CONHEÇA O AUTOR

 

         Depois de estabelecer-se na Internet - em 1999 - escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo, da Editora Abril e, agora, prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando, assim, na literatura de viagens com um livro encantador, segundo o autor, o primeiro de uma série de pelo menos quatro que já planeja produzir, dois deles em plena fase.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de apenas uma "conversa" com o leitor, baseada na informalidade, o livro mistura traços desta coloquialidade e informalidade com os de uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida. 

             Por bom tempo - antes de me decidir por publicar um livro - meu lado esquerdo do cérebro brigou com fúria contra o direito até certificar-se de que o leitor teria nos meus livro não os textos que escrevi no blog, porque, entre outros motivos, livro é coisa séria, e ninguém (ninguém de verdade!) merece ler posts de blogs reproduzidos em livros, especialmente textos efêmeros, perecíveis, descartáveis ou preocupados em agradarem "o mercado" e a blogosfera. Felizmente, ao que parece, posts continuarão restritos aos blogs e livros a serem livros. O tema da viagem parece ainda não ter-se banalizado na literatura universal, nem ter-se rendido às formas diversas da monetização.

           Minha ascensão na escrita de viagens com este trabalho literário não é exatamente uma novidade. Ainda que recentemente eu tenha notado a mente lampejar com a ideia: tornar-me um escritor de viagens. Todavia, ela sempre me rondou. Mesmo que a alguma distância. Não foram poucos os amigos, parentes e leitores do blog que há mais de dez anos recorrem à pergunta: “Por que não escrever um livro?”

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti na categoria Reportagens

Ronize Aline:

             "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária, crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

 


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Quinta-feira
Dez122013

GENTE, o maior patrimônio do Irã

Era apenas mais um doce olhar iraniano...

               Não é fácil olhar olhares e decifrar pessoas. Mesmo assim eu tentava advinhar o que pensava aquela menina olhando o infinito. Não sei se o fazia para o futuro, com ou sem esperança, ou ainda se alguma desfeita ao coração ela sofria. Ou os medos que já sofrera: de falar abertamente, de que sua antena parabólica fosse tomada, seu cão de estimação confiscado e exterminado, de falar, de ouvir, da polícia, do governo...

                Eu só estava certo de que aquele era apenas mais um doce olhar, que como todos não revelava o mais remoto sentimento de ódio. E me fazia recordar de tantos - menos ou mais reveladores, e sempre encantadores - que nos acompanharam em nossa jornada pelo Irã.  Mas foi aquele olhar que me fez refletir sobre o imenso contraste entre o que um turista vive no Irã e as imagens que se tem do país no Ocidente. 

Duas doçuras entendendo-se num olhar e sem palavras 

                Muito antes de terminar a viagem aquilo já tornara-se um costume. E ainda que não mais me surpreendesse, permanecia encantando. Nossa viagem chegava ao fim em Kashan, última cidade que visitamos no Irã. E durante toda nossa estada no país encontramos um povo agradável, receptivo, simpático e educado. Especialmente com estrangeiros. Sempre caloroso e aberto. 

                Ganhávamos, mimos, como de um rapaz em Abyaneh, que depois de posar para minha câmera segurando uma romã das que sua família produz e vende na beira da estrada, encheu um saco delas e nos deu. Não aceitou qualquer pagamento, a não ser um aperto de mão, que também retribuiu com um "boas vindas ao Irã", dito em farsi.


Ganhávamos mimos, como deste rapaz em Abyaneh: um saco de romãs, um aperto de mãos e um "boas-vindas"

                 E nos davam beijos e abraços tão calorosos quanto surpreendentes. E tamanha doação e generosidade ia ficando no coração e na mente. De tal jeito que nem o mais emotivo sentimento conseguiria transmitir meu reconhecimento. A cada despedida, um novo sofrimento: não conseguir transmitir o que no meu peito se passava. E assim, a cada novo encontro, eu reforçava minha enorme vontade de escrever, escrever e escrever sobre o tema.

Pai e filha em Abyaneh, mais um exemplo de simpatia iraniana

                Em Kashan não foi diferente. Nem menos, nem mais surpreendente. Tampouco o melhor ou pior lugar. Apenas o último onde passei o mais respeitável conjunto de episódios fantásticos relacionados com as pessoas. Nas lojas, nas ruas, nos bazares, nos restaurantes e atrações. Foi no Irã que vivi o enorme privilégio de encontros tão marcantes em viagens, experiências tão gratificantes que delas trouxemos as mais doces lembranças. Inconformado, eu não consegui cruzar a fronteira entre a emoção e a razão: não escrevi algo que pudesse mudar o jeito como o mundo enxerga o Irã.

                 Pela imensa doçura de sua gente, por tudo que dela recebemos, deixo aqui minha sincera gratidão.


Mr Majid, mais um que nos deixou encantados com o Irã

Segunda-feira
Dez092013

IRÃ - Kerman 

            INTRODUÇÃO  ___________________________________________________________________

               O IRÃ não é um clichê, um destino batido, um "país comum". É daqueles que apesar do espetacular potencial, de sua enormidade histórica, de um patrimônio arquitetônico quase inesgotável, ainda é incrivelmente inexplorado. Seriam motivos bastantes para qualquer turista desejar conhecer, sobretudo ter a certeza de ver correspondidas suas expectativas.


A Praça Naqsh-e Jahan e seu belíssimo conjunto arquitetônico valem a viagem ao Irã

               Não posso tirar da imponente praça central Naqsh-e Jahan - uma das maiores do mundo - e de seu conjunto de bens tombados pela UNESCO, em Esfahan, além da incrível Persépolis, o título de atrações turísticas máximas do país . Ambas eu já consideraria suficientes para ter valido a viagem, retornado em prazer turístico cada dólar investido. Mas não. Antes de viajar eu não imaginava que não seria conhecer os tão desejados monumentos de arquitetura persa o que melhor marcaria nossa visita ao Irã. Foram as relações sociais, as experiências vivivas e compartilhadas com os iranianos, em todos os âmbitos, que marcou tão forte e definitivamente minha estada no país. E permanece ainda hoje a  tomar a maior parte das minhas lembranças. O povo, não o patrimônio iraniano, tornou a viagem uma das mais incríveis que já fiz.

O patrimônio é incrível, mas terão sido as experiências com as pessoas que  marcarão o visitante

                  Então, não fui marcado pela arquitetura persa nesta viagem?  Não. Definitivamente. O que eu tanto sonhara conhecer não correspondeu ao que eu esperava. Neste particular verdadeiramente o país chegou a me desapontar. E lamentei ter visitado o Irã  depois do Uzbequistão, ter conhecido Samarkanda, Bukara e Khiva antes de Kashan e Esfahan, os dois maiores ícones turísticos irananianos. Sem saber, comprometi gravemente meu potencial de encantar-me com a arquitetura persa - tanto religiosa quanto funcional  - depois do que vi dela na Ásia Central.  

Mesquita Shah, ou Jameh Abbasi, na Praça Naqsh-e Jahan, um espetáculo que faz valer a viagem ao Irã 

                    Cada viajante forma sua consciência a partir de suas próprias experiências. Ao menos deveria ser assim: o aprendizado de cada um, não a opinião de outros, a condicionar seu poder de avaliar, de desejar, preferir, desgostar, motivar-se por um destino. É como deveria ser tudo, afinal: cada viajante seguir seus gostos e interesses. Compreender que quanto mais viajamos, melhor estabelecemos semelhanças com outros destinos e criamos identidades, passamos a compreender que desejar muito um destino não é o suficiente para nos encantarmos por ele. Este é apenas um dos paradoxos inerentes às viagens.

Crianças afegãs no Bazar de Kerman

                   Quanto mais viajamos e visitamos destinos, maiores as chances de não nos encantarmos com algum, sobretudo porque passam a ser inevitáveis as comparações com o que já conhecemos. Ninguém, por exemplo, deixa de lembrar-se daquela praia espetacular e encantadora que conheceu no Caribe com a que está visitando se esta última não lhe tirar os mesmos suspiros. Jamais me esquecerei de minha primeira viagem internacional: Miami e Orlando. Nem de quantas vezes retornei aos mesmos destinos. E me empolguei por estar ali. Mas também o quanto hoje é improvável que eu gaste meu dinheiro viajando para estes destinos. Não gostei de Miami e Orlando? Adorei! 

Praça Tohid, Kerman

                  Eventuais decepções são intrínsecas ao ato de viajar. Tão relacionadas com questões pessoais e diversas que enumerá-las seria inesgotar o assunto. Compreendo-as, simplesmente. E as assimilo, sem sofrimento. Possivelmente porque a contabilidade até aqui tenha sido incrivelmente favorável a mim: dos 53 países que visitei, para apenas um eu diria "não volto jamais": St. Martin/St. Marteen. Contudo sei que quase não há turistas que não desejam conhecer a ilha caribenha, além dos que já tenham ido e se encantaram.

 

Shazdeh Garden, meu primeiro jardim persa

                   Sou otimista quando viajo, o faço com positividade, reconheço que destinos não se comparam, ainda que seja natural lembrar-me de um enquanto visito outro. Por isso creio no preparo e na pesquisa como fundamentos de uma boa viagem, especialmente para destinos incomuns. Deste modo, não haveria de ser diferente com o Irã.

Praça Tohid, centro de Kerman, onde toda visita começa

                    Se um dia alguém me pedisse a indicação de um país importante para o currículo de um viajante, especialmente onde um turista experimenta o que há de melhor em hospitalidade, eu não hesitaria: vá ao Irã. Mas com uma ressalva: nunca depois de conhecer o Uzbequistão. Ambos são países pouco explorados, não tratam seus visitantes como ‘mercadorias’, têm patrimônio notável, um povo cativante e uma arquitetura islâmica tão bonita que viajar neles vale cada centavo investido, cada dificuldade vencida. Mas visitar o Irã depois do Uzbequistão é potencializar uma eventual decepção.

Shazdeh Garden

             NAQUELA manhã acordei especialmente animado (ainda que isso também seja habitual enquanto viajo). Mas o meu estado de espírito conhecia um entusiasmo incomum até então naquela viagem. E havia um motivo: o Irã - que eu tanto sonhara conhecer - ainda não correspondera ao que eu esperava. E lamentava que depois de ter visitado TeerãKandovan e Tabriz o país ainda estava longe de me empolgar como fizera desde o primeiro minuto ao último o Uzbequistão. Sobretudo no quesito que mais me atrai em viagens: arquitetura. Neste caso, a islâmica - notadamente a persa, e ainda mais especialmente a religiosa - até então fora decepcionante. Tudo o que eu vira até então era mais do mesmo, e de uma simplicidade que tornava recorrente e inevitável lembrar-me do que eu vira no Uzbequistão. Tudo era apenas comum.  

              Não era exatamente um desapontamento, mas ter visitado Samarkanda, Bukara e Khiva antes de Kashan e Esfahan, dois dos ícones turísticos irananianos, compromenteu gravemente o potencial de encantar-me com o Irã, especialmente sob o ponto de vista da arquitetura. 

 

Bazar-eVakil (West Copper), Kerman   

                   Também contribuía o fato de eu ter-me incomodado bastante com a obrigatoriedade das mulheres visitantes vestirem-se à moda iraniana. O incômodo, eu sei, era maior em mim do que em minha mulher, ainda que ela não percebesse sua expressão de notável alívio quando se livrava do hijab.

 

Elas, com hijab até nos simbolos dos toaletes, e eles...

                    Devo reconhecer que outro incômodo, este conceitual, não me largava: o futuro sombrio que eu temia para o país. A economia vai mal devido as embargos comandados pelos Estados Unidos. Israel, sempre Israel, vive ameaçando o país. Talvez por isso fosse tão notável meu desconforto com o esforço honesto e desconsertante dos iranianos quando declaravam que não há outro país tão injustamente demonizado quanto o seu.

O incômodo, eu sei, era maior em mim do que nela... 

                   Não há muita liberdade, especialmente para as mulheres. E injustiças sociais e políticas. É o que pode tornar um visitante sensível e atencioso entristecido com essa realidade. Especialmente porque recebe tanto em hospitalidade. Aliás, o iraniano é tão receptivo e simpático, tão educado e gentil que mesmo o mais ranzinza visitante não escaparia de apaixonar-se por todos. 


Shah Nematollah Vali Shrine

                    Depois da cinzenta Teerã, finalmente íamos para o interior. Era lá que eu esperava encontrar o melhor das arquiteturas persa religiosa e funcional,  seus monumentos e a tão esperada atmosfera que as cidades do deserto evocavam. Além da etnia baluchi, eu também esperava mais ao conhecer meu primeiro jardim persa, o enorme bazar de Kerman, suas madrassas, mesquitas e hamans 

Portão de uma mesquita do Complexo Gang Ali Khan, Kerman

                      KERMAN __________________________________________________________

                      O vasto deserto é quase sem água. A escassez - um dos maiores problemas da Província - parece compensar-se no céu: de dia, um azul tão límpido; à noite, um estrelado tão notável. A cidade é tão antiga quanto a História: chamava-se Behdesīr, quando foi fundada no século III D.C por Ardeshir I, do Império Sassânida. Depois da batalha de Nahāvand, em 642, tornou-se domínio muçulmano. E foi seu isolamento geográfico que possibilitou prosperar o zoroastrismo.

 

Bazar de Kerman

                      Kerman foi Capital de diferentes reinados, mas no período safávida conheceu a maior prosperidade. Marco Polo também andou por lá em 1271. Transformou a cidade um dos maiores centros de comércio na Rota da Seda, e parada estratégica no roteiro entre o Golfo Pérsico e a Ásia Central. Hoje a economia é rural, com a maior produção de pistache do mundo, produto de exportação que concorre com o cobre retirado de seu solo.

Bazar de Kerman, onde toda visita começa

                     Turisticamente, o Bazar-eVakil é destaque em qualquer visita. E provavelmente a primeira atração de um circuito lógico. Tem mais de um quilômetro de extensão. É o mais longo bazar coberto em linha reta do mundo, além de um grande lugar para admirar a arquitetura persa. O complexo tem setores e nomes diferentes, em acordo com os produtos: Arg bazar, Seraji, Ganjalikhan, Qale square, North Copper, West Copper, Kafash-ha, Vakil, Kolah Mali, Zargari, Ekhtyari, Haj aqa ali e Mozafari bazar. É difícil passar por ali sem comprar algo, ou ao menos sem ter desejo de fazê-lo.

              

                 Especialmente o artesanato é difícil resistir a comprar em Kerman, um dos principais centros de produção artesanal do Irã, onde são produzidos os requintados Pate, exclusivamente por mulheres. São tecidos artesanais bordados com desenhos geométricos e florais.

Gang Ali Khan

  

                     Gang Ali Khan, a antiga praça, é uma miniatura da Naqshe Jahan, em Esfahan, e também da Mir Chakhmaq, em Yazd. O complexo tem madrassa, carevansarai, hamam, bazar e um reservatório de água. A arquitetura islâmica novamente produziu detalhes esplêndidos, um misto de arte e ornamentação que se encontra mais notávelmente no antigo hamam, que funcionava desde 1020. Um corredor escuro e estreito leva o visitante ao interior do hamman, transformado num interessante museu com mosaicos, domos, pinturas e arcos que revelam um dos mais bonitos edifício históricos do Irã.

Pinturas na entrada do Hamman Gang Ali Khan

                     O Hammam Ganjali Khan um dos mais bonitos edifício históricos do Irã, não sem exagero a parte mais interessante do complexo do Bazar de Kerman. Está muito bem mantido, inclusive seus mosaicos e pinturas originais, suas alvenarias, madeiras e mármores. Um corredor escuro e estreito leva o visitante ao interior do hamman, hoje transformado num interessante museu com mosaicos, domos, pinturas e arcos que revelam.

Arcos, domos, mosaicos, pisos e colunas do Hamman Gang Ali Khan 

                     No interior, figuras em cera e cenários recriam a época. Um vestíbulo octogonal ligado por um corredor ao primeiro vestiário - entre os seis destinados às diferentes classes sociais: nobres, comerciantes, clero e pessoas comuns - retrata cenas originais de áreas de banhos quente e frio, de massagem e esfoliação e tratamentos. O banho principal tem uma piscina de água fria, mas é o teto em abóboda, sustentada por oito pilares, que torna o ambiente tão bonito.

Cenas antigas representadas por figuras de cera e cenários no museu do Hamman Gang Ali Khan

  

Pinturas da era safávida e uma das piscinas do Hamman Gang Ali Khan  

                      O Shazdeh Garden, é o jardim persa histórico, construído pelo então governador Abdolhamid Mirza Naserodoleh durante o período Qajar. O estilo é dos anos 1900, e consiste de piscinas, canais e jardins de flores e árvores, infelizmente não muito bem cuidados à época de nossa visita, visivelmente sujo e necessitando de restauração. A planta é retangular, tem 407 metros de extensão por 122 de largura, amplitude que destaca a construção mais bonita do jardim: o edifício de dois andares construído para abrigar visitantes e funcionar como portão de entrada do complexo.

Carevansarai  Gang Ali Khan

  

Balança original e domo do Carevansarai Gang Ali Khan

                      Shah Nematollah Vali Shrine é um lugar pouco visitado, talvez porque fique em Mahan, mas é muito próximo do Shazdeh Garden, o que recomenda uma passada para conhecer o mausoléu do poeta Shah Nematollah Vali, morto em 1431 aos 100 anos de idade. O lugar transformou-se em destino de peregrinação quase religiosa em honra ao poeta. O santuário compreende quatro pátios, uma piscina e a mesquita, cuja cúpola é ladeada por dois minaretes, tudo decorado em mosaicos azul turquesa. A mais antiga construção é de 1436, mas depois o Xá Abbas construiu e renovou o complexo em 1601, entre as quais a cúpula azul. Arquitetonicamente é uma obra magnífica, exemplar da antiga Pérsia.

Santuáro Shah Nematollah Vali 

  

                     A pequena sala com o túmulo do poeta é tão reverenciada como outros mausoléus religiosos que visitamos no país. Tem decoração em estuque e mosaicos cerâmicos e é uma das partes mais interessantes e atmosféricas do complexo. Poucos, todavia, notam suas belas portas de madeira, antigas, originais.

 

Bazar-eVakil  

                     Vakil Traditional Bathhouse Teahouse é o lugar mais turístico que frequentei no Irã. Mas vale a visita. O antigo haman foi transformado num restaurante e tea house, com música antiga ao vivo, lugar frequentado pela a juventude iraniana e por alguns dos raros turistas estrangeiros.

Vakil Traditional Bathhouse Teahouse 

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A seguir:

TABRIZ, a cidade dos "primeiros"

Segunda-feira
Nov042013

IRÃ - Kandovan, a extraordinária vila troglodita

 

 

                Kuh-e Sahand é o nome do monte mais alto da província do Azerbaijão Oriental, no território do Irã. Na verdade não é uma montanha, mas um vulcão inativo que emoldura como o céu azul a incrível vila troglodita . Fica meio escondida, a uns 40 km de carro ao sul de Tabriz. Incomum e algo misteriosa desde o século XIII, chega-se a ela por uma estrada que passa por Khosrowshahr, parte da região do Lago Urmia, Condado de Osku, lugar onde os assírios, antecessores dos persas, deixaram inscrições nas rochas, isso lá em 844 a.C. A região, bem mais tarde, também foi centro do início da segunda fase da história do Zoroastrismo no Irã.

 



             A escolha de um lugar remoto, pouco visitado, não muito populoso, uma pequena aldeia ou vila, por exemplo, num país de turismo discreto, é o que costuma tornar uma viagem mais emocionante. Descobrir lugares assim é sempre legal porque são maiores as possibilidades de surpresas ao longo do caminho. Os praticantes de montanhismo sabem do que falo, porque também experimentam lugares incomuns e caminhos pouco frequentados, seja por dificuldade de acesso, seja por pouca divulgação.

 

          

            Kandovan é um desses lugares. Tão incríveis que parecem ilusórios. Ou lembram cenários de filmes de ficção ou então cidades extra-terrestres. Mas nada que se pareça com nosso planeta. Mas é. E também a última aldeia que resta no país. Lá as casas não são apenas construídas na montanha, mas esculpidas nas suas rochas.

 

 


               É muito comum o visitante hospedar-se em Tabriz e visitar Kandovan num bate-e-volta. Optamos pelo inverso. Visitamos Tabriz no dia seguinte, depois de Kandovan. Não perderíamos por nada a oportunidade de dormir nesse incrível lugar, tampouco a experiência de passar uma noite num hotel-caverna, ainda que dos tempos modernos. Nossa noite troglodita foi uma experiência interessante e curiosa.

 


                Além de singular, Kandovan é antiga. Consta que do século XIII. A cidade é de uma curiosidade e personalidade indiscutíveis. Suas residências escavadas na rocha, algumas com 700 anos e ainda habitadas. Um notável exemplo da capacidade humana de adaptar-se ao meio-ambiente por gosto ou por necessiade. Os morros em forma de cones que a natureza pôs lado a lado, que de longe parecem gomos nascidos duma terra espremida. Entretanto o que toca o visitante é a irreverência inquestionável de seu povo. Dizem que são 700 habitantes. A comunidade é conservadora, extremamente fechada, ainda que receptiva e muito simpática, como afinal é bem própria da iraniana. Vivem como há séculos, de um jeito rústico e simples, sem luxo mas conforto. Foi um lugar que visitar não traduziu-se apenas num prazer turístico, mas numa experiência das mais notáveis em nossa viagem.

 

 A cidade é dividida em duas: a antiga, escavada na rocha, e a baixa, mais "moderna", onde ficam o comércio e os negócios, cujas construções são de alvenaria tradicional. É muito provável que alguém leia sobre a cidade comparando-a à Capadócia, Turquia. Se de fato houver semelhança, todavia é pequena. A rocha que compõe os cones da aldeia de Kandovan é proveniente de um depósito vulcânico chamado tufo, a partir de cinzas e detritos despejados pelas erupções do Monte Sahand. Relativamente macia, favorece o trabalho das ferramentas de metal. Apesar de isolada, há turistas circulando pelas ruas estreitas, fotografando atônitos e encantados a curiosa aldeia e entrando numa ou outra residência possível.

 

 

Mais curioso é o jeito de viver da população, nos espaços internos confortáveis de suas residências, onde a rocha funciona como isolante térmico, aquece o ambiente no inverno, esfria no verão. Têm mobiliário, geladeira e TV. Do lado de fora, um pequeno terraço éo teto da casa inferior. O céu limpo também é um conforto. Especialmente para quem vem de Teerã e lá sentiu nos olhos e narinas irritados. O tráfego é ínfimo, o que nos leva a pensar como era o mundo sem carros. É uma gente  que vive da agricultura e pecuária, um pouco do turismo.

 

     Há um hotel surpreendente. Sua arquitetura inspira-se nas construções tradicionais de Kandovan. O nome é pomposo: Kandovan Internacional Rocky Hotel. Mais que uma hospedagem, é uma experiência complementar à visita à cidade. Se não incomum, o mais curioso hotel do mundo. Pelo menos dos que eu conheci. É novo, inaugurado em 2007. Assim como as demais casas trogloditas de Kandovan, sua habitações têm saleta, quarto, banheiro privativo, TV e alguns até uma cozinha. São amplas e confortáveis, rústicas, com tapetes persas e iluminação embutida. Mas é a pedra que se impõe sobre tudo mais. Inclusive no restaurante do hotel. Em termos de hospedagem não foi tão notável passar a noite no hotel, mas uma curiosidade a experiência.

 

 A combinação das construções curiosas com a natureza torna a vila um destino popular para turismo. Sobretudo interno. Cerca de 300.000 turistas nacionais, sobretudo, e alguns estrangeiros a cada ano. É uma questão de tempo para a população depender do turismo como fonte de renda, deixando suas tradições pastorais e agrícolas de lado.

 

   Era feriado de Kurban Bayram ou Festival do Sacrifício. Foi um privilégio presenciar um momento tão raro para nós, um dos mais importantes no mundo islâmico. Celebrado anualmente em todo o planeta, honra a disposição de Abraão sacrificar seu filho primogênito, Ismael, como ato de suprema submissão ao seu Deus, antes que este desse a Abraão um cordeiro para o sacrifício. Os islâmicos oram ao sacrificar a ovelha em nome de seu Deus, depois retiram seu pelo, limpam, repartem e cortam, doando parte da carne para os pobres e necessitados.

    A data varia em função do calendário islâmico lunar. É uma grande celebração familiar e entre amigos e vizinhos. Após o sacrifício de um carneiro, a família e convidados - homens, mulheres e crianças - compartilham desde o sacrifício até a refeição.

 

 

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Nota

 

Para Kandovan fomos via Tabriz de Teerã, às 09:55, pela Mahan Air, serviço feito por um Boeing que saiu do aeroporto Mehrabad, doméstico. O vôo de uma hora e dez minutos cobre a distância de 526 km. Chegou ao aeroporto de Tabriz (TBZ) às 11:05 e dali pegamos um carro até Kandovan, a 40 quilômetros de distância. Voltamos a Teerã do mesmo jeito. O Aeroporto Mehrabad foi usado para vôos domésticos e internacionais até a inauguração do Imam Khomeini International Airport. Agora é apenas para voos domésticos e internacionais para lugares de grande peregrinação, como Mecca. Em termos de aparência e instalações não se iguala ao novo. mas há bonitos painéis fotográficos de Persépolis, a Capital do Império Aquemênida em Shiraz, e de grandes atrações no Irã. A atmosfera é inegavelmente atraente.

 

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A seguir

Tabriz, a cidade dos "primeiros" 

 

 

Segunda-feira
Nov042013

IRÃ, Teerã – As primeiras lições da Pérsia

A belíssima caligrafia farsi no mural do National Museum of Iran

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26 de Novembro de 2013, dia da partida: Restaurante Shabestan, Teerã.

CINCO brasileiros, o encontro e um jantar de despedida

                       SE o visto era uma insígnia, a viagem um troféu. Que embora não devesse, terminava naquela noite em Teerã. Nos despedimos com melancolia, de um jeito que me ocorre apenas em viagens brilhantes. A cada nova cidade, novas e tão boas lembranças, experiências, encontros e boas surpresas se sucediam. E se havia algum conforto revendo as milhares de fotos, relendo anotações, naquela última noite no Irã recordar o que vivemos aumentava a saudade, ressaltava a tristeza da partida.

                       VIAJAR é sempre um privilégio que agradeço, especialmente nas despedidas. Retornar retornar pra casa, todavia, é um prazer de ainda maior valor. Entretanto ainda que fosse, não devia ser a hora de partirmos, e assim lamentávamos a despedida do Irã. Até o clima parecia conspirar a favor do nosso estado de humor: chovia em Teerã, o céu estava sombrio como nunca víramos nos quinze dias andando pelo país sob sol pleno e nenhum sinal de nuvens. Lamentávamos não ter mais uns míseros diazinhos no Irã. Na manhã seguinte o voo de Teerã a Dubai seria bem cedo. A longa distância do Aeroporto Imam Khomeini obrigava-nos deixar o hotel no fim da madrugada. Nada então poderia ser mais oportuno que uma despedida como aquela: jantando com três ilustres brasileiros em Teerã!

                       ÉRAMOS cinco. Além de nós, Gabriel Britto e sua Márcia - que começavam sua jornada pelo Irã -, a simpática Caroline Dutra, já familiarizada com o país, onde mora e trabalha, e nas horas que pode comanda o Coordenada XY, blog onde compartilha informações úteis e suas opiniões sobre o Irã. No dia seguinte teríamos o privilégio de jantar com a brasileira Fê Costa, desta vez em Dubai. Sua simpatia e delicadeza já nos coquistara virtualmente, e ansiávamos agora conhecê-la presencialmente. Mora e trabalha há cinco anos no Emirado, viaja mais que andorinha em migração e conta tudo no Viaggio Mondo. Tornou-se uma "embaixadora" brasileira, não oficial, mas que promove o encontro de outros blogueiros em visita ao país.   

                        FOI no Shabestan Iranian Traditional Restaurant, em Teerã, escolha do Gabriel - pela conveniência da proximidade com nosso hotel e pela recomendação no Lonely Planet. Teria sido uma daquelas noites de varar madrugada, de comida boa, entusiasmo coletivo, afinidades e alegria do encontro, da ansiedade por trocarmos experiências no país. Enfim, cheia de motivos para ser uma dessas que terminam com garçons pondo cadeiras sobre as mesas e varrendo os pés de clientes.

Shabestan Iranian Traditional Restaurant, em Teerã

                      ENTÃO, a contra-gosto, encerramos o encontro, mesmo com tanta vontade de continuá-lo. Foi por volta da meia-noite. Mas não de qualquer uma, senão de uma memorável noite. Já no hotel tentei descrevê-la em breves anotações. Mas a página em branco foi um tormento. Sobrava assunto, mas faltava entusiasmo.  Tentei reconfortar-me voltando no tempo, antes de dormir. Não muito, treze dias, quando chegamos em Teerã

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13 de Novembro de 2013, dia da chegada em Teerã.

AS primeiras lições da Pérsia 

                       PARA mim aquilo não era coisa simples. Eu estava no Irã. Acordei às dez da manhã. Dormimos às quatro, mas a ansiedade da exploração já nos deixara despertos àquela hora. Ainda que faltassem horas de sono e sobrassem de fuso horário. Embriagado por um trivial jet leg que um vôo Rio-Dubai-Teerã (por mais confortável que seja) não exclui ninguém dos efeitos, abri as cortinas espessas da janela do quarto.

Primeira de todas as lições da Pérsia: o povo é bonito, educado, elegante, discreto, receptivo e hospitaleiro

                      Eu estava ansioso pela vista que o hotel nos reservava. Eu não esperava avistar usinas atômicas, mas confesso que também não um panorama tão feio: o quarto andar lateral que o hotel nos entregara revelava telhados, um horizonte limitadíssimo, uma ruazinha sem vida, uns prédios feios e a lage do pavimento de serviços do hotel. Não era um espetáculo...mas eu estava no Irã

 Narguilé, o chachimbo de água, extremamente popular no Irã, entre homens e mulheres

                         O desjejum foi um reconforto. Mas havia ansiedade. Tudo o que eu queria - começar a viver nas ruas nosso primeiro dia no país - não me conferia o direito de relaxar. Afinal, chegava ao fim a manhã, um desperdício. Eu ainda me sentia num universo paralelo, nada era familiar, ainda que confortável e seguro. A falta de familiaridade, ou exotismo, contudo muito me agrada em viagens.

                       O ar em Outubro é respirável, a temperatura é amena, ronda os 25 graus no topo e os 12 na base. Os dias são plenamente ensolarados. Não se encontram sinais de nuveus no céu. O hotel parece estar num bom lugar, é centra, movimentado, não remoto. Mas Teerã é gigantesca, eu ainda não sabia avaliar a localização. O café espresso foi revigorante. E muito interessante o desjejum com raros estrangeiros e muitos iranianos. Às onze e meia estávamos na Recepção do hotel e logo encontramos Mojick, nosso guia, o jovem extremamente educado, simpático, elegante e culto. Características que só mais tarde perceberíamos serem comuns aos iranianos.

  Centro de Teerã. Movimentada, frenética, ardida de fumaça, mas receptiva e hospitaleira

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TEERÃ, a megalópole

                       Toda cidade tem sua personalidade, história, momentos de brilho e declínio. Algumas resistem aos seus conquistadores e governantes, outras não. Umas atraem mais, outras nem tanto, têm mais história ou modernidade. Teerã tem tudo para agradar, mas não posso dizer que seja encantadora. É o portão de entrada do país, o primeiro gosto que se tem da Pérsia, mas não o mais saboroso. É megalópole, impressionante. E entupida pelo tráfego, engasgada pela fumaça. Tem 8 milhões de habitantes, ou 15 se contabilizados quem vive na periferia, ou Grande Teerã. Entretanto, limpeza e capricho parecem fazer parte da cultura persa, porque apesar desta fenomenal aglomeração urbana, e de todos os problemas comuns às megalópole, sobretudo da poluição do ar (e visual), a cidade é limpa no chão. 

 (Kashan) Antigas ou não, ruínas ou conservadas, as principais atrações do Irã não estão em Teerã

                         As muitas maravilhas do Irã não estão concentradas apenas na arte e arquitetura. Quem lê sobre o país sabe que a Pérsia tem uma literatura rica e abundante, especialmente representada pelos poetas Ferdowsi, Rumi, Sa´di, Hafiz e Omar Kayan. E uma natureza relativamente variada em seus 1.648.000 Km2. Tem clima variado, que representa bem as quatro estações do ano. Dpois da água, o Sol é um patrimônio. Juntos com o solo, proporcionam plantio e colheita de produtos da agricultura, limitada na variedade, rica na qualidade: arroz, trigo, frutas, milho, cevada, por exemplo. E tem produtos da pesca, originados do Mar Cáspio, no Norte do país. Tem altas montanhas, densas florestas e semi-desertos.

  Tapetes persas. Principal produto de exportação. Na foto, um lindo Tabriz

                        Não se pode dizer que o gosto iraniano moderno - na decoração e ornamentação de suas fachadas e nos letreiros das lojas - seja o que se possa chamar "minimalista". Tampouco atual. Há excesso de linhas e conceitos, ainda que tudo com uma personalidade indiscutível. Vimos bairros com habitações simples, outros mais requintados. Soubemos que o valor do metro quadrado de um apartamento vai de mil a três mil dólares em Teerã nos bairros melhores. As ruas são bem calçadas e arborizadas. O asfalto é impecável, liso e brilhante, como además em todas as cidades que visitamos e nas rodovias. O país vive problemas econômicos restritivos, mas o equipamento urbano é bom e bem mantido. Teerã é bem sinalizada. São muitos os viadutos, túneis e passarelas, todos enriquecidos com mosaicos cerâmicos decorativos de desenhos bonitos. E bem iluminados à noite.  

 Em geral, bem sinalizadas são estradas e cidades. Mas podem render boas aventuras quando escritas apenas em farsi

                       Os hotéis são medianos e há boa quantidade de restaurantes. Tudo na cidade espalha-se por seu imenso território. Anda-se com segurança e tranquilidade nas ruas, como o fizemos várias vezes à noite e a sós. Não há tanto o que ver turisticamente em Teerã, mas o muito que viver. São excelentes os museus, sobretudo no acervo, ainda que extremamente simples as instalações. A cidade é apropriada para aclimatar o turista ao país, sobretudo para resolverem questões práticas relacionadas às jornadas pelo interior. Há boas agências de viagens e casas de câmbio. Com um dólar americano trocado por 30 mil rials, o câmbio de 200 ou 300 equivale a sair com um monte de notas velhas. 

Portal de Bagh Melli, de 1922. Construído por Reza Khan. Estilo "qajar-pahlevi" em Teerã

                       O que eu sabia do Irã estava nos livros de História, nos romances, nas lendas e nos contos persas. E a Capital não é a cidade que represente tão bem esse papel de milhares de anos de história, de romantismo, dasde influências pré-islâmica, islâmica, assíria, babilônica, egípcia e grega, civilizações que moldaram a cultura do país. Gostamos da cidade, mas eu ansiava pelo interior, pelos oito sítios classificados pela UNESCO como Patrimônio Mundial, pelas pequenas cidades, e tudo o que estivesse associado aos poetas iranianos Omar Khayyam, Hafez e Saadi, precursores da sofisticada cultura da poesia, mais valorizada pelo povo que o petróleo por seus exploradores. O gosto vem de tempos antigos, parecem ter sido influenciados por povos ancestrais que governaram a Pérsia: safávidas, afsháridas e qadjars. E também pelo romantismo das cidadelas, mesquitas, madrassas e bazares, jardins, fontes e perfumes. E fundamentalmente pelo que é mais nobre: o amor.

  

Viajar pelo interior é adorável. Mas nos banheiros, nem sempre é possível identificar feminino ou masculino!

                        Não fosse minha disposição em olhar o mundo como ele é, provavelmente o faria como divulgam americanos e israelenses. Para quase todo o Oriente Médio, sobretudo para o Irã. Mas nada como viajar ao país para logo perceber que o Irã em nada se parece com aquelas imagens perversas: violência, fanatismo, atrasos econômico e social, ignorância e falta de cultura. Não é o Estado, mas a sociedade civil que se destaca no país. Ideologicamente teocrática, profundamente controlada pelo governo, dominada pela religião, mas também regida pelo capitalismo. O país é riquíssimo em recursos naturais. Tem a segunda reserva mundial de gás e petróleo do planeta, uma indústria automobilística que produz 500 mil veículos por ano, entre carros e caminhõs de marcas nacionais. Há muitas outras fábricas, a maioria estatais.  

As estradas por onde passamos, assim como as cidades, tinham asfalto impecável

                        As covardes sanções econômicas impostas ao Irã impedem-no de serem a potência econômica e a liderança do Oriente Médio, que tanto temem (e não desejam!) Estados Unidos e Israel. Mas os dias da demonização americana, temperados com pitadas de suja e preconceituosa visão ocidental, não fizeram o mundo inteiro acreditar que o Irã fosse mesmo o centro de todo o mal. Muitíssimo menos uma incendiária sociedade inculta, ignorante, incivilizada, que vive para disseminar o ódio pelo Ocidente. Colocaram o Irã no patamar do Paquistão, da Somáia, do Afeganistão e do Iraque. Uma barbaridade que felizmente o visitante compreende ser apenas o que tentam fazer crer israelenses e norte-americanos.

  

E ainda que a sinalização seja eficiente, nem sempre é eficaz para quem não domina o farsi

                        O povo é culto e educado: apenas 8% são analfabetos entre os 75 milhões de habitantes. O desenvolvimento econômico seria comparáveis e até superiores aos do Brasil e México, não fossem os embargos. O país não depende de importação de alimentos, inclusive de milho. Produz arroz da melhor qualidade, mas não o suficiente para o gigantesco consumo interno. E um certo desperdício que notamos na quantidade que sempre sobrava ao pedirmos os pratos sempre acompanhados de arroz. O que lhe falta, importa da Tailândia, mas consideram de qualidade inferior o produto. Também é um dos maiores produtores de trigo e de frutas, que também exporta. Na pecuária, tem cerca de com 60 milhões de ovinos, 40 milhões de caprinos e 12 milhões de bovinos. Seu produto de exportação mais reconhecido são os tapetes persas, depois o caviar.

Eu já mencionei que o povo é simpático, sorridente, gentil, acolhedor e bonito? OK!

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São insondáveis os costumes iranianos 

                       Viajar é um interminável aprendizado. O caráter do povo é impressionante, sua polidez e elegância comuns em qualquer nível sócio-econômico, de forte identidade nacional. Como bem definem as palavras de João Oliveira, cidadão português, autor do livro “Uma Volta ao Mundo - Crónicas em Viagem(*):

O que pensar de um povo que peregrina aos túmulos de seus poetas, alí se reúne e convive com alegria? O que pensar de um povo  que pede aos poetas que alí estão enterrados, sua benção?”  (como seria bom ler escritores brasileiros de viagens escrevendo tão bem quanto s autores portugueses. Quanta diferença!).

                       O Irã é grande demais para ignorar. E complexo demais para entender. Tudo o que recomenda aos visitantes estudarem as características fundamentais da sociedade, a cultura e o patrimônio do país. Mesmo que num relance. Um viajante que o fizer verá muitas portas e janelas abrirem-se, levando-os a enxergarem além da superfície, compreenderem as peculiaridades, encontrarem mais que o óbvio.

Portão do Parade Ground Complex -Teerã. Portas e janelas que se abrem ao visitante

                       Minha primeira fonte de consulta sobre costumes e comportamento foi o livro "Iran - Culture Smart!: the essential guide to customs & culture"(*). E não ignorei o universo de informações disponíveis na Internet. Turísticas ou não. Das mais práticas, de sobrevivência, às mais complexas, comportamentais. Coisas como saber que não se aceitam cartões de crédito internacionais, o que torna imprescindível viajar com boa soma de dinheiro. E saber como trocá-lo pela moeda local. Foi assim que encontrei o blog Coordenada XY no mundo de informações brasileiras e estrangeiras na Internet.

                       Com a eleição de Rohani, há muita coisa nova no horizonte sobre o Irã. Há céticos e descrentes, mas também quem acredite em mudanças. O que eu pude sentir, tanto quanto me foi possível avaliar, é um discreto sentimento de alívio das pessoas com o fim do período Ahmadinejad. Especialmente percebido quando em conversas conseguíamos desenvolver o assunto. Notamos esperança nas perspectivas de um futuro diferente, na abertura do país para o mundo e no relaxamento nas sanções econômicas impostas por parte do Ocidente. 

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T'aarof, Ta’arof ou Tarof – O ritual da cortesia

                       A mais curiosa e complexa forma de expressão comportamental é o Tarof. Superficialmente é fácil entendê-la, mas impossível colocá-la em prática. Resumidamente o tarof origina-se na hospitalidade ancestral do iraniano. Tournou-se parte da psiquê do povo, mais que educação, polidez ou formalidade social. O termo é persa, portanto define um costume exclusivamente iraniano. Fundamentados na polidez e na pretensão da humildade, no costume de tratar bem aos convidados até melhor que à própria família. No Ocidente o que mais se aproxima do "taarof" é quando duas pessoas discutem quem vai pagar a conta no restaurante. É um código do tipo “recusar-se para depois aceitar”. Mas é importante saber que uma das partes esconde sua verdadeira intenção, isto é, recusa duas vezes e espera a terceira oferta para aceitá-la. Jamais deve ser confundida com “barganha”, costume comum aos árabes, não muito aos persas. Se fosse possível traduzir para o português, eu chamaria "jogo de cerimônia". Algo como oferecer demais (ou recusar), por educação. 

                        Experimentamos nosso primeiro taroof ainda no primeiro dia em Teerã. Pagamos o almoço de nosso motorista, que ao fim do dia convidou-nos para jantar em sua casa. Declinamos porque estávamos exaustos, mal dormidos, sobretudo porque não estávamos certos de que o convite era para ser aceito. Todavia, ficamos tocados com a simpatia do senhor. Foi muito agradável comermos deliciosos kebabs, yogurte, salada e arroz iraniano com açafrão sentados em tapetes orientais. Também experimentamos o taroof quando almoçamos num restaurante popular no Grande Bazar de Kerman. Ao pagarmos a conta o dono do restaurante “zerou” seu ábaco (sim, ele não usava uma calculadora eletrônica!) dizendo que não tínhamos que pagar nada, que era um prazer receber brasileiros em seu restaurante. Recusamos com simpatia e ele aceitou o pagamento pelo delicioso almoço. Outro cuidado que o turista deve ter é que não deixa de ser relativamente comum ser convidado para ir à casa de um iraniano. Mas é preciso saber se o convite é real ou uma forma polida de despedir-se. Não é muito fácil distinguir o que deve ou não ser aceito.

O povo. Casais andam no máximo de mãos dadas

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O povo 

                       O Irã é uma sociedade multiétnica e multicultural. Resulta de milênios de migrações e conquistas. A maioria da população fala persa e dialetos relacionados à sua etnia principal. O restante, línguas indo-européias, uralo-altaicas, grupo hipotético de idiomas que seriam compostos pela união das línguas urálicas com as línguas altaicas e de outras da família semítica. Homens e mulheres socializam-se separadamente. Apresentações geralmente restringem-se ao mesmo sexo. Uma mulher jamais estende a mão a um homem, tampouco senta-se ao lado dele num lugar público, a menos que seja da mesma família. Casais andam nas ruas no máximo de mãos dadas. Beijos, nem pensar. Homens cumprimentam-se beijando outros homems no rosto. Com três beijos. Mulheres também.

                       Talvez devido à multietinicidade o iraniano seja tão historicamente curioso acerca de nós. Sobretudo de que país viemos. Mas nos perguntam se somos casados e em que trabalhamos. Um turista desavisado poderá intimidar-se, mas a curiosidade é honesta. O iraniano é low profile. Além de sua orientação religiosa ortodoxa, foi provavelmente esta característica comportamental que ajudou a desenhar seu caráter tão formal. Na hora de comprar, diferentemente do que acontece nos países árabes do Magreb, o iraniano não dá um preço inicial exagerado esperando negociá-lo para então fechá-lo pela metade. Ao contrário, são objetivos, muito mais transparentes, confiáveis. Preços aceitam descontos no máximo em torno dos 10% a 13%. Todavia há casos em que nenhum desconto é concedido. As compras no país, então são bem mais agradáveis e serenas, confiáveis e transparentes do que no Marrocos e Egito, por exemplo. Além de tudo o iraniano é extremamente simpático, educado e polido, fala baixo, não gesticula e respeita as mulheres. Visitantes são considerados uma honra, mais que isso, um privilégio. Recebem-nos então com calor e generosidade. E uma delícia inteagir com eles. Mas são os jovens particularmente os mais curiosos e abertos ao contato. São bem informados sobre o Ocidente.

Eu já disse que o povo é doce, simpático, educado, receptivo, curioso e interessante? Ok!

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Teerã, turisticamente falando

                       HÁ bons museus. De arte moderna, do vidro, de tapetes, de jóias e obras antigas. Bons mesmo. O National Jewels Museum of Iran tem peças tão incríveis da dinastia safávida, que governou a Pérsia de 1502 a 1736, que seu enorme valor e significado ocupa uma enorme caixa forte no subsolo da Casa da Moeda do Irã. São jóias que literalmente fazem o visitante reavaliar tudo que já viu. Até ao ponto de achar o Topkapi de Istambul um diamante tosco e as jóias da coroa inglesa uma pobreza. É tão valioso, tão espetacular, tão abundantemente rico que a visitração é controladíssima, feita em grupos de cerca de 15 pessoas, acompanhada por dois agentes do Banco Central do Irã. Há alarmes e câmeras por todo lado. Evidentemente que não se pode fotografar a suntuosa coleção.

                     O National Museum of Iran combina dois museus, projetados em 1937 pelo arquiteto francês Andre Godar. O prédio principal abriga uma coleção arqueológica apreciável, distribuída em três halls, com artefatos das eras paleolítica, neolitica, da idade do bronze, da idade média e dos períodos aquemidas, seleucidas, sassanidas. A parte pós-islâmica foi inaugurada em 1996, ocupa três andares e contém peças cerâmicas, têxteis, instrumentos e peças com até 1.400 anos de história islâmica.

Persépolis, no National Museum of Iran

                      Do Grand Bazaar não se pode dizer que seja grande. É enorme. Um centro comercial oriental labiríntico, autêntico, ainda que a recheado de lojinhas de badulaques e bugigangas chinesas. Há lojas de jóias de ouro e prata, de especiarias, de cobre, de tapetes, de tecidos, de roupas, alimentos, especiarias, de tudo, distribuídas por um enorme conjunto de corredores cobertos e por setores. Dizem que são mais de 10 km de ruas internas cobertas, sei lá quantos milhares de lojinhas e dezenas de caravansarais antigos transformados em espaços comerciais.

 No Bazar de Esfahan, um mundo de produtos e artesanato fabuloso

                       Para as mulheres estrangeiras,é um bom lugar para adaptarem-se à moda iraniana, ainda que seja popular e a qualidade bem inferior ao que se encontra em lojas de rua. Para a sociedade local, é também um lugar para discussões, encontros sócio-políticos, e de todas as classes sociais.

É difícil encontrar um lugar mais atmosférico que o interior de um Bazar iraniano. Especialmente entre 12 e 15 horas, quando fecham para a sesta, reabrindo até 21 horas

                     Complementando o Grand Bazaar de Teerã, há serviços como bancos, financeiros, câmbio, mesquitas, restaurantes e até guest houses. Já visitei alguns bazares no Oriente Médio, na Turquia, no Norte da África, especialmente o de Damasco, Síria. O de Teerã não me empolgou tanto, ainda que tenha sua autenticidade, seja algo atmosférico. Mas não é tão misterioso e fascinante quanto os do interior do país. 

Bazares. Em todo o Oriente Médio, uma grande atração, mas os do Irã excedem na autencidade e atmosfera...

                       Na lista de curiosidades da Capital iraniana, ainda que não propriamente uma atração turística, está a antiga embaixada Norte-americana, chamada U.S. Den of Espionage (antro de espionagem). Pegamos o metrô cuja estação sai diretamente defronte a ela. O complexo abrigou agentes da CIA que em 1953 engenharam o golpe de estado contra Mohammad Mossadegh, depôs o governante eleito pelo povo. Depois, por 25 anos, serviu de base às ações americanas que suportavam o Sha Reza Pahlevi, posto no poder pelos americanos. Em Novembro de 1979, depois que o Ayatollah Khomeini foi eleito Supremo Lider da primeira República Islâmica do mundo, a embaixada abrigou os 52 cidadãos norte-americanos mantidos reféns por 444 dias, em represália à não devolução do Xá, exigida pelo Irã, que fugira para a Europa e depois para os Estados Unidos.

 Foto: João Leitão Travel

http://www.flickr.com/photos/joaoleitao/

                       O edifício agora abriga a Sepah, a guarda revolucionária.  O complexo era fechado ao público na época de nossa visita, mas lemos que uma semana depois foi aberto. O que os transeuntes não ignoram são os murais coloridos pintados nas paredões que cercam a embaixada, mostrando a aversão do Irã aos Estados Unidos, especialmente o que retrata a Estátua da Liberdade com face de caveira, segurando um rifle em vez da tocha original. Há incrições em inglês e persa desejando a "morte" da América. O antigo selo dos Estados Unidos, originalmente exibido no portão da antiga embaixada, foi raspado até praticamente tornar-se ilegível. Infelizmente fomos advertidos para não tirarmos fotos. Mas há boas no Flickr, feitas por quem teve mais coragem que nós.

Os palácios

                       O Palácio de Golestan é uma das atrações turísticas mais atraentes e concorridas de Teerã. Na Praça Khordad, é um conjunto de edifícios dentro de um parque, murado e rodeado por com canais que trazem água das montanhas Tochal. Originalmente construído na época de Shah Abbas, da dinastia Safávida, que durou de 1502 a 1736, foi renovado por Karim Khan Zand (1750-1779). Agha Mohamd Khan Qajar (1742–1797) escolheu Teerã como capital de seu reinado, a partir da Dinastia Qajar, e tornou o palácio sua residência oficial e da família real. Fica no Arg, ou cidadela, a parte antiga mais histórica da cidade. Desde sua construção novos edifícios foram sendo construídos durante os diferentes reinados de Karim Khan Zand, tais como o Shams-ol-Emaneh (Edifício do Sol) e o Emarat-e Badgir (Edifício das torres de vento), ambos com traços de um estilo arquitetônico com traços europeus, influências obtidas durante as viagens do rei. O interior de alguns edifícios foram projetados para impressionar dignatários estrangeiros durante suas visitas oficiais ao país na corte Qajar. O Eyvan-e Takht-e Marmar (Terraço do trono de mármore) e o Talar-e Aineh (Salão dos espelhos) têm um belo curioso trabalho decorativo de espelhos cobrindo parte de suas paredes. Também podem-se ver bonitos exemplos de pinturas, mosaicos e vitrais iranianos.

 

                      O Saadabad Palace Complex é um complexo palaciano construído pela Dinastia Pahlavi, onde o Xá Reza Pahlavi viveu na década de 1920. Após a Revolução Iraniana, em 1979, os pavilhões foram transformados em museus, mas o palácio presidencial atual do Irã, ou Kakhe malakeye madar, é adjacente. Numa visita, além da arquitetura o ornamentação, o visitante pode observar parte da história do Irã e aspectos culturais do país através do seu acervo. 

Palácio da era Pahlevi. Os maiores tapetes iranianos do mundo

                     O Azadi Monument não é exatamente uma "atração turística", mas tem a curiosidade de ser o símbolo da cidade e da independência do país. Foi construído em 1971, pelo Xá Mohammad Reza celebrando os 2500 anos de reinados persas. São 3 andares em 45 metros de altura, revestido com  25.000 blocos de granito da província de Hamadan. Apesar de seu desenho moderno, nele incorporam-se traços dos períodos islâmico e pré-islâmico na arquitetura e na ornamentação, como o arco de 21 metros, que representa o período sassânida, pré-islâmico. O desenho do monumento também representa as mãos em oração. Quatro elevadores e duas escadas com 286 degraus levam ao topo do monumento, de onde se tem uma grande vista de Teerã. No porão há um museu com cerâmicas, artefatos de bronze e vidros pré-históricos, além de fotografias e modelos retratado a vida tradicional de diferentes partes do Irã. É fora de mão, fica a meio caminho do aeroporto interncional.

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O Metrô de Teerã

                      Ainda que um projeto dos anos 70, o Metrô de Teerã foi inaugurado em 2001. Tem 4 linhas, duas construídas recentemente, em 2007. Transporta mais de 2 milhões de passageiros por dia e em 2010 foram contabilizados 459 milhões de passageiros. É bonito, moderno, claro, confortável e eficiente. 

                      Passamos um dia e meio em Teerã nesta primeira fase da viagem. Foi suficiente, útil para nos aclimatarmos ao país e à diferença de fuso horário. Estávamos então fisicamente bem para o intenso roteiro dos próximos dias. Na manhã do terceiro dia seguimos de avião para Tabriz. Ao chegarmos, fomos de carro para Kandovan, a 60 quilômetros. É seguro o Irã? SIM. Absolutamente. Pelo menos ao nível da segurança pessoal a que estamos preocupados em viagens, como assaltos e coisas assim. O maior motivo de preocupação até aqui foi com o trânsito. Atravessar as ruas em Teerã é uma grande aventura.

                     Em gratidão a todos que nos atenderam, serviram, guiaram e acompanharam no Irã, expresso meu sincero e sensível reconhecimento.

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Notas: 

(*) O mundo olha pro Irã por causa de suas pretensões atômicas, mas o que poucos sabem é que o país é o único produtor do Oriente Médio de geradores de energia eólica e solar. E, aqui entre nós, é meio prepotente esse jeito americano e israelense achar que só eles podem ter bombas atômicas e protegerem-se de ataques externos.

(*) Livros: Uma Volta ao Mundo - Crónicas em Viagem do Irã, de João Oliveira - Edições Longe - ASIN: B0045EOJ18

Iran - Culture Smart!: the essential guide to customs & culture  - de Stuart Williams – Kuperard ISBN-10: 1857334701

(*) Patrimônios mundiais classificados pela UNESCO: Meidan Emam, ou praça de Abbas I em Esfahan; Persépolis, a antiga capital persa, fundada por Dário I em 518 a.C.; Tchogha Zanbil, a capital religiosa do reino elamita fundada em 1250 a.C.; Bam, cidade do período aqueménida fundada entre os séculos VI e IV a.C.; Pasárgada, capital do império aquêmida; Takht-e Soleyman, o sítio arqueológico com um templo sassânida dedicado à deusa Anahita; Soltaniyeh e Bisotun.

(*) Comida: quase todas as refeições iranianas incluem o pão (nun) ou o arroz (berenj). Existem basicamente quatro variedades de pão: lavash, pão fino consumido no café da manhã; o barbari, um pão fofo e salgado feito com farinha branca e por vezes coberto por sementes de gergelim; o sangak, comprido, cozido sobre pedras lisas, e o taftun, fino e oval. O arroz branso simples, cozido, é chamado de chelo; quando com outros ingredientes, frutos secos ou carnes, por exemplo, é chamado pollo. O açafrão dá cor e sabor ao arroz que acompanha carnes de carneiro. O chá encerra todas as refeições. 

(*) Depois de quatro anos de bloqueio, o governo iraniano anunciou ter liberado em setembro último o acesso ao Facebook e ao Twitter, segundo jornalistas estrangeiros que vivem no país. As redes sociais haviam sido proibidas em 2009 com os protestos que marcaram a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad. No entanto não sonseguimos acessar estes e muitos outros sites. 

 

(*) Espinas International Hotel Tehran http://www.espinashotels.com/about-espinas.html foi nossa primeira experiência hoteleira no Irã. Tem 66 avaliações e 26 fotos de viajantes no Tripadvisor, algumas bem recentes. É classificado como cinco estrelas, mas vale quatro. Fica "bem localizado", próximo ao Laleh Park, a "zona verde" da cidade, uma área especialmente agitada. Não é um bairro turístico. O check-in foi rápido, receptivo, simpáticoe atencioso, por recepcionistas com bom domínio do inglês. Retiveram nossos passaportes até o check-out, como depois em todos os hotéis que nos hospedamos. Aparentemente é um hotel para viagens de negócio, mas também ponto de encontro da sociedade local, e um bom lugar para grandes eventos, de casamentos ao encontro de embaixadores em Teerã, ocorrido numa das noites em que tomávamos um expresso delicioso no saguão. O quarto é confortável, estava limpo, adequado aos nossos propósitos. Há conexão à Internet por wi-fi gratuita, sofrível. O banheiro é mediano, os produtos de quarto abundantes e o café da manhã honesto, sem charme, mas relativamente variado, típico de hotelão, na verdade o melhor de toda a viagem. E tem café expresso. É um hotel impessoal, mas foi nossa melhor experiência em termos de hospedagem.

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A seguir

Kandovan - A estranha vila iraniana escavada nas rochas 

 Kandovan, nossa próxima parada no Irã 

Sexta-feira
Out182013

IRÃ - Chegamos ao país atômico 

 Senhora iraniana em Teerã em traje conservador

                 ERAM quase duas da manhã. Trinta minutos mais, pousaríamos em Teerã. Nada me preocupava, senão a intensidade dos estímulos daquele momento. Não era medo. Nem desconforto. Tampouco insegurança. Afinal, sabíamos de antemão, não corríamos perigo algum, a não ser de nos apaixonarmos pelo Irã. Era ansiedade, um "não sofrimento", a sensação de ver materializar-se um sonho tão bem sonhado, de uma viagem tão esperada.

 Kamenei e Komeini

                 Peguei meu passaporte e olhei o visto iraniano pela enésima vez. Parecia um "troféu", uma insígnia de viagem, uma jóia rara entre tantas outras, de tantos destinos fabulosos. Que bonito! Recordei-me do privilégio de ter viajado a países memoráveis, vivido tantas experiências saborosas, e como num filme acelerado, revi cenas de lugares que os vistos me traziam de volta. Tudo parecia fantástico demais... Não "preguei" os olhos no vôo desde Dubai. Se sonhei, foi acordado. Eu estava feliz naquele avião. Vivia mais um privilégio da vida, desta vez consagrando-se em mais uma de nossas viagens. 

  Porta de uma madrassa no Bazar de Kerman

                Em alguns minutos pisaríamos em solo iraniano, estaríamos prestes a conhecer o fabuloso conjunto de monumentos e de paisagens, e viver a história de um império de 2500 anos, do Irã antigo e místico, de contos de fadas. Mas também estávamos curiosos para a variedade natural, pela arquitetura, pela cultura exemplar, pela relação com as pessoas. Eu sonhava com os tapetes persas, uma de minhas paixões, especialmente os Tabriz. Prometi deixar alguma curiosidade para o que é moderno, para a história da Revolução de 79, para o Irã que tornou-se centro das atenções do mundo depois disso. 

Placa de rua em Teerã

                 O comandante anunciou as advertências de praxe: apertar cintos, voltar encostos das poltronas, essas coisas. As mulheres começaram a cobrir a cabeça, adaptando-se às regras de vestimenta do país muçulmano xiita, de leis rigorosas, sobretudo na forma de vestirem-se: cabelos, braços e pernas precisam ser cobertos.

    

              Tradicionalmente, através do 'chador', ou então, com calças e blusas compridas, o manteau e o hijab. Observava minha doce Emília preparando sua transformação de mulher ocidental a persa, também para atender os desígnios da Constituição do Irã, respeitar as virtudes morais do islamismo. Ajeitava o lenço sobre os cabelos. Não estava certo de que cumpriria seus preceitos, parecia instável aquele lenço, relutava em permanecer no lugar. Ela não, parecia está confiante, o mantinha à cabeça movimentando-se naturalmente. Treinou em casa, encontrou seu jeito feminino de ficar bem (como sempre), o que me encanta (como nunca). "Está linda!", eu lhe disse. “Mesmo?”, disse ela pergunta, como se duvidasse da verdade.

No Bazar de tapetes antigos de Tabriz 

                 Enquanto não pousávamos eu ia me lembrava da História. Dia primeiro de fevereiro de 1979, um avião da Air France pousou no mesmo Aeroporto Internacional de Teerã trazendo Ruhollah Musavi Khomeini, o clérigo islâmico, natural do interior rural do Irã, não pisava sua terra natal há 15 anos. Não por gosto, mas por isolamento imposto políticamente. Suas vestes pretas constrastavam com a espessa barba branca que a usou até a morte. Desceu do avião apoiado por um oficial francês. Tinha pose de estadista, cara de homem mau. Seguido por dez pessoas no curto percurso da escada ao solo de seu país, milhões (estimam-se 5) o esperavam em terra. O retorno foi triunfante. Marcava o fim de uma era, que tirou do poder o xá Reza Pahlevi, e de um povo frustrado com a pobreza e a violência daquele regime. Irrompeu em fúria, derrubou o monarca esbanjador apoiado e protegido pelos Estados Unidos (e Israel, claro). O evento marcou o início de outra era: a Revolução Iraniana. Desde então sobram raivas e acusações retóricas entre os três países: de um lado o programa nuclear e o apoio iraniano ao Hamas e ao Hezbollah, de outro os territórios palestinos ocupados por Israel. As tensões acirraram-se em 2005 com a eleição de Mahmoud Ahmadinejad, presidente populista, falastrão, o Lula do Oriente Médio. Só que linha-dura radical.

Painel revolucionário em Teerã

                 Trinta e quatro anos depois de Khomeini chegamos nós. Gente sem qualquer relevância, anônima, pacífica, simples turistas encantados com o momento da chegada, provavelmente tão entusiasmados quanto Khomeini em 79. Mas vínhamos do país do futebol, quatro meses depois da seleção iraniana qualificar-se para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. O assunto futebol costuma render assunto. Imagino quanto o poderá no Irã. Não faz muito tempo houve outra grande festa, celebrava a eleição de Hassan Rouhani, o novo presidente. "Reformista", parece seguir a via do diálogo, da moderação. Menos conservador que Ahmadinejad, o que é um grande alento. Mas ainda é pouco para sabermos como será o Irã depois de Rouhani. Alguns pensam ser uma ingênua esperança, mesmo depois de suas boas e recentes demonstrações de distensão em relação aos Estados Unidos.  

 Brasil com Z, não tão popular, mas querido

                  Da janela do avião eu via o solo aproximar-se. Uma série de lâmpadas urbanas se destacam e vão enchendo a janelinha. São nossas primeiras imagens de uma cidade imensa, de um país relativamente moderno e civilizado. À primeira vista - apesar das evidências arqueológicas registrarem a presença humana em Teerã desde 6000 A.C. a Capital mais parece uma megalópole moderna, do século XX, não um sítio tão antigo. As luzes dos carros estão acesas. São poucos ainda a trafegarem, mas nos fazem perceber as proporções da cidade. Dizem que a vida é agitada, que o trânsito é horrível, mas não ainda nesta hora do dia. 

Bazar de Tabriz, setor de tapetes

               O trem de pouso do Airbus da Emirates tocou discretamente o solo. Pousar ali pela primeira vez significava bem mais do que o prazer de concluir um vôo seguro. O avião taxiava e aproximava-se do gate do pequeno, moderno Aeroporto Internacional Imam Khomeini (IKA). Iniciamos o desembarque prontos para os bombardeios. Não os que Israel e Estados Unidos vivem prometendo ao Irã. Mas os bons, de imagens e ótimas impressões, da receptividade e da cultura, da tradição e da arquitetura persa, de tudo o que tanto nos encantou na viagem ao Uzbequistão, uma ótima introdução ao Irã.

Grande Bazar de Tabriz

                   Para os padrões internacionais, o aeroporto é vazio. O fluxo turístico é inexpressivo, ainda que enorme o potencial do país. Coisas de países que se isolam. Dizem que a hospitalidade iraniana é prática milenar, orgulho nacional, compromisso sagrado, parte da psiquê iraniana. Creio que ajuda o fato do Irã ainda não ter sido estragado pelo turismo de massa. Não deixa de ser favorável que muita gente ache arriscado, um contra-senso viajar ao Irã.

Romã, fruta nacional

                 Mas os esforços internacionais para isolar o país e forçá-lo a interromper seu programa de enriquecimento de urânio parecem provocar impacto positivo no turismo: o despertar da curiosidade do mundo, um "salto" no fluxo turístico para cerca de 3 milhões de "corajosos" visitantes anualmente. Que deixam 2 bilhões de necessários dólares na economia do país. O governo então olha docemente para o movimento. Dizem que a maioria dos turistas estrangeiros vem da China. Mas quem hoje em dia não vem da China? Brasileiros são traço nas estatísticas, lamentavelmente. Parte significativa dos visitantes vem da Europa. Especialmente franceses, os turistas mais descolados e aventureiros do planeta. Mas também alemães, italianos. Se encontrarmos algum brasileiro além de nós será delicioso. Já garantimos um, o privilégio inusitado de jantarmos com o Gabriel Britto e sua Márcia ao final de nossa viagem e começo da deles. Jantaremos em Teerã. O segundo será com a Fê Costta, brasileira que viaja mais que andorinha em migração e escreve o Viaggio Mondo. Não em Teerã, que já visitou recentemente, mas em Dubai, onde mora. Tivemos o privilégio de seu convite para um café e o aceitamos com imenso prazer.

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Enfim, entramos no Irã!

                 Foi experiência tranquila. E descontraída. Diferente do que poderia imaginar quem assistiu ao filme Argo: uma imigração inquisidora e lenta, feita por oficiais militares barbudos e com cara de maus, vestidos militarmente, num aeroporto de terceiro mundo. Curiosamente, está localizado em Ahmadabad, cidade a cerca de 30 km de Teerã. Para um grande aeroporto internacional, faltou um pouco de inspiração persa, sobrou monotonia.  Eu não esperava ver cartazes revolucionários anti-americanos espalhados nos corredores do aeropoto no caminho do avião aos balcões de imigração. Sei que ficam na cidade. Tampouco ser interrogado por soldados suspeitando de nossas pacíficas intenções turísticas, mas também não por agentes com fisionomias tão simpáticas, descontraídas mesmo com o avançado da hora. Estávamos na fila dos estrangeiros. A dos irananos estava bem cheia. À nossa frente apenas um casal de franceses enfrentava a formalidade da entrada no país. Não posso dizer que o coração batia no modo calmo, mas foi tão rápida e sem perguntas nossa imigração que fiquei quase decepcionado. A bagagem veio em tempo aceitável. Passamos pelo Raio X da alfândega sem problemas. Antes de sairmos ao saguão fui ao caixa do banco trocar uns dólares. O simpático atendente sugeriu que eu trocasse na cidade, onde a cotação era muito mais favorável que a dele!

Pedaço de Persépolis no espetacular Museu Nacional do Irã, Teerã 

                 Lá fora, no saguão do aeroporto, nosso receptivo segurava uma placa com meu nome e nos dava boas vindas com um sorriso assim que acenamos. Em perfeito inglês. Podia até ser um barbudo mal encarado, mas não, era um jovem com ótima apresentação e polido. Nos disse "Bem-vindos ao Irã! Perguntei-lhe como seria em farsi e ele respondeu "Khosh Amadid'. Eu respondi-lhe "Mamnoon", obrigado, não muito convicto de minha pronúncia. Merci (do francês, mas como em “mêrci”), à maneira corriqueira.

                 Depois dos cumprimentos e apresentações, nos conduziu com simpatia, receptividade e profissionalismo ao carro que nos levaria pela madrugada ao nosso hotel. Um carro velho, do começo dos anos 90. E iraniano, como a frota do país, onde no porta-malas cabia apenas uma das nossas, metade ocupada pelo o enorme tanque de gáz natural, o combustível do motor.

               - Meu nome é Mojtaba, mas podem me chamar de Mojick, disse o jovem. “Fica mais fácil”, completou. Passou a explicar as atividades turísticas previstas para a tarde do nosso primeiro dia na Capital. Mas às três da manhã eu só pensava em dormir. Do aeroporto à cidade pegamos uma ótima rodovia de três pistas, sinalizada com placas em farsi e inglês. Passmos pelo enorme complexo onde fica o mausoléu de Komeini. Depois atravessamos avenidas largas, arborizadas, praças e parques públicos,  alguns edifícios altos. Mas não vimos os famosos murais de líderes religiosos e anti-americanos. Tudo ainda era desértico, escuro e fechado, próprio às madrugadas, mesmo de uma metrópole. Só conseguimos dormir às 4:00 da manhã. Acordamos às nove. Nosso dia começaria às 11:00.

                 Vou dormir, mas prometo voltar pra contar.

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(*) Notas:

 a) Hospitalidade: ainda que o estereótipo mais comum seja definir o povo iraniano linear e generalisticamente como “fundamentalistas que odeiam ocidentais” (especialmente americanos). Ainda que de fato haja cartazes e grafites gigantescos pelo país desejando a morte da América, definitivamente estou certo de que isto é exceção. E também não tenho dúvidas de que é uma imagem que boa parte do povo parece doida por mudar. Mas há um provérbio iraniano - “Visitantes são enviados de Deus” - que parece desenhar a base da incrível hospitalidade iraniana. Para os brasileiros a sensação será ainda mais notável. Somos um povo que atrai simpatia em quase todo o planeta. Talvez tenha sido este o motivo da imigração mais rápida e fácil porque já passei.

 Embora antes de vir para o Irã eu já soubesse dessa característica, nada superaria a experiência de viver com pessoas tão amigáveis, nem eu poderia jamais esquecer como fomos tratados durante o tempo em que estivemos no país. Do primeiro ao último minuto. Não houve um momento que alguém não tenha demonstrado hospitalidade. Não seria possível descreevr o tipo da enorme atenção e simpatia com que fomos recebidos. Foi como sê-lo em suas casas, quando ainda demonstram mais para que se seus convidados se sintam confortáveis e bem-vindos. Outra característica da personalidade dos iranianos é a cultura e a sofisticação: não conheço nenhum outro país onde as pessoas declamam poesia nas ruas.

 b) Clichês: evitá-los é fundamental para qualquer destino, especialmente ao escrever. Mas tratando-se do Irã, é preciso cuidado especial para não usá-los. Ler muito sobre o país ocasionalmente nos faz encontrá-los. O clichê mais comum é afirmar que o governo do Irã não é seu povo. É possível que tenham me escapado alguns e os encontrem aqui os leitores. Peço desculpas e que os apontem sem cerimônias. Entretanto, os mais óbvios, não encontrarão: "O Irã não é o que se espera"; "O Irã é uma terra de contradições"; "O Irã é um país exótico"; "O povo é  muito hospitaleiro"; "O Irã é um país de contrastes"; "Há fotos de heróis da revolução e de mártires por todo lado"; "O iraniano dirige como um louco"; "Os carros são velhos"; "Os cidadãos têm uma vida pública e outra privada". 

Estereótipos levam tempo para se dissiparem da mente. Tempo e informação. É preciso muita leitura e pesquisa. Estereótipos fazem parte da natureza humana, infelizmente alguns arraigados demais. Eles existem quase sempre em relação a pessoas diferentes de nós. No caso do Irã, nada como uma viagem ao país para vermos como é notável nossa desinformação, para demoli-los arrasadoramente. 

 c) Turismo: de acordo com dados oficiais iranianos, cerca de 3.200.000 de turistas estrangeiros visitaram o Irã em 2012, embora as estatísticas não distinguam o que é turismo de negócios, de lazer ou de peregrinação religiosa. Apenas que a maioria vem de países asiáticos, especialmente China e Índia, mas incluindo aí as repúblicas da Ásia Central. A menor parte vem da América do Norte e da União Européia, especialmente da Alemanha, Itália, Bulgária, França e Bélgica. Brasileiros são traço nas estatísticas.

 d) Argo: o filme de Ben Affleck que conta a história do resgate de seis americanos sequestrados no Irã, é um bom filme de suspense, mesmo que a gente já conheça o final. A versão conta como foi o resgate em Teerã, em janeiro de 1980. Não é só uma boa história, mas útil para que se conheça as origens do confronto dos Estados Unidos com o Irã.

 e) Hijab: em persa a pronúncia é hejab, mas o significado é o mesmo do árabe hijab, "cobertura" ou "véu", mais precisamente o termo designa uma conduta de pureza e modéstia na religião islâmica. Por isso tomei a liberdade de usar ambas as pronúncias no texto. Embora o cabelo deva ser coberto, não precisa ter o lenço apertado em torno da cabeça. É bastante aceitável deixar uma parte dos cabelos livremente. A moda iraniana tem que ser respeitada, ainda que os limites precisos do vestuário feminino sejam uma incógnita de difícil compreensão para nós ocidentais: a despeito de todo o esforço da Polícia Moral, a sociedade iraniana frequentemente é incontrolável, ao menos pacificamente. Sempre que podem, jovens demonstram sua força e desejo em desrespeitá-la, o que significa dizer contrariar o islã, aquele praticado pela maioria dos iranianos, e que governa suas vidas pessoais, políticas, econômicas e jurídicas. Aquele mesmo islã que emana da atual - e conservadoríssima - Arábia Saudita. Desde 1979 a vida das mulheres no Irã mudou drásticamente. Décadas antes elas já não usavam véus nem precisavam esconder tanto seus corpos. Mas desde então, a revolução pareceu concentrar nos costumes o foco das mudanças revolucionárias.

Fontes: Chá de Lima da Pérsia http://azizamiran.blogspot.com.br/2012/06/o-hijab-no-ira-e-suas-variacoes.html

News About Iran http://iransnews.wordpress.com/2011/04/19/

 f) Segurança: salvo nas províncias de Sistan, Baluquistão e Khorasan, regiões de tráfico de drogas do Afeganistão, onde há crimes de roubo, morte e seqüestro, e em cidades como Zahedan, Zabol e Mirjaveh, particularmente perigosas, o Irã é tranquilo, seguro e amigável para o turista.

g) Internet: depois de quatro anos de bloqueio, o governo iraniano liberou nesta segunda-feira (16/09) o acesso de seus cidadãos ao Facebook e ao Twitter, de acordo com publicações nas contas de jornalistas vivendo no país. Essas redes sociais haviam sido proibidas em 2009, em decorrência dos protestos que marcaram a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad. Fonte: Folha Política -" Irã permite acesso a Facebook e Twitter pela primeira vez desde 2009. http://www.folhapolitica.org/2013/10/ira-permite-acesso-facebook-e-twitter.html

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A seguir:

Teerã - As primeiras lições da Pérsia