MENSAGEM ao LEITOR
BIO

BEM-vindo!

        Sou brasileiro, empresário, casado com a doce Emília do blog "A Turista Acidental". Estamos grávidos de gêmeos, que nascerão em julho próximo, e embora isso nada tenha a ver com um blog de viagens, tem muito com o futuro deste aqui.

      Tenho 63 anos, boa parte deles dedicados à família e ao trabalho. Aos 35 comecei a viajar internacionalmente. Desde então visitei 60 países, entre os quais alguns dos mais fascinantes e que abrigam  sítios dos mais admiráveis e encantadores do planeta. Felizmente, para alguns ainda quando ainda estavam a salvo do turismo de massa, cujos excessos arruinam qualquer lugar. Tornei-me blogueiro há nove anos quando descobri que amigos e familiares não gostavam muito quando eu lhes entupia as caixas de entrada com e mails recheados de textos longos e fotos mil. Foi a maneira que encontrei de mandar notícias e partilhar minhas viagens, em textos e fotografias, para quem quisesse e quando desejasse.

        Para alguns países retornei tantas vezes que tornei-me íntimo. Para outros, uma ou duas mais apenas, freqüência que ainda não me esgotou deles. Em cerca de 90 viagens internacionais, voei por 40 cias. aéreas diferentes (algumas extintas) em 391 vôos para fora do Brasil e dentro de outros países. Segundo o Haroldo Castro - jornalista-fotógrafo que já esteve em 160 países -, fazendo o teste "Viajologia" em seu site, que considera não só países visitados, mas lugares, monumentos e patrimônios, além de transportes, experiências e situações em viagens, alcancei "Mestrado em Viajologia". Mas isso não é nada. Ou quase nada diante de gente que tem pós-doutorado em viagens. Se eu conseguisse resumir definindo o que esses quase trinta anos viajanto significaram em termos de aprendizado, diria que foi perceber que quanto maior a flexibilidade de adaptação aos ambientes, mais e melhor consigo extrair deles, melhores tornam-se minhas viagens. Muitas, incontáveis marcas as viagens me deixaram. A simpatia e a humildade legítima dos birmaneses e dos uzbeques estão entre as mais inesquecíveis.

         Ainda que nada me pareça mais excitante que viajar, também por fotografar e escrever tenho gosto desde a infância. Então, fazê-los sobre viagens tornou-se natural. Publicar o que fotografo e escrevo, todavia, foi bem mais recente, desde março de 2006, quando inaugurei o Fatos & Fotos de Viagens. Lá se vão quase nove anos. Quem diria que duraria tanto!

         Esse blog é para inspirar e motivar o leitor a vajar e conhecer.  Mas não acredite piamente no que eu escrevo. Não porque eu não seja absolutamente franco e verdadeiro, mas por achar que você deve ir em frente com o seu desejo, conferir com seus próprios olhos, viver a sua experiência e concluir com suas próprias opiniões. Boa viagem!

        Muito obrigado pela visita e comentários.

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Segunda-feira
Abr082013

Viajar muito não é viajar bem

                        NUMA crônica na revista Volta ao Mundo seu autor - o português José Luiz Peixoto - mencionava que quando a ignorância é acompanhada de esnobismo, torna-se desagradável. Ele referia-se ao fato de um viajante ter-lhe dito, numa conversa, que "colecionava" países. Espantado com a afirmação, o interlocutor explicou-lhe prontamente: "Tenho uma meta: 'conhecer' 100 países!". Aquele viajante efetivamente já havia viajado a muitos, mas no contexto de sua afirmação havia apenas uma preocupação: a contabilidade. Na sua lista, os que visitara figuravam como "despachados". E assim ele os classificava. Cada novo país era marcado como "um a menos" na lista, não como um destino visitado. Quantidade era o que importava. 

                    SEM perceber, demonstrava que o maior inimigo de um turista é pensar que viajar muito significa viajar bem. Não. Ao menos não necessariamente. Achar que ter pisado em muitos países apenas para somar o maior número deles à sua lista, não significa tê-los conhecido, tampouco que seja um bom turista. Isso é perder a essência do que seja viajar e ser turista. "Colecionar" países é fazer perder o sentido das viagens. Viajar implica no desejo de "conhecer", descobrir e explorar, ainda que não seja possível e apropriado afirmar "conheço" tal país. Estive, ou visitei, será sempre melhor. Viajar implica antes de tudo numa série de grandes esforços: intelectual, financeiro, físico e emocional. Não é, então, a quantidade de países visitados o que  conta, mas a qualidade do olhar do turista enquanto os visita.

                        UM turista não "conhece" um país, o visita. Para "conhecer" é preciso morar. E nem mesmo esta é necessariamente uma condição para que um indivíduo possa assegurar que conhece um país. Uma visita a um país não o torna um país "conhecido". Pisar num destino não acrescenta qualidade ao currículo do viajante. Ao contrário, apenas uma ingênua contabilidade. Todos nós turistas quando viajamos "estamos" num lugar, visitando-o, o que não nos confere condição para afirmarmos que o "conhecemos". É por isso que os bons viajantes preparam-se, pesquisam, informam-se para então terem melhor capacidade de observar, e por fim "captar", o país que visitam, tirando o melhor de suas viagens. Por vezes há lugares que a gente só começa a "compreender" depois de três ou quatro visitas. Mas "conhecer" já é outra história.

                        BOA parte do meu fascínio por viagens vem das leituras. E a possibilidade de realizá-las vem do meu trabalho. Acho até que sou bem mais entusiasmado com o trabalho porque afinal é ele que financia meu desejo de conhecer o mundo (ops, de visitá-lo!). ainda que também o faça com todos os meus outros prazeres. A leitura então é fundamental ao preparar-me para um destino. Intelectual e tecnicamente falando. Mas por vezes ela me desperta curiosidades da maneira mais incomum, inesperada e verdadeiramente surpreendentemente. Eu explico. Comecei a ler um livro sem a menor relação com o tema viagens. Sequer com qualquer lugar. O livro é extraordinário, chama-se "Como a mente funciona". Nele o autor - o psicólogo e cientista cognitivo Steven Pinker - conduz o leitor com genial competência a viajar, não por qualquer destino no mundo, mas por duas grandes teorias: o evolucionismo - de Darwin - e pela moderna ciência cognitiva, isto é, o estudo científico da inteligência. São assuntos que me atraem mais que moscas às frutas. Usando exemplos cotidianos e argumentos acessíveis ele demonstra como estamos próximos de compreender uma das últimas fronteiras do conhecimento humano: nossa própria mente.

                       NUM determinado trecho do livro ele menciona que a humanidade nunca foi tão pacífica. E argumenta, baseado em estatísticas, que mesmo com  toda a brutalidade e intolerância nos espreitando, vivemos nosso período mais pacífico da história da humanidade. Se o leito "olhar" apenas para hoje, rirá da afirmação. Mas se o fizer encarando o passado, toda a história da humanidade, concordará: vivemos bem menos conflitos violentos no mundo do que em qualquer outro período.  Um dos bons lados dessa realidade é que também podemos viajar para bem mais lugares no mundo. Todavia ainda haja alguns destinos que mesmo pacíficos estão muito fora dos padrões. Ao menos do que podemos chamar de "destino de férias e relaxamento". São os destinos absolutamente incomuns. E pouquíssimo explorados. Sobretudo os que exigem certo grau de coragem e desprendimento. E que não são especialmente recomendados aos amantes do conforto e do luxo. Eu adoro ambos, mas também lugares para onde é preciso ter o que se costuma chamar "coragem" e disposição. Eu ainda me surpreendo como reúno ambos na minha idade. Salvo para destinos como Iêmem e Timbuktu - que apesar de encherem minha área cerebral onde arquivo os desejos - ainda terão que esperar por mim.

                     MAS confesso, andamos pensando muito no Irã. Muito. Tanto que não paro de ler sobre o país.

Terça-feira
Abr022013

AVA, Mandalay. Uma jornada à antiga Capital

DOIS grandes chinthes, os leões mitológicos birmaneses, guardam o Maha Aung Mye Bon Zan

POR uma estrada esburacada, em cerca de uma hora chegamos de Mandalay às margens do Rio Myitnge, afluente do importante Rio Irrawady. Paramos próximos à barranca do rio, onde num porto precário e improvisado um barco de madeira com motor de rabeta longa, barulhento e rústico esperava seus passageiros. O destino, a outra margem do rio. Uma travessia de poucos minutos, carregando sobretudo turistas, mas também motos, animais e mercadorias.

NADA atrai muito na curta travessia. Talvez a vista para a bonita ponte de ferro construída pelos britânicos em 1934. Curiosamente destruída parcialmente por eles mesmos, cujos dois vãos centrais foram derrubados na tentativa de impedir o avanço japonês durante a Segunda Guerra Mundial.  Passaríamos por ela ao fim do dia, na volta da colina Sagaing. Até 1998 esta era a única que atravessava o Rio Ayeyawaddy, até que um chinês construiu uma nova ponte de concreto. Comum e feiosa, bem ao seu lado.

NOSSO destino era Ava (ou Inwa, que pronuncia-se "angwa"), outrora a poderosa capital do país, cuja coleção de templos e mosteiros antigos, diferentes de todos os que já vimos na Ásia, são a principal atração. Agora Ava nada mais é do que uma sonolenta aldeia, cujos habitantes se especializaram em fabricar peças em laca. Mas um passeio por Ava é um prazer em si mesmo. E um jornada através do tempo.

JÁ na outra margem subimos a pé a íngreme barranca do rio. Caminhamos uns quinhentos metros até o ponto de parada das charretes turísticas. Tomamos a nossa, e fomos explorar as relíquias de Ava. O roteiro segue estradas arenosas e passa por vestígios do que foi Ava. Sobretudo pelas muralhas, que ainda permanecem aqui e acolá, embora em acelerada decadência. Tudo no meio de um emaranhado de plantações.

SOBRAM poucos indícios de que Ava tenha sido capital do Reino de Mianmar por quatrocentos anos. Fundada pelo príncipe Thadominphya, do Estado de Shan, em 1364, numa ilha entre os rios Ayeyarwaddy e Myitnge, destruída em 1752, perdeu seu status ao ser substituída por Amarapura, em 1841. Um terremoto em 1838 destuiu os edifícios reais e alguns templos.

A partir do ponto em que tomamos a charrete a paisagem e sobretudo a atmosfera mudam substancialmente. Seguimos por campos, plantações, aldeias e ruínas onde monges complementam o cenário. A atmosfera rural é quase idílica. E todas as cenas se passam em silêncio, quebrado vez por outra pela voz do charreteiro ao comandar seu cavalo e pelo ranger da suspensão da ruidosa charrete. Sentado no banco dianteiro, 360 graus de cenários incríveis que tento fotografar sem sucesso: o sacolejante veículo tem que seguir seu destino.

   

PRA lá de simpático e agradável, o passeio é todavia extremamente desconfortável, ao menos bem mais do que aparenta ser antes de subirmos na carroça. E eu ainda não havia experimentado as carroças de Bagan!

AS tentativas de sacar algumas fotos sobre a carroça foram inúteis. Com ansiedade, como se fosse acabar logo a primeira paisagem rural que encontamos em Mianmar, depois da urbaníssima Yangon, nossa primeira parada. Estávamos finalmente onde queríamos: no interior do país.

 

A Torre de Observação do antigo Palácio de Innwa

A Torre de Observação de Innwa parece prestes a desmoronar. É curiosa (e assustadora) sua teimosia em manter-se de pé. Único remanescente em alvenaria do palácio de Baggidaw, construído em 1822, conseguiu manter-se depois do terremoto devastador de 1832. Desde então, ali está. E assim hoje se vê, escorada por colunas de cimento, decrépita e imponente. Ficar sob ela, ainda que interessante, é incômodo. Parece que tombará sobre nós.

COM uma enorme varanda e pilares cambaleantes, ninguém se sente confortavelmente seguro olhando-a desde sua base. Dizem que a vista de seu topo é fabulosa. Eu acredito. Tive ímpetos de subir suas escadas de madeira, evidentemente fui desencorajado por meu próprio bom senso. A paisagem ao redor é dominada por árvores, arbustos, caminhos de areia e de terra, palafitas de bambú e animais pastando. O silêncio é quebrado apenas por trinados de pássaros e a brisa nas copas das árvores.

  

O Mosteiro Bagaya Kyaung

O mosteiro Bagaya Kyaung é um dos incríveis do país. Provavelmente o mais bonito da área. Feito inteiramente em madeira teca, seu nome oficial é Maha Way Yan Bontha Kyaung Taw Gyi, que significa literalmente "o maior mosteiro real". Construído em 1834, tem 267 pilares de madeira teca.  Além da beleza arquitetônica e ornamental, fica no meio de um belíssimo cenário, onde havia o grande campo real de arroz. Enquanto caminhamos descalços por ele, suas tábuas rangiam. A sensação de visitá-lo, tocá-lo e ouvir wseus ruídos foi deliciosa. Especialmente ao caminharmos descalços por seu interior e exterior. Vimo monges noviciados em plena aula, uma das inúmeras escolas monásticas gratuitas do país, para muitas crianças a única oportunidade de estudarem. A visita ao mosteiro foi um dos momentos marcantes de toda a viagem, através de um dos lugares mais bonitos de Mianmar.

MAS a natureza efêmera da madeira, o clima tropical úmido, os insetos vorazes, o risco de inundações, de incêndios e terremotos, sobretudo a falta de recursos para mantê-lo, nos faz pensar que o Maha Way Yan Bontha Kyaung Taw Gyi não ficará para a posteridade.

 

O Mosteiro Maha Aung Mye Bon Zan

O Mosteiro Maha Aung Mye Bon Zan (ou Me Nu Oak Kyaung) é o mais incomum dos mosteiros de Ava. Inteiramente construído em alvenaria de tijolos, foi o que melhor conseguiu sobreviver à passagem do tempo, pelo menos comparado aos seus contemporâneos de madeira teca. Construído em 1818 pelo Rei Bagyidaw, sua cor amarelo pálido e os finos relevos com animais míticos, gárgulas e belos arcos tornam o conjunto extremamente interessante. DOIS grandes chinthes, os leões mitológicos birmaneses, guardam a entrada deste templo bastante ornado, construído em 1818 pela Rainha do Rei Bagyidaw, depois doado ao abade Nyaungyan Sayadaw, que tinha a reputação de ser seu amante.

TAMBÉM danificado pelo terremoto em 1838, foi reparado em 1873 pela Rainha Sin Phyu Ma Shin. Mesmo sendo uma construção incomum na época, em alvenaria, tem o mesmo estilo dos mosteiros de madeira de seu tempo, com o telhado de multiplas camadas, ornamentos em profusão, esculturas uma passagem que leva ao seu interior, onde há várias imagens de Buda. AO fim de nossa visita a Ava, almoçamos no turístico Ava Small River Restaurant, defronte ao ponto de parada das charretes, e perto do "porto", a simplíssima e deliciosa (ainda que única) opção do lugar. Sentamos num jardim com chão de terra, refrescados pela sombra de uma árvore Banyan e pela onipresente (e única) cerveja do país. Comemos bem, muito bem, como aliás em toda nossa viagem. Retornamos no mesmo rio para a outra margem em direção às Colinas de Sagaing.

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 A seguir: "As colinas de Sagaing"

Segunda-feira
Abr012013

Viva o povo brasileiro! (e seu século de viagens) 

                       AMEAÇA de guerra na Coréia, de bombardeio do Irã, de invasão da Palestina e sequestro de turistas franceses no Timbuktu. Sem contar a crise econômica mundial, já seria o bastante para deter o crescimento do turismo no mundo. Mas não é o que acontece. Sobem tanto a quantidade quanto a variedade de pessoas que viajam no mundo. Nada que me surpreenda. O ser humano é naturalmente inquieto e curioso. Mas não há dúvidas: o fato das viagens tornarem-se cada vez mais acessíveis influencia nos resultados. O Brasil não fica atrás. Felizmente. E por iguais motivos: viagens tornam-se mais democráticas, personalizáveis, ágeis e flexíveis. E ao mesmo tempo, confiáveis, seguras e confortáveis.

                      NÃO há na estatística algo que me alegre mais do que saber que o brasileiro vem quebrando seus récordes a cada ano. Nunca se viajou tanto ao exterior. E nem se gastou como agora em nossas viagens. As estatísticas nacionais, todavia, demonstram apenas que seguimos a tendência mundial: a Organização Mundial do Comércio contabiliza desde 1995, e estima que até 2020, as taxas médias anuais de crescimento das viagens internacionais permanecem em torno dos 6%.

                       MAS há algo que me atrai melhor a atenção nessa história de estatíticas de viagens: o fato de que também entre os brasileiros que contabilizam considerável milhagem, assim como destinos na bagagem, agora viajam para lugares cada vez menos comuns. Faz todo sentido. É normal que viajantes tornem-se mais aventureiros à medida que adquirem mais e novas experiências de viagens. Acho que é assim na vida de todo mundo. França, Espanha e Estados Unidos são os países mais visitados do mundo. Não há nenhum mal em ser um marinheiro de primeira viagem.  E começá-las por estes países. Ao contrário. Todo mundo começa por onde deve, pode e quer. E geralmente é para estes. Todo turista brasileiro provavelmente iniciou sua "carreira" esquadrinhando cada canto de encantadora Buenos Aires, andando por cada palmo dos parques de Orlando, explorando cada quarteirão da incomparável Paris e assistindo a todos os musicais de Nova York.

                       INCLUO-ME na lista. E mais que humildemente, o faço com orgulho. Sempre que posso dou uma escapada a estes lugares "mais-do-que-(deliciosamente)-comuns". E neles exerço meu legítimo, delicioso direito de sentir prazer revisitando o que já conheço muito bem. Tão naturalmente quanto todo principiante, como veterano já me atraem mais as viagens "diferentes": para destinos incomuns e distantes. É natural para quem tem o gosto pelas viagens sonhar com os destinos "inexplorados", onde ainda é possível viver "descobertas", presenciar o "desconhecido", absorver culturas "estranhas" e ter sua vida marcada por estas viagens. Possivelmente tão fantástico quanto retornar aos lugares que já esteve muitas vezes, e reviver neles o especial prazer de revê-los. Como todo bom turista, afinal.  

                       MAS me refiro aos verdadeiros turistas. Não aos que se acham melhores que os outros só porque não estão mais fazendo sua primeira viagem de excursão à Europa. Orgulho-me de não distinguir “viajantes” de “turistas”. Pelo menos da maneira cafona e pretensiosa como os que tentam fazer os ingênuos acreditarem que um “viajante” é melhor que um “turista”. Quero dizer, um bom turista! Aquele que compreende que numa viagem quanto maior sua capacidade de adaptar-se às circunstâncias, quanto mais tirar dela, melhor viajante será. E também possivelmente um indivíduo mais feliz. Na minha opinião, quem classifica alguém como "viajante" atribuindo-lhe qualidades melhores do que outro classificado como "turista", é antes de tudo um cafona pretensioso.

                       MAS nenhum tipo de turista é pior que o brasileiro que adora menosprezar o Brasil lá fora. E falar mal de tudo e de todos de nosso país. E que se envergonha de encontrar seus conterrâneos no exterior. Acho essa gente que se percebe e olha mal pra si mesma - desconfiada e envergonhada - é super blasé e cafona.

                       Viva o povo brasileiro! (e seu século de viagens).

Segunda-feira
Mar252013

Um ano de viagens. E de como elas mudaram minha vida

                        HÁ dias genéricos, dias poéticos, dias felizes, dias tristes, curtos, longos. Há também os que não deviam nascer. O ainda, melhores, os que não podiam morrer. Cada um tem os seus. Nós os nossos. Há dias que são muito mais importantes pra nós do que para qualquer outra pessoa. São os que ficamos mais velhos. Tanto até que os comemoramos com grande entusiasmo. Mas creio que haja apenas um dia que todos celebram igualmente.  E no mundo inteiro. O último dia do ano que anuncia a chegada do Ano Novo. Que festa! Não é pra menos, todo ano surge alguém dizendo que o mundo não passa desse. Ano passado foram os maias.

                    EU também chego ao fim do ano agradecendo ao que termina e rendendo homenagens ao que vem. É quando a gente renova esperanças e acerta alguns ponteiros. Claro que não porque o mundo não acabou. Agradecer é sempre bom. "Faz parte!, como diria o filósofo BBB BamBam. Mas confesso que durando o ano que acabou passei ele todo torcendo pra que passasse devagar. Bem, devagarinho. E não é só pra ter mais tempo de saborear nossas viagens. É porque mal ele começa, fico mais velho! Coisas da vida. Mas não que me incomode tanto. Transo muito bem esse negócio de vida, velhice e morte. E olha que nem acredito em  ida após ela!

                    O fato é que faço aniversário no segundo dia do ano. Mal ele começa, fico mais velho. E quase sou levado a invejar os que aniversariam em 31 de dezembro. Seja como for (novo ou velho), início de ano também me leva às reflexões e aos balanços. Especialmente também aos projetos. Coincide bem com nossas tentativas de viabilizá-los.  A todos que são importantes em nossas vidas.

                     MAS são os projetos de viagens que têm até aqui representado meus prazeres mais incomuns. Há muitas coisas que transformam as pessoas durante o curso de suas vidas. Na há uma que particularmente tem me deixado marcas bastante positivas e perceptíveis. Nossas viagens. Porque com elas dou-me conta de coisas profundamente mais importantes do que acreditava minha vã filosofia tupiniquim e rasteirinha. Todavia jamais achei que quem viaja é necessariamente mais interessante do que quem não o faz. Viagens não tornam ninguém necessariamente mais interessantes do que as outras.

                   QUANDO comecei a viajar eu tinha 42 anos de idade, uma vida profissional  consolidada e um futuro ainda mais promissor. E por circustâncias profissionais comecei a poder viajar mais do que apenas trinta dias por ano em férias regulares. Talvez porque nunca tenha tido desejo de dar uma volta ao mundo em trinta dias, preferi fazer várias por ano, com 12 dias médios de duração cada. Também nunca tive vontade de fazer um ano sabático. Muito menos de largar um emprego ou negócio para viajar. Mas a cada ano que passava minha carreira consolidava-se e minhas possibilidades de viajar mais ou menos quando quisesse aumentaram na mesma proporção.

                   INICIEI esse blog há sete anos, quando então já havia feito 44 viagens internacionais para 16 países. Minha maneira de perceber a vida e encará-la eram muito diferentes das atuais. Felizmente também minha forma de escrever evoluiu. Tanto que ao reler meus primeiros posts tenho ganas de apagá-los. Mas isso seria uma ação pretensiosa, desrespeitosa com o leitor que ali comentou e uma falta de justiça com minha capacidade de reconhecer que evoluí.

                    É nas viagens que reconheço razão preponderante mas minhas transformações ao longo destes sete anos. Talvez por muitas razões, e por certo diferentemente para cada um, o certo é que viajando fico mais exposto e suscetível. Também já escrevi sobre o tema aqui mesmo, num post acessível na coluna aqui ao lado esquerdo, cujo título é "Por que viajamos? O valor de uma viagem".

                   REALIZADO meu balanço de viagens do ano que terminou, neste sentido também não posso reclamar de 2012. Terminou com um belo saldo positivo: incríveis viagens a Cuba, Índia, Nepal, México, Lisboa, Sicília, Malta, Uzbequistão, Quirguistão e Peru. Também não posso reclamar do saldo geral das viagens na minha vida: 84 viagens internacionais até aqui. Em 359 vôos para e dentro de 46 países.

                    NOSSO 2013 viajeiro começou em fevereiro, com Doha e Mianmar. Depois, agora em maio, com o Sudeste da França. Para o Wyoming iremos em julho. Lá visitaremos o Grand Teton e o Yellowstone National Parks. Em agosto faremos um safari (fotográfico, que aqui ninguém gosta de matar bicho!) na África do Sul. Daí em diante nada foi definido. Há outros projetos pessoais muito importantes em nossas vidas que nos impedem de programar viagens com tanta antecedência. De toda maneira, nossos desejos turísticos faíscam na memória: Berlim, Irã, Langkawi (Malásia), Tanzânia (com Zanzibar), Atacama, Etiópia e talvez Eritréia.

                   PUXA, como há lugares pra ver no mundo antes que EU acabe! Viaje sempre, e leve as crianças!

Sábado
Mar232013

POR que os blogs estão definhando?

AOS BLOGS DE VIAGENS AMADORES, MINHA HOMENAGEM E ADMIRAÇÃO

               Primeiro é preciso que fique claro que não sou nem serei contra quem quer que seja ganhar dinheiro honestamente. Mas no começo eu tive dificuldade para identificar o quem o faz, ou seja, blogs que não escrevem posts por dinheiro, o que me fez enjoar dos primeiros blogs de viagens. Se eram as conversas paralelas e fofocas nas caixas de comentários, se o foco em ganhar dinheiro e na publicidade e a consequente perda de conteúdo e credibilidade, se as  viagens pagas e patrocinadas, se o mau humor e o destempêro os seus autores e comentaristas, se mesmo os mais notáveis blogs de viagens terem os piores lay-outs da blogosfera, conteúdo cada dia mais superficial e um monte de outras razões que não me recordo para desrcever. São estas apenas algumas entre a série de muitas razões que eu poderia relacionar. O mais entediante e desestimulante é que em alguns casos são todos os motivos juntos.

            Comecei desde então a sentir falta daquilo que me cativara na blogosfera no tempo em que inaugurei o Fatos & Fotos de Viagens, quase oito anos atrás: bom conteúdo, estilo, sinceridade, honestidade para com o leitor, boas histórias de viagens, relatos inspiradores, encontros, experiências, descrições precisas de paisagens, de sons, cheiros... enfim, de tudo o que torna uma viagem bem contada um grande prazer na leitura. O contrário é a chatice de compartilhar o que já está nos guias de viagens, de regurgitar velhas informações requentadas sobre o mercado de turismo e os textos sem inspiração, porque são comerciais.

           Mas é injusto atribuir aos próprios blogueiros, ao menos individualmente, toda a responsabilidade pela degeneração do ato de escrever relatos de viagens, sobretudo na Internet. Meu desgosto é justificado porque costumam ser mal editados, escritos, elaborados. As narrativas são popularescas e visam a quantidade de visitantes, não a qualidade da audiência. Alguns usam e abusam de palavras-chave, de clichês populares que facilitam o encontro dos blogs no universo bloguístico através de outros blogs e de sites de procura. "RTW" é um bom exemplo de "palavra-chave". Quase ninguém escreve "volta ao mundo". A abreviação é muitíssimo mais popular, dá mais audiência aos "google-viajantes", o que também acontece com as viagens temáticas, classificadas em hashtags no Twitter e na INternet como "viagens solo" "viagem econômica", "viagem barata", "viagem de luxo", "viagem feminina" "viagem em família", "eco-viagem", "viagem romântica".

            Essa prática acabou com as revistas de viagens brasileiras e algumas estrangeiras. A indústria do turismo passou a ditar seu conteúdo, e agora a dos blogs de viagens comerciais. Os resultados não são surpreendentes. A imprensa costuma chamar os que escrevem sobre viagens na Internet de "blogueiros" (intencionalmente ou não, mas que parece desqualificar a atividade dos verdadeiros escritores de viagens que se atrevem a publicar em blogs). Eu não gosto do termo. "Blogueiro de viagem" tenta dar à atividade uma importância que ela não tem: de profissão. Jamais o usaria para descrever a mim mesmo. Blogar pode até ser uma forma de arte emergente, mas blogueiro está londe de ser profissão. Acho até que denigre a profissão de jornalistas e escritores profissionais de viagens, autônomos ou não. Mesmo que publiquem em blogs. Eu sou um escritor de viagens. Ainda que não profissional. Tampouco, infelizmente, jornalista. Escrever sobre viagens na Internet é uma forma de expressão muito válida. E tem revelado talentos. Como em tudo mais,  há bons e maus escritores, bons e maus blogs, relatos empolgantes e atraentes, insípidos e tediosos. Lamentavelmente, os bons são notáveis excessões. Simplesmente que para ser bom não pode ser feito para um público que navega em vez de ler, que procura posts curtos e fáceis de assimilar, consumistas freqüentes de cultura descartável. Há muitos blogs "de viagens" que na verdade estão mais focados em publicidade do que em relatos.

            Já um bom escritor de viagens precisa ter compreensão da história dos lugares para onde viaja. E boa quantidade de leitura e pesquisa. Suficientes para, quando escrever, conseguir captar o leitor e informá-lo no que realmente importa. Se possível, para tirar-lhe o fôlego na leitura. Sendo esta a intenção do escritor, mesmo sem grande talento, como eu, encontrará o caminho para alcançar tais objetivos. Uma narrativa de viagem valiosa não pode pegar leve demais com a história, a política, a cultura, a sociedade. Nem pesado demais com horários de muses, de transportes e de endereços de onde comer e dormir. Menos ainda auto-promover seu autor. E jamais ser recheado de clichês, fotos ruins e temas batidos. Há muitos blogueiros que escrevem com sinceridade, que estão focados na sua experiência, que partilham boa quantidade de informação legítima. São os blogs que eu sigo. Tenho admiração, respeito e incentivo aqueles que estão fazendo o melhor que podem com as ferramentas que possuem. Espero sinceramente que eu esteja errado, que os blogs de viagens não se tornem mais uma Viagem & Turismo ou que surja uma nova geração de viajantes brasileiros (vivemos nosso "século das viagens"!), que consigam emocionar leitores com narrativas de suas viagens.

               A monetização é apenas um dos motivos porque os blogs de viagens estão definhando. O que acontece com o processo não é nem tanto por causa da comercialização de espaço para publicidade. Isso os tornam apenas feios e poluídos. O que afunda os que comercializam conteúdo é a perda de relevância, qualidade, credibilidade e transparência

                Há alguns anos, ser social significava ter encontros presenciais e conversar com amigos, colegas e familiares. Hoje equivale a ter cinco mil "seguidores" no Facebook, Twitter, Instagram, LinkedIn, Reddit, Google Plus e outras mídias sociais que até me arrepiam só de pensar nelas. E comem horas e mais horas de seu dia e produtividade de seus dias postando quase sempre superficialidades e inutilidades a cada dez minutos pra terem cinco de atenção.

             Sou péssimo em mídias sociais. Felizmente. Exibicionisto tem limite. Quase nunca atualizo status no Facebook, não tenho conta no Twitter, não curto Instagram e nenhuma outra rede social. O Fatos & Fotos de Viagens também. É só aqui. E olhe lá! Prefiro limitar minhas interações sociais não presenciais aos e-mails e telefone. E também este não curto muito. Privilégio tenho com o contato pessoal, com os prazeres presenciais.

                    COMECEI este blog, sete anos atrás, como um experimento de quem não sabia nada sobre blogs. Muito menos no que ele daria. Era um passa-tempo, de quem escreve por diversão, além de um meio de compartilhar minhas viagens com parentes e amigos, mas com muita atenção à qualidade do que publico. Jamais dei importância maior à quantidade de leitores do que aos que têm verdadeiro prazer na leitura, aos que procuram blogs de viagens cujo nível de confiança seja francamente reconhecível. Dedicadoaos que percebem o foco do autor na qualidade, não na audiência.

                    Gosto de andar na contra-mão dos que mudam seus blogs ou começam um novo pensando em ganhar dinheiro, em posts que atraiam mais audiência. Sou um dos que não promovem seus posts mais do que se empenham na qualidade deles. Sobretudo não insiro links comerciais. Sei que não estou sozinho nessa, mas desconfio que sou minoria. Por isso estou fora da panelinha de blogueiros de viagem que defendem o contrário.

                 No entanto há blogueiros de viagem extraordinários fazendo um trabalho absolutamente fantástico, atraente, inspirador. Que tal dar uma olhada no Gabriel Britto, do Gabriel quer viajar, pra entender o que eu falo disso tudo?

                   NÃO quero ser injusto deixando de fora da minha seleção algum, mas por hora ocorrem-me apenas os seguintes blogs profissionais que respeito e admiro: o TUROMAQUIA, os do TONY GALVEZ, o AQUELA PASSAGEM do Rodrigo Purish (mais um que se foi), o CONEXÃO PARIS (da Lina), e o VIAJOLOGIA, do Haroldo Castro, na Época.  São os que não venderam a almas à monetização, o coração ao mercado anunciante e os demais órgãos ao conteúdo pago. Estes encontraram um caminho admirável para ganho de dinheiro, seja vendendo seus próprios produtos, seja seus espaços à pubicidade sem comprometerem seu conteúdo e credibilidade.

                       PORTANTO, que fique bem claro: nada tenho contra blogs honestos, ainda que nenhum  destes me provoque euforia, aquele antigo, soberano prazer de ler. O resto fica por aí, agarrado a tentativas de criar modelos, todavia nenhum preocupado na melhoria do conteúdo, na qualidade visual, em textos caprichados. E, pior, unem-se a associações que pregam algo que nem mesmo seus associados praticam. Que propagam doutrinas baseadas em conceitos não genuínos, simulados ou dissimulados, que visam apenas o dinheiro. Seria necessário ter critérios não teóricos, senão efetivos, e compatíveis com o que pregam. O resultado, não passam de uma invencionice tola e infantil. Empregarem a mesma lógica que usam no universo das mídias virtuais: a superficialidade. É uma "enfermidade" virtual incontestável. Que contamina os blogs com tudo o que há de mais barato na Internet, em imagens, textos, conteúdo e design.

                       MUITA gente boa, sobretudo que tinha uma bela trajetória nesse meio já embarcou nessa. Naufragam e fingem não perceber que ajudaram a afundar o que defendem. E outros que ainda não o fizeram, acabarão enjoando, empacarão, se cansarão e desistirão de blogar um dia. Fatalismo? Claro que não. É apenas o resultado de enxergar o mundo virtual como ele é, não como essa gente quer que ele seja. Alguns não têm coragem de alimentar discussões acaloradas, divergir. São os "Luciano Huk", ou seja, os sempre bonzinhos, falsamente politicamente corretos. Mas o mundo está de saco cheio disso.

                       AINDA é cedo para declarar a morte dos blogs. E talvez até ela não aconteça. Mas há muita falta de desconfiômetro nos que acham que os blogs não definham. Desde a estréia do meu blog, um dos pioneiros em Março de 2006, houve uma bem-vinda e natural explosão de viajantes amadores que também resolveram escrever sobre as suas. Alguns até sonharam tornarem-se escritores profissionais de viagens. Vão sonho ou não, o que de fato aconteceu com os blogs de viagens foi o mesmo que já havia ocorrido com os de moda e comida: saturação. Depois os pioneiros foram largando seus blogs para dedicarem-se à cultura do curto prazo e das meias e poucas palavras do Twitter e das fotos de celular extremamente modificadas por filtros. O resultado é notável. Os blogs definharam e muitos estão ou abandonados ou agonizando.

                   TODOS caem (alguns despencam!) em audiência e comentários. Sobretudo nestes. Ainda que apenas uma ínfima parte de seus autores assuma tal realidade. E outra ainda menor tenha coragem de discorrer e debater o assunto. Francamente, a culpa majoritariamente é do Twitter, do Facebook e do Instagram. Mas há outros dispersores de atenção por toda a Internet. O segundo motivo é que a maioria dos blogs 'profissionais' de viagens é constrangedoramente ruim e vendida. E ainda que eles queiram, não vão mudar o mundo: os dias hoje são da cultura de curto prazo, das poucas palavras e da falta de atenção a mais do que 140 caracteres.

                    TENHO repulsa às mentalidades do tipo “quero ganhar muito e trabalhar pouco” com blogs. Tanto quanto aos muitos que usam as redes sociais com superficialismos e fofocas, intrigas e inutilidades. Me assustam a exposição, tenho pena da carência, vergonha alheia do narcisismo e a tentativa dessa gente aparentar através de sua vida virtual ser muito mais interessante, ter muito melhor caráter e moral do que demonstram na vida presencial. Por isso é bom ter um ou outro "gato pingado" como eu que de vez em quando tem coragem de escrever coisas como estas e ser crítico. Ainda que eu esteja definitivamente convencido que minorias não mudam nem comandam o mundo. Tenho aversão às paixões pelo instantâneo, à dedicação às superficialidades, à moda da insaciabilidade e do excesso de exposição à Internet, de ter que postar alguma babaquice sempre, de atualizar seu blog sempre, dos viciados em novidades cibernéticas que os coloquem ainda mais em evidência virtual. Se achar bom e útil o que escrvo, volte sempre. Caso contrário, desça o sarrafo na caixa de comentários. 

                       APESAR do crescente número de blogs do gênero, não duvido de que a esmagadora maioria de seus autores está profundamente desiludida com suas próprias (e tolas) aspirações de ganhar fama e dinheiro coisas tão ruins. Nem quero me referir aos blogs que roubam conteúdo de blogs alheios, mas à maioria que apenas suga descaradamente o conteúdo da mídia especializada, vive postando notícias breves do trade turístico apenas com o propósito de ganhar dinheiro e promoção (e, quem sabe, algum jabázinho). São blogs insipidamente ridículos, toscos e bregas.

                   OUTRA questão é que blogueiros de viagens estão demasiadamente centrados uns nos outros. Sua blogosfera é restrita à suas comunidades, à sua própria coletividade. E não me refiro apenas os que escrevem e publicam conteúdo motivados por viagens subsidiadas e pagas. O "sucesso" que supõem deve-se bem mais ao resultado da sua dedicação à própria rede do que à qualidade do conteúdo.

                      MESMO que a grande maioria dos blogs seja honesta, que tenha personalidade, o fato é que TODOS os blogs definham. E é natural que cumpram seus ciclos de nascimento, crescimento, consolidação, estagnação e morte. Sejam bons ou ruins. Qualquer um (minimamente informado e atento) percebe que este é um fenômeno natural e corriqueiro na Internet.  Já ocorrido com outras plataformas de expressão. Blogs não são exceção, senão mais um exemplo deste ciclo.

                       MAS neste caso dos blogs, especialmente dos de viagens, há muitas razões associadas. A principal delas é a moda do fast-food cultural, da comunicação virtual rápida e superficial: Twitter, Facebook e Instagram. Este último, a pá de cal nos blogs de viagens. Mas todos canibalizaram os seus prórpios blogs. E os próprios blogueiros que migraram pras redes sociais matam aos poucos o interesse universal pelos blogs e pela leitura. Aliás deve haver alguma coisa errada com essa gente que se expões tanto, que se dedica tanto, que vive tanto nas redes sociais...

                       VIVEMOS a cultura do curto prazo, ralinha e pouquinha.  Agora, pra ser atraente, tudo deve ser pouco, breve, superficial, pobre e sem conteúdo. O objetivo é atrair as massas e os dois minutos de atenção que ela tem pra dar a tanta informação que o leitor tem pra consultar. Não me refiro à meia dúzia dos visitantes dos blogs, nem aos dois gatos pingados que comentam na maioria deles.  Faço referência aos que com 140 caracteres e uma foto de celular acham que estarão afirmando-se na blogosfera, quando de fato promovem o inverso. São os que apostam tudo na quantidade de visitantes únicos e ans páginas visitadas. Visam apenas o aumento de seu ranking no Google. Quando deveriam estar ligados na qualidade do visual e do conteúdo de seus blogs, dispendendo seu talento e tempo na sua permanence modernização. Erradamente pensam que assim acreditam que sobreviverão aos desígnios de seus anunciantes: com a quantidade de visitantes (não importa se cairam de para-quedas desviados da conchinchina numa "googlagem" acidental), não na qualidade geral, o que afinal faz todas as coisas durarem para sempre, até depois da morte. Mais cedo ou mais tarde todos saberão que não há muitas empresas dispostas a desperdiçar dinheiro com propaganda em blogs de baixa qualidade de conteúdo e com audiência irreal. 

                  No começo até doía ter um trabalhão danado, postar coisas bem cuidadas e elaboradas, boas fotos e textos caprichados e não receber nenhum comentário no blog. Recebia entre 3 a 5 mil visitantes por dia e uma nano parte comentava. Hoje, com o evidente desencamento de audiência dos bolgs, recebo 500 por dia. E um comentário por semana. Sei que é muito pouco se comparado ao número de visitanets únicos, mas é a realidade. Não se lê mais, não se comenta mais. 

 

               MAS, como se pode ver na caixa de comentários, há defensores e opositores para todas as opiniões e formas de pensamento. Eu as compreendo, e ainda, respeito discordâncias pessoais, mesmo as ignorantes, pretensiosas e desprovidas de argumento. Não apenas porque reconheço a heterogeneidade das pessoas, mas porque é evidente que há gosto pra tudo. Há quem defenda apaixonadamente revistas como a Viagem e Turismo, mesmice e falta de criatividade, como de igual maneira compreendo que haja pessoas que apreciam e assistem ao Big Brother e do A Fazenda na sua forma extremamente brega e vulgar, assim como a tantas outras idiotices que as TVs nos empurram goela abaixo. Ou o humor grotesco e o voyerismo do ridículo a que as pessoas são expostas em programas de TV como o Pânico na TV. Ou as pessoas que não se incomodam com a erotização infantil exacerbada nos programas da Xuxa, com os assuntos impróprios aos horários das novelas da Globo (onde esbanjam-se cenas de violência, sexuais gratuitas, de nudez, de falta de caráter, de discriminação, de obscenidades, de baixarias, de banalização de comportamentos sociais, de apologias exacerbadas tanto ao homo quanto ao heterosexualismo). Todos com defensores acalorados.


                   HÁ quem goste do sexismo, das vulgaridades implícitas, das ignorâncias explícitas dos programas da Luciana Gimenez, do “humor” apelativo do Marcos Mion, do grosseiro (e falido) CQC do Marcelo Tás, Rafinha Bastos e cia. (felizmente) limitada. Dos que adoram piadas de estupradores, do João Kléber (que fim levou?), do Ratinho (que fim levará?), do Gugu Liberato, do Sérgio Malandro, do enjoado bom-mocismo do Luciano Huk e da Angélica, do infame programa O Melhor do Brasil (cujo apresentador Rodrigo Faro faz enorme sucesso na Rede Record), da revista Caras, dos diálogos fraquíssimos e bobinhos de Malhação, do programa Mulheres Ricas (cuja breguice e futilidade só perdem para as postadas por boa parte dos “escritores” do Twitter, da programação dominical liderada pelo Domingão do Faustão (reconheça-se, principal colaborador do que há de pior na TV neste dia da semana, cujo mérito do que é ruim (justiça lhe seja feita novamente) extende-se a outros canais e apresentadores), de canais como a Record e o SBT, com suas "Elianas" e "Celsos Portiollis", com o incrivelmente bobo Otávio Mesquita no seu esforço desgraçado para produzir um programa sofisticado mas toscamente infantil e vazio.

 

           NÃO faltarão exemplos. Nem defensores de programas como o Casos de Família, deprimente “talk show bate-boca” da apresentadora Christina Rocha, cujo tema é a lavação-de-roupa suja de pessoas humildes ali no palco e a vivo, o com sua cópia - a Márcia Goldsmith, da Band - programinha desprezível que frequenta a mesma linha, do asqueroso Datena que vocifera lições de moral (falso que só ele!), prepotente ao mostrar a desgraça alheia, ou o sem graça, cafona e chatíssimo Zorra Total, cujas “feras do humor” (que saudades do Chico Anísio!) tornam o humor na Globo tão abominável quanto sem graça e sem criatividade, o Programa do Ratinho, o talk-show mais insano da TV (esse não dá nem pra comentar!), a Turma do Didi (alguém em sã consciência deixava seu filho assistir àquilo?).  Esqueci de alguém? Ah, claro, da Ana Maria Braga, dos comerciais de cerveja e das Casas Bahia. Afinal, há gostos pra tudo e todos os públicos. Há até quem goste de Lady Gaga, de Michel Teló e de Beyoncé. O assunto dá um livro. Cujo título poderia ser: "Foi tudo por causa de dinheiro!"

 

           QUEM quiser opinar, que escreva os capítulos aqui. Mas saiba ANTES que todos têm fim e limites. INCLUSIVE os blogs de viagens. Mas se esses blogueiros acordassem todas as manhãs refletindo sobre isso é possível que alguns fizesem coisas melhoras e mais importantes pela blogosfera. Não fariam nada mais do que tem de ser feito.