MENSAGEM ao LEITOR
BIO

Brasileiro, casado (com a "Turista Acidental"), empresário, tenho 62 anos e viajo internacionalmente desde os 35. Visitei 60 países (alguns já íntimos) em 91 viagens internacionais e por cerca de 40 cias. aéreas diferentes, em 391 vôos. O que segundo o Haroldo Castro, significa ter "Mestrado" em Viajologia. E se há algo fundamental que as viagens me trouxeram foi a compreensão de que quanto maior a flexibilidade para adaptar-me a ambientes exóticos, incomuns, pouco explorados e desconfortáveis, mais extraímos dos lugares que visitamos. 

Escrevo honestamente. Como um amador que não usa truques, disfarces ou maquiagem para escrever. Mas não me é fácil, porque o talento que me falta para produzir relatos valham a leitura, sobra em suor para tentar produzir algo que preste. Sobretudo que inspirem e motivem o leitor, jamais tentando guiá-lo. Escrevo com sentimento, e o nome deste blog já demonstra bem minhas intenções: escrever sobre viagens e reflexões relacionadas com o tema,sobre o meu modo de viver a vida, antes, durante e depois de nossas viagens. Mais do que relatos das viagens, essas reflexões acabam por mostrar os efeitos que minhas viagens provocaram em mim ao longo da vida. E talvez por isso meu blog já tenha sido tese de mestrado por três vezes e eu já tenha sido convidado a escrever numa revista de viagens brasileira.

Ocasionalmente escrevo para destacar o que me agrada ou não na blogosfera de viagens, na Internet, nas redes sociais, nas revistas e na literaturade de viagens. Especialmente desde quando parte dos blogueiros focou seu interesse na profissionalizaçãode seus blogs. E o que era produzido sem pretensões ou vínculos passou a ser mediado pela perspectiva de tornar-se comercial. Compromenteram-se o sentido original do blog, abandonaram-se o contexto da sociabilidade, da troca legítima e desinteressada de informações, da liberdade e da autonomia pelo interesse econômico. Tudo o que passou a determinar as postagens destes blogs. Ou seja, danem-se a ética e o leitor. O que importa agora é ganhar dinheiro.

Fotografar também faço com o mesmo gosto que tenho por escrever. Igualmente como amador. Avançado, talvez, mas amador. Jamais fiz cursos de fotografia nem de redação. Adoraria ter cursado jornalismo. Não o fiz, então, não sou "escritor de viagens".

 Ainda temos cerca de 40 países que desejamos (e pretendemos) visitar, além dos que já estivemos e desejamos voltar. A eles estamos dedicando nosso tempo em viagens. Burkina Faso, Gana, Togo e Benin, e Sri Lanka, provavelmente serão os próximos.

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Quarta-feira
Out292014

RIGA, um inesperado tesouro no Báltico  

               NÃO é fácil descrever Riga. Ela não tem lá muitas cores, sons e alvoroço. Também não aquele calor humano que cativa qualquer visitante. Mas entra na gente. De um jeito estranho, mas elegante. Não é o absurdo imponente de Praga, nem de longe tem sua imponência. Não, mas por certo é muito mais elegante. E ainda não estragada pelo turismo de massa, como Praga.

                 O patrimônio aquitetônico é bem mais discreto, ainda assim notável. Pode parecer camuflado, mas está por ali. Percebe-se. É cidade para expectativas mais discretas, mas tem lá seus meios de conquistar. Deve dispôr de alguma alquimia incomum, porque exige  tempo mais preciso e atenção mais dedicada para que o visitante a admire. Não há tantas cidades assim, afinal. Dessas que nos fazem pensar antes de admirar. Riga chega primeiro mesmo ao intelecto. Mas ainda que depois, também ao coração.

                PARECE que distinção é a propriedade com que ela incorporar-se no visitante. Bem mais lenta e discretamente do que na Capital tcheca. Exige tempo para que faça sentido sua história trágica, ainda que tão romântica a sua aura. Distinção, nobreza, cultura ficam nas camadas mais superficiais do que história e patrimônio. Mas para os amantes da arte e da arquitetura em diversos estilos - do maneirista da Rua Zirgu à profusão de prédios em estilo eclético, art nouveau e barrocos de seu centro histórico -, é cidade para encantar. Assim como para comer bem (muito bem!) e barato. Para os que apreciam a cultura do café, da cerveja, os amantes dos bons bares, os que apreciam boas livrarias e museus, lojas elegantes, um deleite.

                JULGA-SE que a Capital da Letônia tenha sido fundada em 1201 por cruzados alemães - os Cavaleiros Teutônicos - que desejavam cristianizar a área, até então de pagãos, na confluência dos rios Riga e Daugava,e nas costas do Golfo de Riga. Foi quando começaram a contrução dos primeiros edifícios nos estilos românico, renascentista e gótico. Os cavaleiros medievais, percebendo que sociedades tribais não durariam muito tempo naquelas épocas, começaram a modernizar a Lituânia: as práticas da velha economia foram abandonadas, comerciantes de fora foram convidados a instalarem-se no país, tecnologia militar ocidental foi importada e então estabelecido o Grão-Ducado da Lituânia.

             DESDE então os cruzados tornaram-se elite na cidade. E mantiveram sua posição mesmo depois do país ter mudado de mãos. Deixaram suas marcas na arquitetura, na linguagem e noutros lugares. Ainda que os suecos a tivessem assumido em 1621, tornando-a a maior cidade sueca fora da Suécia até 1710.  

                  FAZ bem menos tempo, todavia, que Riga libertou-se do "muro" soviético: foi em setembro de 1991. As três repúblicas bálticas - Estônia, Letônia e Lituânia, então chamadas Pribaltika - declararam a Moscou sua independência da União Soviética tornando-se os Estados Bálticos. O nome é genérico, define o grupo das três repúblicas situadas na estratégica costa leste do mar do mesmo nome, nordeste da Europa. Seu povo parece ainda não ter-se esquecido das contínuas invasões. sobretudo das últimas, quando parte dele foi deportada para a Sibéria, trabalhou como mão-de-obra escrava e foi exterminada. Nem de quando ficaram escondidos do mundo pela cortina de ferro, da turbulência de suas vidas, do sofrimento. Afinal, estes sempre fizeram parte de sua história.

 

                  TALVEZ seja o motivo porque o visitante note logo os primeiros traços da personalidade dos letões: recato e discreção. Só depois perceberão a elegância e educação, ainda que apenas um pouquinho só menos evidentes.

                 E parece que Moscou não querer deixar que as marcas da presença soviética se apaguem: ela ainda é bem perceptível. De certa forma,pelo que notamos, a "proximidade" russa até preocupa os letões. Fora isso, tudo tem personalidade própria. E na Capital, tudo está perto para ser visitado numa cidade extremamente amigável ao turista, facilmente explorável a pé. E extremamente mais barata do que em Moscou e Praga. O ar estava fresco e limpo no fim do Outono. Penso que cheirava a mar. O céu - ainda que quase sempre nublado - deixava a luz do Sol passar, mantinha boa claridade para fotografias. Chuva pegamos por instantes, tempo bastante para aproveitarmos um dos lindos, deliciosos cafés da cidade. A temperatura era fria, mas agradável. O ar, seco, perfeitamente suportável na casa dos 10 graus. Não vi cães nem gatos, apenas na forma de estátuas ornamentando edifícios. A comida é deliciosa e bem apresentada, o café, espetacular, a cidade é tranquila, residencial e aparentemente pouco turística.

                   EU não recomendaria nenhuma ordem inalterável por onde começar ou terminar uma viagem pelas preciosidades do Báltico porque a logística vai de cada um e provavelmente a ordem dos fatores não alteraria o produto. Mas eu não teria feito melhor escolha: primeiro a Lituânia, depois a Letônia e por fim a Estônia. A primeira - discreta e gentil, receptiva e pouco visitada, provinciana Vilnius - teria sido "apagada" pela imponência de Riga se a visitássemos depois. Ainda que a última, Tallinn, tenha sido muito comprometida pelas impressões negativas do turismo de massa que a cidade me deixou. 

                 CHAMA-SE Monumento à Liberdade, ou Milda, como é conhecido popularmente. Foi erguido em 1935 no ponto onde houveram as manifestações nacionalistas de independência de 1991, ao lado do agradável parque e do Rio Daugava. Não é exatamente o ponto por onde se começa um roteiro de visita à cidade, mas o marco que divide a cidade em duas: a nova e a antiga Riga. É uma coluna alta e esguia em cujo topo há a estátua em brnze de uma mulher segurando três estrelas sobre sua cabeça. Elas representam as três regiões culturais da Letônia: Kurzeme e Vidzeme, Latgale. Na base há uma inscrição "pela pátria e liberdade". O memorial honra os soldados mortos em ação durante a Guerra da Independência da Letônia.

               É um símbolo da liberdade, independência e soberania do país, executado em granito, com 42 metros de altura, ornado em parte por placas de travertino e cobre e serve como ponto central de encontros públicos e cerimônias oficiais.

                 BEM perto fica o Relógio de Laima, colocado alí em 1924, tinha a finalidade prática de ajudar os habitantes de Riga a chegarem a tempo em seus horários de trabalho. Em 1936 ele foi decorado com o nome e o logotipo do fabricante de produtos de confeitaria Laima, o maior e mais famoso do país. Após a segunda guerra mundial foi usado para exibir informações políticas, e em 1999 foi reformado, retornando ao seu desenho original. A Praça do Relógio de Laima é um dos pontos mais movimentados da cidade e de encontro de moradores e visitantes da cidade. 

                  OS letões chaman Vecriga a Cidade Antiga, o coração da cidade, onde está seu legado mais importante e imponente, onde o visitante conhece as múltiplas faces da cidade, do medieval - época de sua fundação há mais de 800 anos - ao contemporêneo. Por um labirinto de ruas sinuosas, por calçadas bem cuidadas em pedra fina, onde percebem-se as atividades mais vibrantes. Ali, cada um dos séculos passados deixou suas marcas, tornou o lugar um excepcional, encantador sítio para explorar-se a pé, quando então revelam-se aos poucos mas constantemente seus tesouros. 

                  NELE encontram-se o Castelo de Riga, onde trabalha o Presidente, o Saeima (Parlamento), o Banco Central de Latvia, assim como uma série de galerias de arte, cafés, restaurantes, lojas e escritórios. Por ali fica a Catedral Dome - reconhecida e classificada como uma das mais acústicas do planeta e por seu gigante órgãocom 6.768 tubos!, onde concertos acontecem regularmente, que em sua época Franz Liszt compôs uma peça musical em sua honra. A Catedral de Riga, ou Doma Baznīca, é o maior templo do Báltico. A pedra fundamental da Catedral de Riga foi lançada em 1211, mas sua última restauração ocorreu no final do século XIX, quando a Catedral adquiriu a sua atual aparência com características dos estilos românico, gótico, barroco e Art Nouveau, naquela que considera-se a maior igreja medieval da Letônia e dos Estados bálticos. 

                 NA Cidade Velha também ficam o Museu de História e Navegação, a Igreja de São Pedro, a Sinagoga, o Museu da Ocupação, o Relógio Laima, a Ópera Nacional, a Catedral Ortodoxa da Natividade, o Bergs Bazaar (onde comemos num dos mais incríveis restaurantes da viagem, no Hotel Bergs), o Mercado Central, entre outros.  No Museu da Ocupação (soviética e alemã) eu diria que a visita é necessária, ainda que algo deprimente.

            O Museu é fundamental para quem deseja conhecer (e compreender bem), através da excepcional maneira como a descreve, a história recente do povo durante as ocupações sucessivas. O museu apresenta a a história dos cinquenta anos de ocupação da Letônia (de 1940 a 1991), desde a primeira ocupação soviética (de 1940 a 1941), a ocupação alemã socialista  (de 1941 a 1945) à segunda ocupação soviética (de 1945 a 1991). 

                   A curiosa House of the Blackheads (Casa dos Cabeças Pretas), na Praça da Prefeitura, onde no centro está a Estátua de St. Roland, patrono de Riga, ao lado do museu, originalmente chamada New House, constuída em 1334, numerosas vezes reconstruída desde 1522. Na praça defronte a este prédio há um marco onde há 500 anos aquela que supões seja a primeira Árvore de Natal foi colocada. E ao fundo outro belo exemplo arquitetônico, a Casa Schwab Os prédios geminados chamados Three Brothers (Três Irmãos), na Mazā Pils iela 19, um grupo encantador de prédios residenciais, cada um de um século diferente, o mais antigo do século XV, onde podemos ficar vários minutos admirando as características arquitetônias e ornamentais de cada qual, sem que fiquemos entediados ou com vontade de sair.

                     A Casa do Gato é um dos mais famosos edifícios antigos de Riga. É bonita sua arquitetura, mas a importância está na história, curiosa e genial história. O nome vem da escultura dos dois gatos pretos empoleirado no topo das torres de seu telhado. Conta a história conta que o escultor morreu ao cair do prédio quando as colocava no lugar. O mais curioso, no entanto, não foi a desgraça do escultor, que fatalmente caiu enquanto as montava, senão o motivo que levou o proprietário do edifício mandar instalá-las. O rico comerciante o fez depois que sua adesão à Câmara de Comércio, cujo edifício sede fica exatamente defronte à Casa do Gato, foi rejeitada à poderosa guilda pelos alemães etnocêntricos. O gato foi posicionado com sua cauda reta para cima e com o fiofó do animal voltada para a câmara. A posição era um claro insulto aos membros do clube de comerciantes, que imediatamente exigiram na justiça a retirada ou deslocamento das estátuas do o animal para uma posição não ofensiva. Eles ganharam o caso e o gato então teve que ser reposicionado como se vê até hoje.

                  O conjunto de prédios chamados Jacob's Barracks Jacob’s com telhados vermelhos ao longo da Rua Torņa abriga bares, restaurantes, lojas de souvenirs, salões de beleza e agências de viagens. Foram construídas no século XVIII, na base das fortificações da cidade, até a década de 1990 usados por vários exércitos, desde então foram restaurados várias vezes, até a última, em 1997. São tidos como uma fronteira entre a história antiga e a contemporânea da cidade. Ali perto ficam a Torre de Pólvora e defronte fica o Swedish Gate no outro lado da Rua Torņa.

                  NÓS gostamos muito de visitar o Mercado Central, provavelmente mais do que a maioria dos visitantes, talvez porque sejamos especialmente interessados em mercados do gênero. Onde quer que eles estejam no mundo, os visitamos. O de Riga não é exatamente uma "obrigação" turísica, mas se o visitante tiver tempo, antes de deixar a cidade deve conhecê-lo.

                  PERTO da estação de trens, consiste numa série de setores cuja seleção de alimentos de todos os tipos é impressionante, na variedade e na qualidade. De queijos típicos a peixes e frutos do Mar do Báltico. Dentro dos galpões, originalmente hangares de zeppelins construídos pelos alemães na I Guerra Mundial, barracas oferecem de roupas usadas a flores frescas (que flores!), de frutas a pães, decarnes a legumes e verduras.  

                   DIZEM que se deve ter cautela na visita, porque turistas carregando câmeras têm sido empurrados, embora o crime de rua seja incomum em Riga. Freqüentamos o mercado, evidentemente que atentos, mas não nos entimos em nenhum momento inseguros.  

                 ALÉM da beleza evidente das áreas históricas, de quase todos os prédios descritos acima, do alto da torre da Igreja de São Pedro pode-se ver como a cidade espalha-se para além da Cidade Velha, e ver-se os blocos de apartamentos soviéticos, o prédio estilo Stalin, arranha-céus modernos, a Ponte estaiada Vansu sobre o rio Daugava, a Torre "Eiffel" de TV, os cinco antigos hangares de Zeppelin que compõem o mercado Central, o Monumento da Liberdade e o Hill Park, onde havia as muralhas da cidade, um dos muitos espaços verdes dessa agradáveis cidade arborizada.  

               SAUDADES, Riga!

__________

(*) NOTAS:

Recomendo vivamente o guia Lonely Planet Estonia, Latvia & Lithuania (*4) (com um capítulo para uma escapada a Helsinki desde de Tallinn).  Lonely Planet http://www.lonelyplanet.com/latvia/riga/sights

Destaco os blogs Viajar pelo Mundo, bem ilustrado com ótimas fotos e bons textos - da Claudia Liechavicius -, o Viaggio Mondo - da Fê Costa -, dois não burocráticos e honestos blogs de viagens amadores entre os que mais gosto. Também li o Álbum de viagens - escrito por Vinicius Buccazio e Marcelo Schor, cujas viagens também sãoefetivamente feitas pelos autores ou seus convidados, pagas pelos próprios”. Nestes as imagens e relatos foram úteis na medida certa: deram-me ferramentas para os meus primeiros passos na pesquisa turística daqueles países e não me conduziram como um guia de excursão: mostraram-me opções de caminhos a seguir, mas não me guiaram por eles, senão deram-me liberdade de optar por qualquer um.

Sempre que estou a escrever dou uma passada no Vou sair pra ver o céu, do Davi Carneiro. Mas aí é mais para buscar inspiração de como escrever. Jornalista de viagens, o autor diz que suas "prioridades são as narrativas, vídeos, fotos, reportagens, jornalismo e literatura de viagens. Um blog onde encontrem-se textos do autor e de outros, onde o pré-requisito é apenas um: contar boas histórias de viagens, inspirar sabores, lugares, culturas, risco, pinceladas, movimento, sensações e pessoas." Se você também não gosta de enganação, gostará de lê-los.

A revista portuguesa Volta ao Mundo número 238, edição de Agosto de 2014, traz matéria sobre a Lituânia, com o título "O encanto dos lugares tranquilos", com texto excepcional e fotos lindas, como afinal são característicos da revista.

Você já sabe, mas não custa lembrar: 1) Aqui não tem jabá, mas honestidade, ética e transparência. Acima de tudo. 2) Este não é um blog profissional ou comercial. 3) Amador e não suportado por nada ou por ninguém (além de mim, claro). 4) Não recebo 'brindes' em troca de cobertura positiva para o que quer que seja, minhas viagens são auto-financiadas e os produtos e serviços aqui mencionados são feitos por liberalidade minha, sobretudo não têm conhecimento dos mesmos. 5) Não sou recompensado de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação - por qualquer produto ou serviço aqui mencionado. Tudo é feito com a suposição de que o leitor saiba identificar os objetivos do blog e que verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão. Da cia aérea aos hotéis citados.

 

Sexta-feira
Out172014

Nossa viagem à Pribaltika. Que destino!

INTRODUÇÃO - Meus sonhos de viagem à Pribaltika   ______________________________

Olhando pela janela ... (do Museu de Art Nouveau de Riga)

                NÃO costumo descrever meus sonhos. É simples: abro os olhos e já me esqueci deles. Suponho até que muitos sejam bons, pois consigo recuperar leves mas boas lembranças. É possível até que meus melhores sonhos sejam os de viagens. Mas ainda assim, sonhos são sonhos. Segundo Freud, em sua teoria simples mas essencial para evitarmos exageros interpretativos, crenças, misticismo e dogmas religiosos que tentam explicá-los, "sonhos são pensamentos". Simples assim: enquanto sonhamos, pensamos coisas registradas no cérebro. Exatamente como quando acordados. A diferença é que acordados elas são organizadas, mas dormindo, uma bagunça.

                   MEUS sonhos (ainda que não me recorde bem deles), costumam refletir com frescor o que vivi, pesquisei e observei durante a vida. Mas são como todos os sonhos. desarrumados. Um conjunto de imagens, de emoções, de coisas registradas no cérebro e agrupadas sem nexo, de um jeito carente de ordem. Posso compar meus sonhos a filmes toscos, produções caseiras classe "z": sem roteiro, direção e edição de imagens. Além de tudo, mal interpretados. Mas não sei bem porquê, meus sonhos bálticos até que eram bem organizadinhos. Digamos que tinham uma atmosfera próxima da realidade, ainda que tratassem-se de devaneios próprios aos sonhos. Talvez por isso eu não os tenha esquecido quando acordei.

Nos meus sonhos, falavam uma linguas estranhas... 

                 VOU contá-los: eu olhava por uma janela e via torres ponteagudas de igrejas, catedrais góticas de pedra, muralhas medievais, edifícios coloridos com fachadas suportadas por atlantes, ruas estreitas, prédios de telhados inclinados, casas de madeira e ouvia gente falando língua esquisita... Depois ia às ruas e via castelos medievais de antigas monarquias, florestas e montanhas, cavaleiros em cruzadas montados a cavalo, lagos de águas cristalinas... Eu percorria lugares pouco visitados, atraentes e tão bonitos...

Eu via edifícios coloridos de fachadas suportadas por atlantes

               FOI na véspera de me meter no avião que tive o último de meus sonhos bálticos. Fui vivê-los. Mas despertei preocupado: havia o "perigo" real do imaginado não corresponder à realidade. Afinal, as loucuras (e delícias!) de meus devaneios poderiam ser muito diferentes do que eu veria, até melhores do que a realidade. Passei então a me preocupar com outra coisa. Era quase como sonhar um novo sonho: o de escrever bem sobre a Pribaltika.

             Pribaltika! Achei bem legal saber que assim os soviéticos se referiam à Estônia, Letônia e Lituânia. No dia de partir comecei a escrever as mal traçadas linhas de sempre. Não sem antes conferir no mapa e no Google onde afinal ficava a tal Pribaltika que eu visitaria, as três pérolas turísticas pequenas nações e quase desconhecidas do novo Velho Mundo.

O tempo passou, parei de sonhar meus sonhos bálticos e fui viver a realidade (uma ampulheta numa fachada de Riga)

               PESSOAS são assim, diferentes. Inclusive nos sonhos. Mas como diria minha avó, "até aí morreu Neves". Pode parecer óbvia a afirmação, mas nem todos sabem disso. Há quem não goste de sonhar e planejar viagens. Eu adoro ter um plano. Sempre gostei de ter planos na vida. Flexíveis, mas planos. Mas eu estava às voltas com o trabalho e as tarefas me ocupavam tanto que não houve tempo para o que tanto gosto: ler e pesquisar o destino, planejar a viagem. Para mim, planejamento é a chave para o sucesso de uma viagem. Não haveria porque ser diferente com a Pribaltika.

    Planejamento, a chave para entender Riga e tirar dela o melhor         

                NÃO me refiro às tarefas relacionadas à logística, hospedagem, essas coisas. Não ficam mais comigo, dsde que deixei-as com minha doce Emília. Além de enciclopédia geográfica e histórica ambulante, e mais-que-perfeita companheira de viagens, promotora das melhores idéias de viagens e destinos, tem sido tão eficiente na organização de tudo que não me atrevo a interferir. Vai que desanda! Me refiro a ler. Ler para saber. E sonhar. E então, à noite, enquanto durmo, meu sonhos parecem potencializados por essa falta de reflexões, pesquisas e leituras do dia. Viram uma bagunça maior ainda.

                NO dia de embarcar parei de sonhar com a viagem. E a me preocupar com outro "sonho": o de escrever bem sobre ela. Então desandei a escrever. Como nunca. Quase não reconheci em mim tanta hiperatividade criativa. Masvá lá que haja muitas maneiras de contar uma viagem. Bem ou mal, é verdade, mas nenhuma certa ou errada. Apenas diferentes. E o que é descrever bem uma viagem? Por certo não é a minha maneira, pois reconheço a inabilidade.

                 LÁ se vão oito anos tentando fazer isso aqui sem conseguir! Sim senhor, oito anos escrevendo esse blog! Da empolgação e encantamento à apatia e desejo de abandoná-lo esse blog já passou por muitas. E dizer que o comecei porque era a maneira mais fácil de manter a família informada sem ter que encher suas caixas postais com fotos e e-mails.

Sonho sonhado, sonho vivido, viagem bem feita. Mas eu conseguiria saber contá-la?

                ESTOU falando de quem sabe. Sobretudo de quem escreve com o coração o que os olhos viram. Se para quem viaja e escreve não basta fazer bem a viagem, é preciso saber contá-la, e se a linguagem existe é pra isso, gosto quando alguém sabe descrever um lugar me fazendo sentir parte dele. Sobretudo quando não tenta "convencer-me", mas inspirar-me. É difícil errar quando se esrceve assim. São muitos os que levam seus leitores a imaginarem-se autores do que lêm, a assumirem o papel de protagonistas, como se passos, histórias e descobertas fossem do leitor, não de quem os descreve. E a motivá-lo. Eu faria uma longa lista de autores com tais capacidades, mas a encerro breve para não entediar o leitor. Então, entre os que li e gosto e os que preciso ler eestou certo de qye valerão a pena, destaco os excepcionais e fundamentais para quem pretende orientar-se no que seja a boa escrita, os que seduzem com as palavras: William Dalrymple, Tziano Terzani, Paul Theroux, Bruce Chatwin, Jack Kerouac, Nick Tosches.

                QUALQUER dia eu volto aqui pra contar sobre Riga, esse inesperado tesouro Báltico, um sonho de cidade. Saudades, Riga!

Segunda-feira
Out132014

Letônia sob as cores do Outono

INTRODUÇÃO - Se eu voltasse a Samarkanda...

Às margens do Lago Galvė, em Trakai, Lituânia, as cores do Outono

                 SE apenas a vontade determinasse a escolha do destino nessa escapada, teríamos ido ao Sri Lanka. Talvez à Mongólia ou mesmo a Zanzibar. Ou então a Berlim, Budapest... Quem sabe até a Samarkanda, a inesquecível pérola da Rota da Seda. Todo mundo tem sua lista de desejos. Nós também. Por isso não nos faltam lugares que desejamos visitar. Novos ou a rever. Uma vez fizemos a nossa, anotamos os países que sonhamos conhecer. Os possíveis, claro. A lista somou uns quarenta além dos que já visitamos. Nela dividimos destinos entre “longos” e para “escapada”.

Antes do Inverno chegar, ainda se pode voar de Balão sobre Vilnius

                 Estônia, Letônia e Lituânia - ou intimamente, Lietuva, Latvia e Eesti - estavam entre os mais interessantes para a estação, acessíveis às nossas pretensões e cabiam como uma luva para uma escapada. São pequenos, acessíveis, ainda guardam seus mistérios e proporcionam boas surpresas turísticas. Tirando o óbvio - o prazer do divertimento -, viajar proporciona felicidade, prazeres que continuam muito tempo depois que a viagem acabou. Mas eu não poderia imaginar que esta seria uma viagem tão proveitosa. Especialmente pelo bate-e-volta a Helsink e a caminhada por Frankfurt nesta escapada de Outono.

  

                 Parte da tarde até o início da noite passamos em Frankfurt. Voamos Lufthansa (*1) e pousamos às 14:45 na cidade alemã. Nosso vôo para Vilnius seria às 20:25, tínhamos então, três a quatro horas para uma escapadela à quinta maior cidade da Alemanha. Um convite a sairmos do aeroporto. Pegamos um trem na enorme estação (S-Bahn) do enorme aeroporto, próxima da área de desembarque do terminal 1, onde chegam os vôos do Brasil, Compramos dois bilhetes na máquina de auto-serviço ao preço de cerca de 4,00 euros. Pegamos o trem S8 (há também o S9) que para nas plataformas 1 a 3 e seguimos até a Hauptbahnhof . Chegamos em 15 minutos à estação de trens de maior movimento da Alemanha e passamos um surpreendente sábado na cidade.

Em Outubro o frio ainda é suportável e as cores quentes

A Barroca Vilnius, primeira Capital  dessa "Nova Europa" __________________________

                 Depois do desembarque e recuperação das bagagens seguimos para a cidade, que tarde da noite me pareceu monocromática, desbotada, quase desoladora, uma reminiscência soviética que eu não imaginava encontrar.  Mas logo chegamos à Cidade Velha, e então Vilnius me pareceu atraente, bem cuidada, algo intrigante. No maior centro histórico em estilo barroco por essas bandas do planeta, nomeado Patrimônio Mundial pela UNESCO, fica o Kempinski Hotel Cathedral Square (*1). A elegância é notável por fora. E àquela hora lhe destacava uma bela iluminação. Todavia ainda não sabíamos que localização era sua melhor virtude. Àquela altura, quase uma da manhã, eu só pensava numa deliciosa cama e dormir umas horas até a manhã seguinte.

                   Vinte e três anos se passaram desde que a Lituânia declarou-se desanexada da URSS e uma república nova. Aqui e ali há lembretes (ou cicatrizes), do teror soviético, mas são muito pouco perceptíveis. Muita coisa mudou desde então, e mesmo numa curta estada pudemos conhecer bem suas histórias antiga e recente. O Lonely Planet a descreve como “bizarra, linda e encantadora”. Mas a capital seduz seus visitantes com sua surpreendentemente barroca cidade velha, repleta de torres das igrejas ortodoxas católicas, tão importantes que a Unesco a declarou patrimônio da humanidade.

                    Seja vista do alto de sua colina, no nível das ruas ou do topo de uma torre de igreja, Vilnius é inequivocamente uma cidade de grande beleza. Ainda que discreta. Sua mais notável característica, todavia, é não ser turisticamente deturpada. É pequena, de tal modo que é fácil explorá-la a pé. É silenciosa, cidade, limpa, bonita. O trânsito é discreto. Quase não se ouvem buzinas. Para turistas numa escapada cidades compactas são ultra apropriadas para explorar. E desde que a Lituânia não faz parte da zona do euro, tudo é incrivelmente barato.

                  Estávamos às portas da Cidade Velha. Prontos para explorarmos suas ruas estreitas, igrejas, museus, cafés e restaurantes. Não é possível ao visitante notar o quanto os três pequenos países, ainda que vizinhos, sejam tão diferentes entre si. Por inúmeras e complexas razões. Aqui os soviéticos parecem ter deixado um legado arquitetônico bem menos óbvio do que em Riga, por exemplo, como veremos numa outra matéria, ainda que em todas a arquitetura seja o que melhor expressa a personalidade das três capitais.

                 A propósito da história, a fundação da cidade deve-se ao sonho profético do grão-duque de Gediminas, que reinou no século XIV. Um lobo de ferro apareceu-lhe no alto de um monte e ele procurou um padre para que lhe explicasse a alegoria. A resposta do religioso foi “construa um castelo e uma cidade no topo do monte”. E ali até hoje existe a ruína do que foi o Complexo de palácio e castelo, um dos cartões postais de Vilnius, ainda que realmente pouco atraente, a não ser pela vista que proporciona. Como algumas cidades medievais, há resquícios de muralhas que a rodeavam e protegiam, mas é no centro histórico onde concentra-se o que ela tem de mais atraente: seus mais de 1500 edifícios de estilos que vão do barroco ao renascentista, entre eles o gótico e o clássico.

                   Vilnius parece tão amigável, calma e descontraída que é fácil esquecer sua história tumultuada, os muitos ataques que sofreu desde o século XIV. Nos anos dourados chegou a ser capital de um poderoso império antes de ser novamente invadido, desta vez pela Rússia. Napoleão também andou saqueando Vilnius. Foi em 1812, antes que os russos a tomassem novamente. Os alemães ocuparam a cidade durante a segunda guerra mundial, mas antes a Rússia foi lá e a incorporou à antiga URSS. O país finalmente alcançou a independência em agosto de 1991.

                 Como em boa parte desse pedaço do Velho Mundo, as pessoas não são muito extrovertidas, ainda que simpáticas, sobretudo educadas. Sobretudo por sua notável discreção, elegância e elogiável característica de falarem baixo. O custo de vida turístico é muito atraente. E a gastronomia é relativamente fraca, especialmente comparada a Riga e Tallinn. Para os apreciadores de café, como nós, os países bálticos são uma festa. Há inúmeros bons e simpáticos cafés para saborosas paradas entre uma exploração e outra. Provavelmente o dia de qualquer turista começará visitando uma de suas igrejas.

                  É o que mais há para se visitar em Vilnius. Parece haver mais igrejas por metro quadrado de cidade do que na Bahia. Mas sabe-se que são 28 nesta parte de Vilnius, 21 delas católicas romanas e 4 ortodoxas russas. O restante fica entre as de comunidades luteranas e outras. Há também uma sinagoga. Havia muitas, hoje só uma. Infelizmente, como sabemos, neste lado do mundo os judeus padeceram e foram perseguidos e exterminados. Mas uma vez na cidade não se pode negar que os lituanos sejam profundamente religiosos.

                   Algumas entre as mais importantes igrejas da Cidade Velha foram fechadas durante a ocupação soviética, entre elas as de São Nicolau, de Santa Teresa, do Espírito Santo e de Santana, além de todas as ortodoxas russas (exceto a Paraskeviya). "Fechadas" quer dizer "proibidas celebrações de missas". Quase todas são muito bonitas, bons exemplos de arquitetura e ornamentação, a despeito dos diferentes estilos. A cidade tem outros encantos que revelam-se numa simples (mas longa) caminhada exploratória, mas é impossível deixar de esbarrar em suas igrejas.

                  Na Rua Stikli, por exemplo, fica a Igreja de São João. Além da visita, vale uma subida ao topo de sua torre para uma vista panorâmica da cidade antiga, diferente daquela do do morro do castelo. Há também dois museus, o do Holocausto e o das Vítimas do Genocício, chamado Museu da KGBE também o Palácio Presidencial, o Complexo do Castelo, a Torre Gediminas e o Palácio Real. A Porta da Alvorada (Gate of Dawn) é um dos principais pontos turísticos da cidade antiga. Onde também ficam a Prefeitura, a Rua Pilies e a Vikieciu Gatvé.

A curiosa República de Užupis     ________________________________________________

                 Užupis é um curioso “bairro” de Vilnius, próximo à Cidade Velha, do outro lado do Rio Vilnia. É lugar de artistas, o que frequentemente leva a quem o descreve como "Montmartre da Lituânia". De fato há galerias de arte e artistas plásticos como no bairro parisiente, além de cafés de restaurantes, mas sua maior particularidade é que Užupis auto-proclamou-se uma república independente. Foi em 1997. Nomearam-na Nepriklausoma Užupio Respublika.

                 Na época da dominação soviética consideravam Užupis um bairro perigoso, de periferia. Hoje tem governo, bandeira, hino, parlamento, constituição e moeda próprios. Até um exército, composto por onze homens. Todos ministros de estado! Não se tem notícia que alguém (além de seus habitantes) que reconheçam sua legitimidade.

 

                 O presidente de Užupis, por outro lado, diz que o cidadão uzupiense "tem direito a ser indistinto, incompreendido e aceitar sua pouca importância", reservados que são, talvez por terem sofrido tantas atrocidades. Vale a visita. Sobretudo divertir-se lendo a inusitada constituição. 

 Trakai      _______________________________________________________________________

                 Nenhuma visita à Capital fica completa sem uma ida a Trakai. São apenas 28 quilômetros de distância. Há ônibus em diversos horários entre ambas e o trajeto leva cerca de 30 minutos. É um dos bonitos castelos da Europa, uma espécie de balneário à beira do Lago. O castelo fortaleza é um dos poucos que situam-se numa ilha, e a ele tem-se acesso por uma longa ponte de madeira. É bem mantido, tem salas de exposições e eventos artísticos durante o ano, especialmente no verão, onde acontecem torneios típicos da era medieval.

                 Entretanto uma visita à pequena vila de Trakai me pareceu bem menos turística, curiosa e atraente que ao castelo. Em charmosas, aparentemente aconchegantes casas de madeira, viviam os caraítas, turcos que chegaram aqui desde a Crimea no fim do século 14 para serem  guarda-costas de Grão-Duque Vytautas. Há um pequeníssimo museu dedicado aos caraítas que vale a pena a visita. Na mesma rua há um restaurante famoso, o Kybynlar, tocado por uma família local, que serve o kibinai, um pastel de forno recheado com carnes diversas.

  

                 Saímos de Vilnius com uma leve impressão de que jamais nos esqueceríamos dos bálticos, que ao final, em Tallinn, tornou-se uma certeza.

NOTA:

(*1) Para evitar qualquer mal entendido, aqui não tem jabá, mas honestidade, ética e transparência. Acima de tudo. Profissionalismo não, porque este é um blog amador. Ainda assim não é suportado por nada, nem por ninguém além de mim. Não recebo 'brindes' em troca de cobertura positiva para o que quer que seja, minhas viagens são auto-financiadas e os produtos e serviços aqui mencionados são feitos por liberalidade minha, sobretudo não têm conhecimento dos mesmos. E mais, não são recompensados de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação. Cada produto ou serviço aqui mencionado é feito com a suposição de que o leitor saiba identificar os objetivos do blog. E que verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão. Da cia aérea aos hotéis citados.

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 A seguir:

 A elegante Riga e o maior conjunto de ediufícios Art nouveau da Europa

Quinta-feira
Out022014

VIVA a Internet! (e o fim do Orkut e o nascimento do Ello)

                 O Google anunciou o fim do Orkut. Foi anteontem, 30 de setembro, após dez anos de vida. O prazo de validade estava vencido há tempos. Deixa alguns órfãos, mas é claro que a maioria já esperava (ainda que sempre tenha gente que aposta a vida afirmando que redes sociais e blogs durarão pra sempre). Os que dizem isso provavelmente são os que mais contribuem para o contrário. Acabam sim. Tanto quanto outros nascem. Agora é do Orkut morrer e da Ello surgir. A novíssima rede social - "Simples, charmosa e sem publicidade", como a definem seus criadores - como não poderia deixar de ser, já está "causando" na Internet (que nova rede social não causa furor na Internet?). Essa dizem que é um pouco diferente: não terá publicidade, mas será paga. Quem quiser participar deve escrever um e-mail e esperar resposta, para então criar sua conta. O interesse foi tão grande que a empresa chegou a receber 31 mil pedidos por hora(!). O tráfego foi tanto que o site teve que ser tirado do ar. (*)

                  FACEBOOK eu tenho. Uso pouco, mas tenho. A maioria esmagadora de meus contatos é composta por familiares e amigos. Gente que conheço. De fato. E tem sido muito bom poder compartilhar fotos e dar notícias a meus amigos e familiares enquanto viajo, poder manter contato com qualquer pessoa, não importa onde ela esteja. As tecnologias tornaram o mundo menor, é verdade, mas muito melhor. Desde que comecei a viajar a tecnologia mudou tanto o modo de viajar que parece queo que eu fazia efetivamente não era viajar. Hoje posso reservar um hotel, comprar um bilhete de avião e alugar um carro com alguns cliques e sem sair da cadeira. Dicas e relatos de viagem existem aos montes na Internet.

                  NÃO tiro fotos com smartphone, mas faço milhares delas com uma câmera fotográfica digital profissional e acabo de comprar uma filmadora GoPro3, com a qual espero ingressar na era dos filminhos de viagens. Sou usuário frenético da Internet. Confesso: eu não saberia viver sem ela. Sem TV, sim. Especialmente as de canal aberto.

                  DIA desses li um artigo de Paco Nadal, um viajante-turista-jornalista-escritor espanhol. Ele escreve sobre viagens para o jornal El País, e no seu artigo relacionava as coisas que fazíamos em viagens antes da era digital. Achei bacana ele me fazer lembrar que mandávamos postais, telefonávamos pra casa em telefones públicos, líamos um livro ou uma revista enquanto esperávamos na sala de embarque de um aeroporto, fotografávamos com filme e gastávamos uma "nota preta" para revelá-las e ampliá-las em papel. Torturávamos amigos com intermináveis (e chatíssimas) seções de projeção de slides e e de filmes em super-8, tomávamos o maior cuidado pra não perdermos o bilhete físico do avião (caso contrário não embarcávamos), comprávamos passagens aéreas e reservávamos hotéis em agências de viagens, consultávamos mapas de papel e desfrutávamos da aquele pôr-do-sol plácidamente.

                  ERA bom. Sim, era bom, mas hoje é bem melhor. Talvez a única coisa desse passado analógico que a maioria continue a gostar são os guias de viagens impressos. Segundo Nadal mesmo nos diz, ele também não consegue largar "El placer orgásmico de tocar y sobar una guía en papel, el subidón de la libido que produce apuntar mis observaciones en los márgenes, el cosquilleo lascivo al verlas en los estantes y recordar aquel viaje…. no lo supera ninguna fría, frígida y anoréxica guía digital."

               HOJE escrevemos em blogs. Há trilhões deles. E como são bons os blogs. E fotografa-se loucamente (com o celular!). E bem antes de curtir aquele belo espetáculo da natureza - o pôr-do-sol - manda-se instantaneamente a foto para o Instagram (tem que ser na hora, senão não tem graça). E não temina aí a dependência virtual: logo depois "corre-se" pro Twitter pra avisar os seguidores que acabou de postar a tal foto no Instagram. Sobre aquele pôr-do-sol que acabou de perder.

                   NÃO sou um indivíduo tão digital quanto alguns possam supor, ainda que mantenha o blog FATOS & FOTOS de Viagens desde 2006. Posso até ser considerado um entre os pioneiros da blogosfera de viagens. Afinal, lá se foram quase nove anos! Quem diria?... Mas sou muito entusiasmado com as tecnologias. Especialmente as eletrônicas e digitais. Tanto físicas quanto virtuais. Da fotografia aos notebooks. Mas não gosto do Instagram. Nem do Google+, do Pinterest e de outras redes sociais. Simplesmente porque elas estão acabando com os blogs de viagens. Ninguém mais quer ver um blog. A moda é ler (e postar) dinâmicamente. No máximo 140 caracteres, como no Twitter. E fotos, como no Instagram. E mensagens curtas, como no Face. É o que basta à cultura do curto prazo. A mesma que a maioria dos blogueiros incentiva e segue. Muitos por ingenuidade (não sabem o que fazem, acreditam verdadeiramente que a atitude incrementa o interesse e a audiência em seus blogs). Outros o fazem por oportunismo. Mas todos incentivam (sabendo ou não), o desinteresse crescente pela blogosfera e incentivo ao gosto pelo superficial, pelo ocasional, pelo rápido e rasteiro.

                   MUITOS blogueiros com boa intenção quando criaram seus blogs produziram material de qualidade, tinham comportamento genuíno. Alguns, todavia, ficaram tão neuróticos com a busca pela audiência, por rankearem-se bem no Google que não perceberam que o que faziam nada mais era do que detonar suas plataformas. Boa parte porque pensou em ficar rico da noite pro dia. Não sabem a diferença entre oportunismo e oportunidade. Seguem a coletividade, agrupam-se em associações, usam e abusam da cultura de curto prazo, dedicam tanto ou mais tempo aos seus "memes" (provavelmente mais do que aos seus blogs), produzem textos cada vez mais pobres e conteúdo mais superficial, entopem a blogosfera com conteúdo fútil e irrelevante, tornam a blogosfera cada vez mais "vendida", enfim nessa gaiola das loucas que tornam-se os blogs-vitrine, piscantes de anúncios e conduzind a blogosfera à derrocada. É mais do que claro que a queda de interesse na blogosfera é bem mais reflexo do comportamento dos blogueiros do que dos internautas. Se a maioria dos leitores de blogs prefere hoje ler memes em vez de um artigo de qualidade, ver fotinhas e textinhos no Twitter e no Instagram, é porque os próprios blogueiros disseminaram como vírus a idéia de que isso traria audiência aos seus blogs.

                APROVEITO a oportunidade para elogiar a blogosfera que continua a fazer um trabalho sério, desprendido, de boa qualidade, generoso, sem vinculo com a indústria do turismo, confiável, não vendida: destaco o Viajar pelo Mundo - da Claudia Liechavicius -, o Viaggio Mondo - da Fê Costa -, o Álbum de viagens - do Vinicius Buccazio e Marcelo Schor, cujas viagens também são “efetivamente feitas pelos autores ou seus convidados, pagas pelos próprios”, o Vou sair pra ver o céu, do Davi Carneiro, fonte de inspiração de como escrever, onde o jornalista de viagens diz que suas "prioridades são as narrativas, vídeos, fotos, reportagens, jornalismo e literatura de viagens", o Vagamundagem do Gusti Junqueira. Mas a esses não se restringindo, porque ainda há muitos blogs decentes.

(*) Fonte: BBC News - http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/…/09/140930_ello_rp

Segunda-feira
Set292014

REFLEXÕES de um turista que não gosta de cerveja

                 OLHA que eu não gosto de cerveja! Ainda mais, quente. Que dirá etíope. Mas em Konso, um lugar perdido no meio do nada (do nada da Etiópia!) eu percebi que são experiências assim que fazem valer as viagens. 

                 VIAJAR não requer prática ou habilidade. Bastam algum dinheiro, disponibilidade e desejo. Já não há um só lugar no mundo onde algum turista já não tenha posto os pés. Nem pra onde não se possa ir. Até onde há confitos e riscos de guerra. É sempre possível chegar lá, basta querer (e para alguns lugares, ter coragem). A cada dia tornam-se mais fáceis as viagens. Não importam de que tipo, gênero ou modalidade. Pra cada uma há um desejo e um objetivo. E toda viagem vale quando é feita por desejo. Mas eu me refiro às de quem não viaja pra descansar, senão por exploração, aventura, descoberta, conhecimento. Sobretudo experiências antropológias e sociais. Viagens para quem atravessa estradas poeirentas, hospeda-se onde der (porque não há outra opção). E porque o objetivo é conhecer o destino, custe o que custar. O resto é circunstância.

                MAS ouso dizer que se viagens trazem conhecimento, nem sempre proporcionam sabedoria. Como disse Phil Cosineau (*) (um cara que entende como ninguém do assunto), há um paradoxo nas viagens: "quanto mais fácil se torna viajar externamente, mais difícil se torna viajar sabiamente.", porque em nossas aventuras "corremos o risco de ficarmos com muitos quilômetros voados e carimbos no passaporte, mas perdermos sabedoria, ainda que ganhemos conhecimento. "A diferença está entre ser um viajante atento e um negligente, entre um banal e um inspirado." É a diferença entre ler e aprender e ler e ficar boiando. Nada menos sutil nem contundente. Então, um bom turista-viajante não se aborrece com as diferenças culturais, mas as admira e respeita (ainda que lhe seja reservado o direito de discordar e não apreciar a comida diferente, a falta de sua marca de refrigerante, a má qualidade de um hotel ou serviço ou constatar que ninguém fala sua lingua).

                E eu? O que sou? Um "turista" ou "viajante"?

                Já escrevi sobre o assunto aqui no Fatos e Fotos de Viagens. Foi em 2009. Mas ele é recorrente. Para mim e na blogosfera. Volta e meia alguém resolve refletir e escrever sobre o tema. Não fui o primeiro, nem serei o único. Mas há cinco anos eu dizia que se é comum aos seres humanos classificarem outros segundo seus diferentes modos de conduta social, nem sempre o intuito se justifica. Sobretudo porque frequentemente cria estereótipos. Pior, esbanja superficialidades. Classificar a complexidade humana em categorias - seja em qual gênero for - quase sempre dá nisso. Então, quando no âmbito dos escritores de viagens me deparo com quem escreve contrapondo "viajantes" e "turistas", promovendo a idéia de que há tipos de viagens e de viajantes mais autênticos, sérios e importantes do que outros, isso só mostra o quanto alguém que defende a idéia é arrogante. Ou, no míimo, tolo, porque não sabe o que diz. Em última análise, a retórica só distingue os diferentes egos e vaidades humanas. É claro que há hábitos e comportamentos melhores ou piores em viagens, mas não é isso o que difere um "turista" de um "viajante", senão um "bom" de um "mal", ou de um bem educado ou não. 

                 EU mesmo sou um turista. Turista crônico! Acho muita prepotência qualquer turista avaliar-se explorador” ou "aventureiro" apenas porque é muito viajado. Quem diz isso é esnobe. Aventureiro é outra coisa. Sobretudo é tolo o turista que se envergonha de ser chamado de “turista” porque acha-se “viajante”. Ainda que o tolo viaje a turismo. Gente assim, mesmo com todo seu conhecimento, experiência e esclarecimento, torna-se vítima de sua própria vaidade: fica arrogante, pretensioso, vira um falastrão “cagador de regras”. Turista é o viajante qu viaja por gosto, escolha e a turismo. Não importa o estilo. Nem pra onde. Se mochileiro ou de luxo, se aventureiro ou para lugares batidos. Quem viaja porque gosta, e por lazer, é um turista viajante. Importa menos ainda classificar quem viaja melhor ou pior. Não importa se ele é nômade ou se viaja uma vez por ano, se num estilo errático ou programado, se para descobrir países como Quirguistão, Benin, Burkina Faso, Mianmar e Irã, ou se para Paris, Barcelona, Nova York ou Orlando. Será sempre um turista quem viaja a turismo. É prepotência julgar e classificar pessoas achando que todas as outras devam ter apenas um modo de viajar: o de quem as define ou julga. E também as que tentam dizer às outras os lugares que devem ir. Nada soa tão pretensioso nem arrogante quando alguém, na condição de turista, afirma não gostar de turistas enquanto viaja, que lugares turísticos são desprezíveis, que envergonha-se de estar entre turistas e que odeia excursões, cruzeiros e coisas afins.

                 Eu sou turista. Definitivamente sou turista. Mesmo quando estou “onde Judas perdeu as botas”, no meio do nada, no Burkina Faso, na Disney ou dentro de um navio de cruzeiro no porto mais manjado do Mediterrâneo. A curiosidade de quem viaja é igual pra todos. Porque simplesmente todas as viagens são dirigidas pela vontade de conhecer outras culturas, pessoas, mentalidades, sistemas políticos, modos de vida, religiões ou seja lá o que lhe apeteça.

(*) Em "A arte da peregrinação: para o viajante em busca do que lhe é sagrado". http://www.philcousineau.net/