peças em grande número, os mais curisos são apetrechos para inalação de alucinégenos, comum entre os indígenas da região:  460 tabletas, encontradas nos diversos sítios arqueológicos.

Trilha Guatín - Punta del Inca

        Centro da cultura indígena do Atacama, um passeio de dia ou à noite em San Pedro está entre as atividades populares. Nós gostamos especialmente da praça da cidade, onde fiacam o prédio antigo da polícia, a prefeitura, a simpática igrejinha, o correio, o museu e o escritório de informações turísticas.

Deserto, sublime deserto: flores na Trilha Guatín - Punta del Inca

            É difícil escrever sobre o deserto sem parecer poético demais

            E também sem aparentar ser um artifício para atrair o leitor. Mas não foi uma idéia presumida, caríssimo visitante, senão fruto de algo que senti, de uma beleza comovente, da imponente força magnetizadora da natureza. E ainda que eu considere a pressa inimiga da qualidade, quando cheguei da viagem não consegui controlar a compulsão de escrever. E aqui estou a publicar, poucos dias depois, o único capítulo sobre o Atacama de uma viagem encantadora. Será que Pablo Neruda escreveu sobre aquele deserto? Vou pesquisar...

  Vicunha, esse animalzinho gracioso, é um camelídeo abundante no Atacama

             Vivo vivendo esse conflito: aprisionar a vontade de colocar logo tudo no papel digital e o risco da vontade passar. Mais do que a vontade de escrever, a de publicar. Quem tem um blog sabe o baita trabalhão que isso dá. E estou certo que é esta uma das razões porque os blogs de viagem estão definhando. Ainda que a passos de tartaruga, mas seguindo o rastro de um coelho.

             Além do desinteresse da massa de brasileiros sobre o tema "viagem", da cultura vigente do curto prazo - Twitter e Instagram -, da culpa dos blogueiros pela mediocrização de blogs que entraram nessa onda de monetização, um verdadeiro mico na blogosfera, não se esgotam nestes motivos a questão: o tema "viagem" nunca representou um décimo da atração e importância do tema "moda", gênero onde as chances de ganhar dinheiro são infinitamente superiores. Dinheiro, quero dizer. Não me refiro a trocados.

            É claro que eu gostaria que os bons blogs de viagem não morressem. Sou um dos pioneiros da blogosfera viajante, afinal. E deixo claro que ao me referir aos "bons blogs", não relaciono entre eles apenas os amadores honestos (os sem jabá), mas também os comerciais sérios, não direcionados por anunciantes ou por quem pague seus autores para escreverem sobre algum tema, mas àqueles cujo interesse efetivo está na produção de conteúdo isento, com qualidade. Sobretudo que não imitam a medíocre revista "viagem & turismo".

         Por do Sol na Laguna Chaxa 

            Por isso, enquanto houver gente com disposição de produzir coisas boas, de emitir opiniões honestas, de fazer blogs bem feitos e caprichados, sobretudo desvinculados a qualquer tipo de jabá, às viagens publicitárias, aos publiposts, senão em publicar pra quem gosta de ler coisas sérias e consistentes, ainda penso numa possível sobrevivência dos blogs de viagens. Neste caso, destaco o Viajar pelo Mundo, da Claudia Liechavicius (http://www.viajarpelomundo.com/). Foi nossa principal fonte de pesquisas e antes de viajarmos ao Atacama.

             Então, leitor, ainda que sua vista seja uma honra e seu comentário um privilégio, em vez de ficar aqui perdendo tempo no Fatos & Fotos de Viagens lendo essas ranzinices sobre a porcariada em que se transformou a blogosfera "monetizada" de viagens, vá correndo à seção "Chile" do Viajar pelo Mundo e encontre um excelente, completo, independente e sobretudo gratuito manual sobre aquele deserto chileno. São posts bem escritos, muitíssimo bem ilustrados com ótimas fotos, repletos de dicas e abordagem profunda e com personalidade acerca de San Pedro de Atacama, o Vale da Lua, o Vale da Morte, o Salar de Atacama, os Geiseres del Tatio, Machuca, Puritama, Guatin, Lagunas Altiplânicas e o Salar de Tara

Até mesmo no ressequido e inóspito Vale da Lua é possível uma visão romântica. Tudo depende do observador

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NOTAS

(*) Aqui não tem jabá. Não sou blogueiro que escreve por comissão, para pagar fam trips ou receber agrados, mimos, presentes e afins. Não faço viagens que não tenham sido nossa escolha. E os produtos e serviços aqui eventualmente mencionados não têm o conhecimento dos mesmos, não são recompensados de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação - e se o fiz foi por liberalidade, com o intuito de informar o leitor. 

O Explora foi pago com nosso dinheiro. Foi escolha. Portanto, não viajamos a convite do hotel para depois escrever sobre ele. Nunca escrevo sobre o que quer que seja tento sido pago para isso. E se o fizesse seria apenas sobre viagens que já fiz (ou que faria independentemente).

Minhas opiniões são independentes, assim como as escolhas, elogios, críticas, menções e relatos. Não há qualquer compromisso a não ser com a informação, a motivação e a inspiração do leitor. Cada link ou produto citado é feito com a suposição de que o mesmo leitor saiba identificar ou perceba os objetivos do blog, sobretudo que as verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão.             

Sexta-feira
Mar072014

LALIBELA, o Timkat e as igrejas-caverna 

 

___   O Timkat em Lalibela. Padres em procissão celebram o batismo de Cristo    ___

                  DIZEM que países não têm coração, mas se tivessem, o etíope seria Lalibela. Um coração fechado, inacessível por séculos, que ainda hoje faz bater forte os corações humanos. De peregrinos religiosos a turistas entusiasmados, quer pelas quase inacreditáveis igrejas monolíticas, quer pelos festivais religiosos - Timkat, Sebartmu Giorgis, Fasika e Christmas Festival - os mais importantes do país, merecidamente nomeados como dos mais importantes no mundo. 

                VIAJAR é algo tão magnífico, tão construtivo, que não importa como, para onde e porque escolhemos viajar, senão o fato de termos feito a escolha. Esta nossa viagem à  Etiópia foi tão marcante, de encontros e experiências tão encantadoras e construtivas que mesmo as experiências negativas resultaram positivas, deixando um saldo espantosamente brilhante. Em viagens há alguns privilégios tão raros que valem bem mais que os sacrifícios de vivê-los. Lalibela foi um destes: das moscas aos pedintes, multidões aos sacrifícios de assistir ao Timkat.

___   As monolíticas igrejas de rocha de Lalibela   ___

                AINDA que a classificação tenha se desgastado, tornado um clichê, não é exagero afirmar que as igrejas de rocha de Lalibela sejam uma das "sete maravilhas do mundo". Quem visitá-las copreenderá o significado desta classificação. São onze igrejas-caverna monolíticas, medievais, construídas para tornar Lalibela uma nova Jerusalém do século XIII. Situadas na região montanhosa central da Etiópia e perto de uma aldeia tradicional, as igrejas são lugar de alto valor religioso do cristianismo ortodoxo etíope, de peregrinação e devoção.

                   LALIBELA  e o Timkat marcaram o fim desta nossa viagem à Etiópia. Antes dela, os encontros com os povos do Vale do Omo, a suntuosa beleza natural do Lago Chamo, os monumentos do Circuito Histórico do Norte - Bahir Dar, Gonder e Aksum e, finalmente, a cidade de Harar consagraram-se espetaculares privilégios e tão boas experiências que o bom senso não me recomendava esperar por algo mais que me encantasse tanto no país. Ainda assim, todas as igrejas - cada qual com sua particularidade - tornaram o fim da viagem um fecho esspetacular. 

___   Padres ostentam as cruzes ortodoxas no Timkat. Réplicas ou antigas, boas lembranças que se podem trazer   ___ 

Há duas Lalibelas: das igrejas-cavernas e a vila cheia de moscas

              Chegamos à "cidade" no fim da manhã. Ansiosos por conhecer suas igrejas, deixamos para fazer o registro no hotel depois de conhecermos o primeiro grupo destas que são as atrações mais importantes do país. Mas eu não chamaria de "cidade" o vilarejo que mais parece não existir no mapa. Extremamente pobre e sujo, depois de conhecer suas igrejas o lugar torna-se extremamente entediante, ainda que durante o Timkat tudo mude, algumas coisas pra melhor, mas outras também pra pior. 

___   Lalibela, a vila, não faz juz ao patrimônio quelhe pertence: as igrejas e os festivais   ___

               Mais que um trabalho de engenharia e arquitetura esculpido na rocha, as construções antes de tudo têm um grau de dificuldade incompreensível, para além de serem o testemunho de uma civilização grandiosa. São obras de arte rústica, rara e preciosa, entre as mais extradordinárias já feitas pelo homem, ainda cheias de vida e funcionalidade.

                 A cobertura metálica instalada pela UNESCO no primeiro conjnto de igrejas tem efeito decepcionante para o mais exigentes: como se pode ver nas fotos, os pilares de aço em treliça interferem severamente no conjunto, enfeiando o monumento e as fotografias, subtraindo a magia do lugar. 

Lalibela durante o Timkat. Sim ou não?  

                 "Hello, where are you from?", "Hello, Birr", "Hello, pen"...

               As crianças nos seguem todo o tempo dizendo "Olá, dinheiro!", "Olá, caneta". Não é nada, afinal, que um viajante à Etiópia não se canse de ouvir de norte a sul do país. Todavia, ainda que sejam situações com as quais devemos saber lidar, e sobretudo compreender, em Lalibela adquirem um grau especial de intensidade profundamente irritante. Um país pobre não é necessariamente um lugar para crianças ousarem tanto, mas a regra não se aplica à Etiópia, especialmente a Lalibela. Talvez o Timkat tenha atrapalhado nosso real interesse em Lalibela - suas igrejas - o que me leva a concluir que teria preferido visitá-las fora da época de seus festivais, e ter assistido ao Timkat em Gonder.                       Um turista em Lalibela durante o Timkat precisa relevar os empurrões e esbarradas, os gritos de guerra de jovens com testosterona saindo pelos poros enquanto executam sua modalidade de “rolezinho” religioso; precisa também saber que poderá não gostar o tempo inteiro das 48 horas de duração do Timkat, de ouvir cânticos religiosos monocórdicos cujo tom constante e invariável é monótono e enfadonho, especialmente ao varar a madrugada; é provável que o mesmo turista não ache graça no barulho daquelas cornetas irritantes, verdadeiras "vuvuzelas" metálicas na versão religiosa etíope, que sopram-se à exaustão (de quem ouve)...

...o mesmo turista precisa compreender a cultura institucionalizada dos pedintes, dos esmolés e dos aproveitadores; deve perdoar a falta de infra-estrutura mesmo para um evento tão importante; pode achar aceitável a taxa de US$ 50,00(!) que terá que pagar para visitar as igrejas,  provavelmente a mais cara do mundo; e talvez o turista até admita que uma hora de Timkat seja o bastante,... 

                      ... e também ache que as moscas, as infernais moscas de Lalibela superam qualquer outro aborrecimento ou desconforto,que não haja chatice maior, ainda que o colorido e o movimento das procissões amenizem seu tédio, cansaço e irritação, especialmente  ouvindo 48 horas ininterruptas de cantorias enfadonhas.

            Para mim é suficiente dizer que trata-se de uma das grandes festas religiosas da Igreja Ortodoxa Etíope, que comemora o batismo de Jesus no Rio Jordão, que celebra a Arca da Aliança, que desfila pelas ruas em intermináveis procissões de religiosos usando roupas e guarda-chuvas ornamentados, que a réplica da arca é mantida durante a noite e trazida de volta à igreja no dia seguinte, que os participantes são regados com água abençoada e que a Arca Sagrada é escoltada de volta para sua igreja numa procissão colorida enquanto o clero executa danças e canções vestindo suas melhores roupas típicas.

                  E se o leitor quiser efetivamente ler algo sério, maduro, responsável, consistente e atraente sobre o Timkat, deve ir ao VIAJOLOGIA, do Haroldo Castro(*). Em "O TIMKAT DE LALIBELA" ele destrincha resumidamente os fundamentos do festival. 

                    A propósito, o amigo Haroldo Castro, jornalista e fotógrafo, autor do Luzes da África, colunista da Época e viajante a mais de 150 países me pediu para comunicar que está agora com a Viajologia Expedições(*) sua operadora turística exclusiva para pequenos grupos de brasileiros, que no momento prepara a viagem "Páscoa na Etiópia", que acontecerá em abril. Quem correr pode ser que consiga uma entre as poucas vagas que ainda restam para viajar com este seleto grupo! A oportunidade de viajar com o Haroldo como guia, vale quanto pesa! E além desta à Etiópia, convém ficar ligado, porque haverá outras, como à Mongólia em agosto (depois da Copa) e um Safari Fotográfico na Namíbia, em novembro. Imagimen participar de uma destas viagens fotográficas com o grupo e o Haroldo!    

As monolíticas igrejas de rocha de Lalibela

                 As igrejas de Lalibela continuam a evocar o mesmo apelo mítico há séculos. Assim como o Taj Mahal de Agra ou a Sagrada Família de Barcelona. Mas diferentemente das suas irmãs de fé, aqui os estudiosos dividem-se: não sabem precisamente quando foram esculpidas, se iniciadas no século XIII ou antes do reinado do Rei Lalibela, onde foram parar os pedaços de rocha escavada, que ferramentas usaram e ainda se desenhadas para demonstrar o poder de um reinado, para reproduzir uma Jerusalém na África ou simplesmente comunicar a fé de um povo.

                 Ainda que de um jeito esquisito, Lalibela tornou-se um lugar sagrado, uma filial da terra bíblica, mini Jerusalém no Corno da África. Mas se foram construídas com a ajuda de anjos, já não se discute, afinal mesmo fantasias têm limites, ainda que sejam o recurso "criativo" usado pelos guias, aparentemente tentando nos fazer crer que nos fazem crer nelas. Provavelmente também acreditam que valorizam a história, todavia não percebem o quanto a desvalorizam e às fantásticas igrejas de Lalibela. Se os estudiosos não concluem acerca dos métodos empregados, das motivações para construí-las, os guias exploram ao extremo o lado espiritual dos turistas, como se todo mundo acreditasse naquelas ingênuas criações.                    Seja lá como as conseguiram construir, uma coisa é evidente: escavaram-nas nas rochas vermelhas como se fossem cavernas. E é precisamente o que lhes confere seu caráter único, sua quase inacreditável possibilidade, sua curiosidade instigante. As igrejas de Lalibela nos levam a refletir sobre o poder e a criatividade da humanidade, sua engenhosidade e capacidade de produzir.

                  Não posso dizer que as tenha achado "bonitas" do ponto de vista estético, ornamental ou do desenho arquitetônico, mas seguramente que estão entre as obras mais difíceis, intrigantes, curiosas, imaginativas e misteriosas que a humanidade já produziu.  

                   O primeiro europeu a descrever Lalibela foi um capelão português, Francisco Álvares, em 1521, era missionário e explorador, e ajudou a instalar a primeira embaixada de Portugal na então Abissínia, atual Etiópia, durante o reinado de Manuel I. Curioso saber que os portugueses estiveram por ali. Mais ainda que retornaram quando o reino cristão ortodoxo esteve sob ameaça dos muçulmanos. O imperador etíope pediu ajuda aos portugueses, que intervieram militarmente com uma expedição de 400 homens, tropa do qual também fez parte Miguel de Castanhoso, em 1564, que escreveu relatando o episódio e mencionando as igrejas.

                  Nosso guia (e creio que ninguém mais) não conseguiu explicar porque fizeram aquelas igrejas nas rochas em vez de construí-las em madeira e alvenaria como as outras (estas sim!) belas igrejas ortodoxas que visitamos na Etiópia. Ou porque tantas e tão próximas umas das outras, já que não havia irmandades concorrendo entre si, a exemplo do que se encontra nas cidades históricas de Minas Gerais, cada qual concorrendo para fazer a mais bela igreja (estas sim!).

                 Foram os sonhos de uma noite de verão etíope de um rei o motivo de suas construções, mas o que o guia fazia era repetir exaustivamente - em todas (!) as igrejas - a mesmíssima cantilena acerca de suas mesmíssimas característica construtivas e ornamentais e dos motivos de terem sido construídas. Se há uma igreja em Lalibela capaz de tirar o fôlego é Saint George.

                   Uma das lendas conta que assim que nasceu o rei, sua mãe viu uma nuvem de abelhas voando e posando sobre ele, sem no entanto machucá-lo. Então ela exclamou: "Lalibela!", o que significa "as abelhas reconhecem a sua soberania"!  Eu não aguentava mais ouvir o guia dizer "as abelhas reconhecem a sua soberania"... A mesma coisa nos Castelos de Gondar e nas stelas de Aksun. Meu Deus!, às vezes eu queria pegar minha doce Emília e sumir pra Somaliland!

                 As dimensões de cada igreja são as mesmas do que seria mais justo chamar de "capelas". E os interiores, em sua maioria, minimamente decorados, seja por pinturas e esculturas, seja por ornamentação e iluminação. Pior do que a simplicidade (para a qual nada tenho a me opor) são as cadeiras de plástico tipo “grosfilex”, os tapetes embolados e caixas vazias entulhando os exíguos e escuros espaços internos. Não que eu esperasse por interiores repletos de alegorias barrocas, mas também não por tanta escuridão e bagunça.

                  A tradição mais comum diz que o Rei de Lalibela - da Dinastia Zagwe - as mandou esculpir entre os anos 1185 e 1225 depois de um sonho. Fato ou lenda, nada ainda é definitivo, nem mesmo parte da história da Etiópia, por vezes tão mal contada. Contudo, uma coisa é conclusiva: o respeito que devemos a este incrível país, ao seu notável patrimônio, especialmente às igrejas de Lalibela. O rei foi o mais famoso, especialmente por ter mandado construir as 11 igrejas que estão entre os principais monumentos medievais da África. Lalibela foi também um bom exemplo de parceria entre igreja e estado.  

              Estudiosos dividem-se sobre se as igrejas foram projetadas para representar o reinado do monarca poderoso, para reproduzir o local sagrado de Jerusalém ou simplesmente servirem às crenças religiosas. A lenda diz que foram talhadas nas rochas por anjos e a tradição de 24 anos de trabalho ininterrupto, dia e noite, sem anjos e por mais de 40.000 pessoas. Usaram machados, martelos e cinzéis, entre outras primitivas ferramentas, o que torna as igrejas ainda mais incríveis, particularmente pelo seu grau de precisão nas linhas e proporções. O fato é que o Rei de Lalibela, com ou sem inspiração divina, dedicou sua vida às construções, gastou todo seu patrimônio e, dizem, que até vendeu seus filhos como escravos para obter recursos necessários à conclusão da "missão".

                 As igrejas de Lalibela são de três tipos: construídas dentro de uma gruta, escavadas na parede de um penhasco ou cortadas no chão. Estas últimas as que vi em maior quantidade. Primeiro escavaram a parte superior, formando os quatro lados da capela. Em seguida, o interior, onde o então o bloco de rocha foi esvaziado por dentro como se escavassem uma caverna. E fizeram direitinho, até com "janelas" falsas e colunas que fingem sustentar. O resultado, um legítimo Patrimônio Mundial da UNESCO, nomeado em 1978. Não é de admirar que hoje a considerem a oitava maravilha do mundo. Um guia extenso e com ilustrações e fotos, apropirado para quem pretende aprofundar-se sobre as características, histórias e estórias das igrejas chama-se A Guide to Lalibela - Milena Batistoni (*).

                 O primeiro grupo de igrejas tem a Biet Medhane Alem - com 33,5 m de comprimento por 23,5 de largura e 11 de altura - como a maior igreja monolítica do mundo, depois a Biet Mariam, Biet Maskal, Biet Denghel e Biet Golgotha-Micael-Selassie, que inclui a cripta de Selassie, sendo considerado um dos lugares mais venerados, senão sagrados, de Lalibela. É um daqueles lugares que apenas homens podem se aproximar, sem todavia entrar. Mulheres nem isso.

                 Biet Giyorgis é isolada, a mais icônica, enigmática e curiosa das igrejas de Lalibela. É o microcosmo de todas, a estrela do show que as igrejas de Lalibela representam.  E é precisamente aqui, defronte a esta construção, que o turista atento perceberá que se o Vale do Omo é um paraíso para apreciadores da antropologia, Lalibela é um desafio à cultura técnica de arquitetos e engenheiros.

                 Obrigatoriamente chega-se a ela por cima. E olhando-a assim, de cima, vê-se a forma de cruz. É nesta igreja que melhor se percebe a forma monolítica, pois o resto da rocha original está íntegra, permanece ao seu redor, ainda que bem próxima do corpo da ingreja.

                  A fachada menos exposta ao sol têm um líquem amarelo que constrasta com o vermelho da rocha, embelezando sua estrutura. Para ter acesso ao interior descemos por uma passagem "secreta", escavada na rocha, cuja aparência é de uma "garganta" natural, estreita, dura, bruta, também inteiramente esculpida na pedra. E etão entramos num estreito espaço sombreado, silencioso, refrescante e misterioso, até chegarmos à igreja que merece todos os superlativos que à Biet Giyorgis são atribuídos.

                    No interior o chão é coberto por carpetes emendados. Iluminado com lâmpadas fluorescentes baratas, tem quadros de pinturas religiosas aleatóriamente colocados sobre o chão e enconstados na parede. Não é bonita por dentro, ainda quetenha detalhes interessantes.

                   Noutro grupo de igrejas estão Biet Gabriel Raphael; Biet Lehem (padaria Santa); Biet Mercurios (que tem um túnel de breu abaixo dela para representar o inferno, sendo que a igreja representa céu); Biet Emmanuel e Biet Abba Libanos. Apesar de Lalibela não ter me empolgado por causa do Timkat, conhecê-las e ter viajado à Etiópia foi uma das melhores exeriências que já tive em viagens, as quais jamais esquecerei.

As cruzes de Lalibela

                  Os dois tipos básicos de cruz são a grega, que tem iguais braços esticados, e latina, que tem os braços em linha reta, com o inferior mais longo do que os outros três. São muito variadas e têm elaborados desenhos artísticos. A forma preferida na Etiópia é cruz grega e suas variações. Desenvolveu-se um tipo especial de cruz processional,mais alongada.

                  Por vezes têm cabeças de pássaro em ambos os lados e uma coroa de figuras humanas estilizadas, simbolizando os dos doze apóstolos e as pombas. As suástica de Lalibela não devem ser confundidas com o as encontradas na Índia. As de Lalibela foram desenvolvidas a partir da cruz grega e relacionam-se à arte cristã na idade média.

___   Tukul Village, aparentemente o melhor hotel de Lalibela   ___ 

                    Ficamos no Tukul Village(*), aparentemente o melhor hotel de Lalibela e seguramente o melhor que ficamos na Etiópia, depois do Sheraton Addis(*). Gostei muito. Eles nos colocaram no melhor chalé, com ótimo chuveiro quente, uma bela vista Wi-Fi gratuito na Recepção e um razoável café-da-manhã.

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NOTAS:

(*) Aqui não tem jabá. Não sou blogueiro que escreve por comissão, para pagar fam trips e para receber agrados, mimos, presentes e afins. Não faço viagens que não tenham sido minha escolha. Os produtos e serviços aqui mencionados não têm o conhecimento dos mesmos, não são recompensados de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação aqui no blog - e se o fiz foi por mera liberalidade, tendo como único intuito informar o leitor. 

Minhas opiniões são independentes, assim como as escolhas, os elogios, as críticas, as menções e os relatos. Não há qualquer compromisso a não ser com a informação, a motivação e a inspiração do leitor. Cada link ou produto citado é feito com a suposição de que o mesmo leitor saiba identificar os objetivos do blog, e que as verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão.

(*) Haroldo Castro - VIAJOLOGIA Expedições http://viajologia.com.br Jornalista e fotógrafo, autor de "Luzes da África" https://www.facebook.com/Viajologia e http://epoca.globo.com//colunas-e-blogs/viajologia

(*) A Guide to Lalibela - Milena Batistoni - Arada Books 2008 - ISBN: 978-99944-823-0-6

      Under ethiopians skies - Hancock, Pankhurst, Willets - ISBN: 978-1-904722-38-0

 


Quarta-feira
Fev192014

HARAR e a magia das viagens

___   Asmadin Bari, o túnel do tempo para entrar em Jugol, ciade antiga de Harar   ___

            IMPRESSIONADO, cruzo os muros de Harar. Me sinto um explorador, como Richard Burton, diplomata britânico que entrou na cidade em 1854, por um dos portões até então jamais ultrapasssados por qualquer ocidental. Pelas mesmas vias estreitas e inclinadas, desviando de gente e de burros de carga, pisávamos nas pedras centenárias seguindo os mesmos passos do explorador.

              Entrávamos na quarta cidade mais sagrada do mundo islâmico. E também não víamos ocidentais. E eu ia refletindo, que quanto mais viajo, menos me impressiono com as coisas,  mas ainda assim a magia das viagens continua fazendo das suas : surpreendendo, instigando, mostrando lugares incríveis e capazes de inundar a gente, nos transbordar de si mesmas.

           A cada passo Harar excedia expectativas, estimulava e se fazia arder no cérebro. E eu pensava que devem ser poucas, afinal, as capazes de nos inflamar desse jeito. Parecem implicar com nossas certezas, nos fazer repensar conceitos e nos levarem a perceber que ao contrário, quanto mais viajamos, melhores turistas nos tornamos.

            Caminhando pela cidade, espremidos em seus mercados, nós íamos vivendo sua intensa, e aparentemente infindável vibração. Protegidos e guardados pelo excepcional guia local, que nos dava liberdade de explorar, mas nos vigiava de atenções indesejadas. Como, afinal, deveria ser todo guia: protetor, mas não possessivo, como o que nos acompanhou por toda a Etiópia.

          HARAR. Muralhas, gente, cores, cheiros e hienas

        O Vale do Omo e o Circuito Histórico já tinham sido tão fabulosos que o bom senso não me recomendava esperar muito daquela cidade. Vista de fora, não parecia nada atraente, muito menos convidativa. Todavia, ao entrarmos, mostrou-se simples e receptiva, uma das mais agradáveis que visitamos na Etiópia.

___   A dois passos do século 11: Asmadin Bari, a porta do tempo em Harar   ___ 

          Fotógrafos entram em êxtase com a potencial daquele cenário. Escritores desorientam-se ao tentar descrevê-los. Entrar em Jugol e fazer parte de sua rotina igual há séculos, entre paredes chapiscadas e coloridas, ruas tão estreitas e sob uma atmosfera contagiante, é o que faz de Harar uma  experiência deliciosa para um viajante na Etiópia.  

 ___  A atmosfera encantadora de Jugol se revela assim que cruzamos um de seus portões  ___

            Por fora, nada atraente. Por dentro, um mundo vibrante. É na idade o que ela tem de melhor: alguns belos edifícios estão desmoronando, é verdade, e parece que ninguém está preocupado com isso. A vida segue, como sempre, nos fazendo voltar no tempo. E concluímos que se a Etiópia é destino fascinante, Harar retém boa parte desse fascínio.

___   Por fora, Peugeots e bajajs decrépitos. Por dentro, "bela viola"  ___

          O Sol ainda não estava alto, mas já havia o frenético movimento que contribui para a atmosfera indescritível de Harar. Imagino ser a mesma que contagiou o poeta Rimbaud e o explorador Richard Burton.

___   A cidade então despeja sobre o visitante sua atmosfera   ___

 A cidade derrama sobre nós e de uma só vez seu burburinho, um movimento de cores e sons, de vida, de mercados e vendedores. Não há carros nem motos, só curiosos. Por nós e nossas câmeras e smartphones fotográfios. Para nós, uma volta no tempo, para eles ficção científica. As pessoas prevalecem sobre a arquietura e as construções, não deixam a cidade esfriar, mas crescer e nos dominar. E em minutos nos tornamos apaixonados por Harar.

___   O toque colorido dado pelas roupas ácidas e extravagantes das mulheres harari  ___

Às vezes é incrivelmente movimentada, noutras inacreditavelmente serena. Ainda que não se possa chamá-la "bonita", é muito "atraente". E sabemos que suas muralhas foram responsáveis por proteger tanta cultura e originalidade.

___   "Que diabos será isso?"   A curiosidade é genuína, Harar parou no tempo  ___

           Por alguns minutos não consegui processar tanta informação. O coração disparado, a boca seca, o movimento expressivo dos olhos, enfim, a excitação era agradável, não precisava ser contida, afinal, era só prazer. Mas enconstei-me num muro, olhei ao redor como se esperasse tudo se acalmar, ou então me parecer menos frenético.

           Tão intensos eram meus cliques que senti na palma da mão a quentura de seu processador. Desliguei a câmera por um tempo. Era preciso resfriá-la e eliminar meu medo de que eu não pudesse mais registrar aquele momento em que me sentia mais explorador e aventureiro que um simples turista. E não me recordo de ter visto outro ocidental por ali, ao menos não tão entusiasmado quanto eu.

___   Por uns minutos não consegui processar tanta informação   ___

O toque colorido era dado pelas roupas coloridas e extravagantes das mulheres harari. Ácidas, lisas ou estampadas, iam dos laranjas, roxos e vermelhos aos azuis, verdes e amarelos. E aqui as mulheres, como em todo o país, têm importante papel econômico: são especialistas em artesanato. Fabricam uma colorida e bem acabada cestaria, tanto para utilidades domésticas quanto cerimoniais. O que podem, vendem aos visitantes. Muitos trabalham sentados na rua, vendem seus produtos ou os fabricam, como os alfaiates. Açougues que pensei não mais existirem expõem carcaças frescas dependuradas sobre balcões. Sem refrigeração, que isso é coisa de país rico.

___  Nenhum lugar escapa da Coca-Cola   ___

Pela via principal ligeiramente íngreme, sobre calçamento de pedras, sem calçadas, casas antigas de telhados baixos estão próximas, parecem olhos espreitando nossa passagem. Aquele mundo parado no tempo mas de vida vibrante eu não dava conta de assimilar, como num estado alterado de consciência. À medida que nos aprofundávamos na cidade, que entrávamos em seus becos secundários, todavia tudo desacelerava e tornava-se bucólico. E silencioso. Incrívelmente silencioso e calmo. Era ainda mais agradável e encantador.

 "Por fora, bela viola, por dentro pão bolorento"?  Harar é o contrário!

___   Não se possa chamá-la "bonita", todavia muito "atraente"   ___

Escondida do turismo etíope óbvio, Harar mantém seu caráter misterioso. É inexpressiva quando vista de fora, mas fascinante quando se visita por dentro. Extremamente excitante na atmosfera, revela-se logo que cruzamos os portões da muralha. Na verdade Harar é tão genuinamente autêntica e complexa, tão labiríntica e vibrante, cuja uma história é tão intensa e presente que parece viva. E nos segue como sombra os passos enquanto a exploramos. É imprescindível conhecê-la com a ajuda de um guia local, não apenas para descobrirmos suas jóias escondidas, como também para entrarmos em lugares que apenas os locais têm acesso.

___   Além de colorida, a cidade é "tourist friendly"   ___

Dizem que pode haver alguma hostilidade aos estrangeiros, especialmente vindas de crianças. Não percebemos nada que se aproximasse disso. Ao contrário, em toda a Etiópia, Harar foi a cidade mais hospitaleira, a com menor assédio e onde mais carinhosamente fomos recebidos. Se o clichê mais óbvio destaca os hahari pela religião e exotismo, para nós seria classificá-los como simpáticos e hospitaleiros. São descontraídos e com freqüência nos chamavam para um bate-papo.

___   Cores ácidas e padrões extravagantes nas roupas das mulheres harari   ___

“Museu Vivo” da Etiópia é como chamam Harar, a misteriosa. A cidade velha murada é tão bem preservada que suas muitas vezes referem-se a ela como "museu vivo", em cujo interior, num espaço de 3,5 quilômetros quadrados, há 368 becos que servem aos seus 40.000 habitantes. Cidade de mistérios e de grandes histórias, exótica e excitante, mas cuja atmosfera só se percebe quando cruzamos seus portões. É preciso passar para além da muralha que a protege, en então, sob a condição de viajante estrangeiro, experimentar uma incrível mudança, uma volta no tempo. Assim a cidade cresce, e nos domina, logo nos encanta (ou enfeitiça) e pouco depois nos torna apaixonados. Sobre aquela escarpa com vista para a planície que a circunda, a 1850 metros acima do nível do mar, experimentemos o tal clima. Que magicamente nos transforma assim que cruzamos um dos cinco portões, construídos há quase 500 anos.

___   A decrepitude, aqui e ali, contribui para nos lembrar de sua idade e transmitir seu ar misterioso   ___

Cada "bari" - ou portão - dava acesso ao tráfego de caravanas de comércio e de moradores, ligando a pontos diferentes da cidade, ainda hoje têm seus nomes gravados no estuque: Asumyi Bari, Asmadin Bari, Argob Bari, Badro Bari e Sugudati Bari. Esse enclave muçulmano num país majoritariamente cristão ortodoxo não por acaso tornou-se um dos patrimônios mundiais da UNESCO na Etiópia. Mesmo assim ficou fechada aos estrangeiros a maior parte do tempo de sua história: Harar só era alcançada por caravanas de camelos e mulas, e depois de semanas ou meses de jornada. Hoje a cidade murada é acessível com facilidade, especialmente por via aérea. Existe um serviço que liga a capital a Dire-Dawa, e dali pega-se um carro por mais 45 minutos até Harar, única cidade islâmica importante na Etiópia, a cerca de 526 km de Addis.

___   Ruas estreitas, casas coloridas, calçamento de pedra, nehuma viva alma   ___

A cidade é dividida em duas partes: a antiga, murada, onde vivem os muçulmanos, chamada Jugol, e a nova, que se estende ao redor da muralha e é predominantemente cristã. Quem conhece o Iêmem por certo se recordará do país ao cruzar suas muralhas, onde nem bicicletas circulam por seus estreitos caminhos sinuosos, senão pessoas a pé e  burricos de carga. No interior das muralhas, um mundo de caminhos estreitos, sinuosos, labirínticos, de mercados, residênciai, comércio centenário, gente trabalhando na rua, museus e palacetes, o mercado de carne - cujas águias ficam nos telhados em espreitando as sobras - formam um conjunto de atrações fantástico.

Os harari vivem em casas de dois andares, caiadas de cores vivas, situadas num labirinto ruas de estreitas e sinuosas, guardadas por muros e portões altos e decorados. Harar tem de extraordinário o fato de ser tão autêntica que ninguém escapa de citar o clichê mais comum quando a visita: "uma volta no tempo". Tem mesquitas, bem simples, mas numerosas: contam-se 82, três delas do século X. E 102 altares e mausoléus. Foi a quarta cidade santa do islã, depois de Mecca, Medina e Jerusalém. E tem mercados do outro mundo. E palacetes e ruas tão estreitas que por vezes passa apenas um. Chegou até a possuir moeda e lingua próprias.

O estilo de suas casas, reminiscência da arquitetura árabe, chama-se gegar, só existe ali. O quarto principal fica no segundo andar, mas há cômodos internos nos dois pisos que definem o status dos do convidado e dos membros da família. No interior as paredes têm paredes cobertos por enfeites e nichos com objetos decorativos. No piso da "sala" há tapetes e almofadas. Sua planta arquitetônica é típica, única, específica e tremendamente original. Mas no final do século XIX comerciantes indianos construíram casas novas, cujas varandas de madeira definiram a nova paisagem, diferente (e bonita), passaram a influenciar as casas harari dali em diante. Todas têm qualidade arquitetônica e ornamental que ainda hoje são atraentes. Mesmo que a maioria esteja despencando, ainda são um importante patrimônio cultural da cidade.

As origens da cidade são obscuras, como aliás muito da história do país. Muçulmanos teriam se estabelecido na região no tempo do imperador etíope Amda Tseyon, que governou de 1314 a 1344. Mas a cidade é mencionada antes disso. De acordo com um registro árabe, havia sete reinos muçulmanos na região, todos sob a autoridade dos etíopes, entre elas, Harar. Há quem diga que foi estabelecida pelo Sultão Abu Beker Mohammed, em 1520, que moveu sua capital de Dakar para Harar. Seu reinado foi curto:  cinco anos depois for assassinado por Ahmed ibn Ibrahim al Ghazi, que deixou sua terra natal para empreender uma guerra santa, em 1530, contra o cristianismo etíope. Bem sucedido, depois foi derrotado e morto em 1543, como resultado de uma intervenção portuguesa.

A atração principal em Harar é a cidade em si. Mas há dois mercados - o muçulmano, extremamente atmosférico e fotogênico, de especiarias, utilidads domésticas, frutas, cereais, cestas e outros produtos que já não me recordo - e o cristão, separado do muçulmano porque parte dos produtos são proibidos aos muçulmanos. Além de seus mercados lotados, há o comércio de rua, nas vias principais e mais largas, vibrantes no movimento. E nos becos tranquilos, onde há um misto de arquitetura etíope, egípcia, indiana e italiana, a sensação é de estar num lugar incomparável. Perder-se é fácil, é quase certo que você vai se perder, mas será dentro de uma cidade murada, perdido mesmo, então você não estará. Então, não há motivo para preocupar-se: todas as ruas acabam saindo num lugar central ou levam a um dos portões.

Rua "Makina Girgir". Vem de "máquina" (de costura), que faz gir... gir... gir...

A história mais curiosa está relacionada ao poeta francês Rimbaud, libertino de mente inquieta, que viajou intensamente por três continentes antes de morrer de câncer aos 37 anos de idade. Em 1884, ele largou tudo, inclusive trabalho, e tornou-se viajante mercador, chegando em Harar, onde conseguiu entrar disfarçado de árabe, e começou a vender café e armas. Logo fez amizade com o governador de Harar, Ras Makonnen, pai do futuro imperador da Etiópia, Haile Selassie, conquistando-lhe a simpatia e confiança. Durante o governo egípcio, de 1875 a 1884, Arthur Rimbaud viveu na cidade, como representante local de várias empresas comerciais, até que sua doença, provavelmente câncer, o fez voltar à França.

___   Rainbow House, a Casa de Rimbaud    ___

Rainbow House, a casa do arco-íris, construída por indianos, é uma elaborada casa que virou museu. De alguma maneira ela parecerá não encaixada na cidade, assim como também a casa do poeta Rimbaud. Ambas valem muito a pena a visita, o primeiro pelo acervo, a segunda pela excelente vista do piso superior. A Casa de Rimbaud - uma elegante mansão dedicada ao poeta - todavia jamais lhe pertenceu. Nem mesmo residiu nela, pois é posterior à sua morte. É dedicada à sua memória, e tem fotos de Harar antiga, objetos e informações sobre a vida e obra de Rimbaud, que gostava de fotografar a cidade em 1880. Suas fotos são documentos de valor inestimável.  

___   Rainbow House, a Casa de Rimbaud  ___

A casa de Rimbaud foi renovada recentemente com a ajuda da UNESCO. O interior é tão atraente quanto a fachada. Toda em madeira, com mistos de estilos que vão do arte deco ao indiano, é da das janelas do segundo andar que se tem uma bela vista aérea da cidade em três direções. No primeiro andar há uma biblioteca com exemplares escritos em francês, lembrando a conexão entre a Etiópia e a França, que apoiou o país desde a década de 1880 até a Primeira Guerra Mundial, incluindo a construção de uma a ferrovia e o fornecimento de armas, que maistarde, inclusive com o apoio de Rimbaud, ajudaram os etíopes a derrotarem os italianos em 1896.

___   Rainbow House, a Casa de Rimbaud  ___

Alimentando hienas selvagens em Harar

Hienas podem até considerarem-se o mamífero mais odiado no sul da África. Não em Harar. São mesmo feias, bichos agressivos, cheiram mal, comem carcaça e roubam alimentos. Mas aqui elas não apenas circulam na periferia da cidade como inserem-se nas tradições. Os hararis têm relação inusitada com estes animais. Alimentá-las é o grande, esperado e único evento noturno da cidade. Inusitado? Pra lá disso.

O "homem-hiena" e suas hienas. Amestradas? Não!

Yusuf Mumé Salih é um fazendeiro que vive fora da cidade e há anos adotou uma matilha de hienas selvagens. Deu-lhes nomes. E todas as noites religiosamente as chama: "Tika, Butta, Mehai, Jimba..." Quatro hienas saem da escuridão e começam a rodeá-lo. Ele bota a carne no espeto, prende-o entre os dentes e uma hiena fica à sua frente e a pega. Ele pega mais no cesto para alimentar o resto da matilha. Depois olha em direção ao grupo de turistas que pagaram uns trocados para o assistirem; é hora deles alimentarem as hienas. Então, o homem chama os turistas. Poucos, que estão por ali a uns três metros fotografando. Convida-os para ajoelharem-se junto a ele, no outro pano que colocara no chão. Muitos demonstrarm estar ansiosos por ir.  Eu não, afinal, são animais selagens, ainda que "acostumados" com o evento. 

A cena, iluminada pelos faróis de uns cinco carros é uma das mais inusitadas que já presenciei. Essa relação entre pessoas e hienas em Harar, do qual eu havia lido extensamente antes de viajar à Etiópia, primeiramente me pareceu falsa, depois estranha. Concluí tratarem-se de hienas domesticadas. Mas lá conheci a história verdadeira. E depois retirnei e pesquisei. Hienas comem as carcaças de animais que morrem de entre as criações próximas às matas de Harar e mantém a área livre de outros eventuais predadores. Apesar de sofrerem eventuais ataques a pessoas e animais, as hienas são tidas como animais positivos, e acrediam que são um benefício para a área.

Jamais farei isso!, falei à minha doce Emília...

- Quais as chances de ser atacado?, perguntei. "Inexistentes," respondeu o guia.

- Jamais farei isso!, falei à minha doce Emília assim que ela retornou de fazê-lo. Mas fui tão instigado  pela platéia e por nosso guia que em cinco minutos lá estava eu, alimentando uma hiena! Ainda que sem saber se havia feito a escolha certa ou apenas pra não demonstrar medo. Confesso que não achava a escolha sábia, mas logo estava ajoelhado e segurando uma varinha entre os dentes enquanto quatro hienas me rodeavam. Um à minha frente esperava o comando para pegar seu petisco.

"Elas são inofensivas, relaxe", disse o guia. Relaxei. Afinal, até então nenhum turista havia sido comido, por que eu haveria de ser? Fui. Confesso que achei nojento colocar aquele palito na boca, mas um bocado excitante! E fiquei cara a cara com uma hiena. Melhor, boca a boca! Ao ponto de olhar seus olhos a poucos centímetros dos meus. E sentir seu cheiro. A alimentei três vezes. Voltei ao meu lugar. E fui aplaudido. Foi triunfante!

"Elas são inofensivas, relaxe", disse o guia...

Outra experiência notável é - para além de visitar - hospedar-se numa residência de família, em casas antigas, típicas de Harar, parcialmente transformadas em ousadas para os viajantes, onde se oferecem comida, companhia e hospitaidade, além de ajuda no que precisarem os turistas para explorarem a cidade. Um dos que visitamos foi a Anisa Guesthouse.

foto

Na praça central, antes de entrar na cidade antiga, fica a Igreja Ortodoxa etíope Medhane Alem, construída por Menelik no final do século XIX. A igreja tem obras de arte tradicionais religiosas, mas não é exatamene uma atração turística. No centro de Praça Ras Makonnen há sua estátua eqüestre em bronze. Se a Etiópia não está no roteiro de muitos viajantes (mas deveria), Harar muito menos. Mas eu não consideraria completa minha visita sem ter ido a Harar. E em termos de ‘cidade’, ambas, Harar e Bahir Dar, foram as que mais gostei.

NOTAS

(*) Rimbaud, em carta datada de 13 de dezembro de 1880, para sua família, anunciou sua chegada em Harar: Cheguei neste país depois de 20 dias andando a cavalo através do deserto da Somália. Harar é uma cidade que se estabeleceu pelos egípcios, protegida por uma guarnição militar de vários milhares de homens. Aqui farei a minha loja, neste país comerciante café... O país é alto, mas não estéril. O clima é frio, mas não insalubre. Aqui tudo que é importado da Europa chega por camelo. Nos anos 1880-1891 eles eram independentes, e para a antiga cidade de Harar, rica em eventos que mudaram o curso da sua história, a primeira foi a ocupação egípcia, então um efêmero reinado,  para ser finalmente tomada pelo exército de Menelik.

(*) A vinte e nove quilômetros de Dire Dawa, a estrada até Harar cuza a região mais pobre que presenciamos na Etiópia. E também pelo Lago Adele, infelizmente secando, e por aldeias tão precárias que me incomodavam o olhar, onde outrora havia algumas das melhores culturas de café, hoje substituidas pela erva chat, folha que mastigam, exportada para os países próximos, incluindo o Iêmen e  até alguns da Europa, uma nova droga considerada ainda legal.

 (*) Tivemos o nosso guia. Mais que isso, o privilégio de conhecer um sujeito excepcional. Educado, intenso, empolgado, culto, articulado e simpático. Começou a visita por fora, deu-nos uma visão panorâmica (e demorada!) sobre a história. Confesso que não achei nada estimulante e estava mesmo me sentindo entediado. Sobre uma escarpa com vista para a planície que a circunda, a 1850 metros acima do nível do mar, apenas quem passa pelos portões da cidade antiga experimenta o que é Harar. De fora, é feiosa e desinteressante, pobre e suja. E o tal clima que transforma tudo, funciona na velocidade de um clique: assim que colocamos os pés dentro de Jugol.

De Addis Ababa a Diredawa, pelo Bombardier da Ethiopian Airlines

Domingo
Fev022014

VALE do OMO - O que vi além do que se vê com o olhar

Jovem Mursi em sua aldeia no Vale do Omo

             VIAJAR à Etiópia é mais que o simples ato de explorar turisticamente um lugar”. É um desafio. Ao físico e à mente do viajante. Mas não para aquele que busca "lazer em lugares aprazíveis", senão uma cansativa jornada no tempo, uma incursão profunda na história, na geografia, paleontologia, arqueologia e geologia. E se por um lado é ceder incondicionalmente ao desconforto, por outro é ver excedidas suas expectativas. É ter deleites visuais encantadores e experiências quase alucinatórias. É experimentar a antropologia sem ser formado nela. É aborrecer-se com o assédio das crianças, mas logo arrepender-se de sua ignorância, porque o impediu de ter um encontro genuinamente encantador. É presenciar uma pobreza óbvia e permanente, é ter culpas por estar num zoológico humano e ter que pagar para fotografar indivíduos exóticos.

             E ao final de sua visita às tribos primitivas, ver reduzido seu interesse, pois descobriu que não curte safaris humanos, acha aquilo meio estúpido e se sente um pouco ridículo participando daquele voyeurismo constrangedor. E, por fim, perceber que preferia mesmo era conviver com aquela gente, o verdadeiro motivo pra ter ido tão longe, em vez de fotografá-los avidamente  

Quanto mais remotas as estradas, mais gado, menos veículos

               Viajar à Etiópia é sobreviver à ambiguidade de ter ido para ver aquelas tribos mas sentir-se culpado por tê-lo feito. Tudo porque percebe que sua presença influencia as tradições, e ainda assim, consciente de sua culpa, não resistir ao prazer turístico, fotografá-los loucamente.

              É chegar a ter espasmos ao trafegar por certas estradas em carros extremamente inconfortáveis. É perceber que tudo o que vê é único, que tudo é fascinante, tudo é belo e emocionante. É reconhecer que não há nada mais sublime numa viagem do que isso: obter tudo o que esperava, mas em doses muito mais generosas. É estar certo de que vive um privilégio raro: ver o que jamais encontrará noutro lugar.

Rio Omo visto da Tribo Karo

Grandes momentos, do princípio ao fim

         Há de se convir que já não há tantas viagens de onde se possam trazer muito mais do que fotos, recordações, souvenires e prazeres, mas lições de vida, de aprendizado e até de moral. É viver mais que grandes momentos, senão marcar-se por preciosos encontros, por experiências notáveis do começo ao fim. Foi assim na Etiópia, e já não posso dizer que para nós seja tão fácil viver experiências dessamagnitude em viagens.

        O mundo globalizou-se, logo estará plano. Mas a Etiópia não, ainda não. Mesmo que a gente saiba que naquele acampamento Mursi eles saibam direitinho como se vestir e enfeitar seus corpos para ficarem mais atraentes para os turistas. E serem os mais disputados para fotografá-los.

        Na Etiópia não há luxo. É preciso estar preparado para isso. O ar é seco e quente, as estradas são lentas e as trilhas poeirentas. A comida é fraca (mas há quem goste), a infraestrutura é precária e os dias são ricos em desafios. O assédio é constante, e nem sempre amigável. Lamentavelmente, muitas crianças sorriem e pedem uma foto. Seus sorrisos são lindos, você não resiste, tira a foto e elas lhe pedem dinheiro. Algumas trabalham demais, carregam peso demais, são esfarrapadas demais, sujas demais para o que se espera ver numa criança.

 Meninas da tribo Arbore

Mas por motivos óbvios  - sobretudo sólidos - a Etiópia está se tornando um dos mais importantes destinos turísticos na África. Justiça lhe está sendo feita pelo universo viajante. E é um daqueles países especiais, que confundem mais do que se explicam, ainda que isso seja positivo, leve alguns turistas a aprofundarem-se, tentarem respostas, todavia nem sempre muito factíveis. 

Por isso é hora de descobrir a Etiópia. Muito mais do que por Lalibela e suas monolíticas igrejas dos séculos XII e XIII, protegidas pela UNESCO, que ao conhecermos torna incompreensível nossa escala de entendimento do que seja “difícil” executar. E nos pegamos tentando racionalizar,  imaginando que artefatos teriam usado seus escultores. E sem encontrar respostas (ao menos as não as inadmissíveis), senão suposições religiosas, nos lembramos de que possívelmente "Os Deuses eram (mesmo) astronautas!". 

Anciã da tribo Arbore

               Mais do que isso, visitar a Etiópia é também encantar-se com sua beleza natural, ali discretamente visíveis nas montanhas, noutros patrimônios, na história e construções de impérios longínquos no tempo, quase desconhecidos da humanidade, como o dos aksumitas, por exemplo.

               É também perceber o quão incomparável é o encontro com as inúmeras tribos primitivas do Vale do Omo,  mas surpreender-se co o fato de que esta é uma terra meio sem lei, onde armas são usadas regularmente, onde há confrontos tribais, onde pessoas são mortas e o governo não interfere, sendo aceitos assassinatos. Um povo primitivo que luta há séculos pra defender seu gado, suas mulheres, sua tribo, honra e território. Cujos indivíduos escarificam o corpo, deixando-lhes cicatrizes eternas, bem desenhadas, para mostrar quantos inimigos e animais perigosos já mataram ou simplesmente tornarem-se mais atraentes para o sexo oposto.

Quanto mais remotas as estradas, melhores os encontros

             É sobretudo surpreender-se com a reação de pessoas que conheceu. As mais simples mesmo, que por algum motivo lhe prestou um serviço, você agardeceu, tratou com simpatia e educação, trocou  sorrisos e gratificou. E sem saber, no dia seguinte receber presentes em troca e agardecimentos por ter sido assim com eles: educado, civilizado, gentil e receptivo. E presentes caros (para eles)! Depois da Índia eu não imaginava que algum país pudesse me fazer refletir tanto...

O custo e o esforço de chegar ao Vale do Omo

            “HOJE vocês conhecerão nossa african massage!”, disse Elijah ao nos encontrar aquela manhã na portaria do Sheraton Addis. Prontos para embarcar em nosso Land Cruiser com destino ao sul, eu respondi: “Mas ontem à noite fizemos uma ótima massagem no hotel!", ainda sem compreender o que ele queria dizer com “african massage”. Parecia uma brincadeira, mas era o jeito de nosso guia dizer-nos: "preparem-se para o desconforto!".

             A jornada seria um desafio, já sabíamos. Uma longa, cansativa, demorada viagem - parte por bons caminhos, parte por estradas precárias - trepidando, sacudindo e sacolejando. Mas estávamos apropriadamente descansados. E massageados por uma incrível profissional. Entusiasmados com o dia que teríamos pela frente, aceleramos a entrada no carro e a partida rumo ao Sul. Seriam dois dias e duas etapas, para os quais estávamos preparados, contudo sem saber se para algo extraordinário ou um desastre.

"African massage"

           Nosso entusiasmo era notável e o carro confortável. Viajaríamos à nossa maneira favorita: de carro e podendo parar onde e quando quiséssemos. Elijah nem precisava ter alimentado nossa já excitante alegria antecipando-nos o roteiro, descrevendo as belas paisagens que veríamos, as experiências que viveríamos até chegarmos a Arba Minch.

            - Estejam à vontade para pedir ao Rikev (nosso motorista, dublê de ornitólogo amador e observador de pássaros) para as paradas que quiserem para fotos!

             Os dois dias em Addis, nossas câmeras parrudas e a quantidade de cliques já haviam dado a percebcer nosso gosto por fotografia. Rikev nos trouxe dois livros técnicos com as 30 espécies de aves endêmicas e as dezenas de outras muito perto do endemismos na Etiópia mais um potente binóculo! Ao longo de nossa estada no sul jamais tive a oportunidade deobservar tantas e tão lindas e raras aves.

Galinha Vulturina, a maior d'angola, é azul

Mas como vale o Vale do Omo!

           É difícil saber por onde começar um relato resumido (e aceitável) do que foi nossa experiência turística na Etiópia. Especialmente porque aqui eles são escritos pensando no leitor, não na propaganda que sua audiência possa motivar. Ou seja, o que vale quando escrevo é a qualidade, não a quantidade da audiência. Portanto, quando escrevo, o faço me lembrando do que disse Benjamin Franklin: "Escrever sim, mas algo que valha a pena ler e fazer algo sobre o qual valha a pena escrever."  Alguém já disse que ”Para ser um bom escritor, precisamos de 3% de talento e 97% de força de vontade, especialmente para não nos distrairmos com a internet.”  Então, mesmo que nem sempre inspiração venha pra mim em doses adequadas (ainda que o desejo de escrever seja imenso), estou aqui tentando produzir sobre a Etiópia algo de valor, digno e justo com o país, inspirador e motivador para o leitor.

             Não apenas sobre o sul da Etiópia, mas por todo seu território, onde sempre percebemos o quanto este país é desesperadamente pobre e o quanto lhe faltam infra-estrutura rodoviária, hotéis de bom padrão e restaurantes (não turísticos) com mínimas condições de receberem turistas. Mas por outro lado o viajante é regiamente recompensado, tanto pelo que vê de riqueza patrimonial, natural e cultural, quanto pela possibilidade de aprofundar-se numa história substanciosa, pelo acolhimento ao turista e pela quantidade de atrações quenão encontará em qualquer outro rincão do planeta. E sentir o delicioso e notável orgulho de seu povo em poder mostrar o país a nós.

            A propósito, meu amigo Haroldo Castro, jornalista e fotógrafo, autor do Luzes da África, colunista da Época e viajante a mais de 150 países (http://viajologia.com.br/) está agora com a Viajologia Expedições (*) operadora exclusiva para pequenos grupos de brasileiros, preparando uma viagem chamada "Páscoa na Etiópia" que acontecerá em abril. E ainda sobram poucas vagas no grupo! A oportunidade de viajar com o Haroldo como guia vale quanto pesa! Além desta na Etiópia, terão Mongolia em agosto (depois da Copa) e o Safari Fotográfico na Namibia, em novembro. Imagimen poder participar de uma destas viagens fotográficas com o grupo!

“Estejam à vontade para pedir ao motorista quantas paradas quiserem para fotos!”

           Apenas um par de horas depois que saímos de Addis entrávamos neste sem fim de sensações: paisagens rurais, cenas bucólicas, vida dura e difícil, campos cultivados com cereais - especialmente o teff (do que é feito a injera e que só dá na Etiópia) -, bonitos e dourados campos nesta época seca do ano. Os platôs, as cadeias montanhosas, os cerrados de arbustos espinhosos, os cactos, cupinzeiros enormes, homens, mulheres e crianças nas estradas, correndo atrás da vida ou de nós, gritando por alguns birr, nos acompanhando pela janela do carro ou grudando-se nele tentando vender alguma coisa. Especialmente frutas e artesanato. Quase sempre com olhares tristes, genuinamente tristes.

Injera, o prato nacional, feito de teff, que só dá na Etiópia 

            “Quem mata o tempo não é um assassino, é um suicida”, já dizia Millôr Fernandes. Nós passávamos o nosso, intensa mas bem mais lentamente do que a lentidão com que vencíamos os 500 quilômetros de estrada. Trepidando, sacolejando e nos empoeirando (como nos preparara Elijah ao chamar de “african massage” nossa jornada), seguindo nossos caminhos nos esquivando de caminhões, de ônibus, rebanhos de gado e ovelhas, burricos em tropa carregando lenha ou puxando carroças, camelos, pessoas, crianças e bajajs, os triciclos motorizados e de toda sorte de tráfego do que seja possível seguir por uma estrada. Por vezes até aparentemente impossíveis.

Crianças na peira da estrada, uma realidade angustiante

             A cada quilômetro vencido voltávamos uns anos mais no tempo. E de Addis Ababa a Arba Minch - ponto final da primeira etapade dois dias de viagem - foram quinhentos quilômetros de distância e mil anos de volta no tempo. Quando olhávamos para a frente, eram menos quilômetros até o destino, e menos anos no tempo. Arba Minch seria o destino intermediário, onde dormiríamos no Paradise Lodge (*). O final - Turmi - não se pode alcançar de uma só vez. Mas tudo até então parecia valer. Como vale o Vale do Omo!

Terraços de plantio, do norte ao sul do país

            As paisagens de colinas e montanhas já não são verdejantes nesta época do ano. Matas estão secas, rios, cachoeiras e florestas também. Mas continuam abundantes pássaros exóticos, o que além das tribos fascinantes e intrigantes, constituem-se em atrações que rivalizam com as principais: as visitas aos povos Hammer, Mursi, Ari, Arbore, Karo, Konso, Dorze, entre outros, as experiência de conhecer seus mercados semanais, os encontros e sensações cujas palavras quem não as domina não consegue encontrar para descrevê-las.

Os Mursi, um encontro inesquecível

       Estávamos felizes, encantados e satisfeitos com tudo o que víamos e experimentávamos. Sobretudo preparados para os desconfortos das acomodações espartanas que nos esperavam por toda a viagem. Para os contatos humanos, intensos, para suas situações estressantes, todavia não há como preparar-se, senão vivê-las. Não somos mochileiros, mas viajantes bem viajados. Gostamos de luxo e de conforto, mas entendemos que em viagens o maior luxo são as experiências incomuns, as originais, autênticas, genuínas e exóticas. Que cada cena e experiência, como as que começávamos a viver naquela viagem nos agradavam tanto que nos surpreendiam. Só no fim da viagem em contabilizei que não houve um só dia que não tenha sido encantador, intenso e que em nenhum instante me senti entediado, como infelizmente por diversar vezes me senti em nossa viagem anterior, ao Irã. Na Etiópia, jamais me senti entediado.     

Nem tão "paradise" nem tão "lodge", mas em Arba Minch, um vista espetacular

           O padrão do "Paradise" - mesmo com sua toda a estupenda vista sobre o vale e os Lagos Chamo e Abaya - não deixa de conferir pretensiosidade ao nome. Mas estávamos preparados. Afinal, era o que de melhor a Etiópia tinha a nos oferecer. Dali em diante a coisa só pioraria, e no destino final, o Vale do Omo, para onde seguiríamos na manhã seguinte, em Turmi ficaríamos três noites no Buska Lodge (*), não tão "paradise", quanto o hotel de Arba Minch, ainda mais simples e muito mais remoto, mas foi onde tivemos alguns dos nossos mais memoráveis momentos na Etiópia. De viagem, afinal, foram quase onze horas, contando as paradas técnicas-fisiológicas, para comer, fotografar e visitar o que havia de interessante no caminho. Seriam cerca de sete horas líquidas caso fôssemos direto.

Nas estradas, de norte ao sul do país, os carros pedem licença...

            Percorrendo estradas razoáveis e precárias, todas bem vencidas pelo confortável e bem conduzido Toyota Land Cruiser Prado com tração nas 4 da Travel Ethiopia (*), guiado pelo nosso dublê de ornitólogo e excepcional motorista Rikev. Nos dias seguintes visitaríamos e passaríamos por diversas  cidades como Arba Minch, Turmi, Murulle, Dimeka, Alduba, Key Afer, Jinka, Mago NP,  Kocho, o Hamer Market, Omorate, o Lago Chamo - um dos oito lagos do Rift Valley, onde há hipopótamos, crocodilos e a águia-pescadora - Diredawa, entre outros, através da região que chega à fronteira com o Quênia. Tínhamos ido a lugares distantes, sobretudo na África, mas provavelmente nunca num lugar tão remoto e inóspito como Turmi, no Vale do Omo.

Mulher mursi usando seu disco alargador de lábio

             Predominantemente verde, com montanhas e cerca de vinte tribos diferentes, entre elas os Hamer, os Karo e os Mursi, O Vale do Omo talvez seja o pedaço do mundo mais etnicamente rico e diverso. Infelizmente, de acordo com ambientalistas, também sob grave ameaça devido à construção de uma barragem a ser construída no Rio Omo. Seus efeitos seriam dramáticos, pois poderiam destruir o modo de vida original daqueles povos em definitivo.

O sítio arqueológio de Tiya

        De Addis a Arba Minch, paramos em Tiya, um sítio arqueológico classificado como patrimônio mundial pela UNESCO. É pequeno, simples, medianamente curioso. Constitui-se num conjunto simples de stelaes de pedra, instalado entre os séculos 12 e 14, com gravações curiosas cuja origem e serventia ainda são meras suposições.

Banheiro. É preciso se acostumar com eles na Etiópia...

          Tiramos algumas fotos, ouvimos as explicações e sobretudo os detalhes que escapam a quem não está com um guia. A parada serve também à necessária e recomendável ida ao "banheiro" (não sei se posso chamar assim...)

Os Hamer

O Rift Valley e seus lagos - Paraíso natural

            O Vale do Omo é um dos lugares mais exclusivos e fascinantes do mundo. E o Rift Valley uma das mais belas regiões da África. Não há lugar-comum mais comum nem afirmação mais corriqueira sobre a Etiópia. Na Internet sobretudo. Nada mais fazem que exaltar a beleza relativamente incomum desta parte da África, nordeste do continente, conhecido como Chifre da África - que inclui a Somália, a Etiópia, o Djibouti e a Eritreia - mas também eventualmente como Península Somali. Começa a cerca de 180km de Addis e nele um conjunto de lagos - Abaya e Chamo, os que visitamos, e Dambal, Shala, Koka, Langano, Abijatta e Hawasa - reconhecidos como paraísos para observação de aves e, especificamente o Chamo, de hipopótamos e crocodilos do Nilo.

Infra-estrutura precária. Prepare-se para ela

O primeiro contato com uma tribo do Omo – Um desafio

           Entramos mesmo um mundo de surpresas, mas também num lugar que desafia o viajante. Bons e númerosos desafios para os quais é preciso preparar-se. Nosso desesperado desejo de fotografar - por exemplo - foi contido pela evidente aversão dos Tsemay e dos Bana à presença de ocidentais. Provavelmente muitos turistas sairiam mal impressionados com a “receptividade” dos Tsemay e dos Bana, assim como de outros povos do Vale do Omo. Mas foi justamente o que nos atraiu, impressionou e tornou a experiência extremamente mais enriquecedora. Sobretudo porque nos fez perceber a verdadeira dimensão do que representa o turismo para esses povos. Foi este primeiro encontro que nos preparou para os dias seguintes e as visitas às tribos ainda mais remotas.

Banna ou Tsemay?

          É difícil identificar quem pertence a que tribo em alguns casos. Às vezes usam os mesmos enfeites corporais, ou pelo menos bem semelhantes, inclusive o modo de enfeitarem os cabelos. É o caso dos Banna e os Tsemay, facilmente confundíveis com os Hamer

Mulher mursi

            Eles não são simpáticos à nossa presença, apenas nos "engolem" (felizmente não no sentido literal!). Não estão nem aí pra nós, recusam-se a que os fotografemos (mesmo pagando) e se o fizermos sem autorização somos severamente ameaçados e teremos problemas. Esse primeiro contato foi um soco no estômago (ou teria sido nos olhos?). Tenso, relativamente estressante, um pouco “assustador” e ao mesmo tempo fascinante. Ninguém escapa de seus efeitos, seja pela beleza natural, seja pela diversidade cultural de cada tribo e da constatação de que efetivamente levam sua vida primitiva independentemente de estarem no século 21. Para além de um dos lugares mais fascinantes do mundo, onde vivemos as experiências mais incríveis, os momentos mais "National Geographic" que um viajante comum pode almejar. Suas dezenas de tribos vivem remotamente, sem água, luz elétrica ou qualquer tecnologia moderna como carro, celular, TV, panelas de alumínio e eletrodomésticos. Especialmente os do primeiro contato com uma tribo do Omo. Ainda mais se tiver a sorte de ser com os Hamer e num dia de seu mercado semanal. Vestem roupas tradicionais e adornos com tal autencicidade e primitivismo que custamos a crer, mesmo que seja com nossos olhos. "Finalmente, algo autêntico no mundo turístico!", eu não cansava de repetir.

Mulheres mursi

            É uma verdadeira experiência na África, mas a realidade é que o Vale do Omo me preocupou muito enquanto eu usufruía dele. Não há porque não pensar no quanto está sendo estragado pelo turismo. E que nós estamos minando suas culturas tradicionais. Pior, sua própria perspectiva - limitadíssima - do que seja o mundo. Em certas tribos, quando eu dizia que era do Brasil, nosso guia ria de mim e falava: "Brasil? Não adianta! Eles não sabem sequer o que é Etiópia!"

           Mas qual será o futuro dessas tribos?

  Qual será o futuro dessa gente? (Tribo karo)

           O turismo move um mundo de gente que introduz dinheiro numa sociedade que até bem pouco tempo não conhecia o dinheiro e não sabia para o que servia. E ainda não o usa para comprar, mas guarda para mostrar poder. Será que em breve aqueles ateus (ou no máximo animistas) não estarão sendo catequizados por ONGs cristãs?  

            Posso afirmar que depois de cinco dias viajando pelo Vale do Omo, entre outras atividades, visitando várias de suas tribos, impressionaram-me mais os Hamer - cuja cerimônia Evangadi tivemos o privilégio de assistir - e os Mursi, com as decorações corporais, as mais inusitadas e criativas, e estilo algo agressivo, encontrei auntenticidade em tudo. Ainda que as visitas sejam superficiais e nosso voyeurismo controlado. Saí com a sensação de uma autenticidade que está severamente em risco. 

Mulher banna (ou seria hamer?)

            Ainda que difícil de compreender, eles têm sua própria visão do mundo. E um modo de vida primitivo, das roupas tradicionais aos costumes. Mas alguns já começam a seduzir-se por T shirts de times de futebol. E a inflacionar os preços que cobram por fotos, quando as admitem. É justo tentarem sobreviver vendendo a nós o que nós queremos comprar: fotos. Mas até pouco tempo os guias impressos mencionavam o valor de 1Birr, mas hoje custam 5 por foto, por pessoa. Irrisório, claro, especialmente pela qualidade da experiência.

Meninos mursi

        Não posso esperar que turisticamente na vida venha a ter oportunidade igual, sobretudo porque tirando o Brasil e um ou outro povo da África, não há mais povos vivendo assim. E se por um lado o mundo cresce, e a África evidentemente seja parte importante dele, essas questões de perda de identidade e genuinidade cultural são inevitáveis. Provavelmente será sob o que refletirá um viajante consciente e antenado toda vez que viver momentos como este. Definitivamente estamos pondo em risco aquele mundo, e influenciando negativamente seu micro-universo, seu modo de vida, ainda que as surpresas e a sensação de privilégio por estar ali estivessem sempre corrompendo minha consciência. Se desconforto pessoal havia por eu poder estar ali afetando seu futuro, também sentia uma agradável sensação de conhecer algo ainda tão genuíno e primitivo.

Mulher arbore

           Conhecer os povos do Vale do Omo foi um privilégio e uma das experiências mais fantásticas que podemos ter em viagens. Fotografias, o troféu que trazemos deste encontro. Por vezes divertido, outros estressantes, mas a sempre com saldo positivo para o nosso lado. Para o deles, temo que não. O ato da fotografia é predatório, e por vezes sentimos que olham para nós, ricos turistas ocidentais, brancos ridículos clicando desesperadamente para  registrar aquele povo esquisito, primitivo e exótico. Os Mursi especialmente. Com eles não deixei de notar o desconforto e olhares desconcertantes na maioria de nossos cliques e com as poses automáticas e programadas que faziam. Essa "interação" entre visitantes e os Mursi foi tão incômoda para ambas as partes que não consegui suportar por muito tempo sua agressividade.

Mulher hamer

            O processo -  do começo ao fim da visita -  foi intermediado por um guia da comunidade mais próxima, aceito por eles. Falando seu dialeto, traduzia para o amárico e nosso guia o que queríamos. Ele negociava as fotografias e as nossas escolhas de quem queríamos fotografar. Os Mursi, magros e musculosos, pintam seus corpos com desenhos abstratos, brancos, aparentemente com algum significado para eles, enfeitam-se nas cabeças com chifres, cachos de milho seco, aves mortas e qualquer coisa que chame a atenção dos fotógrafos. São tão primitivos e isolados que seus dialetos não têm escrita. Não possuem calendário e não sei se marcam o tempo. E se o fazem, como e onde o fazem.

Mulheres banna

           Os Mursi são pastores semi-nômades, criadores de gado e cultivadores nas terras baixas às margens do Rio Omo. Armados com fuzis, usam uma pintura corporal selvagem e as mulheres mutilam o lábio inferior com um disco de barro. São o sonho de qualquer fotógrafo amador viajante ou profissional fotografá-los. Usam suas armas para resolver seus supostos litígios, e sua expressão grave e ameaçadora para intimidar. Por outro lado, quando querem que tiremos fotos deles, fazem de tudo para que o façamos. Enquanto fotografamos um grupo ou indivíduo, puxam-nos pelas costas, beliscam-nos, empurram-nos.

Aldeia Karo

           As mulheres são tão agressivas quanto os homens, eram as que mais me beliscavam. O incômodo permaneceu por toda a visita. Tanto pelo comportamento (especialmente por mutilarem suas mulheres para torná-las feias aos olhos dos inimigos) quanto pelo processo meio desconfortável de "negociação" a cada foto. As discussões paralelas entre eles e nosso guia, em dialeto mursi e aramaico, por vezes davam a entender que nós os estávamos “roubando". Que audácia desses branquelos ocidentais exploradores de nossa imagem!, eu imaginava que era o que falavam.

Karo

           Não há dica melhor do que trocar dinheiro em Addis Ababa, notas de 100 Birr por outras miúdas, de 10, preferenciamente de 5. Nós o fizemos e partimos para o sul com um tijolo de dinheiro trocado. Não posso dizer o qanto isso facilitou noassa vida. Uma vez definido o preço (5 Birr por pessoa), e absolutamente certos de que haviam concordado, pedíamos que se posicionassem e só então levantávamos as câmeras para clicar. Se não o fizéssemos, estavam sempre arrumando pretexto para discutir. Eram agressivos entre si e conosco. Havia ansiedade nossa, até nervosismo e creio que sem um guia etíope possam ocorrer situações de verdadeiro perigo.

Quanto mais remotas as estradas, mais precária a infra-estrutura para o turista, até tornar-se nula

           Em certo momento, cansado e estressado com a experiência entre os Mursi, voltei para o carro e me tranquei esperando que nosso guia e motorista compreendessem que o processo já havia me esgotado, que era hora de partirmos. Ainda assim tentaram nos “empurrar” seu único artesanato à venda: os discos alargadores de lábios. Trouxemos alguns. São feitos de barro e pintados. Mas não importava quanto comprássemos, eles queriam mais e mais e mais....

Karo

            Saturado da experiência e da pressão daquele povo guerreiro, feroz e de poucos amigos, com seus kalashnikovs prontos para serem apontados para nós, com sua pintura corporal e cicatrizes resultantes de escarificações intencionais e elaboradas em suas peles, terminamos a visita certos de que conhecemos o povo primitivo mais assustador que conhecemos no Vale do Omo.

Karo

             Seria injusto afirmar que todas as tribos do vale têm o mesmo comportamento dos Mursi. Os Hamer são ligeiramente mais receptivos e simpáticos. Ligeiramente, note bem. São apenas mais desconfiados e espertos. E embebedam-se de sua cerveja artesanal. Cerveja de mel! Como teor alcoólico forte, a bebida é barata e facilmente transportada para áreas remotas. Beber em excesso, então, tornou-se uma realidade. E provavelmente um problema. Há conflitos armados com etnias inimigas, malária e nenhuma infraestrutura médica. Mas qualquer ambiente é áspero, exótico, de costumes primitivos e quase intactos. Vivem longe de qualquer cidade, no vale inferior do Omo, algo que está o mais próximo do que possa se chamar de “mundo perdido”.

Karo

           No fim da Etiópia, perto das fronteiras com o Quênia e Sudão do Sul, as estradas podem ser transitadas apenas na época da seca, e ainda que a maior parte desta parte remota região da África ainda continue íntegra (especialmente nos costumes tribais, cujos povos rejeitam a modernização), isso está começando a mudar. E é sensível que em breve as mudanças serão ainda mais rápidas. Será mesmo o “Crepúsculo das tribos”, como mencionou a Condé Nast Traveler Magazine?

 No remoto Vale do Omo o viajante não escapa de viver suas ambigüidades morais. Estará num safari onde pessoas, não a vida selvagem, são a atração. E observará tradições exóticas por vezes chocantes, mas vai sentir-se um um intruso. E por fim, testemunhará culturas antigas prestes a desaparecerem, em parte por causa de sua própria presença.

Condé Nast Traveler Magazine

Menino Karo

Conclusão

            É difícil acreditar que há nove dias eu ainda estava em Addis Ababa. E que hoje estou aqui escrevendo avidamente, não sei bem porquê, talvez para não deixar de recuperar da memória o frescor das emoções desta viagem, sobretudo ao Vale do Omo.

             Visitamos os povos Hamer, Mursi, Ari, Arbore, Karo, Konso, Dorze, entre outros. Não posso resumir esta experiência senão como das mais incríveis de minha vida. Dentro ou fora das viagens. Saí com a impressão de que muitos costumes estão sob ameaça, mas que as tradições são tão fortes e poderosas que creio o suficiente para manterem-se. A atitude dos etíopes em relação aos turistas estrangeiros (faranji) são diferenciadas por três características notáveis: indiferença, simpatia ou excitação excessiva. Não é preciso ver as paisagens para lembrar-nos de que estamos num país pobre.


Menino em aldeia Karo

            Quem tem possibilidade de ter contato com um faranji os fará lembrar-se disso durante toda sua permanência. Especialmente por quem fala algumas palavras de inglês. Esses, que precisam ganhar a vida de algum jeito, vão sempre abordar os estrangeiros. E o grande problema não está em aborrecer-se com isso. Mas ter capacidade de identificar (e diferenciar) aproximações legítimas das feitas pelos chatos.

Criança etíope. Mais que qualquer tribo, a melhor de todas as experiências

           Invariavelmente seremos vítimas dessa nossa ignorância. Vítimas por termos evitado ou rechaçado a experiência legítima de conversar e dar carinho a uma criança. E então nós é que as tornaremos vitimas de nossa ignorância.

              Experimentei contatos encantadores. Algumas crianças estavam genuinamente interessadas em nós. Mas depois de tanto estresse, quantas inadvertidamente vitimei com minha ignorância? Leva tempo, e talvez mais do que nossa paciência consiga suportar, para nos conectarmos às pessoas certas. Temo ter sido por vezes apenas amigável, mas não tão acolhedor e hospitaleiro, quando alguns pequenos etíopes provavelmente estavam sendo apenas amigáveis e acolhedores. O fato é que a maioria deles parecia amigável, mas terminavam por pedir ou querer vender algo. Mas deixei de viver a melhor de todas as experiências que posso ter em viagens. Lamento muito. 

Crianças etíopes, a melhor de todas as experiências

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(*) Haroldo Castro - VIAJOLOGIA Expedições http://viajologia.com.br Jornalista e fotógrafo, autor de "Luzes da África" https://www.facebook.com/Viajologia e http://epoca.globo.com//colunas-e-blogs/viajologia

(*)  A obsessão pela fotografia, o ato excessivo, impertinência - maior e menor, mas presente em todos os turistas - cujos efeitos importunam, chegam a vexar, porque nem todos têm a preocupação de controlar-se, movidos pela ideia fixa de registrar (a qualquer preço e mesmo sem permissão), levando-nos a presenciar comportamentos bizarros e inadequados.

Mulheres hamer em festa na aldeia (Evangadi)