Andaluzia - Espanha moura, branca, romântica e épica 

Posted on 04-28-2012 by Registered CommenterArnaldo Interata | Comments3 Comments | EmailEmail | PrintPrint

Paisagem da janela - Parador de Arcos de la Frontera

                       ENTRE olivais e estradas sinuosas, despenhadeiros e serras escarpadas, seguimos os caminhos de almorávides e almoadas, os povos árabes, sírios, bérbereres e egípcios que dominaram o Sul da Espanha durante o império al-Andalus. Também nos innspiramos na hábil narrativa de Washington Irving, o norte-americano que esteve na Espanha em 1829 e empreendeu uma excursão a pé de Sevilha a Granada. Marcado profundamente pelas paisagens e pela cultura andaluzas, o encantamento está nos "Contos da Alhambra", escrito enquanto viveu nas dependências da Alhambra, em Granada.                   

                      Ali, no Sul da Espanha, os "viajeros romanticos" do Século XIX, também fascinados pela civilização hispano-muçulmana, encantavam-se com as paisagens enquanto percorriam as estradas que cortam os vales do Guadalquivir, sobem as serras de Grazalema, de Serrania de Ronda e de Los Alcornocaleslevam Sevilha, Córdoba, Granada, Ronda, Arcos e Jerez de la Frontera, assim como aos vilarejos da Ruta de los Pueblos Blancos.

 

 A quietude das ruas estreitas de casas brancas com floreiras nas janelas

                      Agora nós, românticos do Século XXI, viajamos não apenas através do tempo e do espaço, mas da cultura e da natureza, presenciando uma Espanha sedutora e emblemática, visitando mesquitas e igrejas monumentais, palácios incríveis, experimentando a quietude das ruas estreitas e de casas brancas com floreiras nas janelas. Entre uma e outra cidade vimos paisagens verdes e cinzas, de florestas e despenhadeiros rochosos. 

  O Bairro Albaicin, no topo da colina, visto da Alhambra

                       O nome Washington Irving situa-se na história americana como um dos primeiros grandes escritores a conseguir reconhecimento fora de seu país. Embora conhecido por suas muitas histórias e contos baseados na cultura americana - como Rip Van Winkle e Legend of Sleepy Hollow - Irving foi um dos primeiros americanos a escrever sobre destinos turísticos, a viajar e encantar-se com o esplendor de uma Espanha extremamente rica, cultural e etnicamente: a Andaluzia.

                       Fascinado com a herança cultural, com o legado da civilização muçulmana, Irving mergulhou na história e escreveu suas reflexões enquanto viajava. Usou um estilo de narrativas curtas, baseadas na experiências pessoais, nos resultados de suas pesquisas em bibliotecas da Andaluzia, na leitura de contos populares espanhóis, especialmente os andaluzes. Seu trabalho resultou numa mistura de passado e presente, ficção e realidade, e definiu com precisão a essência do caráter andaluz: metade espanhol, metade muçulmano.

  

A Alhambra, Granada

                        Desde Irving a rota tornou-se um patrimônio cultural nacional e ainda hoje encanta viajantes, artistas, escritores, poetas, fotógrafos, jornalistas, entusiastas, turistas e curiosos. O roteiro, que abrange as rotas do Legado al-Andalus passa por grandes cidades e pequenos vilarejos das províncias de Málaga e Cádiz, expõe a assência daquilo que denominou-se o Século de Ouro da Espanha, como se conhece o período entre o Renascimento e o Barroco.  

Estradas escarpadas, sinuosas, paisagens deslumbrantes

                          Mas os campos ocres da Andaluzia e seus castelos de pedra não nos trazem à lembrança apenas os contos românticos das Mil e Uma Noites. Também Dom Quixote, o esquálido Rocinante e o gorducho Sancho Pança surgem no imaginário. Por vezes, parecem estar nos esperando numa curva de estrada sobre uma colina pitoresca. Felizmente o viajante que “aventurar-se” por essas paragens não mais encontrará os bandoleros, assaltantes que eram o terror dos antigos viajantes que atravessavam as campinas e as serranias daquelas paragens.

 

 Pelas estradas dos Pueblos Blancos

                       O Sol, ainda não é forte no fim do Inverno. Aqui as águas de Março fecham o Inverno, ainda caem e podem acompanhar o viajante por um bom tempo, como nos aconteceu. Todavia, aproveitamos as luzes tênues que já tingem de laranja o amanhecer e o anoitecer, pintam as paisagens e construções, atraem a atenção do olhar. Entranhados pela a atmosfera andaluza, àquela sua dimensão tão tuniversal, mostrarei aqui no Fatos & Fotos de Viagens o conjunto tão fabuloso de atrações, tentando transmitir sua essência, motivar viajantes a conhecerem a região.

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A Andaluzia dos Pueblos Blancos, o legado al-Andalus e o Triângulo Dourado 

                        Por estradas boas e distâncias curtas, grandes rodovias e pequenas estradas cênicas, cruzamos cidades e vilarejos, campos dourados, ovelhas, bosques, olivais, carvalhos centenários, paisagens verdejantes e rochosas, vales férteis e riachos lentos. Vimos castelos e palácios, touros e mouros, vinhos e cavalos, antigos moinhos e modernos geradores de energia eólica.

 

                       Sentimos o sabor da deliciosa comida - do Rabo de Toro ao Gaspacho Andaluz -, ouvimos o som da paixão flamenca entre leques e castanholas, enfim, vivemos o que foi possível e intensamente nesta curta viagem pelo interla Andaluzia momentos que nos levaram a paisagens magníficas, a cidades e aldeias encantadoras, a presenciar a vida rural e montanhosa.

  

                        Passamos por Bornos, Algodonales, Espera, Benaocaz, Villaluenga del Rosario, Olvera, Antequera, Arriate, Setenil, Ronda, Benao-ján, Ubrique, Grazalema, Benamahoma, El Bosque, Prado D’El Rei, Grazalema e Setenil, algumas das cidades desta região, de onde chegam as imagens mais conhecidas da Espanha, senão as mais emblemáticas: flamenco, toros, olivais, castelos, corridas, festas, procissões e a imponência monumental de Sevilha, de Granada e de Córdoba. Mas também nos encantamos com a singeleza das vilas de casas brancas, com tudo o que molda o caráter mais peculiar ao país. 

                         O legado dos mouros - expresso na riqueza artística, cultural e arquitetônica - coloca a Andaluzia no imaginário coletivo do resto do mundo como um lugar mágico e mítico. Viajar pela região equivale a mergulhar nessa sucessão de histórias, de fantasias, de contos de fadas, a ver imagens que por vezes encobrem uma identidade mais complexa, escondida em camadas mais profundas, ou seja, as raízes forjadas pela civilização muçulmana, uma das mais avançadas da antiguidade, e sua profunda influência na região. O legado cultural é tão dramático quanto é encantador.

   

                        A fabulosa infraestrutura turística da Andaluzia proporciona uma confortável, sedutora possibilidade de viagem, de conhecimento de raízes bem preservadas, de tesouros impecáveis, de impressionante patrimônio, de inigualável riqueza arquitetônica, de tudo o mais que se extende para além da Alhambra e do Generalife, da Mesquita de Córdoba, do Alcazar e da Giralda de Sevilha. É difícil recordar de outro lugar com igual conjunto de obras tão numerosas e monumentais, revestidas de tamanha personalidade e romantismo ressaltadas por tantos escritores, poetas e compositores do século 19.

 

                         Nascidas da imaginação de seus autores, os personagens românticos e passionais que forjaram esse caráter num cenário tão glorioso e épico “vivem” até hoje: a operária espanhola Carmen, da ópera “Carmen” - do compositor Georges Bizet -, o barbeiro “Fígaro” - de Rossini - e sobretudoDon Giovanni- de Mozart.  Assim a Espanha sempre surpreende o visitante, por seu conjunto de paisagens e monumentos impecavelmente, também atrai por sua irrepreensível infra-estrutura turística: com alguns dos hotéis mais românticos de todo o país: o Alfonso XIII, em Sevilha, o Parador de Arcos de la Frontera, o Parador de Ronda e o Parador de Granada, este último situado dentro do complexo da Alhambra e do Generalife.  

   

                        O ano 711 foi a chave da história antiga da Andaluzia, quando ocorreu a entrada do primeiro contingente árabe na região, facilitada pelos 14 km que separam o Norte da África da Espanha, ponto inicial para oito de séculos de ocupação muçulmana e difusão do islamismo. Ali o período do Califado de Córdoba foi o mais florescente, o que tornou a região o centro do Islã no Ocidente. Todavia, sua desintegração foi a oportunidade para que os reis cristãos do norte - após a unificação de Castela e Leão liderada por Fernando III - dessem curso à recuperação cristã da Andaluzia.

  

                        Os monarcas católicos encerraram aquele ciclo islâmico colocando no passado o esplêndido período de Al-Andalus com a queda de Granada em 1492. Todavia, sábiamente, católicos reconquistadores souberam manter o rico patrimônio arquitetônico islâmico e assumir naturalmente sua cultura, talvez a mais exemplar demonstração de uma inteligência tão incomum na era das invasões tão destruidoras.

  

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A Rota dos Pueblos Blancos

                         Um dos roteiros mais bonitos da Andaluzia é o que abrange as grandes cidades e as pequenas aldeias das províncias de Málaga e Cádiz, com ênfase especial nas  paisagens, natureza e tranquilidade da vida rural. As aldeias caiadas de branco resplandecem com a luz do sol da Andaluzia, e ainda que esta seja sua característica mais aparente, o patrimônio é o mais notável.  As montanhas que se estendem ao norte de Gibraltar em direção à Andaluzia e ao Mediterrâneo destacam-se no cenário do roteiro, especialmente na região entre Arcos de la Frontera e Ronda, nas serras de Grazalema, Serrania de Ronda e Los Alcornocales.

  

                        A melhor maneira de fazer a rota dos Pueblos Blancos é conduzindo um carro e passando por algumas das estradas que têm algumas das paisagens cênicas mais empolgantes da Espanha. Quase todo viajante gosta de independência em viagens e de intercalar o óbvio com o incomum, sair um pouco dos roteiros convencionais, de ter flexibilidade, algo possível alugando um carro. A viagem pelos Pueblos Blancos da Andaluzia é um mergulho de profundidade na história e na cultura, e a passagem por incríveis paisagens rurais, onde destacam cidades-monumentos como Arcos de la Frontera e Ronda, encarapitadas nas encostas, com ruas estreitas e românticas.  Arcos é a mais acessível delas a partir de Sevilha, fica a 90 minutos de carro. Ronda é uma das maiores cidades do circuito, também uma das mais espectaculares.

   

                        Nosso roteiro pela Andaluzia começou em Sevilha, onde ficamos três dias revendo uma das cidades mais encantadoras do mundo, que também nos serviu de base para uma viagem de um dia a Córdoba.  O roteiro de Jerez de la Frontera a Ronda contemplou uma noite em Arcos de la Frontera - marcando o início da jornada pelos Pueblos Blancos - e outra em Ronda, ao final do intinerário.  De Ronda fomos a Granada, onde ficamos três dias, encerrando ali nossa viagem à Andaluzia.  

  

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As distâncias de nosso roteiro entre as cidades

                         As pequenas cidades são bastante próximas entre si, conforme indica o quadro de distâncias abaixo. De Sevilha, em direção ao roteiro dos Pueblos Blancos, pela estrada A-4 (que em certo ponto passa a ser N-IV), continuamos até o desvio para a rodovia C-343. Nossa primeira escala foi em Arcos de la Frontera, ótima cidade onde há o Parador de Arcos de la Frontera.

  

                       Após esta seguimos em direção a Ronda, um percurso de num dia que passou por pequenos vilarejos. Em Ronda, há inúmeras opções de hospedagem, a mais notável delas no Parador de Ronda. Se tivéssemos mais tempo faríamos um roteiro cde 3 dias, parando e dormindo em pequenos hotéis em algumas cidades do caminho, também com ótimas opções para comer:

   

1) Jerez de la Frontera a Medina Sidonia: 36,9 Km; 2) Medina Sidonia a Arcos de la Frontera: 37,9 Km; 3) Arcos de la Frontera a Espera: 15,8 Km; 4) Espera (via Villa Martín) a El Bosque: 38,5 Km; 5) El Bosque a Algodonales: 30,1 Km; 6) Algodonales (via  Benaocaz, Villaluenga del Rosario, Olvera e Arriate) a Setenil de las Bodegas: 24,7 Km 7) Setenil de las Bodegas a Ronda (noite): 22,6 Km.

  

                         Neste roteiro, voamos do Rio a Sevilha pela IBERIA (via Madri), ficamos 4 noites em Sevilha, 1 noite em Arcos de la Frontera (a 85 Km de Sevilha), 1 noite em Ronda (a 65 Km de Arcos) 3 noites em Granada (a 175 Km de Ronda).

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Breve nota sobre a arte e arquitetura muçulmanas na Andaluzia

                        A arte muçulmana andaluza foi em parte influenciada por elementos gregos, romanos e cristãos. Uma nova expressão artística, foi especialmente perceptível na decoração de interiores e de monumentos. Como em toda arte decorativa islâmica, há quatro elementos básicos: caligrafia e padrões de vegetais, geométricos e figurativos. Conceitualmente é uma decoração profusa, caracterizada pelo horror vacui - o medo do espaço vazio  A geometria é muito importante no Islã, pois através dela é que determina-se a indivisibilidade de Deus. Nela, a forma perfeita é um círculo. Norma utilizada para criar outras razões. O projeto decorativo é simples: a aplicação dos princípios da simetria repetidamente, multiplicando ou dividindo. É uma arte mais intelectual, matemática, do que emocional, usando trançadaos, sinuosidades, zigue-zagues, xadrez, laços e estrelas.

  

                       Os motivos decorativos são obtidos através da repetição simples de linhas bloqueadas ou de elementos sobrepostos,  simetria que dá aos desenhos um efeito dinâmico e harmonioso.  O detalhe não prevalece sobre o conjunto.  Não há tensão entre os motivos, tudo é um equilíbrio só.  A repetição infinita dos temas é uma metáfora da eternidade que preenche tudo e uma forma de capturar a mutabilidade do universo. Fonte: Elena Sarnago Notivolo, A Decoração na Arte Islâmica: clio.rediris.es.

   

                         Contrariamente à crença popular, o Islã não proíbe a representação de figuras humanas e animais, exceto em locais sagrados, como nas mesquitas.  Por exemplo, os grandes palácios são cobertos por várias cenas de caça em mosaicos e afrescos, os banheiros possuem cenas eróticas e há diversas outras cenas simbólicas.

Fonte: Arte Árabe: www.artehistoria.com

  

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A seguir:

Córdoba e o esplendôr de Al-andalus

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NOTAS

 (*1)  A respeito da cultura muçulmana hispano-arábica, o autor escreveu "Crônica de la Conquista de Granada" (1829) e a versão "História de la Conquista de Granada" (Barcelona, Subirana,1861). Mas a obra mais conhecida desse tema certamente é "The Alhambra: a series of tales and sketches of the Moors and Spaniards", cuja primeira edição o autor dedicou ao pintor inglês David Wilkie, seu amigo e companheiro de uma viagem às antigas cidades espanholas, em particular as cidades de Sevilha e Toledo,  estimulado pelo amigo a escrever algo que pudesse ilustrar as relíquias dos tempos árabes que os faziam recordarem-se dos  contos das "Mil e uma Noites".  Em "Cuentos de la Alhambra" revela-se todo o interesse do autor nos temas islâmicos e na cultura árabe-espanhola, em especial a que se relaciona com o Palácio da Alhambra, antiga moradia da disnastia nazarí e um dos monumentos da arquitetura árabe-hispânica mais bem conservadas de toda a Andaluzia. Através de sua profunda observação e hábil narrativa, o autor transpõe para o texto literário as informações coletadas de suas investigações em arquivos históricos e junto à outros escritores e cronistas da época, sobretudo as lendas coletadas junto aos moradores com os quais conviveu no período em que habitou o palácio.

 (*2)  A Reconquista - ou Conquista cristã - foi o movimento católico ocorrido início no século VIII que visava retomar dos visigodos cristãos das terras perdidas para os árabes durante a invasão da Península Ibérica. Os muçulmanos não conseguiram ocupar a região montanhosa das Astúrias, onde resistiram muitos refugiados; aí surgiria Pelágio (ou Pelaio) que se pôs à frente dos refugiados, iniciando imediatamente um movimento para reconquistar o território perdido. A guerra tinha um objetivo: reapoderarem-se das terras e de tudo o que nelas existia. A ocupação das terras conquistadas fazia-se com um cerimonial: cum cornu et albende de rege, isto é, com o toque das trombetas e a bandeira desfraldada. A ideia de «cruzada» só veio a surgir na época das Cruzadas (1096). A reconquista de todo o território peninsular ocorreu por cerca de oito séculos, só concluída em 1492 com a reconquista do reino muçulmano de Granada pelos Reis Católicos Fernão e Isabel de Castela.

 (*3) Emirado e Califado de Córdoba: Abd el-Rahman III foi o líder sírio que estabeleceu o Califado de al-Andalus. Al-Andalus (em árabe: الأندلس) foi o nome dado à península Ibérica pelos seus conquistadores islâmicos do século VIII, tendo o nome sido utilizado para se referir à península independentemente do território politicamente controlado pelas forças islâmicas. De início integrado na província norte-africana do império omíada, o Al-Andalus seria um emirado (756–929) e posteriormente um califado independente do poder abássida (929–1031). Com a dissolução do califado em 1031, o território pulverizou-se em vários reinos Taifa. Com a reconquista dos territórios pelos cristãos, descendentes dos godos, que se refugiaram na região das Astúrias, no norte da península, num processo que ficou designado historicamente por “Reconquista”, o nome Al-Andalus foi-se adequando ao cada vez menor território sob ocupação árabe-muçulmana, na metade sul da península, aproximadamente a mesma área da antiga província romana Hispânia Bética, cujas fronteiras foram progressivamente empurradas para sul, até à tomada de Granada pelos Reis Católicos. A região ocidental da península era denominada Gharb Al-Andalus ("o ocidente do Al-Andalus") e incluía o atual território português. De uma maneira geral, o Gharb Al-Andalus foi uma região periférica em relação à vida económica, social e cultural do Al-Andalus. No entanto, o maior contingente de muçulmanos na Espanha era de berberes do norte africanos recém-convertidos ao Islã, hostis aos sofisticados burocratas governadores de Damasco. Eram  fundamentalistas religiosos e definiam o padrão das comunidades islâmicas na Espanha. Os árabes da Síria constituíam a aristocracia. 

FONTE: Wikipédia

Katmandu, Nepal - O velho esquecido

Posted on 04-4-2012 by Registered CommenterArnaldo Interata | Comments4 Comments | EmailEmail | PrintPrint

   

 Vida cotidiana em Bhaktapur e Katmandu

                        SERENDIPTY não é apenas a palavra mais difícil de traduzir, também é a mais bonita e romântica da lingua inglesa. Demonstra como nenhuma que todo idioma tem suas dificuldades. E que algumas palavras simplesmente não encontram correspondência noutras linguas. Serendipity é uma delas: não há um sinônimo, sua definição é quase poética, mais do que uma palavra, uma expressão, um sentimento. Explicá-la significa dizer que equivale à imensa alegria que sentimos quando encontramos algo tão inesperado quanto fabuloso, exatamente porque não o estávamos procurando.

 

 A Durbar Square de Bhaktapur

                        Felizmente a tal "serendipiticidade" tem me ocorrido com alguma freqüência, talvez mais notável depois que conheci seu significado. A mais surpreendente das vezes que me ocorreu o "acaso auspicioso", conheci minha doce Emília. Hoje, novamente, serendipity me aconteceu enquanto lia “A arte de viajar”, de Alain de Botton. E desta vez me salvou de um conflito ao escrever sobre Katmandu, Capital da distante terra do Nepal.

  

                       HÁ dias vinha tentando encontrar um caminho para descrever minhas impressões sobre Katmandu. Todas sem sucesso. Chegara a abandonar a intenção, mesmo que tivesse o destino enorme potencial. A despeito de seu poder de impulsionar mentes e estimular escritores, a dificuldade morava em mim, nada mais do que uma entre as tantas peças que escrever me prega: como dizer responsavelmente ao leitor que não gostei de Katmandu?

                       COMO fazer isso sem influenciá-lo negativamente? Seria possível transmitir-lhe opinião desfavorável sem contudo depreciar o destino? Como dizer ao leitor que não gostei de uma cidade, mesmo que seu patrimônio seja tão espetacular que a humanidade não poderia prescindir? "Inigualável", "incomparável" e "personalíssima" eram apenas três dos adjetivos que eu tentava selecionar para definir o lado positivo da Durbar Square. O outro lado da moeda, na velha Katmandu, não era nem tanto seu lastimável estado de conservação, mas o pior de todos os desleixos que pode lhe reservar o nepalês: a falta de valor. O desvalor que ele dá ao seu patrimônio arquitetônico.

  

                        EU me perguntava: “Que utilidade pode ter um blog que influencia negativamente seu leitor, assim ao ponto de desmotivá-lo?” Sobretudo com tão pouca informação disponível sobe o destino? Não consigo encontrar vantagem em transmitir opinião que de ante-mão eu saiba induzirá à desmotivação. Seria um preço muito alto a pagar o leitor que entra aqui esperando encontrar inspiração, mas esbarrar com tal leviandade.  Eu temo leviandades, todos sabem. Elas e as banalidades e superficialidades que abundam na Internet. Nada me desagrada tanto quanto demolir o desejo de um leitor em conhecer um lugar. Que dirá Katmandu!

  

                        VIAGENS são as parteiras do pensamento, dizia Alain de Botton na minha leitura de A arte de viajar. Longe de ser um guia turístico, o livro é um tratado sobre viagens. É filosófico, mas compreensível. Nele de Botton diz que Se nossa vida fosse dominada pela busca da felicidade, talvez poucas atividades fossem tão reveladoras dessa dinâmica quanto nossas viagens. A frase me bateu como uma faísca cerebral, desencadeou deliciosas reflexões, quase umas tormentas cerebrais. Não sem motivo: viajar, ler, escrever e fotografar tem sido o que me proporciona as melhores recompensas no lazer. Viajar, especialmente para destinos exóticos e incomuns - tal qual Índia e Nepal - tem me ensejado maravilhosas experiências de vida, prazeres bem mais além do que mundanos. Ler - pré-requisito inevitável ao bom viajante - remunera ainda mais quando é à luz dos que brilham na arte de fazê-lo bem.

  

                        POIS foi lendo os livros “A arte de viajar” e “Três cidades perto do céu - Srinagar, Rishikesh, Katmandu” - de Luciana Tomasi, um divertido, bem humorado relato de viagem à Índia e ao Nepal - onde encontrei o caminho para vencer as dificuldades de escrever sobre Katmandu. Os dois títulos foram, à sua ordem, minha “serendipiticidade”, o “feliz acidente”, a “agradável surpresa”, o “encontro acidental” que fez a diferença, tornou o “encontro casual” algo pra lá de bom e útil. No divertido livro da autora brasileira, daquelas três cidades que visitou, amou as duas primeiras e detestou a última, precisamente Katmandu. Eu o li antes de viajar. E ainda que me acendesse a luz amarela de atenção, me fazer reduzir expectativas até então elevadas, todavia opiniões contrárias costumam ter um efeito contrário em mim: em vez de afastar, atraem.

 

                      Opiniões negativas curiosamente funcionam como um estranha compulsão em conhecer aquilo que outros não gostaram. Eu preciso ter minha própria conclusão, afinal, já não me surpreendo ao gostar muito daquilo que os outros detestaram.  Freqüentemente o “não-gostar” de outros me prepara para que eu goste. Tem sido assim. E foi precisamente este o motivo de minha hesitação em escrever sobre Katmandu.  Sempre o que mais desejo transmitir ao leitor sobre um destino, seja qual for minha impressão, é  “Não acredite piamente no que eu escrevo. Vá em frente com seu desejo, confira com seus próprios olhos, viva a sua experiência e conclua tudo com suas legítimas e próprias opiniões!.

  

                      CONSIDERO meus leitores seletivos, diferenciados, exigentes, experientes. Ou, como se diz na gíria, "safos". Noto que eles reconhecem que boa parte do que se lê na Internet é fértil em injustiças, exageros, egocentrismos e esnobismos. , a tônica dos que escrevem amadoristicamente sobre destinos turísticos: sobram opiniões superficiais, inconseqüentes, primitivas e até mesmo toscas. São um verdadeiro desserviço turístico quando abusam de afirmações egocêntricas e herméticas, tais como "Não vá!" (como se dissesse "porque eu não gostei!").  No lado oposto estão as sugestões ponderadas,  as que mais aprecio e valorizo, do tipo "Vá sim, mas...". São as maior valor, que melhor preparam o leitor, que o induze a ir ao encontro, a tere sua (dele) própria opinião, ainda que eventualmente igual.

 

                        E então, afinal, como ficamos? Como dizer que não gostei de Katmandu?  

                        MINHA primeira tentativa foi tentar sair “pela esquerda”, atenuando minha irritação com o que vi, dizer algo como “não gostei mais ou menos", mas, convenhamos, não dá pra dizer algo tão ruim assim. Pensei então em definir um “não-gostei” menos concreto ou efetivo.  Pensei "Que tal dizer que não gostei “conceitualmente”?  Por certo uma invencionice, no mínimo falta de opinião e coragem de assumir posição, desisti prontamente ao imaginar que o leitor acreditaria que caí na esparrela do twitter e passei a definir tudo superficialmente, só porque é moda.  Como não estou a fim de demolir minha credibilidade construída a duras penas e confiança do leitor, digo que mesmo um escritor medíocre como eu precisa ter opinião e se posicionar, especialmente quando se trata de “prazer” e “desgosto”, ou de “amor e ódio” em relação a um destino.

 

                       Devemos ir ou não a um destino que desejamos porque alguém teve impressão contrária à nossa?  Foi Alain de Botton que me fez compreender que nem todas as respostas às nossas dúvidas alcançamos ficando em casa: é preciso viajar, ir ao destino: "Estamos familiarizados com a idéia de que em viagens nossa realidade não corresponde às nossas expectativas." Bingo!

   

                        POR que então, mesmo presenciando exemplos tão fabulosos de patrimônio arquitetônico nas praças Durbar de Katmandu e Baktapur não gostei do que vi? Simplesmente porque há destinos que ao exercerem uma atração quase sobrenatural, também desencadeiam fortes expectativas. Ainda que perigoso, é uma verdade. Foi assim com a Índia. Só que ali, desde o primeiro encontro, ela tornou-se o melhor de todos os destinos que já visitei. Katmandu, todavia, exigirá mais de meu tempo, sobretudo para não ser injusto. Esse tempo ainda não passou o bastante para que eu aceite o estado deplorável de seus notáveis templos e palácios, o pouco caso que nosso guia fez ao ser perguntado porque tratam aquilo daquele jeito. Sua resposta sonsa, foi me perguntar tempos depois se eu estava menos "nervoso". Para não mandá-lo tomar chai no meio do Everest, assumi que sim, "estou mais tranquilo".

  

                       AINDA que em viagens meu olhar sempre esteja mais complacente, receptivo, simples e doce, não consegui “engolir” Katmandu. Desceu mal. Ficou um gosto amargo. Não digeri o futuro incerto que o tempo, descaso, sujeira e pombos costumam reservar a patrimônios tão antigos e frágeis. Não me reconciliei com Katmandu. Tão logo comecei a escrever, a rever fotos, a ler anotações, só resgatei melancolia. A mesma que senti presenciando algo tão magnífico quanto deprimentemente desleixado. Saí do Nepal como se tivesse visitado um velho pobre e doente. Deixei o país profundamente irritado com o fato do velho ter sido largado, esquecido, desvalorizado que é. Triste ao olhar pra ele e perceber que não resistirá muito. A poluição visual esconde a herança espetacular, a sujeira de pombos corrói as pedras, madeiras e o metal. Mas ninguém acredita que sejam seus templos e palácios o maior patrimônio do país, senão o Everest.

  

                       ARDE no estômago a história de sofrimento que elvolve o Kumari Bahal, uma das atrações de Katmandu. A “Casa da Deusa Viva” há séculos abriga menina-deusa, eleita aos 4 anos, sob métodos e critérios de seleção esdrúxulos. A crendice estabelece que o status divino terá duração definida: apenas até a puberdade, quando os “flúidos impuros” da primeira menstruação lhe roubarão a condição de deusa. Desqualificada, a então mulher ex-deusa voltará pra casa, a mesma de onde foi retirada na infância, a contragosto. Não sem muito trabalho a nova seleção de candidatas a deusas se iniciará obedecendo a um roteiro de esquisitas ações.  

 

                       FOI preciso retornar, reler anotações e concluir a leitura de Kathmandu Valley, de Robert & Linda Fleming (*) a fim de reordenar os pensamentos, aplacar a indignação, acalmar os ânimos e reaver minha vontade de escrever sobre Katmandu. Escritores, poetas e historiadores não se cansam de elogiar este notável espaço urbano e seus inúmeros monumentos, todavia cobertos de sujeira e fezes de pombos, de ervas daninhas nos telhados e fendas, tudo com lastimável aparência. Mesmo com toda a sua originalidade, imponência e personalidade arquitetônica, é tudo “quase-feio”, fruto da desordem urbana e civil, da falta institucional de peocupação com sua manutenção e do apreço de seu povo pelo patrimônio. Foi por esta falta de amor que “não gostei” de Katmandu. Ao menos conceitualmente.

    

                        Grande abraço, leitor. E não deixe de ir a Katmandu!

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(*)  O curioso processo de seleção e escolha das candidata a deusas é rigoroso. A escolhida, acredita-se, é a encarnação da Deusa Taleju, versão nepalesa da deusa Durga indiana. Será deusa até sua primeira menstruação, doença grave ou perda de sangue proveniente de alguma lesão. A atual deusa foi escolhida aos quatro, em outubro de 2008. Para ser reconhecida como deusa a menina deve vir de uma família budista, além de cumprir outos quatro critérios, entre eles ter um corpo impecável e sem marcas, um rosto perfeito com características e critérios “técnicos” insondáveis de avaliação. Em terceiro lugar são dados a ela um conjunto de objetos bem semelhantes ente si a fim de que ela aponte um que tenha sido usado pela última deusa. Finalmente, as jovens candidatas permanecem numa câmara fechada para que passem uma noite com os restos de 108 búfalos decapitados. A criança que não chorar ou demonstrar medo será escolhida como deusa. Uma vez selecionada a menina é removida da sua família e levada para a casa de Durbar Square, onde viverá na clausura e será cuidada por uma família de sacerdotes, que acreditam que assim que ela derrame qualquer sangue, a deusa deixará seu corpo. Normalmente as meninas são cercadas de cuidados até atingirem a puberdade, quando nenhum cuidado as impedirá de menstruarem. Embora privilegiada a vida, depois que deixam de ser deusas, tornam-se infelizes, porque é raro encontrarem um homem disposto a se casarem com uma ex-deusa.

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“A arte de viajar” - Alain de Botton - Editora Rocco - ISBN 85-325-1578-9

“Três cidades perto do céu - Srinagar, Rishikesh, Katmandu - Luciana Tomasi (Editora Artes e Ofícios) - ISBN: 978-85-7421-192-3

“Kathmandu Valley” - Robert & Linda Fleming - Allied Publishers - ISBN 0-87011-328-3

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A seguir

A Katmandu no Século 21

Varanasi. Morte, um evento positivo

Posted on 03-29-2012 by Registered CommenterArnaldo Interata | Comments7 Comments | EmailEmail | PrintPrint

Varanasi, bons momentos para meditação e fotografias                  

                 O BARCO escorregava silencioso nas águas leitosas do Ganges. Íamos em direção ao Ghat Manikarnika e de longe víamos as fogueiras refletindo na superfície calma do rio. Junto a outros barcos, estacionamos a alguns metros da margem do rio. Passamos então a exercer aquilo para o qual todos vão ali: o voyerismo das cremações. Sentimos o peso da experiência, mas não foi desagradável, tampouco incômodo, senão incrivelmente bonito e digno, ainda que triste. Tudo é pesado e solene, mas natural e corriqueiro. Até o silêncio dos expectadores. Sentimos no máximo uma perversão às nossas faculdades de percepção e compreensão, como se estivéssemos num mundo paralelo.

                 Os grandes e altos edifícios por trás do flanco do rio são crematórios, ghats elevados, extremamente antigos, assombrosos, cobertos por centenas de anos de fuligem e cinzas da queima dos mortos. O aspecto desses ghats elevados é espantoso, extraordinário, maravilhoso. Por todo lado assistíamos eventos em diferentes estágios, de corpos sendo trazidos sobre macas de bambu - marcando o início do processo - às cinzas despejadas solenemente no rio - definindo seu fim.

                Parentes e amigos circulam ao redor das fogueiras e observam o corpo que será reduzido a cinzas, última homenagem necessária à que sua alma alcance o tão almejado moksha, a libertação do ciclo de vida, de morte e de renascimento. Rama nama hai satya .... rama nama hai satya ... rama nama hai satya... O mantra é cantado enquanto dão voltas ao redor da pira, o fogo ainda não foi aceso, o cadáver está embrulhado em chita. Não nos aproximamos ao ponto de sentirmos o odor de carne humana queimando, não ficamos horrorizados, nem mesmo desconfortáveis, sequer com nosso voyerismo. Mas não poderia supor que assistir aquilo me deixaria tão fascinado, experimentando um encantamento estranho. De todo modo o que sobrou foi um privilégio imenso de ter podido presenciar algo tão dramático e comovente, digno e incrível. Que experiência!

                DasaswamedhManikarnikaHarischandra são os 3 mais proeminentes dos 84 ghats de Varanasi. Palcos das mais incríveis demonstrações e extravagâncias, de fé e crenças de atividades cotidianas e comerciais. Por trás deles há incríveis construções mogóis e contemporâneas. Ainda mais atrás ficam os galis, os becos labirínticos e estreitos, bastidores dos ghats. Olhando-os desde o rio eles são contínuos, podemos caminhar por eles sem interrupções. Ao menos até onde os olhos podem ver. Cada qual tem sua própria utilidade e história. Alguns são impressionantes em grandiosidade e beleza, outros bem mais simples.

               Uma das curisidades mais interessantes do Marnikarnika Ghat é que ao contrário dos lugares de cremação do resto da Índia, as outras são localizadas nos limites das cidades. Em Varanasi não, a cremação é feita no centro da cidade, no seu lugar mais importante, central e auspicioso. Vem daí a natureza tão especial que esta cidade tem, além de sua enorme importância para os hindus.

   Atrás dos ghats, de frente para o rio, há incríveis construções

                  VIMOS vacas, sadus, gente de todos os tipos, simples, trabalhadores, donas de casa, escolares, mendigos, moradores de rua, além de vacas, cães e macacos. Todos pisam (ou deslizam) no chão ora marcados por fezes de vacas, ora coberto de lixo ou da sopa milenar, o misto daquilo tudo. O momento que antecede ao do encontro com um ghat, o mais auspicioso lugar de Varanasi, diante do mais auspicioso rio da Índia, é energético, penetrante. Fomos de barco a primeira vez, a pé e sozinhos, na segunda. Caminhamos seguindo a margem do rio, sempre importunados por touts. Ouvimos sinos, vozes de crianças, jovens em diversão, músicas, vendendores, mulheres fazendo suas atividades domésticas, desocupados, contempladores, yogues.

  

 Presenciar cremações não foi dramático, mas comovente, digno, incrível

                 Não houve espanto, angústia ou dor, mas curiosidade legítima, respeitosa. E reconhecimento, admiração, ainda que tudo acompanhado de uma breve subversão às noções de tempo e de espaço, de lógica e crença, de fantasia e realidade. Como num estado alterado de consciência, sobretudo porque a morte aparentava ser muito familiar e positiva.

    Não houve espanto, angústia nem dor. Apenas curiosidade respeitosa, admiração

                  Talvez esta seja a única cidade do mundo onde turismo e morte não se opõem, assim como ciência e religião também não em toda a Índia. Varanasi nos proporcionou mil sensações, uma quase incrível diversidade de sensações, especialmente as que sentimos nos ghats. De serenidade a êxtase,  circulando por eles ou simplesmente os observando e à sua gente bebendo chai, orando, "lavando" roupas, jogando críquete, meditando, cortando cabelos, limpando ouvidos, varrendo cinzas, tudo fluindo naquela naturalidade bastante indiana. Aparentemente caóticos, são na verdade extremamente organizados, funcionais.

 

 Fomos de barco a primeira vez, a pé e sozinhos, na segunda 

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SAMSARA, o último sacrifício 

                 ENTRE as muitas crenças populares hindus há a de que sua alma passa por um processo de sucessivas vidas, chamadas samsara. E que uma reencarnação reflete a vida passada, ou karma, não a presente. E que cada indivíduo é responsável por suas ações na vida (bem, nisso eu acredito!), ou seja, deve assumir as conseqüências de seus bons e maus karmas. E que o pobre coitado que vier depois pagará pelos maus atos na próxima vida.  

Cremação, o último sacrifício 

                O último sacrifício do ciclo da vida, ou samsara, é o alcance do moksha, precisamente o fim deste ciclo de nascimento, morte, renascimento, remorte. É o quarto e último artha, que transcende a todos os demais arthas. Se possível um hindu prefere morrer em casa, quando então o membro mais velho da família acende uma vela, coloca-a sobre o corpo posto na entrada da residência e com a cabeça voltada para Sul, quando então é banhado, ungido com sândalo, raspado na cabeça e na face, se for homem, e finalmente envolto num pano de algodão e conduzido para a cremação que deve ocorrer no dia seguinte ao da morte.

   O fogo cresce e jamais perde potência

                   TODOS então posicionam-se ao redor da pira no flanco elameado do rio. A terra adquiriu a cor das cinzas. Deve ser desta cor há séculos, desde que Varanasi existe, antes de Babilônia, de Roma e de Atenas, cidade mais antiga do mundo que é. 

                    Ajeitam o corpo embrulhado num pano laranja e dourado. Colocam-no sobre a pira funerária os parentes masculinos.  Entoam-se orações para Yama, o Deus da morte. O fazem caminhando três vezes ao redor da pira, sempre no sentido anti-horário. Na cama funerária os pés do morto devem apontar para o Sul, direção do reino de Yama. A cabeça, para o norte, aponta para o reino de Kubera, Deus da riqueza. Acesa a pira, o corpo passa então a ser uma oferenda a Agni, Deus do fogo.

 

 Se uma não for suficiente há 15 cremações por hora

                 O fogo cresce e jamais perde potência, alimentado pelos Dom, os trabalhadores da casta mais inferior, encarregado de manter a cremações, depois colocar as cinzas em potes e entregá-las a um dos parentes do morto, que então as soltará no rio, marcando o término da cerimônia e do processo de reencarnação. As mulheres não participam do funeral. Dizem que por serem mais sensíveis que os homens, pois choram e suas lágrimas, assim como qualquer flúido corpóreo, são impuras e inadequadas àquele momento.

                 Mas a verdade não é essa, e nada como conhecê-la: os britânicos proibiram-nas nos funeráis no início do século XIX, quando já não podiam controlar as viúvas inconsoláveis e descontroladas que suicidavam saltando sobre as fogueiras, queimando-se com seus maridos. A prática era muito comum, um ato de devoção final, a imolação a que se chamava sati. O folclore diz que mulheres não participam porque choram demais. Não acredite nisso. Presenciamos um funeral hindu no Nepal onde a viúva sofria e chorava abraçada ao seus filhos e debruçada sobre o corpo do marido, permanecendo todo o tempo ao lado da pira.

Ritual hindu de cremação em Pashupatinath, Katmandu - Nepal

                  EM rigor mortis o corpo espera a cremação sobre a pira. Embaixo dela ficam os troncos mais grossos, acima os mais finos. Espirra-se a água sagrada do rio, lavam-se os pecados, purifica-se a alma. Retira-se o tecido enfeitado revelando um corpo esguio envolto num pano de algodão fino e branco ou laranja. Outras piras queimam em diferentes níveis do ghat. Quanto mais perto do Ganges, mais barata a cremação, próprias para as castas mais baixas. Quanto mais alta a casta, mais ao alta será a pira, até mesmo em terraços, lages de concreto, plataformas onde também queimam-se corpos com a mais alta qualidade da madeira. Outros corpos vão chegando. Cerca de trezentos serão cremados durante todo o dia. O céu ficou enegrecido acima do ghat e nosso barco começou a retornar ao ghat de embarque. Observamos as luzes nos prédios antigos e as velas flutuantes lançadas ao longo do rio. Também lançamos nossos pujas, um doce momento em que lançamos nossa ofenrenda ao rio e fizemos nosso pedido à Deusa Ganga, segundo nos orientou nosso guia. Ao fim, curiosos um com o pedido do outro, não nos surpreendemos por terem sido o mesmo.

 

       Não há quem não saiba as regras: é proibido fotografar. 

Mas o voyerismo muitas vezes não é suficiente, então disparam-se câmeras.

O que nem todos sabem são as sérias conseqüências disso.

                     Os cerca de 80.000 restos carbonizados são lançados no rio anualmente, além de corpos inteiros de grávidas, crianças, leprosos e dos que por motivos hindus morreram e não podem ser cremados. Peregrinos nadam e bebem desta sopa de cadáveres e cinzas humanas, leitosa e espumante, com milhares de vezes mais coliformes fecais e metais pesados do que recomenda a Organização Mundial de Saúde da ONU (*). E acreditam na cura do corpo, na purificação da alma e nos milagres da sopa. Muitos dos que assistem sabem que estarão ali em breve, protagonizando, em vez de assistirem, mas nenhum deles acredita que por conta de ter bebido aquilo. E assim segue Varanasi o seu ciclo milenar de vida e morte, confundindo quem espera encontrar espiritualidade em estado puro, o “encontro consigo mesmo” ou outras procuras e sentido para suas vidas. Estes devem sair mais conturbados, do que quando chegaram, creio eu. Penso que se Varanasi tem potência de agir assim na cabeça dos não espiritualizados, imagino o que deve provocar nos que acreditam em tantos deuses, santos e vivem eternamente em busca do que não se prova nem se explica.

O Sol nascendo no Ganges 

                 OBSERVO a tudo e me pergunto: “Quantas Índias há na Índia?” A da erótica Khajuraho, a da imponente e histórica Delhi, a da magnífica Udaipur, a da gigantesca Mumbai, a da sagrada Varanasi? Há muitas mais do que eu possa imaginar, talvez menos quantas meus olhos consigam enxergar e tantas quanto eu gostaria de conhecer. 

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UM passeio de barco no Ganges

                   SÃO 5 e meia da manhã. Faz quase frio. É fevereiro, estamos em Varanasi, no típico inverno indiano, prestes a entrar no barco para o passeio pelo Ganges. Nosso primeiro destino é o Manikarnika Ghat, maior e mais importante crematório de toda a Índia, cerca de 2 km rio acima desde o Dashashwamedh Ghat, principal e mais espetacular de Varanasi, nosso ponto de embarque.  

São 6 e meia da manhã, estamos no Ganges, em Varanasi 

                  VARANASI, chamava-se Benares, e antes disso, Kashi. O Rio Ganges é seu maior patrimônio. Para os hindus, se a Índia é o corpo, o Ganges a alma. Eles referem-se assim ao rio, a “Alma da Índia”, e adoram-no com uma deusa que traz prosperidade e serve de lavatório dos pecados humanos, não tanto como um irrigador de campos ou um lavanderia de roupas e animais, abastecimento de cidades e destino de esgotos. Mas para todos Varanasi tem seus efeitos: acentua a humildade, despe vaidades, faz refletir, leva ao entendimento e perturba egocêntricos.

  

Às oito e meia da manhã, estávamos voltando a pé por um dos galis 

                 A imagem panorâmica do horizonte é incrível nos 4 km de ghats ao longo do lento rio. São mil detalhes e movimentos, são dezenas de edifícios antigos. É uma história milenar, além da melhor e mais bonita seda de toda a Índia. São os passeios de barco, o anoitecer na beira do Ganges, o cuidado solene com que lançamos nossas pujas ao rio, as velas acesas seguindo o ritmo lento das águas leitosas, os estreitos, labirínticos galis ora pujantes, ora desérticos. São momentos tensos, são os macacos, as vacas agressivas, as matilhas de cães vadios assustadores disputando território, é o lixo milenar, o comércio da morte, são os homens sagrados e outros nem tanto, são os aproveitadores, são corpos cremando, são cinzas lançadas.

  

Há muito mais vida na cidade da morte 

                   São as lenhas empilhadas, as fogueiras enormes, as chamas luminosas, os jogos de cricket, os touts, os peregrinos, os desocupados, estrangeiros, convertidos e observadores, hippies, pós-hippies, neo-hippies, peregrinos no banho sagrado, gente em contrição, as águas sagradas putrefatas, os lavadores de lençóis um dia brancos, o misticismo, a realidade, o exotismo, a simplicidade, a vida e a morte. O sol ainda não nasceu, mas ameaça no horizonte. Os becos de Varanasi já começam seu movimento, ainda que longe do burburinho do dia pleno.

   

                     A vida turística começa cedo em Varanasi

                   OS passeios de barco são comuns, turísticos, extremamente divertidos e interessantes. Fizemos o nosso num barco privativo onde além de nós, estavam apenas nosso guia, um indivíduo incrível, e o condutor, no comando dos remos. Não há outra maneira de conhecer os ghats nesta dimensão, com o enquadramento visto do rio. Desliza-se pelo Ganges e cenas incríveis desfilam diante de nós, algumas que jamais esquecerei, especialmente a imponência dos edifícios antigos, as fogueiras ardento, os banhos sagrados e toda a vida que segue há milênios da mesma maneira.

 

Nos ghats há vida, bem mais do que morte. Até joga-se criket   

                  O Manikarnika Ghat tem status mais elevado entre os ghats de cremação. É o mais caro. Presenciá-lom desde o rio é intoxicante, não pela fumaça, mas pela complexidade que é assistir corpos humanos cremando a céu aberto. Foi uma da melhores atividades em Varanasi. Mas também gostamos das cenas diferentes não relacionadas à morte, como a dos dhobi wallahs, homens e mulheres que "lavam" roupas nas mesmas águas. 

                 Todavia, uma vez na Índia, muitos conceitos e valores são revistos. Especialmente os ocidentais. Observa-se, por exemplo, que a limpeza não está associada ao sagrado como no ocidente. Ao contrário, parece ser a sujeira. Há esterco de vaca e búfalo, fezes de cãos, macacos, humanos nas ruas. Os homens santos são sujos, as ruas são sujas, os ghats são sujos, os templos são sujos, os homens sagrados são sujos, os mendigos, sujos, têm seu valor, não são afastados para as periferias. Leiteiros lavam seus galões, lavadeiras suas roupas, crianças mergulham, pessoas escovam os denets. E mesmo convivendo com tanta sujeira os indianos não são um povo doente, ao menos mais do que qualquer outro. 

  

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Notas para quem quer saber mais: 

(*) Contraem-se de Febre tifóide e poliomielite a icterícia e inúmeras outras sérias doenças transmitidas pela água do Ganges. Por normas oficiais suas águas apresentam, na média, mais de 500 bactérias coliformes fecais por 100 ml de água, o que o torna considerado impróprio até para se tocar, que dirá beber. Mas no trecho de 6,5 km dos ghats de Varanasi o Ganges chega a apresentar 60.000 bactérias por 100 ml. Em Varanasi o governo do Estado de Uttar Pradesh construiu três estações de tratamento com capacidade total de cerca de 100 mil litros de esgoto por dia. Mas Varanasi já produzia 150 mil litros quando elas foram construídas e já agora produzem duas vezes esse montante. Além disso, as plantas raramente operam em plena capacidade, em razão dos freqüentes cortes de energia e dos fluxos de águas residuais não tratados no Ganges. Durante a estação chuvosa, que dura em torno de cinco meses cada ano, o rio inunda e traz de longe ainda mais dejetos.

 Há oficialmente 84 ghats - as escadarias em forma de arquibancadas - em Varanasi para diferentes finalidades. Construídos ao longo dos séculos, alguns estão relacionados à eligião hinduísta, isto é, aos banhos sagrados dos rituais hinduistas, ou pujas, assim como outros usados para lavar roupaso gado, e para “higiene” pessoal. Os crematórios, ou Shmashan ghats, são destinados à cremação. Crianças e mulheres grávidas (por que crianças são puras e mulheres que as levam no ventre também), leprosos (pois há risco de contágio), e pessoas que morreram por picadas de cobras venenosas não são cremados, apenas lançadas no rio, assim como os restos dos corpos incinerados, que por nunca se queimarem por completo, não raro encontram-se boiando nas águas imundas do Ganges. Alguns dos mais importantes são os ghats Assi, Dasaswamedh, Manikarnika, Tulsi e Panch Ganga. Os ghats são de longe os lugares mais coloridos, fascinantes e surpreendentes de Varanasi. Entre os mais populares estão o Dashaswamedha ghat, o Manikarnika ghat, o Harishchandra ghat, o Assi ghat e o Lalita ghat, cada qual com sua história e importância. Cada ghat foi construído por um rei medieval diferente e foram inspirados segundo cada própria mitologia. 

Um funeral completo custa entre 12 e 70 dólares. O filho mais velho então raspa a cabeça e barbeia o rosto, no caso de ser seu pai, obtém a certidão de óbito do governo e combina a cremação o ghat, compra madeira para a queima do corpo - entre 200 a 300 quilos -, mais incenso ou sândalo para amenizar o cheiro terrível de queima a carne e o cabelo. Nem todos podem pagar pela melhor, e mais cara, madeira para toda a fogueira, o sândalo. O ideal de uma cremação perfeita é que ocorra em até no máximpo 12 horas depois da morte ou, o mais tardar, antes do Sol se pôr no dia seguinte, caso a morte tenha ocorrido no final de uma tarde. Normalmente o filho mais velho realiza os ritos funerários, o que inclui acender a pira funerária após a colocação de uma vara ardente na boca do falecido. Somente filhos podem realizar ritos fúnebres. Há pouco luto quando morre um hindu, porque acreditam que uma vez que uma pessoa nasce nunca morre, rão porque não se vêm muitas pessoas chorando nos funerais, mas também porque os indianos querem demonstram respeito, não tristeza, ou, ainda, porque acreditam que os mortos estarão a partir dali num mundo muito melhor do que aquele que viveu. Tradicionalmente as mulheres não participam das cremações porque eles podem chorar, e suas lágrimas, assim como todos os fluidos corporais, são consideradas impuras, portanto, elas váo até ajudar a arrumar o corpo para a cremação, mas nada além disso. As piras funerárias muitas vezes contêm cânfora, sândalo e outros perfumes. Uma típica pira é feita com cerca de 300 quilos de madeira. Famílias ricas usam mais madeira e em geral de melhor qualidade. As pobres usam esterco de vaca em maior quantidade que madeira. Um corpo demora de três a quatro horas para queimar. O fogo é deixado queimando a madeira e durante esse tempo espera-se que o crânio exploda para liberar a alma ao céu. Quando o fogo esfria e o crânio ainda não se rachou o crânio, o filho mais velho o golpeia, abrindo-o.

(*) Galis são as ruas estreitas de Varanasi, por trás dos ghats, labirínticos, com residências e comércio, escolas e templos, venda de alimentos, vida urbana, albergues, lojas de especiarias e de apetrechos para as cremações e cultos. Vacas misturam-se às bicicletas, gente e cães. Por vezes ficam “estacionadas” defronte às casas de seus proprietários, já que não há quintais para criá-las. Algumas parecem não ser de propriedade de ninguém. Vira-se uma uma esquina de um beco estreito e depara-se com uma vaca e um pequeno santuário sem saber ao certo para qual devemos prestar atenção. Há muito o que ver neles. Explorá-los pode ser tão ou mais incrível do que aos ghats. Os mais indicados a explorar são o Vishwanath Gali, Kachauri Gali, Thatheri Bazar Gali e Khoa Gali, entre outros.

A Day in Varanasi (by Sven Dreesbach) - Documentário não narrado, com 10 minutos de duração, o qual - bem filmado - que mostra a vida cotidiana ao longo do rio Ganges. http://vimeo.com/4098527

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A seguir: Um passeio a Sarnath

 

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