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Segunda-feira
Ago252014

Gondar, a "Camelot" da Etiópia 

                 A imaginação parece não ter fronteiras. Que nos digam os sonhos. Mas o mundo real sim, e são elas que separam o previsível do surpreendente.  Para o que serviriam, afinal, as viagens, se não para surpreender-nos? Quem olhar para as fotos deste post sem ler seu título perceberá que são castelos medievais. Não há pontos para dúvidas: têm torres, fossos, grossas muralhas defensivas e tudo mais o que era típico dessas construções na Idade Média no Velho Mundo. Logo, não estaríamos errados associá-los a paisagens toscanas e mediterrâneas. Mas o leitor suspeitaria que estão na África? Provavelmente não.

Tem torres com cúpulas o Castelo do Rei Fasiladas

                 Eu poderia começar descrevendo a beleza daquele luminoso dia em Gondar. Ou então o nosso giro a pé pela cidade, pela beleza natural rural da região das Montanhas Simien, suas colinas verdejantes pontilhadas de casas rústicas e gado pastando, pelas sinuosas estradas contornando seus picos e rochedos, sobre o mais delicioso spris (*) que provamos em todo o país ou sobre a incrível igreja ortodoxa Debre Birhan Selassie. Mas não, vou fazê-lo pelo mais inusitado encontro que tivemos na Etiópia, um de seus mais valiosos e surpreendentes patrimônios: o Recinto Real, com os Castelos de Gondar. Estávamos diante de uma das partes menos conhecidas da História, a despeito da compreensível atração que aquela arquitetura invulgar na Áftrica possa ocasionar.

                   Medievais. Castelos medievais na Etiópia, construções sem equivalentes em toda a África, mesmo a despeito de todo conhecimento histórico da humanidade, é surpreendente. O "estilo goderiano medieval" não deixará de surpreender nem o viajante mais informado. Gondar, alémd e tudo, é muito atraente turisticamente, seja por suas igrejas, por seus castelos ou pela natureza montanhosa que a rodeia. Mas é o Recinto Real seu sítio mais incomparávelmente surpreendente.

                  A história conta que a nação experimentou 200 anos de prosperidade, especialmente uma época de grande movimento comercial. E Gondar foi capital entre 1632 e 1855, o que favoreceu o desenvolvimento de um estilo renascentista próprio, expresso na arte, arquitetura, música, no ensino acadêmico e na literatura. Especialmente na época do Rei Fasilidas, imperador etíope que governou o país de 1632 a 1667, um período de aproximação entre o país africano e a europa, encerrando seu o longo isolamento. O Imperador Fasilides Alam Sagad foi um dos governantes mais notáveis da então Abissínia, antigo nome da Etiópia. Além de fundar a cidade de Gondar, tornou-a um dos centros de negócios mais significativos da África.

                  Durante a guerra contra o líder muçulmano Ahmed Gragn, em 1543, soldados portugueses ajudaram o imperador da Etiópia, Gelawdewos, filho do Imperador Lebna Dengel, instalando-se em torno do Lago Tana, onde permaneceram até o reinado do Imperador Susneyos (1607-1632).  Missionários das igrejas católicas espanhola e romana, assim como em 1622, missionários portugueses, converteram com êxito o Imperador Susneyos ao catolicismo. Nesta época a Igreja Ortodoxa da Etiópia enfrentou um desastre imprevisto, porque após a conversão ao catolicismo o imperador proibiu a fé ortodoxa, perseguindo e matando milhares de cristãos ortodoxos.

                Como era de se esperar, exceto ele próprio, o Imperador Susneyos, tornou-se profundamente impopular e a nobreza e o clero ortodoxo revoltaram-se contra ele. Em 1632, Susneyos foi forçado a transferir o trono para seu filho, o príncipe Fasiladas Alam Sagad, que assim que tornou-se imperador começou a reparar os danos causados pelo pai, primeiro restabelecendo a paz, reunindo Igreja e Estado, estabelecendo uma aliança entre a Igreja Copta Etíope e os Estados muçulmanos do país e expulsando os portugueses.  Todavia, mesmo sem eles, não se pode negar que a marca de nossos patrícios na arquitetura destes palácios-castelos, o qual mais tarde denominou-se "portugo-etíope".               

                  Mesmo sabendo o que visitaríamos, a sedutora imagem dos Castelos de Gondar me surpreendeu como se nada soubesse. A manhã era luminosa, fazia seus efeitos naquelas construções. E formavam imagens belíssimas que tornavam o conjunto um dos mais admiráveis que já experimentei. Diferentes da experiência antropológica que os encontros com as tribos do Vale do Omo representam, todavia de mesmo assombroso impacto.

  

                  Bem conservados, os castelos ficam numa pequena área na cidade de Gondar. O cerco fortificado que se assemelha aos dos castelos medievais europeus é um complexo intrigante. Construído pelo imperador e seus sucessores, ao longo dos anos foram adicionando-lhe construções até tornar-se um complexo de residências reais, edifícios administrativos, alojamentos de empregados, hospedaria para visitantes e animais, biblioteca, chancelaria e até alojamentos para leões de "estimação".

                  Antes do declínio, no final do século XVIII, a corte real tinha desenvolvido de um complexo fortificado chamado Fasil Ghebbi com seis edifícios, entre principais e auxiliares, rodeados por uma muralha de 900 metros de comprimento, com doze entradas e três pontes. Não à toa consagra-se um dos pontos turísticos mais notáveis e inesperados de toda a África e um Patrimônio da Humanidade nomeado pela UNESCO.

                  Diferentes versões da história contam que artesãos portugueses e etíopes os construiram.  A "cidade" teria esse estilo por influência de missionários jesuítas. Seja qual for a verdadeira versão, o Palácio de Fasilidas, por exemplo, um castelo-fortaleza quase intacto, tem torres e ameias inconfundíveis com outro estilo senão o medieval europeu. O Palácio do Rei Fasiladas foi a primeira construção do complexo, e Castelo de Mentewab, por exemplo, foi construído pelo Rei Bakaffa, imperador entre 1721 e 1730.

                 A maioria dos monumentos está bem preservada, tanto na autenticidade quanto no estado de conservação, ainda que algumas intervenções de conservação inadequadas, levadas a cabo entre 1930 e 1936, segundo a UNESCO, quando usaram cimento e concreto armado, tiveram impactos nos materiais originais. A situação inverteu-se parcialmente com os trabalhos de restauração realizados pela UNESCO na década de 1970, quando substituiram o concreto pela a mistura original de cal e cimento. Programas de conservação subseqüentes foram implementados desde 1990, a fim de manter-se a autenticidade do complexo.

 (*) Spris, delicioso suco de frutas puro e cremoso servido em camadas

Segunda-feira
Ago182014

JODHPUR, Índia - Momentos longos, dias curtos

 Do mar ao céu, das flores às pedras, todos os tons de azul numa cidade 

                     HÁ viagens que regressar custaque quando estamos lá vivemos tão ávidamente os dias que passam a ter um significado maior do que todas as demais, por melhores que tenham sido. Talvez porque entrem pelos poros e vão ao sangue, em vez de pelos olhos ao cérebro. "Instalam-se" na gente, como parasitas, mas ao contrário de sugarem, agregam valor. Costumam denominá-las "viagens de uma vida". Não há exagero. Estas modificam nosso modo e conceito ao encararmos novas viagens.

                     A primeira de nossas viagens à Índia encerrou um capítulo e abriu novo à minha vida de viagens. Melhor, encerrou um volume de um obra e iniciou outro. Tornou-se clássica, ainda que tantas e tão belas outras já fizesse. Mas à Índia é a que permanece entusiasmando, mesmo anos depois. E fresca na memória, emoções e recordações, parece que retornamos ontem. AINDA brilham como nenhuma outra a qualquer destino. Índia nos fez viver momentos intensos durante todos os dias. Tanto que passavam rápidos como faíscas.

Na rua do RAAS Hotel Jodhpur. Bem perto da Torre do Relógio e do Sardar Market

                Eram momentos longos e dias curtos. E a mesma veemência com que vivíamos experiências diárias, novas nos dias seguintes se apresentavam. E com igual intensidade as vivíamos. Eram dias fabulosos, tanto quanto não seria razoável esperar por outros tão magníficos. Mas sempre havia um novo dia, uma tal nova sucessão de surpresas e encantamentos que eu já os terminava quase sem me importar como foram, mas pensando no seguinte: um novo palácio, fortaleza, templo. Todos juntos, um encontro, um acontecimento, uma descoberta. Seria possível a magia do dia anterior reproduzir-se no seguinte? Sim, sempre havia o dia seguinte para me surpreender. Então, não sem motivo, desde então nenhum outro país  igualou-se no fascínio como a Índia. E assim vou lhes contar como foi nossa visita a Jodhpur, a caminhho do Deserto de Thar.

 Jodhpur, a caminho do deserto  _____________________________________________________

 O Deserto de Thar, nas portas de Jodhpur

                O vôo foi cancelado. Em vez de na manhã daquele 13 de Novembro embarcarmos no IT 4301 da Kingfisher, saímos cedo para mais uma viagem de carro pelas estradas indianas, desta vez de Jaipur a Jodhpur. E para um novo capítulo da nossa viagem pelo Rajastão e Utar Pradesh. De uma rosa à iutra azul, a viagem foi longa. Não fosse o encantador motorista que nos acompanhou pelo Rajastão, teria sido bem mais cansativa do que potencialmente são todas viagens rodoviárias pela Índia. Se há alguém a quem dedicarmos esta viagem é ao nosso motorista. Foram cinco horas, provavelmente tão repletas de emoções quanto foi a descoberta do caminho marítimo para as Índias em 1498.

 RAAS Jodhpur Hotel. Por dentro, modernidade...

                    Assim que deixamos de nos encantar com o Hotel RAAS Jodhpur (*) - pequeno espetáculo hoteleiro bem no olho do furacão, um verdadeiro oásis-refúgio em Jodhpur - saímos a pé em direção à Torre do Relógio, no centro do Sardar Market, o Mercado de Jodhpur, onde se vende de tudo, de frutas, chá e especiarias a bugigangas.

Praça e Arco do Sardar Market 

                    À sombra do Mehrangarh Palace, bem perto da torre do relógio, o RAAS é um hotel butique dos mais atraentes em que me hospedei. Tem personalidade, é instalado num antigo haveli de arenito vermelho do final do século XVIII e há modernidade interna, que todavia não é interfere na fachada original em pedra esculpida.

Vacas nas ruas, defronte às casas de seus donos, uma tradição...

                  A paz do hotel no lugar em que ocupa não é quebrada de pronto ao sairmos de seu portão e pormos nossos pés fora dele. Estamos a passos do centro de diversas atrações populares e de atividades cotidianas da cidade, onde culmina toda idéia do que sejam burburinho, vida, comércio, sons, cores. No caminho até ali passamos por ruas estreitas, prédios e as casas que "comeram" as calçadas. Mas tudo é sereno, com pouca gente e algumas vacas estacionadas placidamente defronte ao que parecem ser suas casas. Não consigo descrever. A criatividade nem sempre acontece para sair da mente e chegar à ponta dos dedos  quando tento descever lugares assim.  

 

Olhares perdidos, turistas nem tanto

                   Crianças na janela com olhares perdidos, vacas refesteladas, homens e mulheres - ora caminhando, ora trabalhando -, motos e tuk-tuks, tudo era uma sucessão de experiências a cada passo, a cada virada de rosto. Deixei-me levar. Dizem as lendas que por aqui andam fantasmas à noite. Não esbarrei com nenhum, provavelmente porque não acredito em fantasmaneles. As estórias nem a diversidade me espantavam mais depois de alguns dias na Índia, tudo já aparentava ser familiar, ainda que tão exótico, mas continuava intenso e veemente nos efeitos.

Tuk-tuks de Jodhpur. Diferentes de todas as outras cidades

                   Predominantemente rural, próxima ao Deserto do Thar, Jodhpur todavia é a segunda maior cidade do Rajastão, o que acentua a sensação de adensamento populacional e construtivo tão comum à Índia. Dizem que é antiga, das mais antigas do país. A cidade é azul. Em todos os tons possíveis de azul. Milimetricamente pintada de azul. O azul da cor de todos os mares e céus, mas de um turqueza predominante, a reveste e lhe dá um charme incomparável no Rajastão. As razões são ainda uma especulação: vão de motivos religiosos a afastar mosquitos. Mas não importa, os azuis tiram qualquer possibilidade de associar a cidade à esterilidade e aridez do deserto que a rodeia.

 Fortaleza Mehrangarh, a maior atração de Jodhpur

                   Aqui em baixo domina a vista o Forte Meherangarh. Construído ao redor dos anos 1450 pelo então governante Rao Jodha, é mais que uma fortaleza antiga hoje desativada, é história. De uma época romântica e ao mesmo tempo sangrenta.

                   No interior há palácios, monumentos, jardins e um museu. Sete portões precisam ser atravessados para chegarmos ao forte. Eles têm marcas de sucessivas batalhas. E nomes, como Jayapol e Fattehpol, por exemplo. Nos domínios da fortaleza - uma das mais fantásticas do Rajastão - as casinhas azuis lá embaixo formam um mar, um visual encantador, perfeito. A cidade então mostra-se atraente vista de cima ou de baixo. Casinhas quadradas coladas umas às outras, feito um mar azul que se estende por uma longa área da cidade antiga

Jodhpur - Cidade Velha

                   Assim como as balas de canhões nos portões do Forte Mehrangarh, Jodhpur também nos deixou marcas, todavia apenas uma entre tantas que nos deixaram nossos incríveis momentos na Índia.

 RAAS Jodhpur Hotel. Por fora, tradição...

(*) Aqui não tem jabá. O que escrevo não tem filtros, é um reflexo do que vejo, sou e penso. Não sou blogueiro que escreve por comissão, nem para pagar fam trips ou receber agrados, mimos, presentes e afins. Não faço viagens que não sejam de nossa escolha. Os produtos e serviços aqui mencionados não têm o conhecimento dos mesmos, não são recompensados de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação - e se o fiz foi por liberalidade, com o intuito de informar o leitor. 

A hospedagem no RAAS Jodhpur Hotel foi paga por mim, assim como todas as despesas da viagem. Não viajamos a convite do hotel. Nunca o fazemos. Minhas opiniões são independentes, assim como minhas escolhas. Sobretudo elogios, críticas, menções e relatos. Não há compromisso que não seja com a informação, a motivação, a orientação e a inspiração do leitor. Cada produto ou serviço aqui mencionado é feito com a suposição de que o leitor saiba identificar os objetivos do blog. E que verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão.

Fique seguro: este é um blog gratuito para o leitor. Não é necessário doar dinheiro, desconfiar de que as matérias são pagas, ler anúncios disfarçados ou receber propagandas subliminarem enquanto lê.

Segunda-feira
Ago112014

Estônia, Letônia e Lituânia, as três senhoras do Báltico

                      EU gosto de "falar" ao leitor. Sei que ele está aí, que ele vive, que pensa e respira. Mesmo que eu não o veja nem ouça. Ainda mais porque sei que ele gosta de viagens. É o que me motiva a lhe escrever. E o tenho feito com um prazer renovado, porque não escrevo guias de viagens, mas impressões e reflexões pessoais ligadas ao tema. Então o tenho feito como se escrevesse cartas, quase como se estivesse proseando com você, caro leitor. E sei que você sabe que imagens valem mais que mil palavras, que não seria razoável um amante da fotografia como eu discordar do pensamento. Mas também creio que você deva reconhecer que palavras podem enriquecer muito as imagens. Sobretudo as de um relato de viagens. Você sabe, apenas os mestres da literatura de viagens podem prescindir das imagens. E mesmo assim conseguirem transporá-lo.

                     SE aqui, nesse ambiente eletrônico os textos longos são inadequados, se para os padrões de um blog eles não conseguem mantê-lo atraído, as imagens valem muito, um pouco mais. Quando então consigo que imagens e palavras complementem-se afinadamente, um relato de viagens torna-se perfeito. Se isoladamente já não é fácil fazê-los assim, que dirá afinaram-se quando juntinhas.

                    PARA quem não escreve burocraticamente(*) como eu, se os relatos são extensos, não prendem, o leitor reclama. Se curtos, não atendem, e o viajante que espera dicas decepciona-se. Quem relata viagens como eu - sobretudo tendo coragem de reconhecer sua falta talento e amadorismo - sabe bem do que falo.

                    EU não passo mesmo é de um turista. Bem aquele do clichê definido pela pretensiosa "sabedoria" que classifica “turista” como ser inferior a “viajante”. Conceito antiquado! Mas veja lá!, adoro ser turista, só lamento ser um pretensioso escritor de viagens e metido a fotógrafo. Reconheço. E alguns leitores também. Mas sou desses turistas que como todo viajante que viaja a turismo é tão turista quanto alguém pode ser: busca seus prazeres turísticos como qualquer turista padrão. E se assim o faço, se sou turístico, se viajo pelo simples deleite que é viajar e explorar, quem me lê sabe que aqui encontrará relatos e fotos dessas viagens que faço e minhas impressões sobre os destinos, mas também um pouco de divagações viajantes.

                      DESTA vez, caro leitor, não vou me estender muito na introdução desta viagem. Da próxima viagem. Mas preciso lhe dizer algo: minhas últimas viagens têm sido por lugares tão exóticos e tão pouco explorados que tenho sido levado a pensar que já não há mais mistérios no planeta. A idade avança e prega suas peças. Mas basta que olhe um mapa com olhar explorador para encontrar uma centena de razões para pensar diferente. E a continuar com minha vontade de conhecer o mundo. Largar mão de ser tolo, de achar que só há o que descobrir em lugares que ninguém foi. Ela não passa, essa minha vontade de conhecer o mundo não passa. Sei que um dia me cansarei disso, desse complexo, trabalhoso, oneroso ato de viajar. E que o cansaço matará o desejo de viajar. A idade é implacável. Ela incondicionalmente nos pega, e provavelmente nos faz deixar de ter tesão de sair da zona de conforto. Só espero que comigo isso venha tarde, bem tarde. Por isso vou sonhando e cuidando da saúde e do trabalho, para que o entusiasmo e as possibilidades continuem me permitindo o imenso desejo de conhecer o mundo, o enorme prazer que viajar me proporciona.

                     ESTOU entusiasmado. Basta surgir a possibilidade de viajar novamente para logo perceber que é tolice achar que descobrir já não é mais possível. Que nosso mundo tornou-se tão plano que já não estimula, que nada mais atrai nem surpreende. Mas até mesmo redescobrindo o já visto é possível entusiasmar-se numa viagem. E agora acabamos de definir nossa próxima: desta vez vamos "descobrir" três países europeus em que jamais estivemos. E dos menos visitados. E se toda viagem que faço é com esperança de novas descobertas, se estou certo de que elas acontecerão, se a mente é exploradora, o corpo nunca sabe o que virá pela frente. E então, mesmo que às vezes descobertas ocorram mais no intelecto que no olhar, na imaginação que no concreto, elas acontecem. E se bastam. É assim que viajo, caro leitor. Por gosto. E por iniciativa. Com olhar viajante, a mente livre, os sensos de receptividade e curiosidade despertos. É assim que me torno pronto para que toda a magia de viajar acabe deixando de ser só uma esperança. Sobretudo com minha doce Emília, quem tirou da cartola esse coelho: Estônia, Letônia e Lituânia.

                     IREMOS aos países bálticos. Ou a "Nova Europa", como definem os modernos. A Tallin, Estônia; Riga, Letônia e Vilnius, Lituânia(**). Voaremos pela Lufthansa(***) do Brasil, via Frankfurt, até Vilinus, de Air Baltic(***) entre Vilnius, Riga e Talin, e depois de Talin ao Brasil via Frankfurt novamente de Lufthansa. Em Vilnius ficaremos no Kempinski Hotel Cathedral Square, em Riga no Dome Hotel e em Tallinn no Hotel Telegraaf.

                      EU voltarei aqui pra te contar. Mas só depois, porque agora tenho muitos posts mal escritos com imagens mal feitas para publicar.

                      FOI boa a prosa, caro leitor. Obrigado por me "ouvir" e um grande abraço!

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(*) Este não é um blog burocrático. Aqui não tem jabá! O que escrevo não tem filtros, é reflexo do que vejo, sou e penso. Não sou blogueiro que escreve por comissão, nem buricraticamente (para pagar fam trips ou receber agrados, mimos, presentes e afins). Não faço viagens que não sejam de nossa escolha e todos os produtos e serviços mencionados aqui não têm o conhecimento dos mesmos, não são recompensados de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação - e se o fiz foi por liberalidade, apenas com o intuito de informar o leitor. 

 (**) Em setembro de 1991 as repúblicas bálticas - Estônia, Letônia e Lituânia - declararam a Moscou sua independência da União Soviética. Tornaram-se os Estados Bálticos, nome genérico que das três repúblicas na costa leste do mar Báltico, nordeste da Europa, compostos pelas novas nações independentes.  A União Soviética, após 69 anos, então se dissolveu oficialmente em 31 de dezembro de 1991, tornando-se a Federeção Russa.

 (***) Os hotéis e cias. aéreas aqui mencionados foram pagos por mim e a preços de mercado, assim como todas as demais despesas da viagem. Não viajamos a convite de hotéis, cias. aéreas nem empresas de turismo. As opiniões, escolhas, elogios, críticas, menções e relatos são independentes e francos. Não têm compromisso que não seja com a informação, a motivação, a orientação e a inspiração do leitor. E ainda assim feito com a suposição de que o leitor saiba identificar os objetivos deste blog, diferenciá-lo dos blogs jabá e sobretudo que verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão todas as informações aqui obtidas.  Fique seguro: este é um blog gratuito para o leitor: não é necessário doar dinheiro, desconfiar de que as matérias são pagas, ler anúncios disfarçados ou receber propagandas subliminarem enquanto lê.

Terça-feira
Ago052014

Masjed-e Jāme, a Mesquita de Sexta-feira - Esfahan, Irã  

Escondida pelas vias do Grand Bazaar e toda a sorte de lojinhas, de roupas populares a badulaques religiosos

                     JÁ voltei faz tempo, já desfiz as malas, até viajei de novo e ainda assim aquela manhã não se perdeu na memória. Climas perfeitos têm esse mérito especial: tornam meus dias mais felizes. Mas ainda que aquela fosse manhã de frescor notável e efeitos tão sensíveis, não posso falar muito sobre climas, apenas que influenciam fortemente meu estado-de-espírito. Especilmente em viagens. Minha querida e doce Emília que o diga. Quando viajo conto sempre com ele, o bom clima, ainda que nem sempre desejo resulte sucesso. Mas aquela manhã se bastava. E eu nem sabia que sob seus auspícios conheceria um tesouro "escondido" da civilização e dos (poucos) turistas em Esfahan:

 A Mesquita de Sexta-feira (Masjed-e Jāme)  ____________________________________

                  LOCALIZAÇÃO não é o que lhe dá nobreza. Ao contrário, um estrangeiro desavisado ou desatento pode passar por ela e ignorá-la. Não está no circuito óbvio, mas deveria. Basta cruzar seu portão para que uma bela viagem no tempo e pela da arquitetura persa se consagrem como uma das mais marcantes visitas que um turista pode ter em Esfahan.

 

Um turista desavisado ou desatento pode passar por ela ignorando-a


                   Ainda que a Jāmeh Mosque que se veja hoje não seja tão original, que abrigue séculos de evolução arquitetônica, estrutural, de engenharia e ornamental, de contínuas reconstruções, adições e renovações desde 771 até o final do século XX, ela permanece um encanto.

Ao cruzarmos seu portão, tudo muda...


                  Ainda assim é adorável. Cruzamos seu portão e tivemos acesso a uma expressão notável da arquitetura iraniana. Com todo seu valor arquitetônico, estrutural e ornamental. E ainda que imensamente mais discreta que a mesquita do xá, sobretudo do ponto de vista da grandeza ornamental daquela, é mais serena, tranquila, vazia e turística, ainda que o Irã  não seja lá tão disputado turisticamente.

De dentro pra fora ou de fora pra dentro, a porta de entrada da mesquita é discreta

                 Ela não fica na praça Naqsh-e Jahan, mas atrás e escondida pelo bazar, ainda que próxima a ambos. Chega-se por caminhos "suburbanos" (por isso mesmo muito atraentes) e num certo ponto, pelas vias cobertas do Grand Bazaar, o roteiro memorável, com muita vida nas ruas, sem a melancolia interiorana tão proeminente no Irã, nos leva à porta da mesquita.

Cruza-se o portão e viaja-se no tempo e na arquitetura islâmica persa

                Quem passa pelo portão de acesso pode desapontar-se caso antes tenha lido que este é o mais antigo monumento histórico de Esfahan. Sobretudo porque a vizinhança torna a mesquita tão negligenciada: ruas de tráfego pesado, construções recentes, desordem urbana, lojinhas de produtos de terceira linha...

                 Ao entrarmos tudo muda. Especialmente quando se chega ao seu belo pátio, onde quatro salas de oração - ou iwans - foram construídos cada qual para competir em beleza com o outro. Que belo patrimônio a competição deixou para nós! Cada um deles reflete a época em que foram construídos, do século XI até o XVII. Foi a primeira mesquita a ter quatro iwans voltados para o pátio central.

                 A primeira mesquita de Esfahan foi projetada para abrigar até 5000 fiéis. Destruída por um incêndio do chão ao teto, apenas parte permaneceu intacta, e aidna assim, o que sobrou de madeira não queimada foi usada como lenha pelos seljúcidas quando capturaram a cidade. Outros historiadores asseguram que o templo estava em perfeitas condições em 1052, quando o Tughril Beg tomou a cidade. O fato, todavia, é que o original não existe mais: o que hoje se vê hoje de uma das maiores e mais antigas mesquitas no Irã são referências e lembranças do passado.

Quatro iwans voltados para o pátio central

                 Os seljúcidas, após invadirem Esfahan, também tornaram-na capital, e a mesquita de sexta-feira o seu centro religioso.  Seus patronos reais começaram então a embelezá-la, construir-lhes anexos, tudo com precisão geométrica no desenho. Não por menos consideram-na um dos melhores exemplos da arquitetura persa em todo o Irã. Ao ponto de o interior mais tarde tornar-se modelo para futuras mesquitas na Pérsia e noutros países do mundo islâmico.

                 E ainda que cada conquistador deixasse suas marcas na edificação - no período seljúcida, no de Tamerlão e no dos safávidas -, contruíndo anexos, modificando o existente, a fonte de abluções central é tida como seu ponto mais notável, talvez por ser réplica da de Kabba, em Mecca. Para mim é por que cerca-se de beleza por todos os lados.

Colunas e cúpulas de tijolos

                 Algumas partes desta mesquita, todavia, como as colunas e cúpulas de tijolos não são originais. Não no conceito e no projeto, mas no material e nas técnicas de restauração empregadas. Na verdade foram reconstruções sem o emprego de um padrão adequado, utilizando modelos não tradicionais, que ainda que tenham seus valores, podem tê-la descaracterizado ainda mais.

                   NÃO vejo graça na ambição pretensiosa dos que escrevem relatos de viagens impositivos (vá nisso, não entre naquilo...) que dizem o que você deve ou não fazer em viagens, mas estando em Esfahan, considere uma visita à Masjed-e Jāme. E apesar das palavras serem o corpo de um relato de viagens, deixo-o agora - meu caro leitor - com algumas fotos que espero te transmitam o mesmo que este belo templo me provocou.

                   Boa viagem!

Terça-feira
Jul292014

KASHAN, Irã - O dia em que subi no telhado 

INTRODUÇÃO - Escrevendo como quem fotografa   ____________________________________

O incrível "telhado" do Hamman Sultan Amir Ahmad - Kashan

                 CERTA vez eu li um artigo de Guy Gauthier em que o escritor de viagens dizia gostar de escrever enquanto viaja. Mas fotografar não, só escrever mesmo. Talvez por isso minha empatia com o autor não tenha sido imediata. Ela aconteceu depois, quando o autor explicou que escreve como quem fotografa: “no momento em que vivo o momento”. Ele dizia que pára no que vê à sua frente e ali mesmo escreve. Como um fotógrafo: registra e captura o momento, só que em longas anotações. São tão extensas que quase inalteradas viram suas histórias de viagens. Do tipo das que gosto: revelam o destino mas também a personalidade e as idéias do autor através de reflexões viajantes. E assim, quanto menor a diferença entre personalidade do autor e o que ele escreve, tanto mais atraente pra mim torna-se seu relato.

  Clarabóias de vidro deixam passar aluz para o interior do Hamman Sultan Amir Ahmad

                 EU não. Eu gosto de ambos: fotografar e escrever. Sobretudo de escrever sobre o que reflito no destino e na viagem. Ambos tornam-se ainda mais prazerosos quanto mais me influencia o que visito. Quanto põem e tiram de mim, mais atraente torna-se esrcever e fotografar. Talvez porque poucas coisas me atraiam tanto em viagens quanto explorar (e valorizar) os assuntos culturais e sociais, exatamente porque é a multicultural e social diversidade do mundo o que o torna tão convidativo a viajar: quanto mais diferente, mais atraente.

Visto de fora é assim o Hamman Sultan Amir Ahmad. Mas por dentro e por cima....


                 Todavia, ao contrário do autor, enquanto viajo escrevo apenas notas. Breves notas. E jamais diante do que vejo, senão ao fim de um dia de exploração turística ou durante o trajeto entre dois destinos. Escrevo apenas frases, jogadas, dessas que surgem inesperadamente e sem aparente sentido. Algo que se alguém pegasse pra ler classificaria como incoerências, idéias desconexas e incompletas, como pensamentos interrompidos. São sentenças inacabadas, impedem de traduzir seu sentido quem as lê. Só servem pra mim. Mas é com anotações assim e com fotografias que junto com a memória consagram-se minhas lembranças de viagens. Como uma colcha de retalhos: um todo formado por numerosos pequenos detalhes. Aparentemente sem sentido, após unidos e costurados, resultam no que publico aqui. Já falei sobre isso aqui, em Nossas viagens na memória, uma colcha de retalhos”.

A luz natural que passa pelas clarabóias e ilumina as salas de banho do Hamman Sultan Amir Ahmad

                 O ato de fotografar não é impulsivo, mas automático. Resulta de um estado de prontidão, do olhar “ligado” do qual já falei aqui, olhar viajante, como o de de Pierre Verger, tão bem definido no prefácio de um de seus livros. O olhar de quem é um “olhador do mundo”, não primeiramente de um fotógrafo. Já o ato de escrever não é automático nem resulta de um estado de prontidão. É impulso, espontâneo e ocasional. Não sendo automático, só acontece quando há inspiração e motivação. Ou, então, ainda melhor, quando ambas acontecem juntinhas. Como se algo acontecesse no cérebro, uma faísca, por exemplo, que acende uma chama e - ao contrário de quem escreve enquanto vive o momento - incendeia o cérebro faz um vulcão adormecido entra em atividade.

A belíssima ornamentação dos domos do hamman iluminada pelas clarbóias

                Sem planos, projetos e arranjos, começo a escrever. E jamais porque “preciso”, por compromisso em publicar um post. Quando começo a fazê-lo é por inspiração. Abro o álbum fotográfico, olho minhas fotos e vou recuperando da memória, do papel e do notebook o que anotei. Ainda sem idéia do que vou dizer. Qualquer coisa serve como ponto de partida para inspirar um texto a fluir. Não raro, é o título quem me faz dar o primeiro passo. Como neste post. Ali mesmo, em Kashan, no Irã, sobre aquele telhado, "anotei" na memória e depois no papel o que seria seu título: "O dia em que subi no telhado".

O dia em que subi no telhado (do hamman)  _________________________________

                A idéia não poderia ter vindo de fonte mais precisa: minha doce Emília. Então, além do Bazaar de Kashan, sobretudo da experiência de comer o dizi sob o Timche-ye Amin od-Dowleh, outra experiência deliciosa em Kashan foi a visita ao Hamman Sultan Amir Ahmad. Especialmente subir em seu telhado. Também conhecido como Qasemi Hamman, é do século XVI, era safávida no Irã. Essa magnífica construção foi sériamente danificada em 1778 por um terremoto, reconstruída na era Qajar. O nome homenageia o sultão cujo mausoléu está nas cercanias.

Hamman Sultan Amir Ahmad - Kashan

                 Foi o balneário mais incrível que visitei em todo o país, e não foram poucos. Este é uma preciosidade arquitetônica, onde o sarbineh (ou sala de vestir) e o garmkhaneh (sala de banho quente) são ornados magnificamente em tons de turquesa e dourado, na forma de azulejos, estuque e pinturas sobre alvenaria de massa e tijolos. O sarbineh é octogonal na planta, com uma pequena piscina do mesmo formato no centro e 8 pilares que sustentam o teto. Já o garmkhaneh tem quatro pilares e pequenas salas de banho ao redor. Desse salão vai-se à ao khazineh (sala de banho final).

 

                Mas foi no curioso, bem cuidado e rústico telhado que a visita me surpreendeu mais do que ao interior: um "mar" de domos permite a luz do sol entrar através de orifícios, que fechados em vidros convexos proporcionam efeitos belíssimos de iluminação no interior e notáveis ali no telhado.

                Se telhados naturalmente exercem na gente uma atração pela descoberta do incomum, para observar a vista de um novo ângulo, para consertá-los, pegar pipas ou pela ssimples descoberta do que há neles. Até pelo simples prazer de viver o perigo de fazê-lo. De algum jeito delhados me provocam e despertam. Mas aquele teve um efeito muito especial: matar a curiosidade de saber como provocava efeitos luminosos tão complexos no interior do hamman.

A luz ilumina e tem seus efeitos no Hamman Sultan Amir Ahmad

                 Eu já sabia que subir em telhados me deixava feliz. Desde moleque a “arte” era uma grande diversão. Levei muito pito quando pego em flagrante. Mas, quem diria!, com tanta beleza pra me surpreender em Kashan, não esperava que subir num telhado seria uma de minhas experiências mais marcantes na cidade.

Além de funcional, a luz natural embeleza a já bela ornamentação do Hamman Sultan Amir Ahmad - Kashan

 A seguir (qualquer dia): "Masjed-e Jāme, a Mesquita de Sexta-feira - Esfahan"