MENSAGEM ao LEITOR
BIO

BEM-vindo!

        Sou brasileiro, empresário, casado com a doce Emília do blog "A Turista Acidental". Estamos grávidos dos gêmeos - menina e menino - que nascerão em julho próximo. Embora isso nada tenha a ver com um blog de viagens, tem muito com o futuro deste aqui, porque se as viagens sempre foram uma motivação na minha vida, agora com os gêmeos serão ainda mais.

        Tenho 63 anos. E boa parte deles dedicados à família e ao trabalho. Aos 35 comecei a viajar internacionalmente e desde então visitei 60 países, entre os quais alguns dos mais fascinantes, que abrigam sítios dos mais admiráveis do planeta. Felizmente, para alguns desses lugares fui quando ainda estavam a salvo do turismo de massa, cujos excessos arruinam qualquer lugar. Tornei-me blogueiro há nove anos quando descobri que não agradava aos amigos e familiares ao entupir-lhes as caixas postais com e-mails recheados de textos e fotos. O blog foi a maneira de compartilhar notícias, fotos e textos em viagens para quem quisesse e quando desejasse vê-los. 

        Para alguns países retornei tantas vezes que tornei-me íntimo. Para outros, uma ou duas mais apenas, freqüência que ainda não me esgotou deles. Em cerca de 90 viagens internacionais, voei por 40 cias. aéreas diferentes (algumas extintas) em 391 vôos para fora do Brasil e dentro de outros países. Segundo o Haroldo Castro - jornalista-fotógrafo que já esteve em 160 países -, fazendo o teste "Viajologia" em seu site, que considera não só países visitados, mas lugares, monumentos e patrimônios, além de transportes, experiências e situações em viagens, alcancei "Mestrado em Viajologia". Mas isso não é nada. Ou quase nada diante de gente que tem pós-doutorado em viagens. Se eu conseguisse resumir definindo o que esses quase trinta anos viajando significaram em termos de aprendizado, diria que foi perceber que quanto maior a flexibilidade de adaptação aos ambientes, mais e melhor consigo extrair deles, melhores tornam-se minhas viagens. Muitas, incontáveis marcas as viagens me deixaram. A simpatia e a humildade legítima dos birmaneses e dos uzbeques estão entre as mais inesquecíveis.

         Ainda que nada me pareça mais excitante que viajar, fotografar e escrever gosto desde a infância. Então, fazê-los sobre viagens foi algo natural. Este blog todavia passou a ser um lugar onde além de compartilhar nossas viagens com amigos e parentes, tem a intenção de inspirar e motivar leitores a viajarem, conferirem com os próprios olhos, viverem suas experiências e concluirem com suas próprias opiniões. Boa viagem!

        Muito obrigado pela visita e comentários.

Em tempo: este blogueiro não viaja de graça, não puxa-saco de destinos, não baba-ovo de blogueiro e não paga-pau pra hotéis e companhias aéreas, tudo para ficar bem com o trade e tentar gratuidade, vantagem, benefício ou privilégio. Não tenho obrigação de falar bem do que quer que seja, a não ser legitimante. Não aderi ao "esquema" corporativista da blogosfera que protege blogueiros que jogam no mesmo time da monetização. Isso seria uma ofensa aos meus leitores. Não estou preocupado com audiência se ela significar perda de credibilidade. Prefiro ter poucos leitores. Mas dos que eu gosto: espertos, que não caem nas lorotas de blogueiros vendidos, que sabem diferenciar os enganadoros por causa de uma viagem gratuita da enorme comunidade de blogueiros que escreve legitimamente. E sem compromisso comercial.

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Abr182015

BANGKOK - Imensos e intensos prazeres

Intimida ao primeiro olhar. Mas só ao primeiro olhar. Mesmo vista do trigésimo andar do Peninsula Hotel Bangkok

                  COSTUMAM chamá-la de "Cidade dos Anjos". Mas se tem algo de angelical, não percebi. Que me perdoem a impertinência, acho-a mesmo diabólica e profana. De doce não tem nada. Nem de comportada. Ao contrário, é apimentada. No jeito e na extravagância. Mas é por isso mesmo tão atraente. Tudo indica ter sido diferente nos anos 70, antes de explodir em crescimento até o final dos 90, quando tornou-se um "Tigre asiático". Chegou a dobrar de tamanho. E densidade. De angélica passou a energética. De sagrada, a profana. Ainda assim, alguns de seus prazeres podem ser sutis, mesmo não havendo mais labirintos, tesouros escondidos e lugares inexplorados. Se a vibe não é mais angelical, se nenhum paraíso resiste a tamanha transformação urbanística que o crescimento lhe impõe, se algo deu errado com Bangkok, ela esbanja momentos de beleza e serenidade. Mesmo com toda a intensidade, continua um espetáculo pro mundo ver e explorar turisticamente.

Antiga, não antiquada, moderna com personalidade, luxuosa onde se deseja, simples onde se espera e imponente onde pode e deve. Bangkok e suas aparentes contradições

                    HOJE ela está no ponto. É extraordinária; antiga sem ser antiquada, moderna sem despersonalizar-se, luxuosa onde pode, simples onde se espera e autêntica aonde ainda consegue. Tem ótima comida, sobretudo caráter e personalidade. E é barata, além de conveniente para o turista. Mesmo que às vezes se transborde deles. É amigável, ainda que ao primeiro encontro possa ser intimidativa. Só precisa que  acertemos nossos passos com o seu compasso. Os sentidos costumam reclamar, especialmente a visão. Mas é por pouco tempo. Logo todos estão loucos e a postos para descobrirem seus "mistérios": sua ampla variedade de atrações.

Acerte os passos com o compasso da cidade e encontre mercados flutuantes ainda originais

                   NÃO se pode dizer que Krung Thep - Bangkok na lingua original [1] - seja bonita. Mas beleza ali é mero detalhe. O que a consagra são seu conteúdo e uma legítima, indiscutível personalidade. Provavemente porque jamais rompeu o presente com o passado e por nunca ter sido colonizada. Se bela não é, compensa sendo atraente. E sedutora, picante, empolgante, divertida e surpreendente. Ainda que por vezes seja sufocante. Mas é tolerante. Com os turistas especialmente. E com quem nela deseja "perder-se". É quando a cidade entra na gente com energia e ritmo contagiantes. E nos prega uma ânsia descontrolada e compulsiva de conhecê-la. E então, sob um seu céu azul, espesso, calorento e húmido, voltamos a Bangkok logo após as monções para rever suas atrações e conferir porque transformou-se num dos quintais turísticos do mundo.

Exótica, sem dúvida, todos hão de concordar. Não há quem discorde olhando o Wat Benchamabophit

                   BANGKOK - Por que é tão bacana?  Por que vive-se com vida ao redor.

                  HÁ poucas cidades no mundo que exploram tão bem os sentidos do turista. Para a visão não tem lá uma unidade urbanística estética admirável. Nem beleza natural. Mas se não é especialmente bonita ou exemplar, oferece outras surpresas, variadas e incomparáveis, perfeitas para explorar todos os demais sentidos. É cidade pra quem gosta de vida nas ruas. E admira a beleza arquitetônica asiática. Bangkok tem outra boa vantagem: é um das melhores no mundo para andar a pé. E em todo canto as pessoas têm uma natural propensão a sorrir. Sinceramente ou não. Mas sorriem mais do que na maior parte do planeta. Há quem ache barulhenta. Não se pode negar, mas os sons ali expressam a intensidade da vida nas ruas, especialmente o suave jeito de falar. E Bangkok também cheira bem. A uma mistura de odores aqui e ali por vezes escondidos pela fumaça dos  escapamentos dos tuk tuks. Mas tem notas da fabulosa quantidade de flores e plantas tropicais, de especiarias e de comida. Tem cheiro e frescor de uma leveza e variedade irresistíveis.

                  SEU dinamismo e exotismo são virtudes, não defeitos. Mas são o que tornan fáceis as impressões erradas da cidade. E o que faz alguns sairem decepcionados de sua visita. Não deixe isso acontecer com você. Se planeja visitar Bangkok, é preciso apenas informação, preparo e conhecimento. E em troca ela entrregará mais do que provavelmente se espera. E como nós, sair recompensado por visitar um dos destinos turísticos mais fascinantes e vibrantes do mundo.

                 SE então é imperativo ter um plano, ele depende apenas de nós. E é bem fácil, porque viajar há muito já deixou de ser privilégio para poucos. E informação também deixou de ser disponível para alguns. A Internet e os guias de viagem estão aí. E mesmo para Bangkok, um Lonely Planet (ou qualquer bom e completo guia de viagem) impresso resolve.

Foo dogs

                   CIDADE das que mais gosto, cada vez mais cosmopolita, com tantas e tão variadas opções, não por menos é classificada como um dos melhores destinos do mundo. E ainda assim, esta é a apenas uma das definições que lhe atribuem. E que lhe cabem como luvas. Há tantos e tão apropriados adjetivos para definir e qualificar Bangkok quanto a cidade tem de atrações: agitada, dinâmica, serena, religiosa, profana, sensual, sedutora, ousada, insinuante, abafada, calorenta, espiritual, caótica, conservadora, sagrada, imensa e intensa. Vibrante e desconcertante eu já disse? Não. E eles não param por aí. Quantidade e diversidade podem até confundir o iniciante pela ambiguidade, mas é precisamente nas contradições que se encerra o caráter mais singular e o que revela a mais franca personalidade de Bangkok.

Sanuk, o jeito de levar a vida, provavelmente tem origem no budismo

                   VOLTAMOS a Bangkok para rever o que já conhecíamos e conhecer o que não víramos, explorar zonas mais remotas que escaparam na visita anterior, aproveitando a Capital como hub para nossa visita ao Cambodia e a Chiang Mai. Há muitos lugares que desejo voltar, talvez nenhum tão rapidamente quanto Myanmar, mesmo com tantos outros no mundo que me atraiam soberbamente. Para Bangkok sonho no futuro fazê-lo agora com nossos gêmeos .

Monge no modo "Don't Worry Be Happy!', o, Sabai Sabai Sanuk! Serena? Os locais herdaram esse jeito de ser: sanuk

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A CHEGADA

                 DECOLO de Paris e oito horas depois estamos na turbulenta Bangkok. Os contrastes são absurdos, o coração pulsa mais forte. Mas ainda não sentíamos os extremos dos estímulos. Nem a invasiva realidade que todos experimentam ao visitarem a Capital tailandesa. Meu coração ainda estava ansioso pelo impulso necessário ao começo da experiência de explorar Bangkok. Estávamos ainda no belo, relativamente tranquilo aeroporto Suvarnabhumi, cercados por uma arquitetura tecnológica e futurista, sob estruturas metálicas gigantescas, um dos mais ultramodernos terminais internacionais do planeta. Tudo transcorria na mais plena normalidade. Do desembarque à passagem pelo setor de controle de saúde, da imigração e recuperação de bagagem à passagem pela Alfândega.

                   DE certa maneira, só depois de uns dias em Bangkok o visitante compreende que o admirável Suvarnabhumi corrompe a razão e subtrai a atenção do visitante. Não chega como ser extrema em contrastes como nossa chegada de Paris em Nova Delhi, na Índia. Mas do lado de fora também há de prontidão uma legião de taxistas gananciosos e guias vigaristas. Todos com sua admirável coleção de espertezas. Tudo tão mais caro quanto inconfiável.

O coração pulsava mais forte dentro do aeroporto, mas ainda não havíamos sentido a cidade

                 Optamos pelo serviço de recepção no aeroporto de nosso hotel. Não é tão caro quanto parece e evita aborrecimentos. Assim como hospedar-se luxuosamente em Bangkok é bem mais barato que em outros grandes destinos no mundo ocidental. E o serviço vale mais do que custa.

No interior de alguns templos, como o Suthat Thep Wararam (Wat Suthat), uma tranquilidade e serenidade contrastante

                 UM homem com as mãos juntas sob o queixo inclina a cabela e avança em nossa direção com um sorriso discreto. O gesto de nosso receptivo chama-se Wai (*), faz parte da vida e da cultura tailandesas. É complexo no conteúdo mas simples na forma. Usado para reverenciar ou cumprimentar, encerra algumas regras. Vão além da educação, pois também revelam o status de alguém na sociedade. As mãos juntas na frente do peito e acompanhada de uma pequena curvatura. Quanto mais alto levantarem as mãos, mais demonstram respeito. Desde cedo as crianças são treinadas a usá-lo corretamente, sobretudo a compreenderem para o que servem.

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(*) NOTA: Wai. Há vários tipos de wai. O Phak Taai é o mais informal, uma forma de saudação em que as mãos são mantidas juntas, logo abaixo do queixo, gesto acompanhado por um ligeiro encurvamento da cabeça à frente. O Puyai Wai é usado para os pais, avós, professores e outras pessoas de posições sociais diferentes. Neste caso, os dedos das mãos unidas chegam à ponta do nariz e a inclinação da cabeça é maior do que no caso anterior. Aqui, um sorriso nem sempre é necessário, já que o gesto tem a intenção de transmitir respeito, não simpatia. No caso de um turista, ele só é usado ao ser apresentado aalguém de grande importância. O Wat Pra é reservada apenas para os membros mais respeitados da sociedade, como monges e outras personalidades religiosos ou não. Neste, as pontas dos dedos vêm até a testa e não há sorriso. Para um turista, todavia, é sempre mais seguro retribuir um wai. Muitas vezes pode ser retribuído apenas com um sorriso. No entanto, se você pretende retribuir o wai, ao menos esteja certo copiar exatamente o mesmo gesto que recebeu, mantendo a ponta dos dedos e a inclinação da cabeça igual aos da pessoa que lhe deu um wai. O sorriso, grande e sincero, sempre acompanha o wai mais corriqueiro. Todavia, um turista não tem com o que se preocupar, pois os tailandeses são compreensivos e se fizermos um wai errado eles não se ofenderão. A coisa mais importante é sorrir. Sempre dar um grande sorriso e ao dar um mai pen rai, o mais comum.

Detalhes...

                 O visitante não precisa estar familiarizado com a complexidade. Não tem com o que se preocupar: basta retribuí-lo. Além de educado, é simpático e divertido. Enquanto as mãos estiverem juntas diz-se “Sah-wah-dee” (soa como se lê, “sawadi”). Depois, diz-se “khrap” (kap) se for homem, ou “kha”, sendo mulher. O “khrap” é dito rapida e secamente, com um “p” mudo morrendo nos lábios. O “kha” é alongado. Como um káaa. Homens saúdam com khrap e mulheres com kha. Simples assim.   

                 CHEGAR ao aeroporto Suvarnabhumi é deparar-se com uma arquitetura tecnológica e futurista de um gigantesco, ultramoderno terminal. Mas ainda que faça o visitante pensar que sua viagem à Tailândia será tão eficiente e organizada quanto o terminal aéreo, não deve acreditar um só minuto na primeira impressão. Admirável, o Suvarnabhumi serve apenas para corromper a razão e subtrair atenção. Fora dele, taxistas gananciosos e guias vigaristas têm uma admirável coleção de espertezas. E estão de prontidão para oferecerê-las. Tão mais caros quanto inconfiáveis. Nada é mais recomendável do que optar por um serviço de recepção no aeroporto oferecido por qualquer hotel. De luxo e mediano. Não é tão caro quanto parece e evita aborrecimentos.  Já hospedar-se luxuosamente é bem mais barato se compararmos os preços com os de outros grandes desinos no mundo, especialmente ocidentais. Após um longo vôo vindo do Ocidente é saudável chegar bem, tranqüilo e sem contratempos ao seu hotel.

Um barco exclusivo leva os hóspedes de um lado a outro do rio

                 UM vôo direto do Brasil a Bangkok via Europa é para intrépidos, a menos que se vá em classe executiva. Caso seja na classe econômica, recomendo escala de uma noite no país de bandeira da cia. aérea escolhida. As da Europa costumam ter intervalos grandes, o que permite tanto o descanso de um day use num hotel de aeroporto quanto um passeio pela cidade de conexão, e a consequente redução dos efeitos do jet-lag e de vôos prolongados.

Contrastes entre a delicadeza dos templos e a efervescência das ruas: prazeres de Bangkok

                  METADE da diversão de viajar pelo sudeste asiático é observar e viver o caos dos congestionamentos, das multidões e o barulho. A outra é hospedar-se num lugar onde se possa escapar de tudo isso ao fim de um dia de uma extenuante jornada turística. Para relaxar física e sensorialmente, usufruir das delícias do luxo e do conforto. Em Bangkok o Península foi nosso porto seguro, um oásis de relaxamento e tranquilidade do “outro” lado do rio. É uma das partes mais convenientes e pitorescas da cidade, mas há inúmeras outra opções fabulosas. Tanto do lado “certo” do Rio - defronte ao nosso – quanto no distrito financeiro e outros bairros. Mas esse lado torna o hotel uma ilha de tranquilidade, mais ainda quando da janela olhamos o fervilhante "outro" lado.

                  THE Península Bangkok é só mais um dos magníficos exemplos de luxo e eficiência hoteleira na cidade. Parece haver consenso universal no trade acerca do talento e competência dos sul-asiáticos na hotelaria de luxo. Estadas assim sempre resultam experiências incomparáveis, inesquecíveis, adoráveis e deixam saudades. O serviços de transporte privado e de agilização dos procedimentos de imigração e alfândega incluem um menu de transportes que inclui até helicóptero. Por terra pode-se escolher entre Rolls Royces, BMW 750 e mini vans. Absolutamente irretocável, o serviço e o hotel não poderiam parecer mais perfeitos para uma escapada romântica, para a celebração de ocasiões especiais - de aniversários a bodas e Lua de Mel - até a propostas-surpresa de casamento.

Logo estávamos a caminho do Península, observando o caos dos congestionamentos, as multidões e a vibração da cidade

                PISOS de madeira teca, forrações em seda, banheiros em mármores, painéis de controle de iluminação de alta tecnologia, camas confortáveis e lençóis primorosos num interior decorado com bom gosto. Isto é apenas o resumo de uma breve definição dos apartamentos de uma torre de 37 andares com uma fabulosa vista para o Rio Chao Phraya. Aqui no Península o padrão de luxo excede a classificação ocidental. Trata-se de uma classe de "luxo oriental" incomparável, uma delícia visual.

A piscina e o Rio

                TODA grande cidade tem suas particularidades e nelas um conjunto de cuidados e precauções, atitudes e informações que o visitante deve ter para seu máximo proveito, e em Bangkok são ainda mais efetivas. O charme, a humildade e a simpatia, contradizem os que alegam perda de essência, ainda que gigantismo e modernidade possam mascará-lo. O fato é que nenhum visitante sai ileso de Bangkok, no sentido de experimentar o mais puro êxtase asiático, impressões tão mais positivas quanto mais profundo o mergulho na cidade.

 

Damnoen Saduak. Outrora um mercado flutuante original...

...hoje uma tourist trap

                 É preciso chegar cedo, muito cedo a Damnoen Saduak para ter uma remota idéia do que já foi aquele mercado flutuante nos anos 70. Tão cedo quanto é impossível chegar desde Bangkok. Portanto, só dormindo lá na cidadezinha para conseguir que um passeio de barco pelos canais, valha a pena: enquanto não chegam os turistas e os vendedores de badulaques depois das 9 horas da manhã. Quando fomos a Damnoen Saduak eu estava ansioso para ver barcos com fornecedores de alimentos vendendo seus produtos produzidos nas proximidades, mas ainda que desses houvesse, principalmente encontrei vendedores de badulaques turísticos. Dos mesmos produtos que eu via tenda após tenda. O que fez do mercado flutuante uma decepção, ainda que alguma diversão eu tivesse, especialmente no caminho, na viagem de barco de cauda longa pelos canais, vendo residencias e moradores levando sua vida.

                 NESTA segunda viagem experimentamos o gosto de rever o que mais apreciamos, de conhecer o que não foi possível e de nos locomovermos com maior independência e naturalidade. O monumental patrimônio cultural, a fabulosa arquitetura que se apresenta numa diversidade incrível, a gastronomia riquíssima (que comida!), a arte e a cultura tão exóticas, o povo encantador, a oferta hoteleira com preços imbatíveis, tudo forma um conjunto que torna Bangkok um destino extremamente rico, atraente, intrigante e compensador, onde pelo menos quatro dias inteiros devem ser dedicados.

 

Demônios coloridos, figuras mitológicas do épico indiano ramayana, guardas dos templos do Grande Palácio de Bangkok

                DIZEM até que os tailandêses mantém um estilo de vida inalterado em Bangkok desde a década de 60, quando então era angelical. Chamam sanuk esse jeito de levar a vida. Difícil de explicar,  traduz-se como "diversão" no modo de viver. Mas aprofundando-se, sabe-se que representa algo mais complexo, uma espécie de busca do bom humor e da alegria de viver que vai da saúde, bem-estar, dos prazeres da comida e da diversão ao sorriso como forma de comunicação. Tudo permeado pela espiritualidade e harmonia. Também pelo senso de hospitalidade. Não posso discordar.  Ao menos não completamente.

Na outra margem do Rio, em frente ao Grand Palace, um pouco de serenidade no Wat Arun

                  POR certo haverá quem não goste de Bangkok. Nada de errado com isso. Gente é assim mesmo, diferente. Cada qual com seu gosto. Todavia provavelmente os que a visitaram concordam que seus adjetivos são justos. Que fascina quando se chega, deixa saudades quando se parte. E que "exótica" talvez seja o mais preciso. Há poucas capitais desse porte que evocam tamanho exotismo entre os ocidentais. E ele está bem distribuído pela cidade. Nos palácios, nos templos, pagodes de arquitetura intrincada, nos telhados ponteagudos, nos riquíssimos ornamentos, no domínio dos vermelhos e dourados das ornamentações.

Exótica também na fé. Como nos budas dourados do Wat Suthat Thepwararam Ratchaworamahawihan

                  TAMBÉM na fé, nos trajes civis, nos religiosos, na dança, na comida, na cultura, no folclore. Da poluição ao superpovoamento, do barulho à infra-estrutura turística, do patrimônio cultural à gastronomia e hotelaria, não há tantas megalópoles que conseguem confirmar ao visitante o que se espera dela em potência turística. Nem o que se costuma imaginar ser exótico. Não me recordo de outra que eu conheça cuja modernidade e antiguidade sejam tão explícitas. E encaixem-se tão bem, sem contraporem-se ou afetarem-se, ainda que por vezes estejam aqui e ali com algum desequilíbrio. Talvez porque em Bangkok o conjunto é o que importa.

Não é uma cidade bonita. Mas brilha. Muito além dos espelhinhos em mosaicos que decoram stupas e palácios

                   NÃO se precisa muito para absorver tanto o exotismo quanto a modernidade. Bangkok é cidade fácil de explorar. Parece inquietante e assustadora no primeiro contato. É assim mesmo [2]. Mas é apenas mais uma das contradições dessa cidade, outro traço de sua estranha personalidade: Ser assustadora é o que nos apela enfrentá-la para conhecê-la. E então, depois de familiarizados, andar-se por ela sem grandes dificuldades. Leva um tempo para entender seu mapa, sobretudo a amplitude e os limites de seus bairros.  

                 CHINATOWN, por exemplo, é extremamente curiosa e atraente, mas pode intimidar a princípio. Eu deixaria sua exploração a pé pelo bairro depois que o turista estivesse melhor integrado e familiarizado com a cidade. Pra quem gosta de ruas muvucadas mas autênticas, de mercados e santuários, o outrora bairro mais misterioso da cidade, onde rolavam ópio, prostituição e jogos de azar, Chinatown não deixará de surpreender. Alí encontra-se a melhor comida de rua da cidade, uma perfeita combinação de receitas tailandesas tradicionais com variações da culinária chinesa. O resultado é uma curiosa comida chino-tailandesa.

O walking tour de Chinatown revela cenas curiosas e instigantes

                NA rua principal, Yawolat, tem-se a maior variedade dessa comida. A escolha é ampla: de frutos do mar a frango e macarrão frito, de leitão assado a peixe seco, entre outras não tão facilmente reconhecíveis (seria aquilo pé de frango guisado?).

Chinatown de Bangkok

               JÁ o bairro hindu - Pahurat - tem personalidade nas pequenas lojas de comida e chás, mas também nas de bugigangas que vão de CDs de música indiana a incenso aromático, de sedas e saris a estatuetas de divindades. Olhando mais atentamente o mapa, percebe-se uma cidade ampla e aparentemente indecifrável.

                MAS explorar seu emaranhado de ruas, cujo layout à primeira vista parece feito de linhas embaralhadas jogadas sobre um papel, não um projeto originado na simetria mística de uma mandala budista, mas ainda assim tudo é bem servido de transportes. Dos tuk tuks - tão lendários nas suas tentativas de não irem onde determinamos que precisamos saber como evitar suas roubadas, dos preços aviltados às mudanças de percursos e paradinhas em lojas que lhes pagam comissão -, aos taxis - cujos condutores tentarão cobrar preço fixo (sem taxímetro) por uma corrida, e cuja comunicação é sempre difícil, quer porque efetivamente não falam inglês, quer porque usem da dificuldade para tomarem vantagens.

  Usam-se todos meios de transporte: tuk-tuk, táxi, Metrô, MRT e BTS. Sobretudo os pés

                JÁ os transportes públicos - ótimos Metrô, MRT e BTS - são eficientes e baratos, mas não são tão eficazes porque não abrangem boa parte da cidade. A estação Siam é a maior e mais movimentada do Sky Train, talvez por conectar-se por passarelas a alguns dos melhores shopping malls de Bangkok, como o Siam Paragon, Siam Center, Siam Discovery Center e o Central World Plaza. Os ônibus são muito baratos, por vezes nada mais que alguns centavos, dependendo da qualidade do veículo. Mas não tive tempo de usá-los, ainda que eu quisesse muito. Provavelmente seria uma grande experiência. Explora-se bem a cidade integrando-se todas as alternativas de transporte, como recomenda o Explore Bangkok by BTS.

                A pé também se explora bem a cidade. Mas é grande demais pra tanto, requer meios de transporte. Navega-se também, pelo Chao Phraya. E já se saboreia boa parte do que a cidade tem de melhor. O rio é o principaldo país. Suas águas correm 400 km e nascem nas terras altas das montanhas do Norte, dividindo Bangkok em duas e seguindo seu caminho até o Golfo da Tailândia.

Wat Arun

                 O Rio dos Reis é marrom e tem largura e volume de água noáveis. Às vezes enche mais do que deve, inundando a cidade. Dizem que seu fluxo é controlado, mas não escapa de vazar para onde não se deseja. Experimentamos uma das mais fortes cheias do Chao Phraya durante nossa estada. Visitamos a cidade em plena inundação, a mesma que impediu-nos de visitar Ayuthaya e o Museu das Embarcações Reais em Bangkok. Mas continuavam seguindo os barcos de todos os tamanhos e formas, subindo e descendo o rio durante o dia e a noite. É uma estrada, e de suas margens, plataformas dão acesso do público às balsas, como as paradas de ônibus.

Nos ônibus do Rio Chao Phraya a mais pura atividade cotidiana

                     Uma viagem num ônibus aquático pelo Rio Chao Phraya já se revela suficiente. Para além de um transporte efetivo e eficaz, significa viver o contacto mais perto com a mais pura atividade cotidiana do povo - de crianças uniformizadas a monges budistas, de trabalhadores a donas de casa. É um jeito adorável de ver os arranha-céus e os templos da cidade por uma perspectiva incomparável. E checar seus contrastes; uma coleção de templos e palácios em ambas as margens e o desfile de arranha-céusque vão passando e arrancando olhares. 

Detalhe, rico detalhe. Wat Arun

                   O Wat Arun, ou "Templo do Amanhecer" é estranho à primeira vista, tem torres decoradas com porcelana chinesa, uma delas com 82 metros de altura, que fazem dele um dos cenários mais fotogrados da cidade. Domina o horizonte com seu desenho herdado da arquitetura khmer do Cambodia, inspirado nos templos de Angkor. É lindo, dominante, mas não retira nem um pouco importância dos demais monumentos antigos que formam o conjunto de maravilhas de Bangkok.

Caprichosas curvas, delicados rendilhados, douradas, brancos e vermelhos - Grand Palace

                  RENDILHADO caprichosos em curvas delicadas, douradas e vermelhas parecem saídas de aquarelas que ilustram os contos de fadas do Sião. O ápice desse exotismo siamês em Bangkok também fica ali, na beira do rio. Mas só explode em abundância quando visto entre seus muros: o Grande Palácio Real. É o Cristo Redentor de Bangkok, a Estátua da Liberdade, a Torre Eiffel. Por isso tão concorrido. Tudo alí  tem brilho especial, e percebem-se nos reflexos de milhares de espelhinhos que decoram templos, aplicados com delicadeza em mosaicos coloridos. Às vezes até em pastilhas de ouro. E em folhas do mesmo metal postas pelos fiéis nas estátuas de budas. Não há nada mais exótico que as  figuras míticas de garudas, dragões, cães e elefantes. Nem mesmo as fachadas de templos e telhados.

Grande Palácio Real de Bangkok, sua maior atração

                  POR toda parte do palácio há formas distintas e extremamente exóticas, detalhadas e extravagantemente revestidas. São tão numerosas e variadas que parece uma cidade de sonhos. Ou de brinquedo. O palácio é a apoteose do exotismo arquitetônico e ornamental tailandeses. E esteja certo, é  extremamente belo, especialmente notável quando mistura estilos clássicos europeus aos tailandeses, e provoca a curiosidade dos olhares mais atentos e detalhistas.

                O Grande Palácio Real é um complexo de construções - de biblioteca a Panteão, de palácio residencial a templos, de residência oficial para Reis e dignatários estrangeiros durante suas visitas oficiais, e um tribunal real. Um modelo de um dos templos de Angkor Wat relembra o domínio da Tailândia sobre parte do Cambodia.

                ANNA e o Rei viveram ali. Corria o ano de 1860 quando a viúva inglesa Anna Leonowens viajou até o Sião para ser tutora dos 58 filhos do Rei Mongkut. Muitas divergências e choques culturais depois marcaram o início de um romance e o casamento de Anna e Mongkut. A história é verídica, retratada em duas versões cinematográficas, a mais recente vividas por Jodie Foster, no papel da viúva, e Chow Yun-Fat, no do Rei Mongkut. 

  Grand Palace

                QUEM assistiu a “Anna e o Rei” entrará melhor no espírito do filme enquanto visitar o Grand Palace. A despeito de todo o romantismo cinematográfico. A tutora inglesa dos filhos do Rei Rama IV, vivida por Jodie Foster, de fato viveu ali. Ao visitar o enorme complexo compreendem-se os motivos da inglesa ter-se intimidado com sua opulência, expressa tanto nos incríveis jardins quanto na rendilhada arquitetura e no fabuloso, enorme conjunto de construções que integram o complexo. Tudo merece sua longa, detalhada e calma visitação. 

                  

HÁ muito o que conhecer, ainda que boa parte do complexo seja fechado ao público

 

                  NO bairro Ratanakosin, coração histórico da cidade, ele é a mais sublime arte aplicada à arquitetura em Bangkok, nas torres douradas, telhados vermelhos, colunas delgadas, estátuas mitológicas e em tudo mais. Alguns pavilhões parecem saídos de ilustrações de livros de contos orientais. Nesse amplo recinto do Palácio Real estão residências reais, templos, bibliotecas e stupas construídas há mais de duzentos anos em estilos dos mais tradicionais tailandeses ou associados às influências chinesa e européia. O exemplo mais perfeito deles é o Maha Chakri Prasat Hall, projeto que recebeu linhas desenhadas por arquitetos britânicos, contendo traços do neo-clássico, juntando-se aos asiáticos.

                  NO complexo estão o Wat Phra Keo, ou Templo do Buda de Esmeralda, onde está a figura mais sagrada de Buda no país e o belíssimo Wat Pho, ou Templo do Buda Reclinado, do século XVI. Coberto de folhas de ouro, impressiona tanto pelas dimensões - são 46 metros de comprimento - quanto pela beleza. É uma das maravilhas, não apenas do complexo palaciano, mas de Bangkok. Ou mesmo da Tailândia. É o maior e mais antigo da cidade e em todo o grupo abriga mais de 1000 imagens de Buda.

 

Wat Pho, ou Templo do Buda Reclinado


                   MAIS importante do que qualquer outro templo no país, este tem a maior imagem: o Buda Reclinado, ou Phra Buddhasaiyas. Wat Pho foi construído como uma restauração de um templo anterior no mesmo local, o Wat Phodharam, que começou em 1788. Foi restaurado e também amplicado novamente no reinado do rei Rama III (ente 1824 e 51), e finalmente restaurado em 1982. O Phra Vihara, ou salão principal do Wat Pho é uma belíssima construção com pinturas murais para abrigar a imagem do Buda reclinado, feita em tijolos e massa, inteiramente dourado com folhas de ouro em seus 46 metros de comprimento, 15 metros de altura na extremidade principal e 3 metros na extremidade de pés. Os pés têm 5 metros de comprimento e as solas são esculpidas com madrepérola encrustradas, na qual estão representados os 108 sinais auspiciosos do Buda. A obra de arte tem estilos chinês e tailandês.

                  ANTES de entrar no templo, ouvimos o som das moedas jogadas uma a uma nas dezenas de panelas de ferro alinhadas ao longo dos 46 metros de Buda. Um ritmo de tilintar que nos segue da entrada à saída e marca a visita. E também no Wat Po está a escola de massagem tailandesa tradicional. De graça. É só enfrentar a fila.

 

Detalhes do Phra Mondhop


                  O palácio é real, para além da nobreza, e quando confrontrado com a realidade ao seu redor, além de seus muros, ocorre um dos mais evidentes contrastes de Bangkok. Talvez em sua visita o turista perceba precisamente nele que a cidade vive um dilema: navegar para o futuro sem puxar as âncoras do passado. Mas brilhando do mesmo jeito. Nas modernas fachadas de inox e vidro, nos mosaicos cerâmicos e espelhados dos antigos templos. Defronte ao frente Golfo da Tailândia, outrora parte de importantes rotas comerciais e os consequentes intercâmbios culturais entre o Oriente e o Ocidente que elas promoviam, Bangkok hoje vive esse curso em direção à modernidade enquanto mantém seus aspectos mais atraentes: tradições e patrimônio antigo.

                   ASSIM como o enorme, belissimo Buda reclinado, um grupo de quatro enormes chedis, um conjunto satélite de pavilhões do Grande Palácio, os famosos, atraentes e bonitos Phra Maha Chedi Si Rajakarn. Cada um com 42 metros de altura e inteiramente decorados com mosaicos cerâmicos, são uma das partes mais notáveis da visita ao complexo. Cada um construído para comemorar o reinado dos reis Rama I, II, II e IV, da dinastia Chakri. com uma cor predominante para cada rei: verde para o Rama I, branco para o Rama II, amarelo para o Rama III e azul para o Rama IV. Phra Maha Chedi Si Rajakarn é cercado por um muro branco com portas de estilo tailandês e chines, decorado com azulejos de cor e jardins ornamentais protegidos por guardiões.

Os guardiões do Palácio

                  QUANDO entramos no Wat Suthat Thep Wararam - ou Wat Suthat - não imaginávamos o quanto ele é bonito e que veríamos uma bela imagem de Buda - Phra Sri Sakayamuni. Wat Suthat tem um apelo mágico e mexe com a gente. Localizado na Rua Bamrungmuang, centro de Bangkok, ou Krung Ratanakosin, não está muito longe de outros locais de interesse turístico, como Grand Royal Palace.

Chinesices do Wat Suthat, influências da comunidade chinesa vizinha ao templo

                   APESAR de gigantesca cidade, em poucos quilômetros quadrados pode-se encontrar vários templos interessantes, como Wat Boworniweithviharn, Wat Thepthidaram, Wat Mahannopphram, Wat Mahadhat, Wat Phra Chetuphon (Wat Pho), Wat Arun, Wat Rachapradit, entre outros. O Wat Suthat foi construído em 1807 pelo Rei Rama 1. É muito bem mantido e preservado. O templo inteiro ocupa uma área de 45.000 metros quadrados, e nesse espaço há muitos interesses arquitetônicos, esculturais e visuais baseados no tema budista tailandês e na sua filosofia. Defronte ao templo, numa grande praça circular, há o Giant Swing, uma estrutura enorme em forma de balanço construída em 1784.  

Giant Swing

                  HÁ pequenas capelas nos quatro cantos construídos em torno do Vihara - o mosteiro, ou edifício principal - cada qual com imagens representando as posturas mais comuns de Buda . Entre elas o Buda sentado com as pernas cruzadas e as mãos dobradas em seu colo, ou posição lótus. Outras são do Buda com a mão levantada ou uma das mãos tocando a terra.

 

Wat Suthat

                   NO lado oposto do Rio fica Thonburi, um bairro bem mais bucólico, talvez o que mais se aproxime do que foi um dia a angelical Bangkok. Sente-se isso quando se nafega pelos antigos canais do século XVI. Entre mergulhos infantis e jacintos boiando na superfície da água e canoas coloridas, ainda respira-se a atmosfera daqueles tempos. E aqui é bem mais refrescante navegar o Rio Chao Phraya pela manhã ou no fim da tarde, quando então a "luz dos fotógrafos" - o entardecer -, revela os tons dourados dos raios do Sol refletindo-se nas superfícies vitrificadas dos arranha-céus e dos templos. Mas no Chao Phraya não deixe de saber que alguns mercados flutuantes são falsas encenações montadas para turistas. Chegam em barcos estacionados junto aos templos carregados de bugigangas. Algumas são até interessantes.

Tuk tuk. Sabendo usar (regatear e insistir no destino) é útil, prático e divertido

                 FOI no bairro Silom onde melhor sentimos o que significa "tráfego congestionado" em Bangkok. Centro comercial moderno, zona financeira e de hospedagem, por ali circulam de dia milhares de locais, os turistas, os executivos e os comerciantes, e de noite parte deles por causa da sua vida noturna. Dizem que Bangkok tem cerca de 11.000 restaurantes e bancas de comida de rua. Dia e noite. Para todos tipo de comida asiática cozida, frita, grelhada, marinada, assada, sopas, saladas, arroz e macarrão. Um dos lugares mais populares para comer é Sukhunvit, onde a oferta é tão grande que é difícil saber por onde começar.

Wat Pho

                  UMA contagem não oficial relaciona mais de 400 templos budistas na região metropolitana de Bangkok. Muitos turistas estrangeiros visitam apenas os mais destacados, entre eles o Wat Phra Keao, Wat Arun, Wat Pho e o Wat Traimit. Mas há muitos  outros atraentes e de grande beleza, que especialmente por estarem vazios de turistas tornam-se verdadeiros oásis de serenidade, lugares extremamente tranquilos para um repouso dos sentidnsode pois de umas horas na cidade. São templos como Wat Rakang, Wat Borworniwet, Wat Intraviharn, Wat Paknam, Wat Prasat, Wat Suwannaram e Wat Suthat, que se alguns não são tão brilhantes na arquitetura e ornamentação, são muito respeitados entre os habitantes e religiosos locais. São interessantes o suficiente para merecer sua visita. A maioria deles verdadeiros símbolos budistas.  

Bangkok: imensos contrastes dentro e fora dos muros do Grande Palácio

                  A Khao San Road, famosa rua dos mochileiros e turistas jovens, com seus albergues , lojas e restaurantes baratos, tem personalidade, mas para quem não é jovem nem mochileiro nada mais é doque uma curiosa tourist trap. À noite é território  cheio de estrangeiros e tailandeses em busca de diversão e de ladyboys e prostitutas tentando vender-se. Talvez seja o lugar com mais cara de amigos falsos e trapaças da cidade. 

O Rio e o Templo

                  VOLTANDO ao nosso passeio no rio, os contrastes entre moderninade e antiguidade continuam a revelar-se em terra. E de muitas maneiras: do simples e urbaníssimo Skytrain aos tuk-tuks, dos multi-coloridos taxis aos antigos, por vezes espantosamente decreptos ônibus urbanos. O turista observador encontrará alguns contrapontos aqui também. Entre a tradicional e ornada arquitetura religiosa e os reluzentes, futurísticos arranha-céus, onde a cidade demonstra porque é o epicentro da modernidade asiática. Poderiam estar em Chicago, Tóquio, Xangai ou Dubai e causariam o mesmo impacto. A torre The Met Bangkok é apenas um desses exemplos da fase moderna da arquitetura, reflexo da era dos “Tigres Asiáticos”. Apesar disso Bangkok é uma urbe por vezes feiosa, mas tem tudo o que uma cidade moderna precisa ter o conforto de seus visitantes.

   Vista do Rio, Bangkok por vezes é uma urbe meio feiosa

                  ENTRE os templos de Bangkok, há os incríveis Wat Mahathat, Wat Traimit, Wat Saket e Wat Sutat, templos que eu classificaria na categoria "visita obrigatória". E para além do prazer visual dessa arquitetura monumental, há outros que o visitante pode experimentar. Não me refiro àqueles que atribuem à cidade sua pior reputação: “paraíso sexual", do sexo predatóri, dos go-go bars, das casas de “massagem” suspeitas e dos ladyboys de Soi Cowboy e das barracas que oferecen todo o tipo de artigos, de eletrônicos a imitação de marcas famosas, especialmente os típicos Rolex falsos de Bangkok. Infelizmente a realidade expandiu-se para além da Soi Patpong, até a Khao San Road, Chidlom, Ploenchit e Sukhumvit. Todos renderam-se ao turismo sexual. E ainda que os espetáculos pornôs possam ser ridículos (ao meu ver), atraem uma legião de turistas sexuais ou simples voyeurs, muitos dos quais percebem tarde demais que algumas de suas ‘boom-boom girls’, ou Ladyboys, na verdade são travestis (talvez as mais perfeitas do planeta). E que pisam num terreno fértil para a AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis.

 

                  MINHA melhor recomendação para quem que conhecer o lugar é, primeiramente, eliminar os preconceitos. Depois saber que é seguro para quem vai apenas conhecer sem todavia envolver-se. Não recomendo a ninguém que deixe de conhecer a região por medo ou preconceito. Ainda que não se escape de perceber que sexo, sexualidade e prostituição andam agarradinhos com o turismo. E que expressam-se no corpo de dançarinas-prostitutas com seus olhares blazé-sensuais dançando agarradas em postes sobre balcões. Nada me pareceu mais broxante e melancólico em Bangkok. Quando falo dos prazeres que a cidade proporciona, me refiro a todos os demais que se podem experimentar na cidade.

Um passeio incomum por Bangkok pode revelar preciosidades arquitetônicas

                 O marketing também lhe atribuiu o apelido "Veneza do Oriente". Pompa que não guarda mínima lembrança com a cidade dos Doges. É marketing, clichê. E Bangkok nem precisa deles, o que se nota quando visitamos seus canais, conhecemos o mais vivo contraste entre a futurística e a tradicional. Entre estes canais, o Khlong Saen Saeb, construído em 1830 pelo rei Rama III, comunicava a cidade com a província de Chachoengsao. Já nos khlongs de Thonburi a vida transcorre como há séculos, quase inalterada em suas mesmas canoas carregadas de frutas, de verduras e pescado, e nas crianças banhando-se à porta de suas casas.

Pelos khlongs de Thonburi, num barco de rabeta longa

                POR ali uma ao Museu das Embarcaçõs Reais  expõe belos exemplares antigos e históricos da época imperial, revelando ao turista muitas tradições relacionadas aos canais. Da visita sai-se com a impressão de que os traços mais típicos de Bangkok estão naqueles os klongs por onde corre uma água leitosa e navegam canoas com teto de palha trançada e condutores com chapéus de cone. 

Surpresas arquitetônicas nos caminhos não batidos de Bangkok

                 WAT Sukhothai Traimit,  o templo budista, fica relativamente próximo à Khao San Road, em Chinatown. Estando por lá vale uma esticada. É onde está o grande Buda de Ouro, o maior Buda em ouro maciço do mundo: 5 mil quilos. É do século XIII. O templo fica numa grande comunidade chinesa.

  Wat Sukhothai Traimit

                   Antes de saber-se que era de ouro, pensava-se que era de barro, porque dessematerial fora recoberto para esconder o tesouro. Certa vez, durante uma reforma no templo, algo caiu sobre a estátua de barro, que quebrou-se, revelando o que estava por baixo: ouro puro. Tornou-se, então, um dos tesouros mais preciosos do país.

 

E o que era barro...

...virou ouro

                     Ainda que haja carros em excesso - quer estejam zunindo loucamente ou engarrafados no trânsito sufocante -, que a poluição do ar seja sensível nos olhos e narinas, que a quantidade de gente seja pra lá de excessiva, que a comida seja estranha (mas deliciosa!), que a prostituição não se disfarce, que as armadilhas turísticas sejam óbvias e numerosas, que o turismo selvagem traga seus problemas, tudo, tudo se resolve com preparo. 

Jim Thompson's House

                 A tarde cai e a noite chega. Por algum tempo deixamos de lado a sensação de cansaço que a cidade nos obriga, e à noite chega brilhando agora com as luzes, dando à cidade dos anjos - e ao nosso olhar - um dos seus mais belos momentos. Como este, visto do alto de um dos apartamentos do Península, nosso porto seguro, oásis de relaxamento e tranquilidade em Bangkok, do “outro” lado do rio, numa das partes mais convenientes e pitorescas para se hospedar na cidade.

A Rua Khao San

                Retornar à cidade no fim da tarde é um convite para explorar a noite. Não sem antes uma sessão de massagens e piscina, para depois programar-se um jantar no restaurante mais alto da cidade. Com vistas de tirar o fôlego, o aclamado Sirocco fica no 63º andar do edifício Lebua State Tower. O restaurante ao ar livre, tem um dos mais renomados cardápios de Bangkok e uma vista deslumbrante desde o Skybar. A culinária é ocidentalizada, tem notas mediterrâneas e pode surpreender por seus ingredientes de qualidade. A música ao vivo é de boa qualidade. Quando lá estivemos havia uma banda acompanhado uma cantora de jazz fabulosa, completando o ambiente ideal para qualquer celebração. Romântica, especialmente. Mas essas vertigens visuais não se limitam ao Sirocco. O hotel Banyan Tree Bangkok tem no seu 60º andar um concorrente à altura. Tanto do solo quanto na comida. Há lugares para saborear dim sum no Bai Yun, de cozinha tailandesa contemporânea no Saffron, de frutos do mar do Pier 59, de comida japonesa no Taihei. Para vistas dslumbrantes como as do Sirocco, há o Vertigo, apropriadamente chamado assim devido à sensação vertiginosa que se tem do bar ao ar livre, no topo do hotel Banyan Tree de Bangkok.

Vianmeck Palace

                  O Palácio Dusit - ou Phra Maiara Wang Dusit - é um complexo de residências reais em Rattanakosin entre 1897 e 1901 pelo rei Chulalongkorn (Rama V). Não se visita, mas fica próximo do Dusit Zoo e de Vianmeck Palace, antiga residência real, este sim um lugar que vale a pena visitar se tiver tempo. Quando voltou da Europa em 1897, o Rei Rama V investiu seu prórpio dinheiro para comprar pomares e campos de arroz para a construção de um jardim real, chamado por ele mesmo de Jardim de Dusit. A primeira residência no Dusit Garden foi a mansão Vimanmek, construída em 1900 por ordem do rei Ram. A construção era um palácio de verão em madeira que foi desmontada de seu sítio original, longe dali, em Chonburi, e reconstruída no lugar. O rei mudou-se do grande palácio para residir na mansão Vimanmek por 5 anos, até sua morte prematura em 1910. Depois disso a família real voltou para o Grand Palace.

Palácio Dusit

                Não havendo tempo para visitar todas, destaco minhas 15 atrações mais atraentes em Bangkok: 1. Grand Palace e Wat Phra Kaew, 2. Wat Po, 3. Wat Arun, 4. The National Museum, 5. Vimanmek Teak Mansion e o Dosit Throne Hall, 6. Jim Thompson´s House, 7. Royal Barges Museum, 8. Thon Buri Canals, 9. China Town, 10. Chatujak Weekend Market, 11. Suan Pakkad Palace, 12. Wat Suthat e o Giant Swing, 13. Golden Mount, 14. Wat Traimit e 15. Lumpini Park.

                  Kop kun kap, Bangkok! (obrigado!)

Notas:

 Quando se fala em compras Bangkok pode ser um dos paraísos mundiais. Especialmente para quem gosta de artigos de decoração e peças antigas. Neste caso, não há como resistir ao River City Shopping Center, sobretudo nos seus andares onde concentram-me os melhores antiquários da cidade. Já para as sedas de lenços a jogos de mesa, bolsas a roupas - não há melhor lugar que a loja Jim Thompson Thai Silk Shop que por si já vale a visita, especialmente se conjugada à belíssima cada de Jim Thompson.

Os tailandeses são compreensivos e tolerantes com os turistas em termos de não respeito às tradições.  Mas não com as relacionadas às coisas sagradas. Entre elas, com as quais não se brincam, sobr risco de arrumar confusão: a família real, o budismo, não tocar a cabeça de uma pessoa e apontar com os pés qualquer coisa, e, finalmente, vestir-se adequadamente em público.

 [1] Krung Thep Mahanakhon Amon Rattanakosin Mahinthara Yuthaya Mahadilok Phop Noppharat Ratchathani Burirom Udomratchaniwet Mahasathan Amon Phiman Awatan Sathit Sakkathattiya Witsanukam Prasit. É este o nome não abreviado, e para os muito íntimos. Bang Makok, para os mais eruditos, era uma pequena aldeia às margens do Chao Phraya, até a nova capital ter sido fundada em Thonburi, a seguir à queda de Ayutthaya. Mais tarde, em 1782, o Rei Rama I construiu um palácio em Rattanakosin e renomeou a cidade como Krung Thep, ou Cidade dos Anjos.

 [2] Como toda cidade culturalmente exótica, de costumes tão diferentes que recomendam-nos consistência no conhecimento,  no planejamento e nas informações, desde as mais elementares - como usar sapatos confortáveis, roupas adequadas, mapas e guias de viagem,  até às menos comuns, como um iPod para os momentos ruidosos de rua, lenço de pano para quando trafegar de tuk-tuk entre fumaça de óleo diesel, água mineral, mochila, proteção solar e boa vontade.  Quando me refiro à poluição, quero dizer que é preciso comprender que ela não está no chão das ruas, mas no ar. E que que a despeito de sua grandeza, Bangkok é cidade limpa ede ruas bem mantidas. Não se encontra lixo no chão, ao menos para classificá-la como “cidade suja”. 

 [3] The Peninsula Bangkok: o conteúdo deste blog não é patrocinado por companhias aéreas, hoteleiras, de seguros de viagem, locadoras de automóvel, de reservas de hotéis ou qualquer outra empresa relacionada ou não com viagens e turismo. Esta matéria não foi revista ou aprovada nem é de conhecimento das cias., entidades, hotéis, serviços ou pessoas citadas em seu corpo. As opiniões expressas são exclusivas do autor e também não endossadas por qualquer pessoa ou entidade. Não escrevo posts patrocinados (clara ou disfarçadamente), não recebo 'brindes' ou mimos, não aceito convites para fazer coberturas positivas de qualquer evento (de lançamento de caminhões a classes executivas de cias. aéreas). Não recebo permuta ou qualquer vantagem, minhas viagens são auto-financiadas, não sou recompensado ou comissionado em nenhuma hipótese e a que título for por qualquer marca de produto ou serviço, mencionado aqui ou não. Tudo o que é publicado aqui é feito com a suposição de que o leitor saiba identificar os objetivos deste blog, sobretudo que verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão. Não publico matérias que não sejam de minha autoria,  não tenho ghost-writers nem escritores colaboradores esporádicos ou permanentes. 

Uma vila "perdida" em Chinatown

Sexta-feira
Mar272015

RECINTO modernista de Sant Pau - Barcelona 

Pátio, interior do complexo do Recinto Modernista de Sant Pau

                POR trás de toda grande obra há um grande criador. Gênios da arquitetura e obras geniais são tantos em Barcelona que não se exagera definindo a cidade como expoente do arquiteturismo. Como em toda a Espanha, afinal, país onde do eclético ao modernista, do gótico ao românico, do mudéjar ao moçárabe, do barroco ao contemporâneo, do neo-clássico ao moderno encontram-se alguns dos mais exuberantes exemplares da humanidade. Para leigos ou profissionais, não importa, amantes da arte aplicada à arquitetura e à ornamentação têm em Barcelona alguns dos exemplos mais referenciais do modernismo no planeta.

               SÃO tantos e tão notáveis os do modernismo catalão, tão magníficos seus valores, conceitos e ideais, em qualquer exemplo de função da engenharia - das moradias aos hospitais, dos parques às catedrais - que seu conjunto toma valores tão excepcionais que qualquer comparação com outra cidade no mundo é prejudicada.

   Fachada principal: beleza artística e singularidade construtiva

                HÁ tantas obras arquitetônicas de qualidade, tão bons exemplos de marcos da humanidade na arquitetura, tantos espetaculares e surpreendentes edifícios catalogados como integrantes da arquitetura modernista em Barcelona que boa parte deles passa despercebida dos visitantes. É natural. São efetivamente tantos e tão espalhados, muitos fora do circuito óbvio e exemplar do Eixample - onde Gaudi deixou alguns dos seus melhores marcos no movimento modernista -  que não se consegue dar conta de todos numa curta visita à cidade. É natural que os turistas restrinjam-se à Sagrada Família e à Manzana de la discordia, nome que se dá ao trecho do Paseo de Gracia - no Ensanche -, situado entre as ruas de Aragón y Consejo de Ciento, onde efetivamente fica o conjunto de cinco edifícios modernistas catalãos mais expoentes de Barcelona, onde o visitante interessado em arquitetura - profissional ou amador - tem mais obras primas a conhecer do que daria conta numa escapada.

Um dos pavilhões e pátio

                A Casa Lleó Morera - do arquiteto Lluís Domènech i Montaner -, a Casa Mulleras - de Enric Sagnier -, a Casa Bonet - de Marcel·lià Coquillat -, a Casa Amatller - de Josep Puig i Cadafalch - e Casa Batlló, de Antoni Gaudí. Logo ali, pertinho, e do outro lado da rua, a Casa Milá. Também por desconhecimento, ou porque estejam fora do foco turístico, o visitante muitas vezes deixa de conhecer a Casa Vallet i Xiró, projeto da fase final do modernismo catalão, desenhada pelo arquiteto Josep M. Barenys i Gambús. Ou então a Casa Thomas, de autoria do modernista Lluís Domènech i Montaner, e o Palácio Montaner, projetado por Josep Domènech i Estapà, três exemplos, ainda que fenomenais, da arte aplicada à arquitetura neste que foi um movimento artístico assombrosamente belo: o modernismo.

 Arte. Aqui aplicada à arquitetura e à ornamentação, dando forma à pedra, a tijolos, à cerâmica e à argamassa      

                 ENTRETANTO, todos os outros relacionados na Rota do Modernismo valem a visita. O Palau de la Música Catalana é um dos mais notáveis. Ainda que deslumbrante projeto, está entre os menos visitados. Creio que o mais imponente de todos - e por isso mesmo surpreendentemente pouco conhecido pela maioria dos turistas - é o Hospital da Santa Cruz e São Paulo. Em catalão, Hospital de la Santa Creu i Sant Pau. Projetado por Lluís Domènech i Montaner, renomado arquiteto catalão, o complexo ficou pronto em 1930. Logo tornou-se um dos mais belos edifícios grandiosos da cidade, mas apenas quase setenta anos depois foi nomeado Patrimônio Mundial da UNESCO.

                A despeito de tantas vezes ter visitado Barcelona, a ponto de a cidade e eu termos nos tornado algo íntimos, eu mesmo só agora visitei o Recinto Modernista de Sant Pau. Mas foi bom esperar. Fomos ao Recinto com os amigos Tony e Cecília Gálvez, que nesta nossa deliciosa escapada estiverem conosco em Barcelona. Não consigo mencionar privilégio maior que sua companhia. Nem visitar o monumento com suas orientações e esclarecimentos. Ao vivo! Foi notável a experiência com os amigos e autores do “Passaporte BCN - Desvendando Barcelona com dicas de viagem”. Mais uma vez pude confirmar porque são os autores da única página profissional de viagens que admiro na Internet brasileira. E além de mais completo guia de Barcelona, é exemplarmente imparcial, autêntico e honesto. É trabalho honrado e bem feito. E está disponível on line. Tão fácil e barato adquiri-lo quanto preciso seu conteúdo. 


                  HOSPITAL de la Santa Creu i Sant Pau  ____________________________________

                 EM 1401, depois dos flagelos da fome e da peste na cidade, a primeira sede do Hospital foi fundada e teve como sede um edifício gótico situado no centro do bairro El Raval. Ao longo dos anos cresceu e estendeu-se para outros lugares, como aqui, num dos extremos do bairro Eixample, lugar então conhecido como "la montaña pelada".  Este projeto do arquiteto Lluís Domènech i Montaner - provavelmente seu maior exemplo criativo junto com o Palau de la Música Catalana - coincidiu com a expansão e a industrialização da cidade. Aqui, sobretudo, com idéias novas de urbanismo, almejava-se maior qualidade ambiental para os habitantes, propunha-se menor índice de ocupação que na área antiga, e na saúde pública promovia-se um novo propósito extraordinário de compromisso social e assistencial. Tudo planejado e levado a cabo pelo doutor Pere Felip Monlau, por arquitetos, planejadores urbanos e engenheiros, entre eles Ildefons Cerdà e Pere García Faria, este último responsável pela concepção da rede de esgotos de Barcelona, no século XIX.

Vias diagonais, a Sagrada Família e a a agradável Avinguda Gaudí

                ATÉ meados do século XIX, Barcelona limitou seu crescimento ao Barri Gòtic, dentro das muralhas romanas. Não se pode dizer que até então houvessem conceitos urbanísticos, e com o crescimento da cidade decidiu-se desenvolvê-la para além das antigas muralhas romanas. Projetou-se então uma cidade conceitualmente moderna, urbanisticamente projetada segundo ideais de qualidade de vida bem diferentes dos medievais. Foi quando Ildefonso Cerdá desenhou a nova área com três grandes vias principais: a Meridiana, a Diagonal e a Gran Vía, todas partindo do mar para o interior. Estava assim estruturada a nova planta e definidas as quadras, com vias e calçadas largas. Neste lugar é que fica a Via Gaudí, que liga a Sagrada Família - de Antoní Gaudí - ao Hospital de la Santa Creu e Sant Pau - de Lluís Domènech i Montaner. Estando na Sagrada Família, siga a sugestão do Passaporte BCN e percorra a agradável Avinguda Gaudí até chegar à fachada principal do Hospital de Santa Creu i Sant Pau. Assim notará os conceitos urbanísticos modernos da época.

                 A visita - guiada ou individual, você escolhe - começa atravessando-se um salão de administração, onde há uma maquete do complexo e uma breve projeção audio-visual com a história do empreendimento. Depois, segue-se por túneis com paredes em azulejos, onde projetam-se figuras em movimento de funcionáros e doentes circulando pelo antigo hospital. A viagem por este túnel azulejado leva a um jardim, onde dali em diante tudo torna-se mais atraente, colorido, iluminado e surpreendentemente humanizado para um hospital da época, com pavilhões cada qual sua função específica, decorados e ornamentados, iluminados e ventilados primorosamente.

Por trás dessa grande obra, um grande criador: Lluís Domènech i Montaner

                  A entrada principal através do Pavilhão da Adminstração já não deixa indiferente o visitante. Ali mesmo faz com que olhe pra cima, aos tetos com esferas de trencadís (aqueles mosaicos tipicamente gaudianos), assim como para os arcos de mármore. Tudo tem muita harmonia. Nas cores, desenhos e no resultado final de grande beleza. Diferentes técnicas e variados tipos de materiais foram empregados na construção, no revestimento e na ornamentação deste complexo de edifícios em estilo arte nova. O mais notável, todavia, é já à época alguém ter-se preocupado com fazer recintos hospitalares sob o que muito mais tarde seria chamado "humanização hospitalar". Provavelmente ainda hoje não encontrados nesta escala em qualquer outra obra. Uma iluminação especial, uma ventilação agradável e coloridos suaves tornam ambientes austeros em pavilhões agradáveis.  

Pavilhões que originalmente serviam como enfermarias demonstram os primeiros sinais...

... da humanização hospitalar na arquitetura, resvestimentos, ornamentação, ventilação e iluminação

                 A visita ao interior segue um percurso indicado e lógico, através de uma escada que leva a um corredor com grandes janelas, tudo em estilo modernista, do piso ao teto tão, cuidadosamente ornamentado em cerâmica e madeira. Seguindo esse percurso marcado, passam-se por diferentes salões, cada qual com detalhes específicos decorativos e ornamentais em estilo art nouveau.

Passam-se por diferentes salões ornados com detalhes decorativos...

...e ornamentais em estilo art nouveau

                 EM 2009 o edifício tornou-se obsoleto para os fins hospitalares e assistenciais, quando então para um novo prédio moderno e vizinho transferiu-se o hospital. Começou então um dos mais ambiciosos, notáveis processos de renovação e reabilitação patrimonial e arquitetônica dos pavilhões. Atualmente, parte do Recinto Modernista de Sant Pau é um museu. Mantém vivos a história e o importante valor cultural. Noutra parte, em alguns pavilhões instalaram-se organizações não governamentais e órgãos públicos de pesquisa médica, instituições de vanguarda na área da saúde, sustentabilidade e educação.

                UMA das instituições mais emblemáticas de Barcelona, essência dos ideais modernistas, para além de tudo sua construção revela-se ainda hoje um dos projetos hospitalares mais importantes da Europa. Não tem os maneirismos orgânicos de Gaudí, mas tem mais beleza, história e romantismo entranhado entre seus tijolos, cerâmicas, argamassas e pinturas do que qualquer outro hospital no planeta. Foi possível graças à iniciativa do banqueiro Paul Gil i Serra. E demorou tanto para ser construído - de 1902 a 1930 -, que não seria justo ao final deixar de ser uma das obras mais primorosas do modernismo. Suas singularidades - artística, arquitetônica e ornamental - são tão exemplares que mesmo um leigo não a visita sem suspirar e encantar-se com a obra prima em pedra, tijolos e cerâmica.

Perícia no desenho, talento na ornamentação

                  PERÍCIA no desenho, domínio de técnicas, criatividade, ritmo arquitetônico e ornamental, equilíbrio e audácia em mínimos e macro detalhes, tantas que conseguimos perceber quase todas as outras artes decorativas aplicadas ao complexo. Para além da funcionalidade excepcional que o visitante descobrirá percorrendo seus pavilhões, jardins, vendo seus mosaicos, mármores, escadas, salões, jardins, janelas, vitrais, corredores, salões e demais dependências formando um conjunto tão exemplar que foto e texto nenhum passa sequer de arranhar a superfície do que seja visitar o complexo.

                AO final do percurso de visitação - lógico e sinalizado - há uma loja de souvenir com ótima literatura e boa qualidade de lembranças do lugar.

Sábado
Mar072015

BARCELONA. Porque continua a valer

Sant Pau - Recinto Modernista

Le choix des rois! - Introdução   ___________________________________________________

                 QUANDO penso que tudo de bom já me aconteceu, que nada mais prevalecerá em perfeição, que a vida já me arranjou todos os seus prêmios, que não mereço prosperidade maior, novamente ela me surpreende: ter gêmeos. E de ambos os sexos! Como dizem os franceses, le choix des rois! A “escolha do rei” é expressão comum que todavia jamais ouvíramos. Significa "perfeição". Na época medieval, ter filhos gêmeos de sexos diferentes representava um menino para a sucessão e uma filha para casar-se com outro rei e expandir seus territórios. Claro que já não se pensa mais assim. Felizmente. E nem por tanto se consagra a alegria de ter gêmeos de sexos diferentes. Os tempos são outros, a mulher passou a ser mais valorizada pelo homem e em breve terá plena igualdade na sociedade mundial. Mas há algo de certo na expressão: continua a ser uma magnífica escolha - da natureza - ser premiado com gêmeos e de sexos diferentes.

   Detalhe da Casa Batlló de Antoni Gaudí, mais uma inspiração em lagartos e natureza

                  Enquanto passeávamos pela França em nossa recente escapada à Espanha (Barcelona), Amboise (Chenonceau, Vale do Loire), Monte Saint Michel e Paris, a linda barriga de minha doce Emília capturava olhares. Ainda que de quatro meses, aparentava de seis. E gerava surpresas e curiosidades. Assim que dizíamos serem gêmeos - e um menino e uma menina -, mulheres de todas as idades exclamavam carinhosa e curiosamente: Le choix des rois! Não nos esqueceremos dessas doces, deliciosas, genuínas manifestações de carinho. Muito menos dos votos francos de felicidades e saúde para nossos, Olívia e João. Não vejo a hora de chegar o grande dia para eles conhecerem esse meu sorriso e contar-lhes essa história...

 Escapada a Barcelona. Porque continua a valer  ______________________________________

As curvas orgânicas de Gaudí no Parque Güell

                 VINTE milhões de turistas por ano! Nenhuma cidade resiste sem consequências a números dessa magnitude. O turismo de massa tem efeitos nefastos, sobretudo a destruição do que é original. Há muito de mal que carrega consigo, e nem mesmo esta jóia de cidade escapa deles. Mas ainda assim consegue estar entre as européias mais perfeitas para uma escapada e não por menos figura entre minhas cinco prediletas no mundo.

Se 20 milhões de turistas podem incomodar, Las Ramblas sem eles não seria Las Ramblas

                Claro, isso é gosto pessoal. Há quem discorde, mas há muitas razões para Barcelona continuar atraindo tantos turistas, a despeito dessas conseqüências. Entre eles, eu. Barcelona é cidade de atrações poderosas, de patrimônio arquitetônico notável - seja moderno, seja modernista e gótico -, distribuídos por  avenidas principais e pequenas ruas escondidas. Mas especialmente pelo modernismo catalão, que torna ainda mais deslumbtante a paisagem urbana. Há muita história e arte, para quem gosta de ambos. E de Picasso a Juan Miró, ícones da arte espanhola. Tem uma gastronomia invejável e gloriosa, com mais de 20 restaurantes estrelados pelo Guia Michelin. |E uma rede hoteleira notável, para todos os bolsos e gostos.

Da janela do Recinto Modernista de Sant Pau, olho as torres da Sagrada Família, obra mestra de Gaudí

                Dizem que Barcelona não é Espanha, é Catalunha. E que a Catalunha não é Espanha, é Mundo. É possível ao vitiá-la compreender que é mais que uma cidade, quero dizer, tem mais do que uma riqueza urbana, arquitetônica, potência histórica e atrações turísticas.  Parecem infindáveis as atrações. Já é daquelas que não precisa mais de propaganda e marketing, mas de bons guias que a desvendem ao turista.

Não há associação mais óbvia a Barcelona do que a Antoni Gaudí

               De bons e profundos guias, bem escritos e editados, cuja permanente necessidade de atualização os torna profundamente trabalhosos, todavia vivos. É cidade grandiosa demais, potente, e além de tudo tem o mar e aquele ar mediterrâneo tão notável e peculiar, ainda que a mim atraia bem mais o "interior": El Barri Gotic, El Born, Eixample, Las Ramblas, a Plaça Catalunya e mais por ali. Gosto tanto de Barcelona que por mais que a visite, que viaje a outros países, haverei de relacioná-la entre minhas prediletas (*2), mesmo que no meu mapa-mundi eu já tenha espetado alfinetes em 60 países e visitado sei lá quantas cidades.

La Manzana de la discordia vista do terraço do Hotel Majestic

                  La Manzana de la discordia é o nome que se dá ao trecho do Paseo de Gracia - no Ensanche -, situado entre as ruas de Aragón y Consejo de Ciento. Ali está o conjunto de cinco edifícios modernistas catalãos: Casa Lleó Morera - do arquiteto Lluís Domènech i Montaner -, Casa Mulleras - de Enric Sagnier -, Casa Bonet - de Marcel·lià Coquillat -, Casa Amatller - de Josep Puig i Cadafalch - e Casa Batlló, de Antoni Gaudí.

Talento, criatividade e imaginação de Gaudí produziram um dos clássicos mundiais da arquitetura

                 O termo "manzana de la discordia" exprime a rivalidade entre Domènech i Montaner, Puig i Cadafalch e Antoni Gaudí: cada qual desafiando e provocando o outro com suas obras.

               Na Casa Batló, talento primeiro, inspiração em segundo e imaginação por último foram empregados por Antoni Gaudí no desenho do projeto. Como afinal em todos os outros, mas neste com um resultado que a tornou um obra prima, edifício dos mais criativamente artísticos, sensuais, orgânicos e poéticos do mundo, ícone da arquitetura mundial. Na Casa Batlló, onde sua imaginação criou formas de répteis e plantas, de ossos e esqueletos, de elementos marinhos, além do mais tudo brilhantemente executado em massa, em tinta, cerâmica, ferro, cerâmica e vidro. cujo resultado é uma obra prima. Surpreendente em cada detalhe, em cada curva inovadora e incomum, ainda hoje por dentro e por fora nos faz perceber o as enormes dificuldades de execução deste projeto tão custoso e oneroso, viável apenas porque havia um poderoso mecenas e admirador a subvencioná-lo.

O coroamento do telhado ondulado, com uma pequena torre e cruz dupla

                 Seguramente situa-se no que é indispensável visitar em Barcelona. O prêmio por comprar antecipadamente o ingresso pela Internet vale quase tanto quanto conhecer o interior do "monumento". Chega a ser constrangedor ver a fila de visitantes aguardando a hora de comprar o ingresso para depois entrarem no prédio.

No interior, uma alegoria composta por mosaicos cerâmicos coloridos evoca o mar

                A Casa Batló, em estilo modernista - ou Art Nouveau - adaptado ao jeito de ver e ser do catalão, "viaja" pela criatividade dos espaços e cores já na fachada. Projetado para o barão Josep Batlló, é uma alegoria composta por mosaicos cerâmicos coloridos, varandas de formas orgânicas, uma tribuna com pilares inspirados em ossos humanos e o coroamento do telhado ondulado e de uma pequena torre com um cruz dupla, sinal da religiosidade exacerbada de Gaudí.

Casa Batlló, de Antoni Gaudí

                 Ainda assim, é pouco perto do tanto que há para ver em Barcelona, uma introdução do visitante ao esplendor arquitetônico dessa cidade, ao seu patrimônio arquitetônico e a compreender o estilo.

                 Não digo "Adeus, Barcelona", digo "Grácias!" - Luminárias do Parque Güell ao anoitecer

               Unanimidade? Talvez. Afinal, recebe 20 milhões de visitantes anualmente. Provavelmente ninguém precisa do Fatos & Fotos de Viagens para saber que há muitas, muitas razões para visitar Barcelona. A cidade é imensa e simplesmente maior que qualquer blog, sítio na Internet, revista, matéria e reportagem. E neles não se esgota. 

                  Em fevereiro último visitamos Barcelona. Eu, minha doce Emília, as "crianças" (vá lá que ainda na barriga da mãe *3 e a vovó Mariliana. Nos encontramos e passeamos com os amigos do peito Tony e Cecília Gálvez nesta deliciosa escapada que mais uma vez me deixou saber que muito ficou por ver e experimentar. Não consigo encontrar privilégio maior.

Casa Amatller, de Josep Puig i Cadafalch

                Um dia já seria perfeito em Barcelona passando-se pela Sagrada Família e pela Manzana de la discordia. Um dia apenas é muito pouco todavia para esta cidade. Porque para além do modernismo catalão, há o contemporâneo e o gótico.

Pela modernista ou pela gótica, Barcelona excede as expectativas

                Na Barcelona medieval, gótica, entramos num mundo de pedra e mistérios, por vezes até levados a imaginar o encontro com um cavaleiro ou princesa, não fosse a quantidade de turistas que nos trazem de volta à realidade. Ainda assim o Bairro Gótico tem seus encantos. A Catedral e os dois palácios medievais que a rodeiam - Casa dels Canonges e Casa de L'Ardiaca -  são os mais notáveis. E há também o Museu d'Història de la Ciutat.  

                 Aqui começou a história de Barcelona, com o assentamento romano Barcino. As estradas principais passavam pelo bairro de hoje e a maioria dos seus monumentos são dos séculos 14 e 15, então de uma Espanha no auge como potência marítima. Pelas ruas estreitas do Barri Gòtico o turista encontra  surpresas, de fontes a edifícios históricos. Mas deve acautelar-se para não decepcionar-se. É preciso saber que a área foi reabilitada, sobretudo renovada nos anos 20. E ainda que continue a brilhar, muito do que se vê não é original, apenas parte da história que se consegue "ler" nos prédios ainda de pé e nas ruínas do que foi destruído pelo tempo.

                 A Catedral de Barcelona é o melhor exemplo dessa história. Foi construída entre os anos do século XIII ao XV sobre uma antiga catedral românica, que fora edificada sobre uma igreja visigoda, por cima do que fora uma basílica paleocristã, cujos restos podem ser vistos no subsolo, no Museu de História da Cidade. A fachada, todavia, é bem mais moderna, de gótica tem apenas o estilo, não o período, porque foi feita no século XIX.

Outro exemplo de gótico fake do Bairro "gótico" de Barcelona

                  O gótico do Bairro "gótico" de Barcelona nem sempre é gótico e original. El Pont del Bisbe foi construído em 1928. Ainda assim é belo o arco-ponte incomum, com um balcão e decoração inspirados nas formas do gótico, e mesmo que "moderno" é provavelmente o mais fotografado elemento do barrio gótico. Não sem motivo, porque de fato é belo e atraente. Já passar sob ele e pedir um desejo é exagero a que  se dedicam alguns.

 O Einxample. Avenidas largas, bairro novo, modernista, projetado e elegante

               Se todavia alegria e movimento era o que queríamos, então chegara a hora de circularmos por Las Ramblas. Do início ao fim. A avenida atravessa parte da cidade, tem zonas de comércio, atrações culturais e atividades populares de rua. Se começar pela Praça de Catalunha dará na Rambla com a Fuente de Canaletes, na foto abaixo. Todos os guias dizem que quem beber de sua água voltará a Barcelona.  

     Fuente de Canaletes, La Rambla. Não provamos sua água, mas nalguma outra visita devo tê-lo feito...

                Não provamos de sua água por razões óbivas. mas creio que deva tê-lo feito em outras visitas, tantas foram as vezes que retornei à cidade. Nas Ramblas há bancas de flores e de revistas, estas mais com badulaques turísticos dependurados do que revistas. E os homens-estátua, profissionais com incríveis e bem produzidas fantasias que merecem nossos trocados. Tem 1.500 metros de extensão e não é assim tão bonita como outras Ramblas, Calles e Passeigs. Todavia é a rua mais visitada da cidade, espécie de símbolo que todos mencionam em suas visitas e todo visitante quer conhecer.  Mas tem personalidade.

La Pedrera, ou Casa Milá. Se não o mais emblemático, o mais elegantes projeto de Gaudi

                Prosseguíamos a caminhada e observávamos um bom número de fachadas belíssimas. Como as do Gran Teatre del Liceu, do inevitável Mercado de la Boquería (fechado nesse nosso domingo que dedicamos à Rambla), de igrejas, de lojas e farmácias antigas.  Assim, passo a passo, chegamos ao porto de Barcelona, avistamos o teleférico de Montjuïc, a praia, a zona portuária, o Mar Mediterrânico, ao Passeig Marítim, a Barceloneta, o Port Vell, o Port Nou, a Plaça del Portal de la Pau, a estátua de Colón e a Rambla del Mar, o Aquário, o Museo de Historia de Cataluña e o Puerto Olímpico.

Farmácia Nadal, um dos inúmeros exemplos da arquitetura exemplar de La Rambla

                Comemos bem. Mas é quase um atrevimento recomendar um restaurante na cidade sem esbarrar na superficialidade. Então, mais uma vez, recomendo consultar o PASSAPORTE BCN  (*1) e ler as dicas precisas do Tony e da Cecília Gálvez. Ou o Trip Advisor e o Lonely Planet. Ou, ainda, o BCN Restaurantes.

              Na região comemos uma noite no Fonda España (Carrer de Sant Pau, 9-11 no Hotel Espanya), que valeu bem mais pela arquitetura do restaurante e do o hotel, do século 19, assinada por Domenech i Montaner, que pela comida do estrelado chef Martin Berasategui. É preciso reservar. Não chega perto do prestigioso Restaurante Lasarte do mesmo chef, mas o programa vale quanto custa: bom e barato. Entretanto, toda visita a Barcelona, turisticamente falando, é assim, deixa um gosto do muito que ficou por ser visto. Talvez por isso eu regresse tanto e ainda continue o desejo de voltar. 

A Sagrada Família - Exuberância e significado  ____________________________________________

                  Não há nenhuma associação mais óbvia a Barcelona do que Antoni Gaudí. Tampouco à sua obra mais exuberante e significativa: o Templo Expiatório da Sagrada Família. Provavelmente também nem mais justas. Afinal, a genialidade do arquiteto produziu bem mais do que marcos para a cidade, senão exemplos significativos de genialidade na história da arquitetura mundial. Criações tão importantes e incomuns que excederam as fronteiras do país. A mais monumental - a Sagrada Família - não seria exagero considerar-se tão magnífica e importante para a humanidade quanto o Taj Mahal, por exemplo.  

A floresta de colunas góticas transformadas em árvores e galhos pela genialidade de Gaudí

               Obra mais emblemática de Gaudí - interrompida após sua morte e por falta de verba -  impressiona por muitas razões: monumentalidade, desenho inusitado, pelo tempo de sua construção: desde 1.882, e porque não foram deixadas plantas do projeto total. Até meados do século XIX Barcelona era uma cidade como tantas outras do Velho Mundo: cercada e protegida por muralhas. Atrás delas havia uma cidade com pequena concentração urbana e imenso território inexplorado. Nesta área não desenvolvida começou-se a expandir a cidade.

               Denominado Ensanche, projetaram-se conceitos modernos de desenvolvimento urbano: ruas largas e formato de planta quadriculado. Nada mais natural que ali fosse planejada a construção de um grande templo católico, porque se então a Espanha era um dos países mais católicos do Velho Mundo, vivia-se um clima ultracatólico na Cataluña. Contratou-se o arquiteto diocesano Francisco del Villar para projetá-lo. Produziu algo óbvio demais - um templo gótico - que felizmente a construção começada pela cripta gerou desavenças com o mecenas do templo - o livreiro Josep M. Bocabella, presidente da Associação dos Devotos de São José - que o levaram à escolha de um novo arquiteto.

A Sagrada Família aproximada por zoom, vista do terraço do Hotel Majestic

                 Meses depois, em 1883, Villar foi substituído por Antoní Gaudí, então um jovem arquiteto, autor de grandes obras, verdadeiros tesouros arquitetônicos do modernismo catalão, entre elas o Palácio Güel, o Parque Güel, a Casa Batlló (pronuncia-se "Baió"), a Casa Milà (pronuncia-se Mila), também conhecida como La Pedrera, e a Cripta da Colônia Güel.

                   O Templo Expiatório da Sagrada Família todavia representava a "obra de uma vida". Irônicamente, Gaudí trabalhou nela até o último momento antes de sua morte: numa tarde, depois de deixar o templo em contrução, foi atropelado por um bonde. Morreu por causa dos ferimentos do acidente, em 10 de junho de 1926. Continuaram-se as obras com base nas maquetes e desenhos de Gaudí, já que não havia todos os desenhos concluídos. Em 1935 os trabalhos foram interrompidos. A fachada ocidental, A Paixão, cmeçou a ser contruída em 1953 e sua construção chegou até 1976. O escultor Josep Maria Subirachs, em 1987, a decorou como se vê hoje.

Efeitos luminosos. A luz que passa pelos vitrais decora os tubos do moderno órgão

                   Nas mãos e na genialidade de Gaudí o templo tomou uma dimensão muito maior do que se desejava. Provavelmente até do que se poderia supor. A obra tão complexa e monumental, em cuja genialidade plástica de Gaudí encerrou o processo evolutivo do modernismo gaudiano, tem exuberância e significado gigantescos. Logo passou a ser chamada "catedral", apesar de não ter cátedra alguma. A catedral de fato era a gótica, sede do bispado de Barcelona - que remonta ao século II -, cuja construção que hoje se vê começou no final do século XIII sobre uma antiga catedral românica, por sua vez edificada sobre uma igreja visigoda precedida por uma basílica paleocristã, cujos restos podem ser vistos no subsolo do adjacente Museu de História da Cidade. O que não se imagina, todavia, é que a fachada neogótica atual é, digamos, falsa: muito mais moderna, é do século XIX. Mas voltemos ao que interessa agora, a Sagrada Família.

                 A Gaudí o que é de Gaudí na Sagrada Família

                 Gaudí previu em seu projeto cinco naves, quatro fachadas monumentais que davan para a nave central e para os braços do transepto e uma grande cúpula como ponto culminante dominando sua idéia de verticalidade munumental. O ábside - nas basílicas cristãs a "cabeceira" da igreja, é onde fica o altar-mor. Foi construído sobre a cripta gótica, já sob desenho de Gaudí. Todavia ele ainda não havia definitivamente enterrado o estilo gótico no subsolo. Não sei se já imaginava como seria a nova e modernista igreja em seu estilo inusitado, mas o fato é que o ábside executou-se no estilo gótico. Foi terminado em 1893, portanto um gótico tardio que em suas paredes, janelas, imagens e agulhas já revelavam influências da genialidade de Gaudí. Ele não gostava do estilo, por isso afirmou que sua arquitetura era um "aperfeitçoamento do estilo gótico". A afirmação pode ter soado pretensiosa, mas anos depois, quem visita o resultado magnífico que se vê hoje, haverá de concordar que a beleza gaudiana superou em muito a dureza do estilo gótico. O fato é que a genialidade dos desenhos de Gaudí provocaram imensos desafios contrutivos. Assim como as curvas e balanços de Niemeyer tiravam o sono de engenheiros calculistas.

                Com todo respeito ao estilo gótico, o que se vê hoje na Sagrada Família é incrivelmente mais belo, harmonioso, orgânico e humano do que teria sido mais uma enorme, fria, dura catedral gótica do Velho Mundo. Apesar de alguns afirmarem que tratava-se de uma das construções "mais horrendas do mundo". É possível. Ao menos àquela altura. O que se vê hoje é infinitamente mais belo e grandioso do que o que vi há nove anos, assim como o que se via em mil oitocentos e tanto, à pepoca da morte de Gaudí, era enormemente mais feio do que o resultado que seus discípulos, seguidores, admiradores e projetistas estão a concluir. Gaudi morreu e não deixou desenhos conclusivos da Sagrada Família.

              Tanto tempo de construção gerou o termo "Tardas más que la Sagrada Familia", que ali designa tudo o que atrasa. Hoje é possível que ovisitante consiga aceitar as previsões para 2026 da conclusão das obras. Ao menos bem mais do que quando lá estive, há nove anos. Imaginava-se, agora sente-se.  O resultado, já agora, é o maior tributo que Barcelona poderia prestar a Gaudí. Nem seria peciso entrar no templo atual, observar a luz do sol entrando por suas frestas, vitrais e aberturas, tudo produzindo um espetáculo de beleza notável, para encantar o expectador.

                A natureza foi a fonte inspiradora de Gaudi em toda sua obra. Do Mar, na Casa Batlló às rãs, salamandras, faisões, serpentes, joaninhas e dragões do exterior às árvores e galhos do interior da Sagrada Família. E sua criatividade também se expressou na planta, na concepção do projeto. O claustro - que numa igreja servia de clausura e  pátio em mosteiros e conventos -, aqui também formado por arcadas que sustentam o teto, encerra significado incomum para uma igreja, pois volta-se para dentro do templo, e é onde ficam o batistério, as sacristias e capelas.

No Pórtico da Esperança, a Morte dos Santos Inocentes e ...

... a fuga para o Egito

                 As fachadas são quatro. Em três delasNascimiento de Cristo, Pasíon y Muerte e Gloria - portais rompem a continuidade do claustro. Do Nascimento e da Paixão de um lado e de outro extremo, a porta da Assunção, ou Glória. A Fachada do Nascimento tinha um projeto bem mais discreto imaginado por Gaudí. Mas como ele mesmo disse que a Sagrada Família seria toda providencial, uma doação expressiva permitiu a ampliação do projeto para o que se vê hoje, magnificência impossível de se realizar sem os recursos da polpuda doação.

   O antigo, à direita, original de Gaudí. O novo, meio gótico, meio modernista, a continuação

                A Fachada do Nascimento foi construída nas duas últimas décadas do século XIX e no primeiro terço do século XX, sendo composta por três grandes pórticos - o central, que reresenta a Caridade, o mais alto, e os laterais, que representam a Fé e a Esperança), além das quatro torres. O conjunto tem estilo gótico e modernista misturados. São uma verdadeira alegoria, quase uma alucinação a que chegou Gaudí, que quanto mais projetava o templo, mais ferrenho religioso tornava-se. A fachada foi a primeira a ser terminada, assim como as quatro torres do campanário. Demoraram uns 50 anos.

Turistas agrupam-se do lado de fora para fotografar o belíssimo Portão do Evangelho

                São três grandes pórticos, sendo o do centro o mais alto. É a parte mais antiga da igreja e aquela que se costumam associar a castelos de areia, devido ao efeito de estalagmites de suas torres. É fabuloso o resultado, especialmente das colunas salomônicas com capitéis em forma de folhas de palmeira que dividem os três portais. Figuras humanas e da natureza ornam a fachada e o resultado torna-se uma verdadeira alegoria. As colunas são montadas sobre tartarugas de pedra, que representam a estabilidade do cosmos.

  O Quadrado mágico, do Portão do Evangelho. Inevitável a vontade de tocar...

                 Na fachada há camaleões que simbolizam a mudança constante da natureza, anjos trombeteiros, a representação da matança de inocentes bebês por Herodes, do Penhasco de Montserrat, com a inscrição 'Salva-nos' e com os apóstolos Barnabé e Simão, Jesus trabalhando na carpintaria, pelicanos, ciprestes...

Sempre e para sempre, Barcelona

                Não digo "Adeus, Barcelona", digo "Grácias! E até logo!". Gosto tanto que natural é qualificar como "privação" ter passado nove anos sem revê-la.  Vou tanto e ainda continuo a voltar que um dia é possível que tenha vontade de ficar. Um dia, quem sabe, pra sempre.

"Grácias! E até logo!", Barcelona

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Notas:

 (*1) Não posso deixar de destacar o “Passaporte BCN - Desvendando Barcelona com dicas de viagem” como uma das raras páginas que admiro na Internet brasileira no âmbito das profissionais de viagens. Extremamente profissional, aliás, não é blog, mas guia de viagens. E dos bons. Seria um desprestígio denominar o Passaporte BCN como "blog", senão como o mais completo guia virtual que conheço de Barcelona.

 Reencontramos os amigos do peito Tony e Cecília Gálvez, que gentilmente deslocaram-se de Zaragoza, sua cidade, para encontrar-nos. Com eles passamos um dia na cidade, um delicioso dia na imponente cidade que nos faz pensar "Por onde começar?", razão porque não se deve perder tempo e comprar o “Passaporte BCN - Desvendando Barcelona com dicas de viagem”. Visitamos um de seus ícones - o Recinto Modernista de Saint Pau - guiados por seus autores, Tony e Cecília. É pra lá de uma vantagem, um raro privilégio.

O próprio Tony comprando bilhetes de metrô para nós!

 Passaporte BCN e Espanha Total. O Passaporte BCN, de Tony e Cecília Gálvez, incorpora novos paradigmas em termos de qualidade em guias turísticos nos tempos da Internet. É produto de bom lay-out, profissional, tem riqueza, precisão, conteúdo, sbretudo seriedade, independência, imparcialidde, credibilidade e desvinculação de direção midiática ou comercial. É profissionalismo autêntico, puro, não envolvido com o business, não orientado por agremiações suspeitas, não associado a qualquer atividade comercial condenável, em resumo o que se espera de um guia de viagem. É bem feito e ricamente ilustrado (Tony é fotógrafo profissional).

Não escondo, tenho a maior admiração por ambos, por sua trajetória, por jamais terem descambado pro lado tosco da blogosfera vendida. Tony e Cecília Galvez são o contraponto mais evidente e elogiável à blogosfera vendida. E o Passaporte BCN é nada menos que um guia indispensável, perfeito, sobretudo confiável, amplo e barato para quem pretende conhecer a cidade. Portanto, o Passaporte BCN não é "blog" (o que o  desqualifica), é GUIA.

(*2)  Paris, Barcelona, Istambul, Sevilha e Rio de Janeiro

(*3) Temos uma filosofia para nossos filhos: gostamos de viajar e faremos tudo para que eles também. Pretendemos acostumá-los desde cedo, tão cedo quanto possível. Para nós e para eles. Sobretudo levá-los para lugares não comuns e previsíveis para o que seriam viagens infantis.

Pra quem gosta de futebol e enche o peito por Neymar (não eu), Barcelona tem o Barça


Em breve:

Sant Pau - Recinto Modernista.

Uma visita ao fabuloso conjunto guiados por Tony e Cecília Gálvez

Quarta-feira
Fev112015

MOSCOU – Visita à velha senhora

INTRODUÇÃO – Do abstrato ao consistente, a viagem que tinha que ser  ______________

Catedral ortodoxa russa de São Basílio, Moscou. Tão colorida que lembra uma tela de Kandinsky

                 DE Atlântida a Shanadu, de sítios arqueológicos a comunidades primitivas, todos já devem ter sonhado com lugares mágicos. Tive os meus, e nunca esqueci deles. Ainda que vá longe o tempo em que resolveram me grudar na memória. Eu era garoto, razão de serem tão misteriosos, fossem verdadeiros ou imaginários. Eu os “conhecia” de muitas maneiras: livros, filmes, revistas, moedas, músicas e selos. Sobretudo pela a profusão de viagens de um tio querido. Moscou foi um destes. Imaginem! A União Soviética, há 50 anos! Um fruto proibido, fechada, misteriosa, inacessível, recheada de cidades das mais bonitas, tudo o que fazia dela um destino atraente, curioso e extremamente desejável.

              Meus pais gostavam de viajar. A partir dos oito anos viajávamos muito. Para Minas Gerais, sobretudo. Claro que eu ainda não pensava em conhecer o mundo, mas fazia lá minhas viagens cerebrais através dele. Concretamente, todavia, não chegava muito além dos duzentos quilômetros que separavam o Rio de Janeiro da fazenda da Tia Manu, em Bicas. Apesar de destino simples, eram viagens nada simplórias. E me puseram as primeiras sementes do gosto por viajar. Mal ou bem foi assim minha iniciação no mundo das viagens, o que me faz ter muito carinho por essas memórias.

               À parte as questões práticas (minha completa impossibilidade de viajar àquela altura da vida para lugares tão remotos), eu viajava nessas viagens cerebrais. Um estudioso do tema avaliaria o comportamento como um "fuga do plano concreto". E possívelmente me definiria como um "garoto estranho". Vá lá que eu "viajava" demais, mas convenhamos, é fácil definir superficialmente o valor simbólico de uma viagem para uma pessoa, o que elas podem representar, das mais amplas e variadas maneiras. Há tantos motivos pessoais sobre o que nos leva a viajar - do esotérico ao psicológico, das descobertas ao simples prazer de conhecer lugares distintos, do espiritual ao simplemente vocacional, por aventura, procura ou auto-conhecimento - que apenas um tratado daria conta de explicar.

              Sociólogos do turismo e psicólogos dariam melhor conta disso. Carl Jung, por exemplo, referiu-se ao simbolismo das viagens como “uma insatisfação que leva à busca e à descoberta de novos horizontes”. Insatisfação? Inquietude viajante? Jamais me senti assim. Hoje, era do turismo de massa, do mundo plano e reduzido, definições tais soam desconectadas da realidade, ultrapassadas, até mesmo para crianças, que ainda bebês aventuram-se pelo mundo como jamais poderíamos supor há 50 anos.

              Mas para um moleque daqueles tempos, viajar para a União Soviética era um devaneio, ainda que legítimo o desejo. O que me faz avaliar que mesmo os psicólogos erram, simplesmente porque suas definições não resistem ao tempo. A complexidade humana e seu comportamento são bem maiores do que as barreiras dos costumes de qualquer época. Como viajante, identifico-me mais com o que disse o poeta Baudelaire do que Carl Jung: “Viajantes partem por partir”. Simples, não?        

O tempo passa, e felizmente para alguns não deixa marcas

               Àquela altura, todavia, tudo não passava de sonho. Sonho de uma noite adolescente. Tudo remoto demais para um garoto. Entretanto, mesmo sabendo que sonhos não correspondem à realidade, de Moscou a Istambul - meus lugares então abstratos - acendiam a deliciosa descoberta: havia um mundo consistente, por vezes exótico, mas sempre grande e curioso, e bastante maior do que os dos meus sonhos, mais ainda do que eu via pela janela.

Praça Vermelha, a Catedral de São Basílio o Kremilin e o GUM

              Tanta vida já passou, fiquei adulto, comecei a viajar, vieram as rugas (poucas ainda) e no meu mapa já alfinetei 60 países e todos os Estados litorâneos brasileiros - do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte -, além de Minas Gerais.

                Assim como outros lugares de sonho, Moscou tornou-se uma "viagem que tinha que ser". E se já não preciso de muita inspiração, se viajar é um querer natural, há algo especial quando é para lugares de sonho. É como juntar as pontas, da infância com as de adulto, para tornar o abstrato em concreto, para então percebermos que não sonhamos em vão. Por bem o tempo não apagou os meu. Foi bom. Foi muito bom viver mais uma vez o encontro com algo tão desejado - Moscou e St. Petersburg - uma viagem que começo a contar.

  Primavera em Moscou. Os Jardins de Alexandre e os muros do Kremlin

                   Inverno ou Verão? Primavera! É quando os dias são limpos, claros, ensolarados, frescos, extremamente agradáveis. Moscou ou St. Petersburg? Ambas! Indiscutivelmente. Talvez nunca duas cidades tão grandiosas e diferentes de um mesmo país completem-se com tamanha harmonia.

 

Moscou ou St. Petersburg? Ambas! Indiscutivelmente

 MOSCOU   _______________________________________________________________________

                 A velha senhora está incrivelmente preservada. Não sei se mudou tanto nos traços fisionômicos, apesar da idade. Na personalidade sim, em quase nada lembra o cinzentismo soviético, os arranha-céus stalinistas, os desfiles comunistas no palco do poder russo - a Praça Vermelha -  símbolos da União Soviética dissolvidos no ar da história em 1991. Muito menos aquela elegante senhora nos faz recordar da Revolução Russa, que deixou-a completamente sem recursos. Mas a história de Moscou - de Pedro, o Grande, a Lenin e Stalin - dá à cidade a imagem grandiosa que ostenta orgulhosa. A altivez é notável. Mas elegante, ligeiramente indiscreta, nada arrogante. 

                        É uma fusão de esplendor - das igrejas, edifícios neo-clássicos e construções da cidade velha - e feiúra, evidente nos pesados arranha-céus da era stalinista. As ruas, cinzentas e tristes dos tempos comunistas, agora são livres, vibrantes. Nas ruas notamos os contrastes entre o passado e presente. Do modo como se vestem aos carros que dirigem.

De Pedro, o Grande, a Lenin e Stalin - a velha senhora guarda seus traços

                Para muitos Moscou, a Praça Vermelha e o Kremlin ainda estão carregados de simbolismos soviéticos. Para mim não passaram de traços de sua história. O capitalismo já não é ameaçado pelo comunismo nem vigoram as idéias de Karl Marx. Visitar Moscou é viver essa experiência interessante a dualidade entre história e presente: de um lado o imenso peso do passado, de outro a força de uma cidade moderna e pulsante, algo inovadora, que mostra um desejo explícito de integrar-se ao mundo ocidental. Sobretudo o mundo livre e aberto. 

Troca da Guarda

                 Moscou tem apenas amostras do que foi a União Soviética, até mesmo na Praça Vermelha, na Catedral de São Basílio, no Kremlin e no Túmulo de Lênim. Não a achei acinzentada como nos tempos soviéticos, senao colorida e relativamente verde. Para além da Praça Vermelha (que não tem o nome por causa das cores do Kremlin nem do Museu de História da Rússia), é cidade de cores em tons pastel nos bairros charmosos, nas praças e parques, na vida cotidiana. 

Príncipe Dmitriy e Kuzma Minin

                 OS contrastes são evidentes entre os tempos ante e o pós-comunismo: as igrejas cristãs ortodoxas, então proibidas e fechadas, foram restauradas. Novos hotéis, verddeiros templos do luxo, contrastam com prédios de antigas repartições públicas. Perto da Praça Vermelha, do Kremlin e da Catedral de São Basílio, das duas estátuas do Príncipe Dmitriy e de Kuzma Minin, e do Lobnoe Mesto - o púlpito que serviu de palco para os czares e políticos soviéticos discursarem ao público-, está para ser inaugurado um Fours Seasons Hotel absolutamente espetacular, onde num gigantesco prédio reformado possivelmente funcionou alguma repartição pública burocrática dos tempos do politburo.

                Moscou é muito mais russa que soviética. Há Stalins esculpidos em mármore e bronze, aqui e ali. Mas é cosmopolita e européia, mesmo mantendo sua personalidade. O pouco de passado é histórico e arquitetônico, que parecem resistir stalinisticamente à mudança dos tempos. Mas as ruas mostram a verdade: uma imensa transformação alinhada aos novos tempos.

         Há um McDonald’s ‘nada-a-ver’ bem próximo da Praça Vermelha, na Praça Pushkin, denunciando que nem tudo anda bem com o mundo tornando-se plano. Lenin não está vivo, mas por certo deve rolar no túmulo em seu mausoléu nas proximidades. É um choque inesperado, quase um mau gosto para quem preferia um café tradicional a um fast-food de porcarias. Mas nem isso tira da Praça Vermelha e seus arredores o posto de um dos lugares mais lindos que já vi no mundo. Está londe de ser "um enigma envolto em mistério”, como a definiu Winston Churchill durante a Guerra Fria, senão uma cidade fascinante, altamente compensadora turísticamente.

Moscou já não segue as idéias de Karl Marx, o capitalismo está em todo canto, e seu templo maior é o GUM

                 E o GUM, antes uma sinistra loja de departamentos comunista proibida aos nacionais, agora é um centro comercial bonito, arejado, europeu na essência. E consumista capitalista no caráter. Provavelmente será ali que o visitante enterrará definitivamente as cinzas de suas lembranças do que foi a União Soviética.

             Há contrastes. De lojas de grifes européias chiques ao lado de prédios de fachadas e ocupação decadentes a hipsters bem vestidos e senhoras russas pedindo esmola, de Bentleys dividindo espaço com antigos Lada a figuras de personalidades soviéricas esculpidas em fachadas ao lado de vitrines Louis Vuiton.

GUM, antes uma sinistra loja de departamentos comunista, Na Praça Vermelha

               Quem nunca esteve em Moscou não tem com o que se preocupar. Turísticamente, quero dizer. Nem com a segurança. Com o idioma sim, pois de fato ele é uma barreira. É uma das línguas mais difíceis de aprender. Tanto falar quanto ler. O cirílico é um entrave. Seria conveniente aprender a identificar os caracteres cirílicos e dizer algumas palavras chave e úteis.

               Tivemos apenas experiências positivas, mas sei que gostar ou não de um lugar é algo pessoal, que depende essencialmente do preparo e do estado de espírito de cada um. Frustrações podem fazer parte da aventura de viajar pela Rússia, mas por vezes são elas que tornam interessante o lugar, porque desafiam e excitam a mente do turista.

Bonita. De dia ou de noite

                Para um viajante principiante a Rússia eventualmente não será um país dos mais fáceis, o que possivelmente requer um guia. Todavia, muito já se escreveu sobre Moscou e St. Petersburg e há centenas de fontes de consulta, inúmeros guias impressos e eletrônicos, ótima infra-estrutura para acolher o turista, desde agências de viagens a guias e tours privados. Em resumo, ambas são cidades bem abastecidas de recursos e de informações.

O cirílico é um entrave, mas exótico

                 Quanto mais nos aventuramos fora do óbvio em Moscou melhor percebemos que é uma cidade de contrastes muito interessantes: ora desconfortável, ora  charmosa, ora rica e pobre, tranquila e acelerado, na moda ou kitsch. O Kremlin e a Praça Vermelha são dois dos lugares mais famosos e momentais de Moscou, provavelmente também os mais soviéticos, por isso localizados um ao lado do outro.

  O que diria Lenin, se não repousasse embalsamado em seu Mausoléu, ao ver lojas como a Levi´s?

                 O Kremlin de Moscou é um complexo enorme, com quatro palácios e quatro catedrais, o Kremlin Armoury Museum, o museu mais antigo de Moscou, um  lugar onde encontram-se belos exemplares de ovos Fabergé e outros tesouros de ouro e prata. E ainda é residência oficial do Presidente da Federação Russa, razão porque é severamente protegido e parcialmente visitável. Como veremos abaixo.

Portão da Ressurreição

 A Praça Vermelha

                  Começamos então nossa visita pela Praça Vermelha. Nada é mais óbvio. Nem mais indicado. Já que estamos turisticamente, este é o cartão postal da cidade, para além de ser uma das praças mais bonitas e conhecidas já construídas pelo homem. Marco zero da cidade, atrai multidões. De cidadãos russos e turistas, tudo que indica que quanto mais cedo visitá-la, melhor. A praça é bonita. De todo jeito. De dia ou de noite. É belíssima, melhor classificando-a. E segura.

Se arquitetura lhe atrai, Moscou será um delírio. Especialmente na Praça Vermelha

                   Em geral as pessoas são abertas, receptivas e amigáveis com o estrangeiro turista, mas dizem que não muito com o imigrante. Não exatamente sorridentes e simpáticas, mas receptivas e educadas, todavia. Os cuidados que um turista deve ter em Moscou valem para qualquer grande cidade do mundo.

Portão da Ressurreição

                 Entra-se na praça pelo Portão da Ressurreição, com torres vermelhas e cúpulas verdes,  versão de 1995 do original de 1680, demolido em 1931. Nele fica a Capela da Virgem Iverian, sempre visitada pelo czar antes de sua entrada no Kremlin. Bem ao lado direito fica o Museu de História da Rússia, prédio 1883, lindo, vermelho vivo, de frente para a praça, cuja estátua equestre de Vyacheslav Klykov, herói da II Guerra Mundial, parece proteger seu portão.

                  Lembrei-me dos desfiles militares soviéticos enquanto percorria aquela imensidão calçada em pedras, mas confesso que foi por pouco tempo. Não estamos mais na União Soviética e a velha senhora, ainda que bem conservada, está mudada, mesmo mantendo seus traços soviéticos. Se por um lado dou graças a isso, por outro lamento. Teria sido bom conhecer a Moscou soviética.

Rua Nikolskaya: o GUM (esq), a Praça Vermelha, aTorre Nikolskaya e o Museu Histórico (fundo),  Catedral de Kazam (dir)

                Não seria exagero afirmar que se houvesse tempo apenas para a Praça Vermelha e o Kremlin, o visitante teria visto o que há de mais importante turísticamente falando de Moscou. A Catedral de São Basílio, por exemplo, - o mais reconhecido símbolo russo - é de fato uma das mais magníficas construções da cidade, cujas esplêndidas, coloridas cúpolas de formatos e padrões fascinantes são muito mais belas e impactantes do que qualquer uma das milhares de fotos que se podem já ter visto. Defronte às muralhas do Kremlin fica o Mausoléu de Lenin, que abriga seu corpo embalsamado e sepulturas de russos famosos como Stalin, Yuriy Gagarin e Máximo Gorky, que não visitamos.

As torres da muralha do Kremlin

                 A Rua Nikolskaya começa na Praça Vermelha, bem defronte à torre St. Nicolas - ou Torre Nikolskaya - e do Museu Histórico. Foi construída em 1492, um ano depois da Torre Spasskaya. Ambas pertencem ao Kremlin de Moscou. A rua é uma atração. Além de bonita, tem edifícios notáveis. Provavelmente o conjunto de edifícios mais notáveis da cidade.

A Rua Nikolskaya começa na Praça Vermelha

                 Uma alegria para os amantes da arquitetura e ornamentação de fachadas de edificações civis, esta é a Rua Nikolskaya. Ao lado dela fica a colorida (e atraente), pequena Catedral de Kazam, uma reconstrução da original demolida em 1936, dedicada à Virgem de Kazan, vale uma visita.

 Por dentro do Kremlin de Moscou

                  Essência russa, onde tudo é grandioso, guarda oito séculos de história e culturas soviética e russa em oito sedes. Centro de comando do partido comunista, atualmente é a sede presidencial russa, mas não sem motivo o chamam de “Museus do Kremlin”.

                Dentro de suas muralhas estão a Sala das Armas, a Catedral da Assunção que guarda os bancos onde czares e czarinas rezavam, a Catedral do Arcanjo, cuja construção foi feita por ordem de Ivan Kalita, primeiro príncipe moscovita, a Catedral da Anunciação, que abriga os tesouros das famílias reais russas, a Igreja do Manto Sagrado de Nossa Senhora, onde encontra-se uma galeria com esculturas dos séculos 15 a 19, o Palácio do Patriarca e a Igreja dos Doze Apóstolos, onde pode-se ver uma exposição permanente de objetos pessoais dos czares.

                   Há ainda o Campanário de Ivan, o Grande, construção que durou mais de 300 anos, um dos prédios mais altos de Moscou. No campanário adjacente há 21 sinos. E na área do Kremlin uma coleção de sinos, canhões e objetos de guerra. Curiosamente, foram arquitetos italianos, não russos, trazidos por Ivan III mesclaram estilos russo e renascentistas europeus no desenho da Catedral de Assunção, na Câmara das Facetas e nas muralhas e torres do Kremlin.

                 O Kremlin é uma fantástico homenagem arquitetônica à grandeza do império russo. Se houvesse apenas uma obra monumental em Moscou que merecesse o título de Patrimônio Mundial da Unesco, essa seria a residência oficial do Presidente da Federação Russa - ou Kremlin de Moscou -, cuja muralha com vinte torres abriga 30 hectares com alguns dos monumentos mais importantes da cidade.  

                 A fortaleza do século XII, mais que um baluarte feito para proteger e guardar, transformou-se num símbolo. Ainda hoje o mais reconhecido símbolo do poder russo. Ao entrarmos, sentimos que ainda hoje exerce seu poder. Não apenas por guardar tesouros, mas também por a brigar a residência e lugar de trabalho oficial do presidente, continua severamente policiado, afinal, Putin trabalha a pouco metros de onde milhares de turistas circulam visitando essa maravilha moscovita.

                  Trata-se da atração mais popular de Moscou, importantíssima e concorridíssima. Por isso chegamos cedo pela manhã para comprarmos os bilhetes para a visita ao Kremlin, que apesar de ainda fechado já mostrava uma considerável fila de visitantes. Sobretudo porque em pouco tempo chegam as excursões. Há no mapa que se recebe junto com a compra dos ingressos 41 edifícios, mas delas apenas 9 um turista pode visitar. E posso dizer que as achei suficientes, que dão uma percepção razoável do que foi o império russo. Além de tesouros verdadeiros, de obras de arte a jóias em grande quantidade.

                 A primeira construção é de 1156, época em que não passava de uma fortaleza de madeira, quase uma paliçada no topo do monte Borovitsky protegida por um fosso. De adições a modificações sucessivas, entre elas as mais significativas suas muralhas e torres, construídas em 1495 pelo czar Ivan III, o complexo cresceu em poder e beleza: ganhou igrejas e palácios e enfrentou batalhas e ocupações, até tornar-se abrigo e símbolo de um poder misterioso e militarizado. Ali os Romanov terminaram seu reinado de maneira amarga, sendo executado o czar Nicolau II e sua família pelos bolcheviques em 1918.

                  Assim que entramos a impressão foi de estarmos num quartel em atividade. Onde turistas e pessoas que trabalham nele circulam num complexo de ruas largas, turistas admirando palácios, monumentos e igrejas, militares guardando-os e tabalhando em seu interior.  As atrações visitáveis são a Catedral da Assunção, a Torre do Sino, o Canhão e o Sino do Czar, a Catedral do Arcanjo e da Anunciação e o Grande Palácio, a Catedral do Arcanjo São Miguel, esta última construída entre 1505 e 1508. Todavia, a maior parte do Kremlin abriga edifícios governamentais não abertos à visitação.

                  A Armeria é a maior atração do Kremlin e o mais antigo museu de arte da Rússia, onde há carruagens, tronos, coleções raríssimas de artigos de ouro e prata do século XII ao XIX, armamentos dos soldados russos do século XII–XVI, roupas, coroas, ovos Fabergé. Originalmente o lugar onde se guardavam as armas, o arsenal hoje é um museu com verdadeiro tesouro dos tempos dos czares, especialmente pela coleção de ovos Fabergé encomendados pelo Czar Alexander III. Há muitos tipos de ovos feitos sob temas distintos, talvez o mais importante o ovo da Ferrovia Trans-Siberiana com um pequeno trem de ouro. Uma das carruagens é a dourada, usada nos verões por Catarina, a Grande, e o vestido finamente bordado usado em sua coroação, além do cetro, cujo diamante Orlov no seu topo tem 190 quilates, então um presente de seu amante, Conde Orlov, subtraído do olho de uma divindade de um templo indiano.

                    O Palácio Terem tem arquitetura não muito exótica, mas as cúpulas das cinco pequenas igrejas palacianas, erguidas à frente do palácio, ou simultaneamente com ele, elevadas dentro da estrutura do edifício, parecem saídas de uma ilustração de um livro de conto de fadas. São onze torres-cebola delgadas. O palácio foi construído para o czar Mikhail Romanov entre 1635 e 1636. O interior é suntuoso era usado como Sala de trono e Salão de banquetes dos czares.

                O Canhão do czar foi feito em 1586 por ordem do czar Feodor I Ivanovich, tem 40 toneladas, calibre de quase 1 metro, e 5 e meio metros de comprimento. Jamais foi usado. É ornamentado com inscrições e uma imagem do czar. O Campanário de Ivan, o Grande, fica na Praça das Catedrais e foi construído há cerca de 500 anos, tendo sido destruído pelas tropas de Napoleão em 1812 e reconstruído em 1814. A torre principal, com 81 metros, não foi afetada pelo ataque.  O Sino gigante é um símbolo de poder dos czares. Tem algo mais que 6 metros de altura por quase 7 de diâmetro. O maior do mundo, pesa 200 toneladas e foi fundido apenas porque o czar Alexey Mikhailovich quis marcar seu poder. Jamais funcionou, e o que mais chama a atenção é o pedaço quebrado no chão ao seu lado. Só esse pedacinho tem 11,5 toneladas.

                  A Catedral do Arcanjo é um dos melhores exemplos arquitetônicos do complexo e abriga túmulos de figuras ilustres das dinastias Ryurikovich e Romanov. O primeiro czar, Ivan, o Terrível, e dois de seus filhos, também estão sepultados na catedral, num relicário próximo ao altar.

 

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A seguir:

Moscou, além da Praça Vermelha

e

Um passeio pelo Metrô de Moscou

Terça-feira
Jan272015

AKSUM, Etiópia. Da Arca da Aliança à Rainha de Sabá 

INTRODUÇÃO - Etiópia: retrato 3 por 4 de um país

Menino etíope, em algum lugar do presente, entre Turmi e Arba Minch

                 UMA nação como a Etiópia - ou Abissínia, na Antigüidade -, cuja história é tão longa, antiga e complexa que até mesmo seus tratados podem guardar erros, exige de um turista no mínimo respeito. Sobretudo quando escreve sobre o país. Todo temor é preciso, além de cultura e muita investigação científica para ter sucesso ao se resumir uma nação como esta. Justo o que me falta. Não só por sua especificidade, mas também pela singularidade: um calendário exclusivo (estão agora no ano 2007, não 2015) uma escrita idem, - denominada Ge’ez - com trinta séculos de existência, um idioma oficial incrível - o amárico, língua semítica falada como primeira língua, ou segunda por boa parte da população -, uma religião cristã, mas ortodoxa etíope desde o século IV, (então o primeiro grande império a adotar o cristianismo como religião oficial), com origem na cultura copta de raiz egípcia, surgida trezentos anos antes de Cristo. O povo jamais colonizado pelo Ocidente, tem 84 etnias e o mesmo número de línguas. O regime horário também é diferente: os etíopes contam a primeira hora do dia a partir do nascer do sol. Em tudo mais - arte, arquitetura, vestuário, música, gastronomia, literatura e todas as outras manifestações culturais que não me recordo exemplificar - não há paralelos. A Etiópia é só singularidade.

Encantadores olhos castanhos. O que revela esse olhar? Menino da Aldeia Karo, Turmi, sul da Etiópia

                Estima-se que ali nada menos do que a humanidade originou-se. Na espécie Homo sapiens. E abrigou, entre outros, o fabuloso reino de Aksum. Quase desconhecido, é verdade, mas importante. Estendia-se por uma região que ia até aos vizinhos Eritreia, Sudão, Djibouti, Somália e Somalilândia. A origem de Aksum remonta ao reino de Sabá, no Iêmen, que por volta do ano 1000 a.C. ia do Corno de África até a Península Arábica. Diferentes dinastias, de Aksum a Zagwe, de Oromo Yejju a Menelik II, deste a Haile Selassie, são apenas metros no mergulho de um poço sem fundo de conteúdo histórico. Ultrapassa em muito os limites da superficialidade tentar resumir esta nação e seu povo num retrato 3 por 4. Sobretudo com tantas etnias - entre as quais predominaram os semitas árabes -, especialmente os singulares povos do Vale do Omo.  

Por que é tão precioso esse país?

                A identidade, a história, a geografia e a cultura fazem da Etiópia um país turisticamente soberbo. Para além disso, um arqueólogo, antropólogo ou um turista comum não encontrariam melhor lugar no mundo para para embrenhar-se na densa história da origem da raça humana. Muitos já ouviram falar de Lucy, por exemplo. O esqueleto de uma mulher de 20 anos, descoberto em 1974, ossos de uma Australopithecus afarensis - o mais próximo que até então já se havia chegado do antecessor do ser humano - tinha 3,2 milhões de primaveras na época de sua descoberta, há 41. Definiu-se, a partir de então, que o homem surgiu naquele canto do mundo, a Etiópia.

Muito pode ser dito através de um olhar, mas nem todos conseguem decifrá-los...

             LUCY é popular, mas poucos conhecem Ardi ou dele ouviram falar. Um Ardipithecus ramidus encontrado em 2009 perto de Afar, na mesma Etiópia, que então tornou-se o mais antigo ancestral humano de que se tem notícia, tirando da velha Lucy o posto de mais antigo hominídeo já descoberto. Com Ardi foi-se além, voltou-se 4,4 milhões de anos na história da humanidade. 

O simples mas interessantíssimo Museu Nacional de Adis-Abeba

                 As ossadas de ambos, ou melhor, as cópias dos originais que de tão preciosos guardam-se nos cofres-arquivo do museu, podem ser vistas no simples, mas interessantíssimo Museu Nacional de Adis-Abeba. Mais do que um aprendizado, a visita é uma viagem no tempo mais longíquo que podemos fazer.

Foi aqui nessas terras, nesse canto do mundo, que o homem surgiu

                É o que seria sufiente para considerar-se a Etiópia um país precioso, ainda que não do ponto-de-vista turístico. Bem além das importantíssimas descobertas relacionadas com a origem do homem, é nação maior do que se espera. Em minha imaginação revelava-se uma vastidão árida, semi-desértica, povoada de crianças desnutridas com barrigas inchadas e pobreza por todo lado. E sem grandes atrações turísticas, senão medianas. Ignorância, claro, pois o que encontrei foi um país verde, de fauna e flora belíssimos, de montanhas e vales exuberantes, de crianças cheias de energia, de sorrisos, curiosidade, de uma cultura rica e misteriosa, de uma história parruda e de um conjunto de atrações tão diversificadas quanto numerosas. Um país alegre, antes de tudo. Diferente do Irã, por exemplo. E não só de uma civilização fascinante, mas por uma terra de belos contrastes naturais, de uma fauna e flora abundantes, das rochosas Montanhas de Simien, da incrível Depressão de Danakil - 120 metros abaixo do nível do mar - e de tanto mais que o país tem a oferecer a quem o visita. É sim um dos lados mais remotos do continente, um destino quase aventureiro, mas sempre enriquecedor, deslumbrante e fartamente compensador para o turista.  

 

 Gente, especialmente as crianças, eliminam as piores imagens que se fazem da Etiópia....

             É verdade que parecem eternas as lembranças das terríveis imagens de criancinhas esquálidas com moscas pousadas em seus rostos, que o resultado da fome que assolou parte do país nos anos 80 - imagens que jamais esqueceremos - arranham o interesse de muitos conhecerem o país. Mas elas não conseguem reduzir a importância deste incrível destino turístico. Ainda que aquelas cicatrizes talvez jamais sejam esquecidas, que o país vá pagar eternamente seu preço por tê-la deixado acontecer.

             A Etiópia é um país pobre, é verdade. Em certas regiões, linearmente miserável. Seus Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) são ainda mais baixos do que os do Afeganistão. Apenas pouco mais de 10% da população têm acesso à rede sanitária e cerca de 35%  a água para beber. Mas nem por isso encontram-se crianças esqueléticas e famintas. Quase sempre as vi sorridentes. O que quer dizer que beleza e pobreza podem ser contrastes, nem sempre contradições. A Etiópia, por fim, é antes de tudo uma terra de homens, muheres e crianças especialmente bonitos.

Preciosa. Muito mais do que pelas descobertas relacionadas com a origem do homem

                 A Etiópia é um desses países que visitar significa aprender lições. Sobretudo por causa de sua autenticidade e exclusividade, por seus costumes e cultura. E no qual uma jornada consagra-se por exceder expectativas, onde a diversidade do que se tem para ver vai de hipopótamos a igrejas talhadas na pedra. Foi diferente, muito diferente do que eu pensava encontrar. Sobretudo dos estereótipos que teimavam em permanecer na minha memória.

Dos crocodilos e hipopótamos do Lago Chamo às Igrejas de Lalibela, Etiópia, "País soberbo!"

                Além de encantar as pessoas, o país as transforma. Sobretudo porque faz reavaliar conceitos, exceder expectativas, demolir preconceitos. Combinação sui-generis de história com cultura fenomenais, que qualquer um que as experimente se sentirá privilegiado na descoberta. Sobretudo a turistas apaixonados por viajar, que o fazem por gosto e a lugares incomuns, que exigente desafios e sacrifícios, mas tão autênticos na identidade e na história que um 3 por 4 da Etiópia seria "País soberbo!". 

Lalibela, estrela do turismo etíope, terra de mil e uma lendas...

                Falei aqui de Lalibela, de seu incrível conjunto de igrejas do século XII talhadas de cima pra baixo em rocha sólida, estrelas máximas do turismo etíope, "mecca" do cristianismo ortodoxo e de seus festivais. Também compartilhei textos e fotos sobre os castelos de Gondar, dos mosteiros do Lago Tana, em Bahir Dar, de Harar, da incrível cidade etíope muçulmana parada no tempo, das Montanhas Simien, de Adis Abeba, das tribos do Vale do Omo, das Cachoeiras do Nilo Azul e do nosso incrível passeio de barco no Lago Chamo, e do encontro com hipopótamos e crocodilos que o habitam, assim como alimentei hienas selvagens à noite. Mas ainda não da sagrada Aksum, cidade onde encontram-se preservados ótimos exemplares arquitetônicos do império aksumita, aquele que a despeito de sua importância poucos conhecem, mas que dominou a região do ano 1000 a.C. até o século 8 d.C. De tumbas a obeliscos, de uma curiosa e estilosa lista de monumentos únicos, ainda que em ruínas. E mais, muito mais além de ruínas.

 Aksum. Da Arca da Aliança à Rainha de Sabá, dias de incríveis histórias e descobertas  __

 

                 NA manhã do dia 16 de janeiro de 2014 voamos de Gondar a Aksum pela Ethiopian Airlines. Aksun fica bem perto da fronteira com o inimigo: a Eritréia. Precisamente a 150 km ao sul de Asmara, Capital do país com quem a Etiópia não mantém relações e fronteiras fechadas. Ao chegarmos, fomos diretamente para o Sabean Hotel. Não há nada melhor na cidade. E foi um dos melhores hotéis em que nos hospedamos no país, considerando, claro, seu padrão hoteleiro.

                   A poeirenta cidade não demonstra nas ruas sua importância histórica. E também nelas não desperta o interesse de seus visitantes. É sonolenta e pequena, quente e pouco movimentada. Por outro lado foi onde encontrarmos as melhores peças antigas (e legítimas), como oratórios etíopes e "cruzes de lalibela" para comprar. Novos e antigos.

Spris, delicioso suco de frutas puro e cremoso servido em camadas

                  Ao lado de nosso hotel, uma lojinha de spris, deliciosos, cremosos, refrescantes sucos de frutas típicos na Etiópia, servido em camadas,mais comumente de abacate, manga e mamão. Também estávamos e defronte ao melhor restaurante da cidade, um inusitado lugar de propriedade de um norte-americano de Dallas casado com uma etíope de Aksum.

"Cruzes de Lalibela", símbolos da igreja ortodoxa etíope usados nas procissões...

...e uma inesperada e autêntica feira de artesanato locam de Domingo

                  A Arca da Aliança, as Terras do Rei Salomão, o Mosteiro de Yeha, a Igreja Abba Aftse e as Stelas aksumitas

            O Império tinha capital na cidade de Axum, embora houvessem cidades maiores e mais prósperas como Adulis e Matara, na atual Eritreia. Seus reis acreditavam ser descendentes do rei Salomão e da rainha de Sabá. A cidade foi fundada por volta de 100 d.C., numa região já anteriormente habitada há milênios, onde por volta de 500 aC havia a cultura Da'amat, pré-Axumita, com fortes ligações culturais com a península Arábica, diz a história que por colonização de imigrantes sabeus vindos da península Arábica, com influências na cultura, na arquitetura e na língua adotada pelo o império, o ge'ez.

Os fabulosos, gigantescos obeliscos monolíticos de Aksum


                     Consideram os historiadores que o império foi um dos mais poderosos da região entre o Império Romano do Oriente e a Pérsia. Foi o terceiro império das civilizações clássicas do Vale do Nilo e sua extensão territorial de 6.400.000 quilômetros quadrados, em seu auge, no século IV d.C., controlava além da atual Etiópia, o sul do Egito e parte da Arábia, sul do atual Iêmem. Havia comércio marítimo e rotas que iam até o Ceilão desde o porto de Adulis (atual Eritreia).

Oratórios e Cruzes. Antigos ou não, os melhores que encontramos e trouxemos foram de Aksum

                Construíram-se palácios, templos e tumbas bem projetadas arquitetonicamente e com grande beleza de desenho. Aksum é bem mais famosa e conhecida por suas stelaes - os obeliscos misteriosos, altas torres monolíticas de pedra - do que por qualquer outra coisa. Mesmo até do que por ser onde se alega guardarem a bíblica (e supostamente existente) Arca da Aliança e também o supostamente lendário Palácio da Rainha de Sabá. Mas quase tudo em Aksum é misterioso e inventido, da Arca da Aliança, "guardada" a sete chaves numa capeta tosca, à Rainha de Sabá. Mas há muitas verdades em Aksum. Verdades absolutas e palpáveis. Entre elas as ruínas do império aksumita.

 O Mosteiro de Yeha e a Igreja Abba Aftse

Igreja Abba Aftse

                 Não longe de Aksum - lugar onde os italianos perderam uma grande batalha, 6000 homens e o domínio sobre a Etiópia -, fica o Mosteiro de Yeha, um dos lugares mais singelos e cativantes que visitei no país. Yeha, pequena cidade no norte da Etiópia, localizada na Zona Mehakelegnaw, Região de Tigray, seria apenas um lugarejo sem importância, não fosse considerarem-na o berço da civilização etíope. Dedicamos a manhã - uma bela, luminosa manhã - aos dois templos, depois de cruzarmos uma agradável estrada com belos panoramos naturais de vida rural, pastoreio, crianças e plantações.

     

Luminosa manhã em Aksum, a caminho do Mosteiro de Yeha

                Depois de tantos templos etíopes visitados nessa viagem, não esperava encontrar algo tão diferente, sobretudo pelas claras influências arquitetônicas iememitas. Por si, esse simples "detalhe" alimenta algumas velhas discussões entre a Etiópia e o Yemem: quem colonizou quem? As ruínas do templo tão importante e muito bem conservado está sob os cuidados de uma iniciativa arqueológica etíope-alemã. Felizmente.

Ruínas do Mosteiro de Yeha, em Aksum. Influências iemenitas na Etiópia

 Igreja Abba Aftse

                 Ao lado das ruínas do Mosteiro de Yeha está outra graciosa preciosidade: a Igreja Abba Aftse. Ao lado daquela templo maior, parece secundária. Ou desimportante. Mas ao contrário do que pode aparentar sua singeleza, é um tesouro. De preciosidades históricas (sobretudo livros religiosos antiqíssimos feitos em pergaminho, escritos à mão para oração), mas também de experiências pessoais. Fundada por Abba Aftse, um dos nove santos que levaram seu apostolado a vários lugares, do grupo de missionários que incrementaram o cristianismo etíope durante o final do século V, entre eles Abba Aftse, freqüentemente descreviam-nos como vindos da Síria, de Constantinopla, da Anatólia e até Roma.

Um zelador guarda as preciosidades religiosas do "museu" da Igreja Abba Aftse

 O Grande Templo de Yeha

                 Não é exatamente a ruína das ruínas, sobretudo pelos andaimes e obras de construção e reparo, a despeito da importância histórica, nem o que se possa chamar de atração turística atraente para a maioria, mas valeu a visita. Aprendi muito sobre aqiela arquitetura e maneiras construtivas, apontaram-me as similaridades com os templos iememitas. É a estrutura mais antiga de pé na Etiópia. Há uma torre construída no estilo de Sabá, datada por comparação com estruturas antigas na Arábia do Sul a cerca de 700 aC. Seu excelente estado aribui-se ao fato de que seus construtores originais fizeram uma construção forte em termos de alvenaria, colocada sobre fundações sólidas e solo firme e  rochoso. Atribuirem-lhe data arqueológica que começa em 800 A.C. Nada menos que contemporânea do Rei Salomão.

             Há um outro sítio, o Grat Beal Gebri, ao lado da Igreja, do outro lado da praça. Vale a visita, mas ainda que interessante, não é  impressionante.

Grat Beal Gebri, do outro lado da praça

             O serviço divino da Igreja Etíope celebra-se na língua, que tem Geez, o idioma da igreja desde a chegada dos nove Santos, que fugiram da perseguição pelo imperador bizantino após o Concílio de Calcedônia, em 451. Como este antiquíssimo exemplar feito a mão, mostrado na foto abaixo, exposto no "museu" da Igreja Abba Aftse. Mais tarde, Haile Selassie patrocinou traduções dessas Escrituras para o amárico, idioma oficial da Etiópia.

 A Arca da Aliança

                 A Arca da Aliança é uma das inúmeras histórias mal contadas na Etiópia. Mal contada não porque a história etíope seja uma combinação de fatos e mitos. Mas algumas são tão descaradamente inventadas, baseadas em crenças populares e transmitidas oralmente, anteriores à história autêntica, tão mal inventadas que não é possível levá-las a sério. Especialmente quando alguém nos tenta transmití-las como se fossem história, não folclore. Entre elas a diz que a rainha Sabá e o Rei Salomão tinham um aparelho que voava! Voava e os levava da Etiópia para Jerusalém. Outra que as patas do cavalo de São Jorge ficaram impressas na parede de rocha de uma igreja de Lalibela. A "história" da Arca - que jamais se viu ou se tocou, exceto Indiana Jones), diz que apenas um homem pode vê-la: seu guardião. Qualquer outro que a ver terá o corpo derretido. Não há o que estranhar, porque afinal, qual relgião sobreviveria sem incutir a seus fiéis o medo, a culpa, o castigo e a penitência? Sobretudo uma ortodoxa? História e lendas misturam-se. E como um nevoeiro, circulam pela cultura do país. Se você acredita, tudo bem.

Para quem acredita (mas jamais verá), a Arca fica ali dentro...

                A Arca teria sido levada de Israel por Menelik I, filho da Rainha de Sabá, da Etiópia, quando aos 21 anos foi a Israel visitar seu pai, o Rei Salomão de Israel. Originalmente a Arca teria ficado no Mosteiro de Tana Kirkos, no maior lago da Etiópia, fonte do Nilo Azul. Conta a mesma “história” etíope que o Rei Ezana mandou buscá-la de volta e colocá-la numa capela sagrada. Esta mesma aqui em Aksum. Num prédio onde apenas uma pessoa pode vê-la: o homem sagrado, guardião de todas as tradições religiosas. Hoje há um museu - o mais tosco que já conheci no mundo - onde guardam-se tesouros verdadeiros que podemos ver e tocar. De tão grande valor (alguns com mil anos de idade), tudo quase chega a ser mais impressionante pela falta de cuidado do que por sua importância histórica.

 Os obeliscos aksumitas

                 Nos tempos antigos, sete destes monólitos de granito foram erguidos no mesmo lugar unida, o maior deles jamaois feito em qualquer lugar do mundo em nenhum tempo. Media mais de trinta e três metros de altura e pesava cerca de 500 toneladas. Caído em algum período remoto do passado, hoje encontra-se em pedaços no chão, junto de outros ainda de pé. O segundo maior tem cerca de vinte e quatro metros de altura e também caiu, tendo sido roubado durante a ocupação fascista italiana, por ordem do ditador Mussolini. O terceiro maior mede vinte e três metros ainda está no parque das stelas de Aksum.

Monolitos gigantes, feitos de peças únicas de granito


                Todos os monolitos gigantes são feitos de peças únicas de granito e têm decoração idêntica. Curiosa decoração que os faz assemelharem-se a casas de vários andares com portas e janelas. São obras finas tanto no estilo arquitetônico quanto na qualidade escultural. Dizem que lembram os desenhos dos palácios e casas de Aksum no tempo do império aksumita.

 Igreja de Santa Maria do Sião e a Arca da Aliança

                 Os etíopes acreditam (alguns juram de pés e mãos bem juntinhos) que guardam ali a Arca da Aliança. Depois de um tempo na Etiópia não se estranha tanto, afinal, é a crença que dá origem à história. É ela que exerce profunda influência na imaginação e na vida espiritual dos etíopes. Não é difícil constatar quando se tem um guia que diariamente nos demonstra isso.

                 A Arca, aquela mesma que nunca ninguém viu ou tocou e conteria as Tábuas da Lei entregues por Deus a Moisés no Monte Sinai. A arca guardaria as Tábuas durante a caminhada dos judeus para  Israel, a Terra Prometida, em sua libertação do Egito. Volta e meia aparece uma nova teoria ou história empolgante e recheada de teorias sobre a fantástica, incrível, extraordinária Arca da Aliança. Uns são picaretas, outros sonhadores e especuladores ingênuos. Só que nãpo apresentam nem provas nem a bendita arca. O mais notável foi Ron Wyatt, que afirmou ter descoberto a Arca da Aliança. É mais uma fraude, sóm que essa das mais mirabolantes: a Arca da Aliança estaria enterrada numa gruta sob o furo da rocha onde teria sido fincada a cruz de Cristo. Mas como mentira pouca é bobagem, afirmava que por esse furo teria escorrido o sangue de Jesus até o propiciatório, ou tampa da arca, de onde ele (Ron Wyatt) teria colhido uma amostra, que mandou analisar. Os resultados provaram que o DNA seria de sangue de um homem nascido de uma virgem (!!) e que ele estaria vivo até hoje. Ron Wyatt é uma fraude, e se você fizer uma busca pelo nome do pretenso arqueólogo acrescentando as palavras "fraud" ou "hoax" irá encontrar vários sites em inglês que denunciam isso. A onda de mentiras do arqueólogo não termina na Arca da Aliança. O cara só faltou descobrir as osssadas de Adão e Eva, mas diz que descobriu até a Arca de Noé, outra que todo mundo sabe, mas ninguém viu. A ingenuidade é a porta para a fraude entrar nas pessoas...  

                De todo modo, em Aksun fica a Igreja de Santa Maria de Sião. Há, de fato, duas dessas igrejas, um velho e um novo, ambos localizados num espaçoso complexo murado diretamente em frente ao Parque das Estelas. Os mais velhos, um edifício retangular, foi colocado no início do século XVII pelo imperador Fasilidas. Depois uma estrutura moderna foi erguida nas proximidades pelo Imperador Haile Selassie, que inaugurou em companhia da Rainha Elizabeth II, em 1965. A estrutura mais velha, de longe a mais interessante, é onde ficam coroas reais, livros sagrados e outros objetos de grande valor. Nas proximidades estão as ruínas da Igreja original, que segundo a tradição foi erguida logo depois que o estado adotou o cristianismo como religião, no Século IV. Ali diz-se que está guardada a Arca da Aliança, que o visitante, claro, não pode visitar

 O Palácio e as piscinas da Rainha de Sabá


               Grande parte da história da Etiópia baseia-se na lenda da rainha de Sabá, da Etiópia, com o rei Salomão, de Israel. São histórias inventadas ou bíblicas transmitidas verbalmente por séculos antes de serem escritas. Muitos etíopes acreditam, entr tudomais de inacreditável que só eles acreditam, que a relação entre Sabá e Solomão resultou num filho, Ibn-al-Malik, ou Menelik I, fundador da dinastia salomônica de Aksum.  

                O  Palácio da Rainha de Sabá, pouco menos que sua piscina, foram atrações medianas, porque de faro não há muito a ver, senão um labirinto de pedras e escombros, ainda que possam se ver seu quarto e banheiro. O que mais me agradou foi a natureza circundante. E os pássaros. Os belos e abundantes passarinhos da Etiópia.

Notas

1) A Eritréia, uma antiga colônia italiana na costa do Mar Vermelho, juntou-se à Etiópia em 1952. Dez anos mais tarde, a Eritréia perdeu a sua autonomia e se tornou uma província etíope. Este fato deu início a uma guerra de libertação, que durou até 1993, quando a independência da Eritréia foi reconhecida pelo governo etíope. A Etiópia e a Somália entraram em conflito, numa disputa de fronteiras, no início dos anos de 1960. Um cessar-fogo pôs fim à luta, em 1964. Mas, em 1977, a disputa recomeçou, desta vez em virtude do apoio da Somália aos guerrilheiros de Ogaden, região etíope de população majoritariamente somali e muçulmana. A Etiópia venceu a guerra, mas a guerrilha continuou, inclusive com ataques terroristas.

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