MENSAGEM ao LEITOR
BIO

BEM-vindo!

          EU gostaria que minha vida tivesse sido inteiramente dedicada às viagens. E também a escrever sobre elas. Viver das palavras, fotografias e leitores. Mas reconheço que tenho sorte: posso viajar pagando por minhas viagens e escrever sem que tenham que me dar dinheiro por isso. Sobretudo poder compartilhar aqui com vocês sem qualquer compromisso não legítimo.

         Sou brasileiro e empresário, casado com a doce Emília do blog "A Turista Acidental". Desde que a conheci e antes mesmo de nos casarmos, tornou-se a mais-que-perfeita companheira de vida, de idéias, de projetos e ideais. Era de esperar que também se revelasse uma encantadora e inspiradora companhia de viagens e aventuras. Com ela passei a compreender o que significa "prazer de viajar". Foi (e continua sendo) minha melhor fonte de inspirações e motivações viajeiras. Tanto que qualifico minhas viagens como "antes e depois" dela, assim como "antes e depois" da Índia. Não por outro motivo percebi o que quis dizer Érico Veríssimo quando definiu que "Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado certamente chegará mais longe." 

      Passei a escrever também ainda mais inspirado e com maior entusiamo. Agora, que estamos grávidos de gêmeos - uma menina e um menino que nascerão em julho próximo -, embora nada tenha isso a ver com um blog de viagens, provavelmente terá muito com o futuro deste aqui. Ou porque teremos que "dar um tempo" nas viagens ou porque se viagens nos motivam e inspiram, agora com os gêmeos ainda mais. Sabemos que entre intenção e atitude há um mundo a separá-las. Mesmo assim sonhamos levá-los a destinos interessantes tentar neles despertar e cultivar o interesse pelas viagens. Como todos os pais, também queremos o melhor para nossos filhos, e também temos nossas dúvidas. Sobretudo do que efetivamente seja o "melhor" para eles. Inclusive viajar. Mas se seus pais divertem-se e aprendem tanto viajando, se as viagens representam tanto em nossas vidas, natural pensarmos em levá-los conosco. Esperamos encontrar idéias criativas para destinos incomuns e aproveitarmos as oportunidades para despertar-lhes a curiosidade e o entusiasmo com as viagens.

        Tenho 63 anos, boa parte deles dedicados à família e ao trabalho. Aos 35 comecei a viajar internacionalmente. Desde então visitei 60 países, entre os quais alguns dos mais fascinantes e que abrigam sítios dos mais admiráveis do planeta. Felizmente para alguns deles quando ainda estavam a salvo do turismo de massa, cujos excessos arruinam qualquer lugar. Em março de 2006, quando iniciei este blog, ele era um meio de comunicação. Pensava que se limitaria aos amigos e familiares, mas tomou outro rumo, provavelmente porque muitos achavam que meus textos e fotos eram bons, porque os destinos que visitava eram atraentes. DEsses países que visitei, para alguns países retornei tantas vezes que tornei-me íntimo. Para outros, uma ou duas mais apenas, freqüência que todavia ainda não me esgotou deles. Em cerca de 90 viagens internacionais, voei por 40 cias. aéreas diferentes (algumas extintas) em 391 vôos para fora do Brasil e dentro de outros países. Segundo o Haroldo Castro - jornalista-fotógrafo que já esteve em 160 países -, fazendo o teste "Viajologia" em seu site (que considera não só países visitados, mas lugares, monumentos e patrimônios, além de transportes, experiências e situações em viagens), alcancei "Mestrado em Viajologia". Mas isso não é nada, ou quase nada diante de gente que tem pós-doutorado em viagens. Se eu conseguisse resumir o que esses quase trinta anos viajando me proporcionaram em termos de aprendizado, diria que perceber que quanto maior a flexibilidade de adaptação aos ambientes, mais e melhor consigo extrair deles foi o mais útil. Incontáveis marcas as viagens me deixaram, entre elas a simpatia e a humildade legítima dos birmaneses e dos uzbeques, entre os povos mais doces e inesquecíveis com quem tive o privilégio de conviver.

Escrevo este blog sob uma perspectiva lúcida e sem concessões à monetização

        O que me motiva? Muita coisa me motiva. Viajar uma das maiores. Mas e aqui? O que me motiva neste blog? Fazer diferente e com qualidade. Incentivar, motivar e inspirar o leitor, o que pra mim escrever é puro prazer. Eu acho o mundo muito, muito bacana. O que há de mais atraente nele é justamente ser tão diferente. E quanto mais geográfica e culturamente distante de casa, maior minha curiosidade por ele. Culturas estranhas não me estranham, atraem. Quanto mais difíceis, maior atração me despertam. Mas é curiosidade saudável, respeitosa, responsável, não consumidora.

         Ainda que nada me pareça mais excitante do que viajar, também gosto bastante de fotografar e escrever. Desde a infância e juventude. Fazê-los sobre viagens tornou-se natural, ainda que o blog tenha sido tardio. Foi em março de 2006, quando o criei como meio de comunicação com amigos e familiares. Depois tomou outro rumo, sobretudo o principal: inspirar e motivar leitores a viajarem. Mas jamais me atraiu ganhar dinheiro se isso significasse ter que escrever textos dirigidos por publicidade, compromissos financeiros ou em troca de viagens e hospedagens gratuitas. É a captulação à ambição, interesse e vaidade cegas. Propagandas são muito bem-vindas, claro. Mas continuo firmemente acreditando que os que escolhem o caminho mais fácil (a monetização sem critérios e a qualquer custo, sobretudo a enganação de leitores) e os que fazem igual à maioria têm efetivamente resultados mais rápidos, mas nem sempre melhores e mais duradouros.

         Não escrevo guias extensos e técnicos, postais sem conteúdo, algo para caber no Twiter mas histórias que, tento, sejam envolventes, que estimulem o eitor seguir adiante na leitura. Se funciona? Para osmeus leitores, sim

Agradeço a visita e os comentários. E desejo boa viagem!

Em tempo: não importa o estilo, admiro quem mostra iniciativa e paixão escrevendo um blog. Aqueles que descrevem ao seu jeito suas viagens e que refletem sobre os destinos que visitam. No outro lado, lamento os muitos que foram mordidos pelo bicho da monetização dos blogs, sobretudo os que "monetizaram-nos" irrefletidamente,  a qualquer custo, especialmente com perda de qualidade, credibilidade e admiração. Dos blogs amadores aos profissionais, muitos transformaram-se em exemplos lamentáveis de má gestão e amadorismo. Onde abundam os relatos de viagens pagas, patrocinadas e convite de órgãos oficiais de turismo. O que era um prazer de ler, tornou-se falso, comprometido, sem personalidade, Vendido. Tornaram-se escravos do que plantaram e defendem ardorosamente o conceito "monetizar custe o que custar".

Eu não viajo de graça. E não sou puxa-saco de destino algum porque ganhei dinheiro pra fazer isso. E não sou baba-ovo de blogueiro da "rede". E não vivo pagando-pau pra hotéis e companhias aéreas na esperança de ficar bem com o trade e conseguir gratuidades, vantagens, benefícios e privilégios pra viajar. Nada tenho quem ganha dinheiro com blog, desde que não iluda seu leitor. Este blog não aceita publicidade e press trips. Então, caro leitor, saiba que todas as viagens descritas aqui foram auto-financiadas, sequer  ocasionalmente viabilizadas através de parcerias com organizações de turismo, agências de viagens e afins.

Então, não tenho obrigação de falar bem do que quer que seja. A não ser legitimamente. Por isso é bom saber, caro leitor, que não aderi ao "esquema" corporativista da blogosfera que se protege e se incentiva mutuamente, aqueles que jogam no time da vulgarização das matérias em troco de dinheiro ou de convites para viajar. Nunca estive preocupado com a audiência deste blog se ela significasse a perda de credibilidade. Optei por ter poucos leitores, mas dos que gosto: espertos, que não caem nas lorotas de blogueiros vendidos, que sabem diferenciar enganadores que escrevem porque fizeram uma viagem gratuita. Sou admirador da enorme comunidade de blogueiros que escreve legitimamente e sem compromisso comercial.

Agradeço aos leitores que por aqui passaram. Em dobro aos que retornaram e em triplo aos que, como você leram até o fim do texto, provavelmente porque reconhecem e valorizam blogs como este aqui. Vocês todos são o único motivo de eu ainda estar por aqui. 

Este blog não integra nenhuma associação. Mas quando fundarem a ABBLI (Associação Brasileira de Blogs Livres e Independentes), por favor, me convidem.

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Quinta-feira
Jun252015

METRÔ de MOSCOU - A incomparável beleza de um subterrâneo

“Atenção, portas fechando. Próxima estação...Komsomolskaya

Komsomolskaya

                  NÃO há nada que já não tenha sido dito sobre o Metrô de Moscou. Contudo, quem escreve sobre viagens é teimoso, acredita que não haja nada que não possa ser contado de maneira diferente. Mesmo sobre algo tão batido, com a abundância de guias, mapas, relatos, jornais e revistas abordando o tema. Quem o faz é porque conclui como todos, não escapa da realidade unânime, incontestável: a incomparável beleza das estações do Metrô de Moscou.

                  Se neste universo o turista que pesquisa encontra um poço profundo de informações, se já existe uma coleção de bons guias de viagens a dedicarem capítulos exclusivos ao mais famoso e turístico metrô do mundo, concluí ser desnecessário e entediante produzir mais um “guia” de como explorar o Metrô de Moscou.  O que me motivou foi escrever algo para deixar o leitor curioso.

 O casamento de uma ideologia com um movimento artístico

A foice e o martelo, na Novoslobodskaya

                 O de Moscou não é um Metrô. Ao menos não apenas um meio de transporte de massa. É uma cidade debaixo da terra: 188 estações e 300 quilômetros de extensão. E atração turística. Cada qual com seu estilo, as estações revelam modas, épocas, triunfos e derrotas da metrópole e da própria nação. Mas não se engane, apenas as mais antigas e centrais - da primeira linha - são turisticamente interessantes, sobretudo artisticamente expressivas. Umas dez delas apenas. E da linha circular Kolhtsevaia, são as que devem merecer o interesse do visitante. São os melhores exemplos da extravagância arquitetônica stalinista, sobretudo nas estações Komsomolskaya, Novoslobodskaya e Kievskaya, ainda que a elas não se restrinjam. De resto,são como dos metrôs de todo o mundo: normais. E às vezes feiosas e sujas.

                   Os locais, já acostumados, parecem já nem ligar para a beleza do “palácio subterrâneo. Acostumaram-se a elas, é natural. Nós não. Percorríamos como se fossem salas de um museu de iconografias soviéticas glorificando o proletariado. Se andar de metrô é um ato ordinariamente útil e prático, no de Moscou é também observar espetáculos da arte aplicada à ornamentação arquitetônica.

Uma grande arquitetura para um estado de grande

Novoslobodskaya

                    Construído em fases sucessivas a partir de 1935, o Metrô de Moscou foi projetado para ser além de um sistema de transporte,  um símbolo socialistas da era stalinista, a crença no poder ilimitado da ciência e da tecnologia a serviço da melhoria da qualidade de vida de uma sociedade. Suas primeiras estações são uma interpretação do Realismo socialista aplicada na ornamentação, casando a ideologia política com a do movimento artístico.

                     Turística ou funcionalmente não é lá muito fácil explorar o metrô. Consultarmos o mapa e nos encorajamos na aventura, porque teóricamente tudo parece simples desse ponto de vista. Sobretudo para quem sabe, gosta, tem experiência e se movimenta bem em metrôs. Mas tratando-se do Moscou entra-se numa escala extremamente mais complexa.

Mayakovskaya

                  Além de sua função primordial, há alguns metrôs no mundo com estações que são obras de arte, intencionalmente transformadas em patrimônios arquitetônicos e culturais. Como as do Metrô de Tashkent, Capital do Uzbequistão, um espetáculo curioso, lamentavelmente proibidíssimo de fotografar. Tem estações extremamente bonitas ornamentalmente, a maior parte delas francamente inspiradas na "matriz" - a antiga União Soviética - com painéis propagandísticos e de orgulhosas conquistas. Como a estação Kosmonavtlar, dedicada aos cosmonautas soviéticos, entre eles Vladimir Aleksandrovich Dzhanibekov e Yuri Gagarin, primeiro homem a viajar pelo espaço, em 12 de abril de 1961, então a bordo da Vostok 1. Tive o privilégio de conhecê-las em outubro de 2012. E ainda que carregasse minha câmera no ombro, éramos tão vigiados que não me arrisquei a clicar. Lá em Tashkent são vinte e nove estações de uma linha de 36 km de trilhos, um dos melhores e mais conservados exemplos de arquitetura soviética, em grande parte inspiradas no de Moscou.

Novoslobodskaya

                  Voltando ao Metrô de Moscou, onde estive em abril de 2014, creio ser o único do mundo em que se pode passar uma manhã inteira sem entediar-se com a arte soviética da fase  do Realismo Socialista (*1), estilo (ou movimento) artístico que vigorou entre 1930 e 1960, e que além da arte representava-se na arquitetura e ornamentação.

                 A primeira linha do Moskovsky Metropoliten foi aberta em 1935. era única e tinha 11 km, conectada por treze estações que Stalim apelidou de “Sol subterrâneo” e “Paraíso debaixo do chão”. Artistas e arquitetos desenharam focados na luminosidade e no brilho, simulando o Sol incidindo 35 metros abaixo das ruas, como se fossem clarabóias.

Nem sempre está vazio, às vezes cheio demais

                  Abusaram, com bom gosto, de altos e baixos-relevos, de mármores raros, de símbolos, de estátuas de bronze, de lustres, painéis, mosaicos, vitrais, de imagens que lembram personagens históricos, anônimos ou não, como soldados e suas vitórias, ginastas, esportistas, ou então atividades como a indústria, a agricultura e a guerra. E o povo, claro: trabalhadores, agricultores e estudantes.

Entrada, é Vjod, mas está escrito ВХОД.

                  Confesso que eu não teria sucesso na intenção de percorrer o subterrâneo sozinho, mesmo seguindo o roteiro bem detalhado sugerido pelo Lonely Planet. Não fosse minha doce Emília (*2) compreender (para mim, decifrar) um pouco de cirílico, o passeio no Metrô de Moscou provavelmente teria sido impossível. Mesmo sendo experiente com plantas e metrôs do mundo. Não há indicações ou nomes escritos senão em caracteres cirílicos. Nas saídas das escadas que se unem a outras linhas, tudo se complica: Entrada, é Vjod, mas está escrito ВХОД. Saída, ou Vijod, escrito ВЫХОД. Trânsito, Pyerejod, fica assim: ПЕРЕХОД. A cada partida de estação, uma mensagem sonora avisa: “Atenção, portas fechando. Próxima estação...”, que eu russo soa assim: astarochna, dveri sakryvayutsa, slyeduchalla stantsia... 

Os locais acostumaram-se com a beleza. Nós não, percorríamos como se fosse um museu

                   As mais visitadas são Mayakovskaya (Маяковская) Prospekt Mira (Проспект Мира), Arbatskaya (Арба́тская), Kievskaya (Киевская), Komsomolskaya (Комсомо́льская), Novoslobodskaya (Новослободская), Belorusskaya (Белору́сская).  Gastamos perto de uma manhã no roteiro proposto pelo Lonely Planet, mas o fizemos parcialmente. Começamos pela estação Komsomolskaya, onde a linha Sokolnicheskaya faz ligação com a linha circular, Koltsevaya. Komsomolskaya é uma das mais bonitas, e uma vez nela é possível imaginar quanto trabalho e dinheiro gastaram-se para orná-la. Uma das mais emblemáticas é a Mayakovskaya.

Povos das repúblicas soviéticas representados em cerâmica

                  O imponente teto é de estuque em estilo barroco, pintado de amarelo, ornado com oito painéis de mosaico executados em esmalte e pedrarias, e o chão é de mármore e cerâmicas. O tema dos painéis representa a luta pela liberdade e a independência nação. Na época tornaram-se obra soviética referencial. Mayakovskaya é considerada a mais bonita do sistema. Foi imaginada pelo próprio poeta Mayakovsky como pensava que seria o futuro soviético. Há colunas de mármore e aço e fica a 33 metros de profundidade. Na 2ª Guerra Mundial tornou-se abrigo antiaéreo. Stalin chegou a realizar uma assembleia de líderes do partido no corredor central da estação.

As composições, mesmo as antigas, são limpas e funcionais

                    Ploshchad Revolyvtsil é a estação das estátuas de bronze, em que supersticiosos têm a tradição de acariciá-las em busca de boa sorte. Como resultado, as partes alisadas estão sempre brilhantes, enquanto as demais permanecem escuras. Novoslobodskaya, construída em 1952, tem 32 painéis de vitrais, trabalho de artistas da Letônia, emoldurados em latão com desenhos elaborados. No final da plataforma há um mosaico de Pavel Korin intitulado "Paz em todo o mundo". Elektrozavodskaya é uma homenagem a uma fábrica das proximidades, onde o teto é iluminado por seis fileiras de lustres circulares. Dizem que originalmente eram 318 lâmpadas no total. Há baixos-relevos em mármore sobre os pilares que representam a guerra mundial. A foice e o martelo aqui aparecem mais que em qualquer outra.

Nota:

 (*1) O Realismo socialista foi o estilo artístico oficial da União Soviética entre as décadas de 1930 e 1960, aproximadamente. Foi, na prática, uma política de Estado para a estética em todos os campos de aplicação da forma, desde a Literatura até o Design de produto, incluindo todas as manifestações artísticas e culturais soviéticas (pintura, arquitetura, design, escultura, música, cinema, teatro, etc.). O Realismo Socialista está diretamente associado ao comunismo ortodoxo e aos regimes de orientação ou inspiração stalinista. Nos países da antiga União Soviética (notavelmente a Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia), o estilo do realismo socialista é tomado como sinônimo de jdanovismo, a estética oficial assim batizada em referência a Andrei Jdanov, comissário de Stalin responsável pela produção cultural e propaganda. FONTE: Wikipédia

 (*2) Encontrar um viajante com quem se tenha afinidades é tarefa difícil. E uma bela dose de sorte e acaso. Pode ser com aquele melhor amigo da vida, mas quando viajamos as diferenças aparecem e a viagem pode tornar-se tanto uma perfeição quanto infernal, já que "é viajando que se conhecem as pessoas", o que o conseguimos comprovar viajando. Os fundamentos de uma boa viagem acompanhado são muitos: compatibilidade de gostos, curiosidades, humor, afinidades culturais e sociaie, interesses, ritmo, respeito pelo espaço do outro. Por aí vai. Se então considero uma boa companhia de viagens a perfeição, que dizer  de ser ela, minha esposa, a que nunca sonhei ser possível existir. É um mundo perfeito. Onde tudo o que vejo tem maiores chances de ser atraente. 

Quinta-feira
Jun112015

VIAGENS de EXPERIÊNCIAS - Um outro modo de viajar

A trilha pode ser difícil, mas a experiência valerá  (Arches N.P. Utah, USA)

                 A vida é curta. Fugaz e mutável. E também imprevisível. E por mais que a gente planeje, que metas se estabeleçam, que cuidados tomemos, as coisas acontecem. Sem controle. São infindáveis os problemas a que estamos sujeitos. De saúde a financeiros, de acidentes a pessoas ruins que passam por nossa vida. Então, o que melhor se pode fazer é usar o tempo que a vida nos deu sem desperdícios. Por isso não me apego tanto ao passado, nem me preocupo tão desesperadamente com o futuro. Aproveito as oportunidades do presente, maneira que creio poder ser feliz no futuro. Agarro cada oportunidade como se fosse a única. Então, se eu pudesse, passaria boa parte da vida viajando. Mas sou igual à maioria, tenho que trabalhar pra ganhar a vida e pagar pelas viagens.

             Minhas "oportunidades" de viagens costumam surgir da curiosidade. De meu desejo de desvendar, de saber, de ver. Então, quando olho mapas e guias, procuro por países pouco convencionais e noto que já não há tantos. E me agarra a idéia de que preciso conhecê-los enquanto são novidade, antes de nós mesmos, turistas, acabemos por estragá-los. Observo nossa estante com a coleção de objetos, guias, livros e badulaques de viagens. Vejo uma foto, uma bugiganga do lugar que visitamos, uma moeda. Tudo funciona como agrado à vista, ajuda-nos a preseverar nossas lembranças e nos motiva e inspira a novas viagens. Parece um lugar não apropriado, mas também ali naquela estante muitas de nossas viagens nasceram.

                 Quem viaja tem lembranças dos lugares em que esteve. Imateriais e físicas. De grandes peças decorativas a pequenas lembranças, ou souvenires. Cada qual tem uma história e guarda lembranças de um momento. Mas quando as viagens são tantas, tornam-se um problema. Quanto espaço tomam! E como expô-los para que façam algum sentido? Encontramos o nosso desse jeito aqui em casa. Temos tudo numa estante. Além de recordações, proporcionam grande prazer quando os contemplamos.

                Quando escrevo, costumo recorrer a eles para que me ajudem a recuperar da memória o que pretendo contar ao leitor. Além da função decorativa, guardam um efeito mágico: fazem-me reviver uma viagem. É um outro modo de viajar. Não preciso voar, navegar, caminhar ou dirigir. Virtualmente também viajo. Olhando mapas, lendo guias e livros, observando e até tocando objetos viajo nas prateleiras de nossa estante.

Fotos, livros, guias, mapas, souvenires, uma infinidade de coisas de algum lugar que para nós tenha sido especial

                Mas expressar uma experiência, um sabor, um arrepio, um suspiro, um encantamento ou qualquer sentido em profundidade não é fácil como inspirar-me em novas viagens ou viajar pelas que fiz olhando nossa estante. É uma dificuldade. Circustancial para alguns, permanente para mim. Imagino que o sabem os que escrevem. Uns mais, outros menos. Penso até que mesmo os talentosos. Ainda que banais. Como por exemplo descrever o misto de sentidos naquele nosso "simples" banho de piscina ao ar livre, diante de uma paisagem absolutamente encantadora e serena de campos de arroz num hotel em Chiang Mai. Não. Não é nada fácil descrever viagens de experiência e experiências em viagens. Mas o que são viagens de experiência?

Os Karo,Turmi - Etiópia. Será fácil para todos expressar as sensações vividas em viagens?

               Os especialistas as definem como “jornadas para fora de onde se mora, que envolvam experiências memoráveis e ativas. Cultural, natural, social ou espiritualmente. Sobretudo que enriqueçam a vida do viajante e melhorem sua maneira de relacionar-se com as pessoas e o mundo”.  Viagens assim exigem maior desprendimento intelectual, intensidade física, sujeição a desconfortos, envolvimento com a natureza, gastronomina, costumes, cultura e imersão em comunidades remotas. É um novo nicho no mercado. Em geral são jornadas não padronizadas, fora dos circuitos tradicionais e conceitualmente menos focadas em pontos turísticos e mais na participação do que na contemplação.

Aprendizes de monges budistas jogando pião em Kyaing Tong, Mianmar

               Alguns as classificam como viagens de conhecimento, mas toda viagem não deixa de ser. Ainda que o foco seja cultural não científico, que proporcionem maiores reflexões, a revisão de valores, que evoquem novas ideias e acentuem a atenção aos destinos menos comuns e com alguma aventura.

              Concordo inteiramente com a definição. Mas tenho cuidados e algumas restrições. Nesse terreno das novidades pode haver meias-verdades, alguns clichês e sobrar pretensiosidade. "Viagem de experiência" se diferencia de viagem "comum" e turística óbvia. Mas, 1) não precisam desmerecer outros gêneros e, 2) necessariamente não devem ser um empreendimento fenomenal como os de Marco Polo.

Para imergir na natureza, observar um Pôr-do-Sol (como este em Monument Valley - Utah)

                Personalizadas ou não, costumam ter ritmos diferentes das viagens de relaxamento. Exceto as espirituais. Podem ser para o turista aprender a fotografar ou desenvolver seu conhecimento. Como as qdo Haroldo "Viajologia" Castro, para destinos como Etiópia, Mongólia, Butão e Namíbia. As duas próximas, por exemplo, serão Natureza de Madagascar (19-31 out) e Safari Fotografico na Namibia (3-14 nov). Quase sempre viagens assim são guiadas por especialistas, como as do Haroldo Castro, por sua Viajologia Expedições e com o Mauro Chwarts, pela Highland Adventures.

"Viagens de experiência" podem ser de convívio. Como com essas crianças de uma aldeira em Kyaing Tong, Myanmar

Foto by Emília G.F. Affonso https://instagram.com/emiliagf/

                O assunto parece definitivamente ter entrado na moda. E por isso mesmo tem tudo para carregar-se de exageros, supervalorizações e banalizações. Como por exemplo a ideia de que "viagem de experiência" tem que ter adrenalina, como se fosse condição o hormônio jorrar na corrente sanguínea do turista. Não, definitivamene não necessariamene são viagens desenhadas para super-heróis aventureiros radicais inspirados em Amyr Klink ou Tito Rosemberg.

Podem ser feitas só ou em grupo, e são ideais paracasais que querem imergir na cultura e nas comunidades, envolver-se com experiências mais ativas cultural, natural e socialmente

             Também não precisam ser viagens para "descolados", desprendidos mochileiros que carregam a bagagem às costas. Definitivamente não. Muito do que se define como "viagem de experiência" está no terreno da pretensão, aquela típica dos viajantes que julgam-se melhores que “turistas”, que defininem "turístico" pejorativamente e que estão sempre à procura de um jeito de destacaremque as suas são melhores que a os outros. Aquele tipo que proclama sua "diferença", como se todos não fossem turistas, para quem "turista" é sinônimo de "mané" (ainda que vá lá, alguns sejam de fato).

Viagens de experiências não são apenas de aventuras. Podem ser para aprender a fotografar

             Dizem até que se comprar artesanato deixa de ser "viagem de experiência". Já li absurdo assim. O que eu trouxe de artesanato espetacular de Mianmar não deu na mala! E nem por isso aquela deixou de ser uma senhora viagem de grandes e diversificadas experiências.

             Uma "viagem de aventura" ou "de experiência" nada mais é que a segmentação do mercado de viagens, um nicho nele. Mais um. O termo classifica a nova (e interessante) forma de viajar, sobretudo indicada para os que não têm mais medo de sair da rotina, deixar a segurança e o conforto do lar e partir para algo não muito conhecido e com muitas possibilidades de surpresas. Mas também pode ser apenas mais uma embalagem de pacote turístico.

Não é pretensão achar que não se pode ter uma "viagem de experiência" no destino mais manjado do mundo?

                Também não tenho nada tenha contra estes, pois efetivamente são uma forma eficaz de promover as viagens entre pessoas não experientes, que ainda não se libertaram desses medos. Há muitas (e boas) operadoras turísticas especializadas e muitas (e boas) viagens do gênero. Parte das nossas "viagens de experiência" foi feita através delas. E entre algumas, jamais teria perdido meus medos se não fossem os "pacotes".

               Mas desmistificar o gênero vai um pouco além, significa compreender que não é apenas para onde vamos o que conta. Nem como ou porque, o que ver ou fazer. Também o estado de espírito do viajante, já todas exigem estímulos incomuns dos sentidos, requerem atividades que precisam do seu "incentivo" e a boa disposição de nosso cérebro. E se assim é, um jantar fenomenal com um menu degistação de 12 pratos num restaurante espetacular em Manhattan também pode ser uma experiência notável e enriquecedora, Como qualquer outra de "experiência".

 

O conceito estimula maior envolvimento do turista com as comunidades locais, os costumes, a gastronomia e a cultura

             Coisas assim são muito mais amplas e profundas, simplesmente porque também podem estar relacionadas à quantidade de viagens que cada um fez. Dessa maneira, a primeira e única viagem de alguém pode ser uma "experiência". A minha foi para Orlando, o destino mais manjado dos brasileiros, incomparavelmente turístico, que no entanto jamais esquecerei, tanto as descobertas quanto as experiências vividas ali há trinta anos.                  

              Mas também é verdade que quanto mais viajamos para lugares incomuns, mais as viagens vão se tornando "de experiência", porque cada novo lugar alternativo e pouco explorado vai nos deixando menos impressionados com o que já achamos "comum", ficamos mais sujeitos e ansiosos pelo inesperado, pelas novas descobertas, exotismos e raridades. Tenho experimentado muitos momentos assim em viagens. E também muitas maneiras de viver "experiências", mas verdadeiramente não apenas para lugares remotos e pouco visitados.

Trekking. O verdadeiro motivo pra ir a Kyaing Tong, Myanmar Foto: Emília G.F. Affonso

                 Filosofia e psicologia explicariam melhor tudo isso. Não me lembro de ninguém mais apropriado que Alain de Botton - em “A arte de viajar” - cujos pensamentos e reflexões definem com tanta precisão o tema. E Paul Theroux, com suas desbravadoras viagens. Para quem melhor que visitar cartões-postais é sentar anônimo num bar e sentir as emoções autênticas de um lugar.Mas acho-o meio pretensioso e preconceituoso, não curto muito a figura. Mas como ambos afirmam, viajamos atraídos pelo exótico, em busca da felicidade, do conhecimento espiritual, do encontro conosco ou com o parceiro, por motivos gastronômicos, descobertas. Enfim, por um mar sem fim de motivos. 

Imersões na natureza podem ser "viagens de experiência". Como observar as borboletas nas colinas de Kyaing Tong

               Kyaing Tong - ou Kengtung - por exemplo, é um lugar isolado do mundo. Até mesmo em Myanmar ele é remoto. Fica no coração do Triângulo Dourado, no Estado de Shan, a meio caminho entre os vales dos rios Salween e Mekong. Relativamente perto das fronteiras com a Tailândia e a China. Para onde viajantes vão apenas com permissão do governo. E têm que deixar seus passaportes com as autoridades. É uma pitoresca cidade, todavia. Mas já abrigou conflitos étnicos e lutas armadas. Ao redor dela há um encantador, ainda que simples, cenário de montanha e um lago central, o Naung Tong

Nas colinas de Kyaing Tong, comer o que dá pra comer é condição nesta "viagem de experiência"...

...para conhecer os povos Lahu Shi

Foto by Emília G.F. Affonso https://instagram.com/emiliagf/

                 O trekking é a principal razão para ir a Kyaing Tong. Há inúmeras trilhas que exigem diferentes níveis de aptidão e determinação, das mais fáceis e moderadas às mais extremas. A escolha basicamente depende do turista. De quem e do que ele queira ver e fotografar. Não se vai a Kyaing Tong exatamente por lazer ou turismo convencional, porque as atividades são todas de ecoturismo - trekking, mountain biking - e de passeios de aventura com visitas às aldeias dos povos Wa, Shan, Akha e Lahu.

Os Akha, povo que das montanhas da província de Yunnan, na China, na Birmânia, no Laos e na Tailândia

Foto by Emília G.F. Affonso https://instagram.com/emiliagf/

                  Exploramos essas comunidades numa caminhada de seis horas no total. Através de trilhas por montanhas, matas, aldeias escondidas, planatações de arroz, de chá e de criações de búfalos. Ora subindo, ora e descendo. Passando por caminhos e descidas estreitas, pontes precárias e comendo um lanche que levamos à mochila, sentados na terra ou no mato. E ao final dela, almoçamos onde foi possível.

Aldeia nas montanhas de Kyaing Tong

                Numa das aldeias, a Nant Lin Taung, dos Eng, soubemos que a vaidade maior era terem seus dentes totalmente pretos por mascarem tabaco. E que vivem de agricultura e da caça. E que os atuais campos de chá outrora foram cultivados com papoula, recentemente substituídos em função de tratados de paz e acordos com o governo. Armas ainda podem ser vistas nos ombros dos Akha, mas usam seus mosquetes caseiros para caçar. Alguns povos são animistas, e extremamente curioso foi ter entrado nos seus lugares mais sagrados, como as casas dos xamãs.

Trekking e hiking, o verdadeiro motivo pra ir a Kyaing Tong. Exploramos comunidades numa caminhada de seis horas

                São poucos os pontos de interesse, mas é preciso ficar umas dua snoites pelo menos para circular a pé pela cidade, ver seus templos budistas antigos e alguns edifícios decadentes de arquitetura colonial, são parte do charme desta cidade. Também visitar o Buda de pé, ir à “One tree Hill”, onde está uma solitária árvore Kanyin-Byu (Diptero carpus Spp) com 245 anos.

                Visitar o fascinante Kyaing Tong Central Market de manhã, formado por muitas tribos étnicas das colinas circundantes e comer (deliciosamente!) no único restaurante da cidade, o mais simples que se pode esperar: na calçada, do outro lado da rua, junto à cerca do lago e sob uma árvore, com duas mesas de plástico. A cozinha fica numa garagem na calçada. Do outro lado. É comandada pela mãe, pela filha e avó que ali moram.

Crianças com embornais de pano carregando material escolar. O encontro com elas foi uma experiência e tanto


                 Comemos três vezes ali. E mais do que no restaurante do Daniel Bouloud em Manhattan, foi uma experiência de viagem. Quem vai a Kyaing Tong o faz para ter "experiências". Para nós esta foi verdadeiramente uma inesquecível "experiência de viagem". E a cada minuto, em cada aldeia, a presença humana e o cenário convertia-se em mais uma entre as lembranças desta viagem a Myanmar. Assim também como foi voar de balão sobre Bagan e observar seus templos entre nuvens de fumaça de mato queimado lá de cima.  

Kyaing Tong Central Market

               Ou ainda a visita ao templo de Galta, na Índia, afortunadamente no único dia festivo em que as mulheres banham-se auspiciosamente em seu tanque sagrado. Também naquela festa do Marajá de Udaipur que acontece uma vez por ano. Ainda em nossa (esta sim) aventura pelas montanhas de Karakol, no Quirguistão.

Os mil templos de Bagan

                 Também foi uma aventura aquele vôo da Air Kanbawaza, ou Air KBZ, entre Yangon e Mandalay, com escala em  Bagan. Saímos às 6:25 da manhã do dia 4 de Fevereiro de 2013, nos sentamos nos assentos 5 B e C e sobrevoamos paisagens fabulosas. E o vôo sobre o Himalaia, em Katmandu, e na cia aérea ATA, a menos recomendável do Irã e, ainda no vôo entre Havana e Santiago de Cuba, na Cubaba de Aviación num avião todo pibtado de branco que sequer prefixo tinha. Todas tão diferentes, jamais invalidaram a "simples" experiência de um banho de piscina no Four Seasons Chiang Mai, uma das mais deliciosas "experiências de viagens", a única que realmente me encantou naquela cidade.

A inesquecível experiência na piscina do Four Seasons Chiang Mai  
 

Domingo
Mai172015

GALTA - Infiltrados no Templo dos Macacos

Galwar Bagh Entrance

                   SE para alguns as viagens excedem o simples prazer e diversão, se ultrapassam o que para muitos é apenas um verbo intransitivo, se então definem, qualificam e aperfeiçoam sua maneira de ver o mundo, se servem para colocá-los numa realidade muito diferente da que vivem, em nenhum país isso me parece tão absolutamente verdadeiro e excitante quanto na Índia, a melhor escola para quem pretende aprimorar-se como viajante. Provavelmente viajar à Índia equivalha a concluir o terceiro grau na formação do turista. Provavelmente é o único país onde quanto maior a curiosidade e a disposição de explorar do visitante, maiores suas chances de aprimorar a capacidade de observar, de analisar e de perceber. Para além da Índia, qualquer outro lugar do planeta. Contudo, também perceberá que jamais a compreenderá. Não por outro motivo para muitos a Índia define - ou separa – suas viagens em “antes e depois” dela. 

                   Quanto mais profundamente esse viajante mergulhar no país, mais perceberá o quão longe estará de tornar-se um especialista. E quando acreditar estar perto disso, sendo um viajante comum como nós reconhecerá que jamais conseguirá. Ao contrário de nos saciarem nossas “imersões” tornavam ainda maiores a curiosidade e a admiração. Provavelmente nunca veremos satisfeitas nossa vontade de ir mais fundo e desbravar ainda mais suas gigantescas (e adoráveis) atrações.

                    Seria preciso uma vida inteira de viagens dedicadas à Índia e creio que nem assim estaria  próximo de explicar sua complexidade e conseguir transmitir ao leitor o melhor de sua diversidade e beleza, de toda a potência que o país oferece ao visitante em termos de patrimônio e experiências.

Uma visita ao Templo dos Macacos de Galta em dia de peregrinação. Turistas ou infiltrados?   ______

                    Uma das mais complexas e profundas de nossas “imersões” na Índia foi em Galta. Nessa jóia de atração paralela de Jaipur, me senti um infiltrado: éramos os dois únicos ocidentais entre uma multidão de indianos em seus momentos de peregrinação. A uns 10 km de Jaipur, Galta é um centro de hinduísta com vários templos, um deles dedicado ao Deus Sol, único de seu tipo no Rajastão. Construído numa pitoresca garganta que o torna um verdadeiro tesouro escondido, a uma curta caminhada desde sua parte mais baixa.

Alguns têm interior e exterior ornados com entalhes e afrescos coloridos

                   A paisagem até pode sugerir serenidade, mas visitamos Galta num dia raro e especial de peregrinação hindú. É quando em seus sete tanques - ou kunds - banham-se homens e mulheres nas águas que consideram tão sagradas quanto a do Ganges. Os mergulhos purificam os fiéis de seus pecados mundanos. Já o corpo, não posso imaginar que limpem, já que são mais sujas que as águas do rio sagrado da Índia. Mesmo assim famílias inteiras parecem tanto divertir-se quanto purificar-se. E se "sujeira" é a palavra que para muitos vem primeiro à lembrança para definirem a Índia, este foi o lugar mais sujo em que estive no país.

                  Água na Índia tem um significado muito além de “elemento necessário à sobrevivência humana”: é sagrada. Com ela lavam seus pecados (o que, convenhamos, é bem melhor que ir pra igreja). E este é um lugar especial para os hindus fazerem isso em Jaipur, onde encontram templos, belíssimas antigas construções e a água sagrada abundante para mergulharem: o Templo de Galta, ou Templo do Macaco. Milhares de hindus viajam a Jaipur para peregrinarem ao templo de Galta e banharem-se nessas águas sagradas.

                    Uma vez cruzando o Galwar Bagh Entrance, o portão do complexo, e passados os primeiros edifícios e pavilhões, chega-se aos tanques por um caminho pavimentado que sobe ao lado do primeiro tanque. Uma escada continua até o topo, uma das partes mais altas de Jaipur. O outro lado do caminho é uma parede rochosa. Chega-se até em cima, ao tempo dos macacos ladrões. Ops! Se não tomar cuidado com sua carteira, óculos ou qualquer pertence dando sopa, os pequenos ladrõezinhos furtam.   

Parecem crianças brincando na piscina

                  Eles também usam a água para divertir-se. Parecem crianças tanto na piscina quanto fora dela. Os indianos vão subindo as escadas e dando comida - de frutas a amendoim - que compraram antes de entrarem no complexo, como se os oferecessem a Hanuman, o macaco humanóide.

Alimentam-se de frutas e amendoins que os fiéis compram na entrada. E contribuem para a sujeira

                 Dizem que os tanques jamais secam, porque fontes e reservatórios naturais acima dos templos, vindo entre as pedras das colinas, alimentam-nos permanentemente de água. O festival Makar Sankranti, em meados de Janeiro, é um dos mais comemorados, quando nem mesmo o frio daquele mês impede devotos de mergulharem nos kunds sagrados.

                      O surpreendente Templo do Sol, construído por Diwan Kriparam250 anos no topo do pico mais alto da garganta, é visível de qualquer ponto em Jaipur. Mas o complexo é grande, com várias construções e outros templos construído em pedras de cor ocre. Alguns têm interior e exterior ornados com entalhes e pinturas coloridas, outros bem mais simples, não sei se desgastados pelo tempo ou efetivamente não foram decorados com afrescos no passado. As pinturas têm imagens de Brahma, Vishnu, Ganesha e Parvati, além de cenas de festas religiosas e de estado. Os pilares também foram primorosamente esculpidos, como afinal os de quase todos os templos do Rajastão.  

                    A arquitetura do complexo, ainda que não exatamente exclusiva, é encantadora, com seus telhados arredondados e pavilhões com pátios internos bem iluminados pelo Sol. São um deleite visual para além da extra-sensorial experiência de estar ali como um inflitrados, únicos ocidentais entre tanta gente. Entre os templos, os kund - ou tanques - são dos lugares mais sagrados. E todas as construções estrutural e arquitetônicamente são espetaculares, um magnífico conjunto construído em arenito, visualmente mais parecidos palácios ou havelis do que com templos tradicionais. O Templo do Macaco fica no topo do complexo, o que no contexto dele tem a melhor paisagem da garganta. 

No Templo do Sol, hindus purificando-se. A alma, porque o corpo...

                  E pra terminar, a "vaca contorcionista" e a "vaca prateleira", pra mostrar que mesmo sagrada, a vida da vaca  nem sempre é fácil na Índia!

Quarta-feira
Abr292015

KARAKALPAKSTAN, um outro lado do mundo 

Entre kalas, desertos e yurtas  ______________________________________________________

Acampamento de yurtas Ayaz Kala, em algum lugar no meio do nada no Karakalpakistan

                 HÁ países que se visitam tão pouco que quando descobertos revelam-se verdadeiras joias turísticas. Conhecê-los representa experimentar o que há de mais autêntico neste admirável nosso mundo. O Uzbekistão é uma delas. Maravilha turística exótica e encantadora, pouco explorada, um tesouro de oportunidades a descobrir. Há verdadeiramente muito com o que surpreender-se, sobretudo com a história, a arquitetura, a cultura e os costumes. Mesmo além de suas três de suas cidades mais emblemáticas - as jóias da Rota da Seda: Samarkanda, Bukhara e Khiva - e a capital, Tashkent, com atrações bastantes para entreter o turista. Mas uma escapada ao deserto do Karakalpakstan - tão pertinho de Khiva, tão acessível, ainda que remoto e desolado - é um destino a não peder.

 Complexo de fortalezas Ayaz, na região de Ellikala, no Karakalpakstan

                 MAS para além desse admirável mundo islâmico encantador que é o Uzbequistão, há outro tão surpreendente dentro dele que torna a viagem ainda mais inesquecível: os uzbeques. Há alguns países com pessoas tão excepcionais que transformam a estada assim, numa experiência de vida. E o Uzbequistão está entre os mais notáveis que conheci. Tanto que se eu definisse seu povo como "amigável" estaria sendo injusto. Ou impreciso. Muito além de ser um país com valores turísticos incomuns, há uma excepcionalidade ainda maior (e muito intrigante): seu povo. Por que são tão receptivos e simpáticos? Por que tão genuinamente sorridentes? Por que tão surpreendentemente honestos, generosos e prestativos?

Muito além de seu valor incomum, no Uzbequistão há uma excepcionalidade ainda maior e intrigante: seu povo

                   FORAM muitas as experiências marcantes e surpreendentes com eles. Mesmo os mais simples, ocasionais encontros tornavam-se vivas e doces lembranças de convívio humano. Entre as melhores que já experimentamos em viagens. Ocorriam nos mercados, nas ruas, nos becos, nos transportes e até numa mesquita. Em Khiva, por exemplo, observávamos à distância um grupo mulheres e homens passeando. Vinham de Tashkent, e eram mesmo turistas, soubemos mais tarde. 

   Surpreendentes momentos, doces lembranças de convívio humano

                    VESTIAM sua multicolorida e estampada vestimenta típica e pareciam divertir-se muito. Sorrisos, às vezes discretos, outras largos, exibiam orgulhosos dentes dourados. Falavam uzbeque e tajique - variante da lingua persa, tão sonora quanto exótica e incompreensível - e consagravam-se uma verdadeira atração para nós e mais meia dúzia de turístas encantados. Todos os admiravam. Possivelmente quase mais até mesmo do que o belo pátio interno do Tash-Hauli Palace que todos visitávamos, suntuosamente decorado em mosaicos cerâmicos em estilo persa, com sacadas suportadas por colunas de madeira finamente entalhadas. O conjunto, palácio e turistas uzbeques, era de uma beleza encantadora, uma simpatia cativante que  concluiu-se numa experiência adorável.

                  NAQUELE sítio isolado, a quilômetros de lugar nenhum, o que poderia ter sido uma simples foto que avidamente tirávamos daqueles simpáticos e divertidos uzbeques tornou-se a melhor de todas as nossas mais deliciosas experiências relacionadas com o povo do Uzbequistão: o grupo de animadíssimas mulheres levantou-se, dirigiu-se à minha mulher e 'sequestrou-a' pelos braços, seguindo com ela alguns metros de seu caminho por Ichan Kala, como se da família fizesse parte. A mim só permitiram acompanhar. De longe. E fotografá-las. Mais adiante despediram-se com beijos, com sorrisos, com doces apertos de mão e olhares ainda mais açucarados. Vou guardar pra sempre aquele momento.  

Tash-Hauli Palace e suas colunas e vigas entalhadas

                  E não foi apenas em Khiva, a menos turística das cidades da Rota da Seda uzbeque. Em todo o país percebemos a excepcional característica de sua receptividade. Ali, no entanto, foi onde melhor notamos como o uzbeque reconciliou-se com seu passado, como resgatou sua cultura perdida, como rompeu - discreta e equilibradamente - com tudo o que foi soviético. Mais uma vez nos sentimos afortunados. Por estar ali naquele lindo lugar, rodeados por um patrimônio belissimo, relembrando a história suntuosa e experimentando aquela lendária hospitalidade. Seria justo então dizer que se eu tinha expectativas muito altas em relação ao povo (em razão do que li, mas o que é sempre perigoso), elas foram firmemente excedidas, como nesta incrível experiência dentro do Tash-Hauli Palace.

                  Como se não bastasse toda a beleza do Tash-Hauli Palace , delicadamente ornado com o mesmo naqsh - ou desenho - que aparece nos portões de madeira, nos pilares entalhados, nos mosaicos cerâmicos das paredes, nas pinturas dos tetos e das vigas dos palácios dos khans de Khiva, estávamos encantados por aquele grupo de turistas locais encantando-se com nosso encantamento.

 

No Tash-Hauli Palace, o mesmo desenho aparece nos portões de madeira, nos pilares entalhados, nos mosaicos cerâmicos das paredes, nas pinturas dos tetos e das vigas

No Uzbequistão, a mais bela ornamentação persa islâmica

                   O Uzbequistão em si é uma pérola da Ásia Central. É onde encontram-se formas, estilos e costumes inexistentes em qualquer outro ponto do planeta, mesmo até em outros "stãos".  Por ali ainda não há cidades influenciadas pelo ocidente e a coleção de arquitetura islâmica persa rivaliza - seja em beleza, seja em monumentalidade - com a do próprio Irã, antiga Pérsia, de onde originou-se. Em azuis, intensos azuis de todos os tons. E não parece que foi por acaso os azuis dominarem a nação.

Foi no Uzbequistão que vi os mosaicos cerâmicos persas mais lindos

                   DOS belos tecidos aos tapetes, das cerâmicas às mesquitas, para os uzbeques a cor simboliza a paz e a estabilidade. Se o branco reflete a alma pura, o turquesa a esperança e a prosperidade. Não vi outros tão intensos quanto os das fachadas do complexo de túmulos Shah-i-Zinda, impressionante coleção de mausoléus de Samarkanda, construído no estilo timúrida para muçulmanos devotos. É lugar tão sagrado para eles que três visitas ali equivalem a uma para Meca.

  

Uzbequistão e seus azuis. Complexo de túmulos Shah-i-Zinda, Samarkanda

                 OS uzbeques têm outros símbolos. Fazem parte de sua cultura original, mesmo antes dos islâmicos ou das conquistas russas, essas últimas tratadas de esquecer. Foi um dos raros lugares no mundo onde o zoroastrismo se enraizou fortemente. Arqueólogos e cientistas escavam procurando novos sítios relacionados à religião no Uzbequistão, e apesar de quase extinta, seus símbolos estão incorporados na cultura e na arquitetura uzbeques, tal qual a flor de romã, símbolo do conhecimento e da fertilidade encontrado como padrões não somente em tecidos de seda, mas até mesmo nas fachadas das madraças islâmicas.

                 QUEM aprofundar-se na observação e no tema concluirá que muitos monumentos arquitetônicos do Uzbequistão têm algum elemento originário no zoroastrismo(3) khorezmi numa grande porção de fachadas de estilo timúrida islâmico. Tal detalhe pode ser observado, por exemplo, na torre de Khiva. Um padrão bastante simples transmite uma mensagem khorezmi: o triângulo superior virado para baixo - cujo significado é “bons pensamentos” - e o triângulo inferior voltado para cima - que significa “boas palavras” estão no retângulo central que completa a mensagem em algo como “bons pensamentos levam a boas palavras, que por sua vez levam a boas ações”. Talvez encontrem-se aqui as respostas a tantos porquês que rondam a hospitalidade uzbeque: a combinação única e exclusiva de culturas tornou o país imensamente diferente de seus vizinhos, explicando a simpatia de seu povo.

 DE Urgench a Khiva e dali ao Karakalpakistan(1)

                  VOAMOS de Tashkent a Urgench pela Uzbekistan Airways. Não, não era um Tupolev. Chegamos às 8:40 em Urgench, maior cidade da região. Tem aeroporto, ferrovia e fica a apenas 35km de Khiva pela rodovia A-380, que vai de Bukhara a Khiva, cujo estado é particularmente lastimável e nos impede de ir a mais que 35 km por hora. Mas, afinal, ainda que ambas sejam por prazer, o que distingue as viagens de lazer das de exploração é o desconforto.

A desolação do deserto: cenário nas estradas do Uzbequistão

                  ENTÃO seguimos assim de carro diretamente ao coração antigo e histórico de Khiva - Ichan Kala -, a cidade real. Antiquíssima, fabulosa, cercada por uma muralha impressionante de 10m de altura, é incrivelmente bem preservada e restaurada. Possivelmente jamais esquecerei aquela manhã, quando pela primeira vez cruzei a muralha por uma de seus portões monumentais - o Portão Oeste de Ichan Kala. Khiva, assim como Bukhara e Samarkanda, têm aparência da cidade velha, mas são um produto do século XIX, inclusive resultam de gigantesca restauração.

Kyzyl-Kala - Karakalpakistan

               CAPRICHOSA demais em alguns planos, até mesmo infantil noutros, a restauração aqui e ali peca pela falta de cuidado (ou pela aparente reconstrução apressada): até hoje há fios em balanço, tubulações aparentes, rachaduras, tijolos muito regulares. Projetos imperfeitos. Provavelmente sim, mas antes isso do que ver tesouros mal cuidados como no Irã. Ainda assim não é imaginar o que teriam sido as alternativas. De certa forma, aqui e ali percebem-se reconstruções vendidas como autênticas. Mas Khiva é uma das cidades mais fascinantes do país. Por tudo. Dos resquícios da civilização zoroastra a Itchan Kala, a cidade antiga situada entre as muralhas, com cerca de 4000 habitantes, viva mas pacata, verdadeiro museu de monumentos históricos, de mesquitas a madraçais, de torres a ruas estreitas. Bem menos por Dichan Kala, a cidade localizada fora da muralha.

Sobre o Portão Oeste de Ichan Kala, em Khiva, a vista de uma das cidades mais "mil-e-uma-noites" do mundo islâmico

                  DESDE então, mesmo em todo esse adorável “outro mundo” islâmico, foi a cidade mais “mil-e-uma-noites” que conheci. Não sem razão consideram-na uma das jóias históricas do Uzbequistão, também nomeada Patrimônio da Humanidade. Antiga parada essencial da Rota da Seda, junto com Samarkanda e Bukhara, há muito o que ver, mas explora-se bem a encantadora cidade em dois dias. É o que basta. Daí então pode ser uma boa escolha excursionar à estranha Karakalpakstan, de fato uma região semi-autônoma do Uzbequistão, mas antes de tudo uma terra esquecida, ironicamente só conhecida por causa do Mar de Aral, um dos mais trágicos casos de erro da humanidade destruindo a natureza, decorrência da obsessão soviética em transformar a região numa das maiores produtoras de algodão do mundo.

Ainda podem-se ver os canais de irrigação

                 O mar era alimentado por dois rios formidáveis, redirecionados e sugados para irrigar plantações de algodão recém cultivados entre o Uzbequistão e o Cazaquistão, uma das culturas sedentas de água conhecidas pelo homem. Habitado por karalpaks, Nukus é sua capital. Dispensável, a não ser por seu museu. É cidade poeirenta, relativamente moderna e desinteressante, mas que mesmo assim alguns turistas resolvem visitar. Nela o que atraia é o Igor Savitsky Museum, cujo acervo é uma das mais importantes coleções de pinturas avant garde russas e um acervo com antiguidades do khorezm, de arte popular karakalpak, de arte uzbeque.

O complexo Ayaz Kala

                  O jornal The Guardian chegou a descrever o museu como um dos mais destacados do mundo, com a segunda maior coleção de arte russa avant garde do mundo depois do Museu de St. Petersburg. Há uma visita guiada pelas exposições, também de arte tribal das regiões desérticas. Em Nukus também se pode visitar o Cemitério de Mizdakhan, uma necrópole tradicional funerária do zoroastrismo do século 4 a.C. Os karalpaks são uma minoria turcomana que habita o delta Sul do Mar de Aral, mas originalmente era um povo nômade fascinante. Nas últimas décadas, no entanto, suas terras tornaram-se desérticas por causa de um dos maiores desastres ambientais da nossa geração. Tinham uma florescente cultura artística, produziam têxteis e trajes de cores e desejos vibrantes, joias e mobiliário.

Desertos de Kyzylkum

                 PERCORRER os Desertos de Karakum e Kyzylkum, a sudoeste do Mar de Aral(2), na região de Karakalpakstan, ainda que tenhamos cruzado o Rio Amu Darya - o grande rio Oxus, como os europeus o chamavam -, uma das regiões mais remotas em que já estivemos, pode ser uma experiência excepcional. Para nós foi. Mesmo que historicamente tudo pareça viver à sombra do que foi um mar. Desaparecido, mas um dos maiores do planeta. O deserto tem esse poder, aguça certos instintos. Provavelmente é um dos melhores lugares para compreendermos nossa verdadeira dimensão. E onde deixamos de nos sentir o epicentro do mundo, de um pequenino planeta em torno do qual tudo orbita. Ali somos transportados à realidade do que somos: insignificantes. Ao menos quando individualmente nos enxergamos. 

Portal de Ellikala, Karakalpakstan

                 COMEÇAMOS cedo nossa viagem ao deserto e aos kalas (castelos) da região de Ellikala, no Karakalpakstan. Não se pode afirmar que seja um lugar particularmente atraente. Mas cruzamos alguns por onde passavam as caravanas da Rota da Seda da China e da Rota das Especiarias da Índia, que chegavam extenuadas depois de dias cruzando o deserto - último lugar de descanso antes de seguirem a rota até a Pérsia. Para além de rotas de comércio, eram rotas de comunicação, as maiores contribuintes para o desenvolvimento do Uzbequistão Em Khiva encontravam um oásis. Descansavam e comercializavam suas mercadorias - sedas, especiarias, pedras preciosas e escravos -, compravam outros tecidos e víveres antes de partirem seguindo sua rota. Mas também por ali passavam conquistadores bárbaros - de mongóis a hunos.

                  SEUS kalas, construídos entre os séculos IV A.C. e o 10 D.C., foram bastiões da Rota da Seda. Mas ainda pouco se sabe sobre eles. Visitamos três deles: Kyzyl-Kala, Toprak-Kala e Ayaz-Kala, este último fica numa colina junto ao acampamento de yurtas e foi ao que dedicamos mais tempo. O acampamento é para viajantes que desejam passar uma noite no deserto, sob um céu absurdamente estrelado, ouvindo o silêncio do deserto, Ayaz Kala.

Boston, Uzbequistão

                  Ficam a cerca de 30 quilômetros do povoado de Boston (sim, há uma Boston além dos states, aqui nesse deserto do Uzbequistão), a meio-caminho desde Khiva - e são uma preciosidade curiosa situado na base de um complexo de três fortalezas agrupadas em torno de sua colina.

Ruína com vista

            ESTA ruína tem uma vista excepcional para o deserto e também para o simpático acampamento. Um ótimo ponto para comer e dormir. Não dormimos, apenas almoçamos e descansamos numa yurta, onde dei uma das cochiladas mais deliciosas de minha vida.

 YURTAS

Yurtas. Estrutura e cobertura das habitações típicas dos povos nômades da Ásia Central

                 OS povos nômades da Ásia Central faziam complexas e grandes tendas forradas de couro, pele e lona sobre uma estrutura de madeira trançada. Desmontadas quando preciso, eram transportadas pelos desertos mais inóspitos para serem remontadas num novo lugar ideal para uma nova temporada. Resistentes a condições climáticas extremas de calor e frio, tornaram-se um estilo de vida que resistiu no tempo e representam nesta região um nomadismo autêntico, tanto no Uzbequistão quanto na Mongólia, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão.

 

Ayaz kala yurta camping

                 NESTE acampamento dirigido por uma simpática senhora, é possível dormir e comer numa yurta, fazê-la de base para a exploração mais calma do deserto e dos kalas. E à noite, escutando o silêncio mais puro, observar o céu mais brilhante à sombra de Ayaz Kala. Junto a este acampamento, onde havíamos apenas nós e um encantador casal de alemães, a algumas centenas de metros das ruínas, paramos nosso carro ao lado das tendas.

Almoçamos na yurta, não me lembro exatamente o que...

                  Não havia outro veículo, a não ser o caminhão soviético de trinta anos de idade que serve ao acampamento. E uns camelos que servem de meio de transporte. Mais ninguém à vista. Era uma mulher com grande energia e personalidade, capaz de converter aquele ligar remoto e solitário num lugar acolhedor.

 AS fortalezas arruinadas no deserto

                  SE o Uzbequistão sintetiza a Rota da Seda, o Caracalpaquistão o deserto. E para quem gosta de lugares desolados, este é um passeio ideal desde Khiva, Uzbequistão. Ocupando boa parte do Deserto de Kyzylkum, uma vasta planície coberta por areia, atravessada por longas e raras rodovias desérticas, viajar por ali significa ver lugares extremamente remotos, ruínas milenares e cidades-oásis. 

                  AYAZ-Khala é uma visita pra lá de exótica no Karakalpakstan, mas há boa oferta de excursões que permitem percorrer todas ruínas, entre as quais estão as três grandes fortalezas, parte de uma cadeia de  cidadelas construídas para a proteção de assentamentos agrícolas do Reino do Khorezm. Estávamos num lugar incrível onde a natureza e as ruínas escondem uma História ainda não muito conhecida.

                  A civilização khoresm surgiu em meados do segundo milênio A.C., onde acredita-se nasceu a religião zoroastriana, e onde há a maior quantidade de assentamentos zoroastras, fortalezas e templos em toda a Ásia Central. Mas as ruínas das fortalezas ainda estão carregadas de mistérios, não apenas pelos desafios de suas construções em deserto tão remotos e sem vida, como os motivos que levaram ás suas contruções. Alguns defendem que as terrar inférteis foram fertilizadas por uma rede de canais de irrigação com a água do Amu Darya, o que atraiu tribos nômades em torno do Khoresm.

O Rio Amu Darya, que outrora atraiu as tribos nômades em torno do Khoresm

                PASSARAM a produzir e vender grãos e outras mercadorias. Para manter a paz no país, precisavam que suas fronteiras fossem protegidas contra invasores. Outros explicam que o Amu Darya também inundava e provocava a morte morte e o caos entre o povo, o que justificaria a construção de cidades em elevações, protegendo com muralhas os palácios, quartéis, templos e residências. Outrora pujante nos dias bem antes da aquisição russa, o Khorezm marginalizou-se lentamente com o colapso dos impérios centro-asiáticos no século XVI e o declínio da Rota da Seda. Khiva então tornou-se um remanso, perdendo seu movimento, importância e vida. Estagnou-se.

                  HÁ cerca de 200 sítios arqueológicos situados nessa região do Karakalpakstan, entre os quais, Toprak-kala e Ayaz-kala os mais surpreendentes. As paredes eram feitas de grandes e pesados tijolos de argila que até hoje estão firmes, sobreviveram a tudo, dos ataques de Qutaybah, árabe que capturou Khoresm em 712, mais tarde pelos mongóis, e ao londo de sua vida pelas intempéries. Os construtores construiram um sistema de abastecimento de água que a transportava de algum um canal próximo para o interior das fortalezas, através de tubulações cerâmicas.

                  CAMINHAMOS pela areia fofa e fina do deserto, sob um céu azul, até o topo da primeira, e maior, das três fortificações que formam o conjunto Ayaz Kala, em forma de retângulo, do terceiro século depois de Cristo. Não havia nada que nos lembrasse o resto do mundo, muito menos a globalização. Estávamos felizes por encontrar apenas pegadas de camelos e de pequenos lagartos. E uma ou outra trilha de pneus e humanas. Nenhum lixo, garrafa de cerveja vazia, sequer uma bituca de cigarro. Só uma estranha, improvável placa de sinalização de trânsito indicando a possibilidade de estacionar. A mais improvável placa de trânsito que já imaginei encontrar.

Camelos, utiliários do desértico do Karakalpakstan

                   AS ruínas são estranhas e impressionantes, e visitando-as compreendemos porque de fato são difíceis de interpretar.  Naquela época, o Rio Amu Darya passava por ali, mas como foi um dos rios de cursos mais instáveis da Ásia Central, antes de morrer no Mar de Aral, o Khorezm que então se parecia com um antigo oásis, por interar um sistema fluvial imprevisível e instável, que podia alternar zonas húmidas, lodosas, barrentas, com lagos pontilhando aqui e ali e desertos, tudo tornava-se instável. As zonas úmidas e férteis podiam virar deserto numa mudança do curso do rio. E o que então era uma região fértil e próspera, tornou-se desértica. O que vivia em função do rio foi abandonado. No caminho, secura, aridez, marcas de patas de animais, camelos e lagartos, especialmente, plantas secas e desolação. Mas beleza. Acima de tudo. Lá de cima avistamos um bonito lago azul distante mas muito convidativo a conhecer. Não fomos, o calor não nos inspirava. Voltamos para o acampamento e comemos pratos preparados na hora pela senhora, à base de batatas e carnes guisadas, rústico, mas algo saboroso e nutritivo.

                 DEPOIS da agradável estada, voltamos a Khiva. Ainda a tempo de observá-la de cima de suas muralhas ao entardecer. É quando a luz mais perfeita incide sobre a cidade, colore em tons dourados, dá-lhe uma beleza quase arrogante. Mas gloriosa. Eu diria, impiedosa. Havia poucos turistas. Especialmente franceses. E algumas lojas e bancas de lembranças turísticas, alguns razoavelmente interessantes.

Khiva ao fim da tarde, esperando o port do sol, vista do Mirante da Muralha

                 SUBIMOS uma escadaria que dava ao fim na passarela sobre a muralha. E então avistamos aquela cidade de cima, aquele mar casas, de palácios, madraças, de torres e minaretes, de mesquitas. Especialmente o que seria o minarete Kalta-Minor, com 26 metros de altura, menos da metade da altura que projetaram. E o completo Minarete Khoja. Tudo cor de terra. Levemente pincelado de azuis. Ficamos ali observando o pôr do sol e todo aquele requinte arquitetônico. Um cenário perfeito para qualquer um dos contos das mil e uma noites.

Notas:

 (1) A república do Caracalpaquistão (em caracalpaque, Qaraqalpaqstan; em uzbeque: Qoraqalpog'iston; em inglês: Karakalpakstan) é uma região autônoma pertencente à ex-república soviética do Uzbequistão, e que possui em sua área a região sul do Mar de Aral (o norte pertence às províncias cazaquistanesas de Aqtöbe e Qyzylorda). A sua capital é Nukus. O Caracalpaquistão sofre vários problemas ambientais, sociais e econômicos devido à secagem do Mar de Aral. Karakalpakstan significa ‘homem do chapéu preto’. Onde ‘stan’ significa país. Fonte: Wikipédia

 (2) O Mar de Aral foi o quarto maior lago do planeta, hoje tem dez por cento do que foi originalmente antes de ser transformado num dos maiores desastres ecológicos promovidos pela URSS em suas repúblicas. O mar que morreu por causa da irrigação de algodão que morreu por causa do fim do mar.

 (3) O zoroastrismo, masdaísmo, masdeísmo ou parsismo é uma religião fundada na antiga Pérsia pelo profeta Zaratustra, a quem os gregos chamavam de Zoroastro. É considerada como a primeira manifestação de um monoteísmo ético. De acordo com historiadores da religião, algumas das suas concepções religiosas, como a crença no paraíso, na ressurreição, no juízo final e na vinda de um messias viriam a influenciar o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Tem seus fundamentos fixados no Avesta e admite a existência de duas divindades (dualismo), as quais representam o Bem (Aúra-Masda) e o Mal (Arimã). Da luta entre essas divindades, sairia vencedora a divindade do Bem, Aúra-Masda. Fonte: Wikipédia


Sábado
Abr182015

BANGKOK - Imensos e intensos prazeres

Intimida ao primeiro olhar. Mas só ao primeiro olhar. Mesmo vista do trigésimo andar do Peninsula Hotel Bangkok

                  COSTUMAM chamá-la de "Cidade dos Anjos". Mas se tem algo de angelical, não percebi. Que me perdoem a impertinência, acho-a mesmo diabólica e profana. De doce não tem nada. Nem de comportada. Ao contrário, é apimentada. No jeito e na extravagância. Mas é por isso mesmo tão atraente. Tudo indica ter sido diferente nos anos 70, antes de explodir em crescimento até o final dos 90, quando tornou-se um "Tigre asiático". Chegou a dobrar de tamanho. E densidade. De angélica passou a energética. De sagrada, a profana. Ainda assim, alguns de seus prazeres podem ser sutis, mesmo não havendo mais labirintos, tesouros escondidos e lugares inexplorados. Se a vibe não é mais angelical, se nenhum paraíso resiste a tamanha transformação urbanística que o crescimento lhe impõe, se algo deu errado com Bangkok, ela esbanja momentos de beleza e serenidade. Mesmo com toda a intensidade, continua um espetáculo pro mundo ver e explorar turisticamente.

Antiga, não antiquada, moderna com personalidade, luxuosa onde se deseja, simples onde se espera e imponente onde pode e deve. Bangkok e suas aparentes contradições

                    HOJE ela está no ponto. É extraordinária; antiga sem ser antiquada, moderna sem despersonalizar-se, luxuosa onde pode, simples onde se espera e autêntica aonde ainda consegue. Tem ótima comida, sobretudo caráter e personalidade. E é barata, além de conveniente para o turista. Mesmo que às vezes se transborde deles. É amigável, ainda que ao primeiro encontro possa ser intimidativa. Só precisa que  acertemos nossos passos com o seu compasso. Os sentidos costumam reclamar, especialmente a visão. Mas é por pouco tempo. Logo todos estão loucos e a postos para descobrirem seus "mistérios": sua ampla variedade de atrações.

Acerte os passos com o compasso da cidade e encontre mercados flutuantes ainda originais

                   NÃO se pode dizer que Krung Thep - Bangkok na lingua original [1] - seja bonita. Mas beleza ali é mero detalhe. O que a consagra são seu conteúdo e uma legítima, indiscutível personalidade. Provavemente porque jamais rompeu o presente com o passado e por nunca ter sido colonizada. Se bela não é, compensa sendo atraente. E sedutora, picante, empolgante, divertida e surpreendente. Ainda que por vezes seja sufocante. Mas é tolerante. Com os turistas especialmente. E com quem nela deseja "perder-se". É quando a cidade entra na gente com energia e ritmo contagiantes. E nos prega uma ânsia descontrolada e compulsiva de conhecê-la. E então, sob um seu céu azul, espesso, calorento e húmido, voltamos a Bangkok logo após as monções para rever suas atrações e conferir porque transformou-se num dos quintais turísticos do mundo.

Exótica, sem dúvida, todos hão de concordar. Não há quem discorde olhando o Wat Benchamabophit

                   BANGKOK - Por que é tão bacana?  Por que vive-se com vida ao redor.

                  HÁ poucas cidades no mundo que exploram tão bem os sentidos do turista. Para a visão não tem lá uma unidade urbanística estética admirável. Nem beleza natural. Mas se não é especialmente bonita ou exemplar, oferece outras surpresas, variadas e incomparáveis, perfeitas para explorar todos os demais sentidos. É cidade pra quem gosta de vida nas ruas. E admira a beleza arquitetônica asiática. Bangkok tem outra boa vantagem: é um das melhores no mundo para andar a pé. E em todo canto as pessoas têm uma natural propensão a sorrir. Sinceramente ou não. Mas sorriem mais do que na maior parte do planeta. Há quem ache barulhenta. Não se pode negar, mas os sons ali expressam a intensidade da vida nas ruas, especialmente o suave jeito de falar. E Bangkok também cheira bem. A uma mistura de odores aqui e ali por vezes escondidos pela fumaça dos  escapamentos dos tuk tuks. Mas tem notas da fabulosa quantidade de flores e plantas tropicais, de especiarias e de comida. Tem cheiro e frescor de uma leveza e variedade irresistíveis.

                  SEU dinamismo e exotismo são virtudes, não defeitos. Mas são o que tornan fáceis as impressões erradas da cidade. E o que faz alguns sairem decepcionados de sua visita. Não deixe isso acontecer com você. Se planeja visitar Bangkok, é preciso apenas informação, preparo e conhecimento. E em troca ela entrregará mais do que provavelmente se espera. E como nós, sair recompensado por visitar um dos destinos turísticos mais fascinantes e vibrantes do mundo.

                 SE então é imperativo ter um plano, ele depende apenas de nós. E é bem fácil, porque viajar há muito já deixou de ser privilégio para poucos. E informação também deixou de ser disponível para alguns. A Internet e os guias de viagem estão aí. E mesmo para Bangkok, um Lonely Planet (ou qualquer bom e completo guia de viagem) impresso resolve.

Foo dogs

                   CIDADE das que mais gosto, cada vez mais cosmopolita, com tantas e tão variadas opções, não por menos é classificada como um dos melhores destinos do mundo. E ainda assim, esta é a apenas uma das definições que lhe atribuem. E que lhe cabem como luvas. Há tantos e tão apropriados adjetivos para definir e qualificar Bangkok quanto a cidade tem de atrações: agitada, dinâmica, serena, religiosa, profana, sensual, sedutora, ousada, insinuante, abafada, calorenta, espiritual, caótica, conservadora, sagrada, imensa e intensa. Vibrante e desconcertante eu já disse? Não. E eles não param por aí. Quantidade e diversidade podem até confundir o iniciante pela ambiguidade, mas é precisamente nas contradições que se encerra o caráter mais singular e o que revela a mais franca personalidade de Bangkok.

Sanuk, o jeito de levar a vida, provavelmente tem origem no budismo

                   VOLTAMOS a Bangkok para rever o que já conhecíamos e conhecer o que não víramos, explorar zonas mais remotas que escaparam na visita anterior, aproveitando a Capital como hub para nossa visita ao Cambodia e a Chiang Mai. Há muitos lugares que desejo voltar, talvez nenhum tão rapidamente quanto Myanmar, mesmo com tantos outros no mundo que me atraiam soberbamente. Para Bangkok sonho no futuro fazê-lo agora com nossos gêmeos .

Monge no modo "Don't Worry Be Happy!', o, Sabai Sabai Sanuk! Serena? Os locais herdaram esse jeito de ser: sanuk

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A CHEGADA

                 DECOLO de Paris e oito horas depois estamos na turbulenta Bangkok. Os contrastes são absurdos, o coração pulsa mais forte. Mas ainda não sentíamos os extremos dos estímulos. Nem a invasiva realidade que todos experimentam ao visitarem a Capital tailandesa. Meu coração ainda estava ansioso pelo impulso necessário ao começo da experiência de explorar Bangkok. Estávamos ainda no belo, relativamente tranquilo aeroporto Suvarnabhumi, cercados por uma arquitetura tecnológica e futurista, sob estruturas metálicas gigantescas, um dos mais ultramodernos terminais internacionais do planeta. Tudo transcorria na mais plena normalidade. Do desembarque à passagem pelo setor de controle de saúde, da imigração e recuperação de bagagem à passagem pela Alfândega.

                   DE certa maneira, só depois de uns dias em Bangkok o visitante compreende que o admirável Suvarnabhumi corrompe a razão e subtrai a atenção do visitante. Não chega como ser extrema em contrastes como nossa chegada de Paris em Nova Delhi, na Índia. Mas do lado de fora também há de prontidão uma legião de taxistas gananciosos e guias vigaristas. Todos com sua admirável coleção de espertezas. Tudo tão mais caro quanto inconfiável.

O coração pulsava mais forte dentro do aeroporto, mas ainda não havíamos sentido a cidade

                 Optamos pelo serviço de recepção no aeroporto de nosso hotel. Não é tão caro quanto parece e evita aborrecimentos. Assim como hospedar-se luxuosamente em Bangkok é bem mais barato que em outros grandes destinos no mundo ocidental. E o serviço vale mais do que custa.

No interior de alguns templos, como o Suthat Thep Wararam (Wat Suthat), uma tranquilidade e serenidade contrastante

                 UM homem com as mãos juntas sob o queixo inclina a cabela e avança em nossa direção com um sorriso discreto. O gesto de nosso receptivo chama-se Wai (*), faz parte da vida e da cultura tailandesas. É complexo no conteúdo mas simples na forma. Usado para reverenciar ou cumprimentar, encerra algumas regras. Vão além da educação, pois também revelam o status de alguém na sociedade. As mãos juntas na frente do peito e acompanhada de uma pequena curvatura. Quanto mais alto levantarem as mãos, mais demonstram respeito. Desde cedo as crianças são treinadas a usá-lo corretamente, sobretudo a compreenderem para o que servem.

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(*) NOTA: Wai. Há vários tipos de wai. O Phak Taai é o mais informal, uma forma de saudação em que as mãos são mantidas juntas, logo abaixo do queixo, gesto acompanhado por um ligeiro encurvamento da cabeça à frente. O Puyai Wai é usado para os pais, avós, professores e outras pessoas de posições sociais diferentes. Neste caso, os dedos das mãos unidas chegam à ponta do nariz e a inclinação da cabeça é maior do que no caso anterior. Aqui, um sorriso nem sempre é necessário, já que o gesto tem a intenção de transmitir respeito, não simpatia. No caso de um turista, ele só é usado ao ser apresentado aalguém de grande importância. O Wat Pra é reservada apenas para os membros mais respeitados da sociedade, como monges e outras personalidades religiosos ou não. Neste, as pontas dos dedos vêm até a testa e não há sorriso. Para um turista, todavia, é sempre mais seguro retribuir um wai. Muitas vezes pode ser retribuído apenas com um sorriso. No entanto, se você pretende retribuir o wai, ao menos esteja certo copiar exatamente o mesmo gesto que recebeu, mantendo a ponta dos dedos e a inclinação da cabeça igual aos da pessoa que lhe deu um wai. O sorriso, grande e sincero, sempre acompanha o wai mais corriqueiro. Todavia, um turista não tem com o que se preocupar, pois os tailandeses são compreensivos e se fizermos um wai errado eles não se ofenderão. A coisa mais importante é sorrir. Sempre dar um grande sorriso e ao dar um mai pen rai, o mais comum.

Detalhes...

                 O visitante não precisa estar familiarizado com a complexidade. Não tem com o que se preocupar: basta retribuí-lo. Além de educado, é simpático e divertido. Enquanto as mãos estiverem juntas diz-se “Sah-wah-dee” (soa como se lê, “sawadi”). Depois, diz-se “khrap” (kap) se for homem, ou “kha”, sendo mulher. O “khrap” é dito rapida e secamente, com um “p” mudo morrendo nos lábios. O “kha” é alongado. Como um káaa. Homens saúdam com khrap e mulheres com kha. Simples assim.   

                 CHEGAR ao aeroporto Suvarnabhumi é deparar-se com uma arquitetura tecnológica e futurista de um gigantesco, ultramoderno terminal. Mas ainda que faça o visitante pensar que sua viagem à Tailândia será tão eficiente e organizada quanto o terminal aéreo, não deve acreditar um só minuto na primeira impressão. Admirável, o Suvarnabhumi serve apenas para corromper a razão e subtrair atenção. Fora dele, taxistas gananciosos e guias vigaristas têm uma admirável coleção de espertezas. E estão de prontidão para oferecerê-las. Tão mais caros quanto inconfiáveis. Nada é mais recomendável do que optar por um serviço de recepção no aeroporto oferecido por qualquer hotel. De luxo e mediano. Não é tão caro quanto parece e evita aborrecimentos.  Já hospedar-se luxuosamente é bem mais barato se compararmos os preços com os de outros grandes desinos no mundo, especialmente ocidentais. Após um longo vôo vindo do Ocidente é saudável chegar bem, tranqüilo e sem contratempos ao seu hotel.

Um barco exclusivo leva os hóspedes de um lado a outro do rio

                 UM vôo direto do Brasil a Bangkok via Europa é para intrépidos, a menos que se vá em classe executiva. Caso seja na classe econômica, recomendo escala de uma noite no país de bandeira da cia. aérea escolhida. As da Europa costumam ter intervalos grandes, o que permite tanto o descanso de um day use num hotel de aeroporto quanto um passeio pela cidade de conexão, e a consequente redução dos efeitos do jet-lag e de vôos prolongados.

Contrastes entre a delicadeza dos templos e a efervescência das ruas: prazeres de Bangkok

                  METADE da diversão de viajar pelo sudeste asiático é observar e viver o caos dos congestionamentos, das multidões e o barulho. A outra é hospedar-se num lugar onde se possa escapar de tudo isso ao fim de um dia de uma extenuante jornada turística. Para relaxar física e sensorialmente, usufruir das delícias do luxo e do conforto. Em Bangkok o Península foi nosso porto seguro, um oásis de relaxamento e tranquilidade do “outro” lado do rio. É uma das partes mais convenientes e pitorescas da cidade, mas há inúmeras outra opções fabulosas. Tanto do lado “certo” do Rio - defronte ao nosso – quanto no distrito financeiro e outros bairros. Mas esse lado torna o hotel uma ilha de tranquilidade, mais ainda quando da janela olhamos o fervilhante "outro" lado.

                  THE Península Bangkok é só mais um dos magníficos exemplos de luxo e eficiência hoteleira na cidade. Parece haver consenso universal no trade acerca do talento e competência dos sul-asiáticos na hotelaria de luxo. Estadas assim sempre resultam experiências incomparáveis, inesquecíveis, adoráveis e deixam saudades. O serviços de transporte privado e de agilização dos procedimentos de imigração e alfândega incluem um menu de transportes que inclui até helicóptero. Por terra pode-se escolher entre Rolls Royces, BMW 750 e mini vans. Absolutamente irretocável, o serviço e o hotel não poderiam parecer mais perfeitos para uma escapada romântica, para a celebração de ocasiões especiais - de aniversários a bodas e Lua de Mel - até a propostas-surpresa de casamento.

Logo estávamos a caminho do Península, observando o caos dos congestionamentos, as multidões e a vibração da cidade

                PISOS de madeira teca, forrações em seda, banheiros em mármores, painéis de controle de iluminação de alta tecnologia, camas confortáveis e lençóis primorosos num interior decorado com bom gosto. Isto é apenas o resumo de uma breve definição dos apartamentos de uma torre de 37 andares com uma fabulosa vista para o Rio Chao Phraya. Aqui no Península o padrão de luxo excede a classificação ocidental. Trata-se de uma classe de "luxo oriental" incomparável, uma delícia visual.

A piscina e o Rio

                TODA grande cidade tem suas particularidades e nelas um conjunto de cuidados e precauções, atitudes e informações que o visitante deve ter para seu máximo proveito, e em Bangkok são ainda mais efetivas. O charme, a humildade e a simpatia, contradizem os que alegam perda de essência, ainda que gigantismo e modernidade possam mascará-lo. O fato é que nenhum visitante sai ileso de Bangkok, no sentido de experimentar o mais puro êxtase asiático, impressões tão mais positivas quanto mais profundo o mergulho na cidade.

 

Damnoen Saduak. Outrora um mercado flutuante original...

...hoje uma tourist trap

                 É preciso chegar cedo, muito cedo a Damnoen Saduak para ter uma remota idéia do que já foi aquele mercado flutuante nos anos 70. Tão cedo quanto é impossível chegar desde Bangkok. Portanto, só dormindo lá na cidadezinha para conseguir que um passeio de barco pelos canais, valha a pena: enquanto não chegam os turistas e os vendedores de badulaques depois das 9 horas da manhã. Quando fomos a Damnoen Saduak eu estava ansioso para ver barcos com fornecedores de alimentos vendendo seus produtos produzidos nas proximidades, mas ainda que desses houvesse, principalmente encontrei vendedores de badulaques turísticos. Dos mesmos produtos que eu via tenda após tenda. O que fez do mercado flutuante uma decepção, ainda que alguma diversão eu tivesse, especialmente no caminho, na viagem de barco de cauda longa pelos canais, vendo residencias e moradores levando sua vida.

                 NESTA segunda viagem experimentamos o gosto de rever o que mais apreciamos, de conhecer o que não foi possível e de nos locomovermos com maior independência e naturalidade. O monumental patrimônio cultural, a fabulosa arquitetura que se apresenta numa diversidade incrível, a gastronomia riquíssima (que comida!), a arte e a cultura tão exóticas, o povo encantador, a oferta hoteleira com preços imbatíveis, tudo forma um conjunto que torna Bangkok um destino extremamente rico, atraente, intrigante e compensador, onde pelo menos quatro dias inteiros devem ser dedicados.

 

Demônios coloridos, figuras mitológicas do épico indiano ramayana, guardas dos templos do Grande Palácio de Bangkok

                DIZEM até que os tailandêses mantém um estilo de vida inalterado em Bangkok desde a década de 60, quando então era angelical. Chamam sanuk esse jeito de levar a vida. Difícil de explicar,  traduz-se como "diversão" no modo de viver. Mas aprofundando-se, sabe-se que representa algo mais complexo, uma espécie de busca do bom humor e da alegria de viver que vai da saúde, bem-estar, dos prazeres da comida e da diversão ao sorriso como forma de comunicação. Tudo permeado pela espiritualidade e harmonia. Também pelo senso de hospitalidade. Não posso discordar.  Ao menos não completamente.

Na outra margem do Rio, em frente ao Grand Palace, um pouco de serenidade no Wat Arun

                  POR certo haverá quem não goste de Bangkok. Nada de errado com isso. Gente é assim mesmo, diferente. Cada qual com seu gosto. Todavia provavelmente os que a visitaram concordam que seus adjetivos são justos. Que fascina quando se chega, deixa saudades quando se parte. E que "exótica" talvez seja o mais preciso. Há poucas capitais desse porte que evocam tamanho exotismo entre os ocidentais. E ele está bem distribuído pela cidade. Nos palácios, nos templos, pagodes de arquitetura intrincada, nos telhados ponteagudos, nos riquíssimos ornamentos, no domínio dos vermelhos e dourados das ornamentações.

Exótica também na fé. Como nos budas dourados do Wat Suthat Thepwararam Ratchaworamahawihan

                  TAMBÉM na fé, nos trajes civis, nos religiosos, na dança, na comida, na cultura, no folclore. Da poluição ao superpovoamento, do barulho à infra-estrutura turística, do patrimônio cultural à gastronomia e hotelaria, não há tantas megalópoles que conseguem confirmar ao visitante o que se espera dela em potência turística. Nem o que se costuma imaginar ser exótico. Não me recordo de outra que eu conheça cuja modernidade e antiguidade sejam tão explícitas. E encaixem-se tão bem, sem contraporem-se ou afetarem-se, ainda que por vezes estejam aqui e ali com algum desequilíbrio. Talvez porque em Bangkok o conjunto é o que importa.

Não é uma cidade bonita. Mas brilha. Muito além dos espelhinhos em mosaicos que decoram stupas e palácios

                   NÃO se precisa muito para absorver tanto o exotismo quanto a modernidade. Bangkok é cidade fácil de explorar. Parece inquietante e assustadora no primeiro contato. É assim mesmo [2]. Mas é apenas mais uma das contradições dessa cidade, outro traço de sua estranha personalidade: Ser assustadora é o que nos apela enfrentá-la para conhecê-la. E então, depois de familiarizados, andar-se por ela sem grandes dificuldades. Leva um tempo para entender seu mapa, sobretudo a amplitude e os limites de seus bairros.  

                 CHINATOWN, por exemplo, é extremamente curiosa e atraente, mas pode intimidar a princípio. Eu deixaria sua exploração a pé pelo bairro depois que o turista estivesse melhor integrado e familiarizado com a cidade. Pra quem gosta de ruas muvucadas mas autênticas, de mercados e santuários, o outrora bairro mais misterioso da cidade, onde rolavam ópio, prostituição e jogos de azar, Chinatown não deixará de surpreender. Alí encontra-se a melhor comida de rua da cidade, uma perfeita combinação de receitas tailandesas tradicionais com variações da culinária chinesa. O resultado é uma curiosa comida chino-tailandesa.

O walking tour de Chinatown revela cenas curiosas e instigantes

                NA rua principal, Yawolat, tem-se a maior variedade dessa comida. A escolha é ampla: de frutos do mar a frango e macarrão frito, de leitão assado a peixe seco, entre outras não tão facilmente reconhecíveis (seria aquilo pé de frango guisado?).

Chinatown de Bangkok

               JÁ o bairro hindu - Pahurat - tem personalidade nas pequenas lojas de comida e chás, mas também nas de bugigangas que vão de CDs de música indiana a incenso aromático, de sedas e saris a estatuetas de divindades. Olhando mais atentamente o mapa, percebe-se uma cidade ampla e aparentemente indecifrável.

                MAS explorar seu emaranhado de ruas, cujo layout à primeira vista parece feito de linhas embaralhadas jogadas sobre um papel, não um projeto originado na simetria mística de uma mandala budista, mas ainda assim tudo é bem servido de transportes. Dos tuk tuks - tão lendários nas suas tentativas de não irem onde determinamos que precisamos saber como evitar suas roubadas, dos preços aviltados às mudanças de percursos e paradinhas em lojas que lhes pagam comissão -, aos taxis - cujos condutores tentarão cobrar preço fixo (sem taxímetro) por uma corrida, e cuja comunicação é sempre difícil, quer porque efetivamente não falam inglês, quer porque usem da dificuldade para tomarem vantagens.

  Usam-se todos meios de transporte: tuk-tuk, táxi, Metrô, MRT e BTS. Sobretudo os pés

                JÁ os transportes públicos - ótimos Metrô, MRT e BTS - são eficientes e baratos, mas não são tão eficazes porque não abrangem boa parte da cidade. A estação Siam é a maior e mais movimentada do Sky Train, talvez por conectar-se por passarelas a alguns dos melhores shopping malls de Bangkok, como o Siam Paragon, Siam Center, Siam Discovery Center e o Central World Plaza. Os ônibus são muito baratos, por vezes nada mais que alguns centavos, dependendo da qualidade do veículo. Mas não tive tempo de usá-los, ainda que eu quisesse muito. Provavelmente seria uma grande experiência. Explora-se bem a cidade integrando-se todas as alternativas de transporte, como recomenda o Explore Bangkok by BTS.

                A pé também se explora bem a cidade. Mas é grande demais pra tanto, requer meios de transporte. Navega-se também, pelo Chao Phraya. E já se saboreia boa parte do que a cidade tem de melhor. O rio é o principaldo país. Suas águas correm 400 km e nascem nas terras altas das montanhas do Norte, dividindo Bangkok em duas e seguindo seu caminho até o Golfo da Tailândia.

Wat Arun

                 O Rio dos Reis é marrom e tem largura e volume de água noáveis. Às vezes enche mais do que deve, inundando a cidade. Dizem que seu fluxo é controlado, mas não escapa de vazar para onde não se deseja. Experimentamos uma das mais fortes cheias do Chao Phraya durante nossa estada. Visitamos a cidade em plena inundação, a mesma que impediu-nos de visitar Ayuthaya e o Museu das Embarcações Reais em Bangkok. Mas continuavam seguindo os barcos de todos os tamanhos e formas, subindo e descendo o rio durante o dia e a noite. É uma estrada, e de suas margens, plataformas dão acesso do público às balsas, como as paradas de ônibus.

Nos ônibus do Rio Chao Phraya a mais pura atividade cotidiana

                     Uma viagem num ônibus aquático pelo Rio Chao Phraya já se revela suficiente. Para além de um transporte efetivo e eficaz, significa viver o contacto mais perto com a mais pura atividade cotidiana do povo - de crianças uniformizadas a monges budistas, de trabalhadores a donas de casa. É um jeito adorável de ver os arranha-céus e os templos da cidade por uma perspectiva incomparável. E checar seus contrastes; uma coleção de templos e palácios em ambas as margens e o desfile de arranha-céusque vão passando e arrancando olhares. 

Detalhe, rico detalhe. Wat Arun

                   O Wat Arun, ou "Templo do Amanhecer" é estranho à primeira vista, tem torres decoradas com porcelana chinesa, uma delas com 82 metros de altura, que fazem dele um dos cenários mais fotogrados da cidade. Domina o horizonte com seu desenho herdado da arquitetura khmer do Cambodia, inspirado nos templos de Angkor. É lindo, dominante, mas não retira nem um pouco importância dos demais monumentos antigos que formam o conjunto de maravilhas de Bangkok.

Caprichosas curvas, delicados rendilhados, douradas, brancos e vermelhos - Grand Palace

                  RENDILHADO caprichosos em curvas delicadas, douradas e vermelhas parecem saídas de aquarelas que ilustram os contos de fadas do Sião. O ápice desse exotismo siamês em Bangkok também fica ali, na beira do rio. Mas só explode em abundância quando visto entre seus muros: o Grande Palácio Real. É o Cristo Redentor de Bangkok, a Estátua da Liberdade, a Torre Eiffel. Por isso tão concorrido. Tudo alí  tem brilho especial, e percebem-se nos reflexos de milhares de espelhinhos que decoram templos, aplicados com delicadeza em mosaicos coloridos. Às vezes até em pastilhas de ouro. E em folhas do mesmo metal postas pelos fiéis nas estátuas de budas. Não há nada mais exótico que as  figuras míticas de garudas, dragões, cães e elefantes. Nem mesmo as fachadas de templos e telhados.

Grande Palácio Real de Bangkok, sua maior atração

                  POR toda parte do palácio há formas distintas e extremamente exóticas, detalhadas e extravagantemente revestidas. São tão numerosas e variadas que parece uma cidade de sonhos. Ou de brinquedo. O palácio é a apoteose do exotismo arquitetônico e ornamental tailandeses. E esteja certo, é  extremamente belo, especialmente notável quando mistura estilos clássicos europeus aos tailandeses, e provoca a curiosidade dos olhares mais atentos e detalhistas.

                O Grande Palácio Real é um complexo de construções - de biblioteca a Panteão, de palácio residencial a templos, de residência oficial para Reis e dignatários estrangeiros durante suas visitas oficiais, e um tribunal real. Um modelo de um dos templos de Angkor Wat relembra o domínio da Tailândia sobre parte do Cambodia.

                ANNA e o Rei viveram ali. Corria o ano de 1860 quando a viúva inglesa Anna Leonowens viajou até o Sião para ser tutora dos 58 filhos do Rei Mongkut. Muitas divergências e choques culturais depois marcaram o início de um romance e o casamento de Anna e Mongkut. A história é verídica, retratada em duas versões cinematográficas, a mais recente vividas por Jodie Foster, no papel da viúva, e Chow Yun-Fat, no do Rei Mongkut. 

  Grand Palace

                QUEM assistiu a “Anna e o Rei” entrará melhor no espírito do filme enquanto visitar o Grand Palace. A despeito de todo o romantismo cinematográfico. A tutora inglesa dos filhos do Rei Rama IV, vivida por Jodie Foster, de fato viveu ali. Ao visitar o enorme complexo compreendem-se os motivos da inglesa ter-se intimidado com sua opulência, expressa tanto nos incríveis jardins quanto na rendilhada arquitetura e no fabuloso, enorme conjunto de construções que integram o complexo. Tudo merece sua longa, detalhada e calma visitação. 

                  

HÁ muito o que conhecer, ainda que boa parte do complexo seja fechado ao público

 

                  NO bairro Ratanakosin, coração histórico da cidade, ele é a mais sublime arte aplicada à arquitetura em Bangkok, nas torres douradas, telhados vermelhos, colunas delgadas, estátuas mitológicas e em tudo mais. Alguns pavilhões parecem saídos de ilustrações de livros de contos orientais. Nesse amplo recinto do Palácio Real estão residências reais, templos, bibliotecas e stupas construídas há mais de duzentos anos em estilos dos mais tradicionais tailandeses ou associados às influências chinesa e européia. O exemplo mais perfeito deles é o Maha Chakri Prasat Hall, projeto que recebeu linhas desenhadas por arquitetos britânicos, contendo traços do neo-clássico, juntando-se aos asiáticos.

                  NO complexo estão o Wat Phra Keo, ou Templo do Buda de Esmeralda, onde está a figura mais sagrada de Buda no país e o belíssimo Wat Pho, ou Templo do Buda Reclinado, do século XVI. Coberto de folhas de ouro, impressiona tanto pelas dimensões - são 46 metros de comprimento - quanto pela beleza. É uma das maravilhas, não apenas do complexo palaciano, mas de Bangkok. Ou mesmo da Tailândia. É o maior e mais antigo da cidade e em todo o grupo abriga mais de 1000 imagens de Buda.

 

Wat Pho, ou Templo do Buda Reclinado


                   MAIS importante do que qualquer outro templo no país, este tem a maior imagem: o Buda Reclinado, ou Phra Buddhasaiyas. Wat Pho foi construído como uma restauração de um templo anterior no mesmo local, o Wat Phodharam, que começou em 1788. Foi restaurado e também amplicado novamente no reinado do rei Rama III (ente 1824 e 51), e finalmente restaurado em 1982. O Phra Vihara, ou salão principal do Wat Pho é uma belíssima construção com pinturas murais para abrigar a imagem do Buda reclinado, feita em tijolos e massa, inteiramente dourado com folhas de ouro em seus 46 metros de comprimento, 15 metros de altura na extremidade principal e 3 metros na extremidade de pés. Os pés têm 5 metros de comprimento e as solas são esculpidas com madrepérola encrustradas, na qual estão representados os 108 sinais auspiciosos do Buda. A obra de arte tem estilos chinês e tailandês.

                  ANTES de entrar no templo, ouvimos o som das moedas jogadas uma a uma nas dezenas de panelas de ferro alinhadas ao longo dos 46 metros de Buda. Um ritmo de tilintar que nos segue da entrada à saída e marca a visita. E também no Wat Po está a escola de massagem tailandesa tradicional. De graça. É só enfrentar a fila.

 

Detalhes do Phra Mondhop


                  O palácio é real, para além da nobreza, e quando confrontrado com a realidade ao seu redor, além de seus muros, ocorre um dos mais evidentes contrastes de Bangkok. Talvez em sua visita o turista perceba precisamente nele que a cidade vive um dilema: navegar para o futuro sem puxar as âncoras do passado. Mas brilhando do mesmo jeito. Nas modernas fachadas de inox e vidro, nos mosaicos cerâmicos e espelhados dos antigos templos. Defronte ao frente Golfo da Tailândia, outrora parte de importantes rotas comerciais e os consequentes intercâmbios culturais entre o Oriente e o Ocidente que elas promoviam, Bangkok hoje vive esse curso em direção à modernidade enquanto mantém seus aspectos mais atraentes: tradições e patrimônio antigo.

                   ASSIM como o enorme, belissimo Buda reclinado, um grupo de quatro enormes chedis, um conjunto satélite de pavilhões do Grande Palácio, os famosos, atraentes e bonitos Phra Maha Chedi Si Rajakarn. Cada um com 42 metros de altura e inteiramente decorados com mosaicos cerâmicos, são uma das partes mais notáveis da visita ao complexo. Cada um construído para comemorar o reinado dos reis Rama I, II, II e IV, da dinastia Chakri. com uma cor predominante para cada rei: verde para o Rama I, branco para o Rama II, amarelo para o Rama III e azul para o Rama IV. Phra Maha Chedi Si Rajakarn é cercado por um muro branco com portas de estilo tailandês e chines, decorado com azulejos de cor e jardins ornamentais protegidos por guardiões.

Os guardiões do Palácio

                  QUANDO entramos no Wat Suthat Thep Wararam - ou Wat Suthat - não imaginávamos o quanto ele é bonito e que veríamos uma bela imagem de Buda - Phra Sri Sakayamuni. Wat Suthat tem um apelo mágico e mexe com a gente. Localizado na Rua Bamrungmuang, centro de Bangkok, ou Krung Ratanakosin, não está muito longe de outros locais de interesse turístico, como Grand Royal Palace.

Chinesices do Wat Suthat, influências da comunidade chinesa vizinha ao templo

                   APESAR de gigantesca cidade, em poucos quilômetros quadrados pode-se encontrar vários templos interessantes, como Wat Boworniweithviharn, Wat Thepthidaram, Wat Mahannopphram, Wat Mahadhat, Wat Phra Chetuphon (Wat Pho), Wat Arun, Wat Rachapradit, entre outros. O Wat Suthat foi construído em 1807 pelo Rei Rama 1. É muito bem mantido e preservado. O templo inteiro ocupa uma área de 45.000 metros quadrados, e nesse espaço há muitos interesses arquitetônicos, esculturais e visuais baseados no tema budista tailandês e na sua filosofia. Defronte ao templo, numa grande praça circular, há o Giant Swing, uma estrutura enorme em forma de balanço construída em 1784.  

Giant Swing

                  HÁ pequenas capelas nos quatro cantos construídos em torno do Vihara - o mosteiro, ou edifício principal - cada qual com imagens representando as posturas mais comuns de Buda . Entre elas o Buda sentado com as pernas cruzadas e as mãos dobradas em seu colo, ou posição lótus. Outras são do Buda com a mão levantada ou uma das mãos tocando a terra.

 

Wat Suthat

                   NO lado oposto do Rio fica Thonburi, um bairro bem mais bucólico, talvez o que mais se aproxime do que foi um dia a angelical Bangkok. Sente-se isso quando se nafega pelos antigos canais do século XVI. Entre mergulhos infantis e jacintos boiando na superfície da água e canoas coloridas, ainda respira-se a atmosfera daqueles tempos. E aqui é bem mais refrescante navegar o Rio Chao Phraya pela manhã ou no fim da tarde, quando então a "luz dos fotógrafos" - o entardecer -, revela os tons dourados dos raios do Sol refletindo-se nas superfícies vitrificadas dos arranha-céus e dos templos. Mas no Chao Phraya não deixe de saber que alguns mercados flutuantes são falsas encenações montadas para turistas. Chegam em barcos estacionados junto aos templos carregados de bugigangas. Algumas são até interessantes.

Tuk tuk. Sabendo usar (regatear e insistir no destino) é útil, prático e divertido

                 FOI no bairro Silom onde melhor sentimos o que significa "tráfego congestionado" em Bangkok. Centro comercial moderno, zona financeira e de hospedagem, por ali circulam de dia milhares de locais, os turistas, os executivos e os comerciantes, e de noite parte deles por causa da sua vida noturna. Dizem que Bangkok tem cerca de 11.000 restaurantes e bancas de comida de rua. Dia e noite. Para todos tipo de comida asiática cozida, frita, grelhada, marinada, assada, sopas, saladas, arroz e macarrão. Um dos lugares mais populares para comer é Sukhunvit, onde a oferta é tão grande que é difícil saber por onde começar.

Wat Pho

                  UMA contagem não oficial relaciona mais de 400 templos budistas na região metropolitana de Bangkok. Muitos turistas estrangeiros visitam apenas os mais destacados, entre eles o Wat Phra Keao, Wat Arun, Wat Pho e o Wat Traimit. Mas há muitos  outros atraentes e de grande beleza, que especialmente por estarem vazios de turistas tornam-se verdadeiros oásis de serenidade, lugares extremamente tranquilos para um repouso dos sentidnsode pois de umas horas na cidade. São templos como Wat Rakang, Wat Borworniwet, Wat Intraviharn, Wat Paknam, Wat Prasat, Wat Suwannaram e Wat Suthat, que se alguns não são tão brilhantes na arquitetura e ornamentação, são muito respeitados entre os habitantes e religiosos locais. São interessantes o suficiente para merecer sua visita. A maioria deles verdadeiros símbolos budistas.  

Bangkok: imensos contrastes dentro e fora dos muros do Grande Palácio

                  A Khao San Road, famosa rua dos mochileiros e turistas jovens, com seus albergues , lojas e restaurantes baratos, tem personalidade, mas para quem não é jovem nem mochileiro nada mais é doque uma curiosa tourist trap. À noite é território  cheio de estrangeiros e tailandeses em busca de diversão e de ladyboys e prostitutas tentando vender-se. Talvez seja o lugar com mais cara de amigos falsos e trapaças da cidade. 

O Rio e o Templo

                  VOLTANDO ao nosso passeio no rio, os contrastes entre moderninade e antiguidade continuam a revelar-se em terra. E de muitas maneiras: do simples e urbaníssimo Skytrain aos tuk-tuks, dos multi-coloridos taxis aos antigos, por vezes espantosamente decreptos ônibus urbanos. O turista observador encontrará alguns contrapontos aqui também. Entre a tradicional e ornada arquitetura religiosa e os reluzentes, futurísticos arranha-céus, onde a cidade demonstra porque é o epicentro da modernidade asiática. Poderiam estar em Chicago, Tóquio, Xangai ou Dubai e causariam o mesmo impacto. A torre The Met Bangkok é apenas um desses exemplos da fase moderna da arquitetura, reflexo da era dos “Tigres Asiáticos”. Apesar disso Bangkok é uma urbe por vezes feiosa, mas tem tudo o que uma cidade moderna precisa ter o conforto de seus visitantes.

   Vista do Rio, Bangkok por vezes é uma urbe meio feiosa

                  ENTRE os templos de Bangkok, há os incríveis Wat Mahathat, Wat Traimit, Wat Saket e Wat Sutat, templos que eu classificaria na categoria "visita obrigatória". E para além do prazer visual dessa arquitetura monumental, há outros que o visitante pode experimentar. Não me refiro àqueles que atribuem à cidade sua pior reputação: “paraíso sexual", do sexo predatóri, dos go-go bars, das casas de “massagem” suspeitas e dos ladyboys de Soi Cowboy e das barracas que oferecen todo o tipo de artigos, de eletrônicos a imitação de marcas famosas, especialmente os típicos Rolex falsos de Bangkok. Infelizmente a realidade expandiu-se para além da Soi Patpong, até a Khao San Road, Chidlom, Ploenchit e Sukhumvit. Todos renderam-se ao turismo sexual. E ainda que os espetáculos pornôs possam ser ridículos (ao meu ver), atraem uma legião de turistas sexuais ou simples voyeurs, muitos dos quais percebem tarde demais que algumas de suas ‘boom-boom girls’, ou Ladyboys, na verdade são travestis (talvez as mais perfeitas do planeta). E que pisam num terreno fértil para a AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis.

 

                  MINHA melhor recomendação para quem que conhecer o lugar é, primeiramente, eliminar os preconceitos. Depois saber que é seguro para quem vai apenas conhecer sem todavia envolver-se. Não recomendo a ninguém que deixe de conhecer a região por medo ou preconceito. Ainda que não se escape de perceber que sexo, sexualidade e prostituição andam agarradinhos com o turismo. E que expressam-se no corpo de dançarinas-prostitutas com seus olhares blazé-sensuais dançando agarradas em postes sobre balcões. Nada me pareceu mais broxante e melancólico em Bangkok. Quando falo dos prazeres que a cidade proporciona, me refiro a todos os demais que se podem experimentar na cidade.

Um passeio incomum por Bangkok pode revelar preciosidades arquitetônicas

                 O marketing também lhe atribuiu o apelido "Veneza do Oriente". Pompa que não guarda mínima lembrança com a cidade dos Doges. É marketing, clichê. E Bangkok nem precisa deles, o que se nota quando visitamos seus canais, conhecemos o mais vivo contraste entre a futurística e a tradicional. Entre estes canais, o Khlong Saen Saeb, construído em 1830 pelo rei Rama III, comunicava a cidade com a província de Chachoengsao. Já nos khlongs de Thonburi a vida transcorre como há séculos, quase inalterada em suas mesmas canoas carregadas de frutas, de verduras e pescado, e nas crianças banhando-se à porta de suas casas.

Pelos khlongs de Thonburi, num barco de rabeta longa

                POR ali uma ao Museu das Embarcaçõs Reais  expõe belos exemplares antigos e históricos da época imperial, revelando ao turista muitas tradições relacionadas aos canais. Da visita sai-se com a impressão de que os traços mais típicos de Bangkok estão naqueles os klongs por onde corre uma água leitosa e navegam canoas com teto de palha trançada e condutores com chapéus de cone. 

Surpresas arquitetônicas nos caminhos não batidos de Bangkok

                 WAT Sukhothai Traimit,  o templo budista, fica relativamente próximo à Khao San Road, em Chinatown. Estando por lá vale uma esticada. É onde está o grande Buda de Ouro, o maior Buda em ouro maciço do mundo: 5 mil quilos. É do século XIII. O templo fica numa grande comunidade chinesa.

  Wat Sukhothai Traimit

                   Antes de saber-se que era de ouro, pensava-se que era de barro, porque dessematerial fora recoberto para esconder o tesouro. Certa vez, durante uma reforma no templo, algo caiu sobre a estátua de barro, que quebrou-se, revelando o que estava por baixo: ouro puro. Tornou-se, então, um dos tesouros mais preciosos do país.

 

E o que era barro...

...virou ouro

                     Ainda que haja carros em excesso - quer estejam zunindo loucamente ou engarrafados no trânsito sufocante -, que a poluição do ar seja sensível nos olhos e narinas, que a quantidade de gente seja pra lá de excessiva, que a comida seja estranha (mas deliciosa!), que a prostituição não se disfarce, que as armadilhas turísticas sejam óbvias e numerosas, que o turismo selvagem traga seus problemas, tudo, tudo se resolve com preparo. 

Jim Thompson's House

                 A tarde cai e a noite chega. Por algum tempo deixamos de lado a sensação de cansaço que a cidade nos obriga, e à noite chega brilhando agora com as luzes, dando à cidade dos anjos - e ao nosso olhar - um dos seus mais belos momentos. Como este, visto do alto de um dos apartamentos do Península, nosso porto seguro, oásis de relaxamento e tranquilidade em Bangkok, do “outro” lado do rio, numa das partes mais convenientes e pitorescas para se hospedar na cidade.

A Rua Khao San

                Retornar à cidade no fim da tarde é um convite para explorar a noite. Não sem antes uma sessão de massagens e piscina, para depois programar-se um jantar no restaurante mais alto da cidade. Com vistas de tirar o fôlego, o aclamado Sirocco fica no 63º andar do edifício Lebua State Tower. O restaurante ao ar livre, tem um dos mais renomados cardápios de Bangkok e uma vista deslumbrante desde o Skybar. A culinária é ocidentalizada, tem notas mediterrâneas e pode surpreender por seus ingredientes de qualidade. A música ao vivo é de boa qualidade. Quando lá estivemos havia uma banda acompanhado uma cantora de jazz fabulosa, completando o ambiente ideal para qualquer celebração. Romântica, especialmente. Mas essas vertigens visuais não se limitam ao Sirocco. O hotel Banyan Tree Bangkok tem no seu 60º andar um concorrente à altura. Tanto do solo quanto na comida. Há lugares para saborear dim sum no Bai Yun, de cozinha tailandesa contemporânea no Saffron, de frutos do mar do Pier 59, de comida japonesa no Taihei. Para vistas dslumbrantes como as do Sirocco, há o Vertigo, apropriadamente chamado assim devido à sensação vertiginosa que se tem do bar ao ar livre, no topo do hotel Banyan Tree de Bangkok.

Vianmeck Palace

                  O Palácio Dusit - ou Phra Maiara Wang Dusit - é um complexo de residências reais em Rattanakosin entre 1897 e 1901 pelo rei Chulalongkorn (Rama V). Não se visita, mas fica próximo do Dusit Zoo e de Vianmeck Palace, antiga residência real, este sim um lugar que vale a pena visitar se tiver tempo. Quando voltou da Europa em 1897, o Rei Rama V investiu seu prórpio dinheiro para comprar pomares e campos de arroz para a construção de um jardim real, chamado por ele mesmo de Jardim de Dusit. A primeira residência no Dusit Garden foi a mansão Vimanmek, construída em 1900 por ordem do rei Ram. A construção era um palácio de verão em madeira que foi desmontada de seu sítio original, longe dali, em Chonburi, e reconstruída no lugar. O rei mudou-se do grande palácio para residir na mansão Vimanmek por 5 anos, até sua morte prematura em 1910. Depois disso a família real voltou para o Grand Palace.

Palácio Dusit

                Não havendo tempo para visitar todas, destaco minhas 15 atrações mais atraentes em Bangkok: 1. Grand Palace e Wat Phra Kaew, 2. Wat Po, 3. Wat Arun, 4. The National Museum, 5. Vimanmek Teak Mansion e o Dosit Throne Hall, 6. Jim Thompson´s House, 7. Royal Barges Museum, 8. Thon Buri Canals, 9. China Town, 10. Chatujak Weekend Market, 11. Suan Pakkad Palace, 12. Wat Suthat e o Giant Swing, 13. Golden Mount, 14. Wat Traimit e 15. Lumpini Park.

                  Kop kun kap, Bangkok! (obrigado!)

Notas:

 Quando se fala em compras Bangkok pode ser um dos paraísos mundiais. Especialmente para quem gosta de artigos de decoração e peças antigas. Neste caso, não há como resistir ao River City Shopping Center, sobretudo nos seus andares onde concentram-me os melhores antiquários da cidade. Já para as sedas de lenços a jogos de mesa, bolsas a roupas - não há melhor lugar que a loja Jim Thompson Thai Silk Shop que por si já vale a visita, especialmente se conjugada à belíssima cada de Jim Thompson.

Os tailandeses são compreensivos e tolerantes com os turistas em termos de não respeito às tradições.  Mas não com as relacionadas às coisas sagradas. Entre elas, com as quais não se brincam, sobr risco de arrumar confusão: a família real, o budismo, não tocar a cabeça de uma pessoa e apontar com os pés qualquer coisa, e, finalmente, vestir-se adequadamente em público.

 [1] Krung Thep Mahanakhon Amon Rattanakosin Mahinthara Yuthaya Mahadilok Phop Noppharat Ratchathani Burirom Udomratchaniwet Mahasathan Amon Phiman Awatan Sathit Sakkathattiya Witsanukam Prasit. É este o nome não abreviado, e para os muito íntimos. Bang Makok, para os mais eruditos, era uma pequena aldeia às margens do Chao Phraya, até a nova capital ter sido fundada em Thonburi, a seguir à queda de Ayutthaya. Mais tarde, em 1782, o Rei Rama I construiu um palácio em Rattanakosin e renomeou a cidade como Krung Thep, ou Cidade dos Anjos.

 [2] Como toda cidade culturalmente exótica, de costumes tão diferentes que recomendam-nos consistência no conhecimento,  no planejamento e nas informações, desde as mais elementares - como usar sapatos confortáveis, roupas adequadas, mapas e guias de viagem,  até às menos comuns, como um iPod para os momentos ruidosos de rua, lenço de pano para quando trafegar de tuk-tuk entre fumaça de óleo diesel, água mineral, mochila, proteção solar e boa vontade.  Quando me refiro à poluição, quero dizer que é preciso comprender que ela não está no chão das ruas, mas no ar. E que que a despeito de sua grandeza, Bangkok é cidade limpa ede ruas bem mantidas. Não se encontra lixo no chão, ao menos para classificá-la como “cidade suja”. 

 [3] The Peninsula Bangkok: o conteúdo deste blog não é patrocinado por companhias aéreas, hoteleiras, de seguros de viagem, locadoras de automóvel, de reservas de hotéis ou qualquer outra empresa relacionada ou não com viagens e turismo. Esta matéria não foi revista ou aprovada nem é de conhecimento das cias., entidades, hotéis, serviços ou pessoas citadas em seu corpo. As opiniões expressas são exclusivas do autor e também não endossadas por qualquer pessoa ou entidade. Não escrevo posts patrocinados (clara ou disfarçadamente), não recebo 'brindes' ou mimos, não aceito convites para fazer coberturas positivas de qualquer evento (de lançamento de caminhões a classes executivas de cias. aéreas). Não recebo permuta ou qualquer vantagem, minhas viagens são auto-financiadas, não sou recompensado ou comissionado em nenhuma hipótese e a que título for por qualquer marca de produto ou serviço, mencionado aqui ou não. Tudo o que é publicado aqui é feito com a suposição de que o leitor saiba identificar os objetivos deste blog, sobretudo que verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão. Não publico matérias que não sejam de minha autoria,  não tenho ghost-writers nem escritores colaboradores esporádicos ou permanentes. 

Uma vila "perdida" em Chinatown