Córdoba. O esplendor de al-Andalus

Posted on 05-18-2012 by Registered CommenterArnaldo Interata | Comments1 Comment | EmailEmail | PrintPrint

 

                       A história é cheia de exemplos de novas sociedades impondo-se sobre antigas, especialmente as de visigodos, romanos, muçulmanos e cristãos. Na Andaluzia, foram os mouros construindo mesquitas sobre fundações visigodas, católicos aproveitando um mesquita para construir sua catedral para simbolizar a nova ordem, e palácios mouriscos das mil e uma noites que depois da Reconquista serviram de residência à realeza cristã. Quem conquistava mantinha o patrimônio encontrado, assumia-o, num raro, feliz, nobre exemplo de inteligência, reconhecimento de que o tesouro era maior do que a própria humanidade.

                      Numa viagem à Andaluzia, especialmente pelo Triângulo Dourado - Granada, Sevilha e Córdoba - o visitante permanentemente será surpreendirdo por novas e sucessivas atrações: a impressionante arquitetura mourisca, as tapas, os vinhon, o jerez, as tascas, o passional e emocionante flamenco, as belezas naturais, as serras escarpadas, as magníficas vistas, o discreto encanto das aldeias brancas, a curiosa posição de cidades verdadeiramente encarapiadas nas rochas dos despenhadeiros, o esplendor dos palácios e mesquitas, a comida.

   

                        Mas é o esplendor do magnífico patrimônio deixado pelos mouros, inacreditavelmente grandioso, que faz da Andaluzia um mundo à parte - no planeta e na Espanha - quase inalterado há séculos. A história é cheia de exemplos de novas sociedades impondo-se sobre as antigas: visigodos, romanos, muçulmanos e cristãos. Mouros construindo mesquitas sobre fundações visigodas, católicos aproveitando um mesquita para construir uma catedral que simbolizasse a nova ordem, palácios mouriscos servindo de residência à realeza cristã, alguns dos felizes, nobres exemplos de inteligência a serviço da manutenção de um tesouro anterior, insubstituível e maior que a própria humanidade. Neste cenário, a outrora capital do Al-Andalus, Córdoba, foi uma das cidades mais importantes da Europa, com um milhão de habitantes, 200.000 casas, 600 mesquitas, banhos públicos, escolas e bibliotecas, ruas iluminadas e campos servidos por uma rede de canais de água. Na cidade velha, enquanto durou o domínio árabe, muçulmanos, judeus e cristãos visigodos viviam em harmonia, produzindo alguns dos mais preciosos momentos da história da humanidade.

   

                        Variado e extremamente bem conservado, o conjunto da obra é tão espetacular, a influência da arte mourisca tão soberba que por vezes parece irreal. Em Córdoba talvez tenha o maior ícone deste patrimônio, a Grande Mesquita. A pequena cidade é um grande destino para quem vem de Sevilha e segue um roteiro para o Sul da Espanha. Basta caminhar pela cidade velha para compreender que Córdoba é um dos melhores lugares da região para se compreender a verdadeira dimensão do domínio muçulmano na Espanha. E de sua ascensão e queda. A cidade talvez seja uma das que melhor conzuda o pensamento do visitante a reflexões românticas e poéticas tão comuns à Andaluzia. E de quanto foi espetacular aquele período de sofisticação cultural. Tão grandiosa que apenas Constantinopla, Damasco e Bagdá rivalizavam com al-Andalus.  

  

                         A Córdoba do Século 21 ainda é tão brilhante quanto a do Século 10, quando estava sob domínio do Califado de Al-Hakan II, soberano de maior destaque do período al-Andaluz. Por isso a cidade merece um dia bem dedicado a ela. E ainda que poucos lhe destinem uma noite, eu a recomendo vivamenge. A cidade é pequena, são apenas 350 mil habitantes. E do ponto-de-vista turístico é ainda menor. Quase todos que planejam uma viagem pela Andaluzia cortam a noite que seria dedicada a Córdoba, uns por falta de tempo, outros por desconhecimento do quão prazerozo é passar uma noite ali, para então seguir cedo na manhã seguinte seu roteiro. 

                        O jeito, então, é sair cedo de Sevilha em direção a Córdoba, vencer os 143 quilômetros que as separam - de carro ou de trem - e ter o máximo de tempo para visitá-la. Fomos de Sevilha a Córdoba de carro. E retornamos no mesmo dia. O dia foi perfeito e nos possibilitou conhecer a pequena cidade, almoçar muitíssimo bem, passear pelas ruas da juderia e retornar ao fim da tarde com a bagagem cultural ainda mais recheada. Um dia basta, mas fica o desejo de mais.

   

                        À margem do Rio Guadalquivir, um mapa, um guia turístico (no nosso caso o Lonely Planet), alguma disposição e sapatos confortáveis nos levaram direto à Puente Romano, entrada do Casco Antiguo - como chamam o centro histórico da cidade.  Ali perto estávamos ansiosos por visitar a Mesquita de Córdoba, um dos mais impressionantes patrimônios do legado do al-Andaluz, um exemplo de arquitetura e também uma bela e inteligente demonstração de respeito e reconhecimento dos reis Fernão e Isabel de Castela, que ao reconquistarem o Sul da Espanha aos mouros mantiveram intactos o fabuloso patrimônio arquitetônico expresso nas inúmeras mesquitas, palácios e tudo mais.

   

                        Provavelmente a Mesquita de Córdoba estará entre as mais notáveis e inesquecíveis lembranças que o turista levará de seu roteiro pela Andaluzia. E não é pra menos. Este grandioso templo islâmico que hoje abriga uma catedral em parte de seu interior, mandado construir pelo emir Abderrahman I em 785, resulta num monumento arquitetônico de beleza inigualável.

  

                        O interior é de perder o fôlego: uma "floresta" de colunas coríntias suportanto arcos em ferradura em tijolos vermelhos e brancos, mármores e granitos, 19 naves sustentadas pelas centenas de colunas,  arcos de tijolos, pedras vermelhas e brancas, uma iluminação natural celestial, tudo o que em conjunto resulta num deslumbrante efeito. No centro desta "floresta" de pilares, surge - primeiro discretamente, depois com imponência - a magnífica catedral gótica de arcos gigantescos lançando-se muito acima do telhado original da mesquita, projetando-se fora dela e marcando a nova ordem religiosa.

  

                        O observador atento notará variada evolução arquitetônica e estilística. Notará que ela vai do hispano-muçulmano ao greco-romano, do renascentista ao barroco. A razão disso, os dois séculos de acréscimos e modificações levadas a cabo desde Abderrahman I, em 785, passando por Abderrahman II em 848 - que mandou construir um novo minarete -, por Al-Hakam II, que ampliou a mesquita em 961 e decorou seu esplêndido mihrab, e, finalmente, por Almanzor, que implementou nova ampliação. Depois, na Reconquista, os cristãos acrescentaram-lhe uma obra-prima da arquitetura e ornamentação, a Catedral cristã, talvez a mais incrível integração entre estilos tão diferentes em harmonia tão exemplar.

 

                       Para além dos mosaicos bizantinos, do estuque, pinturas e desenhos árabes, na parte central da mesquita foram construídas a Capela Maior e a Capela Real assim que os cristãos retomaram Córdoba aos muçulmanos. A obra da Catedral resultou num impressionante contraste de estilos, tornando a mesquita-catedral num dos mais impressionantes templos do planeta. No exterior o simpático Pátio de Los Naranjos é um lugar tranquilo onde outrora faziam-se as abluções, hoje de onde melhor se podem notar os contrastes entre as diferentes arquiteturas, e onde claustros e laranjeiras misturam-se a temas muçulmanos.

   

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Juderia

                       Córdoba tem um antigo bairro judeu que consiste numa rede de ruas estreitas extremamente atmosféricas, bem menos movimentadas que seu similar de Sevilha e com bem menos lojas comerciais. Os judeus estabeleceram-se em Córdoba muito antes do domínio árabe, mas foi neste período, após o século VIII, que a cultura judaica floresceu. Ali destacou-se Hasfai Ibn Shaprut, um médico judeu, diplomata e acadêmico, que respeitando as regras dos mouros conseguiu desenvolver-se e acumulou poder e riqueza, atraindo uma vibrante comunidade judaica para Córdoba.

  

                       Maimônides também se destacou em Córdoba na Juderia como um dos mais famosos filósofos judaicos. Foi o autor da Mishneh Torah, nascido em Córdoba em 1125. Sua estátua fica na Praça de Tiberiadus, na Juderia. A estátua deste rabino representa toda a cultura e sabedoria judaicas. O portão de entrada, La Puerta de Almodavar, tem também uma estátua de Seneca, mas a principal atração da Juderia é antiga Sinagoga de Córdoba, na Calle de los Judios.

  

                       Se puder, visite o Museu Municipal Taurino, na Praça Maimonides, no coração da Juderia, onde também está o hotel NH Amistad, talvez a melhor opção de hospedagem da cidade, seja por estar dentro da juderia, seja pelo clima delicioso de hospedar-se num prédio histórico que abriga um hotel moderno e confortável.

                      O bairro caracteriza-se também pelos pátios das casas. Atrás do museu há uma praça onde antigamente ficava o souk muçulmano, ou Zoco, um lugar agradável que merece uma caminhada e uma olhada nas lojinhas onde ficam artesãos de cerâmica, couro, madeira e filigranas em ouro e prata.

 

                        Para comer há ótimas opções. Seguindo as certeiras recomendações do Lonely Planet, almoçamos no El Churasco, cuja especialidade da casa é a parrillada mista, mas foi um irrepreensível rabo de toro o que comi, ao sabor de uma taça de um delicioso vinho de Rioja.

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 Alcazár de los Reyes cristianos

                       Ao sul da mesquita, na margem do rio, o Alcázar de los Reyes Cristianos era o palácio dos monarcas cristãos, uma fortaleza medieval, com torres e muralha, jardins e fontes de água. O Alcázar foi construído por Alfonso XI em 1328. Fernando e Isabel ocuparam-no durante oito anos no século 15, preparando-se para a reconquista de Granada, último reduto dos mouros na Espanha. Foi aqui que a Rainha Isabel ouviu Cristóão Colombo falar sobre sua viagem para as Américas.

  

                        O Alcázar tem forma quadrangular notável, paredões poderosos e três torres com nomes de Torre de leões, Torre da Fidelidade e Torre do Rio. Na Torre dos leões os tetos são primorosamente decorados com alguns dos mais notáveis exemplos de arquitetura gótica da Andaluzia. O castelo também é ornamentado com mosaicos romanos, tem arcófagos dos séculos II e III, salas de banhos mouros. 

  

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A seguir:

Sevilha, a Musa da Andaluzia

Andaluzia - Espanha moura, branca, romântica e épica 

Posted on 04-28-2012 by Registered CommenterArnaldo Interata | Comments3 Comments | EmailEmail | PrintPrint

Paisagem da janela - Parador de Arcos de la Frontera

                       ENTRE olivais e estradas sinuosas, despenhadeiros e serras escarpadas, seguimos os caminhos de almorávides e almoadas, os povos árabes, sírios, bérbereres e egípcios que dominaram o Sul da Espanha durante o império al-Andalus. Também nos innspiramos na hábil narrativa de Washington Irving, o norte-americano que esteve na Espanha em 1829 e empreendeu uma excursão a pé de Sevilha a Granada. Marcado profundamente pelas paisagens e pela cultura andaluzas, o encantamento está nos "Contos da Alhambra", escrito enquanto viveu nas dependências da Alhambra, em Granada.                   

                      Ali, no Sul da Espanha, os "viajeros romanticos" do Século XIX, também fascinados pela civilização hispano-muçulmana, encantavam-se com as paisagens enquanto percorriam as estradas que cortam os vales do Guadalquivir, sobem as serras de Grazalema, de Serrania de Ronda e de Los Alcornocaleslevam Sevilha, Córdoba, Granada, Ronda, Arcos e Jerez de la Frontera, assim como aos vilarejos da Ruta de los Pueblos Blancos.

 

 A quietude das ruas estreitas de casas brancas com floreiras nas janelas

                      Agora nós, românticos do Século XXI, viajamos não apenas através do tempo e do espaço, mas da cultura e da natureza, presenciando uma Espanha sedutora e emblemática, visitando mesquitas e igrejas monumentais, palácios incríveis, experimentando a quietude das ruas estreitas e de casas brancas com floreiras nas janelas. Entre uma e outra cidade vimos paisagens verdes e cinzas, de florestas e despenhadeiros rochosos. 

  O Bairro Albaicin, no topo da colina, visto da Alhambra

                       O nome Washington Irving situa-se na história americana como um dos primeiros grandes escritores a conseguir reconhecimento fora de seu país. Embora conhecido por suas muitas histórias e contos baseados na cultura americana - como Rip Van Winkle e Legend of Sleepy Hollow - Irving foi um dos primeiros americanos a escrever sobre destinos turísticos, a viajar e encantar-se com o esplendor de uma Espanha extremamente rica, cultural e etnicamente: a Andaluzia.

                       Fascinado com a herança cultural, com o legado da civilização muçulmana, Irving mergulhou na história e escreveu suas reflexões enquanto viajava. Usou um estilo de narrativas curtas, baseadas na experiências pessoais, nos resultados de suas pesquisas em bibliotecas da Andaluzia, na leitura de contos populares espanhóis, especialmente os andaluzes. Seu trabalho resultou numa mistura de passado e presente, ficção e realidade, e definiu com precisão a essência do caráter andaluz: metade espanhol, metade muçulmano.

  

A Alhambra, Granada

                        Desde Irving a rota tornou-se um patrimônio cultural nacional e ainda hoje encanta viajantes, artistas, escritores, poetas, fotógrafos, jornalistas, entusiastas, turistas e curiosos. O roteiro, que abrange as rotas do Legado al-Andalus passa por grandes cidades e pequenos vilarejos das províncias de Málaga e Cádiz, expõe a assência daquilo que denominou-se o Século de Ouro da Espanha, como se conhece o período entre o Renascimento e o Barroco.  

Estradas escarpadas, sinuosas, paisagens deslumbrantes

                          Mas os campos ocres da Andaluzia e seus castelos de pedra não nos trazem à lembrança apenas os contos românticos das Mil e Uma Noites. Também Dom Quixote, o esquálido Rocinante e o gorducho Sancho Pança surgem no imaginário. Por vezes, parecem estar nos esperando numa curva de estrada sobre uma colina pitoresca. Felizmente o viajante que “aventurar-se” por essas paragens não mais encontrará os bandoleros, assaltantes que eram o terror dos antigos viajantes que atravessavam as campinas e as serranias daquelas paragens.

 

 Pelas estradas dos Pueblos Blancos

                       O Sol, ainda não é forte no fim do Inverno. Aqui as águas de Março fecham o Inverno, ainda caem e podem acompanhar o viajante por um bom tempo, como nos aconteceu. Todavia, aproveitamos as luzes tênues que já tingem de laranja o amanhecer e o anoitecer, pintam as paisagens e construções, atraem a atenção do olhar. Entranhados pela a atmosfera andaluza, àquela sua dimensão tão tuniversal, mostrarei aqui no Fatos & Fotos de Viagens o conjunto tão fabuloso de atrações, tentando transmitir sua essência, motivar viajantes a conhecerem a região.

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A Andaluzia dos Pueblos Blancos, o legado al-Andalus e o Triângulo Dourado 

                        Por estradas boas e distâncias curtas, grandes rodovias e pequenas estradas cênicas, cruzamos cidades e vilarejos, campos dourados, ovelhas, bosques, olivais, carvalhos centenários, paisagens verdejantes e rochosas, vales férteis e riachos lentos. Vimos castelos e palácios, touros e mouros, vinhos e cavalos, antigos moinhos e modernos geradores de energia eólica.

 

                       Sentimos o sabor da deliciosa comida - do Rabo de Toro ao Gaspacho Andaluz -, ouvimos o som da paixão flamenca entre leques e castanholas, enfim, vivemos o que foi possível e intensamente nesta curta viagem pelo interla Andaluzia momentos que nos levaram a paisagens magníficas, a cidades e aldeias encantadoras, a presenciar a vida rural e montanhosa.

  

                        Passamos por Bornos, Algodonales, Espera, Benaocaz, Villaluenga del Rosario, Olvera, Antequera, Arriate, Setenil, Ronda, Benao-ján, Ubrique, Grazalema, Benamahoma, El Bosque, Prado D’El Rei, Grazalema e Setenil, algumas das cidades desta região, de onde chegam as imagens mais conhecidas da Espanha, senão as mais emblemáticas: flamenco, toros, olivais, castelos, corridas, festas, procissões e a imponência monumental de Sevilha, de Granada e de Córdoba. Mas também nos encantamos com a singeleza das vilas de casas brancas, com tudo o que molda o caráter mais peculiar ao país. 

                         O legado dos mouros - expresso na riqueza artística, cultural e arquitetônica - coloca a Andaluzia no imaginário coletivo do resto do mundo como um lugar mágico e mítico. Viajar pela região equivale a mergulhar nessa sucessão de histórias, de fantasias, de contos de fadas, a ver imagens que por vezes encobrem uma identidade mais complexa, escondida em camadas mais profundas, ou seja, as raízes forjadas pela civilização muçulmana, uma das mais avançadas da antiguidade, e sua profunda influência na região. O legado cultural é tão dramático quanto é encantador.

   

                        A fabulosa infraestrutura turística da Andaluzia proporciona uma confortável, sedutora possibilidade de viagem, de conhecimento de raízes bem preservadas, de tesouros impecáveis, de impressionante patrimônio, de inigualável riqueza arquitetônica, de tudo o mais que se extende para além da Alhambra e do Generalife, da Mesquita de Córdoba, do Alcazar e da Giralda de Sevilha. É difícil recordar de outro lugar com igual conjunto de obras tão numerosas e monumentais, revestidas de tamanha personalidade e romantismo ressaltadas por tantos escritores, poetas e compositores do século 19.

 

                         Nascidas da imaginação de seus autores, os personagens românticos e passionais que forjaram esse caráter num cenário tão glorioso e épico “vivem” até hoje: a operária espanhola Carmen, da ópera “Carmen” - do compositor Georges Bizet -, o barbeiro “Fígaro” - de Rossini - e sobretudoDon Giovanni- de Mozart.  Assim a Espanha sempre surpreende o visitante, por seu conjunto de paisagens e monumentos impecavelmente, também atrai por sua irrepreensível infra-estrutura turística: com alguns dos hotéis mais românticos de todo o país: o Alfonso XIII, em Sevilha, o Parador de Arcos de la Frontera, o Parador de Ronda e o Parador de Granada, este último situado dentro do complexo da Alhambra e do Generalife.  

   

                        O ano 711 foi a chave da história antiga da Andaluzia, quando ocorreu a entrada do primeiro contingente árabe na região, facilitada pelos 14 km que separam o Norte da África da Espanha, ponto inicial para oito de séculos de ocupação muçulmana e difusão do islamismo. Ali o período do Califado de Córdoba foi o mais florescente, o que tornou a região o centro do Islã no Ocidente. Todavia, sua desintegração foi a oportunidade para que os reis cristãos do norte - após a unificação de Castela e Leão liderada por Fernando III - dessem curso à recuperação cristã da Andaluzia.

  

                        Os monarcas católicos encerraram aquele ciclo islâmico colocando no passado o esplêndido período de Al-Andalus com a queda de Granada em 1492. Todavia, sábiamente, católicos reconquistadores souberam manter o rico patrimônio arquitetônico islâmico e assumir naturalmente sua cultura, talvez a mais exemplar demonstração de uma inteligência tão incomum na era das invasões tão destruidoras.

  

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A Rota dos Pueblos Blancos

                         Um dos roteiros mais bonitos da Andaluzia é o que abrange as grandes cidades e as pequenas aldeias das províncias de Málaga e Cádiz, com ênfase especial nas  paisagens, natureza e tranquilidade da vida rural. As aldeias caiadas de branco resplandecem com a luz do sol da Andaluzia, e ainda que esta seja sua característica mais aparente, o patrimônio é o mais notável.  As montanhas que se estendem ao norte de Gibraltar em direção à Andaluzia e ao Mediterrâneo destacam-se no cenário do roteiro, especialmente na região entre Arcos de la Frontera e Ronda, nas serras de Grazalema, Serrania de Ronda e Los Alcornocales.

  

                        A melhor maneira de fazer a rota dos Pueblos Blancos é conduzindo um carro e passando por algumas das estradas que têm algumas das paisagens cênicas mais empolgantes da Espanha. Quase todo viajante gosta de independência em viagens e de intercalar o óbvio com o incomum, sair um pouco dos roteiros convencionais, de ter flexibilidade, algo possível alugando um carro. A viagem pelos Pueblos Blancos da Andaluzia é um mergulho de profundidade na história e na cultura, e a passagem por incríveis paisagens rurais, onde destacam cidades-monumentos como Arcos de la Frontera e Ronda, encarapitadas nas encostas, com ruas estreitas e românticas.  Arcos é a mais acessível delas a partir de Sevilha, fica a 90 minutos de carro. Ronda é uma das maiores cidades do circuito, também uma das mais espectaculares.

   

                        Nosso roteiro pela Andaluzia começou em Sevilha, onde ficamos três dias revendo uma das cidades mais encantadoras do mundo, que também nos serviu de base para uma viagem de um dia a Córdoba.  O roteiro de Jerez de la Frontera a Ronda contemplou uma noite em Arcos de la Frontera - marcando o início da jornada pelos Pueblos Blancos - e outra em Ronda, ao final do intinerário.  De Ronda fomos a Granada, onde ficamos três dias, encerrando ali nossa viagem à Andaluzia.  

  

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As distâncias de nosso roteiro entre as cidades

                         As pequenas cidades são bastante próximas entre si, conforme indica o quadro de distâncias abaixo. De Sevilha, em direção ao roteiro dos Pueblos Blancos, pela estrada A-4 (que em certo ponto passa a ser N-IV), continuamos até o desvio para a rodovia C-343. Nossa primeira escala foi em Arcos de la Frontera, ótima cidade onde há o Parador de Arcos de la Frontera.

  

                       Após esta seguimos em direção a Ronda, um percurso de num dia que passou por pequenos vilarejos. Em Ronda, há inúmeras opções de hospedagem, a mais notável delas no Parador de Ronda. Se tivéssemos mais tempo faríamos um roteiro cde 3 dias, parando e dormindo em pequenos hotéis em algumas cidades do caminho, também com ótimas opções para comer:

   

1) Jerez de la Frontera a Medina Sidonia: 36,9 Km; 2) Medina Sidonia a Arcos de la Frontera: 37,9 Km; 3) Arcos de la Frontera a Espera: 15,8 Km; 4) Espera (via Villa Martín) a El Bosque: 38,5 Km; 5) El Bosque a Algodonales: 30,1 Km; 6) Algodonales (via  Benaocaz, Villaluenga del Rosario, Olvera e Arriate) a Setenil de las Bodegas: 24,7 Km 7) Setenil de las Bodegas a Ronda (noite): 22,6 Km.

  

                         Neste roteiro, voamos do Rio a Sevilha pela IBERIA (via Madri), ficamos 4 noites em Sevilha, 1 noite em Arcos de la Frontera (a 85 Km de Sevilha), 1 noite em Ronda (a 65 Km de Arcos) 3 noites em Granada (a 175 Km de Ronda).

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Breve nota sobre a arte e arquitetura muçulmanas na Andaluzia

                        A arte muçulmana andaluza foi em parte influenciada por elementos gregos, romanos e cristãos. Uma nova expressão artística, foi especialmente perceptível na decoração de interiores e de monumentos. Como em toda arte decorativa islâmica, há quatro elementos básicos: caligrafia e padrões de vegetais, geométricos e figurativos. Conceitualmente é uma decoração profusa, caracterizada pelo horror vacui - o medo do espaço vazio  A geometria é muito importante no Islã, pois através dela é que determina-se a indivisibilidade de Deus. Nela, a forma perfeita é um círculo. Norma utilizada para criar outras razões. O projeto decorativo é simples: a aplicação dos princípios da simetria repetidamente, multiplicando ou dividindo. É uma arte mais intelectual, matemática, do que emocional, usando trançadaos, sinuosidades, zigue-zagues, xadrez, laços e estrelas.

  

                       Os motivos decorativos são obtidos através da repetição simples de linhas bloqueadas ou de elementos sobrepostos,  simetria que dá aos desenhos um efeito dinâmico e harmonioso.  O detalhe não prevalece sobre o conjunto.  Não há tensão entre os motivos, tudo é um equilíbrio só.  A repetição infinita dos temas é uma metáfora da eternidade que preenche tudo e uma forma de capturar a mutabilidade do universo. Fonte: Elena Sarnago Notivolo, A Decoração na Arte Islâmica: clio.rediris.es.

   

                         Contrariamente à crença popular, o Islã não proíbe a representação de figuras humanas e animais, exceto em locais sagrados, como nas mesquitas.  Por exemplo, os grandes palácios são cobertos por várias cenas de caça em mosaicos e afrescos, os banheiros possuem cenas eróticas e há diversas outras cenas simbólicas.

Fonte: Arte Árabe: www.artehistoria.com

  

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A seguir:

Córdoba e o esplendôr de Al-andalus

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NOTAS

 (*1)  A respeito da cultura muçulmana hispano-arábica, o autor escreveu "Crônica de la Conquista de Granada" (1829) e a versão "História de la Conquista de Granada" (Barcelona, Subirana,1861). Mas a obra mais conhecida desse tema certamente é "The Alhambra: a series of tales and sketches of the Moors and Spaniards", cuja primeira edição o autor dedicou ao pintor inglês David Wilkie, seu amigo e companheiro de uma viagem às antigas cidades espanholas, em particular as cidades de Sevilha e Toledo,  estimulado pelo amigo a escrever algo que pudesse ilustrar as relíquias dos tempos árabes que os faziam recordarem-se dos  contos das "Mil e uma Noites".  Em "Cuentos de la Alhambra" revela-se todo o interesse do autor nos temas islâmicos e na cultura árabe-espanhola, em especial a que se relaciona com o Palácio da Alhambra, antiga moradia da disnastia nazarí e um dos monumentos da arquitetura árabe-hispânica mais bem conservadas de toda a Andaluzia. Através de sua profunda observação e hábil narrativa, o autor transpõe para o texto literário as informações coletadas de suas investigações em arquivos históricos e junto à outros escritores e cronistas da época, sobretudo as lendas coletadas junto aos moradores com os quais conviveu no período em que habitou o palácio.

 (*2)  A Reconquista - ou Conquista cristã - foi o movimento católico ocorrido início no século VIII que visava retomar dos visigodos cristãos das terras perdidas para os árabes durante a invasão da Península Ibérica. Os muçulmanos não conseguiram ocupar a região montanhosa das Astúrias, onde resistiram muitos refugiados; aí surgiria Pelágio (ou Pelaio) que se pôs à frente dos refugiados, iniciando imediatamente um movimento para reconquistar o território perdido. A guerra tinha um objetivo: reapoderarem-se das terras e de tudo o que nelas existia. A ocupação das terras conquistadas fazia-se com um cerimonial: cum cornu et albende de rege, isto é, com o toque das trombetas e a bandeira desfraldada. A ideia de «cruzada» só veio a surgir na época das Cruzadas (1096). A reconquista de todo o território peninsular ocorreu por cerca de oito séculos, só concluída em 1492 com a reconquista do reino muçulmano de Granada pelos Reis Católicos Fernão e Isabel de Castela.

 (*3) Emirado e Califado de Córdoba: Abd el-Rahman III foi o líder sírio que estabeleceu o Califado de al-Andalus. Al-Andalus (em árabe: الأندلس) foi o nome dado à península Ibérica pelos seus conquistadores islâmicos do século VIII, tendo o nome sido utilizado para se referir à península independentemente do território politicamente controlado pelas forças islâmicas. De início integrado na província norte-africana do império omíada, o Al-Andalus seria um emirado (756–929) e posteriormente um califado independente do poder abássida (929–1031). Com a dissolução do califado em 1031, o território pulverizou-se em vários reinos Taifa. Com a reconquista dos territórios pelos cristãos, descendentes dos godos, que se refugiaram na região das Astúrias, no norte da península, num processo que ficou designado historicamente por “Reconquista”, o nome Al-Andalus foi-se adequando ao cada vez menor território sob ocupação árabe-muçulmana, na metade sul da península, aproximadamente a mesma área da antiga província romana Hispânia Bética, cujas fronteiras foram progressivamente empurradas para sul, até à tomada de Granada pelos Reis Católicos. A região ocidental da península era denominada Gharb Al-Andalus ("o ocidente do Al-Andalus") e incluía o atual território português. De uma maneira geral, o Gharb Al-Andalus foi uma região periférica em relação à vida económica, social e cultural do Al-Andalus. No entanto, o maior contingente de muçulmanos na Espanha era de berberes do norte africanos recém-convertidos ao Islã, hostis aos sofisticados burocratas governadores de Damasco. Eram  fundamentalistas religiosos e definiam o padrão das comunidades islâmicas na Espanha. Os árabes da Síria constituíam a aristocracia. 

FONTE: Wikipédia

Katmandu, Nepal - O velho esquecido

Posted on 04-4-2012 by Registered CommenterArnaldo Interata | Comments4 Comments | EmailEmail | PrintPrint

   

 Vida cotidiana em Bhaktapur e Katmandu

                        SERENDIPTY não é apenas a palavra mais difícil de traduzir, também é a mais bonita e romântica da lingua inglesa. Demonstra como nenhuma que todo idioma tem suas dificuldades. E que algumas palavras simplesmente não encontram correspondência noutras linguas. Serendipity é uma delas: não há um sinônimo, sua definição é quase poética, mais do que uma palavra, uma expressão, um sentimento. Explicá-la significa dizer que equivale à imensa alegria que sentimos quando encontramos algo tão inesperado quanto fabuloso, exatamente porque não o estávamos procurando.

 

 A Durbar Square de Bhaktapur

                        Felizmente a tal "serendipiticidade" tem me ocorrido com alguma freqüência, talvez mais notável depois que conheci seu significado. A mais surpreendente das vezes que me ocorreu o "acaso auspicioso", conheci minha doce Emília. Hoje, novamente, serendipity me aconteceu enquanto lia “A arte de viajar”, de Alain de Botton. E desta vez me salvou de um conflito ao escrever sobre Katmandu, Capital da distante terra do Nepal.

  

                       HÁ dias vinha tentando encontrar um caminho para descrever minhas impressões sobre Katmandu. Todas sem sucesso. Chegara a abandonar a intenção, mesmo que tivesse o destino enorme potencial. A despeito de seu poder de impulsionar mentes e estimular escritores, a dificuldade morava em mim, nada mais do que uma entre as tantas peças que escrever me prega: como dizer responsavelmente ao leitor que não gostei de Katmandu?

                       COMO fazer isso sem influenciá-lo negativamente? Seria possível transmitir-lhe opinião desfavorável sem contudo depreciar o destino? Como dizer ao leitor que não gostei de uma cidade, mesmo que seu patrimônio seja tão espetacular que a humanidade não poderia prescindir? "Inigualável", "incomparável" e "personalíssima" eram apenas três dos adjetivos que eu tentava selecionar para definir o lado positivo da Durbar Square. O outro lado da moeda, na velha Katmandu, não era nem tanto seu lastimável estado de conservação, mas o pior de todos os desleixos que pode lhe reservar o nepalês: a falta de valor. O desvalor que ele dá ao seu patrimônio arquitetônico.

  

                        EU me perguntava: “Que utilidade pode ter um blog que influencia negativamente seu leitor, assim ao ponto de desmotivá-lo?” Sobretudo com tão pouca informação disponível sobe o destino? Não consigo encontrar vantagem em transmitir opinião que de ante-mão eu saiba induzirá à desmotivação. Seria um preço muito alto a pagar o leitor que entra aqui esperando encontrar inspiração, mas esbarrar com tal leviandade.  Eu temo leviandades, todos sabem. Elas e as banalidades e superficialidades que abundam na Internet. Nada me desagrada tanto quanto demolir o desejo de um leitor em conhecer um lugar. Que dirá Katmandu!

  

                        VIAGENS são as parteiras do pensamento, dizia Alain de Botton na minha leitura de A arte de viajar. Longe de ser um guia turístico, o livro é um tratado sobre viagens. É filosófico, mas compreensível. Nele de Botton diz que Se nossa vida fosse dominada pela busca da felicidade, talvez poucas atividades fossem tão reveladoras dessa dinâmica quanto nossas viagens. A frase me bateu como uma faísca cerebral, desencadeou deliciosas reflexões, quase umas tormentas cerebrais. Não sem motivo: viajar, ler, escrever e fotografar tem sido o que me proporciona as melhores recompensas no lazer. Viajar, especialmente para destinos exóticos e incomuns - tal qual Índia e Nepal - tem me ensejado maravilhosas experiências de vida, prazeres bem mais além do que mundanos. Ler - pré-requisito inevitável ao bom viajante - remunera ainda mais quando é à luz dos que brilham na arte de fazê-lo bem.

  

                        POIS foi lendo os livros “A arte de viajar” e “Três cidades perto do céu - Srinagar, Rishikesh, Katmandu” - de Luciana Tomasi, um divertido, bem humorado relato de viagem à Índia e ao Nepal - onde encontrei o caminho para vencer as dificuldades de escrever sobre Katmandu. Os dois títulos foram, à sua ordem, minha “serendipiticidade”, o “feliz acidente”, a “agradável surpresa”, o “encontro acidental” que fez a diferença, tornou o “encontro casual” algo pra lá de bom e útil. No divertido livro da autora brasileira, daquelas três cidades que visitou, amou as duas primeiras e detestou a última, precisamente Katmandu. Eu o li antes de viajar. E ainda que me acendesse a luz amarela de atenção, me fazer reduzir expectativas até então elevadas, todavia opiniões contrárias costumam ter um efeito contrário em mim: em vez de afastar, atraem.

 

                      Opiniões negativas curiosamente funcionam como um estranha compulsão em conhecer aquilo que outros não gostaram. Eu preciso ter minha própria conclusão, afinal, já não me surpreendo ao gostar muito daquilo que os outros detestaram.  Freqüentemente o “não-gostar” de outros me prepara para que eu goste. Tem sido assim. E foi precisamente este o motivo de minha hesitação em escrever sobre Katmandu.  Sempre o que mais desejo transmitir ao leitor sobre um destino, seja qual for minha impressão, é  “Não acredite piamente no que eu escrevo. Vá em frente com seu desejo, confira com seus próprios olhos, viva a sua experiência e conclua tudo com suas legítimas e próprias opiniões!.

  

                      CONSIDERO meus leitores seletivos, diferenciados, exigentes, experientes. Ou, como se diz na gíria, "safos". Noto que eles reconhecem que boa parte do que se lê na Internet é fértil em injustiças, exageros, egocentrismos e esnobismos. , a tônica dos que escrevem amadoristicamente sobre destinos turísticos: sobram opiniões superficiais, inconseqüentes, primitivas e até mesmo toscas. São um verdadeiro desserviço turístico quando abusam de afirmações egocêntricas e herméticas, tais como "Não vá!" (como se dissesse "porque eu não gostei!").  No lado oposto estão as sugestões ponderadas,  as que mais aprecio e valorizo, do tipo "Vá sim, mas...". São as maior valor, que melhor preparam o leitor, que o induze a ir ao encontro, a tere sua (dele) própria opinião, ainda que eventualmente igual.

 

                        E então, afinal, como ficamos? Como dizer que não gostei de Katmandu?  

                        MINHA primeira tentativa foi tentar sair “pela esquerda”, atenuando minha irritação com o que vi, dizer algo como “não gostei mais ou menos", mas, convenhamos, não dá pra dizer algo tão ruim assim. Pensei então em definir um “não-gostei” menos concreto ou efetivo.  Pensei "Que tal dizer que não gostei “conceitualmente”?  Por certo uma invencionice, no mínimo falta de opinião e coragem de assumir posição, desisti prontamente ao imaginar que o leitor acreditaria que caí na esparrela do twitter e passei a definir tudo superficialmente, só porque é moda.  Como não estou a fim de demolir minha credibilidade construída a duras penas e confiança do leitor, digo que mesmo um escritor medíocre como eu precisa ter opinião e se posicionar, especialmente quando se trata de “prazer” e “desgosto”, ou de “amor e ódio” em relação a um destino.

 

                       Devemos ir ou não a um destino que desejamos porque alguém teve impressão contrária à nossa?  Foi Alain de Botton que me fez compreender que nem todas as respostas às nossas dúvidas alcançamos ficando em casa: é preciso viajar, ir ao destino: "Estamos familiarizados com a idéia de que em viagens nossa realidade não corresponde às nossas expectativas." Bingo!

   

                        POR que então, mesmo presenciando exemplos tão fabulosos de patrimônio arquitetônico nas praças Durbar de Katmandu e Baktapur não gostei do que vi? Simplesmente porque há destinos que ao exercerem uma atração quase sobrenatural, também desencadeiam fortes expectativas. Ainda que perigoso, é uma verdade. Foi assim com a Índia. Só que ali, desde o primeiro encontro, ela tornou-se o melhor de todos os destinos que já visitei. Katmandu, todavia, exigirá mais de meu tempo, sobretudo para não ser injusto. Esse tempo ainda não passou o bastante para que eu aceite o estado deplorável de seus notáveis templos e palácios, o pouco caso que nosso guia fez ao ser perguntado porque tratam aquilo daquele jeito. Sua resposta sonsa, foi me perguntar tempos depois se eu estava menos "nervoso". Para não mandá-lo tomar chai no meio do Everest, assumi que sim, "estou mais tranquilo".

  

                       AINDA que em viagens meu olhar sempre esteja mais complacente, receptivo, simples e doce, não consegui “engolir” Katmandu. Desceu mal. Ficou um gosto amargo. Não digeri o futuro incerto que o tempo, descaso, sujeira e pombos costumam reservar a patrimônios tão antigos e frágeis. Não me reconciliei com Katmandu. Tão logo comecei a escrever, a rever fotos, a ler anotações, só resgatei melancolia. A mesma que senti presenciando algo tão magnífico quanto deprimentemente desleixado. Saí do Nepal como se tivesse visitado um velho pobre e doente. Deixei o país profundamente irritado com o fato do velho ter sido largado, esquecido, desvalorizado que é. Triste ao olhar pra ele e perceber que não resistirá muito. A poluição visual esconde a herança espetacular, a sujeira de pombos corrói as pedras, madeiras e o metal. Mas ninguém acredita que sejam seus templos e palácios o maior patrimônio do país, senão o Everest.

  

                       ARDE no estômago a história de sofrimento que elvolve o Kumari Bahal, uma das atrações de Katmandu. A “Casa da Deusa Viva” há séculos abriga menina-deusa, eleita aos 4 anos, sob métodos e critérios de seleção esdrúxulos. A crendice estabelece que o status divino terá duração definida: apenas até a puberdade, quando os “flúidos impuros” da primeira menstruação lhe roubarão a condição de deusa. Desqualificada, a então mulher ex-deusa voltará pra casa, a mesma de onde foi retirada na infância, a contragosto. Não sem muito trabalho a nova seleção de candidatas a deusas se iniciará obedecendo a um roteiro de esquisitas ações.  

 

                       FOI preciso retornar, reler anotações e concluir a leitura de Kathmandu Valley, de Robert & Linda Fleming (*) a fim de reordenar os pensamentos, aplacar a indignação, acalmar os ânimos e reaver minha vontade de escrever sobre Katmandu. Escritores, poetas e historiadores não se cansam de elogiar este notável espaço urbano e seus inúmeros monumentos, todavia cobertos de sujeira e fezes de pombos, de ervas daninhas nos telhados e fendas, tudo com lastimável aparência. Mesmo com toda a sua originalidade, imponência e personalidade arquitetônica, é tudo “quase-feio”, fruto da desordem urbana e civil, da falta institucional de peocupação com sua manutenção e do apreço de seu povo pelo patrimônio. Foi por esta falta de amor que “não gostei” de Katmandu. Ao menos conceitualmente.

    

                        Grande abraço, leitor. E não deixe de ir a Katmandu!

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(*)  O curioso processo de seleção e escolha das candidata a deusas é rigoroso. A escolhida, acredita-se, é a encarnação da Deusa Taleju, versão nepalesa da deusa Durga indiana. Será deusa até sua primeira menstruação, doença grave ou perda de sangue proveniente de alguma lesão. A atual deusa foi escolhida aos quatro, em outubro de 2008. Para ser reconhecida como deusa a menina deve vir de uma família budista, além de cumprir outos quatro critérios, entre eles ter um corpo impecável e sem marcas, um rosto perfeito com características e critérios “técnicos” insondáveis de avaliação. Em terceiro lugar são dados a ela um conjunto de objetos bem semelhantes ente si a fim de que ela aponte um que tenha sido usado pela última deusa. Finalmente, as jovens candidatas permanecem numa câmara fechada para que passem uma noite com os restos de 108 búfalos decapitados. A criança que não chorar ou demonstrar medo será escolhida como deusa. Uma vez selecionada a menina é removida da sua família e levada para a casa de Durbar Square, onde viverá na clausura e será cuidada por uma família de sacerdotes, que acreditam que assim que ela derrame qualquer sangue, a deusa deixará seu corpo. Normalmente as meninas são cercadas de cuidados até atingirem a puberdade, quando nenhum cuidado as impedirá de menstruarem. Embora privilegiada a vida, depois que deixam de ser deusas, tornam-se infelizes, porque é raro encontrarem um homem disposto a se casarem com uma ex-deusa.

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“A arte de viajar” - Alain de Botton - Editora Rocco - ISBN 85-325-1578-9

“Três cidades perto do céu - Srinagar, Rishikesh, Katmandu - Luciana Tomasi (Editora Artes e Ofícios) - ISBN: 978-85-7421-192-3

“Kathmandu Valley” - Robert & Linda Fleming - Allied Publishers - ISBN 0-87011-328-3

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A seguir

A Katmandu no Século 21

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