MENSAGEM ao LEITOR
BIO

BEM-vindo!

Sou brasileiro, casado com a doce Emília, do blog "A Turista Acidental". Estamos grávidos de gêmeos, que nascerão em julho próximo, e embora isso nada tenha a ver com um blog de viagens, tem muito com o futuro deste aqui.

Sou empresário, tenho 62 anos e boa parte deles dediquei à família e ao trabalho. Aos 35 comecei a viajar internacionalmente, e desde então visitei 60 países. Entre eles alguns dos mais fascinantes do planeta que abrigam cada qual alguns dos sítios mais admiráveis e encantadores que se podem imaginar. Felizmente, para alguns quando ainda estavam a salvo dos excessos do turismo, o de massa, que arruina qualquer lugar.

Para alguns países retornei tantas vezes que acabei tornando-me íntimo. Já fiz cerca de 90 viagens internacionais, voei por 40 cias. aéreas diferentes (algumas extintas) em 391 vôos para fora do Brasil e dentro de outros países.

Segundo o Haroldo Castro - jornalista-fotógrafo que já esteve em 160 países -, fazendo o teste "Viajologia" em seu site, que considera não só países visitados, mas lugares, monumentos e patrimônios, além de transportes, experiências e situações em viagens, alcancei "Mestrado em Viajologia". Mas isso não é nada. Ou quase nada diante de gente que tem pós-doutorado em viagens. Se eu conseguisse resumir definindo o que esses quase trinta anos viajanto significaram em termos de aprendizado, diria que foi perceber que quanto maior a flexibilidade de adaptação aos ambientes, mais e melhor consigo extrair deles, melhores tornam-se minhas viagens. Muitas, incontáveis marcas as viagens me deixaram. A simpatia e a humildade legítima dos birmaneses e dos uzbeques estão entre as mais inesquecíveis.

Ainda que nada me pareça mais excitante que viajar, também fotografar e escrever tenho gosto desde a infância. Então, fazê-los sobre viagens tornou-se natural. Publicar o que fotografo e escrevo, todavia, foi bem mais recente, desde março de 2006, quando inaugurei o Fatos & Fotos de Viagens. Lá se vão quase nove anos. Quem diria que duraria tanto!

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Segunda-feira
Mar252013

Um ano de viagens. E de como elas mudaram minha vida

                        HÁ dias genéricos, dias poéticos, dias felizes, dias tristes, curtos, longos. Há também os que não deviam nascer. O ainda, melhores, os que não podiam morrer. Cada um tem os seus. Nós os nossos. Há dias que são muito mais importantes pra nós do que para qualquer outra pessoa. São os que ficamos mais velhos. Tanto até que os comemoramos com grande entusiasmo. Mas creio que haja apenas um dia que todos celebram igualmente.  E no mundo inteiro. O último dia do ano que anuncia a chegada do Ano Novo. Que festa! Não é pra menos, todo ano surge alguém dizendo que o mundo não passa desse. Ano passado foram os maias.

                    EU também chego ao fim do ano agradecendo ao que termina e rendendo homenagens ao que vem. É quando a gente renova esperanças e acerta alguns ponteiros. Claro que não porque o mundo não acabou. Agradecer é sempre bom. "Faz parte!, como diria o filósofo BBB BamBam. Mas confesso que durando o ano que acabou passei ele todo torcendo pra que passasse devagar. Bem, devagarinho. E não é só pra ter mais tempo de saborear nossas viagens. É porque mal ele começa, fico mais velho! Coisas da vida. Mas não que me incomode tanto. Transo muito bem esse negócio de vida, velhice e morte. E olha que nem acredito em  ida após ela!

                    O fato é que faço aniversário no segundo dia do ano. Mal ele começa, fico mais velho. E quase sou levado a invejar os que aniversariam em 31 de dezembro. Seja como for (novo ou velho), início de ano também me leva às reflexões e aos balanços. Especialmente também aos projetos. Coincide bem com nossas tentativas de viabilizá-los.  A todos que são importantes em nossas vidas.

                     MAS são os projetos de viagens que têm até aqui representado meus prazeres mais incomuns. Há muitas coisas que transformam as pessoas durante o curso de suas vidas. Na há uma que particularmente tem me deixado marcas bastante positivas e perceptíveis. Nossas viagens. Porque com elas dou-me conta de coisas profundamente mais importantes do que acreditava minha vã filosofia tupiniquim e rasteirinha. Todavia jamais achei que quem viaja é necessariamente mais interessante do que quem não o faz. Viagens não tornam ninguém necessariamente mais interessantes do que as outras.

                   QUANDO comecei a viajar eu tinha 42 anos de idade, uma vida profissional  consolidada e um futuro ainda mais promissor. E por circustâncias profissionais comecei a poder viajar mais do que apenas trinta dias por ano em férias regulares. Talvez porque nunca tenha tido desejo de dar uma volta ao mundo em trinta dias, preferi fazer várias por ano, com 12 dias médios de duração cada. Também nunca tive vontade de fazer um ano sabático. Muito menos de largar um emprego ou negócio para viajar. Mas a cada ano que passava minha carreira consolidava-se e minhas possibilidades de viajar mais ou menos quando quisesse aumentaram na mesma proporção.

                   INICIEI esse blog há sete anos, quando então já havia feito 44 viagens internacionais para 16 países. Minha maneira de perceber a vida e encará-la eram muito diferentes das atuais. Felizmente também minha forma de escrever evoluiu. Tanto que ao reler meus primeiros posts tenho ganas de apagá-los. Mas isso seria uma ação pretensiosa, desrespeitosa com o leitor que ali comentou e uma falta de justiça com minha capacidade de reconhecer que evoluí.

                    É nas viagens que reconheço razão preponderante mas minhas transformações ao longo destes sete anos. Talvez por muitas razões, e por certo diferentemente para cada um, o certo é que viajando fico mais exposto e suscetível. Também já escrevi sobre o tema aqui mesmo, num post acessível na coluna aqui ao lado esquerdo, cujo título é "Por que viajamos? O valor de uma viagem".

                   REALIZADO meu balanço de viagens do ano que terminou, neste sentido também não posso reclamar de 2012. Terminou com um belo saldo positivo: incríveis viagens a Cuba, Índia, Nepal, México, Lisboa, Sicília, Malta, Uzbequistão, Quirguistão e Peru. Também não posso reclamar do saldo geral das viagens na minha vida: 84 viagens internacionais até aqui. Em 359 vôos para e dentro de 46 países.

                    NOSSO 2013 viajeiro começou em fevereiro, com Doha e Mianmar. Depois, agora em maio, com o Sudeste da França. Para o Wyoming iremos em julho. Lá visitaremos o Grand Teton e o Yellowstone National Parks. Em agosto faremos um safari (fotográfico, que aqui ninguém gosta de matar bicho!) na África do Sul. Daí em diante nada foi definido. Há outros projetos pessoais muito importantes em nossas vidas que nos impedem de programar viagens com tanta antecedência. De toda maneira, nossos desejos turísticos faíscam na memória: Berlim, Irã, Langkawi (Malásia), Tanzânia (com Zanzibar), Atacama, Etiópia e talvez Eritréia.

                   PUXA, como há lugares pra ver no mundo antes que EU acabe! Viaje sempre, e leve as crianças!

Sábado
Mar232013

POR que os blogs estão definhando?

AOS BLOGS DE VIAGENS AMADORES, MINHA HOMENAGEM E ADMIRAÇÃO

         No começo eu tive dificuldade para identificar o que me fez enjoar dos primeiros blogs de viagens. Se eram as conversas paralelas e fofocas nas caixas de comentários, se o foco em ganhar dinheiro e na publicidade, se a perda de conteúdo, as  viagens pagas e patrocinadas, o mau humor e o destempêro de autores e comentaristas de alguns ou porque alguns dos mais notáveis blogs de viagens têm os piores lay-outs da blogosfera, cujo conteúdo  cada dia torna-se mais superficial. Algumas entre a série de muitas razões que qualquer um poderia relacionar. Hoje não. Sei que é um pouco de cada um. Ou, em alguns casos mais graves, todos os motivos juntos.

            Então comecei a sentir falta daquilo que me cativara na blogosfera no tempo em que inaugurei o Fatos & Fotos de Viagens, quase oito anos atrás: bom conteúdo, estilo, sinceridade, honestidade para com o leitor, boas histórias de viagens, relatos inspiradores, encontros, experiências, descrições precisas de paisagens, de sons, cheiros... enfim, de tudo o que torna uma viagem contada um grande prazer na leitura, ao contrário da chatice de compartilhar o que já está nos guias de viagens, de regurgitar velhas informações requentadas sobre o mercado de turismo.

           Mas é injusto atribuir aos próprios blogueiros individualmente toda a responsabilidade pela degeneração do ato de escrever relatos de viagens. Sobretudo na Internet. Meu desgosto é justificado: são mal editados, escritos, elaborados, as narrativas são populares demais e claramente visam mais quantidade de visitantes do que qualidade da audiência. Usam e abusam de palavras-chave, clichês populares que facilitam o encontro dos blogs no universo bloguístico atrav´s de sites de procura. "RTW" é um bom exemplo de "palavra-chave", em vez de volta ao mundo. A abreviação é muitíssimo mais popular, dá mais audiência aos "google-viajantes". O mesmo acontece com as viagens temáticas, classificadas em hashtags no Twitter e na INternet como "viagens solo" "viagem econômica", "viagem barata", "viagem de luxo", "viagem feminina" "viagem em família", "eco-viagem", "viagem romântica".

            A indústria de viagens acabou com as revistas de gênero brasileiras e algumas estrangeiras. Começou a ditar o conteúdo dos blogs de viagens. Os resultados não são surpreendentes. A imprensa, que costuma chamar os que escrevem sobre viagens na Internet de "blogueiros", intencionalmente ou não parece desqualificar a atividade dos verdadeiros escritores de viagens que se atrevem a publicar em blogs. Eu não gosto do termo. "Blogueiro de viagem" tenta dar à atividade uma importância que ela não tem: de profissão. Jamais o usaria para descrever a mim mesmo. Blogar pode até ser uma forma de arte emergente, mas blogueiro está londe de ser profissão. Acho até que denigre a profissão de jornalistas e escritores profissionais de viagens, autônomos ou não. Mesmo que publiquem em blogs. Eu sou um escritor de viagens. Ainda que não profissional. Tampouco, infelizmente, jornalista. Escrever sobre viagens na Internet é uma forma de expressão muito válida. E tem revelado talentos. Como em tudo mais,  há bons e maus escritores, bons e maus blogs, relatos empolgantes e atraentes, insípidos e tediosos. Lamentavelmente, os bons são notáveis excessões. Simplesmente que para ser bom não pode ser feito para um público que navega em vez de ler, que procura posts curtos e fáceis de assimilar, consumistas freqüentes de cultura descartável. Há muitos blogs "de viagens" que na verdade estão mais focados em publicidade do que em relatos.

            Já um bom escritor de viagens precisa ter compreensão da história dos lugares para onde viaja. E boa quantidade de leitura e pesquisa. Suficientes para, quando escrever, conseguir captar o leitor e informá-lo no que realmente importa. Se possível, para tirar-lhe o fôlego na leitura. Sendo esta a intenção do escritor, mesmo sem grande talento, como eu, encontrará o caminho para alcançar tais objetivos. Uma narrativa de viagem valiosa não pode pegar leve demais com a história, a política, a cultura, a sociedade. Nem pesado demais com horários de muses, de transportes e de endereços de onde comer e dormir. Menos ainda auto-promover seu autor. E jamais ser recheado de clichês, fotos ruins e temas batidos. Há muitos blogueiros que escrevem com sinceridade, que estão focados na sua experiência, que partilham boa quantidade de informação legítima. São os blogs que eu sigo. Tenho admiração, respeito e incentivo aqueles que estão fazendo o melhor que podem com as ferramentas que possuem. Espero sinceramente que eu esteja errado, que os blogs de viagens não se tornem mais uma Viagem & Turismo ou que surja uma nova geração de viajantes brasileiros (vivemos nosso "século das viagens"!), que consigam emocionar leitores com narrativas de suas viagens.

               A monetização é apenas um dos motivos porque os blogs de viagens estão definhando. O que acontece com o processo não é nem tanto por causa da comercialização de espaço para publicidade. Isso os tornam apenas feios e poluídos. O que afunda os que comercializam conteúdo é a perda de relevância, qualidade, credibilidade e transparência

                Há alguns anos, ser social significava ter encontros presenciais e conversar com amigos, colegas e familiares. Hoje equivale a ter cinco mil "seguidores" no Facebook, Twitter, Instagram, LinkedIn, Reddit, Google Plus e outras mídias sociais que até me arrepiam só de pensar nelas. E comem horas e mais horas de seu dia e produtividade de seus dias postando quase sempre superficialidades e inutilidades a cada dez minutos pra terem cinco de atenção.

             Sou péssimo em mídias sociais. Felizmente. Exibicionisto tem limite. Quase nunca atualizo status no Facebook, não tenho conta no Twitter, não curto Instagram e nenhuma outra rede social. O Fatos & Fotos de Viagens também. É só aqui. E olhe lá! Prefiro limitar minhas interações sociais não presenciais aos e-mails e telefone. E também este não curto muito. Privilégio tenho com o contato pessoal, com os prazeres presenciais.

                    COMECEI este blog, sete anos atrás, como um experimento de quem não sabia nada sobre blogs. Muito menos no que ele daria. Era um passa-tempo, de quem escreve por diversão, além de um meio de compartilhar minhas viagens com parentes e amigos, mas com muita atenção à qualidade do que publico. Jamais dei importância maior à quantidade de leitores do que aos que têm verdadeiro prazer na leitura, aos que procuram blogs de viagens cujo nível de confiança seja francamente reconhecível. Dedicadoaos que percebem o foco do autor na qualidade, não na audiência.

                    Gosto de andar na contra-mão dos que mudam seus blogs ou começam um novo pensando em ganhar dinheiro, em posts que atraiam mais audiência. Sou um dos que não promovem seus posts mais do que se empenham na qualidade deles. Sobretudo não insiro links comerciais. Sei que não estou sozinho nessa, mas desconfio que sou minoria. Por isso estou fora da panelinha de blogueiros de viagem que defendem o contrário.

                 No entanto há blogueiros de viagem extraordinários fazendo um trabalho absolutamente fantástico, atraente, inspirador. Que tal dar uma olhada no Gabriel Britto, do Gabriel quer viajar, pra entender o que eu falo disso tudo?

                   NÃO quero ser injusto deixando de fora da minha seleção algum, mas por hora ocorrem-me apenas os seguintes blogs profissionais que respeito e admiro: o TUROMAQUIA, os do TONY GALVEZ, o AQUELA PASSAGEM do Rodrigo Purish (mais um que se foi), o CONEXÃO PARIS (da Lina), e o VIAJOLOGIA, do Haroldo Castro, na Época.  São os que não venderam a almas à monetização, o coração ao mercado anunciante e os demais órgãos ao conteúdo pago. Estes encontraram um caminho admirável para ganho de dinheiro, seja vendendo seus próprios produtos, seja seus espaços à pubicidade sem comprometerem seu conteúdo e credibilidade.

                       PORTANTO, que fique bem claro: nada tenho contra blogs honestos, ainda que nenhum  destes me provoque euforia, aquele antigo, soberano prazer de ler. O resto fica por aí, agarrado a tentativas de criar modelos, todavia nenhum preocupado na melhoria do conteúdo, na qualidade visual, em textos caprichados. E, pior, unem-se a associações que pregam algo que nem mesmo seus associados praticam. Que propagam doutrinas baseadas em conceitos não genuínos, simulados ou dissimulados, que visam apenas o dinheiro. Seria necessário ter critérios não teóricos, senão efetivos, e compatíveis com o que pregam. O resultado, não passam de uma invencionice tola e infantil. Empregarem a mesma lógica que usam no universo das mídias virtuais: a superficialidade. É uma "enfermidade" virtual incontestável. Que contamina os blogs com tudo o que há de mais barato na Internet, em imagens, textos, conteúdo e design.

                       MUITA gente boa, sobretudo que tinha uma bela trajetória nesse meio já embarcou nessa. Naufragam e fingem não perceber que ajudaram a afundar o que defendem. E outros que ainda não o fizeram, acabarão enjoando, empacarão, se cansarão e desistirão de blogar um dia. Fatalismo? Claro que não. É apenas o resultado de enxergar o mundo virtual como ele é, não como essa gente quer que ele seja. Alguns não têm coragem de alimentar discussões acaloradas, divergir. São os "Luciano Huk", ou seja, os sempre bonzinhos, falsamente politicamente corretos. Mas o mundo está de saco cheio disso.

                       AINDA é cedo para declarar a morte dos blogs. E talvez até ela não aconteça. Mas há muita falta de desconfiômetro nos que acham que os blogs não definham. Desde a estréia do meu blog, um dos pioneiros em Março de 2006, houve uma bem-vinda e natural explosão de viajantes amadores que também resolveram escrever sobre as suas. Alguns até sonharam tornarem-se escritores profissionais de viagens. Vão sonho ou não, o que de fato aconteceu com os blogs de viagens foi o mesmo que já havia ocorrido com os de moda e comida: saturação. Depois os pioneiros foram largando seus blogs para dedicarem-se à cultura do curto prazo e das meias e poucas palavras do Twitter e das fotos de celular extremamente modificadas por filtros. O resultado é notável. Os blogs definharam e muitos estão ou abandonados ou agonizando.

                   TODOS caem (alguns despencam!) em audiência e comentários. Sobretudo nestes. Ainda que apenas uma ínfima parte de seus autores assuma tal realidade. E outra ainda menor tenha coragem de discorrer e debater o assunto. Francamente, a culpa majoritariamente é do Twitter, do Facebook e do Instagram. Mas há outros dispersores de atenção por toda a Internet. O segundo motivo é que a maioria dos blogs 'profissionais' de viagens é constrangedoramente ruim e vendida. E ainda que eles queiram, não vão mudar o mundo: os dias hoje são da cultura de curto prazo, das poucas palavras e da falta de atenção a mais do que 140 caracteres.

                    TENHO repulsa às mentalidades do tipo “quero ganhar muito e trabalhar pouco” com blogs. Tanto quanto aos muitos que usam as redes sociais com superficialismos e fofocas, intrigas e inutilidades. Me assustam a exposição, tenho pena da carência, vergonha alheia do narcisismo e a tentativa dessa gente aparentar através de sua vida virtual ser muito mais interessante, ter muito melhor caráter e moral do que demonstram na vida presencial. Por isso é bom ter um ou outro "gato pingado" como eu que de vez em quando tem coragem de escrever coisas como estas e ser crítico. Ainda que eu esteja definitivamente convencido que minorias não mudam nem comandam o mundo. Tenho aversão às paixões pelo instantâneo, à dedicação às superficialidades, à moda da insaciabilidade e do excesso de exposição à Internet, de ter que postar alguma babaquice sempre, de atualizar seu blog sempre, dos viciados em novidades cibernéticas que os coloquem ainda mais em evidência virtual. Se achar bom e útil o que escrvo, volte sempre. Caso contrário, desça o sarrafo na caixa de comentários. 

                       APESAR do crescente número de blogs do gênero, não duvido de que a esmagadora maioria de seus autores está profundamente desiludida com suas próprias (e tolas) aspirações de ganhar fama e dinheiro coisas tão ruins. Nem quero me referir aos blogs que roubam conteúdo de blogs alheios, mas à maioria que apenas suga descaradamente o conteúdo da mídia especializada, vive postando notícias breves do trade turístico apenas com o propósito de ganhar dinheiro e promoção (e, quem sabe, algum jabázinho). São blogs insipidamente ridículos, toscos e bregas.

                   OUTRA questão é que blogueiros de viagens estão demasiadamente centrados uns nos outros. Sua blogosfera é restrita à suas comunidades, à sua própria coletividade. E não me refiro apenas os que escrevem e publicam conteúdo motivados por viagens subsidiadas e pagas. O "sucesso" que supõem deve-se bem mais ao resultado da sua dedicação à própria rede do que à qualidade do conteúdo.

                      MESMO que a grande maioria dos blogs seja honesta, que tenha personalidade, o fato é que TODOS os blogs definham. E é natural que cumpram seus ciclos de nascimento, crescimento, consolidação, estagnação e morte. Sejam bons ou ruins. Qualquer um (minimamente informado e atento) percebe que este é um fenômeno natural e corriqueiro na Internet.  Já ocorrido com outras plataformas de expressão. Blogs não são exceção, senão mais um exemplo deste ciclo.

                       MAS neste caso dos blogs, especialmente dos de viagens, há muitas razões associadas. A principal delas é a moda do fast-food cultural, da comunicação virtual rápida e superficial: Twitter, Facebook e Instagram. Este último, a pá de cal nos blogs de viagens. Mas todos canibalizaram os seus prórpios blogs. E os próprios blogueiros que migraram pras redes sociais matam aos poucos o interesse universal pelos blogs e pela leitura. Aliás deve haver alguma coisa errada com essa gente que se expões tanto, que se dedica tanto, que vive tanto nas redes sociais...

                       VIVEMOS a cultura do curto prazo, ralinha e pouquinha.  Agora, pra ser atraente, tudo deve ser pouco, breve, superficial, pobre e sem conteúdo. O objetivo é atrair as massas e os dois minutos de atenção que ela tem pra dar a tanta informação que o leitor tem pra consultar. Não me refiro à meia dúzia dos visitantes dos blogs, nem aos dois gatos pingados que comentam na maioria deles.  Faço referência aos que com 140 caracteres e uma foto de celular acham que estarão afirmando-se na blogosfera, quando de fato promovem o inverso. São os que apostam tudo na quantidade de visitantes únicos e ans páginas visitadas. Visam apenas o aumento de seu ranking no Google. Quando deveriam estar ligados na qualidade do visual e do conteúdo de seus blogs, dispendendo seu talento e tempo na sua permanence modernização. Erradamente pensam que assim acreditam que sobreviverão aos desígnios de seus anunciantes: com a quantidade de visitantes (não importa se cairam de para-quedas desviados da conchinchina numa "googlagem" acidental), não na qualidade geral, o que afinal faz todas as coisas durarem para sempre, até depois da morte. Mais cedo ou mais tarde todos saberão que não há muitas empresas dispostas a desperdiçar dinheiro com propaganda em blogs de baixa qualidade de conteúdo e com audiência irreal. 

                  No começo até doía ter um trabalhão danado, postar coisas bem cuidadas e elaboradas, boas fotos e textos caprichados e não receber nenhum comentário no blog. Recebia entre 3 a 5 mil visitantes por dia e uma nano parte comentava. Hoje, com o evidente desencamento de audiência dos bolgs, recebo 500 por dia. E um comentário por semana. Sei que é muito pouco se comparado ao número de visitanets únicos, mas é a realidade. Não se lê mais, não se comenta mais. 

 

               MAS, como se pode ver na caixa de comentários, há defensores e opositores para todas as opiniões e formas de pensamento. Eu as compreendo, e ainda, respeito discordâncias pessoais, mesmo as ignorantes, pretensiosas e desprovidas de argumento. Não apenas porque reconheço a heterogeneidade das pessoas, mas porque é evidente que há gosto pra tudo. Há quem defenda apaixonadamente revistas como a Viagem e Turismo, mesmice e falta de criatividade, como de igual maneira compreendo que haja pessoas que apreciam e assistem ao Big Brother e do A Fazenda na sua forma extremamente brega e vulgar, assim como a tantas outras idiotices que as TVs nos empurram goela abaixo. Ou o humor grotesco e o voyerismo do ridículo a que as pessoas são expostas em programas de TV como o Pânico na TV. Ou as pessoas que não se incomodam com a erotização infantil exacerbada nos programas da Xuxa, com os assuntos impróprios aos horários das novelas da Globo (onde esbanjam-se cenas de violência, sexuais gratuitas, de nudez, de falta de caráter, de discriminação, de obscenidades, de baixarias, de banalização de comportamentos sociais, de apologias exacerbadas tanto ao homo quanto ao heterosexualismo). Todos com defensores acalorados.


                   HÁ quem goste do sexismo, das vulgaridades implícitas, das ignorâncias explícitas dos programas da Luciana Gimenez, do “humor” apelativo do Marcos Mion, do grosseiro (e falido) CQC do Marcelo Tás, Rafinha Bastos e cia. (felizmente) limitada. Dos que adoram piadas de estupradores, do João Kléber (que fim levou?), do Ratinho (que fim levará?), do Gugu Liberato, do Sérgio Malandro, do enjoado bom-mocismo do Luciano Huk e da Angélica, do infame programa O Melhor do Brasil (cujo apresentador Rodrigo Faro faz enorme sucesso na Rede Record), da revista Caras, dos diálogos fraquíssimos e bobinhos de Malhação, do programa Mulheres Ricas (cuja breguice e futilidade só perdem para as postadas por boa parte dos “escritores” do Twitter, da programação dominical liderada pelo Domingão do Faustão (reconheça-se, principal colaborador do que há de pior na TV neste dia da semana, cujo mérito do que é ruim (justiça lhe seja feita novamente) extende-se a outros canais e apresentadores), de canais como a Record e o SBT, com suas "Elianas" e "Celsos Portiollis", com o incrivelmente bobo Otávio Mesquita no seu esforço desgraçado para produzir um programa sofisticado mas toscamente infantil e vazio.

 

           NÃO faltarão exemplos. Nem defensores de programas como o Casos de Família, deprimente “talk show bate-boca” da apresentadora Christina Rocha, cujo tema é a lavação-de-roupa suja de pessoas humildes ali no palco e a vivo, o com sua cópia - a Márcia Goldsmith, da Band - programinha desprezível que frequenta a mesma linha, do asqueroso Datena que vocifera lições de moral (falso que só ele!), prepotente ao mostrar a desgraça alheia, ou o sem graça, cafona e chatíssimo Zorra Total, cujas “feras do humor” (que saudades do Chico Anísio!) tornam o humor na Globo tão abominável quanto sem graça e sem criatividade, o Programa do Ratinho, o talk-show mais insano da TV (esse não dá nem pra comentar!), a Turma do Didi (alguém em sã consciência deixava seu filho assistir àquilo?).  Esqueci de alguém? Ah, claro, da Ana Maria Braga, dos comerciais de cerveja e das Casas Bahia. Afinal, há gostos pra tudo e todos os públicos. Há até quem goste de Lady Gaga, de Michel Teló e de Beyoncé. O assunto dá um livro. Cujo título poderia ser: "Foi tudo por causa de dinheiro!"

 

           QUEM quiser opinar, que escreva os capítulos aqui. Mas saiba ANTES que todos têm fim e limites. INCLUSIVE os blogs de viagens. Mas se esses blogueiros acordassem todas as manhãs refletindo sobre isso é possível que alguns fizesem coisas melhoras e mais importantes pela blogosfera. Não fariam nada mais do que tem de ser feito.

Quinta-feira
Mar212013

DORDONHA, França - Um segredo bem guardado para três

                       TAL como os retalhos antes de virarem colcha, guardados numa gaveta, minhas anotações vão se acumulando. Aparentemente sem sentido. E também sem o romantismo de quando as fazia num moleskine. Hoje as escrevo num notebook. Desses levinhos. Finos e portáteis como cadernos. Companheiro de viagem que testemunha minhas histórias, nele faço notas do que vi, do que vivi e que inspirou-me a registrar. Sem capricho. Nem compromisso. Sem forma ou conteúdo. São notas, nada mais. Assim como os restos de pano guardados numa caixa. Aqueles que um dia formarão uma bela colcha de retalhos. Aguardam ali o dia da seleção, quando então serão cortados em formas iguais, unidos uns aos outros e costurados. Ao final de todo o trabalho artesanal, tomarão aquela forma peculiar. E seu colorido tão bonito. São assim minhas notas. Todos os dias as escrevo. E o faço há muitos anos. Sem mais me surpreender quando algum dia até as mais simples desencadeiam tanta inspiração. Soltas, não parecem compreensíveis. Unidas, tomam corpo. E forma. E conteúdo. Palavras certeiras, que então, como num passe de mágica, num jogo da memória, começam a fazer sentido. E demonstram sua  essência, mostram sua beleza. Tal qual os restos de pano numa colchas de retalhos.

                       ANTES de toda viagem, na fase de planejamento e pesquisas, dou-me a escrever barbaramente. E com que prazer o faço! Mas também enquanto viajo faço lá minhas anotações. À noite tento coordenar tudo, o encantamento do que vi com as palavras que anotei. E grato pelos privilégios de tê-los vivido durante o dia, inspirado, tento alinhavar meus retalhos. Alinhavar, não costurá-los. A intenção é sempre a mesma: um dia desenvolver um texto bonito, surpreendente e cativante. Como as belas colchas de retalhos. Quase sempre é tola a aspiração. Vaidades costumam dizimar pretensões. E já ao cabo das primeiras tentativas, conformo-me em boa hora em ser um escritor mediano. Entre intenção e gesto, muito se esvai. Mas é à noite que as notas tomam algum sentido. Para que não se esvaneçam com o sono - aquela fase em que o cérebro entra em defrag, repara, organiza e limpa a memória do que é descartável - tento organizá-las para que tenham o mínimo sentido. Aquelas palavras que um dia, ao abrir a caixa pra recuperá-las, ao relê-las eu mesmo as ache compreensíveis e me surpreendam.

                       NA Dordonha a intenção das notas vai além do simples registro para a posteridade. Minha, da família, dos amigos e dos leitores. Está sendo assim com esta nossa próxima viagem ao incrível sudoeste da França. Não consigo controlar a compulsão por ler e escrever. Sobretudo pesquisar o roteiro de carro fascinante e as cidades e vilarejos incríveis que exploraremos a pé. E no desejo de que a cada quilômetro e passos que vencermos, sejamos correspondidos até nas mais exageradas expectativas. Não posso esperar melhor recompensa!

                           AH, minha imaginação! Parece querer que eu não me desiluda um só dia. Nem à noite nem de dia. Então, que seja assim: nos surpreendamos em cada rua! Como nas da labiríntica Sarlat. E na aparência medieval que marca o tempo e nos levará ao passado de cada lugar. Até mesmo no cheiro que dizem exalar daquelas alvenarias de pedras. Que nem mesmo o turista mais distraído escaparia de encantar-se diante de tal carga de descobertas. Viajar pela Dordonha é uma volta no tempo. E a pé. O que é ótimo para indivíduos como eu, que gostam mais de andar do que ficar parado num lugar. Mesmo que por vezes seja por ruas tão íngremes. Dessas mais apropriadas a estóicos peregrinos do passado do que a turistas do presente. Mas que sempre compensam. Sempre. Afinal, é por cidades e vilarejos do Século XIII, tão bem conservados que a gente não deixa nunca de perceber para o que afinal serve o dinheiro.               

                     DEPOIS de percorrermos as primeiras cidades da Dordogne, de mergulharmos naquele mundo parado no tempo, vou tentar condensá-la num resumo. Sem estragá-la, é claro! Minhas anotações estão frenéticas. Mal posso esperar pelas que farei lá. Mas também sei que não é tarefa simples para escritores medianos. Provavelmente também para astros da escrita e com domínio das sínteses bem feitas. Para mim a tal colcha dará um trabalhão! Afinal, o sudoeste da França - entre o Vale do Loire e os Altos Pirineus, na antiga província de Perigord Noir - é riquíssimo turisticamente. E me surpreende ser tão pouco conhecido dos brasileiros. Ainda mais dos europeus. Visitaremos cidades medievais paradas no tempo, caminharemos por ruas com marcas evidentes do passado, veremos uma arquitetura de castelos e abadias altaneiras brotando de rochedos. E bem acima de florestas e de rios. Paredões de pedra que por vezes escondem a pré-história. Como no Vale de la Vézère, onde há mais de 200 sítios arqueológicos. Mas a história é bem mais fácil de identificar. Assim, nos passeios por paisagens de tirar o fôlego, e mesmo contemplando as belezas naturais dos rios, vales e falésias tão típicas da região.

                        AO fim de cada dia, em algum hotel romântico instalado num prédio medieval, as memórias espero não me desgrudem antes de dormir. Serão elas, juntadas às anotações de hoje, que farão uma das mais lindas colchas de retalhos que eu já pensei em fazer. Talvez porque sempre começo e termino bem os dias ao lado de minha doce Emília. E porque a logística e o planejamento da viagem tenham sido inteiramente realizados por minha querida esposa. Ah! Que privilégio o meu. Devem me entender os que viajam e amam, e por que sou tão encantado com a vida, minha mulher e as nossas viagens. E se a perfeição era a meta, nosso desejo de alcançá-la não poderia ser mais preciso: na primeira fase - Dordonha - estaremos com a sempre impecável cia. de minha adorável sogra. E na segunda - Provença -, nos juntaremos aos não menos queridos cunhado, cunhada e os dois sobrinhos. Para mais uma jornada de viagem. Por estradas sinuosas, onde veremos gansos e patos, comeremos trufas (a cobiçada trufa negra da Dordonha!), o combatível (mas delicioso) foie gras e os queijos Cabécou feitos de leite de cabra. Tudo o que numa refeição poderemos acompanhar dos vinhos tintos de Cahors ou dos brancos de Bergerac, a região dos ótimos vinhos Bergeracois e Bastides. Sei que há bons rótulos de apelações novas e a preços pagáveis. Quem pode imaginar melhor acompanhamento para a cozinha mais incrível do planeta? Nada então me surpreenderá com a quantidade de restaurantes premiados que encontraremos pelos caminhos. Como o Le Grand Bleu, uma estrela no Michelin, que espero tenhamos os três o privilégio de jantar em Sarlat.

                       SERÁ primavera na França. O país voltará a ganhar as cores que o inverno tirou. As flores aparecerão novamente, embelezando cada pracinha e vaso nas sacadas. Em maio, quando iremos, mais próximo do verão, as temperaturas ainda serão amenas. Neste clima, começaremos nossa viagem por uma dos pontos mais lindos do Vale do Rio Dordonha, talvez mesmo de toda a França. Em Toulouse, onde chegaremos de avião desde Paris, pegaremos um carro para seguir nosso roteiro pela Dordonha e Provença. A primeira parada será em Carcassone. Ali navegaremos o Canal de Midi. Depois da cidade medieval seguiremos viagem até Albi e continuaremos viajando os dias por Cordes-sur-ciel, Cahors, St Cirq Lapopie, Autoire, Rocamadour, Domme, La Roque Gageac, Sarlat, Turenne, Collonges La Rouge e Brive La Gallarde. Voltaremos a Paris. Ficaremos um par de dias e então desceremos até a Provença. Aí visitaremos Aix-en-Provence, Gordes, L'Isle sur la Sorgue. Faremos o Tour do Luberon (Menèrbes, Lacoste, Bonnieux, Buoux e Lourmarin), iremos a Gorges du Verdon, Moustiers Sainte Marie, Avignon, St-Remy e finalmente Marseille. De onde retornaremos a Paris, finalizando esta mais-que-perfeita viagem.

                      MARILIANA, que você se restabeleça logo. E esteja como sempre em plena forma para em breve podermos viajar e compratilhar grandes momentos a três. Depois a quatro, a cinco, a seis e a sete!

Sexta-feira
Mar152013

BAGAN - Déjà vu sobre os templos 

                        NÃO era passado. E até parecia um sonho. Mas a cena era presente. E eu sabia que logo terminaria. Afinal, quem já experimentou sabe o quanto dura um déjà vu. É rápido e potente como uma faísca. Uma fração tão mínima de segundo que nem dá pra contar. Mas se percebe a deliciosa, fugaz, estranha sensação de ver o já visto sem nunca ter visto.

                        A imagem parecia de sonho, a paisagem quase irreal. Não fosse produzida por James Stanfields (*) e publicada na National Geographic, seria uma das mais notáveis criações da imaginação e da computação gráfica. Mas era uma fotografia. E uma das mais belas que eu já vira. Guardada num cantinho do cérebro, foi ela quem promoveu aquele bug cerebral enquanto eu sobrevoava Bagan.

                        O registro - uma vista aérea dos templos do antigo Reino de Bagan - fora tomado a partir de um balão. E retratava a planície semi-árida, um mar de templos ruinosos brotando da terra vermelha. Eles exalam antiguidade e mistério. Especialmente sob a luz e a bruma do alvorecer, quando entre árvores da rala floresta que os parece engolir tornam o cenário espetacular.

                     Ao longe, outros balões sobrevoavam o cenário incrível. Tinham a mesma padronagem, a mesma cor que as primeiras luzes da manhã atenuam: dos tijolos dos templos, da terra e até do fogo que os mantêm mais leves que o ar. A composição era perfeita. O enquadramento, de mestre. Uma belíssima fotografia de paisagem. Dessas que teimo em tentar produzir. Sem sucesso.

                          Anos depois eu estava ali, no mesmo lugar, à mesma hora, no mesmo cenário incrível e experimentando um dos maiores privilégios que as viagens têm me proporcionado: voar de balão sobre os templos de Bagan. Extasiado, quase incrédulo, olhava sem respirar, vivia momentos efêmeros, de sonho-realidade. Silenciosamente como voam os pássaros, observava milhares de pagodas e stupas da outrora grandiosa Bagan. E disparava minha nova full-frame como se o mundo fosse acabar ali, tão rapidamente quanto um déjà vu. Tentando vergonhosamente copiar James Stanfields.

                   As fotos são minhas, feitas a partir do nascer do sol do dia 13 de Fevereiro de 2013, com uma NIKON D800 e uma lente Nikon 28-200mm F3.5-5.6 durante um vôo de balão sobre Bagan.

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(*) Nota: James Stanfields vive aventuras invejáveis para quem é um curioso natural pelo mundo. Já esteve em mais de 120 países fotografando para reportagens, dedicando-se a um serviço que já lhe rendeu inúmeros prêmios, além de uma vida fascinante e de muitas histórias para contar. Juntou-se ao pessoal de fotografia da National Geographic magazine em 1967. É como o nosso Haroldo Castro.

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A seguir:

Mil templos sob o céu de Bagan

Segunda-feira
Mar112013

Mandalay já não é mais romântica

              Monges em fila para sua única refeição diária no Mosteiro Mahagandhayon

                       ELE também caiu de amores. Pela terra e o povo da Birmânia. Nada extraordinário, afinal, tantos outros escritores e poetas o fizeram. Assim como nós, que lá estivemos e há pouco voltamos. Mas nenhum demonstrou igual capacidade de descrever um lugar com tanta fidelidade. Sobretudo sem jamais tê-lo visto. Pois foi assim - Ásia em sua essência - que as palavras de Rudyard Kipling no poema "Mandalay" - romântica, tradicional, atemporal, exótica e sedutora -  fizeram o mundo enxergar. E também graças ao seu conto "Estrada para Mandalay" a cidade surgiu no mapa. E nele permaneceu. No livro, o escritor narra detalhes da abertura de uma trilha pelas florestas da Birmânia, revela a vida do povo na época do colonialismo e a luta pelo poder dos chefes locais. 

As colinas de Sagaing e o Rio Ayeyarwaddy

                       Era o auge do colonialismo britânico na Birmânia. Provavelmente assim a atmosfera poética construída pelo autor, mesmo que capturada remotamente de Yangon. Seu principal mérito - a que apenas indivíduos românticos, sensíveis e com o domínio da palavra podem demonstrar - foi capturar e descrever um mistério, exotismo e romantismo que todavia não conheceu. E Mandalay tornou-se sinônimo de romantismo.

                       O nome e a história de Mandalay ainda hoje mantêm alguma conotação exótica. Um quê romântico sabiamente explorado pelo mercado turístico. Sua sonoridade parece ainda evocar as palavras do poeta. Mas hoje Mandalay é bem mais digna de seu título contemporâneo - "capital cultural birmanesa" - do que qualquer outro. À época de Kipling permanece fiel apenas sua história de esplendor. Tudo o mais se perdeu. Mandalay não é sequer antiga.

 

  AVA, antiga Capital - Paisagem rural, monges e mosteiros centenários

                      Fundada em 1857 pelo rei Mindon, tornou-se capital de um reino independente por 30 anos. Romântica já não é. Nem particularmente bonita. Feia, certamente. Uma das mais feias que já conheci. De longe e de perto. Com cerca de 1,2 milhões de habitantes, é grande, desorganizada, poeirenta, suja e quente. Charme só se encontra em sua gente. Pra dar e sobrar. Mas se o olhar do visitante for além da aspereza, Mandalay o encantará. É só saber explorar suas atrações: as cidades vizinhas.

   Kuthodaw Pagoda e o maior livro do mundo

                        Segunda cidade de nosso roteiro em Mianmar, foi uma grande surpresa turística. Grande e boa. Eu gostei muito de Mandalay. Muito. E hoje, escrevendo, noto que tanta coisa ficou por ser vista. Como lamento. E selecionando as fotos para este post, ainda sinto no peito um aperto de saudades. Acho que Mianmar jamais nos deixará.

Palácio de Mandalay

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Mandalay hoje

                        MANDALAY é um composto de prédios de arquitetura clássica e moderna, com casas e edifícios de alvenaria e arquitetura pobre. O antigo e tradicional não mais existem, nem mesmo no Palácio Real. Inteiramente reconstruído, ainda que rigorosamente copiado do original, após ter sido queimado na Segunda Guerra Mundial durante bombardeio japonês com artefatos incendiários. Fora do núcleo urbano da poeirenta cidade, nas três antigas Capitais Mandalay é pura Birmânia.

Mandalay hoje. Romantismo já não há...

                        A magia de Mandalay não é imediatamente aparente. Ao contrário, é preciso saber encontrá-la. Não fica exatamente nos domínios da cidade, senão nas antigas Ava, Amarapura e Sagaing. Ao longos dos anos a paisagem da cidade mudou muito. Restam poucas das casas de madeira e bambu, trocadas por prédios modernos de arquitetura duvidosa e construção chinesa. Apenas a muralha do Palácio de Mandalay e alguns templos sobrevivem para rememorar o glorioso passado da antiga Capital de Mianmar

  Templo do Mahamuni Buddha - Romantismo já não há, mas exotismo é abundante

                        A cidade funciona como um hub para visitas às antigas e próximas cidades reais. Nelas, sim, o viajante encontrará boa coleção de atrações. Em Ava, por exemplo, antiga Capital, e em Amarapura e Sagaing, assim como em Mingun e Pyin Oo Lwin, mais distantes, existem ótimas opções para quem tiver o tempo que não nos sobrou.

Bagaya Monastery

                         A cada dia o turismo de massa torna mais difíceis as emoções das descobertas e dos encontros com o desconhecido. Mandalay é, frequentemente, apontada como o equivalente birmanês à cidade de Chiang Mai, também "capital cultural tailandesa", outra preciosidade turística do sudeste asiático. E, como esta, a segunda mais importante cidade turística do país. Conheço ambas. E minha impressão é a de que Mandalay está anos-luz distante de Chiang Mai: incomparáveis na imponência, na história, no conteúdo, no patrimônio e nas paisagens.

Golden Pagoda em Sagaing Hill

                       Mandalay tem ainda outra vantagem a seu favor: ainda não enfrenta o turismo de massa, que décadas seguidas de crescimento turístico desfiguram a Tailândia, e tornam difíceis encontros genuinamente autênticos. O melhor exemplo é o mercado flutuante de Damnoen Saduak. Pagou o preço por ter sucumbido ao turismo de massa, essa tragédia que tudo desfigura e mascara. Mandalay ainda não. Ainda não. Fora dos camihos batidos ainda é possível encontrar lugares autênticos e ainda não ameaçados pelo turismo.

O Lago Taungthaman visto da Ponte U Pein

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A seguir:

 

As atrações de Mandalay

 O Mercado de Jade, o Palácio de Mandalay, o Shwenandaw Kyaung Pagoda, o Kuthodaw Pagoda, Ava, a antiga Capital, as colinas de Sagaing, Amarapura, a Ponte U Pein, o  Mosteiro Maha Aungmye Bonzan e o Mosteiro Mahagandhayon, Mahamuni Buddha

Mosteiro Maha Aungmye Bonzan