MENSAGEM ao LEITOR
BIO

BEM-vindo!

       Sou brasileiro, empresário e casado com a doce Emília do blog "A Turista Acidental". Desde que a conheci (e antes mesmo de nos casarmos), tornou-se a "mais-que-perfeita" companheira de vida, de idéias, de projetos e ideais, sobretudo encantadora, adorável e inspiradora companhia de viagens e de aventuras. Com ela compreendi o que significa "prazer de viajar". Foi (e continua sendo) minha melhor fonte de inspirações e de motivações. Tanto que qualifico minhas viagens como "antes e depois" da Emília e "antes e depois" da Índia. Foi com ela que percebi o que quis dizer Érico Veríssimo com "Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado certamente chegará mais longe." Somos pais de gêmeos - uma menina e um menino - nascidos em julho de 2015.

       Tenho 64 anos, boa parte deles dedicados à família e ao trabalho, mas apenas aos 35 pude começar a viajar internacionalmente. Desde então visitei 60 países, entre os quais alguns dos mais fascinantes e com os sítios mais admiráveis do planeta. Felizmente, para alguns deles ainda a salvo do turismo de massa, cujos excessos arruinam qualquer lugar. Em março de 2006, quando iniciei este blog, o fiz como meio de comunicação com a família e amigos. Anos mais tarde eu descobri o poder de contar histórias em textos e fotografias, e logo ele tomou outro rumo, provavelmente porque os leitores gostavam dos textos e das fotos, ou então porque na época havia pouquíssimos blogs.

       Fiz cerca de 90 viagens internacionais, voei por 40 cias. aéreas diferentes (algumas extintas) em 391 vôos para fora do Brasil e dentro de outros países e em todas as classes possíveis. Segundo Haroldo Castro - jornalista-fotógrafo-escritor que já esteve em 160 países -, o maior viajante que conheço, em seu teste "Viajologia" que se pode fazer em seu site, que considera não apenas a quantidade de países visitados, mas lugares, monumentos e patrimônios, além de transportes, experiências e situações difícieis porque passam os viajantes, alcancei "Mestrado em Viajologia". Mas isso não é nada diante de gente que lá já "graduou-se" em pós-doutorado.

Escrevo este blog sob uma perspectiva lúcida e sem concessões à monetização sem critérios

        Eliminei o contador de visitas deste blog quando marcava mais de 6 milhões. Audiência hoje em blog é decadente. Viajar, escrever e publicar algo que inspire e icentive o leitor é o que mais me motiva, e também parece ser o que trouxe tantos até aqui. Ou porque gostem de fotografia, para além da leitura odepórica, como eu. E por este blog não ter captulado à ambição e vaidade que levou tantos autores de blogs à monetização sem critérios, sobretudo enganando leitores, cada dia torna-se menorzinho e menos importante. Se continuarem assim, os blogs precisarão ser reinventados.Este bçog nasceu livre e assim será até morrer. Po enquanto estou sempre por aqui, nem que seja em pensamento. Só não sei até quando.

         Agradeço a visita e os comentários e desejo boa viagem aos leitores.

#blogsemjaba  NÃO seja blogueiro por dinheiro, mas por paixão!

Em tempo: este blog não integra nenhuma associação disfarçada de incentivos à monetização. Mas se um dia fundarem a ABBLI (Associação Brasileira de Blogs Livres e Independentes), por favor, me convidem!

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Quinta-feira
Fev042016

Alimentando gaviões em Harar, Etiópia

Nem foi preciso pensar antes de agir. Respirei fundo e fui viver a experiência

                      RAZÃO e nonsense. Ou espanto, êxtasse, estresse, tranquilidade, perigo, encantamento, irritação, desconforto e prazer. São apenas parte do que a Etiópia entrega ao turista. O que significa  exigir dele a mais preciosa (e útil) virtude humana: a resiliência. E se é verdade que outros países do fascinante continente africano exigem tal habilidade, poucos como a Etiópia. E raros com sua assombrosa, peculiar e inequívoca capacidade de superar o insuperável, de surpreender com o que imaginamos não ser espantoso. Só que o país exige muita cumplicidade do viajante. Tanto maior quanto sua disposição de interagir, de experimentar, de vivenciar. Tudo é realidade. E tudo é possível. São situações singularmente inerente ao país, algumas até inescapáveis. 

Harar exige a cumplicidade do viajante

                       SE toda viagem nos ensina a viajar melhor, a ter o nível de resistência posto à prova, para a Etiópia esta é uma realidade inequívoca. Tanto para interagir com o povo quanto para experimentar e mergulhar no que é curioso, atraente e desafiador. Mas nem tudo é tão simples. Há coisas singelas, como experimentar o delicioso e incrivelmente refrescante Spris, um suco de frutas naturais servido em canecas de chopp em camadas vistosas. São preparados na hora, à vista do cliente e sempre nos lugares mais despojados que se possam imaginar. São tão gostosos que provados a primeira vez não se consegue mais escapar dele.

                       MAS também há o que é arriscado, quando é preciso correr certos perigos. Ao interagir com os povos primitivos do Vale do Omo, ou decidir entrar no "jogo" de alimentar gaviões em voo na cidade islâmica de Harar, por exemplo.

A aventura começa em Feres Megala, a praça da cidade "moderna", diante do portão da cidade antiga

                     ALÉM das infinitas coisas para ver e admirar, há certos desafios para o turista viver em Harar. São experiências como alimentar hienas e gaviões, por exemplo. As hienas alimentam-se com um pedaço de carniça. Colocam-na na ponta de um palito que segura-se entre os dentes. E boca a boca, o naco de carne é sacado pela hiena. Aa um palmo de nosso nariz. Já falei disso no blog. Mas ainda não tinha falado dos falcões. Também é possível alimentá-los. Só que em pleno vôo, e também, como às hienas, num dos cantos mais afastados da cidade. É coisa simples: coloca-se um pedaço de carne e sebo (de camelo!) na palma da mão. O predador que nos observa do telhado do açougue mergulha e pega-o com garras tão afiadas quanto a fome que o move. Simples, mas pode significar ter a pele arranhada até sangrar. Foi o que aconteceu comigo. E ainda que um ferimento sem grandes conseqüências, era potencialmente perigoso.

                        O que há de mais simples e delicioso na Etiópia: o Spris

                        SE existe uma jóia turística escondida e remota na Etiópia, é esta cidade. É o motivo de ser tão pouco visitada, talvez também porque todo o país seja um dos mais turisticamente subestimados. Quem viaja pra lá, todavia, ainda que carregado das mais baixas expectativas, encontra um tesouro de maravilhas históricas e volta carregado de entusiasmo por ter ido. Provavelmente com a mesma sensação que a minha: de ter sido o único ocidental que pisou ali desde o poeta francês Arthur Rimbaud, na década de 1880, que tornou-se um comerciante de café e viveu ali por anos, e de quem se pode visitar a bela casa-museu. Harar foi um dos lugares mais exclusivos e marcantes que já visitei. E se hoje é aberta a qualquer pessoa, já foi apenas a muçulmanos. Todavia mantém sua atmosfera antiga, da qual nos impregnamos assim que cruzamos seus portões.

Uma aparentemente pacato falcão pode pôr em risco a saúde do viajante em Harar?

                         A cidade é muito, muito agradável, cercada por muros antigos de meados da década de 1500. Cruzamos e ingressamos em Jugol, a Cidade Antiga. Em suas ruas internas - ora repletas de vida, ora sem viva alma - perder-se é impossível, ainda que às vezes cruzemos vias tão estreitas que só um indivíduo consegue passar. Noutras imaginamos não haver saída. Mas sempre desembocaremos em algum beco inesperado, movimentado ou não, mas sempre cm alguma surpresa. 

  Vendo a vida andar pra trás. Eu não sabia que cruzar o portão de Jugol era viajar no tempo

                       É viva e esperta, mesmo sendo tão antiga e pequena, que poucas horas exige para ser explorar-se esse Patrimônio Mundial da UNESCO, quarta cidade mais sagrada do Islã, cujas tradições e os modos de vida da meia dúzia de grupos étnicos mudaram pouco. Nas casas, nas ruas de pedras, nas pessoas e nos mercados. Onde pisarmos nos sentiremos num dos recintos mais incrivelmente desconectados do que se chama "ritmo do tempo". Fica distante, quase na fronteira com a Somália, o que exige que se durma ao menos uma noite. E ainda que pequena, saímos com a sensação de desejo de viver mais tempo nela.

Mas para conhecer a jóia turtística é preciso hospedar-se no Heritage Plaza, melhor hotel de Harar

                        UM jovem atraia falcões pousados no telhado do açougue. Estendia o braço e exibia a palma da mão bem aberta com um pedaço de carne e sebo sobre ela. Seu objetivo, imaginei, era divertir-se alimentando os animais. Ao contrário, atraia a atenção de um eventual turista. E com sua boa atuação, impressioná-los. Provocado pelo guia local, entrei no jogo. Posicionei-me no centro do chão de terra, diante do açougue, tomei as breves instruções e segurei aquele pedaço de carne esperando que o incrível pássaro desse seu em vôo rasante com suas enormes asas abertas, e planando sobre minha cabeça mergulhasse as garras arrancando o pedaço que eu lhe oferecia. Que as unhas o bicho tem! Levou a carne e um pouco de minha pele. Arranhou-me e me tirou sangue.                                           

                       NÃO posso dizer que a experiência tenha sido ruim, ao contrário, de fato foi bem legal. Mas ao ver o ferimento, a ardência e o perigo de congrair uma infecção ou ter um parasita no meu sangue, dali em diante só pensei em lavar a mão e pôr algum curativo, já que o ambiente não era dos mais assépticos. Perguntei se havia uma farmácia. Prontamente me levaram a uma. Era bem simples, como seria de supor em Harar. Comprei o que precisava. Algodão e álcool, além de um curativo tipo band-aid com aparência de fabricado na década passada. Lavei-me, passei álcool e todo o resto do dia lavando a mão com água e sabão, trocando o curativo e me recordando o que poderia ter sido bem pioar. Por sorte também não fui mordido pelas hienas quando as alimentei.

                       PERGUNTEI se havia uma farmácia. Afinal o ambiente não era dos mais assépticos. Levaram-me ao que eu já espera ser uma farmácia em Harar. Comprei algodão e álcool, além de um curativo tipo band-aid que aparentava ter a idade da cidade e ter ficado na prateleira até então. Passei o dia lavando a palma da mão com água e sabão e trocando o curativo para ver se tudo ia bem. Foi. Mas podia não ter ido. Por sorte também não fui mordido pelas hienas quando as alimentei.

Harar tem tudo o que pode satisfazer a qualquer explorador. Mesmo aos mais excêntricos.

                       PARA chegar em Harar, pode-se ir de ônibus direto da capital, Addis Ababa até Dire Dawa e dali de taxi ou van até Harar. Gastam-se dez horas de viagem. São cerca de 550 quilômetros que separam as duas cidades por estradas. Há duas empresas com carros modernos e bem equipados, mas são dez horas de viagem por mais de 500 quilômetros.                       

                       OPTAMOS por avião, de Addis até Dire Dawa, e depois de carro até Harar. O vôo foi ótimo, como todos dentro da Etiópia. Já as estradas, nem tanto. Gastamos uma hora e pouco até o hotel onde nos hospedamo-nos, o Heritage Plaza, um dos piores em que já fiquei na vida, para onde bastaria um pouco mais de limpeza para deixar de ser o que é. O café da manhã, todavia, foi surpreendente bom e num local agradável. Da equipe só vimos o recepcionista.

Quinta-feira
Jan282016

Bom dia, Addis. Adeus, Etiópia.

A CHEGADA - Bom dia, Addis

                       DESDE os eventos do Live Aid, na década de 1980, gravou-se nas mentes ocidentais o que ainda hoje se pensa da Etiópia. Mas eu sabia que além da pobreza veria muita beleza. Circulando de norte ao sul do país notei que ambas andam juntas, mas a beleza se sobressai à pobreza quase todo tempo e em todo lugar. A Etiópia é muito mais do que uma vastidão de paisagens áridas, de crianças desnutridas, de pobreza e sofrimento. É verde e exuberante, suas crianças são cheias de energia e curiosidade, o povo é de sorrisos francos em rostos bonitos, com traços incomparáveis e uma cultura  inigualável. De uma vida que revela capacidade inequívoca de sobrevivência e de resiliência nas adversidades.

                       A pergunta número um para quem conto minhas viagens é "Qual o melhor lugar que você já visitou?" Fui a muitos, respondo. A mais de 60 países e lugares tão diferentes e impactantes que seria ingênuo citar o "melhor", ainda que Índia - desde que me acertou o coração - tenha se tornado para mim hors concours, portanto, incomparável. No entanto à Etiópia consagrou-se uma de minhas melhores experiências em viagens. Às vezes acho que os dias têm andado depressa demais. Parece que foi logo ali, noutro dia que eu vivia a primeira hora da primeira manhã daquela auspiciosa viagem...

Etiópia. Beleza e pobreza sempre juntas

A primeira hora da primeira manhã. o dia da "felicidade viajante"

                       ERA noite quando pousamos no Bole International. E tarde quando chegamos ao Sheraton Addis. Quase meia noite quando dormimos naquele enorme quarto com vista para a piscina. Addis ao fundo. No momento em que pousamos eu não imaginava o quanto haveríamos de saborear naquela viagem. Mas no travesseiro eu já fazia idéia. Ainda hoje me surpreendo com o que representou o dia seguinte ao de uma noite bem dormida: a primeira hora da primeira manhã, o mais marcante momento de toda a viagem. Pode soar ingênuo, afinal eu ainda sequer pisara fora do hotel, mas assim eu me sentia. Não que houvesse algo de tão especial, ao contrário; o dia começava como todos: no desjejum. Mas era auspicioso. Como nenhum outro foi na Etiópia. Os pensamentos corriam soltos. Afinal eu começava uma viagem para um mundo à parte, que eu nem sabia que marcaria minha vida.

                       ACORDAMOS um pouco mais cedo. Mas descansados e refeitos. Não sentíamos quaisqur resquícios dos efeitos da longa viagem até Johanesburgo - pela South African Airways - e até Addis Abeba, pela Ethiopian Airlines. Nossos ciclos biológicos estavam um reloginho enquanto eu comia minha primeira refeição no país. E foi ali mesmo que dediquei-me a dissimular a perturbação mental, especulando sobre como seria escrever sobre Addis. Me tomava a ideia. \era profundamente inspiradora. Sobretudo por dizer algo diferente. Para quem escreve, a Etiópia é um senhor estímulo. E eu ainda me recordo do vigor com que o queria. Talvez pensasse mais naquilo do que na viagem que começava. Odiava a ideia de produzir algo ruim. E já me preparava para o excesso de substantivos que jorravam da mente. De pobreza a beleza. E também de verbos a adjetivos. Se eu precisava de inspiração, aquilo era um belo começo. Não por outro motivo este blog, em parte, existe e persiste na sua existência: por ser o resultado dessa inspiração por escrever minhas experiências e vivências nas viagens.

Eu me sentia mais jovem. E acho que não era por causa do calendário etíope, sete anos menos que o nosso

                      A manhã estava especialmente clara e fresca, enriquecida por uma atmosfera excepcional, ainda que ela discretamente corrompesse a razão e acentuasse a sensação que só me ocorre quando viajo. E apenas na primeira hora da primeira manhã. É o que chamo de “felicidade viajante”. O fato era que me sentia mais jovem. Por nenhuma razão especial, porque não acredito mesmo em coisas místicas, mágicas e "energias" afins. Creio é que alguns lugares têm atmosferas impregnadas deles mesmos. E que ao respirá-las nos completmos delas. Até sem percebermos. A tal "felicidade" nada mais é do que o resultado de absorvermos o ar  impregnado da personalidade do lugar. O conjunto de estímulos entra pelo pulmão e se instala na mente. Como um vírus. Que freqüemtemente provoca seus efeitos colaterais.

                     SE aquela atmosfera era o bastante para me provocar a mente, se a viagem que começava era especialmente entusiasmante, se estar no continente mais atraente do planeta me impulsionava, não podia desejar nada mais de melhor. Apenas caminhar, caminhar e caminhar pela cidade sem perder a capacidade de voltar ao meu estado normal e encontrar logo minha resiliência, evitar as vulnerabilidades que a empolgação me provoca. Por certo eu ainda não sabia o quanto seria difícil, exaustiva e desconfortável a viagem. Nem mesmo que tão entusiasmante.

                       APRENDI a alcançar a resiliência, identificar, controlar e administrar a tal “felicidade viajante”. Aliás, foi só quando compreendi que ansiedade é algo natural ao ser humano. E que "brigar" com ela é inútil. Todavia, extremamente recomendável saber geri-la. Os americanos chamam isso de mixed feelings. Mistos e contraditórios. A mim custou um pouco, mas em algum momento notei que além do prazer, a tal "felicidade" têm lá seus perigos: não raramente corrompe o bom senso, torna as expectativas assoberbadas e os lugares que desejamos muito e dos quais seja natural esperar recompensas, nem sempre são garantias de reciprocidade. Eu já sabia que a Etiópia da minha imaginação não correspondia à realidade, que eram reminiscências do que me contara meu pai em suas viagens pela África na década de 70. E também resultado do muito que eu lera e pesquisara preparando-me para viajar pelo país. De toda maneira, sentia-me bem e agradavelmente estimulado. Faltava pouco para começar a explorar a cidade e o país e ver com meus olhos o que me contara meu pai e eu lera. Sobretudo perceber com meus sentidos as ruas da cidade, imergir naquela realidade assombrosamente diferente.                   

                      Assim eu fazia naquela manhã. Evitava adiantar-me às sensações alienando-me das expectativas e dos pensamentos turísticos. Como provavelmente o faz um turista desinteressado, aquele que prefere ser guiado e deixar para a hora de ver as sensações que experimentará. Mas em mim persiste um pressentimento: de que todo lugar, antes de seu tempo - como a Etiópia naquela manhã - me apanhará com sua essência e peculiaridades. Comecei a saborear meu café da manhã enquanto me perguntava como escapar da ansiedade num dos países mais remotos, exclusivos e pouco turísticos do planeta. Com tudo o que se pode esperar para que um destino seja memorável e uma viagem consagre-se entre as mais marcantes da vida.                       

                          Enquanto caminhava em direção ao buffet do Sheraton Addis para servir-me do que havia - pães, bolos, frios e omeletes, sucos e café - lembro-me de não ter visto nada etíope para o desjejum. A despeito da maioria das mesas estarem ocupadas por africanos. Elegantes, de diferentes nacionalidades. Eram diplomatas preparando-se para uma importante conferência que debateria os conflitos entre o Sudão e o Sudão do Sul. Soubemos mais tarde, de um diplomata que minha doce Emília encontrou e brevemente conversou, que tentavam soluções para pôr fim à luta étnica e às possibilidades de genocídios entre os dois países, mas que segundo ele, que já estivera no Brasil, as coisas não iam bem neste sentido. Os diplomatas sentavam-se às mesas para o desjejum. Eram homens em ternos escuros e bem cortados, e senhoras extremamente bonitas e de gestos elegantes. Discretas e contidas, algumas sobressaiam pelas roupas africanas, coloridas e com turbantes como as típicas da África ocidental. 

                      Sentado eu assistia aquelas pessoas conversando em idiomas incompreensíveis. Estava tão concentrado nelas que precisava reconectar-me com tudo. Meu olhar era discreto, sereno, respeitoso. Especulava de onde viriam julgando suas aparências. Seriam do Benim, de Burkina Faso, da Costa do Marfim, de Gâmbia, Gana, Libéria, do Mali, da Nigéria, Senegal, Serra Leoa, do Togo? Observava-os num delicioso voyeurismo. Mais tarde soube que hospedaram-se o presidente sudanês Salva Kiir e o líder rebelde, Riek Machar. Durante nossa estada subíamos e descíamos pelo elevador acompanhados de diplomatas que à noite reuniam-se no convidativo bar do enorme lounge do saguão. Em grande número, enchiam o espaço e circulavam num quase desfile ou reuniam-se em grupos. Tudo era extremamente sedutor.  

                        Entretanto o que mais me surpreendeu não foram os encantadores diplomatas, mas as vozes de dois brasileiros que ouvimos naquela primeira manhã. Conversavam numa mesa quase à minha frente. Era um jovem casal do qual mais tarde nos aproximamo-nos, apresentamos e contamos-lhes nosso itinerário. Eles também pareciam admirados com o encontro e com a coincidência: também começavam naquela mesma manhã sua viagem pelo país. Daniela e Luciano iam apenas ao sul do país, o que nos possibilitou encontrá-los mais uma vez por lá. Trocamos endereços e, mais tarde, pelo Facebook, soubemos que também gostaram imensamente de suas experiências no país e que também tinham a mesma paixão por viagens que nós. Mantemos contato até hoje. Nos despedimos e finalizamos o café. Antes de subirmos ao quarto resolvemos dar uma básica explorada nas principais dependências do belo hotel, especialmente conhecer seu convidativo restaurante italiano, sua grande área de piscina e spa e o saguão por onde desfilavam as autoridades.

                        Tudo era muito estimulante e me impulsionava a vontade de escrever sobre essas coisas bacanas que nos ocorrem em viagens. Sobretudo os choques culturais que provocam e acendem a mente. Lembrei-me de Paul Theroux, mestre em evocar essas coisas nos leitores, descrever pessoas, situações, sensações, reflexões pessoais e lugares. Com ele "aprendi" a não produzir relatos de viagens chatos e parecidos com os guias de viagens. Ninguém faria melhor que os Lonely Planet ou Bradt Guides. Assim como Theroux, tenho horror a relatos autocomplacentes, sem graça e que deixam coisas interessantes de fora.

 “Ninguém que espera uma viagem luxuosa e seja fóbico com sujeira e insetos deve ir à Etiópia. E é quase impossível ter alguma privacidade ou ir a um lugar sem um rastro de crianças seguindo e gritando farangi, farangi, farangi, you, you, you! Inofensivo, mas enervante." Philip Briggs, autor do ótimo Bradt Guide Ethiopia 5a. Edição.

 A seguir

Nas ruas de Addis. Começando por Debre Libanos

Sexta-feira
Jan222016

Etiópia. Clichês, chatices, felicidade, saúde, longevidade e relações humanas 

Entre os muitos motivos porque viajo, experimentar as relações humanas é um dos melhores

                     O que leva alguns amáveis leitores deste blog a sensibilizarem-se com o que escrevo? Ao ponto de às vezes deixarem comentários tão entusisamados? Seria meu jeito de escrever? A franqueza com que o faço? A emoção? Seria por notarem veracidade? Por não tercaptulado à monetização? Não sei ao certo. Mas me faz todo sentido pensar que é pelo conjunto destes motivos. Ainda que no jogo entre quem escreve e quem lê, nada seja previsível. Nem os manuais de redação asseguram jeito infalível de ser eficiente nos relatos de viagens. Especialmente na parte mais difícil deles: a introdução. Dizem as instruções que na abertura devemos ser francos, assim começaremos bem. E atrairemos, contagiaremos o leitor. Já levá-lo até o fim é outra história. E mesmo havendo sucesso na abertura, não será fácil agarrá-lo até a última linha.

                      NADA mais me importa do que isto: captar o leitor. É por ele e por este motivo que escrevo. E o ímpeto que me conduz, quer também levá-lo mais longe na leitura. Ainda que de toda maneira isto me pareça uma pretensão maior que a habilidade. Quero é abrir no leitor os horizontes da mente. E dar-lhe pistas do universo de paixões que povoam a minha. Mostrar-lhe porque me motivam as viagens. E fazer isso não só com o texto, mas auxiliado pelas fotografias. Mas saiba, querido leitor, que aqui também tenho lá minhas dificuldades: selecionar - entre milhares - as fotos que incluirei na matéria para ilustrar o que minhas palavras tentam lhe dizer. Nesse "vale-tudo" na tentativa de transmitir-lhe franqueza (caiba ou não os meios nos manuais de redação), sigo  certo de que pelejo tentando aliar tema aos personagens, ritmo ao tempo, sobretudo interesse à disposição do leitor de ler.

                    E fazer isso sobre alguns lugares e países é ainda mais difícil. No caso da Etiópia, saber por onde começar um resumo é o segredo: primeiro, desmistificando o país, apontando como a Etiópia não é, devido às imagens da fome que tornaram-se o clichê mais evidente do país; segundo, explicar como é de fato, não como o imaginamos.

                    FOI o que me ocorreu quando me preparava para escrever sobre nossa primeira manhã em Addis Abeba: preparar o leitor. Tentar transmitir-lhe a minha sensação de como foi meu espantoso primeiro dia na Capital da Etiópia. ISso quando eu ainda estava lá, não havia sequer pisado fora do hotel, não tinha nada de substancial para dizer. Mas aquela manhã do primeiro dia, o que primeiro me ocorreum foram precisamente os clichês. O país tem muitos. Entre eles, a inquestionável questão da fome. O que me preocupava era saber abordá-la. Sobretudo sem parecer ignorante ou falso. Ignorante por deixá-lo permear meu pensamento, falso por fingir ignorar suas verdades. Depois eu refletia sobre as viagens. Sobre a felicidade de estar ali, e então sobre as relações íntimas das viagens com a felicidade E como conseqüência, com nossa saúde e longevidade. Acredito piamente na relação.

                    ESTAR ali e pensar em coisas assim me deixava um pouco ansioso. Mais ainda como seria minha interação com os etíopes, as relações humanas que eu teria num país tão complexo e radicalmente diferente de qualquer outro. Foi então que percebi fazer sentido partilhar tudo o que senti com você, antes mesmo de contar-lhe minhas impressões sobre Addis.

                      PRIMEIRO, eu queria encontrar um jeito franco e honesto de falar com você sobre os clichês. Não apenas os etíopes, mas o que penso acerca disso. Tenho cá minha interpretação sobre eles, e se me conhece bem o leitor, não escreverei nada politicamente correto só pra agradar, senão dirigido exclusivamente sobre a frabqueza do que penso. Não escrevo sobre temas polêmicos com falsidade para livrar-me das conseqüências de minhas abordagens. Esta não foi nem será uma concessão para obter aprovação da blogosfera, das redes sociais e de tudo que não me dirige. Simplesmente porque não me integro a nenhum grupo, associação e coletividade que dirijam meus objetivos. Até me apetece transgredir suas regras. Já não tenho idade para escrever sobre o que não acredito fingindo crer, e não me agrada mentir para fazer sucesso, para obter aprovação, likes, popularidade e audiência par ao blog. Já sabe muito bem o meu leitor que este é um blog marginal. Sobretudo opiniativo. E que seu autor é independente. E que não encontrará discurso politicamente correto disfarçado sob o que manda o tosco sectarismo blogosférico de viagens. Aquele mesmo que tornou alguns bons blogs de viagens em medíocres. Não escrevo para provocar "onda" na blogosfera, não recorro a situações previsíveis para encantar um tipo de leitor que eventualmente se agrade disso só pra aumentar audiência. Não precisar ganhar dinheiro com isso aquitem lá essas vanagens. Estou muito certo de que não faço onda na blogosfera. E um postezinho desses não faz sequer marolinha. O que sei é que escrevo para um nicho de leitores: especiais e seletivos. Então, a respeito dos clichês serei franco com você, não politicamente correto. Aqui entre nós, esses blogs bonzinhos e enquadradinhos são um pé-no-saco.

                        AINDA que reconheça que alguns clichês possam estar "errados", que carreguem consigo conotações negativas ou preconceituosas, não os acho nem mentiras nem verdades absolutas. São meias-verdades. A maioria revela efetivamente o fundo de verdade no qual se originaram. Não foram deliberadamene inventados, senão uma visão resumida, ligeiramente distorcida e superficial da realidade mais notável, não do conteúdo mais profundo. O uso frequente dos clichês é que os torna chavões. E rechear relatos de viagens com eles torna tudo tão enfadonho quanto superficial. É cafona basear-se neles tant quanto boboca negá-los para agradar aos leitores e seguidores. Tão bom quanto raro é encontrar textos que os interpretam, cujos autores não se baseiam neles mas os têm como mediadores, não deixam permear-se pelas impressões superficiais mas também não as ignoram.

                        PARA alguns países os clichês são inevitáveis. Formados em evidências verdadeiras e inquestionáveis, como no caso da Etiópia, ali nem é preciso fechar os olhos. É pensar no país e as imagens de fome e pobreza surgirão. Ninguém apagará as inesquecíveis, trágicas, fortíssimas imagens que nos anos 80 circularam o mundo nas revistas e TVs. Mostravam uma realidade brutal - a fome no norte da Etiópia - e consagraram-se num dos momentos mais impactantes do jornalismo televisivo moderno. Se ao invés de imagens nos lembrarmos de uma música, será We Are The World, um dos movimentos em favor de que o mundo olhasse para a Etiópia, assim como o Live Aid, iniciativa do artista e ativista político irlandês Bob Geldof, que na época liderou um esforço de captação de recursos de celebridades para apoiar o combate à fome, porque era "hora de dar uma mão à vida porque pessoas estão morrendo de fome."

                        "FOME na Etiópia" tornou-se o clichê do país. Dos mais amargos. E viajando pelo país percebi que os etíopes não renegam aquela realidade, mas a minimizam afirmando que sua dimensão foi restrita a uma pequena região ao norte do país. E que os estragos que aquelas imagens causaram ao país foram bem maiores do que os que a fome proporcionou. Não gosto de clichês exatamente porque geram tanta superficialidade, mas não sou tolo tentando ignorá-los. Acho ingênuo não reconhecer seus fundamentos, as verdades das situações ou ocorrências que os originaram. Por exemplo, háum fundo de verdade no que falam superficialmente dos cariocas, dos paulistas, dos curitibanos e dos baianos. Ou dos franceses, ingleses e australianos. Gostem eles ou não. É o que os diferencia uns dos outros porque refletem carcaterísticas pessoais, culturais, comportamentais, de gostos, gestuais, de atitudes, de índoles e de personalidade mais proeminentes. Boas ou não.

                      ENTÃO, quando me preparei para viajar à Etiópia, natural seria conhecer seus clichês e compreender suas origens. E lá verifiquei que se já não há a fome devastadora, tudo mais era coerente com a realidade presente ou passada do país. Não apenas as relacionadas à fome e pobreza. Das mentiras e invencionices "históricas" baseadas na religiosidade e na crendice - especialmente as relacionadas à feitura das igrejas de rocha de Lalibela e da Arca da Aliança -, como às ligadas ao Rei Salomão, à Rainha de Sabá, ao Imperador Haile Selassie, à Revolução comunista, à guerra civil. Entre os países da África, a Etiópia é um dos mais misteriosos, mais repletos de clichês, com o perfil mais enigmático e diferente, mais desconhecido paramuito além do que mostram seus clichês e suas meias-verdades.

                       É por isso que para viajar à Etiópia são precisas leitura, análise e avaliações maduras e bem medidas se quisermos chegar ao terreno das consistências e irmos além das superficiailidades dos clichês. Não serei eu, portanto - quer por incompetência, quer por falta de cultura ou por esquecer o bom senso - que "definirei" ou "classificarei" o país e seu povo. Sobretudo com clichês. Ainda que as considerações que o leitor conhecerá no próximo capítulo - Bom dia, Addis. Adeus, Etiópia -, no qual eu relatarei a imensa discrepância entre o que senti no dia de chegada e no da partida, impressões bem ponderadas e baseadas em fatos, não deixo de reconhecer alguma influência de seus clichês e suas meias-verdades sobre o que significou esta viagem à Etiópia para mim. Irei da razão ao nonsense, da pobreza à beleza, do êxtasse ao estresse, da serenidade ao perigo.

Chatices etíopes - Farangi, farangi, farangi! You,you you! Money, money, money!

                       UMA das coisas mais persistentes na Etiópia são as crianças gritando Farangi, farangi! You,you you! Give me money! para os viajantes. Ou uma variante disso. É provável que algumas pessoas irritem-se tanto que até não queiram voltar ao país. Afinal, a “histeria” (como se refere Philip Briggs, autor do Bradt Guide) ou “febre ferangi” (como o faz o Lonely Planet), requer, antes de tudo, conhecer a questão e aprender a administrá-la. Depois, reconhecer que a Etiópia é grandiosa demais pra que isso elimine a vontade de conhecê-la e voltar a ela.  A "histeria farangi" pode parecer inofensiva, e de fato é na maioria das vezes, mas a persistência dela pode esgotar a reservas de bom humor de qualquer viajante que não seja, por exemplo, um monge budista.

Brandindo seus cajados e gritandi farangi, farangi! You,you you!

                       O autor do Bradt Guide nos ensina que a melhor resposta para esse tipo de coisa é zombar gentilmente das crianças, simplesmente gritando de volta: habbishat,  habbishat , habbishat!, que significa "etíope, etíope, etíope!". Nem sempre o bom humor desarma os garotos, mas pode ser uma manobra bem sucedida. O contrário, demostrar raiva e irritação, pode além de incentivar a gritaria, ocasionalmente receber umas pedradas de volta das crianças.

                        FARANGI, farangi, farangi! You,you you! Money, money, money! Stop!, stop!, stop!, às vezes funciona como um mantra e tem efeitos implacáveis nos ouvidos e no cérebro. Claro que não pra todo mundo. Falo de mim. Algumas vezes (não comuns, mas não raras) acompanham-se de pedras e varas jogadas contra os turistas, comportamento não muito compreensivel e até espantoso, que pode ser tanto resultado de aborrecimento, de aversão a estrangeiros, ingenuidade infantil ou curiosidade quanto de frustração, raiva, ódio, expectativa, fascínio, arrogância e excitação. Tudo próprio da histeria.

                        DEPENDENDO do lugar e da situação, as crianças apenas gritam, noutras dançam sacudindo as pernas e gritam. Podem desistir logo, se você estiver trafegando de carro numa estrada, como também persistirem ao máximo com a implicância. Responder qualquer coisa com bom humor e sorriso sempre os acalma. Um aceno e um sorriso, por exemplo os deixa satisfeitos. Ignorá-los, ao contrário, acentua o desejo de importunarem. Manter bom estado de espírito e algum senso de humor é fundamental, coisa que nem sempre eu conseguia, especialmente em Lalibela durante o Timkat. Tudo isso é válido e aplicável também a todas as pessoas que acediam turistas. O perigo de nos fecharmos, de impedirmos a nós mesmos de interagirmos, de responder às intenções genuínas e sinceras de uma simples troca de palavras, um dos maiores prazeres turísticos na Etiópia, é um dos erros mais comuns em que incorremos, porque as experiências de interação podem ser muito agradáveis e encantadoras, ainda que também irritantes e provocativas.

                  OS meninos podem ser genuínos nas suas intenções, e com frequência o são -, ora desejando simplesmente fazer-nos companhia, gozar o simples prazer de caminhar ao nosso lado e de mãos dadas, conversar, exercer sua curiosidade, treinar o inglês, tentarem comunicar-se e eventualmente aprenderem um pouco mais de nós, de nossas vidas e nosso país. Noutras não. Abordam-nos com atitudes sonsas e agressivas, aparentemente apenas por implicância ou por alguma doação de dinheiro. Eu precisaria de muito mais do que quinze dias na Etiópia para aprender a discernir com precisão o que é genuíno do que é esperteza. Não consegui.

                         CRIANÇAS são curiosas em qualquer lugar do mundo. As etíopes que nos digam! Um visitante ocidental sempre será seu foco de suas atenção em qualquer lugar do país. Especialmente no interior. Estrangeiros não são comuns, afinal. Eu não sabia disso antes de chegar à Etiópia. E talvez, depois da Índia, tenha sido o lugar onde éramos mais atraentes. Às vezes vinham sós, noutras num louco turbilhão de crianças gritando e dançando. Certamente há diferentes graus de abordagem e de atuação das crianças nas diferentes regiões do país, mas sempre havia curiosidade sobre nós, quer apenas por olhares e sorrisos discretos e evergnhados, quer comportando-se de maneira estridente. Muitas vezes as crianças eram doces, calmas e infantis, sorridentes e expressavam apenas curiosidade. Engraçado era ouvir seu limitado mas esforçado vocabulário inglês vindo de vozes suave, tímidas. Muitas vezes segurando nossa mão com tamanha doçura que nos desnorteava os sentidos e nos fazia imaginar o que pensavam, nosincentivavam a interagir com elas. Algumas vezes era difícil dizer adeus a essass crianças adoráveis.

                       DE outro lado havia crianças extremamente inconvenientes e irritantes que conseguiam estragar toda nossa simpatia com a experiência anterior. Do jeito delas, corriam em nossa direção gritando birr, birr, birr - a moeda nacional - (dinheiro, dinheiro, dinheiro, em português) depois de faranji, faranji, faranji - estrangeiro em amárico, muito persistentes e teimosas, o que me fez sair do país com uma sensação de que minha relação com as crianças etíopes foi um misto de prazer com iritação.

                      TIVE bom tempo para refletir sobre essas coisas nesta viagem. Algumas ficaram mais claras e compreensíveis, outras ainda mais nebulosas, talvez porque a Etiópia tenha sido o país mais difícil para onde viajei e o que mais exigiu de mim. Físicamente, porque intelectualmente ainda foi a Índia.  Às vezes eu sentia compaixão pela pobreza, noutras raiva quando era hostilizado, quando ouvia provocações em amárico vindas de hordas de crianças em Lalibela  A Etiópia é um país difícil. As pessoas também. Mas ir ao país e explorá-lo é viagem no seu modo mais misterioso e intenso.

                         UM estudo levado a cabo pelo cientista Dr. David Lipschitz - diretor do centro sobre envelhecimento na Universidade de Arkansas para ciências médicas - associa viagens à longevidade, à saúde e à felicidade. Com todo respeito pela ciência, isso pra mim não foi novidade, pois sempre relacionei viagens a estes e tantos outros  benefícios e motivações pessoais. Seria massante descrevê-los todos, por isso pouparei o leitor mencionando apenas dois dos que mais me ocorrem.

                         PRIMEIRO, ter percebido que pessoas são diferentes e assim suas viagens. Alcançar essa consciência equivale a dar um grande salto na própria consciência. Algo fundamental a quem escreve relatos e guias de viagens, aconselha a outros viajantes, dá dicas e sugere roteiros.

Com freqüência queriam só nos dar suas mãozinhas, passear ao nosso lado. Que doçura havia naqueles gestos...

                        FELIZMENTE as pessoas não são iguais. O mundo seria chatíssimo se fossem. Quando comecei a perceber isso passei a discordar vivamente dos que tendo ou não a tal consciência tentam uniformizar gostos e modos de viajar. Padronixá-los. E sugerir que o único e certo jeito de viajar é o deles. Assim como de arrumar malas, o tipo de mala que deve comprar, o que levar dentro delas e tudo mais de linearque não leve em conta o universo tão díspare de necessidades e particularidades, de gostos e objetivos das pessoas quando viajam. Tratar assim países como a Etiópia seria tão prejudicial ao viajante quanto fazê-lo acreditar piamente nos clichês.

                        O segundo motivo foi perceber os benefícios e as motivações que as viagens me proporcionam. Entre tantos, ter a possibilidade de experimentar as interações com as pessoas, o que chamamos de relações humanas. As nossas foram ora tão marcantes quanto tocantes, ora tão inoportunas quanto desagradáveis. Pessoas e costumes diferentes tornam-se algo tão importantes numa viagem quanto as belezas naturais, culturais e as construídas pelo homem. Na Etiópia possibilidades assim são enormes. Também únicas, complexas e difíceis. Com crianças ou adultos, seja por causa do idioma, seja pelos inevitáveis choques culturais. É o desconhecimento e a estranheza de ambas as partes dirigindo e dificultando a interação.

                        NESTE particular eu percebi que um simples abraço, um aperto de mão ou mesmo um olhar carinhoso abria as prtas da receptividade e da doçura. Eliminavam parte das dificuldades e sugeriam que fôssemos mais a fundo para termos experiências notáveis, aidna que curtas, passageiras. Interagir com os locais foi tão marcante nesta viagem à Etiópia uanto tudo mais. Ainda que "interagir" por vezes significasse quase "lutar".

Em Harar, no "olho do furacão" das relações humanas

                         SE para mim não há nada mais estimulante e criativo do que viajar, que escolher para onde vou, que planejar e sonhar com minhas viagens, à Etiópia consagrou-se como um dos melhores investimentos que já fiz em viagens. Por tudo, por todos, por muito mais sou imensamente grato.

  

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A SEGUIR

Bom dia, Addis. Adeus Etiópia.

A PRIMEIRA hora. Na primeira manhã, o dia da "felicidade viajante".

                      A DESPEDIDA.  Sem saber dizer adeus

Notas

 

Philip Briggs, autor do Bradt Guide Ethiopia. Não há cobertura mais recomendável e abrangente, superior até mesmo aos sempre bons Lonely Planet. Para os entusiastas de viagens à África, Philip Briggs precisa ser conhecido: foi autor de 14 guias Bradt e de alguns livros sobre outros países africanos. E ele e sua esposa fotógrafa, Ariadne Van Zandbergen, regularmente contribuem para revistas especializadas em África. O Bradt Guide Ethiopia tornou-se uma 'bíblia' para viajantes que planejam visitar o país e nos acompanhou em cada quilômetro de estrada ou metro de cidade.  

Quinta-feira
Dez172015

Addis Abeba - O prelúdio de uma aventura na Etiópia

INTRODUÇÃO - Uma viagem com "olhos de ver". A chegada e a primeira impressão

                 NÃO sou o tipo que olha mais pro umbigo do que pras paisagens durante as viagens. Longe disso. Mas dizem - e de certo modo concordo - que encarar um destino em profundidade pode levar o espectador também a ir profundamente em si mesmo. Em verdade, para viajar assim é preciso viajar nu. Claro que não no sentido literal, mas no de desvencilhar-se do que é próprio da mente, de si mesmo, dos  conceitos e, então, mergulhar nas profundezas do lugar. É ir pra gostar, para apreciar o desconhecido, os estranhos, os costumes esquitisos, por estar fora do seu tempo, para receber bem as estranhezas, para  administrar bem as dificuldades e os medos, para ser feliz com o inesperado. Mas ser suficientemente bem resolvido para não ter culpas se ao retornar não ter gostado. E então, depois de tudo, gostando ou não, ver-se tomado, fascinado pela idéia de contar a história de sua viagem.

Menina carregando menina...

                  COMIGO e a Etiópia foi assim. E talvez assim seja sempre com todos que viajam com os olhos de ver: percebendo mais do que definindo, recebendo mais do que dando. Como quem olha mais pra fora do que pra dentro de si mesmo. Alguns asseguram que com este olhar sempre voltamos com "outra" cabeça. Independentemente do tipo ou do estilo do indivíduo viajante. É por isso que algumas certas viagens - apenas certas, repito - teem-se consagrado em experiências tão incomuns e marcantes se comparadas às demais. Provavelmente foram as que me levaram às reflexões e concluiram-se nalgo bem menos comum do que comumente eu interpreto sejam as viagens "normais". Não tenho dúvidas de que à Etiópia foi uma destas e que estará sempre entre aquelas mais marcantes de minha vida.

Busto de Hailé Selassié defronte ao National Museun, Addis Abeba

                  FOI em Addis Abeba que compreendi algi tão elementar, mas nem sempre percebido: que tudo  sempre tem dois lados. Opiniões e resenhas de viagens também. Gostos e desgostos em relação a destinos, sobretudo. E que se para uns as primeiras impressões são as mais importantes, para outros a última é a que vale, ainda que isso possa soar como um clichê, não como verdade absoluta.

                   QUEM sabe que nunca tudo é igualzinho pra todos, simplesmente porque reconhece que as pessoas são diferentes, então as suas maneiras de perceber as coisas, provavelmente foi por compreender o mesmo que Paul Theroux - em A Arte da Viagem - organizou os viajantes e narradores de viagens segundo os diferentes roteiros que empreendem, os meios de transporte que usam, as características pessoais, as motivações, suas bagagens, seus medos e neuroses, as companhias que levam co sigo, suas nacionalidades, seus gostos, o amor ou o desprezo pela comida, suas fantasias e até a duração de suas viagens. Ainda que tudo isso para e pelo mesmo destino.  

O alfabeto, feito de sinais que parecem extraterrestres

                 COMIGO funcionou assim: as mais fortes e melhores impressões que tive da Etiópia foram as primeiras. E devo-as muito a Addis Abeba, ainda que também, em grande medida, pelas atitudes, pelo jeito de ser e pelos maneirismos intrigantes dos etíopes, pela incomparável personalidade e vibração da cidade e pelas surpresas que nos concedeu.

FOI assim então. E logo assim que chegamos em Addis Abeba...

              BEM-vindo à Etiópia, 13 meses de sol por ano! Trezes meses?! O enorme cartaz com o rosto de uma mulher sorrindo nos dava boas-vindas. Naturalmente eu leio e me informo sobre um país antes de visitá-lo. Especialmente sobre os tão incomuns. Não fosse dessa maneira eu ignoraria que o calendário etíope tem 13 meses (*). E supondo que a frase fosse mais uma invenção marqueteira para promoção do turismo, a teria achado extremamente criativa. Sabendo, achei-a um pouco, mas só um pouco inventiva. O que a propaganda simpática fez foi acentuar meu prazer de chegar ao país mais diferente do mundo. Depois de ler o cartaz senti-me mais do que bem-vindo ao Bole International Airport tendo voado pela ótima Ethiopian Airlines (**).

 Visto etíope concedido no Bole International Airport, Addis Ababa - Photo by Henrique Bente (Flickr)

https://www.flickr.com/photos/semparadeiro/7218468222/in/photostream/

                    DOIS adesivos depois, colados nos passaportes, ao custo de 40 dólares, de um recibo feito à mão e nenhuma pergunta, terminávamos nossa entrada e o processo de imigração na Etiópia. Escritos em inglês e amárico, deles esperava terem tudo para consagrarem-se entre os mais bonitos do meu passaporte. Afinal, o alfabeto etíope é gracioso e extremamente peculiar, feito de sinais tão distintos que não parecem de nosso planeta. Aoi contrário, foram algo decepcionantes: eram os vistos menos "vistosos" que já obtivemos nas páginas de nossos recheados passaportes.

As calçadas e ruas de Addis são tomadas. De gente, comércio e mercadorias

                  UMA longa fila quase sempre é uma boa pista para processos de imigração complexos, burocráticos, lentos e inquisitivos. Mas aquela foi rápida. Tanto que minha surpresasa terminou depois dela, e logo estávamos recuperando nossa bagagem. Enquanto aguardávamos as malas surgirem na esteira, com um olho lá outro cá nos vistos tão feiosos, eu percebera que o fim da “tensão” da chegada, tão corriqueiro quando desembarco num país tão "diferente" (incomum, diverso, dos mais exclusivos do planeta, onde toda ansiedade é naturalmente aguçada), dei-me conta de uma sensação estranha:  a de estar entrando num museu ou na história, de estar pisando nela, não no solo de um país. Como se entrasse na antiga Abissínia, não na atual Etiópia...

                   MINHA memória vinha carregada de milhões de anos de história. Da incrível história do berço da humanidade, como a que revelou o paleontólogo Donald Johanson, quem descobriu os pedaços de ossos mais importantes para a humanidade até então: com mais de 3 milhões de anos, na região de Afar, eram nada menos que centenas de pedaços do esqueleto, representando cerca de 40 por cento do total do que teria sido o AL 288-1 mais tarde chamada Lucy, a pequena fêmea da espécie Australopithecus Afarensis. Só aquilo me bastava para ter curiosidade pelo país. E ali mesmo eu já contava as horas para “encontrar-me” com Lucy - embora apenas um dos tesouros da Etiópia - no Museu Nacional de Addis Abeba. Eu nem precisei lembrar-me de que visitaria o maior número de exemplares do Patrimônio Mundial da UNESCO em toda a África para ansiar tanto começar logo a exploração daquele gigante cultural, histórico, de tradições  - da comida à religião milenar ortodoxa etíope. Esperar por malas é muito angustiante...

Cena de rua no Merkato, Addis Abeba

                 DESDE a década de 70 tornei-me fascinado pela Etiópia devido a uma viagem de meu pai. E agora percebia que o que eu sabia e estudara sobre o país antes de viajar ainda era muito pouco. Mas felizmente longe daquela Etiópia do regime cruel e comunista do Coronel Mengistu e da fome. Tenho grande prazer de informar ao meu leitor que foi uma das viagens mais espetaculares de minha vida. Nada romântica, confortável ou fácil. A bem da verdade, encontrei uma estrela brilhante no turismo internacional, lugar que transforma os que viajam em viajantes melhores. E eu ainda nem sabia o que me esperava dias mais tarde, quando pisaria de verdade na terra poeirenta do solo do Vale do Omo, de Jinka e de Arba Minch, não no cimento e no asfalto de Addis Abeba. Assim que recuperamos nossa bagagem e cruzamos o portão de saída para o saguão do aeroporto, encontramos Elias, nosso guia etíope. Muito pouco depois estávamos a caminho do Sheraton Addis (**). 

Estátua equestre do imperador Menelik II, Addis Abeba

                  SEREI franco: Addis é uma das capitais mais feiosas que eu já vi. Mesmo com a globalização e os chineses tendo chegado. Nem poderia imaginar que me surpreenderia tanto com o enorme potencial turístico da Etiópia com seu povo tão vibrante, e por ver tão poucos turistas ocidentais. Esperava por um país grande e incrível, com muita coisa para ver, me preparara para a realidade, para aventuras surpreendentes, mas jamais por experiências, descobertas e encontros tão excepcionais e marcantes.

Addis é um canteiro de obras chinesas e indianas

                O país e sua capital são o oposto de qualquer utopia; senão uma das mais originais e fantásticos nações e cidades desse lado da África. Sobretudo muito longe do que habita o subconsciente de quase todo mundo. Ainda assim, em Addis quase sempre o viajante fica menos do que a cidade merece, em estadas técnicas entre os deslocamentos para, estas sim, as atrações mais notáveis no Norte e no Sul. Viajantes com mais tempo, todavia, tendem a gostar mais de Addis quando a exploram com calma, talvez porque esta seja uma cidade com verdadeira personalidade, com um bom senso de auto-definição, isto é, que não se rendeu inteiramente às ações equivocadas de uma urbanidade ocidental, anseio de muitas nações subdesenvolvidas. Addis Abeba, como capital, é bem etíope, singular e inconfundível. Quem não conhece o país pode imaginar uma vastidão árida repleta de crianças esquálidas e desnutridas, como as da década de 1980, quando a tragédia da fome assolou o país e tornou uma verdadeira aventura a de sobrevivência humana. Eu não chegava a pensar assim, mas também não estava preparado para ver um país tão verde e exuberante, povoado de crianças pobres mas extremamente alegres, com energia e curiosidade, aparentemente bem alimentadas. Claro que tinha noções da cultura, mas nunca que fosse tão exclusiva, tivesse uma história tão antiga, uma natureza quase intocada de montanhas, lagos, cachoeiras e planaltos. E que me impressionaria tanto com o grande Vale do Rift e do Omo, com um encantador ecossistema e uma bela diversidade de pássaros. Para quem gosta de aves, aliás, este é um paraíso para observadores. Nem seria preciso ver as espantosas igrejas de Lalibela para que a Etiópia me agradasse tanto.

Sheraton Addis, ótimo 5 estrelas, ponto de encontro de personalidades e diplomatas africanos

                A Capital é uma típica, personalíssima urbe do Nordeste africano, região conhecida do Corno da África, que inclui a Somália, a Etiópia, o Djibouti e a Eritreia, e em cujos arredores há grande variedade de passeios turísticos atraentes. É o que veremos no próximo post:  

 ___ ADDIS, como os meus olhos viram: uma metrópole energética, rústica e autêntica ___

Notas

(*) O calendário etíope é semelhante ao Copta egípcio: tem um ano de 13 meses, mas com 365 dias, ou 366 num ano bissexto, a cada quarto anos. Mas aqui ele é influenciado pela Igreja Ortodoxa Etíope, que segue o calendário antigo e tantas regras e crenças quanto poucos visitantes conseguem acompanhar. Então, o etíope é sempre sete anos e oito meses atrás do calendário gregoriano, o que usamos aqui no Ocidente.

(**) Este não é um blog jabazeiro. Vc já sabe, mas é sempre bom lembrar. Seu autor não escreve por fam trips, não recebe agrados, presentes e afins.  Todos os produtos e serviços aqui mencionados não têm o conhecimento dos mesmos. Tampouco são recompensados de qualquer forma, seja anterior ou seja posteriormente à sua publicação. Os descrevo ou menciono por liberalidade. Nossas viagens são escolhas pessoais e pagas com recursos próprios e a preços de mercado. Viajamos independentemente, assim como com independência emito opiniões e faço escolhas. Cada link ou produto citado mencionado é feito com a suposição de que o leitor já saiba identificar os objetivos do blog, mas sobretudo de que as verificará com o fabricante, o fornecedor ou o prestador do serviço em questão.

Quarta-feira
Dez022015

VIAJAR é bom? Só quando voltar é melhor do que ir

                 OUTRO dia, folheando boas páginas na Internet, encontrei a máxima de um até então para mim desconhecido autor: Leland Stowe, jornalista norte americano, correspondente na Segunda Guerra Mundial. Resolvi, então, compartilhar com você, caro leitor, o que ele disse: "Um visitante é bem-vindo pelo que merece". É algo que permite múltiplas interpretações, mas para mim uma verdade absoluta. Gosto disso, das boas definições do que sejam bons viajantes. A guerra foi o motivo, a função jornalísica o instrumento para que a sensibilidade do autor definisse o que concordo deva ser um bom turista. Durante suas inúmeras viagens pelos quatro continentes, através de paisagens desconhecidas e situações insólitas, o jornalista registrava, ordenava e depois imprimia seus pensamentos. Imaginava que um dia teria leitores, mas talvez não que tornar-se-ia o que eu classifico como "bom definidor do que seja a arte de bem viajar".

               Não por acaso gostei do que li: escrever sobre assuntos ordinários fazendo-os parecer extraordinários não é coisa pra qualquer um; sempre me agrada. Relatos atraentes de passeios - sejam pelo bairro, sejam por trilhas no Himalaia - são motivos suficientes para me cativarem. E para achar tão poucos escritores destacando-se na arte de escrever bem sobre viagens. Lendo-o fui levado a pensar que há mesmo muitos motivos para se viajar. E que viajar é bom apenas quando voltar é melhor do que ir.

              Cada um tem seus motivos. E quem viaja muito, provavelmente também já concluiu que viaja para aprender a viajar melhor: rever valores, preocupar-se menos com banalidades, para ter apenas prazeres, para descobrir, para experimentar, pensar, refletir e sobretudo repensar a vida. Também para compreender que quanto mais modestos e reservados, quanto menos nos destacamos, melhores visitantes nos tornamos. Mas há mesmo uma infinidade de outras razões. E muitos viajaram sobre o tema. Eu mesmo acho que vale a pena viajar até para comer shish kebaab na Ásia Central.

               Mas viajar é sempre bom? Não posso crer que seja para quem se declara orgulhosamente "viciado em viajar". É quase uma tradição entre parte dos viajantes que escrevem na Internet declararem-se assim. E nesse sentido tenho ímpeto de dizer-lhes: "Por vício, nunca!". Mas creio que quem se auto-proclama "viciado", das duas, uma: não sabe o que diz (a maioria) ou sofre mesmo de dromomania: mania de vaguear, pendor mórbido à vida errante, compulsão por viajar constantemente. Ou de ecdemomania: impulso mórbido, obsessão em viajar ou passear, desejo compulsivo de perambular longe de casa. Ou fugir de casa. Como toda compulsão, esta também é nociva. E requer auxílio médico. Toda forma de vício é um empobrecimento. Físico, moral e intelectual. Quem viaja pra fugir do cotidiano não está ou não é feliz. E não deveria cometer o erro de  viajar por "obrigação", coisas que os vícios impõem.

               Já não me importo muito com os motivos porque viajar, senão para onde e de que jeito: se depressa ou devagar, pra perto ou pro outro lado do mundo. Mas já estou muito certo de que quanto mais o faço, menos saciado eu fico e maior a lista de destinos que desejo visitar ou rever. Não sou estudioso de relatos de viagens, mas gosto muito de lê-los e escrevê-los. E o que me falta em talento sobra em esforço para compensar a falta. Leio por gosto, mas também para absorver os que escreve quem escreve bem. Dos que inspiram e motivam. E se viajar é algo tão saudável e positivo, se não consigo associar viagens a vícios, se tenho aversão a eles, se sou feliz quando estou no comando dos meus atos, não consigo mesmo imaginar o quanto deve ser terrível a vida de quem viaja pra tentar ser feliz, por qualquer outra fuga ou por vício.

               Se voltar é sempre melhor do que ter ido, se viajar para mim é apenas uma sede cujo prazer é ver saciada, se sou feliz sendo um viajante ativo aos mais de 60 anos, se a cada nova viagem divirto-me mais e melhor, se toda viagem me faz descobrir um pouco mais de alguma coisa, muito mais de algumas coisas e algo mais de todas as coisas, se mesmo gostando tanto de viajar não encontro melhor lugar (e nem mais divertido!) do que o meu lugar (minha casa, minha família, minha doce Emília e as minhas duas preciosidades, os gêmeos Olívia e João, com eles quero muito viajar. Não importa pra onde, desde que para destinos escolhidos. Sobretudo para quando voltar, ter algo sério, útil, positivo e incomum para dizer aqui. Tal qual disseram Juan José Morosoli ("Viagens tornam-se ainda melhores depois que a gente volta") e Antonio Bivar ("Em certos momentos da vida não há nada que faça mais bem à alma que viajar")

                 VIAJAR é bom? Sim, mas só quando voltar é melhor do que ir. E se você, caro leitor, amigo e familiar, chegou até aqui, obrigado! E até qualquer dia!