MENSAGEM ao LEITOR
BIO

Brasileiro, casado (com a "Turista Acidental"), empresário, viajante há 27 anos, 60 países visitados (alguns íntimos) em 91 viagens internacionais e por cerca de 40 cias. aéreas diferentes em 391 vôos. O que segundo o Haroldo Castro, significa ter "Mestrado" em Viajologia.

Escrevo honestamente. Como um amador e sem truques, sem disfarces ou maquiagem, ainda que não seja fácil para os sem talento produzir relatos de viagem que valham a leitura. Sobretudo que inspirem e motivem o leitor. Jamais para guiá-lo. O nome deste blog demonstra minhas intenções: escrever sobre viagens e reflexões ao viajar, também um pouco sobre o meu modo de viver a vida, antes, durante e depois de nossas viagens. Ocasionalmente escrevo para destacar o que me agrada ou não na blogosfera de viagens, na Internet, nas redes sociais, nas revistas e na literaturade de viagens.

Fotografar também faço com o mesmo gosto que tenho por escrever. Igualmente como amador. Avançado, talvez, mas amador. Jamais fiz cursos de fotografia nem de redação. Adoraria ter cursado jornalismo. Não o fiz, então, não sou "escritor de viagens".

 Ainda temos uns 40 países que desejamos visitar além dos que já estivemos. A eles pretendemos dedicar nosso tempo em viagens. Burkina Faso, Gana, Togo e Benin, provavelmente seriam os próximos.

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Sexta-feira
Out172014

Nossa viagem à Pribaltika. Que destino!

INTRODUÇÃO - Meus sonhos de viagem à Pribaltika   ______________________________

Olhando pela janela ... (do Museu de Art Nouveau de Riga)

                NÃO costumo descrever meus sonhos. É simples: abro os olhos e já me esqueci deles. Suponho até que muitos sejam bons, pois consigo recuperar leves mas boas lembranças. É possível até que meus melhores sonhos sejam os de viagens. Mas ainda assim, sonhos são sonhos. Segundo Freud, em sua teoria simples mas essencial para evitarmos exageros interpretativos, crenças, misticismo e dogmas religiosos que tentam explicá-los, "sonhos são pensamentos". Simples assim: enquanto sonhamos, pensamos coisas registradas no cérebro. Exatamente como quando acordados. A diferença é que acordados elas são organizadas, mas dormindo, uma bagunça.

                   MEUS sonhos (ainda que não me recorde bem deles), costumam refletir com frescor o que vivi, pesquisei e observei durante a vida. Mas são como todos os sonhos. desarrumados. Um conjunto de imagens, de emoções, de coisas registradas no cérebro e agrupadas sem nexo, de um jeito carente de ordem. Posso compar meus sonhos a filmes toscos, produções caseiras classe "z": sem roteiro, direção e edição de imagens. Além de tudo, mal interpretados. Mas não sei bem porquê, meus sonhos bálticos até que eram bem organizadinhos. Digamos que tinham uma atmosfera próxima da realidade, ainda que tratassem-se de devaneios próprios aos sonhos. Talvez por isso eu não os tenha esquecido quando acordei.

Nos meus sonhos, falavam uma linguas estranhas... 

                 VOU contá-los: eu olhava por uma janela e via torres ponteagudas de igrejas, catedrais góticas de pedra, muralhas medievais, edifícios coloridos com fachadas suportadas por atlantes, ruas estreitas, prédios de telhados inclinados, casas de madeira e ouvia gente falando língua esquisita... Depois ia às ruas e via castelos medievais de antigas monarquias, florestas e montanhas, cavaleiros em cruzadas montados a cavalo, lagos de águas cristalinas... Eu percorria lugares pouco visitados, atraentes e tão bonitos...

Eu via edifícios coloridos de fachadas suportadas por atlantes

               FOI na véspera de me meter no avião que tive o último de meus sonhos bálticos. Fui vivê-los. Mas despertei preocupado: havia o "perigo" real do imaginado não corresponder à realidade. Afinal, as loucuras (e delícias!) de meus devaneios poderiam ser muito diferentes do que eu veria, até melhores do que a realidade. Passei então a me preocupar com outra coisa. Era quase como sonhar um novo sonho: o de escrever bem sobre a Pribaltika.

             Pribaltika! Achei bem legal saber que assim os soviéticos se referiam à Estônia, Letônia e Lituânia. No dia de partir comecei a escrever as mal traçadas linhas de sempre. Não sem antes conferir no mapa e no Google onde afinal ficava a tal Pribaltika que eu visitaria, as três pérolas turísticas pequenas nações e quase desconhecidas do novo Velho Mundo.

O tempo passou, parei de sonhar meus sonhos bálticos e fui viver a realidade (uma ampulheta numa fachada de Riga)

               PESSOAS são assim, diferentes. Inclusive nos sonhos. Mas como diria minha avó, "até aí morreu Neves". Pode parecer óbvia a afirmação, mas nem todos sabem disso. Há quem não goste de sonhar e planejar viagens. Eu adoro ter um plano. Sempre gostei de ter planos na vida. Flexíveis, mas planos. Mas eu estava às voltas com o trabalho e as tarefas me ocupavam tanto que não houve tempo para o que tanto gosto: ler e pesquisar o destino, planejar a viagem. Para mim, planejamento é a chave para o sucesso de uma viagem. Não haveria porque ser diferente com a Pribaltika.

    Planejamento, a chave para entender Riga e tirar dela o melhor         

                NÃO me refiro às tarefas relacionadas à logística, hospedagem, essas coisas. Não ficam mais comigo, dsde que deixei-as com minha doce Emília. Além de enciclopédia geográfica e histórica ambulante, e mais-que-perfeita companheira de viagens, promotora das melhores idéias de viagens e destinos, tem sido tão eficiente na organização de tudo que não me atrevo a interferir. Vai que desanda! Me refiro a ler. Ler para saber. E sonhar. E então, à noite, enquanto durmo, meu sonhos parecem potencializados por essa falta de reflexões, pesquisas e leituras do dia. Viram uma bagunça maior ainda.

                NO dia de embarcar parei de sonhar com a viagem. E a me preocupar com outro "sonho": o de escrever bem sobre ela. Então desandei a escrever. Como nunca. Quase não reconheci em mim tanta hiperatividade criativa. Masvá lá que haja muitas maneiras de contar uma viagem. Bem ou mal, é verdade, mas nenhuma certa ou errada. Apenas diferentes. E o que é descrever bem uma viagem? Por certo não é a minha maneira, pois reconheço a inabilidade.

                 LÁ se vão oito anos tentando fazer isso aqui sem conseguir! Sim senhor, oito anos escrevendo esse blog! Da empolgação e encantamento à apatia e desejo de abandoná-lo esse blog já passou por muitas. E dizer que o comecei porque era a maneira mais fácil de manter a família informada sem ter que encher suas caixas postais com fotos e e-mails.

Sonho sonhado, sonho vivido, viagem bem feita. Mas eu conseguiria saber contá-la?

                ESTOU falando de quem sabe. Sobretudo de quem escreve com o coração o que os olhos viram. Se para quem viaja e escreve não basta fazer bem a viagem, é preciso saber contá-la, e se a linguagem existe é pra isso, gosto quando alguém sabe descrever um lugar me fazendo sentir parte dele. Sobretudo quando não tenta "convencer-me", mas inspirar-me. É difícil errar quando se esrceve assim. São muitos os que levam seus leitores a imaginarem-se autores do que lêm, a assumirem o papel de protagonistas, como se passos, histórias e descobertas fossem do leitor, não de quem os descreve. E a motivá-lo. Eu faria uma longa lista de autores com tais capacidades, mas a encerro breve para não entediar o leitor. Então, entre os que li e gosto e os que preciso ler eestou certo de qye valerão a pena, destaco os excepcionais e fundamentais para quem pretende orientar-se no que seja a boa escrita, os que seduzem com as palavras: William Dalrymple, Tziano Terzani, Paul Theroux, Bruce Chatwin, Jack Kerouac, Nick Tosches.

                QUALQUER dia eu volto aqui pra contar sobre Riga, esse inesperado tesouro Báltico, um sonho de cidade. Saudades, Riga!

Segunda-feira
Out132014

Letônia sob as cores do Outono

INTRODUÇÃO - Se eu voltasse a Samarkanda...

Às margens do Lago Galvė, em Trakai, Lituânia, as cores do Outono

                 SE apenas a vontade determinasse a escolha do destino nessa escapada, teríamos ido ao Sri Lanka. Talvez à Mongólia ou mesmo a Zanzibar. Ou então a Berlim, Budapest... Quem sabe até a Samarkanda, a inesquecível pérola da Rota da Seda. Todo mundo tem sua lista de desejos. Nós também. Por isso não nos faltam lugares que desejamos visitar. Novos ou a rever. Uma vez fizemos a nossa, anotamos os países que sonhamos conhecer. Os possíveis, claro. A lista somou uns quarenta além dos que já visitamos. Nela dividimos destinos entre “longos” e para “escapada”.

Antes do Inverno chegar, ainda se pode voar de Balão sobre Vilnius

                 Estônia, Letônia e Lituânia - ou intimamente, Lietuva, Latvia e Eesti - estavam entre os mais interessantes para a estação, acessíveis às nossas pretensões e cabiam como uma luva para uma escapada. São pequenos, acessíveis, ainda guardam seus mistérios e proporcionam boas surpresas turísticas. Tirando o óbvio - o prazer do divertimento -, viajar proporciona felicidade, prazeres que continuam muito tempo depois que a viagem acabou. Mas eu não poderia imaginar que esta seria uma viagem tão proveitosa. Especialmente pelo bate-e-volta a Helsink e a caminhada por Frankfurt nesta escapada de Outono.

  

                 Parte da tarde até o início da noite passamos em Frankfurt. Voamos Lufthansa (*1) e pousamos às 14:45 na cidade alemã. Nosso vôo para Vilnius seria às 20:25, tínhamos então, três a quatro horas para uma escapadela à quinta maior cidade da Alemanha. Um convite a sairmos do aeroporto. Pegamos um trem na enorme estação (S-Bahn) do enorme aeroporto, próxima da área de desembarque do terminal 1, onde chegam os vôos do Brasil, Compramos dois bilhetes na máquina de auto-serviço ao preço de cerca de 4,00 euros. Pegamos o trem S8 (há também o S9) que para nas plataformas 1 a 3 e seguimos até a Hauptbahnhof . Chegamos em 15 minutos à estação de trens de maior movimento da Alemanha e passamos um surpreendente sábado na cidade.

Em Outubro o frio ainda é suportável e as cores quentes

A Barroca Vilnius, primeira Capital  dessa "Nova Europa" __________________________

                 Depois do desembarque e recuperação das bagagens seguimos para a cidade, que tarde da noite me pareceu monocromática, desbotada, quase desoladora, uma reminiscência soviética que eu não imaginava encontrar.  Mas logo chegamos à Cidade Velha, e então Vilnius me pareceu atraente, bem cuidada, algo intrigante. No maior centro histórico em estilo barroco por essas bandas do planeta, nomeado Patrimônio Mundial pela UNESCO, fica o Kempinski Hotel Cathedral Square (*1). A elegância é notável por fora. E àquela hora lhe destacava uma bela iluminação. Todavia ainda não sabíamos que localização era sua melhor virtude. Àquela altura, quase uma da manhã, eu só pensava numa deliciosa cama e dormir umas horas até a manhã seguinte.

                   Vinte e três anos se passaram desde que a Lituânia declarou-se desanexada da URSS e uma república nova. Aqui e ali há lembretes (ou cicatrizes), do teror soviético, mas são muito pouco perceptíveis. Muita coisa mudou desde então, e mesmo numa curta estada pudemos conhecer bem suas histórias antiga e recente. O Lonely Planet a descreve como “bizarra, linda e encantadora”. Mas a capital seduz seus visitantes com sua surpreendentemente barroca cidade velha, repleta de torres das igrejas ortodoxas católicas, tão importantes que a Unesco a declarou patrimônio da humanidade.

                    Seja vista do alto de sua colina, no nível das ruas ou do topo de uma torre de igreja, Vilnius é inequivocamente uma cidade de grande beleza. Ainda que discreta. Sua mais notável característica, todavia, é não ser turisticamente deturpada. É pequena, de tal modo que é fácil explorá-la a pé. É silenciosa, cidade, limpa, bonita. O trânsito é discreto. Quase não se ouvem buzinas. Para turistas numa escapada cidades compactas são ultra apropriadas para explorar. E desde que a Lituânia não faz parte da zona do euro, tudo é incrivelmente barato.

                  Estávamos às portas da Cidade Velha. Prontos para explorarmos suas ruas estreitas, igrejas, museus, cafés e restaurantes. Não é possível ao visitante notar o quanto os três pequenos países, ainda que vizinhos, sejam tão diferentes entre si. Por inúmeras e complexas razões. Aqui os soviéticos parecem ter deixado um legado arquitetônico bem menos óbvio do que em Riga, por exemplo, como veremos numa outra matéria, ainda que em todas a arquitetura seja o que melhor expressa a personalidade das três capitais.

                 A propósito da história, a fundação da cidade deve-se ao sonho profético do grão-duque de Gediminas, que reinou no século XIV. Um lobo de ferro apareceu-lhe no alto de um monte e ele procurou um padre para que lhe explicasse a alegoria. A resposta do religioso foi “construa um castelo e uma cidade no topo do monte”. E ali até hoje existe a ruína do que foi o Complexo de palácio e castelo, um dos cartões postais de Vilnius, ainda que realmente pouco atraente, a não ser pela vista que proporciona. Como algumas cidades medievais, há resquícios de muralhas que a rodeavam e protegiam, mas é no centro histórico onde concentra-se o que ela tem de mais atraente: seus mais de 1500 edifícios de estilos que vão do barroco ao renascentista, entre eles o gótico e o clássico.

                   Vilnius parece tão amigável, calma e descontraída que é fácil esquecer sua história tumultuada, os muitos ataques que sofreu desde o século XIV. Nos anos dourados chegou a ser capital de um poderoso império antes de ser novamente invadido, desta vez pela Rússia. Napoleão também andou saqueando Vilnius. Foi em 1812, antes que os russos a tomassem novamente. Os alemães ocuparam a cidade durante a segunda guerra mundial, mas antes a Rússia foi lá e a incorporou à antiga URSS. O país finalmente alcançou a independência em agosto de 1991.

                 Como em boa parte desse pedaço do Velho Mundo, as pessoas não são muito extrovertidas, ainda que simpáticas, sobretudo educadas. Sobretudo por sua notável discreção, elegância e elogiável característica de falarem baixo. O custo de vida turístico é muito atraente. E a gastronomia é relativamente fraca, especialmente comparada a Riga e Tallinn. Para os apreciadores de café, como nós, os países bálticos são uma festa. Há inúmeros bons e simpáticos cafés para saborosas paradas entre uma exploração e outra. Provavelmente o dia de qualquer turista começará visitando uma de suas igrejas.

                  É o que mais há para se visitar em Vilnius. Parece haver mais igrejas por metro quadrado de cidade do que na Bahia. Mas sabe-se que são 28 nesta parte de Vilnius, 21 delas católicas romanas e 4 ortodoxas russas. O restante fica entre as de comunidades luteranas e outras. Há também uma sinagoga. Havia muitas, hoje só uma. Infelizmente, como sabemos, neste lado do mundo os judeus padeceram e foram perseguidos e exterminados. Mas uma vez na cidade não se pode negar que os lituanos sejam profundamente religiosos.

                   Algumas entre as mais importantes igrejas da Cidade Velha foram fechadas durante a ocupação soviética, entre elas as de São Nicolau, de Santa Teresa, do Espírito Santo e de Santana, além de todas as ortodoxas russas (exceto a Paraskeviya). "Fechadas" quer dizer "proibidas celebrações de missas". Quase todas são muito bonitas, bons exemplos de arquitetura e ornamentação, a despeito dos diferentes estilos. A cidade tem outros encantos que revelam-se numa simples (mas longa) caminhada exploratória, mas é impossível deixar de esbarrar em suas igrejas.

                  Na Rua Stikli, por exemplo, fica a Igreja de São João. Além da visita, vale uma subida ao topo de sua torre para uma vista panorâmica da cidade antiga, diferente daquela do do morro do castelo. Há também dois museus, o do Holocausto e o das Vítimas do Genocício, chamado Museu da KGBE também o Palácio Presidencial, o Complexo do Castelo, a Torre Gediminas e o Palácio Real. A Porta da Alvorada (Gate of Dawn) é um dos principais pontos turísticos da cidade antiga. Onde também ficam a Prefeitura, a Rua Pilies e a Vikieciu Gatvé.

A curiosa República de Užupis     ________________________________________________

                 Užupis é um curioso “bairro” de Vilnius, próximo à Cidade Velha, do outro lado do Rio Vilnia. É lugar de artistas, o que frequentemente leva a quem o descreve como "Montmartre da Lituânia". De fato há galerias de arte e artistas plásticos como no bairro parisiente, além de cafés de restaurantes, mas sua maior particularidade é que Užupis auto-proclamou-se uma república independente. Foi em 1997. Nomearam-na Nepriklausoma Užupio Respublika.

                 Na época da dominação soviética consideravam Užupis um bairro perigoso, de periferia. Hoje tem governo, bandeira, hino, parlamento, constituição e moeda próprios. Até um exército, composto por onze homens. Todos ministros de estado! Não se tem notícia que alguém (além de seus habitantes) que reconheçam sua legitimidade.

 

                 O presidente de Užupis, por outro lado, diz que o cidadão uzupiense "tem direito a ser indistinto, incompreendido e aceitar sua pouca importância", reservados que são, talvez por terem sofrido tantas atrocidades. Vale a visita. Sobretudo divertir-se lendo a inusitada constituição. 

 Trakai      _______________________________________________________________________

                 Nenhuma visita à Capital fica completa sem uma ida a Trakai. São apenas 28 quilômetros de distância. Há ônibus em diversos horários entre ambas e o trajeto leva cerca de 30 minutos. É um dos bonitos castelos da Europa, uma espécie de balneário à beira do Lago. O castelo fortaleza é um dos poucos que situam-se numa ilha, e a ele tem-se acesso por uma longa ponte de madeira. É bem mantido, tem salas de exposições e eventos artísticos durante o ano, especialmente no verão, onde acontecem torneios típicos da era medieval.

                 Entretanto uma visita à pequena vila de Trakai me pareceu bem menos turística, curiosa e atraente que ao castelo. Em charmosas, aparentemente aconchegantes casas de madeira, viviam os caraítas, turcos que chegaram aqui desde a Crimea no fim do século 14 para serem  guarda-costas de Grão-Duque Vytautas. Há um pequeníssimo museu dedicado aos caraítas que vale a pena a visita. Na mesma rua há um restaurante famoso, o Kybynlar, tocado por uma família local, que serve o kibinai, um pastel de forno recheado com carnes diversas.

  

                 Saímos de Vilnius com uma leve impressão de que jamais nos esqueceríamos dos bálticos, que ao final, em Tallinn, tornou-se uma certeza.

NOTA:

(*1) Para evitar qualquer mal entendido, aqui não tem jabá, mas honestidade, ética e transparência. Acima de tudo. Profissionalismo não, porque este é um blog amador. Ainda assim não é suportado por nada, nem por ninguém além de mim. Não recebo 'brindes' em troca de cobertura positiva para o que quer que seja, minhas viagens são auto-financiadas e os produtos e serviços aqui mencionados são feitos por liberalidade minha, sobretudo não têm conhecimento dos mesmos. E mais, não são recompensados de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação. Cada produto ou serviço aqui mencionado é feito com a suposição de que o leitor saiba identificar os objetivos do blog. E que verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão. Da cia aérea aos hotéis citados.

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 A seguir:

 A elegante Riga e o maior conjunto de ediufícios Art nouveau da Europa

Quinta-feira
Out022014

VIVA a Internet! (e o fim do Orkut e o nascimento do Ello)

                 O Google anunciou o fim do Orkut. Foi anteontem, 30 de setembro, após dez anos de vida. O prazo de validade estava vencido há tempos. Deixa alguns órfãos, mas é claro que a maioria já esperava (ainda que sempre tenha gente que aposta a vida afirmando que redes sociais e blogs durarão pra sempre). Os que dizem isso provavelmente são os que mais contribuem para o contrário. Acabam sim. Tanto quanto outros nascem. Agora é do Orkut morrer e da Ello surgir. A novíssima rede social - "Simples, charmosa e sem publicidade", como a definem seus criadores - como não poderia deixar de ser, já está "causando" na Internet (que nova rede social não causa furor na Internet?). Essa dizem que é um pouco diferente: não terá publicidade, mas será paga. Quem quiser participar deve escrever um e-mail e esperar resposta, para então criar sua conta. O interesse foi tão grande que a empresa chegou a receber 31 mil pedidos por hora(!). O tráfego foi tanto que o site teve que ser tirado do ar. (*)

                  FACEBOOK eu tenho. Uso pouco, mas tenho. A maioria esmagadora de meus contatos é composta por familiares e amigos. Gente que conheço. De fato. E tem sido muito bom poder compartilhar fotos e dar notícias a meus amigos e familiares enquanto viajo, poder manter contato com qualquer pessoa, não importa onde ela esteja. As tecnologias tornaram o mundo menor, é verdade, mas muito melhor. Desde que comecei a viajar a tecnologia mudou tanto o modo de viajar que parece queo que eu fazia efetivamente não era viajar. Hoje posso reservar um hotel, comprar um bilhete de avião e alugar um carro com alguns cliques e sem sair da cadeira. Dicas e relatos de viagem existem aos montes na Internet.

                  NÃO tiro fotos com smartphone, mas faço milhares delas com uma câmera fotográfica digital profissional e acabo de comprar uma filmadora GoPro3, com a qual espero ingressar na era dos filminhos de viagens. Sou usuário frenético da Internet. Confesso: eu não saberia viver sem ela. Sem TV, sim. Especialmente as de canal aberto.

                  DIA desses li um artigo de Paco Nadal, um viajante-turista-jornalista-escritor espanhol. Ele escreve sobre viagens para o jornal El País, e no seu artigo relacionava as coisas que fazíamos em viagens antes da era digital. Achei bacana ele me fazer lembrar que mandávamos postais, telefonávamos pra casa em telefones públicos, líamos um livro ou uma revista enquanto esperávamos na sala de embarque de um aeroporto, fotografávamos com filme e gastávamos uma "nota preta" para revelá-las e ampliá-las em papel. Torturávamos amigos com intermináveis (e chatíssimas) seções de projeção de slides e e de filmes em super-8, tomávamos o maior cuidado pra não perdermos o bilhete físico do avião (caso contrário não embarcávamos), comprávamos passagens aéreas e reservávamos hotéis em agências de viagens, consultávamos mapas de papel e desfrutávamos da aquele pôr-do-sol plácidamente.

                  ERA bom. Sim, era bom, mas hoje é bem melhor. Talvez a única coisa desse passado analógico que a maioria continue a gostar são os guias de viagens impressos. Segundo Nadal mesmo nos diz, ele também não consegue largar "El placer orgásmico de tocar y sobar una guía en papel, el subidón de la libido que produce apuntar mis observaciones en los márgenes, el cosquilleo lascivo al verlas en los estantes y recordar aquel viaje…. no lo supera ninguna fría, frígida y anoréxica guía digital."

               HOJE escrevemos em blogs. Há trilhões deles. E como são bons os blogs. E fotografa-se loucamente (com o celular!). E bem antes de curtir aquele belo espetáculo da natureza - o pôr-do-sol - manda-se instantaneamente a foto para o Instagram (tem que ser na hora, senão não tem graça). E não temina aí a dependência virtual: logo depois "corre-se" pro Twitter pra avisar os seguidores que acabou de postar a tal foto no Instagram. Sobre aquele pôr-do-sol que acabou de perder.

                   NÃO sou um indivíduo tão digital quanto alguns possam supor, ainda que mantenha o blog FATOS & FOTOS de Viagens desde 2006. Posso até ser considerado um entre os pioneiros da blogosfera de viagens. Afinal, lá se foram quase nove anos! Quem diria?... Mas sou muito entusiasmado com as tecnologias. Especialmente as eletrônicas e digitais. Tanto físicas quanto virtuais. Da fotografia aos notebooks. Mas não gosto do Instagram. Nem do Google+, do Pinterest e de outras redes sociais. Simplesmente porque elas estão acabando com os blogs de viagens. Ninguém mais quer ver um blog. A moda é ler (e postar) dinâmicamente. No máximo 140 caracteres, como no Twitter. E fotos, como no Instagram. E mensagens curtas, como no Face. É o que basta à cultura do curto prazo. A mesma que a maioria dos blogueiros incentiva e segue. Muitos por ingenuidade (não sabem o que fazem, acreditam verdadeiramente que a atitude incrementa o interesse e a audiência em seus blogs). Outros o fazem por oportunismo. Mas todos incentivam (sabendo ou não), o desinteresse crescente pela blogosfera e incentivo ao gosto pelo superficial, pelo ocasional, pelo rápido e rasteiro.

                   MUITOS blogueiros com boa intenção quando criaram seus blogs produziram material de qualidade, tinham comportamento genuíno. Alguns, todavia, ficaram tão neuróticos com a busca pela audiência, por rankearem-se bem no Google que não perceberam que o que faziam nada mais era do que detonar suas plataformas. Boa parte porque pensou em ficar rico da noite pro dia. Não sabem a diferença entre oportunismo e oportunidade. Seguem a coletividade, agrupam-se em associações, usam e abusam da cultura de curto prazo, dedicam tanto ou mais tempo aos seus "memes" (provavelmente mais do que aos seus blogs), produzem textos cada vez mais pobres e conteúdo mais superficial, entopem a blogosfera com conteúdo fútil e irrelevante, tornam a blogosfera cada vez mais "vendida", enfim nessa gaiola das loucas que tornam-se os blogs-vitrine, piscantes de anúncios e conduzind a blogosfera à derrocada. É mais do que claro que a queda de interesse na blogosfera é bem mais reflexo do comportamento dos blogueiros do que dos internautas. Se a maioria dos leitores de blogs prefere hoje ler memes em vez de um artigo de qualidade, ver fotinhas e textinhos no Twitter e no Instagram, é porque os próprios blogueiros disseminaram como vírus a idéia de que isso traria audiência aos seus blogs.

                APROVEITO a oportunidade para elogiar a blogosfera que continua a fazer um trabalho sério, desprendido, de boa qualidade, generoso, sem vinculo com a indústria do turismo, confiável, não vendida: destaco o Viajar pelo Mundo - da Claudia Liechavicius -, o Viaggio Mondo - da Fê Costa -, o Álbum de viagens - do Vinicius Buccazio e Marcelo Schor, cujas viagens também são “efetivamente feitas pelos autores ou seus convidados, pagas pelos próprios”, o Vou sair pra ver o céu, do Davi Carneiro, fonte de inspiração de como escrever, onde o jornalista de viagens diz que suas "prioridades são as narrativas, vídeos, fotos, reportagens, jornalismo e literatura de viagens", o Vagamundagem do Gusti Junqueira. Mas a esses não se restringindo, porque ainda há muitos blogs decentes.

(*) Fonte: BBC News - http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/…/09/140930_ello_rp

Segunda-feira
Set292014

REFLEXÕES de um turista que não gosta de cerveja

                 OLHA que eu não gosto de cerveja! Ainda mais, quente. Que dirá etíope. Mas em Konso, um lugar perdido no meio do nada (do nada da Etiópia!) eu percebi que são experiências assim que fazem valer as viagens. 

                 VIAJAR não requer prática ou habilidade. Bastam algum dinheiro, disponibilidade e desejo. Já não há um só lugar no mundo onde algum turista já não tenha posto os pés. Nem pra onde não se possa ir. Até onde há confitos e riscos de guerra. É sempre possível chegar lá, basta querer (e para alguns lugares, ter coragem). A cada dia tornam-se mais fáceis as viagens. Não importam de que tipo, gênero ou modalidade. Pra cada uma há um desejo e um objetivo. E toda viagem vale quando é feita por desejo. Mas eu me refiro às de quem não viaja pra descansar, senão por exploração, aventura, descoberta, conhecimento. Sobretudo experiências antropológias e sociais. Viagens para quem atravessa estradas poeirentas, hospeda-se onde der (porque não há outra opção). E porque o objetivo é conhecer o destino, custe o que custar. O resto é circunstância.

                MAS ouso dizer que se viagens trazem conhecimento, nem sempre proporcionam sabedoria. Como disse Phil Cosineau (*) (um cara que entende como ninguém do assunto), há um paradoxo nas viagens: "quanto mais fácil se torna viajar externamente, mais difícil se torna viajar sabiamente.", porque em nossas aventuras "corremos o risco de ficarmos com muitos quilômetros voados e carimbos no passaporte, mas perdermos sabedoria, ainda que ganhemos conhecimento. "A diferença está entre ser um viajante atento e um negligente, entre um banal e um inspirado." É a diferença entre ler e aprender e ler e ficar boiando. Nada menos sutil nem contundente. Então, um bom turista-viajante não se aborrece com as diferenças culturais, mas as admira e respeita (ainda que lhe seja reservado o direito de discordar e não apreciar a comida diferente, a falta de sua marca de refrigerante, a má qualidade de um hotel ou serviço ou constatar que ninguém fala sua lingua).

                E eu? O que sou? Um "turista" ou "viajante"?

                Já escrevi sobre o assunto aqui no Fatos e Fotos de Viagens. Foi em 2009. Mas ele é recorrente. Para mim e na blogosfera. Volta e meia alguém resolve refletir e escrever sobre o tema. Não fui o primeiro, nem serei o único. Mas há cinco anos eu dizia que se é comum aos seres humanos classificarem outros segundo seus diferentes modos de conduta social, nem sempre o intuito se justifica. Sobretudo porque frequentemente cria estereótipos. Pior, esbanja superficialidades. Classificar a complexidade humana em categorias - seja em qual gênero for - quase sempre dá nisso. Então, quando no âmbito dos escritores de viagens me deparo com quem escreve contrapondo "viajantes" e "turistas", promovendo a idéia de que há tipos de viagens e de viajantes mais autênticos, sérios e importantes do que outros, isso só mostra o quanto alguém que defende a idéia é arrogante. Ou, no míimo, tolo, porque não sabe o que diz. Em última análise, a retórica só distingue os diferentes egos e vaidades humanas. É claro que há hábitos e comportamentos melhores ou piores em viagens, mas não é isso o que difere um "turista" de um "viajante", senão um "bom" de um "mal", ou de um bem educado ou não. 

                 EU mesmo sou um turista. Turista crônico! Acho muita prepotência qualquer turista avaliar-se explorador” ou "aventureiro" apenas porque é muito viajado. Quem diz isso é esnobe. Aventureiro é outra coisa. Sobretudo é tolo o turista que se envergonha de ser chamado de “turista” porque acha-se “viajante”. Ainda que o tolo viaje a turismo. Gente assim, mesmo com todo seu conhecimento, experiência e esclarecimento, torna-se vítima de sua própria vaidade: fica arrogante, pretensioso, vira um falastrão “cagador de regras”. Turista é o viajante qu viaja por gosto, escolha e a turismo. Não importa o estilo. Nem pra onde. Se mochileiro ou de luxo, se aventureiro ou para lugares batidos. Quem viaja porque gosta, e por lazer, é um turista viajante. Importa menos ainda classificar quem viaja melhor ou pior. Não importa se ele é nômade ou se viaja uma vez por ano, se num estilo errático ou programado, se para descobrir países como Quirguistão, Benin, Burkina Faso, Mianmar e Irã, ou se para Paris, Barcelona, Nova York ou Orlando. Será sempre um turista quem viaja a turismo. É prepotência julgar e classificar pessoas achando que todas as outras devam ter apenas um modo de viajar: o de quem as define ou julga. E também as que tentam dizer às outras os lugares que devem ir. Nada soa tão pretensioso nem arrogante quando alguém, na condição de turista, afirma não gostar de turistas enquanto viaja, que lugares turísticos são desprezíveis, que envergonha-se de estar entre turistas e que odeia excursões, cruzeiros e coisas afins.

                 Eu sou turista. Definitivamente sou turista. Mesmo quando estou “onde Judas perdeu as botas”, no meio do nada, no Burkina Faso, na Disney ou dentro de um navio de cruzeiro no porto mais manjado do Mediterrâneo. A curiosidade de quem viaja é igual pra todos. Porque simplesmente todas as viagens são dirigidas pela vontade de conhecer outras culturas, pessoas, mentalidades, sistemas políticos, modos de vida, religiões ou seja lá o que lhe apeteça.

(*) Em "A arte da peregrinação: para o viajante em busca do que lhe é sagrado". http://www.philcousineau.net/

Terça-feira
Set232014

As Cascatas do Nilo Azul, Bahir Dar e os Mosteiros do Lago Tana, Etiópia

INTRODUÇÃO - Etiópia: para viajar, olhar e pensar     __________________________

                EU fotografava a ponte pênsil sobre a garganta do Nilo Azul enquanto uma família etíope a cruzava; vinha de longe, e por certo percebera que eu os registrava desde o começo de sua longa travessia. Ao final, pararam na cabeceira da ponte, fizeram uma pose coletiva, sorriram pra mim e bati a última foto deles. Mesmo surpreso com a simpatia e espontaneidade, esperei que me pedissem dinheiro. Afinal, eu já estava acostumado com isso depois de uns dias no país. Então eles passaram por mim, continuaram seu caminho e me disseram "hello, faranji!" (alô, estrangeiro!), me deram um último sorriso e despediram-se. Não pediram nada. Nem mesmo para verem o resultado da foto na câmera. Foram assim nossos dias na Etiópia, tornando óbvio o quanto o país é encantador, especialmente quanto mais receptivos éramos a ele. São dessas coisas que a gente só descobre viajando. Afinal, mesmo que pensemos o contrário, o mundo é como ele é, não como o imaginamos ou nos preparamos para vê-lo. E em todas as suas imensas variações.

                  QUEM viaja assim - para divertir-se -, percorre meio caminho para ser feliz em viagens. Quem não rejeita a comida, ignora os costumes, se aborrece com tudo e não evita as pessoas, percebe o mundo como ele é:  mergulhando na cultura. E vestidos!, "molhando" o corpo e a mente.

                  PENSAR sob os efeitos dos estereótipos, nem pensar. O bom turista embarca e não se aborrece com as diferenças culturais. Ao contrário, mas as admira e respeita, ainda que lhe seja reservado o direito de discordar e não apreciar a comida diferente, a falta de sua marca de refrigerante, a má qualidade de um hotel ou serviço ou constatar que ninguém fala sua lingua.

Mesmo quando as trilhas eram difíceis, éramos recompensados com alguma nova beleza ou experiência

                  VIAJAR para a Etiópia significa viver uma realidade desconfortável, é verdade. Mas compreendendo-as como inerentes às viagens àquele país, tornam-se perfeitamente contornáveis. Quando nos prepararmos para destinos assim, e disponibilizamos nossas melhores doses de paciência e abstração, as horas incômodas passam bem mais rapidamente. Creio que devam me entender os que viajam por decisão, por prazer, por escolha e diversão.

                 VIAJANTES apaixonam-se pela Etiópia por muitas razões. Sobretudo porque é um país de curiosidades exóticas, destino inusitado, perfeito para quem viaja sabendo que não vai em férias convencionais, mas para experiências soberbas. E que voltará premiado com riquezas turísticas em qualidade e quantidade surpreendentes. E por experiências e encontros transcedentais. É um dos motivos porque considero a Etiópia um destino tão subestimado. E também porque jamais a esquecerei. Digo mais: se você pensa em algo exclusivo no continente africano, pouco influenciado pelo ocidente, jamais colonizado, deve desejar a Etiópia.

              NÃO por menos uma das estrelas em ascensão no turismo internacional, dito de "aventura", mas que todavia nada tem de aventureiro. Uma vez lá, descobre-se um país com muitas atrações, de ruínas antigas a tribos isoladas, da cultura à religião, da comida às etnias, das montanhas às florestas, da arquitetura à cultura popular. E se viagens são tão mais atraentes quanto surpreendentes os encontros e descobertas, a Etiópia cumpre bem seu papel: é única. Portanto, incomparável. Onde a tal "sensação de singularidade" é tão presente que somos recompensados naquilo que nem supomos ser em viagens: na vida.

                 HÁ mosteiros ancestrais de uma religião exclusiva, nascida bem antes de a Europa ser cristã: a copta etíope, que chegou ali por via independente na época do império axumita, cuja capital ficava em Axum, e onde seus reis acreditavam-se descendentes do rei Salomão e da rainha de Sabá. Bastam uns dias no país para o visitante perceber que a história etíope é assim, marcada por mistérios e lendas, sobretudo religiosas e mal contadas. 

                  AS antigas igrejas e retiros monásticos do Lago Tana são apenas mais um entre os muitos lugares que um turista poderá ouví-las. Eu já estava preparado para qualquer nova excentricidade histórica, social, cultural, natural e geográfica, especialmente depois de visitar o Sul, o Vale do Rift e as Tribos do Omo. Então, a 40 quilômetros da pequenina Bahir Dar, onde chegamos de avião desde Adis Ababa, conhecemos o Lago Tana. O fabuloso lago, maior da Etiópia, fonte do Nilo Azul, com 37 ilhas onde em algumas há mosteiros ornamentados com belíssimos afrescos até hoje não bem interpretados. Isolados do mundo por séculos, também são únicos, do desenho à religião, do partido à ornamentação.

Decolamos de Addis Ababa para Bahir Dar e logo estávamos sobre o Lago Tana

 OS Mosteiros do Lago Tana     _______________________________________________

                 DEPOIS do sul, onde conhecemos um lado muito diferente do país, com tribos entre as mais expoticas do mundo, no remoto Vale do Omo, fomos para o norte, o lado histórico montanhoso e verdejante, onde ficam os Castelos de Gondar, Aksun e Lalibela, as montanhas Simien e o lago Tana, por onde navegamos pra uma pequena ilha com um mosteiro que até hoje parece esquecido pela civilização.  

                 AS ilhas do Lago Tana abrigam cerca de 20 dessas igrejas monásticas. Muitas delas são do século XIV, do reinado de Amda Tsion, embora a algumas atribuam idades mais avançadas, como a Narga Selassie e a Metseli Fasilidas, do período de gonderino. Mas como toda história religiosa na Etiópia é mística e de lendas, não se sabem exatamente as idades dos sete dos mosteiros mais importantes. Provavelmente são do século XIV. Ornamentados com belas e curiosas pinturas, são enciclopédias visuais históricas que contam muito da cultura religiosa da época.

                 SETE dos mais acessíveis, que ainda servem à sua função original são Kebran Gabriel, Ura Kidane Mehret, Narga Selassie, Daga Istafanos, Medhane Alem de Rema, Kota Maryam e Mertola Maryam. Muitos permaneceram desconhecidos até a expedição pioneira do Major Robert Cheesman, primeiro europeu a visitar todas as ilhas no Lago Tana em 1930. Tudo foi documentado no livro Lake Tana and the Blue Nile: An Abyssinian Quest, em 1936. Arquitetonicamente, todavia, são extremamente simples, nada comparáveis em complexidade e dificuldade aos mosteiros de rocha talhada de Lalibela, tampouco aos do império axumita.

                VISITAMOS o Ura Kidane Mihret, que dizem ser o mais famoso. Não é facilmente acessível. Pega-se uma lancha na beira do lago de Bahir Dar e o destino é uma península a poucos quilômetros da costa, onde fica o mosteiro. É um agradável passeio de meia hora um pouco sacolejante, quase entediante, onde a vida que a gente vê passar é lenta. E respingada por água trazidas do topo das marolas que o vento produzia, pra dentro do barco. O barco atraca num cais e logo caminhamos por uima trilha estreito e com pedras e raízer através de uma densa floresta.

O telhado originais de palha foi substituído por outro mais duradouro: de folha de zinco ondulado

                DEPOIS, mais meia hora de uma boa caminhada por uma trilha entre a floresta. Eu não estava preocupado com o fato de a malária ser endêmica na Etiópia, especialmente Bahir Dar. Havíamos tomado medicamento recomendado por nosso médico antes de viajar e mantínhamos a dosagem prescrita durante a viagem. O que me preocupava era o fato de que o passeio, ou esforço para chegar até ali poderia não ser recompensado pelo que veríamos.

Rusticidade, caráter mais charmoso do templo Ura Kidane Mihret

               PASSAMOS por comunidades simplíssimas e então chegamos ao mosteiro. A visão que tivemos não foi nada encantadora, até me fez pensar que efetivamente eu me desapontaria. Mas tudo é tão notavelmente imperturbado pela civilização, tão ausente de modernidade, e o interior do templo é tão belo, a permanência tão serena, a ausência de turistas tão surpreendente que a experiência foi pra lá de positiva e prazerosa, sobretudo reflexiva.

                A história de qualquer mosteiro na Etiópia é complexa e profundamente calcada em misticismo e lendas. Mas as ornamentações são tão lindas, o clima tão sereno, que a visita a qualquer um deles adquire um significado excepcional. Sobretudo ao Ura Kidane Mihret, bem maior do que eu poderia supor quando chegamos ali.

Tiramos os sapatos, entramos no templo...

                 O silêncio era pleno, absoluto. A rusticidade encantadora. Ouviam-se apenas cantos dos pássaros. No interior, o silêncio parace orientar a atenção para as paredes, belíssimamente ornadas. Cada qual tem pinturas religiosas que representam passagens bíblicas, dizem que a maneira de transmitir aos fiéis nem sempre letrados as mensagens religiosas. Nem todas serenas e pacíficas. Há algumas cenas cruéis de cabeças cortadas, jugulares jorrando sangue, membros sangrando, cadáveres, pessoas penduradas de cabeça para baixo, soldados com rifles. 

Então o que era simples ficou pra fora. Dentro, uma profusão de magníficas pinturas ortodoxas etíopes invadiram nosso olhar...

                TODOS os personagens pintados de frente têm feições etíopes com grandes olhos negros. São os cristãos. Os de perfil eram os infiéis. E por trás dos painéis - onde fica o maqdas, lugar que abriga os tesouros dos mosteiros - só têm acesso os religiosos, especialmente manuscritos e peças de arte eclesiástica, objetos reais e outros valores.

                A visita, enfim, é uma experiência. O mosteiro é afastado de tudo e o que é original, ambientalmente falando, está preservado com pouca intervenção humana. Faz sentido. Se alguém escolhe passar a vida retirado num mosteiro, nada melhor do que fazê-lo num lugar tão sereno quanto o centro dessa ilhota no meio do imenso Lago Tana. Que dizem ser assim há pelo menos quinhentos anos.

                UM magnífico tesouro de belas obras de arte contidas atrás de portas misteriosas nos levou à ilhota em algum lugar daquele imenso lago de 2.156 km². A beleza das pinturas ornamentais do templo, ainda que se possam encontrar semelhança com a de outros, no Ura Kidane Mihret suas cores são mais vibrantes. E cada centímetro de parede é decorada com essas pinturas de cenas bíblicas que podem ser entediantes do ponto de vista religioso para um ateu, mas extremamente impressionáveis sob o ponto de vista de um amante da arte.

               AINDA mais especialmente as que representam São Jorge, o padroeiro do país. Por fora a construção é extremamente rústica: adobe e pau-a-pique sob telhados de zinco. Por dentro a rusticidade permanece, mas é disfarçada pela belíssima decoração. E é a serenidade que acompanha o visitante que marca sua passagem por ali. Seguramente o Ura Kidane Mihret é um dos mais bonitos templos religiosos que se pode visitar na Etiópia. E não são poucos no país. Ficamos cerca de meia hora e saímos certos de que valeu a pena cada minuto do esforço para chegar até lá e voltar.  

AS Cascatas do Nilo Azul    _________________________________________________

                 SAÍMOS de Bahir Dar para visitar as cachoeiras do Nilo Azul. Oficialmente chamam-nas cascatas Tis-Isat neste braço do Rio Nilo que aqui chama-se Azul. Mas não tem nada tenha a ver com a cor: a água é castanha, cor dos sedimentos que lá embaixo no Egito tornam as terras tão férteis. Esta parte do Nilo tem origem no Lago Tana, de onde flui por cerca de 30 km antes de precipitar-se nas cataratas do Nilo Azul, descendo dos 1830 metros de altitude do Lago Tana, por uma série de vales e cânions segue até Cartum, no Sudão. Ali junta-se ao Nilo egípcio e segue seu curso até o Mediterrâneo. A parte onde se começa a trilha  a pé para ver as cascatas fica às margens da cidade Tis Abbay.

                 AS Cataratas do Nilo Azul valem a visita. Só isso. Não espere encontrar estrondosas quedas dá água como as de Foz do Iguaçú, mesmo em época de seca. As águas minguaram desde que em 2003 construiu-se uma barragem rio acima. Mas estamos no Nilo. e isso muda tudo. Depois de deixarmos a aldeia e cruzarmos o rio numa barca, seguimos uma trilha que serpenteia campos cultivados até chegarmos às cataratas. Não nos impressionamos nem com o tamanho nem com o volume d´água. Mas é a fonte do Rio Nilo, que fornece 85% do fluxo de água do rio mais longo do mundo. E a despeito de seu volume reduzido aqui, ainda tem lá sua beleza, nos leva a imaginar sua imponência original. Toda a área que a cerca é linda. E não é todo dia que a gente conhece um lugar como esse. Até que tivemos sorte, havia razoável volume de água fluindo...