MENSAGEM ao LEITOR
BIO

BEM-vindo!

        Sou brasileiro, empresário, casado com a doce Emília do blog "A Turista Acidental". Estamos grávidos de gêmeos, que nascerão em julho próximo, e embora isso nada tenha a ver com um blog de viagens, tem muito com o futuro deste aqui.

     Tenho 63 anos, boa parte deles dedicados à família e ao trabalho. Aos 35 comecei a viajar internacionalmente. Desde então visitei 60 países, entre os quais alguns dos mais fascinantes e que abrigam  sítios dos mais admiráveis e encantadores do planeta. Felizmente, para alguns ainda quando ainda estavam a salvo do turismo de massa, cujos excessos arruinam qualquer lugar. Tornei-me blogueiro há nove anos quando descobri que amigos e familiares não gostavam muito quando eu lhes entupia as caixas de entrada com e mails recheados de textos longos e fotos mil. Foi a maneira que encontrei de mandar notícias e partilhar minhas viagens, em textos e fotografias, para quem quisesse e quando desejasse.

        Para alguns países retornei tantas vezes que tornei-me íntimo. Para outros, uma ou duas mais apenas, freqüência que ainda não me esgotou deles. Em cerca de 90 viagens internacionais, voei por 40 cias. aéreas diferentes (algumas extintas) em 391 vôos para fora do Brasil e dentro de outros países. Segundo o Haroldo Castro - jornalista-fotógrafo que já esteve em 160 países -, fazendo o teste "Viajologia" em seu site, que considera não só países visitados, mas lugares, monumentos e patrimônios, além de transportes, experiências e situações em viagens, alcancei "Mestrado em Viajologia". Mas isso não é nada. Ou quase nada diante de gente que tem pós-doutorado em viagens. Se eu conseguisse resumir definindo o que esses quase trinta anos viajanto significaram em termos de aprendizado, diria que foi perceber que quanto maior a flexibilidade de adaptação aos ambientes, mais e melhor consigo extrair deles, melhores tornam-se minhas viagens. Muitas, incontáveis marcas as viagens me deixaram. A simpatia e a humildade legítima dos birmaneses e dos uzbeques estão entre as mais inesquecíveis.

         Ainda que nada me pareça mais excitante que viajar, também por fotografar e escrever tenho gosto desde a infância. Então, fazê-los sobre viagens tornou-se natural. Publicar o que fotografo e escrevo, todavia, foi bem mais recente, desde março de 2006, quando inaugurei o Fatos & Fotos de Viagens. Lá se vão quase nove anos. Quem diria que duraria tanto!

         Esse blog é para inspirar e motivar o leitor a vajar e conhecer.  Mas não acredite piamente no que eu escrevo. Não porque eu não seja absolutamente franco e verdadeiro, mas por achar que você deve ir em frente com o seu desejo, conferir com seus próprios olhos, viver a sua experiência e concluir com suas próprias opiniões. Boa viagem!

        Muito obrigado pela visita e comentários.

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Fev112015

MOSCOU – Visita à velha senhora

INTRODUÇÃO – Do abstrato ao consistente, a viagem que tinha que ser  ______________

Catedral ortodoxa russa de São Basílio, Moscou. Tão colorida que lembra uma tela de Kandinsky

                 DE Atlântida a Shanadu, de sítios arqueológicos a comunidades primitivas, todos já devem ter sonhado com lugares mágicos. Tive os meus, e nunca esqueci deles. Ainda que vá longe o tempo em que resolveram me grudar na memória. Eu era garoto, razão de serem tão misteriosos, fossem verdadeiros ou imaginários. Eu os “conhecia” de muitas maneiras: livros, filmes, revistas, moedas, músicas e selos. Sobretudo pela a profusão de viagens de um tio querido. Moscou foi um destes. Imaginem! A União Soviética, há 50 anos! Um fruto proibido, fechada, misteriosa, inacessível, recheada de cidades das mais bonitas, tudo o que fazia dela um destino atraente, curioso e extremamente desejável.

              Meus pais gostavam de viajar. A partir dos oito anos viajávamos muito. Para Minas Gerais, sobretudo. Claro que eu ainda não pensava em conhecer o mundo, mas fazia lá minhas viagens cerebrais através dele. Concretamente, todavia, não chegava muito além dos duzentos quilômetros que separavam o Rio de Janeiro da fazenda da Tia Manu, em Bicas. Apesar de destino simples, eram viagens nada simplórias. E me puseram as primeiras sementes do gosto por viajar. Mal ou bem foi assim minha iniciação no mundo das viagens, o que me faz ter muito carinho por essas memórias.

               À parte as questões práticas (minha completa impossibilidade de viajar àquela altura da vida para lugares tão remotos), eu viajava nessas viagens cerebrais. Um estudioso do tema avaliaria o comportamento como um "fuga do plano concreto". E possívelmente me definiria como um "garoto estranho". Vá lá que eu "viajava" demais, mas convenhamos, é fácil definir superficialmente o valor simbólico de uma viagem para uma pessoa, o que elas podem representar, das mais amplas e variadas maneiras. Há tantos motivos pessoais sobre o que nos leva a viajar - do esotérico ao psicológico, das descobertas ao simples prazer de conhecer lugares distintos, do espiritual ao simplemente vocacional, por aventura, procura ou auto-conhecimento - que apenas um tratado daria conta de explicar.

              Sociólogos do turismo e psicólogos dariam melhor conta disso. Carl Jung, por exemplo, referiu-se ao simbolismo das viagens como “uma insatisfação que leva à busca e à descoberta de novos horizontes”. Insatisfação? Inquietude viajante? Jamais me senti assim. Hoje, era do turismo de massa, do mundo plano e reduzido, definições tais soam desconectadas da realidade, ultrapassadas, até mesmo para crianças, que ainda bebês aventuram-se pelo mundo como jamais poderíamos supor há 50 anos.

              Mas para um moleque daqueles tempos, viajar para a União Soviética era um devaneio, ainda que legítimo o desejo. O que me faz avaliar que mesmo os psicólogos erram, simplesmente porque suas definições não resistem ao tempo. A complexidade humana e seu comportamento são bem maiores do que as barreiras dos costumes de qualquer época. Como viajante, identifico-me mais com o que disse o poeta Baudelaire do que Carl Jung: “Viajantes partem por partir”. Simples, não?        

O tempo passa, e felizmente para alguns não deixa marcas

               Àquela altura, todavia, tudo não passava de sonho. Sonho de uma noite adolescente. Tudo remoto demais para um garoto. Entretanto, mesmo sabendo que sonhos não correspondem à realidade, de Moscou a Istambul - meus lugares então abstratos - acendiam a deliciosa descoberta: havia um mundo consistente, por vezes exótico, mas sempre grande e curioso, e bastante maior do que os dos meus sonhos, mais ainda do que eu via pela janela.

Praça Vermelha, a Catedral de São Basílio o Kremilin e o GUM

              Tanta vida já passou, fiquei adulto, comecei a viajar, vieram as rugas (poucas ainda) e no meu mapa já alfinetei 60 países e todos os Estados litorâneos brasileiros - do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte -, além de Minas Gerais.

                Assim como outros lugares de sonho, Moscou tornou-se uma "viagem que tinha que ser". E se já não preciso de muita inspiração, se viajar é um querer natural, há algo especial quando é para lugares de sonho. É como juntar as pontas, da infância com as de adulto, para tornar o abstrato em concreto, para então percebermos que não sonhamos em vão. Por bem o tempo não apagou os meu. Foi bom. Foi muito bom viver mais uma vez o encontro com algo tão desejado - Moscou e St. Petersburg - uma viagem que começo a contar.

  Primavera em Moscou. Os Jardins de Alexandre e os muros do Kremlin

                   Inverno ou Verão? Primavera! É quando os dias são limpos, claros, ensolarados, frescos, extremamente agradáveis. Moscou ou St. Petersburg? Ambas! Indiscutivelmente. Talvez nunca duas cidades tão grandiosas e diferentes de um mesmo país completem-se com tamanha harmonia.

 

Moscou ou St. Petersburg? Ambas! Indiscutivelmente

 MOSCOU   _______________________________________________________________________

                 A velha senhora está incrivelmente preservada. Não sei se mudou tanto nos traços fisionômicos, apesar da idade. Na personalidade sim, em quase nada lembra o cinzentismo soviético, os arranha-céus stalinistas, os desfiles comunistas no palco do poder russo - a Praça Vermelha -  símbolos da União Soviética dissolvidos no ar da história em 1991. Muito menos aquela elegante senhora nos faz recordar da Revolução Russa, que deixou-a completamente sem recursos. Mas a história de Moscou - de Pedro, o Grande, a Lenin e Stalin - dá à cidade a imagem grandiosa que ostenta orgulhosa. A altivez é notável. Mas elegante, ligeiramente indiscreta, nada arrogante. 

                        É uma fusão de esplendor - das igrejas, edifícios neo-clássicos e construções da cidade velha - e feiúra, evidente nos pesados arranha-céus da era stalinista. As ruas, cinzentas e tristes dos tempos comunistas, agora são livres, vibrantes. Nas ruas notamos os contrastes entre o passado e presente. Do modo como se vestem aos carros que dirigem.

De Pedro, o Grande, a Lenin e Stalin - a velha senhora guarda seus traços

                Para muitos Moscou, a Praça Vermelha e o Kremlin ainda estão carregados de simbolismos soviéticos. Para mim não passaram de traços de sua história. O capitalismo já não é ameaçado pelo comunismo nem vigoram as idéias de Karl Marx. Visitar Moscou é viver essa experiência interessante a dualidade entre história e presente: de um lado o imenso peso do passado, de outro a força de uma cidade moderna e pulsante, algo inovadora, que mostra um desejo explícito de integrar-se ao mundo ocidental. Sobretudo o mundo livre e aberto. 

Troca da Guarda

                 Moscou tem apenas amostras do que foi a União Soviética, até mesmo na Praça Vermelha, na Catedral de São Basílio, no Kremlin e no Túmulo de Lênim. Não a achei acinzentada como nos tempos soviéticos, senao colorida e relativamente verde. Para além da Praça Vermelha (que não tem o nome por causa das cores do Kremlin nem do Museu de História da Rússia), é cidade de cores em tons pastel nos bairros charmosos, nas praças e parques, na vida cotidiana. 

Príncipe Dmitriy e Kuzma Minin

                 OS contrastes são evidentes entre os tempos ante e o pós-comunismo: as igrejas cristãs ortodoxas, então proibidas e fechadas, foram restauradas. Novos hotéis, verddeiros templos do luxo, contrastam com prédios de antigas repartições públicas. Perto da Praça Vermelha, do Kremlin e da Catedral de São Basílio, das duas estátuas do Príncipe Dmitriy e de Kuzma Minin, e do Lobnoe Mesto - o púlpito que serviu de palco para os czares e políticos soviéticos discursarem ao público-, está para ser inaugurado um Fours Seasons Hotel absolutamente espetacular, onde num gigantesco prédio reformado possivelmente funcionou alguma repartição pública burocrática dos tempos do politburo.

                Moscou é muito mais russa que soviética. Há Stalins esculpidos em mármore e bronze, aqui e ali. Mas é cosmopolita e européia, mesmo mantendo sua personalidade. O pouco de passado é histórico e arquitetônico, que parecem resistir stalinisticamente à mudança dos tempos. Mas as ruas mostram a verdade: uma imensa transformação alinhada aos novos tempos.

         Há um McDonald’s ‘nada-a-ver’ bem próximo da Praça Vermelha, na Praça Pushkin, denunciando que nem tudo anda bem com o mundo tornando-se plano. Lenin não está vivo, mas por certo deve rolar no túmulo em seu mausoléu nas proximidades. É um choque inesperado, quase um mau gosto para quem preferia um café tradicional a um fast-food de porcarias. Mas nem isso tira da Praça Vermelha e seus arredores o posto de um dos lugares mais lindos que já vi no mundo. Está londe de ser "um enigma envolto em mistério”, como a definiu Winston Churchill durante a Guerra Fria, senão uma cidade fascinante, altamente compensadora turísticamente.

Moscou já não segue as idéias de Karl Marx, o capitalismo está em todo canto, e seu templo maior é o GUM

                 E o GUM, antes uma sinistra loja de departamentos comunista proibida aos nacionais, agora é um centro comercial bonito, arejado, europeu na essência. E consumista capitalista no caráter. Provavelmente será ali que o visitante enterrará definitivamente as cinzas de suas lembranças do que foi a União Soviética.

             Há contrastes. De lojas de grifes européias chiques ao lado de prédios de fachadas e ocupação decadentes a hipsters bem vestidos e senhoras russas pedindo esmola, de Bentleys dividindo espaço com antigos Lada a figuras de personalidades soviéricas esculpidas em fachadas ao lado de vitrines Louis Vuiton.

GUM, antes uma sinistra loja de departamentos comunista, Na Praça Vermelha

               Quem nunca esteve em Moscou não tem com o que se preocupar. Turísticamente, quero dizer. Nem com a segurança. Com o idioma sim, pois de fato ele é uma barreira. É uma das línguas mais difíceis de aprender. Tanto falar quanto ler. O cirílico é um entrave. Seria conveniente aprender a identificar os caracteres cirílicos e dizer algumas palavras chave e úteis.

               Tivemos apenas experiências positivas, mas sei que gostar ou não de um lugar é algo pessoal, que depende essencialmente do preparo e do estado de espírito de cada um. Frustrações podem fazer parte da aventura de viajar pela Rússia, mas por vezes são elas que tornam interessante o lugar, porque desafiam e excitam a mente do turista.

Bonita. De dia ou de noite

                Para um viajante principiante a Rússia eventualmente não será um país dos mais fáceis, o que possivelmente requer um guia. Todavia, muito já se escreveu sobre Moscou e St. Petersburg e há centenas de fontes de consulta, inúmeros guias impressos e eletrônicos, ótima infra-estrutura para acolher o turista, desde agências de viagens a guias e tours privados. Em resumo, ambas são cidades bem abastecidas de recursos e de informações.

O cirílico é um entrave, mas exótico

                 Quanto mais nos aventuramos fora do óbvio em Moscou melhor percebemos que é uma cidade de contrastes muito interessantes: ora desconfortável, ora  charmosa, ora rica e pobre, tranquila e acelerado, na moda ou kitsch. O Kremlin e a Praça Vermelha são dois dos lugares mais famosos e momentais de Moscou, provavelmente também os mais soviéticos, por isso localizados um ao lado do outro.

  O que diria Lenin, se não repousasse embalsamado em seu Mausoléu, ao ver lojas como a Levi´s?

                 O Kremlin de Moscou é um complexo enorme, com quatro palácios e quatro catedrais, o Kremlin Armoury Museum, o museu mais antigo de Moscou, um  lugar onde encontram-se belos exemplares de ovos Fabergé e outros tesouros de ouro e prata. E ainda é residência oficial do Presidente da Federação Russa, razão porque é severamente protegido e parcialmente visitável. Como veremos abaixo.

Portão da Ressurreição

 A Praça Vermelha

                  Começamos então nossa visita pela Praça Vermelha. Nada é mais óbvio. Nem mais indicado. Já que estamos turisticamente, este é o cartão postal da cidade, para além de ser uma das praças mais bonitas e conhecidas já construídas pelo homem. Marco zero da cidade, atrai multidões. De cidadãos russos e turistas, tudo que indica que quanto mais cedo visitá-la, melhor. A praça é bonita. De todo jeito. De dia ou de noite. É belíssima, melhor classificando-a. E segura.

Se arquitetura lhe atrai, Moscou será um delírio. Especialmente na Praça Vermelha

                   Em geral as pessoas são abertas, receptivas e amigáveis com o estrangeiro turista, mas dizem que não muito com o imigrante. Não exatamente sorridentes e simpáticas, mas receptivas e educadas, todavia. Os cuidados que um turista deve ter em Moscou valem para qualquer grande cidade do mundo.

Portão da Ressurreição

                 Entra-se na praça pelo Portão da Ressurreição, com torres vermelhas e cúpulas verdes,  versão de 1995 do original de 1680, demolido em 1931. Nele fica a Capela da Virgem Iverian, sempre visitada pelo czar antes de sua entrada no Kremlin. Bem ao lado direito fica o Museu de História da Rússia, prédio 1883, lindo, vermelho vivo, de frente para a praça, cuja estátua equestre de Vyacheslav Klykov, herói da II Guerra Mundial, parece proteger seu portão.

                  Lembrei-me dos desfiles militares soviéticos enquanto percorria aquela imensidão calçada em pedras, mas confesso que foi por pouco tempo. Não estamos mais na União Soviética e a velha senhora, ainda que bem conservada, está mudada, mesmo mantendo seus traços soviéticos. Se por um lado dou graças a isso, por outro lamento. Teria sido bom conhecer a Moscou soviética.

Rua Nikolskaya: o GUM (esq), a Praça Vermelha, aTorre Nikolskaya e o Museu Histórico (fundo),  Catedral de Kazam (dir)

                Não seria exagero afirmar que se houvesse tempo apenas para a Praça Vermelha e o Kremlin, o visitante teria visto o que há de mais importante turísticamente falando de Moscou. A Catedral de São Basílio, por exemplo, - o mais reconhecido símbolo russo - é de fato uma das mais magníficas construções da cidade, cujas esplêndidas, coloridas cúpolas de formatos e padrões fascinantes são muito mais belas e impactantes do que qualquer uma das milhares de fotos que se podem já ter visto. Defronte às muralhas do Kremlin fica o Mausoléu de Lenin, que abriga seu corpo embalsamado e sepulturas de russos famosos como Stalin, Yuriy Gagarin e Máximo Gorky, que não visitamos.

As torres da muralha do Kremlin

                 A Rua Nikolskaya começa na Praça Vermelha, bem defronte à torre St. Nicolas - ou Torre Nikolskaya - e do Museu Histórico. Foi construída em 1492, um ano depois da Torre Spasskaya. Ambas pertencem ao Kremlin de Moscou. A rua é uma atração. Além de bonita, tem edifícios notáveis. Provavelmente o conjunto de edifícios mais notáveis da cidade.

A Rua Nikolskaya começa na Praça Vermelha

                 Uma alegria para os amantes da arquitetura e ornamentação de fachadas de edificações civis, esta é a Rua Nikolskaya. Ao lado dela fica a colorida (e atraente), pequena Catedral de Kazam, uma reconstrução da original demolida em 1936, dedicada à Virgem de Kazan, vale uma visita.

 Por dentro do Kremlin de Moscou

                  Essência russa, onde tudo é grandioso, guarda oito séculos de história e culturas soviética e russa em oito sedes. Centro de comando do partido comunista, atualmente é a sede presidencial russa, mas não sem motivo o chamam de “Museus do Kremlin”.

                Dentro de suas muralhas estão a Sala das Armas, a Catedral da Assunção que guarda os bancos onde czares e czarinas rezavam, a Catedral do Arcanjo, cuja construção foi feita por ordem de Ivan Kalita, primeiro príncipe moscovita, a Catedral da Anunciação, que abriga os tesouros das famílias reais russas, a Igreja do Manto Sagrado de Nossa Senhora, onde encontra-se uma galeria com esculturas dos séculos 15 a 19, o Palácio do Patriarca e a Igreja dos Doze Apóstolos, onde pode-se ver uma exposição permanente de objetos pessoais dos czares.

                   Há ainda o Campanário de Ivan, o Grande, construção que durou mais de 300 anos, um dos prédios mais altos de Moscou. No campanário adjacente há 21 sinos. E na área do Kremlin uma coleção de sinos, canhões e objetos de guerra. Curiosamente, foram arquitetos italianos, não russos, trazidos por Ivan III mesclaram estilos russo e renascentistas europeus no desenho da Catedral de Assunção, na Câmara das Facetas e nas muralhas e torres do Kremlin.

                 O Kremlin é uma fantástico homenagem arquitetônica à grandeza do império russo. Se houvesse apenas uma obra monumental em Moscou que merecesse o título de Patrimônio Mundial da Unesco, essa seria a residência oficial do Presidente da Federação Russa - ou Kremlin de Moscou -, cuja muralha com vinte torres abriga 30 hectares com alguns dos monumentos mais importantes da cidade.  

                 A fortaleza do século XII, mais que um baluarte feito para proteger e guardar, transformou-se num símbolo. Ainda hoje o mais reconhecido símbolo do poder russo. Ao entrarmos, sentimos que ainda hoje exerce seu poder. Não apenas por guardar tesouros, mas também por a brigar a residência e lugar de trabalho oficial do presidente, continua severamente policiado, afinal, Putin trabalha a pouco metros de onde milhares de turistas circulam visitando essa maravilha moscovita.

                  Trata-se da atração mais popular de Moscou, importantíssima e concorridíssima. Por isso chegamos cedo pela manhã para comprarmos os bilhetes para a visita ao Kremlin, que apesar de ainda fechado já mostrava uma considerável fila de visitantes. Sobretudo porque em pouco tempo chegam as excursões. Há no mapa que se recebe junto com a compra dos ingressos 41 edifícios, mas delas apenas 9 um turista pode visitar. E posso dizer que as achei suficientes, que dão uma percepção razoável do que foi o império russo. Além de tesouros verdadeiros, de obras de arte a jóias em grande quantidade.

                 A primeira construção é de 1156, época em que não passava de uma fortaleza de madeira, quase uma paliçada no topo do monte Borovitsky protegida por um fosso. De adições a modificações sucessivas, entre elas as mais significativas suas muralhas e torres, construídas em 1495 pelo czar Ivan III, o complexo cresceu em poder e beleza: ganhou igrejas e palácios e enfrentou batalhas e ocupações, até tornar-se abrigo e símbolo de um poder misterioso e militarizado. Ali os Romanov terminaram seu reinado de maneira amarga, sendo executado o czar Nicolau II e sua família pelos bolcheviques em 1918.

                  Assim que entramos a impressão foi de estarmos num quartel em atividade. Onde turistas e pessoas que trabalham nele circulam num complexo de ruas largas, turistas admirando palácios, monumentos e igrejas, militares guardando-os e tabalhando em seu interior.  As atrações visitáveis são a Catedral da Assunção, a Torre do Sino, o Canhão e o Sino do Czar, a Catedral do Arcanjo e da Anunciação e o Grande Palácio, a Catedral do Arcanjo São Miguel, esta última construída entre 1505 e 1508. Todavia, a maior parte do Kremlin abriga edifícios governamentais não abertos à visitação.

                  A Armeria é a maior atração do Kremlin e o mais antigo museu de arte da Rússia, onde há carruagens, tronos, coleções raríssimas de artigos de ouro e prata do século XII ao XIX, armamentos dos soldados russos do século XII–XVI, roupas, coroas, ovos Fabergé. Originalmente o lugar onde se guardavam as armas, o arsenal hoje é um museu com verdadeiro tesouro dos tempos dos czares, especialmente pela coleção de ovos Fabergé encomendados pelo Czar Alexander III. Há muitos tipos de ovos feitos sob temas distintos, talvez o mais importante o ovo da Ferrovia Trans-Siberiana com um pequeno trem de ouro. Uma das carruagens é a dourada, usada nos verões por Catarina, a Grande, e o vestido finamente bordado usado em sua coroação, além do cetro, cujo diamante Orlov no seu topo tem 190 quilates, então um presente de seu amante, Conde Orlov, subtraído do olho de uma divindade de um templo indiano.

                    O Palácio Terem tem arquitetura não muito exótica, mas as cúpulas das cinco pequenas igrejas palacianas, erguidas à frente do palácio, ou simultaneamente com ele, elevadas dentro da estrutura do edifício, parecem saídas de uma ilustração de um livro de conto de fadas. São onze torres-cebola delgadas. O palácio foi construído para o czar Mikhail Romanov entre 1635 e 1636. O interior é suntuoso era usado como Sala de trono e Salão de banquetes dos czares.

                O Canhão do czar foi feito em 1586 por ordem do czar Feodor I Ivanovich, tem 40 toneladas, calibre de quase 1 metro, e 5 e meio metros de comprimento. Jamais foi usado. É ornamentado com inscrições e uma imagem do czar. O Campanário de Ivan, o Grande, fica na Praça das Catedrais e foi construído há cerca de 500 anos, tendo sido destruído pelas tropas de Napoleão em 1812 e reconstruído em 1814. A torre principal, com 81 metros, não foi afetada pelo ataque.  O Sino gigante é um símbolo de poder dos czares. Tem algo mais que 6 metros de altura por quase 7 de diâmetro. O maior do mundo, pesa 200 toneladas e foi fundido apenas porque o czar Alexey Mikhailovich quis marcar seu poder. Jamais funcionou, e o que mais chama a atenção é o pedaço quebrado no chão ao seu lado. Só esse pedacinho tem 11,5 toneladas.

                  A Catedral do Arcanjo é um dos melhores exemplos arquitetônicos do complexo e abriga túmulos de figuras ilustres das dinastias Ryurikovich e Romanov. O primeiro czar, Ivan, o Terrível, e dois de seus filhos, também estão sepultados na catedral, num relicário próximo ao altar.

 

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A seguir:

Moscou, além da Praça Vermelha

e

Um passeio pelo Metrô de Moscou

Terça-feira
Jan272015

AKSUM, Etiópia. Da Arca da Aliança à Rainha de Sabá 

INTRODUÇÃO - Etiópia: retrato 3 por 4 de um país

Menino etíope, em algum lugar do presente, entre Turmi e Arba Minch

                 UMA nação como a Etiópia - ou Abissínia, na Antigüidade -, cuja história é tão longa, antiga e complexa que até mesmo seus tratados podem guardar erros, exige de um turista no mínimo respeito. Sobretudo quando escreve sobre o país. Todo temor é preciso, além de cultura e muita investigação científica para ter sucesso ao se resumir uma nação como esta. Justo o que me falta. Não só por sua especificidade, mas também pela singularidade: um calendário exclusivo (estão agora no ano 2007, não 2015) uma escrita idem, - denominada Ge’ez - com trinta séculos de existência, um idioma oficial incrível - o amárico, língua semítica falada como primeira língua, ou segunda por boa parte da população -, uma religião cristã, mas ortodoxa etíope desde o século IV, (então o primeiro grande império a adotar o cristianismo como religião oficial), com origem na cultura copta de raiz egípcia, surgida trezentos anos antes de Cristo. O povo jamais colonizado pelo Ocidente, tem 84 etnias e o mesmo número de línguas. O regime horário também é diferente: os etíopes contam a primeira hora do dia a partir do nascer do sol. Em tudo mais - arte, arquitetura, vestuário, música, gastronomia, literatura e todas as outras manifestações culturais que não me recordo exemplificar - não há paralelos. A Etiópia é só singularidade.

Encantadores olhos castanhos. O que revela esse olhar? Menino da Aldeia Karo, Turmi, sul da Etiópia

                Estima-se que ali nada menos do que a humanidade originou-se. Na espécie Homo sapiens. E abrigou, entre outros, o fabuloso reino de Aksum. Quase desconhecido, é verdade, mas importante. Estendia-se por uma região que ia até aos vizinhos Eritreia, Sudão, Djibouti, Somália e Somalilândia. A origem de Aksum remonta ao reino de Sabá, no Iêmen, que por volta do ano 1000 a.C. ia do Corno de África até a Península Arábica. Diferentes dinastias, de Aksum a Zagwe, de Oromo Yejju a Menelik II, deste a Haile Selassie, são apenas metros no mergulho de um poço sem fundo de conteúdo histórico. Ultrapassa em muito os limites da superficialidade tentar resumir esta nação e seu povo num retrato 3 por 4. Sobretudo com tantas etnias - entre as quais predominaram os semitas árabes -, especialmente os singulares povos do Vale do Omo.  

Por que é tão precioso esse país?

                A identidade, a história, a geografia e a cultura fazem da Etiópia um país turisticamente soberbo. Para além disso, um arqueólogo, antropólogo ou um turista comum não encontrariam melhor lugar no mundo para para embrenhar-se na densa história da origem da raça humana. Muitos já ouviram falar de Lucy, por exemplo. O esqueleto de uma mulher de 20 anos, descoberto em 1974, ossos de uma Australopithecus afarensis - o mais próximo que até então já se havia chegado do antecessor do ser humano - tinha 3,2 milhões de primaveras na época de sua descoberta, há 41. Definiu-se, a partir de então, que o homem surgiu naquele canto do mundo, a Etiópia.

Muito pode ser dito através de um olhar, mas nem todos conseguem decifrá-los...

             LUCY é popular, mas poucos conhecem Ardi ou dele ouviram falar. Um Ardipithecus ramidus encontrado em 2009 perto de Afar, na mesma Etiópia, que então tornou-se o mais antigo ancestral humano de que se tem notícia, tirando da velha Lucy o posto de mais antigo hominídeo já descoberto. Com Ardi foi-se além, voltou-se 4,4 milhões de anos na história da humanidade. 

O simples mas interessantíssimo Museu Nacional de Adis-Abeba

                 As ossadas de ambos, ou melhor, as cópias dos originais que de tão preciosos guardam-se nos cofres-arquivo do museu, podem ser vistas no simples, mas interessantíssimo Museu Nacional de Adis-Abeba. Mais do que um aprendizado, a visita é uma viagem no tempo mais longíquo que podemos fazer.

Foi aqui nessas terras, nesse canto do mundo, que o homem surgiu

                É o que seria sufiente para considerar-se a Etiópia um país precioso, ainda que não do ponto-de-vista turístico. Bem além das importantíssimas descobertas relacionadas com a origem do homem, é nação maior do que se espera. Em minha imaginação revelava-se uma vastidão árida, semi-desértica, povoada de crianças desnutridas com barrigas inchadas e pobreza por todo lado. E sem grandes atrações turísticas, senão medianas. Ignorância, claro, pois o que encontrei foi um país verde, de fauna e flora belíssimos, de montanhas e vales exuberantes, de crianças cheias de energia, de sorrisos, curiosidade, de uma cultura rica e misteriosa, de uma história parruda e de um conjunto de atrações tão diversificadas quanto numerosas. Um país alegre, antes de tudo. Diferente do Irã, por exemplo. E não só de uma civilização fascinante, mas por uma terra de belos contrastes naturais, de uma fauna e flora abundantes, das rochosas Montanhas de Simien, da incrível Depressão de Danakil - 120 metros abaixo do nível do mar - e de tanto mais que o país tem a oferecer a quem o visita. É sim um dos lados mais remotos do continente, um destino quase aventureiro, mas sempre enriquecedor, deslumbrante e fartamente compensador para o turista.  

 

 Gente, especialmente as crianças, eliminam as piores imagens que se fazem da Etiópia....

             É verdade que parecem eternas as lembranças das terríveis imagens de criancinhas esquálidas com moscas pousadas em seus rostos, que o resultado da fome que assolou parte do país nos anos 80 - imagens que jamais esqueceremos - arranham o interesse de muitos conhecerem o país. Mas elas não conseguem reduzir a importância deste incrível destino turístico. Ainda que aquelas cicatrizes talvez jamais sejam esquecidas, que o país vá pagar eternamente seu preço por tê-la deixado acontecer.

             A Etiópia é um país pobre, é verdade. Em certas regiões, linearmente miserável. Seus Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) são ainda mais baixos do que os do Afeganistão. Apenas pouco mais de 10% da população têm acesso à rede sanitária e cerca de 35%  a água para beber. Mas nem por isso encontram-se crianças esqueléticas e famintas. Quase sempre as vi sorridentes. O que quer dizer que beleza e pobreza podem ser contrastes, nem sempre contradições. A Etiópia, por fim, é antes de tudo uma terra de homens, muheres e crianças especialmente bonitos.

Preciosa. Muito mais do que pelas descobertas relacionadas com a origem do homem

                 A Etiópia é um desses países que visitar significa aprender lições. Sobretudo por causa de sua autenticidade e exclusividade, por seus costumes e cultura. E no qual uma jornada consagra-se por exceder expectativas, onde a diversidade do que se tem para ver vai de hipopótamos a igrejas talhadas na pedra. Foi diferente, muito diferente do que eu pensava encontrar. Sobretudo dos estereótipos que teimavam em permanecer na minha memória.

Dos crocodilos e hipopótamos do Lago Chamo às Igrejas de Lalibela, Etiópia, "País soberbo!"

                Além de encantar as pessoas, o país as transforma. Sobretudo porque faz reavaliar conceitos, exceder expectativas, demolir preconceitos. Combinação sui-generis de história com cultura fenomenais, que qualquer um que as experimente se sentirá privilegiado na descoberta. Sobretudo a turistas apaixonados por viajar, que o fazem por gosto e a lugares incomuns, que exigente desafios e sacrifícios, mas tão autênticos na identidade e na história que um 3 por 4 da Etiópia seria "País soberbo!". 

Lalibela, estrela do turismo etíope, terra de mil e uma lendas...

                Falei aqui de Lalibela, de seu incrível conjunto de igrejas do século XII talhadas de cima pra baixo em rocha sólida, estrelas máximas do turismo etíope, "mecca" do cristianismo ortodoxo e de seus festivais. Também compartilhei textos e fotos sobre os castelos de Gondar, dos mosteiros do Lago Tana, em Bahir Dar, de Harar, da incrível cidade etíope muçulmana parada no tempo, das Montanhas Simien, de Adis Abeba, das tribos do Vale do Omo, das Cachoeiras do Nilo Azul e do nosso incrível passeio de barco no Lago Chamo, e do encontro com hipopótamos e crocodilos que o habitam, assim como alimentei hienas selvagens à noite. Mas ainda não da sagrada Aksum, cidade onde encontram-se preservados ótimos exemplares arquitetônicos do império aksumita, aquele que a despeito de sua importância poucos conhecem, mas que dominou a região do ano 1000 a.C. até o século 8 d.C. De tumbas a obeliscos, de uma curiosa e estilosa lista de monumentos únicos, ainda que em ruínas. E mais, muito mais além de ruínas.

 Aksum. Da Arca da Aliança à Rainha de Sabá, dias de incríveis histórias e descobertas  __

 

                 NA manhã do dia 16 de janeiro de 2014 voamos de Gondar a Aksum pela Ethiopian Airlines. Aksun fica bem perto da fronteira com o inimigo: a Eritréia. Precisamente a 150 km ao sul de Asmara, Capital do país com quem a Etiópia não mantém relações e fronteiras fechadas. Ao chegarmos, fomos diretamente para o Sabean Hotel. Não há nada melhor na cidade. E foi um dos melhores hotéis em que nos hospedamos no país, considerando, claro, seu padrão hoteleiro.

                   A poeirenta cidade não demonstra nas ruas sua importância histórica. E também nelas não desperta o interesse de seus visitantes. É sonolenta e pequena, quente e pouco movimentada. Por outro lado foi onde encontrarmos as melhores peças antigas (e legítimas), como oratórios etíopes e "cruzes de lalibela" para comprar. Novos e antigos.

Spris, delicioso suco de frutas puro e cremoso servido em camadas

                  Ao lado de nosso hotel, uma lojinha de spris, deliciosos, cremosos, refrescantes sucos de frutas típicos na Etiópia, servido em camadas,mais comumente de abacate, manga e mamão. Também estávamos e defronte ao melhor restaurante da cidade, um inusitado lugar de propriedade de um norte-americano de Dallas casado com uma etíope de Aksum.

"Cruzes de Lalibela", símbolos da igreja ortodoxa etíope usados nas procissões...

...e uma inesperada e autêntica feira de artesanato locam de Domingo

                  A Arca da Aliança, as Terras do Rei Salomão, o Mosteiro de Yeha, a Igreja Abba Aftse e as Stelas aksumitas

            O Império tinha capital na cidade de Axum, embora houvessem cidades maiores e mais prósperas como Adulis e Matara, na atual Eritreia. Seus reis acreditavam ser descendentes do rei Salomão e da rainha de Sabá. A cidade foi fundada por volta de 100 d.C., numa região já anteriormente habitada há milênios, onde por volta de 500 aC havia a cultura Da'amat, pré-Axumita, com fortes ligações culturais com a península Arábica, diz a história que por colonização de imigrantes sabeus vindos da península Arábica, com influências na cultura, na arquitetura e na língua adotada pelo o império, o ge'ez.

Os fabulosos, gigantescos obeliscos monolíticos de Aksum


                     Consideram os historiadores que o império foi um dos mais poderosos da região entre o Império Romano do Oriente e a Pérsia. Foi o terceiro império das civilizações clássicas do Vale do Nilo e sua extensão territorial de 6.400.000 quilômetros quadrados, em seu auge, no século IV d.C., controlava além da atual Etiópia, o sul do Egito e parte da Arábia, sul do atual Iêmem. Havia comércio marítimo e rotas que iam até o Ceilão desde o porto de Adulis (atual Eritreia).

Oratórios e Cruzes. Antigos ou não, os melhores que encontramos e trouxemos foram de Aksum

                Construíram-se palácios, templos e tumbas bem projetadas arquitetonicamente e com grande beleza de desenho. Aksum é bem mais famosa e conhecida por suas stelaes - os obeliscos misteriosos, altas torres monolíticas de pedra - do que por qualquer outra coisa. Mesmo até do que por ser onde se alega guardarem a bíblica (e supostamente existente) Arca da Aliança e também o supostamente lendário Palácio da Rainha de Sabá. Mas quase tudo em Aksum é misterioso e inventido, da Arca da Aliança, "guardada" a sete chaves numa capeta tosca, à Rainha de Sabá. Mas há muitas verdades em Aksum. Verdades absolutas e palpáveis. Entre elas as ruínas do império aksumita.

 O Mosteiro de Yeha e a Igreja Abba Aftse

Igreja Abba Aftse

                 Não longe de Aksum - lugar onde os italianos perderam uma grande batalha, 6000 homens e o domínio sobre a Etiópia -, fica o Mosteiro de Yeha, um dos lugares mais singelos e cativantes que visitei no país. Yeha, pequena cidade no norte da Etiópia, localizada na Zona Mehakelegnaw, Região de Tigray, seria apenas um lugarejo sem importância, não fosse considerarem-na o berço da civilização etíope. Dedicamos a manhã - uma bela, luminosa manhã - aos dois templos, depois de cruzarmos uma agradável estrada com belos panoramos naturais de vida rural, pastoreio, crianças e plantações.

     

Luminosa manhã em Aksum, a caminho do Mosteiro de Yeha

                Depois de tantos templos etíopes visitados nessa viagem, não esperava encontrar algo tão diferente, sobretudo pelas claras influências arquitetônicas iememitas. Por si, esse simples "detalhe" alimenta algumas velhas discussões entre a Etiópia e o Yemem: quem colonizou quem? As ruínas do templo tão importante e muito bem conservado está sob os cuidados de uma iniciativa arqueológica etíope-alemã. Felizmente.

Ruínas do Mosteiro de Yeha, em Aksum. Influências iemenitas na Etiópia

 Igreja Abba Aftse

                 Ao lado das ruínas do Mosteiro de Yeha está outra graciosa preciosidade: a Igreja Abba Aftse. Ao lado daquela templo maior, parece secundária. Ou desimportante. Mas ao contrário do que pode aparentar sua singeleza, é um tesouro. De preciosidades históricas (sobretudo livros religiosos antiqíssimos feitos em pergaminho, escritos à mão para oração), mas também de experiências pessoais. Fundada por Abba Aftse, um dos nove santos que levaram seu apostolado a vários lugares, do grupo de missionários que incrementaram o cristianismo etíope durante o final do século V, entre eles Abba Aftse, freqüentemente descreviam-nos como vindos da Síria, de Constantinopla, da Anatólia e até Roma.

Um zelador guarda as preciosidades religiosas do "museu" da Igreja Abba Aftse

 O Grande Templo de Yeha

                 Não é exatamente a ruína das ruínas, sobretudo pelos andaimes e obras de construção e reparo, a despeito da importância histórica, nem o que se possa chamar de atração turística atraente para a maioria, mas valeu a visita. Aprendi muito sobre aqiela arquitetura e maneiras construtivas, apontaram-me as similaridades com os templos iememitas. É a estrutura mais antiga de pé na Etiópia. Há uma torre construída no estilo de Sabá, datada por comparação com estruturas antigas na Arábia do Sul a cerca de 700 aC. Seu excelente estado aribui-se ao fato de que seus construtores originais fizeram uma construção forte em termos de alvenaria, colocada sobre fundações sólidas e solo firme e  rochoso. Atribuirem-lhe data arqueológica que começa em 800 A.C. Nada menos que contemporânea do Rei Salomão.

             Há um outro sítio, o Grat Beal Gebri, ao lado da Igreja, do outro lado da praça. Vale a visita, mas ainda que interessante, não é  impressionante.

Grat Beal Gebri, do outro lado da praça

             O serviço divino da Igreja Etíope celebra-se na língua, que tem Geez, o idioma da igreja desde a chegada dos nove Santos, que fugiram da perseguição pelo imperador bizantino após o Concílio de Calcedônia, em 451. Como este antiquíssimo exemplar feito a mão, mostrado na foto abaixo, exposto no "museu" da Igreja Abba Aftse. Mais tarde, Haile Selassie patrocinou traduções dessas Escrituras para o amárico, idioma oficial da Etiópia.

 A Arca da Aliança

                 A Arca da Aliança é uma das inúmeras histórias mal contadas na Etiópia. Mal contada não porque a história etíope seja uma combinação de fatos e mitos. Mas algumas são tão descaradamente inventadas, baseadas em crenças populares e transmitidas oralmente, anteriores à história autêntica, tão mal inventadas que não é possível levá-las a sério. Especialmente quando alguém nos tenta transmití-las como se fossem história, não folclore. Entre elas a diz que a rainha Sabá e o Rei Salomão tinham um aparelho que voava! Voava e os levava da Etiópia para Jerusalém. Outra que as patas do cavalo de São Jorge ficaram impressas na parede de rocha de uma igreja de Lalibela. A "história" da Arca - que jamais se viu ou se tocou, exceto Indiana Jones), diz que apenas um homem pode vê-la: seu guardião. Qualquer outro que a ver terá o corpo derretido. Não há o que estranhar, porque afinal, qual relgião sobreviveria sem incutir a seus fiéis o medo, a culpa, o castigo e a penitência? Sobretudo uma ortodoxa? História e lendas misturam-se. E como um nevoeiro, circulam pela cultura do país. Se você acredita, tudo bem.

Para quem acredita (mas jamais verá), a Arca fica ali dentro...

                A Arca teria sido levada de Israel por Menelik I, filho da Rainha de Sabá, da Etiópia, quando aos 21 anos foi a Israel visitar seu pai, o Rei Salomão de Israel. Originalmente a Arca teria ficado no Mosteiro de Tana Kirkos, no maior lago da Etiópia, fonte do Nilo Azul. Conta a mesma “história” etíope que o Rei Ezana mandou buscá-la de volta e colocá-la numa capela sagrada. Esta mesma aqui em Aksum. Num prédio onde apenas uma pessoa pode vê-la: o homem sagrado, guardião de todas as tradições religiosas. Hoje há um museu - o mais tosco que já conheci no mundo - onde guardam-se tesouros verdadeiros que podemos ver e tocar. De tão grande valor (alguns com mil anos de idade), tudo quase chega a ser mais impressionante pela falta de cuidado do que por sua importância histórica.

 Os obeliscos aksumitas

                 Nos tempos antigos, sete destes monólitos de granito foram erguidos no mesmo lugar unida, o maior deles jamaois feito em qualquer lugar do mundo em nenhum tempo. Media mais de trinta e três metros de altura e pesava cerca de 500 toneladas. Caído em algum período remoto do passado, hoje encontra-se em pedaços no chão, junto de outros ainda de pé. O segundo maior tem cerca de vinte e quatro metros de altura e também caiu, tendo sido roubado durante a ocupação fascista italiana, por ordem do ditador Mussolini. O terceiro maior mede vinte e três metros ainda está no parque das stelas de Aksum.

Monolitos gigantes, feitos de peças únicas de granito


                Todos os monolitos gigantes são feitos de peças únicas de granito e têm decoração idêntica. Curiosa decoração que os faz assemelharem-se a casas de vários andares com portas e janelas. São obras finas tanto no estilo arquitetônico quanto na qualidade escultural. Dizem que lembram os desenhos dos palácios e casas de Aksum no tempo do império aksumita.

 Igreja de Santa Maria do Sião e a Arca da Aliança

                 Os etíopes acreditam (alguns juram de pés e mãos bem juntinhos) que guardam ali a Arca da Aliança. Depois de um tempo na Etiópia não se estranha tanto, afinal, é a crença que dá origem à história. É ela que exerce profunda influência na imaginação e na vida espiritual dos etíopes. Não é difícil constatar quando se tem um guia que diariamente nos demonstra isso.

                 A Arca, aquela mesma que nunca ninguém viu ou tocou e conteria as Tábuas da Lei entregues por Deus a Moisés no Monte Sinai. A arca guardaria as Tábuas durante a caminhada dos judeus para  Israel, a Terra Prometida, em sua libertação do Egito. Volta e meia aparece uma nova teoria ou história empolgante e recheada de teorias sobre a fantástica, incrível, extraordinária Arca da Aliança. Uns são picaretas, outros sonhadores e especuladores ingênuos. Só que nãpo apresentam nem provas nem a bendita arca. O mais notável foi Ron Wyatt, que afirmou ter descoberto a Arca da Aliança. É mais uma fraude, sóm que essa das mais mirabolantes: a Arca da Aliança estaria enterrada numa gruta sob o furo da rocha onde teria sido fincada a cruz de Cristo. Mas como mentira pouca é bobagem, afirmava que por esse furo teria escorrido o sangue de Jesus até o propiciatório, ou tampa da arca, de onde ele (Ron Wyatt) teria colhido uma amostra, que mandou analisar. Os resultados provaram que o DNA seria de sangue de um homem nascido de uma virgem (!!) e que ele estaria vivo até hoje. Ron Wyatt é uma fraude, e se você fizer uma busca pelo nome do pretenso arqueólogo acrescentando as palavras "fraud" ou "hoax" irá encontrar vários sites em inglês que denunciam isso. A onda de mentiras do arqueólogo não termina na Arca da Aliança. O cara só faltou descobrir as osssadas de Adão e Eva, mas diz que descobriu até a Arca de Noé, outra que todo mundo sabe, mas ninguém viu. A ingenuidade é a porta para a fraude entrar nas pessoas...  

                De todo modo, em Aksun fica a Igreja de Santa Maria de Sião. Há, de fato, duas dessas igrejas, um velho e um novo, ambos localizados num espaçoso complexo murado diretamente em frente ao Parque das Estelas. Os mais velhos, um edifício retangular, foi colocado no início do século XVII pelo imperador Fasilidas. Depois uma estrutura moderna foi erguida nas proximidades pelo Imperador Haile Selassie, que inaugurou em companhia da Rainha Elizabeth II, em 1965. A estrutura mais velha, de longe a mais interessante, é onde ficam coroas reais, livros sagrados e outros objetos de grande valor. Nas proximidades estão as ruínas da Igreja original, que segundo a tradição foi erguida logo depois que o estado adotou o cristianismo como religião, no Século IV. Ali diz-se que está guardada a Arca da Aliança, que o visitante, claro, não pode visitar

 O Palácio e as piscinas da Rainha de Sabá


               Grande parte da história da Etiópia baseia-se na lenda da rainha de Sabá, da Etiópia, com o rei Salomão, de Israel. São histórias inventadas ou bíblicas transmitidas verbalmente por séculos antes de serem escritas. Muitos etíopes acreditam, entr tudomais de inacreditável que só eles acreditam, que a relação entre Sabá e Solomão resultou num filho, Ibn-al-Malik, ou Menelik I, fundador da dinastia salomônica de Aksum.  

                O  Palácio da Rainha de Sabá, pouco menos que sua piscina, foram atrações medianas, porque de faro não há muito a ver, senão um labirinto de pedras e escombros, ainda que possam se ver seu quarto e banheiro. O que mais me agradou foi a natureza circundante. E os pássaros. Os belos e abundantes passarinhos da Etiópia.

Notas

1) A Eritréia, uma antiga colônia italiana na costa do Mar Vermelho, juntou-se à Etiópia em 1952. Dez anos mais tarde, a Eritréia perdeu a sua autonomia e se tornou uma província etíope. Este fato deu início a uma guerra de libertação, que durou até 1993, quando a independência da Eritréia foi reconhecida pelo governo etíope. A Etiópia e a Somália entraram em conflito, numa disputa de fronteiras, no início dos anos de 1960. Um cessar-fogo pôs fim à luta, em 1964. Mas, em 1977, a disputa recomeçou, desta vez em virtude do apoio da Somália aos guerrilheiros de Ogaden, região etíope de população majoritariamente somali e muçulmana. A Etiópia venceu a guerra, mas a guerrilha continuou, inclusive com ataques terroristas.

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Terça-feira
Jan132015

Ranakpur, Índia e o Templo Adinatha

INTRODUÇÃO - Escrever é diferente de sentir  ________________________________________

A caminho de Ranakpur, caos organizado e colorido onipresente nas estradas

                 SE falar é diferente de escrever, escrever ainda mais que sentir. Sobretudo do que foi emocionante. De um nó na garganta, da adrenalina na ponta da lingua, de uma excitação e das batidas aceleradas do coração. E por mais que eu tente não consigo descrever o que é estar na Índia. Ao menos não com a força do que tenha sido sentir. Consola-me saber que para muitos o que se vive, experimenta e se faz na Índia também é incontável e indescritível.

Templo jainista de Ranakpur

                Na primeira vez nossa experiência foi brilhante, ainda que exaustiva e por vezes desgastante.   Na segunda, já nos sentindo "em casa". Passamos a saber lidar com o fato de que mesmo entusiasmados diante de uma grande atração, nós é que éramos o centro das atenções. Ou a atração do momento. E que atraíamos gente. Tanto a genuinamente curiosa, simpática e interessada quanto os "aproveitadores". Especialmente os sorridentes e prestativos demais. Os típicos "me dá um dinheiro aí".

                 Vamos lá, se viagens ensinam, a Índia forma. Parece pequeno, mas saber lidar com os indianos e com seu país torna tudo mais deglutível. Só lá sabemos que é um dos únicos lugares do mundo que mesmo familiar, que o visitemos muitas vezes jamais seremos locais. Mas que raios me dá de vontade de voltar, de experimentar aquilo tudo de novo! Sou levado a pensar que será ainda melhor estar na Índia pela terceira vez.

No mesmo rumo, carros, tratores, ônibus apinhados, caminhões...

                Dia desses, revendo fotos de Ranakpur, lembrei-me de que ainda não havia escrito sobre o lugar. Quase perdido entre Jodhpur e Udaipur, o desfilar de fotos do templo me fez sentir um nó na garganta. De saudades, não de tristeza. É sempre assim com a Índia: vivo uma quase melancólica saudade, como se eternamente ela me abordasse quando menos espero e me chamasse para então arrebatar-me outra vez. Eu já estava com saudades de escrever sobre a Índia. Não sei se fiz bem, mas resolvi vir aqui e contar, porque fotografei coisas tão bonitas e vi coisas tão interessantes em Ranakpur que acho que meu leitor merece que as compartilhe.

 No caminho para Ranakpur, vacas sagradas aparentemente sem destino

O templo jainista de Ranakpur   ______________________________________________________

                 O dia era fosco. Aliás, como todos na Índia. Chova ou faça o Sol, o céu é sempre leitoso. De uma poluição renitente que filtra os raios solares. Mas em Ranakpur eu esperava algo diferente. Em todos os sentidos, especialmente se comparasse ao que vivemos na insana Varanasi. Afinal é um lugarejo. E menos sujeito às fumaças, às multidões e numa região de florestas montanhosas.

O templo jainista de Ranakpur. Já na escada eu percebia estar diante de uma preciosidade

                 O lugar não estava no roteiro. Nem nos planos. Mas fica ali um dos templos jainistas mais espectaculares da Índia. Não pelas dimensões, senão pela qualidade e beleza dos entalhes no mármore. Decidimos incluí-lo, porque qualquer um que esteja em Udaipur e faz o roteiro do Rajastão deve pensar em visitar Ranakpur, na vila de Hastinapura, na região de Pali Rajasthan. Não é exatamente difícil chegar até ali: são apenas 60 quilômetros desde Udaipur por uma estrada (de verdade, não daquilo que chamam de estrada, de asfalto sem acostamento) que serpenteia a região montanhosa da cadeia Aravali e com grande vegetação.

A estrada serpenteia a região montanhosa da cadeia Aravali e tem grande vegetação

                 No caminho já percebe-se que a empreitada vale a pena. Mas ainda não sabemos que a visita a um dos cinco sítios mais sagrados do jainismo é uma recompensa extraordinária. Se até então tudo fora povoado por vacas sagradas sem destino, por cabras, camelos e ovelhas seguindo aparentemente o mesmo rumo, por carros, tratores, ônibus apinhados e caminhões carregados sabe-se lá do que, por gente, motonetas, tuk-tuks, por famílias inteiras caminhando nas estradas, por mulheres com os saris mais lindos, por gente maltrapilha, crianças sujas com ranho escorrendo dos narizinhos, rebanhos pastoreados, enfim, por todo aquele caos organizado e colorido onipresente na Índia, por luzes, cores, sons e sorrisos incomparáveis aos de qualquer lugar do planeta, por uma vida intensa e maravilhosa, agora éramos nós. Só nós. O que na Índia é quase um sonho. E por uma estrada vazia, através de uma floresta incomum e sob o mais raro produto indiano: o silêncio.

                  Ah, vimos macacos. Mas no resto da Índia também. Aí nao conta. O que conta é aquela calmaria toda.

Gente, gente e mais gente. Famílias inteiras caminhando à beira das estradas

                Curvas e mais curvas depois, e verde como jamais havia visto na Índia, chegamos a Ranakpur. E se o dia era carregado de nuvens, se a falta do Sol não inspirava às fotos, ao menos não nos esgotava o corpo. Já na escada que leva ao interior do templo - cujas 1440 colunas são finamente lavradas em mármore - percebi que estava diante de algo muito precioso.  Delirei, claro. Tenho atração por atrações arquitetônicas e simpatia pelo jainismo, uma das religiões mais antigas da Índia, justamente porque prega a ausência da necessidade de Deus como criador e baseia-se no exercício da não violência.

             Não violência a todos os seres vivos. Iclusive insetos. Para entrar, como em qualquer outro templo indiano de qualquer religião, deixam-se os sapatos de fora. Mas aqui, especialmente, também qualquer outro artigo de couro. De cintos a bolsas.  

Como pode alguém esculpir rocha com tamanha precisão?   ________________________________

                 Diz a história que o templo tem 600 anos e foi feito quase que de uma só pedra de mármore branco. Não acredito. Vi muitas emendas. Mas eu estava num dos mais belos templos da Índia, e certamente era isso que importava. Boquiaberto, ou de queixo caído (como preferirem) subimos as escadas, entramos no templo e exploramos o que eu posso definir como "exímia habilidade arquitetônica e escultórica" de seus autores. Estávamos ainda mais encantados com a serenidade do ambiente e com os princípios do jainismo.  Era um lugar para sentar, olhar, refletir.

Templo das 1000 colunas

                Mais do que qualquer outra coisa que se possa sentir em Ranakpur, a pura exímia qualidade dos padrões esculpidos é tão deslumbrante que sua execução é quase inacreditável. O templo é construído sobre uma plataforma retangular de 60 por 62 metros. Um lance de escadas leva ao balanaka, o hall de entrada de três andares com um teto de abóbodas.

                 Entre as cúpulas a luz natural passa para iluminar as intricadas colunas e o teto esculpido. Os domos em diversos níveis estão ligados por colchetes esculpidos com esculturas de divindades e ninfas tocando flauta em posições de dança celestial. Construído em forma de chaumukha, isto é, tendo quatro faces, o santuário interno tem entradas em todos os lados.

               Saudades de ter estado ali.

"Ainda me lembro dos pés descalços sentindo a pedra úmida no interior do templo..."

"...da cabeça inclinada vendo as cúpulas rendadas de mármore, como se fossem papel recortado."

Terça-feira
Dez302014

GÊMEOS a bordo. Ou o que acontece com um cérebro em êxtase 

 Bebê 1

                 - Emília, seu Beta deu 300! Você está grávida!

                 Não estou bem certo, mas foi perto disso: notícia dada que nem twitter: curta e rasa (não é à toa que não gosto do twitter). Pra quem não sabe, basta dar 50 no tal exame para que certifique-se a gravidez. Mas me lembro muito bem de como eu a recebi a notícia. Minha doce Emília veio caminhando em minha direção. Tinha um olhar fixo nos meus olhos e um sorriso "mona lisa", pseudo enigmático, mais pra instagram do que pra twitter. Sem legendas ela me abraçou e pronto, estava dada a notícia: "Você vai ser papai!"

                  Dias depois fomos fazer o primeiro ultrasom. Aliás, "ultrasom" é palavra que pais de gêmeos escutarão muito. O dobro de vezes dos pais de gravidez não gemelar.

                 - Não vai dar pra saber o sexo ainda não, disse a doutora.

                 - Como assim, doutora? Nessa hora meu coração deu uma disparadinha. Todo pai sempre acha que toda notícia dada é de problema com o bebê.

                 - Porque são gêmeos!, respondeu a doutora.

                 Existe um meio de matar a curiosidade mais cedo, saber o sexo do feto antes dele ter "idade" para mostrar sua intimidade dentro da barriga da mãe. Quem tem pressa não precisa esperar até a 17ª semana de gravidez e pela ultrasonografia que mostrará se será menino ou menina. Há um exame sanguíneo de sexagem fetal, teste para identificar fragmentos do cromossomo Y no sangue materno. O problema é que determina o sexo de apenas um dos fetos, no caso de gêmeos. Ou de ambos, no caso de meninas. Vale a pena arriscar? Você quem sabe, o sangue é seu.

Bebê 2

                  CÉREBRO, êxtase e paixão  __________________________________________________

                  Dizem os espertos que uma paixão para instalar-se na gente leva um quinto de segundo. Rápido, não? Pensa bem: um quinto de segundo nem dá pra gente medir. E que nesse tempinho um tantão de dopamina, ocitocina, adrenalina e vasopressina são despejados no sangue e deixam o cérebro em êxtase.

                 Desde que o exame de sangue deu positivo (em 300!), número alto que supostamente indicava gravidez gemelar, venho pensando nisso, no quanto vivo novamente um êxtase cerebral e uma nova paixão na vida. E que se minha vida teria tanto sentido antes e depois dela. Meu cérebro anda em êxtase. Eu todo ando assim! Porque não sei se existe algo mais encantador, precioso e magnífico do que ser pai novamente. E agora de gêmeos. E mais, se depois de tê-los, conseguirei imaginar minha vida sem eles. Porque ser pai de gêmeos é um privilégio raro. Duas vezes de uma vez só.

                  Mas também se descobre que gravidez de gêmeos não significa apenas o dobro de filhos em gestação. E de felicidade. Também são duas vezes mais preocupações, necessidades de cuidados. É mais angustiante, é mais arriscada, há um zilhão de coisas que nos ocorrem desde então e as sensações aqui têm variado muito. De tempestades de preocupações a calmarias de felicidades. Porque gravidez de múltiplos significa viver riscos e cuidados proporcionais ao número de bebês. Dos desafios às recompensas tudo se multiplica na mesma ordem.

                Desde o primeiro ultra-som de uma série que virará rotina daqui em diante, ainda maior por serem gêmeos, quando soubemos que teríamos bebês bivitelinos a alegria veio acompanhada de preocupação. Tratam-se de duas gestações independentes e simultâneas, razão porque os bebês tem diferenças no peso, na altura e eventualmente no sexo. Mas também duplicam-se os problemas com a mãe e com a gravidez. Tudo é dobrado. E assim estamos assim, desde que soubemos que estamos muito grávidos.

                 A gravidez do pai não ocorre "nas entranhas" como na mãe, claro. Ou melhor, pai não serve pra nada na gravidez. Só pra dar apoio. E olhe lá. A "gravidez" paterna é infinitamente menos complexa e sofrida do que a da mãe, sobretudo pela ausência de seus inconvenientes físicos. Diz a ciência, todavia, que cada dia existem mais pais desenvolvendo sintomas de depressão pós-parto e psicológicas durante a gravidez. Devem ser os hormônios. Já pra mim, que não sou dado a depressões, o melhor que como grávido tenho a fazer nessas horas é dedicar-me aos preparativos para o nascimento e apoiar e acompanhar minha doce Emília no que for preciso. Acho também que até mesmo no que não for preciso. A gravidez é diferente entre nós. Só a alegria é a mesma. E cada dia renovada.

                Desde que soubemos ainda na sala de ultra-som da nossa gravidez gemelar, comecei a mandar notícias instantâneas por celular, pra amigos e familiares. O "zap-zap" chegou a esquentar meu Samsung. Mandei fotos da examinada no ato e da TV de 42 polegadas com aquela imagem cinza e borrada do que pareciam ser dois olhos de coruja, mas eram as duas bolsas amnióticas. Minha vontade foi sair gritando. De alegria, claro. E um certo orgulho. Especialmente depois de ouvir os dois coraçõezinhos batento. Que tum, tum, tuns mais lindinhos!

               Rimos primeiro, choramos depois. Em harmonia. Como tudo em nós. Peguei a mão dela, olhei nos seus olhos ainda mais radiantes do que já são todos os dias, e por um bom tempo ficamos assim, meio bobos, meio foras do ar, sentindo aquilo tão especial quanto minhas palavras não sabem descrever. Saímos dali percebendo que nossas fisionomias não escondiam o que sentíamos: eram tão óbvias as reações que bastava olharem pra nós pra sabermos que estamos grávidos. De gêmeos. Eu estava com uma baita vontade de falar pra "Deus e todo mundo" (da vendedora da loja das primeiras roupinhas que comprei até aos porteiros do nosso prédio: "Vou ser pai. Vou ser pai de gêmeos!"

                 Quem sabe esse blog tome um novo impulso. Sobretudo vocação? Fatos & Fotos de Viagens com Gêmeos. Ou Fatos, Fotos & Fraldas de Viagens, como sugeriu o leitor Jesus Pires aqui mesmo, no post anterior. Se for assim, continuarei a escrever minhas reflexões da vida e de viagens de um viajante vivo, agora grávido, daqui a seis meses, pai de gêmeos. Ainda não sei. Tenho um caminhão de dúvidas, motivações e novidades desembarcando todo dia na minha porta. São tantas que ainda não dou conta de processá-las. Apenas de uma coisa estou certo: se o fizer, o blog terá os mesmos princípios do original: ética, transparência, honestidade, franqueza, bons valores, caráter, aversão a esnobismo, superficialidades, banalidades e ostentação. Também não será um blog twitter, porque blog não é twitter não. Nem de fotos de celular. Nem de fraudes (viajeiras ou não) cada dia mais comuns na Internet. Especialmente agora, sob tema tão digno e sério quanto gravidez gemelar, sobre criação e educação de filhos gêmeos, a respeito de tudo mais que se relacione com viagens com filhos ou durante gravidez gemelar.

                 Há alguns blogs sobre viagens com os filhos. Uns bons, outros não. Uns só falam de Miami e Orlando. Outros do resto do mundo. Mas blog de viagens com gêmeos? Sei não. Escritos pelos pais? Sei menos ainda. Seja como for, esse aqui será mais pragmático, não muito familiar ao olhar feminino. Estou pronto para enfrentar os desafios de ser um bom pai de gêmeos e acho que isso é coisa boa de se contar e compartilhar. Será sobre muito do eu que penso de como prepará-los para a vida, para o gosto por viagens, para viajar com e sem os filhos, sobre minhas certezas e dúvidas do que fazer para bem educá-los e de como preparar-me para oferecer-lhes o melhor.

                 EMBRIÕES ou fetos? Feto é caramba, são meus filhos!  ___________________________

                 Ontem fizemos o segundo ultrasom. Até então parecia que a ficha não havia caído direitinho: agora os embriões foram elevados à categoria de fetos. Confesso que eu, que nunca pensei poder achar beleza nas imagens de ultrasom (nem mesmo as cloridas e tridimensionais), me apaixonei vendo meus dois filhos assim: um dormindo, outro se mexendo acordado. Daqui a um mês, novo ultra, nova etapa de emoções e descobertas. Rumo ao terceiro mês de gravidez. Por enquanto não sabemos os sexos, daí chamá-los ainda por "bebê 1" e "bebê 2", mas já escolhemos os nomes.

Os dois bebês

                UM caminhão de dúvidas e muita leitura para evitá-las ____________________________

                 Estamos lendo muito. Entre tudo, um ótimo livro que ganhamos de uma querida prima: "Crianças francesas não fazem manha". Tudo a ver com nossa visão e intenções de educação dos gêmeos. Tremo só de pensar em não saber como educá-los. Ainda que eu já tenha um filho bem educado. Mas sei lá se os impedirei de ataques de birra em público, de não saberem se comportar à mesa, de que nos dominem e à casa, que arremessam batata frita no restaurante, que só comem Mc Donalds, Toddynho e porcarias com gorduras trans. Saberei impedí-los de se viciarem em Globo, SBT e Discovery Kids? Mesmo sendo um pai que não assiste TV aberta nem acha que o "Jornal Nacional" uma boa "janela para o mundo"?  Conseguirei ensiná-los a naturalmente usarem 'por favor' e 'obrigado'? Sem sacrifícios? Saberei educar gêmeos não chiliquentos? Serei um pai sem autoridade? Terei bom senso ara não fazer festas de aniversário mais produzidas do que efstas de casamento ou as farei em casa mesmo (salão de festas me dão arrepios!)? Será que apenas minha intenção e empenho evitarão criar filhos que tenham seus desejos, mas não a gana de comprarem mochilas da Barbie, notebooks "Princesas Disney", consumistas de propaganda? Saberei como fazê-los detestarem refrigerantes? E a pisarem descalços na terra e na grama sem terem espasmos de nojo?

                 PRIMEIRA e última viagem grávidos  ___________________________________________

                 Ainda dentro da barriga da futura mãe eles já mudaram nossas vidas. Nos impõem cuidados, restrições e preocupações. Especialmente em viagens. Em dobro, porque você já sabe, gêmeos são assim. Viajar grávida significa restringir gigantescamente os destinos. O problema não está no avião, mas para onde ele nos leva. Mês que vem vamos viajar. Será a primeira (e única) viagem enquanto grávidos. Para grávidas, o problema não é o avião, mas para onde ele as leva. Então iremos à Espanha e França. Visitaremos Barcelona (especialmente porque desejamos rever nossos queridos amigos Tony e Cecília Gálvez), Paris, Vale do Loire e Mont Saint Michel. Será uma escapada de Carnaval. Com minha querida sogra, amiga e futura vovó de gêmeos Mariliana.

                Obrigado, minha doce Emília. Te amo. Ainda mais (se isso for possível...). E cada vez que te olho, penso se devo mesmo fazer vasectomia. Porque pra mim a paixão não é apenas essa tal de "química" despejada no sangue, nem do êxtase cerebral. Tem  muito mais a ver com o coração.

                Para você, querido leitor, desejo um Novo Ano espetacular. Sob todos os pontos-de-vista.

 

Sexta-feira
Dez052014

A mais incrível viagem de nossas vidas

              O mundo é redondo, ninguém tem dúvidas. Mas quando turisticamente ele começa a ficar plano demais, penso na África. Olho o globo e me concentro na sua porção menos convencional. É quando percebo que autenticidade e novas ideias de viagens tornam-se tão mais escassas quanto mais destinos visito. Ideias ousadas, quero dizer. Dessas para lugares incomuns, pouco explorados e onde eu possa viver experiências autênticas e encontros marcantes.

                Não sei quantas vezes já disse, mas viajar pelo mapa me traz imenso prazer. Corro os olhos por ele, detendo-me nos detalhes, e descubro lugares que não conhecia. Passo então a desejá-los. Continuo e revejo países que visitei, tornando a reviver seus sons, cores, imagens e cheiros. Cada um tem os seus. E quando eles retornam da lembrança, provocam quase os mesmos doces e imensos prazeres de quando estive lá. É a magia das viagens fazendo das suas, resgatando lembranças e dando uma nova dimensão a um continente fabuloso que ali está reduzido pela escala do mapa.

              Tudo torna-se tão atraente e desejável, mesmo sob a perspectiva limitada de um mapa. Amplio sua escala aproximandoo a ponta do indicador de sua superfície, tocando-a e deslizando, guiando meu olhar sobre tantas e tão verdadeiras gemas preciosas de uma imensa mina de preciosidades turísticas: o continente africano. Que delícia é viajar pelo mapa! Quem nunca passou os dedos por um globo terrestre sem viajar numa viagem sobre o mapa mundi?

                Os olhos vagueiam por terras africanas cruzando desertos da Namíbia, encontraando a mais bela e diversificada vida animal do planeta, entrando nas igrejas cavernosas de Lalibela, circulando por mercados de fetiches de voodoo no Togo, caminhaando pelas ruas labirínticas de Zanzibar, pelas planícies sem fim do Serengeti, pela Cratera de Ngorongoro. Navego numa canoa mokoro no Delta do Okavango, encontro os Masai Mara, assisto às grandes migrações do leste, observo orangotangos na densa floresta Bwindi - no coração de Uganda - , escalo a Table Mountain de Cape Town, percorro a labiríntica medina de Marrakech, mergulho nas águas idílicas de Moçambique e Madagascar, deparo-me com a mítica cidade desértica de Timbuktu, encanto-me com as casas de adobe de Tiébelé e por fim revisito a Etiópia. Paro por bom tempo na Etiópia, a tão querida Etiópia. De cabo a rabo gostamos do país. A bem da verdade, muito além de suas mais óbvias atrações: Lalibela e o Vale do Omo.

                 No mapa da Etiópia relembro o prazer de navegar entre hipopótamos e crocodilos no Lago Chamo, experimento de novo a loucura de alimentar hienas em Harar (com um pedaço de carne preso na ponta dum espeto seguro entre meus dentes!), revivo as surpresas enquanto visito novamente as ruínas de um império quase desconhecido - o aksumita -, e percebo que tudo parece que foi ontem. Provavelmente foi lá, na Etiópia que nos arrebatamos definitivamente pelo continente africano.

                E continuo a viagem no meio dessa paisagem. Tudo me fascina e me faz lembrar que foi ali, em solo africano, que uma vez andei e caí de um camelo, afundei até os joelhos nas areias fofas do Sahara, conheci povos nômades, encontrei grandes animais a um metro de meus olhos, me perdi nas labirínticas medinas de Marrakech e Túnis, conheci tribos do Vale do Omo, uma gente que só pensava existir em revistas National Geographic e nas fotos de Jimmy Nelson. Visitei a Biblioteca de Alexandria, conheci Lucy - o hominídio mais antigo que se tem notícia -, vivi experiências de deixar o coração, até mesmo de perdê-lo. Afinal, se todo mundo tem um lugar onde deixou o coração, parte do nosso ficou por lá, do norte, no Magreb - Marrocos, Egito e Tunísia - ao sul, onde vivemos memoráveis encontros com os big five em safaris encantadores, mas também no leste, Etiópia, onde as experiências foram tão magníficas que não me espantaria se resolvessem escrever seu nome seguido duma exclamação: Etiópia! Que incrível poder sentir os cheiros etíopes numa simples viagem pelo mapa...(*1).

                  Nossa próxima viagem já estava marcada, comprada e acertada. Íamos para a África. Para a África Ocidental, no próximo dia 20 de Dezembro de 2014. Às 11 da manhã do dia seguinte chegaríamos a Lomé, Capital do Togo, onde começaríamos nosso roteiro através do Togo, Benin, Gana e Burkina Faso. Tiramos os vistos e tudo já estava pronto. Estávamos empolgados porque passaríamos nosso Natal, o Ano Novo e meu aniversário mais incomuns. E então...

                Mas por que iríamos para África? Por que não iremos mais? Por causa da epidemia de Ebola? Dos conflitos políticos no Burkina Faso? Não. O Ebola não ocorreu nesta parte da África Ocidental. E o retrato da África feito pela mídia internacional está longe de ser verdadeiro: é retocado e modificado. Como no Instagram. De modo que faz parecer o inferno na terra, oropositalmente ou não. Afortunadamente o mundo não é tão assustador quanto se lê por aí. E embora a região esteja muito longe de figurar entre os 100 destinos mais atraentes do planeta, é esse o motivo porque nos atrai tanto: a notável variedade de experiências e encontros que se podem viver por ali.

                 Muito do desejo desta viagem foi por lembranças do passado: na década de 70 meu pai fez uma grande e memorável viagem pelo continente. De costa a costa. Foram muitos os méritos de sua incrível jornada, o maior deles foi ter posto uma África não turística nos meus planos. Visitou o Gabão, Gana, Costa do Marfim, Angola, Moçambique, Etiópia, Suazilândia, África do Sul, Ilhas Maurício e Ilhas Salomão. Foi conhecer lavouras de cacau (*2) e café, a trabalho, mas “turistando” enquanto dava. Nunca esquecerei de seus relatos. Eram provocantes e me aguçavam a curiosidade as histórias que eu ouvia entusiasmado. Falava de encontros com feiticeiros comprando fetiches para a prática do vodu num mercado a céu aberto, de indivíduos correndo atrás dele por tê-los fotografado e "retido" suas almas na câmera (*3), da grande bagagem física e intelectual, das recordações, dos casos, fotografias e preciosas peças de artesanato, enfim, de um verdadeiro microcosmo da África que ele trouxe na bagagem e na memória. Todos eram lugares de uma vitalidade cultural surpreendente para mim, então um jovem sem a menor perspectiva de viajar para lugares assim. Tinham um charme exótico e uma originalidade intrigantes que não largaram mais de minha memória, alimentando futuras e novas ideias de viagens.

                 Por que, afinal, não vamos mais para a África Ocidental?

                Porque faremos a melhor e mais encantadora viagem de nossas vidas. Afinal, o que pode ser mais especial do que o encantador privilégio de ser pai? Especialmente ser pai quando se tem idade para ser avô? Vivo hoje esse momento em minha vida. Vida que dediquei toda à família e ao trabalho. Já conquistei estabilidade profissional e financeira e hoje sou mais um entre tantos homens que se casam, se separam, casam de novo, constituem novas famílias e renovam o privilégio da paternidade. Tive um filho aos 30 anos, casei-me novamente muitos anos depois com minha doce Emília (há cinco anos e meio) e agora serei pai aos 63 anos. Sim, estamos grávidos. De gêmeos!

                 Dois sereszinhos tão esperados, imaginados, queridos, sonhados e desejados quanto não consigo contar. Ontem - na sexta semana de gravidez - fizemos o primeiro ultra-som. E ainda que minúsculos - o bebê um mede 5 mm e o bebê dois mede 3 mm - escutamos seus coraçõezinhos. Músculos, ossos e cérebro estão começando a se formar. Mãos e pés mais se parecem com pequenas pás e o coração bate duas vezes mais rápido que o da mamãe. Ainda é cedo para sabermos os sexos, não há nada mais delicioso do que imaginar as três possibilidades: dois meninos, duas meninas ou um menino e uma menina. Só os sentiremos mexerem-se daqui umas nove ou dez semanas, em seus primeiros movimentos dentro da barriga da mamãe. Avô? Ainda não sou. Mas as coisas estão muito bem encaminhadas nesse sentido.

                 Alguém já disse que paternidade tardia não tem contraindicações. Afinal, é a oportunidade de aperfeiçoarmos nossas habilidades paternas, sobretudo de nos desculparmos aos primogênitos pela falta delas e não cometermos os mesmos erros. Então, prometo a você, minha doce Emília, que darei meu melhor para enfrentar as demandas de dois bebês em nossas vidas. E digo: teremos além de dois filhos, jovens companheiros de viagens, seres que acrescentarão nova dimensão às nossas experiências, aos nossos prazeres quando explorarmos o mundo.

                  É tudo pura questão de tempo. Mesmo assim não posso conter a ansiedade de viver o melhor dos dois mundos: viajar com nossos filhos. Por bom tempo ele não entenderão minha urgência (ou ansiedade) em lhes mostrar o mundo, sobretudo esperando que gostem tanto de viajar por ele quanto nós dois. E muito antes de os levarmos à Disney, viajarmos a Bangkok, a Angkor Wat, à África, a Maurícios, ao Marrocos...

                 Por um bom tempo não poderemos viajar de avião. Mas aproveitaremos o período de segurança – daqui até o final do quinto mês de gravidêz - para uma escapada no Carnaval a Curaçao e, esperamos, à Espanha, para uma visita aos nossos queridíssimos amigos Tony e Cecília Galvez, e com eles assistirmos às procissões da Semana Santa em Zaragoza.

                 Desejo a todos que tenham um grande Natal. E que tenham um Ano Novo perfeito, ainda melhor do que o nosso. Onde quer e entre quem quer que estejam. Não viajaremos à África Ocidental mas estaremos entre familiares e amigos comemorando o melhor que temos por agora: a preciosidade que minha doce Emília carrega no ventre. Até lá! E obrigado a todos que visitaram o Fatos & Fotos deViagens em 2014, que viajaram e inspiraram-se nos meus relatos, que desejaram os destinos que visitei e comentaram apoiando minhas ideias e reflexões.

Notas:

 (*1) Sim, alguns países têm cheiro. Entram pelo nariz, fixam-se no cérebro e não nos deixam mais. A Etiópia é assim; além de tudo, tem cheiro. E quando me ponho a escrever sobre o país, revejo minhas fotos, passeio pelo mapa em seu território, lembro-me dos seus cheiros. Os de Harar, de Axum, de Gondar e de Lalibela. Parece que países assim, que têm cheiros, fixam-se melhor na memória da gente.

(*2) Setenta por cento do cacau do mundo vem da África Ocidental. O Brasil já foi grande exportador, mas a praga "vassoura de bruxa" dizimou as lavouras brasileiras no Sul da Bahia, onde meu pai foi produtor.

(*3) Muitas pessoas acreditam que fotografias roubam suas almas, as aprisionam dentro da câmera fotográfica. A crença tem origem no animismo e no vodu. É claro que acho tudo isso uma superstição tola e infantil, incutida por religião.  Mas em viagens é preciso saber respeitar crenças, sobretudo porque do contrário podemos fazer pessoas sofrerem de verdade. Então é preciso pedir permissão para fotografá-las ou então fazê-lo discretamente, sem a menor chance de que percebam.