CONHEÇA O AUTOR

          

         Depois de estabelecer-se na Internet desde 1999 escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema e, depois, em 2006, ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - foi convidado a colaborar com matérias suas publicadas na Revista Viagem & Turismo (Editora Abril). Agora, Arnaldo prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando na literatura com um livro encantador que, segundo o autor, é o primeiro de uma série.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui neste blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de uma conversa com o leitor, baseada na informalidade, no livro misturo traços desta coloquialidade e informalidade com uma escrita literária, sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que - de certa forma e por outro lado- é outra maneira de me expressar sobre minhas viagens, transmitindo sem fantasias o mundo que vejo - como ele é, não como o imaginava -, ainda que a leitura revele expectativas muitas vezes não confirmadas sobre o destino. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, ‘Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro’.  A partir deste primeiro livro, considero esta uma nova fase na minha vida."

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo Trindade Affonso é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti 2013 na categoria Reportagens

Ronize Aline:

            "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária e crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista passou pelas redações das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

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Quinta-feira
Mar092017

Vem aí o PRIMEIRO livro do Fatos e Fotos!

Capa

 "Da primeira hora à despedida, o relato de uma encantadora jornada de norte a sul pelo país"

 Apresentação

Rachel Verano e Davi Carneiro

Sinknesh Ejigu

(Embaixadora da Etiópia no Brasil)

Prefácio

Haroldo Castro

 A grandeza desta viagem  ___________________________________________

          Desde quando me explicaram, lá atrás na minha vida, que nos versos do Pessoa - “Navegar é preciso, viver não é preciso”(*) - o preciso significava de precisão, exatidão, comecei a questionar, porque "preciso" também pode ser a falta de algo necessário. Então, isso de navegar, de viajar, de sair por aí, marcou-me como algo a ser feito, independentemente de planejamento e sem a certeza do que vai se encontrar.

           Quando o Autor, amigo de muitos anos, me mostrou esse texto acompanhado das fotos, ambos ficamos sem saber o que fazer. Dois livros? Um com texto e outro com fotos? Três? Sendo um apenas com texto, outro com fotos em estilo reportagem e um terceiro só com as coloridas e textos bem curtos, excertos do livro principal? As dúvidas nos acompanharam por bom tempo. Nos pusemosa pensar e a conversar, até que encontrarmos a solução: este livro aqui! Um misto dos três, pois o que tínhamos nas mãos era algo híbrido. 

           O que resultou foi um livro com texto muito bem escrito, cuja visão cheia de humor e inteligência do autor - um viajante “bem viajado” - e fotos muito, muito boas, de quem quer mostrar não seu rosto na paisagem, mas a paisagem que seu rosto viu, e o que viveu e sentiu, com uma grande quantidade de fotos “reportagem”, tiradas no calor do momento, para ilustrarem o texto, como um relato instantâneo do que acontece na leitura.

           Então, para começar a aventura de publicar um livro como este, escolhemos colocar o texto permeado de fotos em preto e branco situando o momento vivido. No final de cada região visitada no paós, especialmente o Norte e o Sul, fotos coloridas, estas mais bem pensadas, emocionantes, relacionadas com o que acabou de ler da trajetória desta viagem precisa e imprecisa, por este país tão desconhecido e fascinante que é a Etiópia.

           Sugiro ao leitor ler de uma vez. E depois, com calma, voltar e apreciar novamente. Tanto as fotos em preto e branco quanto as coloridas. Assim, você vai sentir e viver a viagem como se a tivesse feito junto ao autor. E, provavelmente, também apreciará um povo gentil e cheio de cores do país berço da humanidade, que por vezes parece, estar vivendo ainda numa doida pré-história e armada até os dentes.

           Você vai viajar, sorrir, apreciar este livro. E torcer para que outros livros venham.

 JP Veiga

O Editor

 (*) "Navegar é preciso, viver não é preciso", na verdade foi dito originalmente por Pompeu.  "Navigare necesse; vivere non est necesse" - em latim, foi uma frase dita por Pompeu, general romano (106-48 aC.), aos seus marinheiros, que amedrontados, recusavam-se a viajar durante a guerra. (cf. Plutarco, in Vida de Pompeu)

 

Contra-capa

 

Quinta-feira
Mar172016

De Kerman a Yazd, uma "aventura" no deserto iraniano

Uma luz na escuridão

                        "VIAGENS são como o amor, quanto mais longe vamos, mais recordações nos deixam". Há quem relacione as viagens a muitas coisas, inclusive ao amor. Creio que porque quanto mais incomuns, especiais, aventureiras e para lugares mais distantes, melhor elas registram-se na lembrança. Assim como amores passados, que para alguns voltam da memória aos flashs. Para outros, assim como para mim, algumas parecem não ter terminado, tal a sensibilidade com que ficaram na lembrança e a freqüência com que costumam voltar dela.

                        Por vezes são tão doces, ternas e felizes as lembranças que é natural costumarem associá-las ao amor e a amores antigos. Se para mim, contudo, das viagens é comum lembrar-me com romantismo, assim como delas falar, estou certo de que foi por tê-las feito com minha doce Emília. E para minha felicidade, suas recordações "voltam" apenas quando estou acordado. Do contrário eu as deixaria vaguear por meus sonhos ao acaso, não se tornariam relatos para contá-las aqui. Foi o que me ocorreu hoje com Yazd, a mais Mil e Uma Noites das cidades que visitei no Irã.

   Como saída de um conto...

                        Uma luz na escuridão. Ainda hoje parece. Ou sacada de um conto. O mesmo oásis rodeado de deserto porque tanto esperavam chegar os caravaneiros da Rota da Seda. Longe de ser uma Samarkanda, é claro. Provavelmente nenhuma outra seja mesmo mais espetacular em toda a rota. Contudo, é um dos lugares mais atraentes de uma das viagens mais enriquecedoras que se pode empreender. No Irã, Yazd era um dos pontos essenciais da Rota da Seda. Em outros tempos, os viajantes caravaneiros lidavam por dias consecutivos com o terrível deserto. Chegar a Yazd era um prêmio precioso depois da árdua jornada. É claro que uma viagem rodoviária nos dias atuais, mesmo que por parte dos caminhos originais daquela rota antiga de comércio, não são nenhuma aventura, mas dão uma tênue idéia do que teria sido a espetacular empreitada.

Tal qual os caravaneiros de outrora, os viajantes de hoje anseiam chegar a Yazd

                      Tive empatia imediata com YAZD. E ao lembrar-me dia desses, também me ocorreu não tê-la abordado aqui. Talvez porque tenha sido ao Irã, país que não me encantou como eu imaginara. Ou como devia. Ou como eu sonhava que pudesse ser. Yazd, todavia, foi a única cidade com a qual senti empatia imediata. Especialmente porque empatia não foi exatamente o que aconteceu entre mim e o Irã

É improvável associar romantismo a qualquer lugar no Irã. Ainda assim Yazd é a mais romântica.

                         Até conhecê-la eu acreditava que "empatia" fosse uma reação psicológica apenas entre pessoas. Nunca entre pessoas e coisas ou lugares. Já relações apaixonadas, sim, pareciam-me bem mais comuns. Ah, como me apaixonei por tantos lugares e países diferentes.... Algumas cidades e lugares fixam-se de tal maneira especialmente que sempre ao relembrarmos é com saudade doída. Como amores que se acabam. Grudam na lembrança e ali permanecem "vivendo" para sempre. como amores antigos resistindo ao tempo e aos novos amores. Haja o que houver.

Masjid-e Jame. 800 anos de elegância e grandeza arquitetônica e ornamental persas

                         Dia desses eu me recordei da viagem entre Kerman e Yazd pelo deserto iraniano. Foram doces lembranças de 365 Km e 5 horas e meia de momentos curiosos, de experiências singelas e de vivências marcantes. Então resolvi contá-las aqui para você. Escrevi um post do jeito que fotografo: revelando meu modo de olhar, me deliciando com as recordações, sentindo um prazer imenso ao transmitir ao leitor o que vi e senti. Vamos lá?

Museu da Água, Yazd. O sol do deserto fazendo das suas

Cuidado com Camelos   ____________________________________________________________

                       365 quilômetros, muitos dos quais na velocidade máxima de 50 Km por hora e muitas placas “Cuidado com Camelos” separam Kerman de Yazd. Foram cinco horas e meia a bordo de um IKCO Samand pela autoestrada que corta o deserto central iraniano. Sob sol e o céu tingido da cor da terra levantada pelo vento. E também de doces lembranças das paradas inusitadas e suas experiências curiosas. Como os chás com biscoitos, como a melancia fresca, servidos no capô do carro em cada parada. Não sei ao certo quantos quilômetros faltavam para chegarmos a Yazd quando paramos pela primeira vez no acostamento do desertão. O motorista desceu do carro, abriu o porta-malas, tirou dele uma melancia inteira e começou a parti-la.

O Sr. Majid e a melancia no deserto

                         Com precisão cirúrgica, a despeito de seu instrumento: uma pequena, simples faca de cozinha. Depois de fazê-lo, nos convidou a saboreá-la. Servimo-nos das fatias, perfeitamente cortadas. Deliciosas. Refrescantes. Postas num prato sob a lataria do Samand.

    

                       Houve outras paradas, mas nem todas tão inusitadas. Como as para ida aos banheiros. Nada confortáveis, especialmente para as mulheres. Ainda assim, se para a mulher ocidental o Irã é um país duro, especialmente pela obrigatoriedade do uso do lenço em 100% do tempo sobre a cabeça, e de roupas que cubram dos pés ao pescoço, os banheiros iranianos são o menor dos problemas. Afinal, conhecemos bens piores na Etiópia, no Uzbequistão e no Quirguistão.

A despeito do Irã ser duro com as ocidentais, ao menos não as obrigam a usar abayas

 

                        Só uma das paradas não valeu, ainda que a simpatia e o prazer do Sr. Majid em servir-nos fosse notável e cativante. Ele me fez atravessar a rodovia de duas pistas para cada sentido, pular um guard-rail central, cuidar-me para não ser atropelado por pesadas carretas, e comprou-me um sorvete de casquinha. Foi o pior que já provei na vida. Dulcíssimo, artificial, gordurento, feito de pó misturado com água e de perfume enjoativo. Mas oferecido como se fosse uma iguaria, a experiência valeu como se tivesse sido mais delicioso que um Häagen-Dazs de puro chocolate belga meio amargo.

  

                       Como se diz, o Sr. Majid era um fofo! Mais do que educado, gentil ou discreto, de uma amabilidade personificada num iraniano típico, de cerca de 60 anos, já aposentado, como nos dissera no seu pobre inglês, ganhando seu dinheiro com aquele serviço a fim de complementar a renda que a aposentadoria não dava conta. Tornou-se além de um motorista cuidadoso, condutor de nossas vidas no Irã, inesquecível companheiro de viagem por todo o país. Eu me sentia o Rei da Pérsia com o Sr. Majid.

A sorveteria era ali, do outro lado da autoestrada, naquele toldo vermelho

                        Mas devo dizer que não apenas por ele, mas por todas as pessoas que tive o prazer de conhecer e conversar, que me fizeram reconhecer no povo iraniano o melhor patrimônio do país. De quem trago as melhores recrdações do país. Todavia, foi com o Sr. Majid - motorista que nos acompanhou por toda a viagem ao Irã, num roteiro sem guia e autônomo - que compreendi a extensão do que significa a palavra "hospitalidade". Tanto que se um novo sinônimo precisasse ser criado para a palavra, o melhor seria "Irã". Foi tudo o que faz de nossa jornada ao país algo tão extraordinário que até mesmo a história e um patrimônio fabuloso tornarem-se coadjuvantes diante das relações humanas.

                       Paramos outras vezes. Para descanso dele e nosso. Preparava-nos um delicioso chá, sacando de seu porta-malas uma garrafa térmica com água quente, saquinhos de chá, um pouco de açúcar para quem quisesse, e servia-nos a bebida em copos de papel. Tudo providencialmente trazido e estocado em seu Samand. Colocava-os sobre o teto do carro e curtíamos um momento tão singelo quanto especial, saboreando um chá iraniano quente no meio do deserto idem. Já não me surpreendia o que o Sr.Majid tirava de dentro daquele porta-malas. De melancias a biscoitos, de frutas a doces, de chá a copos de papel, de guardanapos a talheres, de garrafa térmica a de água mineral, de pratos plástico a outras frutas. Fora a sua e a nossa bagagem. Mas sim a delicadeza de nos presentear algo que possivelmente era custeado por ele. 

Zein-O-Din, o caravanserai


                        Pouco antes de chegarmos em Yazd, fizemos a última parada, a mais surpreendente de todas. Foi no Zein-O-Din, um caravanserai original com 400 anos de idade convertido em hospedaria. Era tudo o que eu precisava para ilustrar as viagens de caravana através da Rota da Seda e da época de Marco Polo. A visão concreta do que eu lera nos livros de história estava ali à minha frente. E poderíamos até passar a oite nela, se assim quiséssemos. Uma parte importante da história que foi meticulosamente restaurada, transformada em hospedaria com simplíssimos quartos separados por cortinas, equipados com colchões sobre plataformas e dispostos ao redor de um pátio central, além de um banheiro coletivo e uma área para comida. Tudo muito atraente. Do telhado é possível observar as estrelas dum jeito que só se consegue no meio do deserto. A parada valeu o tempo de viagem estendido e deixou uma enorme vontade de dormirmos ali. 

Sr. Majid , o fofo em Yazd trocando ideias com minha doce Emília

                       A despeito de tudo isso, devo admitir: meus primeiros dias Irã até então não me surpreenderam como aquele. A não ser pelo Sr. Majid - o fofo -, faltava alguma coisa. Ou muitas, não sei ao certo. Mesmo que tudo tenha corrido em perfeita sintonia, em acordo com o que compramos e planejamos, sem qualquer contratempo. Sobretudo desde a primeira hora, sentindo-nos tranquilos e felizes com a receptividade iraniana, aquela a que se referem invariavelmente os estrangeiros que visitam o país, que ao final da viagem os faz custar lembrarem-se de outro com igual receptividade. O iraniano é tão genuinamente acolhedor que qualquer encontro casual pode transformar-se num memorável momento. Como foram muitos que experimentamos. Acontecimentos e fatos que nos fazem pensar que se há coisas em viagens que se revelam apenas quando estamos no país, que só entendemos estando lá, mesmo já tendo lido sobre a memorável receptividade e acolhimento dos iranianos, esta é uma realidade que sempre surpreenderá.

Templo zoroastra Atashvadeh-e-Zartoshtian, em Yazd

                       Mesmo que uma viagem ao Irã seja algo permanentemente recheado duma autenticidade rara, de história estonteante numa terra das mais antigas religiões do mundo - o zoroastrismo -, também da veneração ao oitavo Imam dos xiitas e de mais de dezesseis lugares inscritos no Patrimônio da Humanidade, onde encontram-se as mais impossíveis paisagens que podemos imaginar, que seja um destino ideal, uma viagem dos sonhos que boa parte dos viajantes um dia espera  fazer. 

  As belíssimas torres gêmeas de Yazd, os minateres da Masjid-e Jame, a Mesquita de Sexta-feira

                         O problema estava comigo. Mas não era um "problema" de fato: eu havia visitado antes o Uzbequistão. E ainda que aPérsia sempre tenha figurado entre as mais importantes civilizações da história da humanidade, passado dos elamitas aos aquemênidas, pelo brilho de Ciro o grande, por Darío I de Persépolis, por Alexandre o grande e sua "helenização" da Pérsia, pelos sassânidas, pelos árabes e a consequente introdução do islamismo, pela expansão do alfabeto farsi, pelas tropas do mongol Genghis Khan e depois pelas do sanguinário timúrida Tamerlão, o líder turco-mongol que assassinou milhares para fundar um império gigante, todavia foi quem trouxe à Pérsia os novos ares e idéias, os novos projetos e construções até então vistas apenas na brilhante Samarkanda, Uzbequistão. Nascido em 1336, numa região chamada Transoxiana, no atual Uzbequistão, Tamerlão era a raiz do meu "problema". Filho do chefe de uma pequena tribo mongol chamada Barlas que fazia parte do império fundado por Genghis Khan, inspirador de Tamerlão na criação do Império Timúrida, com ele impulsionaram-se algumas das melhores obras de arte que o país possui, como o esplendor de Esfahan e Shiraz, pela adesão de estilos aplicados na construção das mesquitas mais belas e preciosas do país, ainda que levadas a cabo pelos safávidas, que além de trocarem o sunismo pelo xiísimo como religião majoritária, governaram  a Pérsia entre os séculos XVI eXVIII.  

  Um olho na estrada, outro no mapa e no guia

                        Mas se no mapa para o qual eu olhava dentro do carro Yazd parecia pouco mais que um ponto no meio do deserto central do Irã, nada que me remetesse ao esplendor de Esfahan e Shiraz, em qualquer atlas das maravilhas da Pérsia ela figuraria em honroso destaque. E isso desde Marco Polo, que a ela se referiu como a “Nobre cidade de Yazd” quando a visitou em 1272. Em suas crônicas descreveu a importância da cidade no tráfego das caravanas. Por séculos foi a última parada da caravana antes dos caravaneiros aventurarem-se nos perigos do deserto, ao mesmo tempo que era o primeiro oásis seguro na extremidade ocidental do deserto quando vinham da Índia ou da China. Mas o melhor estava por vir.

Enfim, Yazd - a mais Mil e Uma Noites das cidades do Irã - tinha tudo para nos agradar

                    Enfim, Yazd tinha de tudo para ser o prenúncio do que todo turista espera: boas possibilidades turísticas e conhecimentos marcantes. Do que é concreto e também do que é abstrato, do que se poder ver e tocar ou aquilo que se pode apenas sentir. Do barro ao fogo, da água ao vento, do silêncio à atmosfera, dos sabores às emoções. Tudo numa cidade heroicamente resistente à modernidade, especialmente à "turistização". Uma verdadeira sombra no deserto, um perfeito oásis a que finalmente chegamos depois da longa viagem pelo deserto desde Kerman.  

    Ao fim da viagem, até o Moshir al-Mamalek Hotel Garden me parecia atraente

                         E então, finalmente, chegamos a Yazd. Tudo começou a me parecer especialmente agradável. Sem dúvida resultado dos efeitos colaterais da viagem rodoviária. Yazd já me "pegara" ao ler sobre ela durante o longo percurso. Mas meu entusiasmo ao entrar na cidade se dissipara porque nada me estimulava tanto quanto chegar ao hotel. Eu precisava de descanso. E de um banho. Mais do que pensar em visitar a cidade. Até o hotel Moshir al-Mamalek Hotel Garden me parecia atraente. E revelou-se mesmo ser bom para os padrões iranianos. Era agradável, limpo e tinha um convidativo jardim persa interno. Por fora, como tudo em Yazd, não se pode avaliar: nada mais que um muro alto e liso. Parecia ficar no meio do nada, mas estava numa das ruas principais de Yazd e próximo às suas mais sedutoras atrações. Curiosamente (não sei bem porque) os dois porteiros eram um gigante e um anão e o hotel tinha como mascotes E havia duas araras brasileiras como mascotes no lobby.

Em Yazd, consagra-se o grande senso estético da arquitetura e ornamentação persas

A seguir:

Yazd, Irã - Barro, Fogo, Silêncio, Água e Vento

Terça-feira
Mar012016

A vida flutua no Lago Inle, Myanmar

PRÓLOGO - A diferença entre "ver" e "olhar"   ________________________________________

A menina e o lago

                    NÃO são os momentos simples, doces e serenos que costumam marcar minhas viagens, senão os energéticos. Coisa de capricorniano. Mas no Lago Inle, deu-se o contrário. Foi contemplando a serenidade da vida no lago, deliciando-me com os ambientes naturais e os costumes, exercitando o simples prazer da observação que percebi estar vivendo um dos momentos mais marcantes daquela preciosa viagem. Pela placidez e fragilidade do meio ambiente e do modo de vida, eu reconheci que nossa simples presença poderia corromper e macular ambos. Ainda que consciente e deliberadamente observássemos sem ousadia, sem interferirência, às vezes o silêncio era tanto que significava bem mais do que a simples ausência de som: tinha significado, valor.

A moça e o lago

                    AO refletir sobre aquele modo de vida tão, digamos, brando, e sobre uma suavidade que já não consigo notar onde quer que eu vá, menos ainda em como e onde vivemos, quando comecei a escrever este post lembrei-me da mesma ternura quando observo o sono de meus gêmos. Costumo olhá-los assim, com o mesmo encantamento, ser tocado por seus repousos ingênuos, do mesmo modo que fazia no Lago Inle: em silêncio, fazendo meu melhor para não interferir. Ali, nas primeiras horas da manhã de nosso primeiro dia de exploração do lago, eu estava tão tocado quanto lembrei-me de como fico ao fitar o sono de meus bebês. Pureza, serenidade e de dó em sentia percebendo que o turismo logo mudaria a autenticidade. E uma certa culpa por servir-me de tudo como turista.

Ver ou olhar? Assistir ou interferir?

                          COMO espectadores discretos e turistas conscientes, como quem olha pela primeira vez, e sabe que o olhar e a presença podem macular o momento, que qualquer movimento e som não natural podem ser agressivoe, alguns até vulgares - como os cliques de minha câmera - sentia-me um pouco me constrangido. Eu não queria, não precisava e não devia interferir, mas sim usufruir, observar e admirar. E terminava por sentir o imenso prazer que uma simples observação com  "olhar viajante", aquele de quem observa com renúncia a si mesmo, entrega-se ao que olha cuidando para não tirar ou acrescenta nada ao que vê, pode nos proporcionar.

O homem e o lago

                          OS anos passam e vou percebendo o quanto agem como conselheiros. E aqui,  especialmente, produzindo virtudes capazes de adicionar mais qualidade às minhas viagens. Por exemplo,  me traz compreensão de que há diferenças entre "ver" e "olhar". O assunto já é abordado pela Filosofia, que analisa os diferentes jeitos de ver e de olhar dos indivíduo, de tal maneira que demonstra estarem vendo as mesmas coisas mas enxergando diferenças e contradições nelas. Conclui, então, que mesmo  sendo sinônimos, "ver" e "olhar" têm significados distintos. O "olhar" é com olho dócil, que capta o que enxerga com discrição, passividade, sobretudo reserva de si e cuidando para não interfererir. “Ver” é diferente, isto é, mais sujeito às virtudes e personalidade do observador, que enxerga de jeito investigativo, com certa superioridade.

Sobre barcos ou em palafitas, a vida flutua no Lago Inle

                       NO Lago Inle a vida é levada por gente simples, mas de talentos incomuns. Na verdade, são tão extraordinárias suas comunidades, a ecologia, o meio ambiente, as tradições, a cultura e o modo de vida que não há como deixar de ser tocado por eles. Vestem-se, plantam, moram, movem-se, transportam-se, pescam, usam adubos orgânicos, enfim, produzem, fabricam, tudo absolutamente único e exclusivo, que não se encontra em nenhum outro lugardo planeta. Nem mesmo em Myanmar. Vivem em aldeias às margens do lago ou sobre ele em palafitas. São pescadores, artesãos, agricultores, trabalhadores, donas de casa, crianças, jovens, adultos e idosos que quando nos vêm acenam com simpatia; cuidam de suas hornas e até pomares em canteiros flutuantes; pássaros sobrevoam todo o tempo em busca de petiscos; senhoras remam decididas, mas lentamente em direção aos seus destinos. E conversam baixinho. Tudo o que uma dedicada observação e reflexão nos faz concluir que como intrusos, devemos observar com extremo cuidado. E depois, creio que assim como nós também nenhum outro olhador cuidadoso, sentir imenso orgulho por ter aprendido a olhar assim: com reverência. E o privilégio por ter vivido mais um dos encantadores momentos que apenas as viagens podem nos proporcionar. Num dos mais bem guardados segredos turísticos do mundo. Mas já há hotéis, restaurantes e serviços turísticos em boa conta também sobre as águas deste lago.

Às vezes o silêncio era mais que a simples ausência de som

INTRODUÇÃO - UMA verdade que continua sendo 

                      O que Zanzibar, Timbuktu, Tiébelé, Ouagadugu e Mandalay têm em comum? Nomes que parecem de lugares abstratos, saídos de obras ficção ou de realismo mágico. E que mesmo certos de que são concretos, têm uma realidade tão surpreendentemente nova e desconhecida que custamos a perceber não serem obras da imaginação. Nas minhas palavras, estes são lugares "memoráveis". Nas de Rudyard Kipling, "que não se parecem com nenhum outro". Foi como o inglês definiu Mandalay no poema do mesmo nome. Quem conhece a cidade - segunda maior de Myanmar, bem no centro do país e às margens do Rio Irauádi - atribuirá justiça ao poeta. E precisão. E além de seu insuspeito talento, reconhecerá sua invulgar capacidade de sintetizar num poema sabiamente economizando adjetivos e superlativos, mas descrevendo um lugar ao ponto de nos fazer a sentir sua atmosfera. Mas há outro lado na história deste poema de Kipling. Ainda mais surpreendente que sua qualidade. E quem sabe dela, ficará ainda mais surpreso com o talento do poeta: ele jamais esteve em Mandalay!    

"Lugar que não se parece com nenhum outro" 

                      KIPLING visitou o país, por certo. Do contrário eu haveria de pensar tratar-se de um competente mentiroso. Definitivamente não. Mas o inglês esteve por apenas três dias. E não além de Yangon - a Capital. Valorizo sua intuição, sua sensibilidade ao descrever com tal precisão um lugar sem nunda ter estado nele. Intuição com notável fidelidade. Qualquer mortal, simples viajante como eu que já estivesse em Myanmar constataria o brilho das palavras de Kipling. E por todo o país, não só em Mandalay. Provavelmente mais do que isso, sentiria verdade nas palavras do poeta, ainda que à sua moda e a seu tempo, de um jeito que roça a fantasia. Todos haveriam de perceber que o autor fora tocado pela estranheza daquele mundo tão diferente, cuja mente prodigiosa fez unir palavras com tal brilho. Por tudo o que vi, o que vivi e experimentei em Myanmar, não ousaria discordar de Kipling. E ainda hoje surpreendo-me que corridos tantos anos ainda correspondam fielmente à realidade.

Mais que beleza, a vida no lago tem certo poder de inebriar o espectador

                       NÃO importa se aqui ou ali o poema revele um sotaque colonialista britânico, que mostre uma visão ocidental do que seja exotismo. Compreendo que haja lugares assim no mundo, para os quais basta pronunciarmos seus nomes para que nos inspirem magia e sedução. Alguns até que nos toquem o coração e a mente e nos preencham de sua atmosfera, de romantismo, de exotismo e mistérios. Tanto que nos convidam a conhecê-los. Provavelmente foi do que o poeta precisou: pronunciar "Mandalay" para sua mente por-se em marcha para produzir poesia. Não tenho como aquilatar a intensidade, mas senti o mesmo que o poeta quando visitei Mandalay. E não apenas lá, mas por todo Myanmar. Reconheço que não sou grande coisa como escritor, mesmos assim, sem sombra de sua capacidade, mas sem também dela ao complexo, atrevo-me exercitando minha liberdade criativa ao descrever minhas impressões do Lago Inle.

Eu aproveitava cada minuto de contemplação como se fosse o último

                      QUANDO saímos da vastidão do centro do Lago Inle e entrarmos nos seus canais estreitos, o momento separava a imensidão belíssima do que é mais notável por ali: o modo de vida de seus habitantes. Absolutamente fascinante. Até aquele momento estávamos apenas imaginando o que seria nossa visita a um dos lugares mais notáveis de Myanmar, e então fomos engolidos pela realidade que qualquer imaginação, por mais criativa e fértil, não é capaz de nos fazer supor. Já havíamos passado por nada menos que Bagan, com seus lendários pagodes, lugar tão fascinante que não consigo imaginar não atrair todos os viajantes do mundo, mas apenas 2, 3 milhões deles. Até chegar ao Inle eu não poderia supor que algo mais  oderia acenar-me tão entusiasmante neste país do sudeste asiático. Enquanto Bagan merece com justiça todas as suas melhores classificações, merecidamente ter-se tornado seu principal cartão de visita, o Lago Inle foi o que mais me marcou. E o que primeiro vem à mente ao me recordar do país. 

                       POR mais breve, por mais leve que fosse o momento, eu pressentia estar sendo marcado por ele. Lugar, tempo e espaço. Algo mudava em mim naquela viagem, não sei bem o que, talvez a consciência simples do quanto viajar é legal. Sobretudo porque nos faz conhecer lugares assim, que levam nosso coração e provocam marcas na mente. E não raro, mudanças na gente. Tenho sorte de ter sido posto nessa vida. E o privilégio de ter visitado lugares encantadores e marcantes, todavia poucos como o Lago Inle.

                       POR isso, e por tantos outros motivos, gosto de viajar. Sem pretensões baratas, sou levado a crer que as viagens são tão importantes para mim que não posso imaginar que não sejam para todas as pessoas que viajam. Mas não mais importantes do que de fato importam. Quero dizer, não superestimo as viagens: se podem eventualmente mudar a vida de algumas pessoas (de alguma forma a minha mudaram), convenhamos, há muita psicologia barata, muito jargão em torno do tema. Nem é preciso investigação profunda: verifica-se - mesmo na superfície - que "viagem" e "viajante" são objetos duma insuspeitada superficialidade de definições. E com tal extensão de conceitos, múltiplas as definições baratas, motivos porque quase sempre recuo ante o desejo de descrever minhas reflexões sobre o tema.

Qualquer som pode ser agressivo, quase vulgar. Mesmo até os cliques da câmera

                       EU só percebi que as viagens estavam mudando minha vida depois que aprendi a viajar: com menos ego. E a olhar: menos cheio de mim. Quanto menos eu, mais o destino e as pessoas tornavam-se melhores. E assim as minhas viagens. Percebia que algo em mim mudava quando tive consciência de que não sou nada, o destino é tudo. Então passei a compreender e valorizar certas citações temáticas sobre as viagens, mesmo as tão desgastadas. Muitos pensadores refletiram sobre o tema. Incontáveis citações encontram-se na literatura e nablogosfera mundial de viagens. Ao ponto de desgastarem-nas. Mas reconheço, foram o mote para inspirar-me na introdução a este capítulo. E por certo já sabe o leitor (tantas vezes eu já lhe disse!), iniciar um texto é sempre a parte mais difícil. Mais que o desenvolvimento e a conclusão. Afinal, é com ela que tento estabelecer o "diálogo" com o leitor.

Era possível notar um meio ambiente pouco alterado

                      AINDA que as viagens de hoje tenham perdido o romantismo aventureiro de outrora, continuam a seduzir pessoas e pensamentos. Sobretudo este, como as viagens podem mudar a vida da gente. Se é mesmo possível que mudem, concordo em parte: há excessos, exageros demais, um jeito meio jargão de definir esse poder todo das viagens sobre as "mudanças de vida". Há bons pensamentos, claro. Desses que além de tudo costumam levar-nos a boas reflexões. E se para quem gosta tanto, "viagem" é assunto naturalmente sedutor, para quem como eu as tem em boa conta, acredita que está entre as melhores coisas que o dinheiro pode comprar, então refletir sobre elas é sempre sedutor e inspirador.

Havia um frescor notável naquela manhã, e um cheiro de antigo ao passarmos perto de um templo antigo

                        NESTE ponto dou razão a John Steinbeck: “As pessoas não fazem as viagens, as viagens é que fazem as pessoas”. Mas há um lado dos pensadores que desgosto. São os que escrevem como Paulo Coelho, os escritores de manuais de auto-ajuda, que embora façam parecer tudo fácil, nada é tão facinho como um estalar de dedos. A vida é complexa demais, inexplicável demais para credibilizar vãs filosofias. Viagens só mudam a alguns. E mesmo assim depois que atingem certa maturidade. E que encham seus tanques de bom conteúdo intelectual, que alcancem boa capacidade de discernimento, que aprendam a viajar olhando com novos olhos. Do contrário, viagens servem “apenas” para entreter. E para todos nós, nos fazerem mais felizes. As minhas viagens, em boa conta, "mudaram" minha vida por causa das relações humanas. E por presenciar comportamentos sociais e modos de vida tão singulares que por vezes me pareciam abstratos, ficcionais. Como a vida no Lago Inle, que diferentemente do que foi para Kipling, para mim um sonho real.


  O Lago Inle e meu sonho real   ____________________________________________________

                       ACORDAMOS cedo. E depois do café nos pusemos na beira do deck aguardando no ancoradouro do hotel o barco que nos levaria a explorar o Lago Inle. Eu observava a tudo com tranquilidade, estava relaxado. Quero dizer, capricornianos "acham" que estão relaxados, mas nunca! Talvez porque experimentem certo constrangimento quando estão a viajar. Algo como certa "culpa" por terem deixado obrigações e deveres por fazer, o que pra nós sempre vem sempre antes da diversão. Mas nada como a visão daquele pequeno pedaço do lago para aplacar sensações digamos, inadequadas. Era muito promissora aquela vista àquela hora. E se não me cabiam ansiedade e dúvidas de que os deveres estavam cumpridos, o que eu espiava tornava-se ainda mais magnífico, mesmo sem saber que tudo era simples amostra de tudo o que eu conheceria ao longo do dia no lago. 

De manhã cedo o céu era fosco no hotel palafita

                        A manhã começou fosca. Nuvens encobriam o Sol e atenuavam a luminosidade e as cores do lago. Mas tinha um frescor notável. Não era a luz cintilante que eu vira nas lindas fotos, daquelas que brilham como lampadinhas de Natal na superfície da água, que mais que iluminam, dão palco para que a beleza do lago desempenhe seu papel. Eu imaginava o que faria com uma luz daquelas e minha câmera nas mãos. Talvez por isso meu pensamento não se debatesse como de costume, contestando-me entre "olhar" ou "fotografar". A luz não era maravilhosa, então eu podia apenas assistir, sem culpas por não fotografar. Como um vagabundo. Sem pressa ou compromisso. Não como um turista com uma agenda a cumprir. Aproveitava cada minuto de contemplação como se fosse o último, não os primeiros daquela manhã. E mal sabia que em poucas horas o dia se tornaria esplendorosamente claro, luminoso, cintilante. E o por do sol, um desbunde!

Logo surgiu uma luz cintilante, que refletida na superfície do lago, brilhava como estrelinhas

                       "Importa-se?", pergunto à minha mulher. "Obrigado". Sentei-me no banco à sua frente e em direção à proa. Seguimos o roteiro previsto para o dia, de manhã até ao pôr do sol: assistir o ritmo sugestivo de vida dos habitantes, as belezas naturais do lago e as construídas pelo homem. Era possível notar um meio ambiente pouco alterado, um cheiro de antigo quando passávamos perto dos mosteiros, e a placidez da vida no lago. Mais que beleza, aquilo tudo tinha um poder inebriante. Além de curioso, encantador e tão impressionista. Lembrei-me da elegância das palavras de Kipling que há tantos anos tocara-se por este país remoto, singular e até então pouco conhecido. Sim, hoje não é mais proibido ou esquecido, o turismo chegou. Mas a globalização ainda parece obra de ficção, e "modernidade" não algo visível. E nem faz falta.

 "Importa-se?", pergunto à minha mulher. "Obrigado"

                      Seguimos no barulhento, veloz barco de rabeta longa, hábilmente conduzido, e logo percebi que ali não é a figura humana quem comanda. Nem que aparenta ditar as regras. Senão a natureza. Mesmo que a engenhosidade humana seja demonstrada na sua inequívocal, incrível capacidade de adaptar-se ao meio ambiente. E especialmente no Lago Inle observada num nível particularmente inventivo: as plantações são feitas em “terrenos” flutuantes...

...a seda é feita de uma planta colhida no lago, há tradicionais ferreiros que fabricam implementos agrícolas simples de ferro forjado e batido, artesãosdejóias de prata, tudo sobre as águas. Pescadores remam com o pé, homens vestem-se com "saias", recolhem-se lodo e algas para servirem de adubo, os pomares flutuantes ancoram-se em bambus fincados no leito do lago, as ruas são canais, os veículos são canoas, as mulheres fumam os "famosos" cheroot, charutos birmaneses feitos de folhas de fumo com ervas e mel embrulhados na folha que lhes dá o nome. Além de toda beleza natural e cultural do povo da etnia intha (*1), há elegantes mosteiros.  

Os homens remam com a perna...

                     JÁ não se trata mais de uma fantasia como descreveu Kipling. Nem se escrevem mais contos de fadas, romances ou aventuras de de viagens. Hoje são relatos. Como estes aqui. Myanmar já não é mais inacessível, perigosa e nem mesmo misteriosa como nos tempos da ditadura. Mas ainda guarda boa capacidade de surpreender. Turisticamente falando, ainda “toma” o viajante de diferentes maneiras.

Os pescadores e sua técnica singular

                     OS curiosos pescadores do Lago Inle, por exemplo. Parecem obra de ficção. Não se encontram em nenhum outro lugar, nem mesmo no país. São símbolo do Lago Inle, tornaram-se imagens das mais divulgadas de Myanmar, provavelmente até mais do que as dos mil templos de Bagan.  Conduzem suas canoas com um remo entrelaçado na perna direita, de pé sob a perna esquerda na popa de suas canoas, manejando uma rede ou um singular artefato de pesca - uma armadilha de madeira ou bambu em forma de cone, revestida de uma rede, cujas dimensões são pelo menos o dobro de sua estatura. De outras maneiras também usam suas embarcações, mas aí não as conduzem do jeito que pescam. Mergulham no lago para recolher algas e plantas lacustres que entulham suas canoas até onde couber. Serão usadas como adubo orgânico nas hortas e fazendas flutuantes.

Os templos também ficam sobre as águas e são encantadores

                         OS mosteiros contam-se mais de 200. Mas todos os turistas vão ao Nga Hpe Kyaung, mais conhecido como "mosteiro dos gatos saltantes". Havia dezenas desse felinos que eram treinados pelos monges para saltarem e passarem através de arcos de metal. Tornaram-se uma das maiores atrações do lago. Então, os monges que mandam no lugar mandaram que os aspirantes a monges parassem com a exibição turística. Os gatos não pulam mais, mas circulam pelo mosteiro como se fossem seus. O que vale mesmo, afinal, é a construção, toda de madeira e sobre estrutura de palafitas desde 1890, além das dezenas de imagens de Budas ornamentados, trazidas ao mosteiro durante a segunda guerra mundial para que ficassem em segurança em vez de em suas casas em santuários particulares.

 

Nga Hpe Kyaung

                       AO todo, cerca de 170.000 pessoas dos diferentes grupos étnicos do país vivem sobre as águas do lago e nos seus arredores. A atividade e negócio principais são a agricultura, daquela forma de produção incomum sobre “terras” flutuantes. Mas também ali há produção artesanal de artigos em prata, de curiosos tecidos de "seda" vegetal...

... e de charutos.

Os "famosos" cheroot, charutos birmaneses

                      DEVIDO à localização pitoresca e à paisagem incomum combinadas ao exclusivo estilo de vida e às tradições dos habitantes, o lago tornou-se um dos destinos turísticos primários no país.  

                        NA última década, todavia, o lago enfrenta ameaças graves, felizmente não pelo turismo de massa e seus infalíveis impactos, mas devido a questões naturais que têm ocasionado a deterioração da qualidade da água e o encolhimento de sua área. Um deles chama-se eutrofização, processo através do qual a água adquire altos níveis de nutrientes químicos - especialmente fosfatos e nitratos - que provocam o acúmulo de matéria orgânica em decomposição no seu leito. Provocam maus odores, mortandade de peixes e alterações importantes na biodiversidade aquática e a redução da capacidade de navegação e de transporte, além de modificações na qualidade, na quantidade de peixes, sobretudo no seu valor comercial.

  No fim daquele luminoso dia chegamos a tempo de admirar o por do sol desde nosso hotel-palafita

                        HÁ estudos e investimentos sérios - levados a cabo por um programa de gerenciamento e monitoramento ambiental do lago - com o objetivo identificar seus problemas e preparar um plano de manejo para sua conservação e recuperação, o que seria profundamente interessante para todos, especialmente para os que nele vivem, como também para o turismo, uma vez que todas as atividades rotineiras e originais se manteriam para o deleite dos visitantes. Especialmente os que dedicam-se ao ecoturismo.

Dourado como poucos, o por do sol no Lago Inle era como uma celebração à nossa visita

                        MYANMAR inteiro é um país surpreendente e especial. Não apenas o Lago Inle. E também repleto de situações raras e inabituais que enchem de prazer qualquer turista. Ao final de nossa estada percebi que aquele foi um destino de onde voltei sem ter voltado. Onde deixei mais um pedaço do meu coração. E para onde sonho um dia retornar. Se eu tinha expectativas sobre o lago, jamais pensei que pudessem ser tão ultrapassadas. E depois de passar os dias vendo a vida passar no lago, no último, enquanto eu assistia ao Pôr do Sol, vivia mais um momento me encorajava a refletir. Não sobre esses doces momentos que vivo em viagens, mas sobre o privilégio de viajar para lugares como o Lago Inle.

NOTAS

Do total da população do Lago Inle, certa de 80.000 são da etnia Intha, famosa pela técnica no uso do remo, mais além, por serem grandes produtores de hortaliças e frutas em terrenos flutuantes. Os Intha e os Pa’O são duas das tribos das montanhas de Mianmar que habitam o em torno do Lago Inle. Ambos falam dialetos e birmanês. O Pa'O são o segundo grupo étnico do estado de Shan, um ramo da etnia Karen, e sua principal fonte de renda é a produção de folhas de thanapet, usada para fazer o ‘famoso” charuto tradicional birmanês.

Apesar de Mianmar só recentemente ter aberto suas portas ao turismo, ele está crescendo fortemente. Com apenas 2 milhões de visitantes em 2013, Mianmar ainda é um país considerável dos menos visitados do mundo, portanto, extremamente interessante deste ponto de vista. O turismo nesta conta em Mianmar ainda é irrisório em comparação com vizinhos como a Tailândia, com mais 26 milhões de turistas ao ano, por exemplo. Mas isso significa que Myanmar seja intocada. Tampouco que não esteja se modificando por causa do turismo. Infelizmente não. Bagan e o Lago Inle, por exemplo, já podem deixar um certo de gosto na boca par aquém esperava deparar-se com um lugar inexplorado. Então, nada melhor do que pensar em visitar o país o mais rapidamente possível, antes que ele se transforme numa Tailândia.

Os agricultores cultivam arroz, frutas e legumes e verduras. Tomate, feijão, couve-flor, repolho, berinjela, alho, cebola, bétel, melão, mamão e banana. Usam plataformas feitas de ervas daninhas e bambu como jardins de flutuação. Estes jardins flutuam, subindo e descendo com as alterações do nível da água. Em resumo, é uma forma hidropônica conjugada com tradicional de cultivo. O princípio é simples. Em vez de crescer na terra, necessitar de um sistema de irrigação, os canteiros flutuam em ilhas feitas de material orgânico emaranhado e misturado a sedimentos do fundo do lago. Ancoradas no lugar, as ilhas são resistentes o bastante para que o que é plantado cresça com êxito, com a característica que após certa profundidade as raízes continuem crescendo dentro da água fresca e com nutrientes. Para criar os campos flutuantes pode-se gastar até 10 anos até que haja quantidade necessária de elementos sólidos e emaranhados que supram de matéria orgânica o que for plantado e lhes dê sustentação física. Acelera-se o processo colocando lodo do fundo lago e adicionando algas e plantas.

Bétel é uma pimenteira cuja folha é chamada de bétele, e apreciada como estimulante leve e por suas “propriedades medicinais” que acreditam ter. Em Myanmar a folha verde é recheada, depois enrolada com uma pasta de ervas, entre elas cravo, anis, coco ralado, canela, cânfora, sementes de cardamomo, cominho e tabaco. Os usuários de bétel revelam seu vício quando sorriem. Seus dentes são manchados de uma cor preto avermelhada, tingidos por anos de mastigação da folha recheada, cuidadosamente dobrada em forma de um pequeno pacote - a que chamam libra - depois posto dentro de um pequeno saco de celofane. Os usuários colocam a libra na boca e a sugam lentamente. O conteúdo se decompõe e os ingredientes vão deixando um sabor de hortelã, que dizem ser agradável, mas amargo. Talvez muitos sem saberem que o costume lhes dará um câncer bucal. É onipresente em Myanmar, e muitas pessoas mastigam bétel incessantemente, apesar das tentativas do governo de frear a prática, sobretudo de cuspir o resultado da mastigação. As calçadas são cobertas de manchas vermelhas porque quando terminam de mastigar longamente suas libras de bétel, cospem no chão o resultado da mastigação, já que ele não é para ser engolido. E tingem permanentemente da cor o concreto. Em Yangon há centenas de barracas de noz de betel com alguém atrás as preparando e vendendo. A da foto a seguir foi no Lago Inle.


Quinta-feira
Fev042016

Alimentando gaviões em Harar, Etiópia

Nem foi preciso pensar antes de agir. Respirei fundo e fui viver a experiência

                      RAZÃO e nonsense. Ou espanto, êxtasse, estresse, tranquilidade, perigo, encantamento, irritação, desconforto e prazer. São apenas parte do que a Etiópia entrega ao turista. O que significa  exigir dele a mais preciosa (e útil) virtude humana: a resiliência. E se é verdade que outros países do fascinante continente africano exigem tal habilidade, poucos como a Etiópia. E raros com sua assombrosa, peculiar e inequívoca capacidade de superar o insuperável, de surpreender com o que imaginamos não ser espantoso. Só que o país exige muita cumplicidade do viajante. Tanto maior quanto sua disposição de interagir, de experimentar, de vivenciar. Tudo é realidade. E tudo é possível. São situações singularmente inerente ao país, algumas até inescapáveis. 

Harar exige a cumplicidade do viajante

                       SE toda viagem nos ensina a viajar melhor, a ter o nível de resistência posto à prova, para a Etiópia esta é uma realidade inequívoca. Tanto para interagir com o povo quanto para experimentar e mergulhar no que é curioso, atraente e desafiador. Mas nem tudo é tão simples. Há coisas singelas, como experimentar o delicioso e incrivelmente refrescante Spris, um suco de frutas naturais servido em canecas de chopp em camadas vistosas. São preparados na hora, à vista do cliente e sempre nos lugares mais despojados que se possam imaginar. São tão gostosos que provados a primeira vez não se consegue mais escapar dele.

                       MAS também há o que é arriscado, quando é preciso correr certos perigos. Ao interagir com os povos primitivos do Vale do Omo, ou decidir entrar no "jogo" de alimentar gaviões em voo na cidade islâmica de Harar, por exemplo.

A aventura começa em Feres Megala, a praça da cidade "moderna", diante do portão da cidade antiga

                     ALÉM das infinitas coisas para ver e admirar, há certos desafios para o turista viver em Harar. São experiências como alimentar hienas e gaviões, por exemplo. As hienas alimentam-se com um pedaço de carniça. Colocam-na na ponta de um palito que segura-se entre os dentes. E boca a boca, o naco de carne é sacado pela hiena. Aa um palmo de nosso nariz. Já falei disso no blog. Mas ainda não tinha falado dos falcões. Também é possível alimentá-los. Só que em pleno vôo, e também, como às hienas, num dos cantos mais afastados da cidade. É coisa simples: coloca-se um pedaço de carne e sebo (de camelo!) na palma da mão. O predador que nos observa do telhado do açougue mergulha e pega-o com garras tão afiadas quanto a fome que o move. Simples, mas pode significar ter a pele arranhada até sangrar. Foi o que aconteceu comigo. E ainda que um ferimento sem grandes conseqüências, era potencialmente perigoso.

                        O que há de mais simples e delicioso na Etiópia: o Spris

                        SE existe uma jóia turística escondida e remota na Etiópia, é esta cidade. É o motivo de ser tão pouco visitada, talvez também porque todo o país seja um dos mais turisticamente subestimados. Quem viaja pra lá, todavia, ainda que carregado das mais baixas expectativas, encontra um tesouro de maravilhas históricas e volta carregado de entusiasmo por ter ido. Provavelmente com a mesma sensação que a minha: de ter sido o único ocidental que pisou ali desde o poeta francês Arthur Rimbaud, na década de 1880, que tornou-se um comerciante de café e viveu ali por anos, e de quem se pode visitar a bela casa-museu. Harar foi um dos lugares mais exclusivos e marcantes que já visitei. E se hoje é aberta a qualquer pessoa, já foi apenas a muçulmanos. Todavia mantém sua atmosfera antiga, da qual nos impregnamos assim que cruzamos seus portões.

Uma aparentemente pacato falcão pode pôr em risco a saúde do viajante em Harar?

                         A cidade é muito, muito agradável, cercada por muros antigos de meados da década de 1500. Cruzamos e ingressamos em Jugol, a Cidade Antiga. Em suas ruas internas - ora repletas de vida, ora sem viva alma - perder-se é impossível, ainda que às vezes cruzemos vias tão estreitas que só um indivíduo consegue passar. Noutras imaginamos não haver saída. Mas sempre desembocaremos em algum beco inesperado, movimentado ou não, mas sempre cm alguma surpresa. 

  Vendo a vida andar pra trás. Eu não sabia que cruzar o portão de Jugol era viajar no tempo

                       É viva e esperta, mesmo sendo tão antiga e pequena, que poucas horas exige para ser explorar-se esse Patrimônio Mundial da UNESCO, quarta cidade mais sagrada do Islã, cujas tradições e os modos de vida da meia dúzia de grupos étnicos mudaram pouco. Nas casas, nas ruas de pedras, nas pessoas e nos mercados. Onde pisarmos nos sentiremos num dos recintos mais incrivelmente desconectados do que se chama "ritmo do tempo". Fica distante, quase na fronteira com a Somália, o que exige que se durma ao menos uma noite. E ainda que pequena, saímos com a sensação de desejo de viver mais tempo nela.

Mas para conhecer a jóia turtística é preciso hospedar-se no Heritage Plaza, melhor hotel de Harar

                        UM jovem atraia falcões pousados no telhado do açougue. Estendia o braço e exibia a palma da mão bem aberta com um pedaço de carne e sebo sobre ela. Seu objetivo, imaginei, era divertir-se alimentando os animais. Ao contrário, atraia a atenção de um eventual turista. E com sua boa atuação, impressioná-los. Provocado pelo guia local, entrei no jogo. Posicionei-me no centro do chão de terra, diante do açougue, tomei as breves instruções e segurei aquele pedaço de carne esperando que o incrível pássaro desse seu em vôo rasante com suas enormes asas abertas, e planando sobre minha cabeça mergulhasse as garras arrancando o pedaço que eu lhe oferecia. Que as unhas o bicho tem! Levou a carne e um pouco de minha pele. Arranhou-me e me tirou sangue.                                           

                       NÃO posso dizer que a experiência tenha sido ruim, ao contrário, de fato foi bem legal. Mas ao ver o ferimento, a ardência e o perigo de congrair uma infecção ou ter um parasita no meu sangue, dali em diante só pensei em lavar a mão e pôr algum curativo, já que o ambiente não era dos mais assépticos. Perguntei se havia uma farmácia. Prontamente me levaram a uma. Era bem simples, como seria de supor em Harar. Comprei o que precisava. Algodão e álcool, além de um curativo tipo band-aid com aparência de fabricado na década passada. Lavei-me, passei álcool e todo o resto do dia lavando a mão com água e sabão, trocando o curativo e me recordando o que poderia ter sido bem pioar. Por sorte também não fui mordido pelas hienas quando as alimentei.

                       PERGUNTEI se havia uma farmácia. Afinal o ambiente não era dos mais assépticos. Levaram-me ao que eu já espera ser uma farmácia em Harar. Comprei algodão e álcool, além de um curativo tipo band-aid que aparentava ter a idade da cidade e ter ficado na prateleira até então. Passei o dia lavando a palma da mão com água e sabão e trocando o curativo para ver se tudo ia bem. Foi. Mas podia não ter ido. Por sorte também não fui mordido pelas hienas quando as alimentei.

Harar tem tudo o que pode satisfazer a qualquer explorador. Mesmo aos mais excêntricos.

                       PARA chegar em Harar, pode-se ir de ônibus direto da capital, Addis Ababa até Dire Dawa e dali de taxi ou van até Harar. Gastam-se dez horas de viagem. São cerca de 550 quilômetros que separam as duas cidades por estradas. Há duas empresas com carros modernos e bem equipados, mas são dez horas de viagem por mais de 500 quilômetros.                       

                       OPTAMOS por avião, de Addis até Dire Dawa, e depois de carro até Harar. O vôo foi ótimo, como todos dentro da Etiópia. Já as estradas, nem tanto. Gastamos uma hora e pouco até o hotel onde nos hospedamo-nos, o Heritage Plaza, um dos piores em que já fiquei na vida, para onde bastaria um pouco mais de limpeza para deixar de ser o que é. O café da manhã, todavia, foi surpreendente bom e num local agradável. Da equipe só vimos o recepcionista.

Quinta-feira
Jan282016

Bom dia, Addis. Adeus, Etiópia.

A CHEGADA - Bom dia, Addis

                       DESDE os eventos do Live Aid, na década de 1980, gravou-se nas mentes ocidentais o que ainda hoje se pensa da Etiópia. Mas eu sabia que além da pobreza veria muita beleza. Circulando de norte ao sul do país notei que ambas andam juntas, mas a beleza se sobressai à pobreza quase todo tempo e em todo lugar. A Etiópia é muito mais do que uma vastidão de paisagens áridas, de crianças desnutridas, de pobreza e sofrimento. É verde e exuberante, suas crianças são cheias de energia e curiosidade, o povo é de sorrisos francos em rostos bonitos, com traços incomparáveis e uma cultura  inigualável. De uma vida que revela capacidade inequívoca de sobrevivência e de resiliência nas adversidades.

                       A pergunta número um para quem conto minhas viagens é "Qual o melhor lugar que você já visitou?" Fui a muitos, respondo. A mais de 60 países e lugares tão diferentes e impactantes que seria ingênuo citar o "melhor", ainda que Índia - desde que me acertou o coração - tenha se tornado para mim hors concours, portanto, incomparável. No entanto à Etiópia consagrou-se uma de minhas melhores experiências em viagens. Às vezes acho que os dias têm andado depressa demais. Parece que foi logo ali, noutro dia que eu vivia a primeira hora da primeira manhã daquela auspiciosa viagem...

Etiópia. Beleza e pobreza sempre juntas

A primeira hora da primeira manhã. o dia da "felicidade viajante"

                       ERA noite quando pousamos no Bole International. E tarde quando chegamos ao Sheraton Addis. Quase meia noite quando dormimos naquele enorme quarto com vista para a piscina. Addis ao fundo. No momento em que pousamos eu não imaginava o quanto haveríamos de saborear naquela viagem. Mas no travesseiro eu já fazia idéia. Ainda hoje me surpreendo com o que representou o dia seguinte ao de uma noite bem dormida: a primeira hora da primeira manhã, o mais marcante momento de toda a viagem. Pode soar ingênuo, afinal eu ainda sequer pisara fora do hotel, mas assim eu me sentia. Não que houvesse algo de tão especial, ao contrário; o dia começava como todos: no desjejum. Mas era auspicioso. Como nenhum outro foi na Etiópia. Os pensamentos corriam soltos. Afinal eu começava uma viagem para um mundo à parte, que eu nem sabia que marcaria minha vida.

                       ACORDAMOS um pouco mais cedo. Mas descansados e refeitos. Não sentíamos quaisqur resquícios dos efeitos da longa viagem até Johanesburgo - pela South African Airways - e até Addis Abeba, pela Ethiopian Airlines. Nossos ciclos biológicos estavam um reloginho enquanto eu comia minha primeira refeição no país. E foi ali mesmo que dediquei-me a dissimular a perturbação mental, especulando sobre como seria escrever sobre Addis. Me tomava a ideia. \era profundamente inspiradora. Sobretudo por dizer algo diferente. Para quem escreve, a Etiópia é um senhor estímulo. E eu ainda me recordo do vigor com que o queria. Talvez pensasse mais naquilo do que na viagem que começava. Odiava a ideia de produzir algo ruim. E já me preparava para o excesso de substantivos que jorravam da mente. De pobreza a beleza. E também de verbos a adjetivos. Se eu precisava de inspiração, aquilo era um belo começo. Não por outro motivo este blog, em parte, existe e persiste na sua existência: por ser o resultado dessa inspiração por escrever minhas experiências e vivências nas viagens.

Eu me sentia mais jovem. E acho que não era por causa do calendário etíope, sete anos menos que o nosso

                      A manhã estava especialmente clara e fresca, enriquecida por uma atmosfera excepcional, ainda que ela discretamente corrompesse a razão e acentuasse a sensação que só me ocorre quando viajo. E apenas na primeira hora da primeira manhã. É o que chamo de “felicidade viajante”. O fato era que me sentia mais jovem. Por nenhuma razão especial, porque não acredito mesmo em coisas místicas, mágicas e "energias" afins. Creio é que alguns lugares têm atmosferas impregnadas deles mesmos. E que ao respirá-las nos completmos delas. Até sem percebermos. A tal "felicidade" nada mais é do que o resultado de absorvermos o ar  impregnado da personalidade do lugar. O conjunto de estímulos entra pelo pulmão e se instala na mente. Como um vírus. Que freqüemtemente provoca seus efeitos colaterais.

                     SE aquela atmosfera era o bastante para me provocar a mente, se a viagem que começava era especialmente entusiasmante, se estar no continente mais atraente do planeta me impulsionava, não podia desejar nada mais de melhor. Apenas caminhar, caminhar e caminhar pela cidade sem perder a capacidade de voltar ao meu estado normal e encontrar logo minha resiliência, evitar as vulnerabilidades que a empolgação me provoca. Por certo eu ainda não sabia o quanto seria difícil, exaustiva e desconfortável a viagem. Nem mesmo que tão entusiasmante.

                       APRENDI a alcançar a resiliência, identificar, controlar e administrar a tal “felicidade viajante”. Aliás, foi só quando compreendi que ansiedade é algo natural ao ser humano. E que "brigar" com ela é inútil. Todavia, extremamente recomendável saber geri-la. Os americanos chamam isso de mixed feelings. Mistos e contraditórios. A mim custou um pouco, mas em algum momento notei que além do prazer, a tal "felicidade" têm lá seus perigos: não raramente corrompe o bom senso, torna as expectativas assoberbadas e os lugares que desejamos muito e dos quais seja natural esperar recompensas, nem sempre são garantias de reciprocidade. Eu já sabia que a Etiópia da minha imaginação não correspondia à realidade, que eram reminiscências do que me contara meu pai em suas viagens pela África na década de 70. E também resultado do muito que eu lera e pesquisara preparando-me para viajar pelo país. De toda maneira, sentia-me bem e agradavelmente estimulado. Faltava pouco para começar a explorar a cidade e o país e ver com meus olhos o que me contara meu pai e eu lera. Sobretudo perceber com meus sentidos as ruas da cidade, imergir naquela realidade assombrosamente diferente.                   

                      Assim eu fazia naquela manhã. Evitava adiantar-me às sensações alienando-me das expectativas e dos pensamentos turísticos. Como provavelmente o faz um turista desinteressado, aquele que prefere ser guiado e deixar para a hora de ver as sensações que experimentará. Mas em mim persiste um pressentimento: de que todo lugar, antes de seu tempo - como a Etiópia naquela manhã - me apanhará com sua essência e peculiaridades. Comecei a saborear meu café da manhã enquanto me perguntava como escapar da ansiedade num dos países mais remotos, exclusivos e pouco turísticos do planeta. Com tudo o que se pode esperar para que um destino seja memorável e uma viagem consagre-se entre as mais marcantes da vida.                       

                          Enquanto caminhava em direção ao buffet do Sheraton Addis para servir-me do que havia - pães, bolos, frios e omeletes, sucos e café - lembro-me de não ter visto nada etíope para o desjejum. A despeito da maioria das mesas estarem ocupadas por africanos. Elegantes, de diferentes nacionalidades. Eram diplomatas preparando-se para uma importante conferência que debateria os conflitos entre o Sudão e o Sudão do Sul. Soubemos mais tarde, de um diplomata que minha doce Emília encontrou e brevemente conversou, que tentavam soluções para pôr fim à luta étnica e às possibilidades de genocídios entre os dois países, mas que segundo ele, que já estivera no Brasil, as coisas não iam bem neste sentido. Os diplomatas sentavam-se às mesas para o desjejum. Eram homens em ternos escuros e bem cortados, e senhoras extremamente bonitas e de gestos elegantes. Discretas e contidas, algumas sobressaiam pelas roupas africanas, coloridas e com turbantes como as típicas da África ocidental. 

                      Sentado eu assistia aquelas pessoas conversando em idiomas incompreensíveis. Estava tão concentrado nelas que precisava reconectar-me com tudo. Meu olhar era discreto, sereno, respeitoso. Especulava de onde viriam julgando suas aparências. Seriam do Benim, de Burkina Faso, da Costa do Marfim, de Gâmbia, Gana, Libéria, do Mali, da Nigéria, Senegal, Serra Leoa, do Togo? Observava-os num delicioso voyeurismo. Mais tarde soube que hospedaram-se o presidente sudanês Salva Kiir e o líder rebelde, Riek Machar. Durante nossa estada subíamos e descíamos pelo elevador acompanhados de diplomatas que à noite reuniam-se no convidativo bar do enorme lounge do saguão. Em grande número, enchiam o espaço e circulavam num quase desfile ou reuniam-se em grupos. Tudo era extremamente sedutor.  

                        Entretanto o que mais me surpreendeu não foram os encantadores diplomatas, mas as vozes de dois brasileiros que ouvimos naquela primeira manhã. Conversavam numa mesa quase à minha frente. Era um jovem casal do qual mais tarde nos aproximamo-nos, apresentamos e contamos-lhes nosso itinerário. Eles também pareciam admirados com o encontro e com a coincidência: também começavam naquela mesma manhã sua viagem pelo país. Daniela e Luciano iam apenas ao sul do país, o que nos possibilitou encontrá-los mais uma vez por lá. Trocamos endereços e, mais tarde, pelo Facebook, soubemos que também gostaram imensamente de suas experiências no país e que também tinham a mesma paixão por viagens que nós. Mantemos contato até hoje. Nos despedimos e finalizamos o café. Antes de subirmos ao quarto resolvemos dar uma básica explorada nas principais dependências do belo hotel, especialmente conhecer seu convidativo restaurante italiano, sua grande área de piscina e spa e o saguão por onde desfilavam as autoridades.

                        Tudo era muito estimulante e me impulsionava a vontade de escrever sobre essas coisas bacanas que nos ocorrem em viagens. Sobretudo os choques culturais que provocam e acendem a mente. Lembrei-me de Paul Theroux, mestre em evocar essas coisas nos leitores, descrever pessoas, situações, sensações, reflexões pessoais e lugares. Com ele "aprendi" a não produzir relatos de viagens chatos e parecidos com os guias de viagens. Ninguém faria melhor que os Lonely Planet ou Bradt Guides. Assim como Theroux, tenho horror a relatos autocomplacentes, sem graça e que deixam coisas interessantes de fora.

 “Ninguém que espera uma viagem luxuosa e seja fóbico com sujeira e insetos deve ir à Etiópia. E é quase impossível ter alguma privacidade ou ir a um lugar sem um rastro de crianças seguindo e gritando farangi, farangi, farangi, you, you, you! Inofensivo, mas enervante." Philip Briggs, autor do ótimo Bradt Guide Ethiopia 5a. Edição.

 A seguir

Nas ruas de Addis. Começando por Debre Libanos