Porque cometi “twitcídio”.

Posted on 02-14-2012 by Registered CommenterArnaldo Interata | Comments2 Comments | EmailEmail | PrintPrint

                       HOJE cometi “twitcídio” (1). A inspiração na vontade de fazê-lo veio com o comentário de um leitor (2), Igor Leal, no post “De volta a Índia”. Ele também parece enfrentar o desgosto com o mundo dos sites de relacionamentos e a excessiva dedicação à Internet, especialmente ao seu blog (3)

                       Eu detesto o Twitter. Acho-o nocivo. Estou feliz por ter acabado com o perfil do F&F. Sou mais um indivíduo da minoria de “saturados digitais” que felizmente deixa o Twitter e sua deplorável “cultura do curto prazo”. Jamais demonstrei o comum desespero de tuiteiros por audiência e reconhecimento digital. Também não encontrei motivos para usá-lo frenéticamente na divulgação de matérias do blog porque simplesmente geravam traço na audiência. Claro, também jamais sucumbi à nociva prática de postar atividades pessoais que só interessam a mim e não ao voyerismo digital próprio dos sites de relacionamento.

                       Além do mais o Twitter é viciante, faz as pessoas perderem a noção, torna-as reféns da conexão digital, da produção de inutilidades e desconcetadas da realidade presencial, do que é efetivamente produtivo, interessante, saudável e construtivo. Ao contrário, torna pessoas que não eram chatas em chatas, as que já eram chatas em chatíssimas, e todas em desagradáveis. Atordoa, atrapalha, embaraça e desconcentra. Empobrece a linguagem, chega mesmo a idiotizar o jeito como se expressam alguns. É o maior exemplo dos aspectos nocivos de viver o tempo todo na Internet, muitas vezes dedicando mais atenção que à família, aos amigos e ao trabalho. Menos relacionamento virtual equivale a mais qualidade de vida presencial. 

                       Os celulares com acesso à Internet podem ser ótimos para viajantes, mas péssimos quando ficam conectados por vício e mais do que precisam, tiram o prazer de estar presente no destino, não no virtual. As pessoas estão muito ocupadas twitando sobre o momento em vez de realmente apreciá-lo, no entanto deveriam dedicar seu tempo a se às suas viagens sem twitarem, postarem no Facebook e nos blogs, sobretudo, mas também deixarem de lado os SMS e os e-mails.

                       Aquele leitor, além do comentário gentil e simpático - que o identifica com minhas impressões acerca do fim deste blog -  citou em seu espaço o testemunho de outra blogueira, a qual  escreveu um longo, mas perfeito, contundente texto acerca dos excessos de dedicação à vida virtual no  blog La Cucinetta:

Escolher o "caminho analógico" e supostamente mais longo, na verdade, tem sido o segredo para uma semana mais tranquila e uma rotina menos estressante. E de repente eu tenho tempo novamente. Precioso tempo, para fazer o que é importante para mim.” A autora do blog continua, com uma precisão notável, um dos melhores textos que li em blog nos últimos tempos: “Se por um lado o feedback positivo é uma delícia e faz bem para o ego, por outro, a cobrança de gente com dedo em riste dizendo que devo me comportar assim ou assado na internet me faz pensar na exposição e no fato de que ninguém me obriga a aturar esse tipo de coisa. Para não ter essa encheção, basta parar o blog, ou bloquear os comentários. Então pego-me pensando que não posso parar o blog, pois tenho muita coisa a falar ainda. Então percebo que não. Não há nenhuma tecla a bater que não tenha sido exaustivamente esmurrada ao longo desses anos.” 

                       Eu comparo o Twitter a muitas atitudes bizarras. Algo como escrever uma carta a si mesmo. E colocá-la no correio. Ou conversar no elevador com um desconhecido, não do jeito polido que muitos fazem a fim de tornarem o momento desconcertante em algo melhor. Mas como aquele sujeito que toma o elevador no térreo e seleciona o último andar, o elevador pára em todos e a cada um entra um novo passageiro que sairá no próximo e o deixará de novo sozinho. Ele sabe que sua conversa tem que ser curta, pois durará apenas o intervalo entre os dois andares contíguos. Ao chegar no seu piso, o passageiro que sai despede-se aliviado. E a conversa se esvai. “Está chovendo”... Sua cantilena desconserta a quem ouve e o faz contar os intermináveis segundos até chegar seu destino, o próximo andar. É um alívio nos livrarmos do chato prolixo do elevador. Mas para a felicidade do passageiro falante, logo entra outro e de novo ele puxa uma conversa, diferente da anterior, mas igual a todas as demais: supérflua, se esvai em poucas palavras. Assim como os 140 caracteres do microblog. 

                       Acabei com o perfil do F&F no Twitter. Ele já estava morto há meses e na verdade jamais foi muito ativo. Era bem menos chato verificar que não gerava audiência do que entrar naquele mundo de inutilidades, superficialidades e banalidades. Felizmente não entrei na onde de criar um perfil pessoal e torná-lo um bate-papo virtual. Tenho um perfil no Facebook. É pessoal. Jamais terei um do F&F. Até porque este está com seus dias contados. O Facebook me aproxima das pessoas, mas só daquelas que desejo proximidade. Mantenho amigos. De verdade. Nascidos no tempo, na presencialidade, na rua onde morei, nas escolas, na praia, no bairro, no trabalho. São gente que conheço, amigos de fato, parentes e colegas. Quase todos convivi ao ponto de lher conhecer a história, o caráter, a formação e a moral. Sobretudo suas famílias. Não vejo sentido algum em manter contato com pessoas que só tenho contato através do Twitter ou no Facebook. Acho desagradável essa necessidade louca das pessoas conectarem-se às outras mais  pelas redes sociais do que na suas vidas presenciais. 

                       Quando viajo, uso o Facebook para dar notícias resumidas, com cuidado pra não transformá-lo em mais um perfil desagradável, de quem não tem o que fazer e o impregna com mensagens chatas, fotinhas de bichinhos, convites pra algum jogo e todas as chatices afins, tão desejadas e “interesssantes” quando os spans que enchem nossas caixas postais eletrônicas oferecendo relógio falso, a oportunidade de ficar milionário com um dinheiro transferido de Burkina Faso ou uma bomba peniana. Em resumo, detestaria me transformar num camarada carente, chato e sem noção, aparentando não ter ninguém na vida presencial pra conversar, além de ser viciado em conversa de elevador. Não perdi a noção. 

                       Para mim é simplesmente é inacreditável ver pessoas falarem no Twitter de suas vidas pessoais, de suas famílias e filhos como se estivessem na mesa do jantar em casa. Ou então reproduzirem o passo-a-passo de suas vidas num ato de exibicionismo inacreditável pra quem não perdeu a noção. Os sites de relacionamentos tornaram-se uma distração sem o menor sentido para quem como eu acha o tempo precioso, curto e que deva ser gasto com o trabalho, a criação, a produção, lendo um livro, convivendo com a família e amigos, dando um telefonema, uma volta de moto, escrevendo uma carta, um blog não exibicionista ou até um livro. Qualquer coisa saudável em vez de dedicar-se a atividades fúteis e banais, como por exemplo informar que está comprando uma passagem pra algum destino no Twitter. As pessoas perdem sua produtividade por conta do consumo exagerado de sites de relacionamento, perdem seus empregos, desconectam-se de suas atividades e familiares e cortam coisas úteis de suas vidas por causa de seus hábitos digitais.

                      “Pouco a pouco, os americanos, bem como os europeus, restringem a interação on-line e se tornam "espectadores", segundo o relatório Adoção de Mídia Social em 2011, da Forrester Research. Só um terço dos americanos e europeus atualiza seus perfis em redes sociais, Twitter inclusive, toda semana. Já nos emergentes, Brasil entre eles, dois terços dos internautas atualizam seus perfis semanalmente. Nos centros urbanos, três quartos. O relatório visa ajudar em estratégias de negócios, alertando de que "essas tendências apresentam um desafio para o Facebook, conforme se aproxima de seu IPO [oferta pública de ações]". (*4) 

                        Muito tempo atrás, quando ninguém lia o que eu escrevia eu anotava tudo. Bem antes dos celulares tornarem-se smarts permitindo anotações, dos computadores tornarem-se pessoais e portáteis. Escrevia a mão, onde desse e papel houvesse. Depois evoluí prum bloquinho. Acredite, eu o guardo até hoje. Dia desses, vasculhando coisas velhas guardadas numa caixa grandona, encontrei meu bloquinho de viagens. Nem me lembrava mais dele. Ia lançando tudo o que desse na telha, sem qualquer critério, ritmo ou ordem. Mas já naquela época eu tinha noção, não me tornei um desses chatos que passam o dia escrevendo enquanto viajam e publicando no Twitter: “estou no embarque”...”peguei as malas”...”entrei no taxi”... “o café está ótimo”. Enfim, encontrei meu bloquinho e viajei em tantas anotações anotadas mas não compartilhadas. Acho desconcertante ver pessoas que twittam suas viagens inteiras e tornam-se bestas e abobadas. Não entendo o motivo de estarem tão voltadas a mostrarem tudo para os outros o que fizeram durante toda a sua viagem. 

                        Sempre acreditei que viagens são para o deleite. Obrigações são as que se fazem profissionalmente ou a trabalho. Viagens devem ser um prazer suave e demorado para quem as faz. Nada, portanto, justifica permanecer o dia postando os passos de uma viagem num microblog. Todas as viagens podem, e devem, ser compartilhadas, especialmente num blog. Todavia isso não deve tornar-se um infortúnio, muito menos uma chatice para quem quem lê os que perderam a noção, o bom senso e o norte. Pessoas que twitam cada passo de suas viagens são desconcertantes. E despertam minha vergonha alheia como nem mesmo o programa “Mulheres Ricas” consegue fazer. São tão chatas quanto aquelas intermináveis seções de fotografias e vídeos que éramos obrigados a assistir quando algum amigo voltava de viagem.

                        Eu anotava tudo sim, mas de jeito a jamais interferir na viagem, sobretudo a não incomodar quem estivesse comigo. E-mails, quando entrei na era digital em 1996, davam notícias resumidas duas ou três vezes por semana. Eram feitos para dar notícias, e evitavam encher as caixas postais e a paciências de amigos e parentes. Jamais tornaram-se obrigação ou vício, assim como minhas anotações eram pessoais, simples, às vezes filosóficas, outras pensamentos sobre as coisas, as pessoas, culturas. Em geral eram mesmo práticas, como lançar o preço de um jantar, anotar o conteúdo de um cardápio, descrever lugares incomuns e registrar o que seriam possíveis dicas pra os amigos. Enfim, minhas “descobertas” incríveis, ou o que me provodou uma dor de barriga, ou o preço da consulta a um médico que cuidou de um cálculo renal em Veneza, um show, um ingresso, um passeio, um trecho de trem em segunda classe Milão-Veneza-Milão (que custou 63.200 Liras), o preço de dois canivetes suíços que comprei em Lucerna (um por US$ 80,00, completíssimo, outro por US$ 12,00, um chaveirinho), de um Pastel de Belém, frases que vinham à cabeça, impressões e emoções, o nome de alguém, roteiro e distâncias de uma viagem de carro...  Tudo o que interessasse (a mim!) eu lançava ali. Jamais publiquei onde quer que seja e nem o faria. O bloquinho voltou pra caixa depois das lembranças recuperadas e das viagens virtuais refeitas. Mas me fez lembrar do quanto acho estranho as pessoas contarem tudo o que fazem no Twitter, todo o dia e durante todas as suas viagens, o quanto suas viagens tornam-se menos importantes do que falar sobre elas no Twitter. 

                        Depois veio a Internet. E antes de surgirem os blogs, comecei a escrever no Nomad, um espaço destinado à publicação de relatos de viagens, dicas e fotos. Era bem bacana. Algo como o Virtualtourist e o Travelpod.  Era muito bom. Ainda existe, mas parou no tempo, não evoluiu. Entretanto foi ali que desenvolveu-se a idéia de escrever mais e melhor, de publicar o que escrevia num blog. Ganhei um prêmio pelo terceiro lugar como “Melhor Relato de Viagem”, concurso cujo juri era composto por Arnaldo Niskier, entre outros entendidos do assunto. Na época havia apenas os fotoblogs, os diários adolescentes. Seis anos depois eu inaugurava o Fatos & Fotos de Viagens, que em março de 2012 completará também 6 anos e mais de 6 milhões de visitas.

                       Hoje continuo viajando. Tanto quanto posso, mais do que preciso e menos do que mereço. Escrevo como nunca. Minha inspiração para escrever tem andado na direção oposta ao desejo de publicar. Talvez um livro, quem sabe um dia?

                       Ei, você aí! "tuíte" menos e viva melhor! (ou então faça alguma coisa útil e interessante no Twitter)

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(1) Expressão que surgiu depois de “orkutcídio”, que equivale a encerrar seu perfil no Orkut, neste caso, no Twitter. Mais e mais pessoas cometem “twitcídio” diariamente, por diferentes motivos, mas com as mesmas razões: encheram o saco do vício. Entre elas, William Bonner, que parecia se divertir muito com a chatice, acordou e percebeu que deixava de viver coisas muito mais interessantes na vida por dedicar-se a produzir textos pro Twitter. Assim como o Orkut, a banalização será o apocalipse do Twitter, o fim do “reino dos 140 caracteres” e a evasão dos miguxos.

(2) “Arnaldo, é por posts como esse que seu blog não pode acabar! Textos cheios de emoção, de amor pela vida e pelo amor da sua vida que nos fazem refletir: quero viver e não sobreviver! Que o Carnaval chegue logo!”

(3) “A pulga atrás da minha orelha é se os amigos ficam satisfeitos só com o que veem aqui e, por isso, o contato pessoal com eles dimiuiu tanto nos útlimos tempos... Eu sei, eu reconheço a minha parte da culpa, porque ter 2 filhos, tentar educá-los de uma forma razoavelmente bem, trabalhar normalmente e ainda viver a vida lá fora? Não dá para fazer 100% tudo!” Em “Sumiço”, no blog Di Grávida.

(*4) publicado na Folha de São Paulo - http://www1.folha.uol.com.br/tec/1040056-cresce-debate-sobre-aspectos-nocivos-de-viver-o-tempo-todo-na-internet.shtml 

De volta à Índia 

Posted on 02-1-2012 by Registered CommenterArnaldo Interata | Comments6 Comments | EmailEmail | PrintPrint

                     CARNAVAL em Varanasi, Sarnath, Khajuraho e Delhi

                     TEM dias que a gente se sente bem, noutros mal. Eu me sinto sempre bem. Sou privilegiado, sei bem o que é isso. Mas não me surpreendo que minha vida tenha sido assim, melhor a cada dia. Ainda bem! O dia em que eu me sentir verdadeiramente mal, acho que será pra sempre. Se assim for, espero que seja quando a morte chegar.

                     MAS ei, alto lá!, Dona Morte! Fique sossegada por aí. E respeite a fila! Não tenho pressa, não tenho vontade de morrer, não vou me entregar por gosto à senhora. Tudo à sua hora. E mesmo assim, quando o fizer, será a contragosto. Não se preocupe, não perca tempo tentando convencer-me, já sei que meu dia há de chegar, e com ele a senhora virá. É inevitável, mas ainda há tanto pra ver e fazer... Dá pra senhora esperar meus cem anos? Façamos um pacto: a senhora espera e eu prometo: que vou, não com gosto, mas sem fazer força. Tenho ainda muitas viagens por fazer, umas empresas pra tocar, quero ter mais um herdeiro, ainda não tenho um neto, enfim, preciso ver as minhas e as outras crianças crescerem.

                      MEUS cabelos começam a ficar brancos, minha pele já enruga, ainda que discretamente, e minha saúde é excepcional. Mas minha doce Emília assim mesmo pediu ("quero que viva até os cem!"). Então, prometi, e promessas eu pago: vou cuidar ainda melhor de mim! Juro por mim! Afinal, se tudo é para continuar vivendo mais dias ao seu lado, ainda por cima melhor a cada dia, como já tem sido, eu prometo, juto que prometo... Se for pra acordar cada manhã olhando você, pra dormir cada noite tocando a ponta de seus dedos, esperando que o sonho seja contigo, prometo, eu prometo, já disse. Farei o que pediu. Mas não por vaidade, que já não me cai bem, mas investindo mais tempo no Dr. Mauri, visitando prontamente o Dr. Luiz Armando quando sentir aquela dorzinha esquisita, pra não faltar a nenhuma aula com nosso personal. Prometo também (como adoro prometer coisas fáceis de cumprir!) fazer nossas caminhadas deliciosas todas as noites apreciando a bela paisagem de nosso condomínio, me encantar mais vezes com a escandalosa vista que invade nosso apartamento, curtir mais a simplicidade de colher jaboticadas de nossa varanda e comer ainda mais saudavelmente do que já fazemos, ser ainda mais cuidadoso conduzindo minha Harley Davidson. Só não prometo uma coisa: ser mais feliz, porque isso não dá, nem com duas de você. Uma Emília já me basta. A continuar assim, eu vou morrer, mas é de amor.

                      EU não acredito em karma, nessas coisas de “pagar” por ter vivido uma vida tão feliz. E já que não sou religioso nem místico, reflito sobre a “sorte”, ou a falta dela, da maneira mais realista, como afinal tenho a sorte (êpa!) de enxergar o mundo e a vida (ôba!): simplesmente como eles são! E já que não acredito em sorte nem azar, tudo torna-se muito simples: não penso nelas, e pluft!, elas somem!

                      COM a idade as pessoas começam a olhar para a morte e acreditar que a vida não acaba com ela. Sempre preferi desconfiar disso, severamente. E o fiz ainda moleque. Já aos 18 acreditava piamente nisso. E já que então só se vive uma vez, comecei a me dedicar a viver intensamente, não para me esgotar dela, a vida, mas para seguí-la em acordo com o que eu sempre acreditei que seja "viver com intensidade": dignamente, abusando do bom caratismo, com moral e respeito pela vida, pelas pessoas, pela natureza e pelos animais. Sem buzinar, sem avançar o sinal, dando preferência, dizendo "bom dia" e abrindo a porta para as pessoas passarem antes de mim.

                       TENHO coragem de dizer que sorte e azar são coisas do demo. E que não acredito em demo, mas em probabilidades e oportunidades, na ciência, na medicina, no aprendizado, no esforço e na dedicação. Que há homens que lutam anos, e são bons. Que há homens que lutam muitos anos, e são muito bons. Mas que há os que lutam toda a vida, e estes, os imprescindíveis (*). Que o demo só vive na mente dos que acreditam nele. E que quanto mais se acredita nele, mais se escravisa a ele. Como também não acredito em demônios, anões de jardim, Saci Pererê (a não ser o do Ziraldo!), Mula sem cabeça, Curupira, alma deste, do outro ou de qualquer mundo, estou certo mesmo que o que colho hoje é fruto do que plantei ontem. Nada mais. Sou fruto, resultado de como vivo a vida. Pra mim é fácil (e útil) levar a vida acreditando na vida como ela é, não como tentavam pregar que fosse nas aulas de catecismo. Quanto melhor a vivo, quanto mais respeito dedico às leis, às instituições e à ciência, quanto mais dignidade e caráter demonstro, quanto maior respeito dedico ao próximo e aos que me respeitam (especialmente aos menos favorecidos e os mais humildes), assim como à natureza e aos animais, melhores, maiores e mais saborosos são os frutos que colho. E me recordo bem do dia em plantei a sementinha da árvore que hoje me dá esses frutos.

                     QUANTO mais me afasto de pessoas más, tacanhas, invejosas, intrigueiras, quanto mais as ignoro, quando encerro ou não inicio relações com gente que não quer legitimamente bem a nós, quanto mais invisto no oposto, melhor sigo a vida. E ela me retribui. Na proporção inversa e direção oposta, mais curta à felicidade e ao sucesso. Quanto mais me dedico a quem efetivamente é amigo - de familiares a sócios, de colegas de trabalho a empregados - e dos que torcem francamente por nós, mais e do melhor eu colho. 

                      PARA mim, viver bem a vida não deve ser uma tentativa fútil ou vã, mas efetivamente dedicada, um desafio, algo como admirar e espelhar-se em pessoas em paz e que promovam a paz, as abertas à aceitação dos outros, as que evitam conflitos, que abominam críticas ás outras, a relacionamentos interpessoais de qualquer natureza, as sem preconceitos raciais, sociais e sexuais, as que não julgam porque reconhecem sua incompetência, as que não aconselham sem que as peçam conselhos, as voltadas mais ao que está acontecendo na vida do que a si mesmas, especialmente às que fazem algo - por mais singelo que seja - para amenizar as desigualdades sociais.

                      FILOSOIAS à parte (desculpe, caro leitor, só agora me lembrei que elas interessam bem pouco aos leitores de um blog de viagens!). Faz tempo que não perco tempo vivendo o tempo todo na Internet, especialmente escrevendo inutilidades, futilidades, bobices, frivolidades e asneiras. Uso-a para coisas úteis e meus computadores para a criação de ciosas positivas, bonitas, úteis, construtivas, maduras e sobretudo para valorizar o que merece valor.

                     Mas hoje estou me sentindo especialmente bem e feliz: assistimos dia desses à exposição ÍNDIA!, no Centro Cultural Banco do Brasil. Para além de ter sido a maior mostra do ano de 2011 no CCBB, que encerrou-se em 29 de Janeiro de 2012, foi uma deliciosa oportunidade de mergulhar no país mais fascinante do planeta. Através de 300 peças distribuídas em mais de 18 salas, fizemos um passeio pelo que há de milenar e contemporâneo no subcontiente indiano. Mas o fato maior de termos gosta tanto da exposição foi a chama que nos reacendeu, pois dali a quinze dias estaríamos embarcando para nossa segunda viagem à Índia. Desde aquele dia contamos todos os que faltam até nosso embarque, vivemos a deliciosa sensação de saudades daquilo que em breve encontraremos.

                      ESTAMOS indo para a Índia que nos arrebatou desde a primeira viagem, em Outubro de 2010, ao Rajastão e a Delhi. E lá vamos nós de novo com o bom humor e o entusiasmo que sempre nos acompanham em nossas viagens. Desta vez iremos exercitar nosso voyerismo explícito na erótica Khajuraho, espiar a morte (êpa!) em Varanasi, visitar Sarnath e rever a inesquecível Delhi. Terminaremos a viagem no caos de Katmandu, Nepal. Estamos fugindo do espetacular Carnaval do Rio de Janeiro e à espera de emoção na veia.

                       NÂO esperamos nada mais do que reencontrar a emoção e a felicidade que marcaram nossa primeira viagem à Índia, que de novo nos surpreendamos nos templos eróticos de Khajuraho, penetrem em nossas veias em Varanasi e nos sigam até Katmandu, Nepal. A Índia ainda nos chama. E nós ainda a ouvimos.

                       ENTÃO, vamos passar o Carvanal na Índia. Até lá, e ainda lá, daremos notícias. Carinhos a todos, beijos nas crianças.

(*) Bertolt Brecht

 

Cuba - Havana e Santiago 

Posted on 01-7-2012 by Registered CommenterArnaldo Interata | Comments6 Comments | EmailEmail | PrintPrint

 

 O Cortiço

                       MAIS do que toda história, cultura e hospitalidade, a verdadeira glória de Havana está na sua pobreza. A maior atração de Cuba é testemunhar as conseqüências da Revolução de 59, do comunismo e sua derrocada, do embargo comercial, do fim da União Soviética e os efeitos da falta de tudo. Paraíso para fotógrafos, Havana tem nas suas construções encapsuladas no tempo, sob os efeitos de meio século de erosão, corrosão e pobreza, resultados tão degradantes quanto fotogênicos. Nossa motivação foi explorar a arquitetura glamurosa e intocável e não os resorts da ilha e seu mar. Foi assim que Cuba se revelou para nós, exibiu toda sua dimensão, sua incrível música, sua gente encantadora, seu patrimônio histórico.

 

                      Tem de tudo na ilha. Se você gosta, Cuba pode ser apenas um destino de praias azuis como tantas outras caribenhas, com  resorts berm razoáveis nas cidades de Varadero e Cayo Largo. Todavia, se procura pela herança comunista comece em Havana e visite Trinidad, Santiago e Cienfuegos. De todo modo, tudo começa em Havana. 

  

   Num cortiço de Havana convivem dignidade, pobreza e glória do passado

                        Fruto de uma clausura de 53 anos imposta pela revolução de Fidel, Cuba é o último, curioso exemplo de estado socialista ocidental no mundo. Foi a falta de tudo a responsável por trazer intacto ao século 21 todo seu patrimônio arquitetônico, tão grande quanto a própria cidade, ao menos aos olhos turísticos. O imponente conjunto de prédios de elevado valor estilístico, congelado no tempo, guardado nos limites de um muro político virtual, largado à própria sorte, é para além de um deleite fotográfico, um fabuloso patrimônio da humanidade. Tudo foi protegido e resguardado das marretas da modernidade, pela falta de desenvolvimento, de recursos, da impossibilidade de trocar o velho pelo novo e do desleixo. Desgastado o original, ainda vislumbra-se sua beleza extraordinária e arrebatadora.

  

Grande Teatro Nacional, Havana     

                       Havana é surreal. As curiosidades e contradições são gigantescas, das mais românticas às mais penetrantes. Como por exemplo a onipresença de Ernest Hemingway e Che Guevara. O americano (cuja estátua de bronze do “Papa”, em tamanho natural ocupa seu lugar favorito no balcão do bar La Floridita, onde ele e um bar-man inventaram o famoso coquetel daiquiri) divide com o argentino Che Guevara, o libertador Jose Martí, e os revolucionários Camilo Cienfuegos e Fidel Castro a mesma importância e reverência. Ambos os bares - Bodeguita del Medio e El Floridita - mostram em seus letreiros de fachada que são casas preferidas por Hemingway, a primeira “mi mojito en la Bodeguita", e a segunda "mi daiquirí en El  Floridita”.

 

                       Ou, então, que quase toda sua suntuosidade mantém-se virgem, inocente e em evidente decrepitude. Mas mesmo assim, suja, abandonada e desleixada, a cidade é gloriosa, uma rara oportunidade turística, cuja autenticidade, realidade social e econômica tocam na mesma proporção o coração, os olhos e a mente do visitante.

      

                         Saímos felizes de Cuba, orgulhosos por conhecer seu patrimônio, sua cultura e sua gente tão incrível. É possível que alguns mais sensíveis, a meu exemplo, saiam deprimidos de uma visita à nação, especialmente ao saberem que 85% do povo trabalham para o estado, recebem salário mensal de 20 dólares, uma cesta básica sem sabonete e pasta de dente e que vive em crise permanente há 53 anos. O regime populista, o socialismo de estado e o nacionalismo anti-imperialista estão profundamente arraigados na população, e levam o visitante à permanente convivência com as duas Cubas, contraditórias como só elas: a dos dólares turísticos e a dos pesos nacionais, a da dualidade econômica que sustenta um mercado miserável de lojas vazias de gente e de produtos, a de péssimos serviços de transportes, de hotelaria e de alimentação, a do mercado negro de diversos produtos secundários e de primeira necessidade, a de produtos roubados do estado, a de contrabando de objetos de luxo e de arte, entre tantas mostras de uma realidade que incomoda, mas da qual não se pode fugir.

  

                         Esplendorosa e fechada para o mundo, Havana vive hoje seu maior dilema: o que virá com o fim da Era Fidel e de sua Revolução? O que será desse brilhante museu ao vivo, cujas obras estão expostas ao ar livre e concentradas nos limites de Habana Vieja e Habana Centro? O que ocorrerá com as incríveis fachadas em estilos tão belos quanto diversos, cujos desenhos brilhantes vão do colonial ao art-deco, do modernismo ao eclético, do art-nouveau ao mourisco?

  

                         É uma questão inexorável de tempo. Como em Berlim, mais um “muro” cairá. Com ele uma enxurrada de novidades, de liberdade e de descobertas. Tudo poderá acontecer mas nada se pode afirmar. Aposta-se que no máximo em dez anos o país volte a ser aberto e torne-se de novo um quintal caribenho norte-americano. Seja lá como for, não escapará do dinheiro acumulado nos bolsos de exilados cubanos enriquecidos em Miami - um quinto da população do país - numa abundância que jamais se experimentou na ilha, nem mesmo na terrível era Batista. O fim da Era Fidel trará de volta os gusanos, “vermes” burgueses exilados na Flórida, e toda sua riqueza material acumulada em mais de 50 anos.

   

                        Cessará então o embargo americano e Cuba começará seu justo processo de enriquecimento e desenvolvimento. Todavia não se pode negar o risco de tornar-se mais um país sem personalidade, como tantos outros vizinhos caribenhos. Mas a alguns, ainda que perca autenticidade e exotismo, reconfortará saber dos ganhos positivos: liberdade e progresso. Assim que cair mais uma ditadura violenta e atrasada no mundo, um povo com liberdade e oportunidades surgirá. Mas é preciso visitar Cuba logo, para que se registrem em fotos, em textos e na posteridade da memória toda sua incrível autenticidade. Para os brasileiros, visitar Cuba significa viver uma assombrosa simpatia, admiração e hospitalidade, ainda mais encantadora quando nos dizem: “Amamos suas novelas, nós amamos suas novelas!”

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Turismo, a nova revolução cubana

                       Cuba tem um charme incomparável, especialmente se posta ao lado de todos os outros países caribenhos. São mais de 400 anos de domínio espanhol, de personalidade, de cultura e de legado arquitetônico, cujo povo tem costumes atraentes, tradições do açúcar, do tabaco, do rum, da música e da dança, e onde riquezas naturais litorâneas e de montanha enchem os olhos de quem visita a ilha. Entretanto, esteja certo, é a cultura da Revolução que torna a ilha uma jóia rara do Caribe, a preciosidade do mundo e um dos países mais genuínos das américas. Para todo o mundo, especialmente para nós brasileiros, deve tornar-se um destino dos mais populares, como tem sido para cerca de 3 milhões de turistas por ano.  

   

                         Todavia, hoje dói verificar os efeitos da nova revolução: quase tudo é estatal e muito pouco do dinheiro turístico circula entre o povo. Muitos profissionais liberais deixaram seus ofícios como médicos, enfermeiros e professores para trabalharem no crescente setor turístico, a nova revolução cubana, sua única táboa de salvação. Mas o turismo é apenas mais um dos contrastes do país: promove uma economia desequilibrada e traz conseqüências inimagináveis. Minha impressão pessoal do país foi comparável a uma ligeira depressão.  

  

                          Por enquanto, a “jóia rara do Caribe” ainda está parada no tempo, naquele bem diferente que roda no resto do mundo, exposto nos outdoors de McDonalds, Starbucks e shopping malls. Não há anúncios comerciais. Cartazes, só mesmo os revolucionários, ou estatais, alguns tão ingênuos e exóticos quanto defasados na ideologia e no tempo. Por isso Cuba precisa ser visitada enquanto permanece assim, autêntica e congelada, e antes que torne-se um destino bate-e-volta de Key West, antes que acabem-se os paladares - restaurantes privados dirigidos por famílias cubanas -, e “hospedagens familiares”, dois tímidos exemplos de empreendedorismo da “nova” Cuba de Raul Castro. É possível que a “nova revolução” elimine o desconfortável contraste entre nós - que vivemos tão bem - e eles, que vivem tão mal.

  

Camilo Cienfuegos e Che Guevara    

                       Fomos a Cuba aproveitando o feriado de Natal e Reveillon, para comemorarmos meu aniversário e para conferirmos as novidades desta nova revolução cubana. Fomos para entender Cuba com uma visão pessoal, para nos divertir ouvindo rumba e son, guaracha e mambo, para dançar salsa, beber mojito e daiquiri, para fumar uns Cohibas (*) e passear por Havana e Santiago de Cuba. O tempo foi pouco para tanto o que há para ser visto, e ao fim deixou o desejo de voltar para conhecer a ilha de ponta a cabo: Trinidad, Topes de Collantes, Cienfuegos, Santa Clara, Pinar del Rio, Gran Piedra, Vinales, Soroa, Baracoa, e, quem sabe, até mesmo Varadero e Cayo Largo. Talvez até antes de Cuba voltar a ser um parque temático norte-americano e de se instalar o primeiro McDonald's.

 

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(*) Um Cohiba custa R$ 100,00 a unidade no Brasil e R$ 10,00 em Havana, na Partagas!

                         Esta viagem foi a realização de um desejo antigo de três pessoas que estão felizes por terem ido, por voltarem ainda melhores, que viveram mais uma esplêndida experiência em viagens. Viajamos com emoção, o que tem sido comum entre nós, talvez pela maturidade, experiência e pela boa sorte na escolha dos destinos. Saímos intrigados, permanecemos encantados, voltamos fascinados. Faltam competência e tempo para expressar o privilégio de ter rompido o ano em Santiago de Cuba, de comemorar meu aniversário em Havana e de compartilhar esta viagem com minha doce Emília e sua dulcíssima mãe, Mariliana. Só me resta dizer: muitíssimo obrigado, Emília, Mariliana e Cuba!

                        Veja também o apaixonante relato e as boas fotos da Emília no seu blog A Turista Acidental, com o título "Simplesmente Havana".

                        Hasta luego!

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