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Segunda-feira
Jan212013

MIANMAR - Uma estrela em ascensão

                     QUANDO escrevo e fotografo só penso em produzir algo original. Como o fazem Marcel Theroux e Philip Lee Harvey. É claro que a meta revela uma enorme pretensão. E que um abismo intransponível afastam intenção e fato: não estudei jornalismo, minha falta de talento é notável, nasci sem o dom da escrita e não acumulei cultura suficiente.

                         ESTAMOS às vésperas de nossa viagem a Mianmar E eu há semanas tentando escrever esta introdução. Por sorte encontrei uma edição espanhola antiga da Lonely Planet Magazine. Sua capa exibia um título mais atraente que qualquer outra na estante da seção "viagens" da Livraria FNAC: "Birmania. Saindo das sombras". Ilustrava a capa uma belíssima fotografia de Bagan. Sob a bruma das primeiras horas do dia, balões sobrevoavam a maravilha de cenário: seus mil templos engolidos pela mata. Daqui a poucos dias estaremos lá exercendo o nosso privilégio de ver e fotografar aquele incrível lugar.

                       O melhor da revista, entretanto, estava no conteúdo. E a cada página virada. Mianmar mostrava-se com beleza e originalidade reveladas num texto competente e numas fotos de beleza estonteante. O conjunto consagrava-se como um tesouro. De letras e imagens. Poética, abrangente, inspiradora, a matéria aludia ao recentíssimo processo de abertura do país, após décadas fechado e proibido. Eu folheava ansioso uma das mais preciosas edições de viagens que já tivera em mãos. Daquelas raríssimas que ainda me preocupo em guardar. Ao lado dela, na mesma estante da livraria, outras boas revistas - como a Volta ao Mundo e a Rotas e Destinos - não me pareciam atraentes como de costume. Nas brasileiras, meu desgosto de sempre: traziam os mesmos destinos que se esforçam por um ineditismo impossível. Provavelmente também um conteúdo que parece considerar o turista brasileiro um desmiolado. Abusando da mesmice, da subjetividade, das abordagens superficiais e infantis, traziam em seus títulos suas "novidades" do mês: Buenos Aires, Orlando, Paris, Europa Barata e Nova York.

                       ANSIOSO por completar a leitura da matéria de Marcel Theroux (*) e Philip Lee Harvey (*), tratei de garantir a revista e levá-la pra casa. Entretanto, a melhor sensação foi perceber outros brasileiros atraídos pela mesma revista, e por outras de igual qualidade. "Vivemos nosso século das viagens", pensei. Eu, um turista inveterado, estava feliz presenciando outros brasileiros mais maduros, exigentes, experientes e seletivos despertando interesse por destinos menos óbvios. Lembrei-me então das novas cias. aéreas que voam para o Brasil, que levam nossos turistas para destinos jamais imaginados. E recordei-me também de estatíticas recém divulgadas: viajamos e gastamos como nunca!  Pudera, com tantas boas opções de conexão com o Oriente e a África, tantos lugares outrora isolados agora tão próximos e acessíveis, já pensamos até em embarcar num vôo para a Etiópia. Não sem razão. Além de um destino absolutamente relevante, a cia. aérea nacional daquele país - Ethiopian Airlines - iniciará suas operações no Brasil em março próximo.

                         VOLTANDO às revistas, devo ser justo. Além da National Geographic Brasil, nenhuma outra parece seguir um padrão jornalístico consistente, fundamentar-se em premissas inteligentes, obter fontes de informação especializadas e publicar matérias não pautadas por anunciantes. Sobretudo abordar destinos menos óbvios. E não tratar o turista brasileiro adulto como pré-adolescente.  Apenas esta brasileira mostra os lados bom e ruim de um destino, não abusa de adjetivos como "charmoso", "mágico", "especial" , "único" e "belo", ainda que eu destaque também a A Viaje Mais como uma que trata o turista brasileiro com maturidade.

                       JÁ não escrevo a máquina nem jogo papel amassado na lixeira. Mas enfrento a mesma dificuldade: passo horas diante do computador, empacado no primeiro parágrafo, tentando criar algo atraente para o leitor. São dias seguidos. Meses fuçando a mente, lendo e procurando inspiração com quem sabe o que faz. E não importam o estilo nem o destino. É sempre um custo. Escrever jamais é calmo. E fazê-lo para Mianmar é uma tarefa ainda mais penosa. Relatar uma viagem e descrever um destino não é fácil. Não se trata de ficção, portanto, usar inventiva e criatividade não funciona com relatos de viagens. Eles são fatos, ainda que possamos conceituar, personalizar e poetizar o que vimos, descrever emoções, contar descobertas, expôr surpresas, mencionar encontros marcantes. É possível até que me entendam os que não viajam e não escrevem. Mas os que o fazem, e enfrentam igual dificuldade, sabem do que falo. Ouso citar David Livingstone: "é de longe muito mais fácil viajar do que escrever acerca disso." E  "qualificações literárias também adquirem-se com os hábitos da escrita.". Enfim, sou um tipo que sabe viajar e escreve mais ou menos. Ou viaja mais ou menos e pensa que sabe escrever. E certamente que adora escrever tanto quanto viajar.  O fato é que ainda me surpreendo quando o que produzo agrada a alguns leitores.

                       SURPRESA mesmo provoco nos amigos e parentes quando viajo para lugares tão incomuns. Mal chegamos do Uzbequistão e do Quirguistão e já anunciávamos nossa viagem à antiga Birmâma. Que? Birmânia? Onde fica isso?! E ainda não os avisei sobre nossos próximos “destinos-desejo”: Irã, Etiópia e Eritrea. Se possível, ao menos um deles ainda em 2013. Todos com sua exclusividade maravilhosa, são mundos exóticos e pouco explorados turisticamente que nos têm atraído como drosófilas às frutas. Mas nada, nada mesmo, temos contra destinos comuns, não exóticos ou turísticos. Ao contrário. Somos bons viajantes, tiramos prazer de quase todos. Porque os escolhemos, viajamos felizes pra onde queremos. Em maio, por exemplo, faremos uma viagem rodoviária familiar pelo sudoeste da França e em julho uma escapada ao Wyoming para visitar o Grand Teton e o Yellowstone National Parks. Ah, quer lugar mais turístico do que Machu Pichu? Pois acabamos de voltar de lá. Eu adorei!

                        ESTAMOS de malas prontas para Mianmar. E ainda que o Rio de Janeiro tenha o melhor Carnaval do mundo, passaremos o nosso no sudeste da Ásia.

 ATÉ LÁ!

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(*) Notas:

Marcel Theroux, escritor novelista inglês, filho de Paul Theroux

Philip Lee Harvey, fotógrafo inglês de viagens

 http://www.philipleeharvey.com/

Quinta-feira
Dez132012

Karakol, Quirguistão - Aventuras e descobertas 

Altyn Arashan, um dos incrível cenários de vale de montanha do Quirguistão

               AO viajarmos nossa disposição para assimilar e compreender um destino é enorme, entretanto inversamente proporcional ao tempo que dispomos para explorá-lo. Bem mais que diversão e relaxamento, consideramos nossas viagens verdadeiras empreitadas, aventuras do conhecimento, experiências da descoberta, úteis para nosso crescimento pessoal e cultural. E com freqüência retornamos ainda mais cansados do que saimos. Nos dedicamos ao destino até a exaustão.  e nossa atitude enquanto turistas é de prontidão, de expectadores receptivos e desobstruídos visualmente. Observamos pra usufruir, para explorar positivamente. Da maneira mais intensa e completa possível. Exercitamos nossa capacidade de olhar sob perspectivas diferentes e incomuns, evitamos clichês e estereótipos, e temos alcançado boas recompensas: viagens excepcionais, descobertas memoráveis e experiências incriveis. 

             Foi com tal disponibilidade e intenção, além de disposição e coragem, que nos aventuramos nesta incrível jornada em Altyn Arashan, um impressionante vale de montanha perto de Karakol.  Através das paisagens mais pitorescas do Quirguistão, a 2.350 metros de altitude, guiados por Sasha, o russo, conduzindo o veículo mais precário e valente que já experimentei, cruzamos estradas precaríssimas entre cenários incríveis nas vertentes de montanhas esparpadas. Vez por outra, à beira de abismos e despenhadeiros, o percurso tornava-se assustador. Mas chegamos sãos e salvos. E nosso prêmio foi um deslumbramento só: a visão magnífica de um vale de rios límpidos, caudalosos, gelados, mais as piscinas naturais sulfurosas com águas quentes em plena montanha.

O velho, bavíssimo, bizarro off road soviético em Altyn Arashan

                 O prêmio foi um dos lugares mais incrivelmente bonitos que já vi. O custo, uma divertida, por vezes assustadora, viagem sacolejante num dos veículos off road mais bizarros que já usei. Foi assim que chegamos a esta paisagem espetacular aí em baixo.

           Foi assim também que nos decidimos a encarar a difícil, exaustiva e longa trilha Ak-Sai Waterfall Trail, a caminhar por seus 7.500 metros de extensão a 2.500 metros de altitude no Ala Archa National Park.

 

Eu era um pontinho na imensidão da Ak-Sai Waterfall Trail, subindo a 2.500 metros de altitude

                Ala Archa é abundante em árvores e vegetação. Dizem que há cabras de montanha e  leopardos da neve, mas não vimos sequer um esquilo. No entanto, rios e riachos de montanha, além de geleiras e picos rochosos são abundantes. Bem marcadas, as trilhas de trekking cruzam o parque e levam pessoas relativamente aptas verdadeiros paraísos cênicos de montanha.

  

Ala Archa National Park

                  NESTA viagem racionalizamos ao máximo nosso tempo. O objetivo era aproveitarmos o máximo possível. Foi tudo muito intenso, tanto no Uzbequistão quanto no Quirguirtão. Mas aqui no Quirguistão alcançamos nosso limite físico: vencemos caminhos difíceis e alternativos, subimos montanhas, caminhamos até cinco horas consecutivas, regidos pelo compulsivo desejo de aproveitar cada minuto, de visitar tudo e fazer todas atividades que programamos. E conseguimos experimentar tudo o que tivemos oportunidade. E tivemos nossas melhores recompensas: o privilégio de observar paisagens estonteantes, enfrentar caminhos difíceis, trilhas perigosas e trechos de longa duração, como a Ak-sai Waterfall Trail, próxima a Bishkek.

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O Ala Archa National Park

                  O Ala Archa National Park é um parque nacional nas montanhas de Tian Shan, a cerca de 40 km ao sul de sua capital, Bishkek. O parque inclui o desfiladeiro do Rio Ala-Archa e as montanhas que o circundam, tem inúmeras trilhas de diferentes graus de dificuladade e tempo para percorrê-las. É muito popular para pic-nic familiares, trekkings, prática de esqui na neve e escaladas de alta montanha na rocha e no gelo. A paisagem é brilhante em todos os 200 quilômetros quadrados e nas diversas altitude, dos 1.500 metros na entrada do parque aos 4.895 metros do Pico Semenova Tian-Shanski, o mais alto da cadeia Ala-tau do Tian Shan em sua porção no território do Quirguistão.

                  Há mais de 20 geleiras de vários tamanhos, além de cachoeiras, rios e picos nas 50 montanhas que integram a área do Parque Ala Archa. Dois rios, o Adygene e o Ak-Sai, originam-se de glaciares derretidos, o que lhes dá a incrível transparência. Correm pelo desfiladeiro de Adygene, um belíssimo e bem arborizado vale por onde tivemos o cansativo privilégio de caminhar.

 

                Ala Archa é abundante em árvores e vegetação. E ali deixamos apenas pegadas.

  Como bons montanhistas, deixamos apenas pegadas na montanha

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Na estrada para Karakol

 Paisagens bucólicas e natureza estonteante: marca registrada do Quirguistão

              Vivemos experiências notáveis e descobertas incríveis em toda a viagem, ao longo de um dia inteiro, na estrada de Bishkek a Karakol. As cores eram plenas, as distâncias enormes e muitas as paradas para fotografias. O cenário de uma amplitude incomum, uma beleza incomparável, de sol brilhante, de azul incrível e de nuvens estranhas. As rochas eram ora vermelhas e agrestes, ora cinzas e cobertas de neve. O verde era pouco, do semi deserto, mas os amarelos abundantes, do fim da estação, de folhas caindo ou então por cair. Os rios e lagos límpidos, de uma natureza quase intocada. Despenhadeiros estonteantes ao fundo, com picos nevados, emolduravam e compunham cenários de tirar o fôlego, de encantar olhares, de arrebatar fotógrafos.

               Cavalos e ovelhas arrematavam a beleza, pastavam solenemente. Moradores colhiam batatas, rolos de feno aguardvam o inverno e a vida seguia, como sempre, simples e lenta. E todos pareciam ignorar nosso encantamento.

   Sol brilhante, azul incrível, nuvens estranhas, rochas, vermelhas e agrestes, cinzas e nevadas

         Deslocamentos rodoviários no Quirguistão invariavelmente são longos e relativamente desconfortáveis. Embora se possa desejar, nem sempre é possível querer que todos os dias sejam de maravilhosos cenários, de comida étnica excepcional, a decomodações impecáveis, de transporte confortável e tudo mais o que turistas podem esperar de bom. Mas a realidade não acompanha o desejo. E no Quirguistão, especialmente no quesito banheiros públicos e lugares pra comer. Mesmo assim tivemos experiências incríveis que estão entre as mais marcantes de nossas vidas viajantes.

   

Estradas ruins mas belíssimas pediam muitas paradas fotográficas

                  A meio caminho de Karakol, encontramos o Canyon Skazka, também conhecido como Fairy Tale Canyon. Ele fica às margens do Lago Issyk-Kul, e  uma breve parada para uma curta e interessante caminhada revela formações rochosas de arenito vermelho, estranhas e por vezes bizarras. A paisagem é um sonho para os amantes da fotografia.

   Skazka, o incrível canyon de contos de fadas

             Provavelmente câmeras fotográficas comuns e compactas não conseguirão capturar a vasta extensão do conjunto de formações. Ideal é dispôr de uma lente grande angular, com no mínimo 24 mm. Como em quase todo o Quirguistão.

   Paraíso para fotógrafos, mesmo os amadores

           Na cidade de Karakol, surpreendentemente, nosso hotel era novo e confortável, ainda que extremamente simples. Soberbamente simples. Espartanamente simples. Como mostra a vista que tínhamos da janela de nosso quarto. O desjejum foi correto, simples e suficiente. E a Internet funcionava. Deu até pra mandar uns e-mails e postar umas fotos no Facebook pros amigos e parentes, depois de dez dias desconectados.

 

Hotel Amir, em Karakol

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Karakol - Lugares, cenários, passeios e pessoas

          Diferentemente do Uzbequistão, sorrisos não foram a marca de nossa estada no Quirguistão.  Mas houve um que valeu a falta de todos: o deste simpático senhorzinho. Inquieto, mas discreto, não sossegou enquanto não contou suas estórias. Nos mostrou seus desenhos e nos falou sobre os chineses muçulmanos que há anos chegaram a Karakol. Além de nós, ele era o único indivíduo naquela manhã na Mesquita Dungan. Ouvimos tudo com a mesma curiosidade por seu chapéu quirguis quanto que ele por nossa nacionalidade.

                 O mais notável monumento arquitetônico de Karakol é muçulmano. De um período bem anterior à era soviética. A Mesquita Dungan é um notável exemplar de templo islâmico com curiosíssima influência chinesa. Tem cara de pagode. E até mesmo seu minarete não se parece com um, senão com uma torre sineira de igreja cristã.

                 O resultado arquitetônico, além de curioso, é raro. E nos remete ao século passado, às províncias muçulmanas chinesas próximas da fronteira com o Quirguistão, revelam uma das partes mais importantes da história do país e da cidade. Entretanto sua maior curiosidade não fica exposta: no processo construtivo não se empregaram pregos na união de vigas e colunas. Elas juntaram-se através de um engenhoso sistema de encaixes. 

A curiosa Mesquita Dungan, em Karakol

                  Os elementos ornamentais são florais, volutas que lembram dragões chineses. São vistos nas vigas que suportam o telhado, ainda mais exuberantes nas extremidades das vigas de canto, acompanhando a forma estranhamente inclinada dos telhados. Os tetos também chamam o olhar: são decorados com colunas ornadas em intrincadas esculturas.

                  Mas não foram a arquitetura e o povo que nos conquistaram no Quirguistão, senão suas incríveis paisagens naturais, a bucólica vida no interior, as mais serenas cenas que víamos até mesmo na beira da estrada, frequentemente ocupadas por pastores e ovelhas. 

Ovelhas pastando solenes à beira da estrada em Karakol. Cenas bucólicas, a marca do Quirguistão

                      Paisagens alpinas e bucólicas são a marca do Quirguistão.  Elas seduzem o turista, roubam sua atenção, rendem os mais belos cliques de sua câmera. Não foi diferente conosco. O terceiro dia de nossa estada no Quirguistão passamos inteiro na estrada. Acompanhados dos mais incríveis cenários alpinos da Ásia Central, seguimos para Karakol margeando o lago Issyk Kul e a Cordilheira Tian Shan.

Precárias, mas eternamente emolduradas por uma beleza estonteante  

                Partimos muito cedo de Bishkek a Karakol, e por toda a longa viagem circulamos por estradas precárias eternamente emolduradas por paisagens incríveis: campos dourados, vales verdejantes, rebanhos de ovelhas, geleiras alpinas, rios caudalosos, aves de rapina, cavalos quirquizes, matas de zimbro, sítios arqueológicos, parques nacionais e lagos transparentes.  Assim chegamos ao ponto final, às margens do segundo maior lago alpino do planeta, o Issyk Kul, onde fica Karakol, a mais soviética, desoladora, sinistra cidade que já conhecemos.

O belo vale onde estão as formações rochosas Sete Touros e Coração Partido

                  O dia acabava num pôr do Sol deslumbrante, coloria de dourados uma paisagem já magnífica, que nem precisava da ajuda esplendorosa do astro rei. Mas durante todo trajeto, e em suas muitas paradas, presenciamos paisagens naturais e vivemos experiências memoráveis nesta viagem pela Ásia Central. Uma delas foi assistimos ao Kok-Boru - os jogos hípicos nacionais, no qual duas equipes adversárias montadas a cavalo tentam capturar e levar a carcaça de uma ovelha decapitada ao gol. Experimentamos aventuras gastronômicas simples e extremamente curiosas de cardápios escritos aénas em russo e quirguis. Vimos uma apresentação memorável e exclusiva de Eagle Hunting, o secular e popular esporte da Ásia Central, a incrível relação entre um homem e sua águia desde jovens.

 

   Paisagens que seduzem o turista, roubam sua atenção, rendem muitos de cliques em sua câmera

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Burana Tower

                   A primeira parada foi a 75 quilômetros de Bishkek, na Torre Burana, situada no belíssimo Chuy Valley. Construída no século XI, é tudo o que resta da antiga cidade de Balasagyn, importante passagem da antoga Rota da Seda nesta região. Não se sabe ao certo o significado de seu nome, mas provavelmente "burana" seja a pronúncia errada da palavra "monara", ou minarete. Com 25 metros de altura, a torre era o minarete de uma mesquita, originalmente com 44 metros do original e de uma cidade inteira destruídos num terremoto em 1900.

A Torre Burana, no belíssimo Chuy Valley, com vista para as montanhas

                 O pequeno Museu de Burana, instalado numa yurta, apresenta alguns restos da cidade, como desenhos, esculturas de pedra, petroglifos, esculturas de pedra, moedas e outras coisas encontradas em explorações arqueológicas. São eles que quinze minutos do tempo na parada mas dão uma boa percepção da história do lugar.

 Dos originais 44 metros da torre, um terremoto deixou apenas 25


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Os Balbals de Burana


                 

                  São curiosas as esculturas antigas de pedra do Quirguistão, usadas como lápides. As esculturas de pedra foram criadas por habilidosos escultores maçons, os maiores artistas da época. Estudiosos distinguem-nas em dois grupos: o primeiro, de esculturas redonda, tentam claramente representar as proporções das figuras e mostram detalhes como roupas, jóias e armas. O segundo grupo é de esculturas mais planas, quando a pedra mostra apenas a linha de contorno da cabeça e características elementares de um rosto, raramente mostrando o corpo inteiro.

                   Mas pesquisadores também classificam um terceiro grupo, provavelmente o mais antigo,  de estátuas que representam lutadores. Na mão direita pode haver um vaso e na cintura uma adaga. Estas esculturas são dos séculos de 6 a10, e apenas muito poucas vão até o século 12. Uma das principais causas de seu desaparecimento foi devido à dominação muçulmana na região, pois o islã proibe a representação de pessoas e animais.

O Museu de Burana, numa yurta original dos povos nômades do Quirguistão

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Buzkashi (ou Kok-Boru)

                  Apesar de mais conhecido como um esporte do Afeganistão, o violento e disputado Buzkashi, um esporte originário das estepes, é muito popular no Quirguistão. Duas equipes de cavaleiros tentam pegar a carcaça de uma cabra sem cabeça, deixada no chão. Quando conseguem, em pleno galope tentam jogar o corpo do aninam num poço, o gol. Atrás todo o time adversário corre para impedí-lo. A disputa é boa! O nome kok-boru significa "lobo cinzento". O nome vem do tempo em que os rebanhos de gado que pastavam nas estepes e montanhas estavam expostos aos ataques de lobos.

 

O violento e disputado Buzkashi, atividade originária das estepes, ainda hoje popular


                   Os cavaleiros carregam um chicote preso entre os dentes, usado tanto na montaria quanto para afastar um adversários. A competição, violenta, invariavemente provoca o desentendimento entre jogadores, que acabam brigando entre si. É muito comum o uso da força para impedir o avanço do adversário, portanto, sobram chicotadas e cotoveladas nos oponentes. Como a carne é fresca, ao fim de uma partida o carneiro vira um saboroso churrasco entre os participantes.

  Um cavaleiro, a montaria e a carcaça do carneiro rumo ao gol

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Eagle hunting

                  A relação entre o homem e sua águia, algo levada muito a sério e que começa quando ambos, ainda jovens, experimentam o que seria uma improvável relação. O rapaz arrisca-se na captura de uma jovem ave, a fim de começar um longo processo de ensinamentos ao animal, desenvolvendo sua natural habilidade para acaça. Inicia-se assim uma relação que pode durar 20 anos. A tradição da caça com águia no Quirguistão é muito popular, mas acontece mais comumente durante o Inverno. Noutras épocas exibições podem ser vistas contratando-se particularmente algum mestre. O esporte tem uma federações no país, que além de ajudar na divulgação, abordam questões éticas, analisa informações demográficas e organiza torneios. 

 

O mestre e sua águia

                 A tradição dos quirguizes de captura e na formação de águias paraa caça sobrevive há séculos. Ela se dá de pai pra filho, e a abrangência de conhecimentos envolvidos no ofício é espantosa: um caçador de águia tem que ser especialista em taxionomia das aves, fisiologia da reprodução de aves de rapina, dos seus padrões de migração e domínio da criação desses animais. Além disso, cada caçador deve saber confecionar as peças de couro usadas no animal, o capuz e a algema de suas patas, além da luva de couro para que ao apoiá-las nos braços suas longas garras não perfurem sua pele.

  

As garras e a lebre

                 Os caçadores praticam ou apresentam-se em terrenos mais elevado e amplos. Lá deixam um coelho no centro da área e levam a águia para o ponto mais elevado do terreno, deixam-na no chão sem as vendas e simplesmente esperaam que ela vôe mais alto, para então avistarem o indefeso animal e, então, realizarem o mergulho, captura e morte da presa.  

  

O vôo e um mergulho certeiro, mortal

                   O dono, e mestre do animal, chega num carro velho, tira a ave do interior e a traz em seus braços, ainda encapuzada, em nossa direção. O animal solta pios esganiçados, provavelmente incomodada com falta de visão. Tira-lhe a vendada dos olhos e então o par de olhos mais incrívelmente vivos que já fitei arrebata nossa atenção. Hipnotiza, seria o melhor termo. Logo depois seu ajudante abre o porta-malas do carro e retira um saco cujo interior só pode haver um coelho vivo, tal a agitação que ele faz. Penso que se ele antevesse seu fim, preferiria ter ficado quieto, fingindo-se de morto ou tentando clemência. Mas nada. Aí então seu mestre com orgulho traz a águia até nós e exibe o belíssimo, saudável animal.

Uma vez capturada, a presa inicia seu lento processo de morte

                  O pobre coelho é posto a uns duzentos metros de distância da águia, e permanece inerte no chão. Deve ter percebido que naquele descampado sua única chance de sobreviência é manter-se imóvel e contar com uma improvável miopía de seu predador. A águia lá longe alça vôo com uma dignidade e beleza que domina olhares e atenções. Voa em círculos e repentinamente pousa sem atacar. Penso que ela está ou bem alimentada ou não tem lá a "visão de águia" que se costuma atribuir àqueles predadores alados. Qual nada. O bicho parecia apenas observar a situação, avaliá-la para evitar erros e lança-se então num vôo certeiro sobre o aninal, crava-lhe as duas patas e volta a voar, para então pousar sem largar o animal guinchando de dor e iniciar o lento processo de morte. O resto é elementar e esperado, ainda que forte: com o uso do potente e afiado bico, começa a rasgar o couro sobre o pelo do animalzinho ainda vivo, que assim permanece sofrendo até que o estrago atinja suas partes vitais.

 Por fim, o mestre exibe orgulhoso seu belíssimo animal

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Petroglifos de Issyk Kul

                  Toda a região de nosso roteiro está cheia de experiências e descobertas surpreendentes. Nossa próxima parada foi num lugar praticamente desconhecido dos turistas quirguizes e cazaques que vão a Cholpon Ata. Um pouco fora da cidade, no caminho de Karakol, com vistas para o lago, passando um cemitério, encontra-se o Parque dos Petroglifos, vestígios da antiga Sogdiana e povos turcos, entalhados de certa maneira aparentemente aleatória nas rochas soltas que já existiam espalhadas no campo. São cervos, cabras, camelos, uma cena de caça com cães, tudo artisticamente produzido em 500 a.C. por um povo enigmático que já não existe mais.

  

                Aparentemente uma atração secundária às margens do Lago Issyk Kul, na beira da estrada, esta é uma parada perfeita: fonte de informações sobre a cultura e a história do Quirguistão,  vistas bucólicas para as montanhas e o lago, além do uso dos melhores banheiros de todo o percurso.   Não há nenhum outro análogo na Ásia Central

 

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Karakol, a melancólica

                 Um posto militar russo fundado em 1869 lhe deu sua personalidade atual, ainda que Karakol não seja uma cidade fundada na era soviética, cresceu nela, no século XIX, depois que exploradores mapearam seus picos e vales, aqueles que separam o Quirguistão da China. Na década de 1880 a população cresceu com o afluxo de dungans, muçulmanos chineses que fugiram da guerra na China. Em 1886 a cidade foi renomeada Prezhervalsk, em homenagem ao explorador russo que empreendeu várias viagens à Ásia Central, e na empreitada quase atingindo Lhasa, no Tibete. Tendo se estabelecido na cidade, a escolheu para passar o resto da vida, após ter contraído tifo em suas aventuras. Mais tarde foi Lenin quem ordenou o retorno de seu nome original, em 1926, apenas para que Stalin pudesse novamente renomeá-la Prezhevalsk, em 1935. Finalmente, em 1991, com a independência, foi renomeada novamente Karakol.

 

 Quase não há vida nas ruas e nas casas de Karakol

                 Hoje, turisticamente, a cidade é divulgada entre os quirguizes como uma bela estância às margens do Lago Issyk-Kul, aos pés das Montanhas Ala-Tao e na foz do Rio Karakol. São quase 70 mil pessoas habitando neste lugar fundamentalmente turístico, curiosamente divulgado como das  "magníficas praias de Issyk-Kul". Mas o que se vê é desolação e melancolia. Sobretudo quando não é a temporada do turismo interno.  Tão fria e sem personalidade quanto podem ser as cidades soviéticas interioranas, numa simples caminhada pela cidade ela revela-se desoladora, por vezes aparentemente inabitada. Extremamente soviética, as lembranças do passado parecem vivas. E não são nada sutis:  Stalim parece ter morrido há pouco, Yuri Gagarin e o Sputnik lançados há pouco tempo e a Glasnost e os Jogos Olímpicos de Moscou acabando de acontecer.

   

                 A única curiosidade são alguns exemplares arquitetônicos soviéticos de casas e prédios em madeira, estes com beleza e personalidade, diferentes dos monolíticos edifícios residenciais e administrativos de concreto e de uma era mais recente.

 Lindas e abandonadas, as construções coloniais antigas são o retrato da melancolia da cidade

                   

Sete Touros e Coração Partido

                  Perto da cidade ficam lugares bem interessantes, como Djety Orguz, um balneário de montanha, as belas formações rochosas Sete Touros e Coração Partido, ambas mais próprias às que vimos no Utah, Oeste americano. Há opções de hospedagem em pequenas pousadas e hotéis na cidade e empresas locais que oferecem serviços turísticos.   

Igreja Ortodoxa Russa, a Catedral da Santíssima Trindade

    

                   Outra atração é a Igreja Ortodoxa Russa, a Catedral da Santíssima Trindade, concluída em 1895, usada como clube durante a era soviética, agora restaurado e com seu destino original revertido. O interior não pode ser fotografado mas é repleto de ícones divinos. Mas é o exterior fotografável que se encontra sua maior beleza.

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Sunday Animal Market

                 Visitar países como Quirguistão e Uzbequistão é sempre um retorno no tempo, onde e quando a vida nas pequenas aldeias parece ser a mesma há 100 anos. Mas em toda nossa viagem, nenhuma outra atividade foi mais "volta no tempo" do que a visita ao Sunday Animal Market. Afortunadamente estávamos ali no domingo, quando milhares de quirguizes juntam-se numa enorme área para o comércio de seus animais, especialmente carneiros, bois e cavalos.

                    Se me pedissem para recomendar apenas uma atração que representasse o que há de mais popular e autêntico entre todas as que conhecemos na Ásia Cenral, eu não hesitaria em sugerir o Sunday Animal Market de Karakol. 

 Multidão de animais e gente. Compram-se, vendem-se e trocam-se animais no Sunday Market 

                 O mercado estava em plena atividade quando chegamos antes das oito da manhã. A atmosfera caótica envolveu-nos completamente. Adultos e crianças rodeados por caprinos, homens e mulheres num enorme esforço para retirar suas bestas relutantes dos porta-malas de seus Ladas, e nós turistas estupefatos, vagando entre aquela loucura. Disparávamos os mais nervosos cliques em nossas câmeras, entre vozes de animais e guinchos vindos de todas as direções, com olhares preocupados trocados entre nós mesmos.

   

  As bestas relutante hesitam deixar os porta-malas de Ladas, reboques e caminhões

                  A curiosidade maior, todavia, era dos locais. Raramente viam ocidentais disparando suas câmeras como se fosse a última vez. Um deles chegou a nos abordar oferecendo uma vaca, o que pronta e polidamente recusei, não sem delicadamente fingir avaliar a oferta.

Após avaliar a proposta, achei melhor não comprar a vaquinha que seu dono me ofereceu    

                 Tivemos ótimos momentos no Sunday Animal Market, andando, olhando e tirando fotos louca e aleatoriamente ao longo de nossa permanência na feira.

 

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Aventura off road nas montanhas de Karakol

                Pela manhã pegamos nossa marshrutka off road 4 X 4, uma minivan utilitária, de fabricação russa, muito forte, um dos poucos veículos capazes de subir os 15 km até Altyn-Arashan. Com uns trinta anos de idade, o veículo soviético pertencia a Sasha, um russo que parecia recém saído de um filme soviético, não falava uma palavra de inglês, mas era simpático e revelou-se um verdadeiro herói pilotando com segurança e técnica, além de mecânico de emergência. 

Sasha e sua marshrutka off road soviética

                    No destino, um balneário de montanha, explorarmos um dos mais incríveis palcos de trekking e off road do planeta e o incrível prazer de mergulhar numa piscina de águas termais em plena montanha.

  

                  A paisagem era sempre de cartão-postal, ou dessas que a gente vê apenas em revistas como a Nat Geo.

 

Golden Spa (!), as hot springs de Altyn Arashan

                         Uma incrível viagem!

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A seguir:

Dois dias em Istambul, a caminho e na volta da Ásia Central

Sexta-feira
Dez072012

QUIRGUISTÃO – A Suíça da Ásia Central 

Estradas ruins, paisagens estonteantes

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Doer para. O que não para é ter doído

                   TODA dor um dia cessa. E vira cicatriz que nos acompanha o resto da vida, nos lembrando a dor que sentimos e também que ela parou de doer. A dor pára, o que não pára é ter doído. Como as cicatrizes.

                    Países que um dia foram dominados por governos sanguinários e que após sua libertação demonstram soberba capacidade de relevar a dor, exercem grande atração em mim. São poucos. Afinal, invasões e dominações cruéis costumam deixar sequelas. Bem mais graves que marcas no corpo. Encarar cicatrizes sem mágoa ou rancor é apenas para povos privilegiados. E pode parecer cruel, revelar insensibilidade ou ainda egocentrismo eu admitir que me atraem como imãs o ferro os raros países que sofreram muito com regimes despóticos mas encaram bem suas cicatrizes.

Como em qualquer quintal de Karakol, paisagem alpina

                  É uma particularidade para a qual tenho profunda admiração. Respeito as mentes elevadas. Talvez porque as inveje. Mahatma Gandhi seria meu melhor exemplo de indivíduo com tal capacidade. Mas aqui me refiro à de toda uma nação, não apenas de um indivíduo, mas a de um povo inteiro que se distingue e sobressai mesmo depois da imensa dor vivida. É um misto de conformismo magnânimo, e admirável, com uma resistência intelectual soberba. Só uma palavra me ocorre para exprimir tal grandeza intelectual e tamanha generosidade moral: nobreza.

Campos cultivados, vistas de tirar o fôlego  

                 O mais tocante exemplo de nossa experiência em conviver com povos profundamente marcados pela dor, e igualmente magnânimos em relevá-la foi no Camboja. Dali saímos tão tocados quanto jamais havíamos pensado numa viagem. Ainda hoje cremos que nunca mais sentiremos emoção igual. Depois foi na Índia. Experiência apenas semelhante, já que a dor ali resulta da imensa pobreza, não de governos despóticos ou regimes sanguinários. Mas também revela seu caráter, especialmente auqle expresso nas faces mais conformadas e resignadas que já presenciei. Ainda não me largam da memória. E espero que jamais saiam. Nem as minhas melhores reflexões e divagações sobre os limites da conformação humana chegariam aos pés dos resultados de viver aquelas experiências ao vivo. Foi ali que percebi o quão pretensiosos eram meus prognósticos sobre tal capacidade humana. Agora, a mais recente experiência foi no Uzbequistão.

Pôr do Sol nos meandros de um rio

                 Quando minha mulher sugeriu o destino eu mal sabia onde ficava. E turisticamente nos proporcionou experiências emocionantes, recompensas brilhantes que almeja todo bom viajante. Lugares onde tivemos as melhores impressões de um povo, esse precioso suvenir de viagem. Universo exótico, de lendas e fantasias, com uma história cruel de conquistas sanguinárias, do mongol Gengis Khan ao turco Tamerlão. Cada qual deixou suas marcas, as cicatrizes que um dia foram imensa dor, a do extermínio de populações inteiras apenas para registrar seus poderes, não por resistência. Bem mais tarde foram os soviéticos, não tão sanguinários, mas igualmente cruéis.

 Crianças doces, adultos sizudos

               NOSSOS momentos foram perfeitos, as experiências memoráveis e as convivências inesquecíveis. Eu poderia resumir assim nossa estada  no Uzbequistão: "grandes momentos".  Mas chegara a hora de deixarmos o país, o que nos rendia a primeira grande saudade de uma viagem incrível. Desolados, deixamos Samarkanda em direção ao próximo destino - Quirguistão, o menos conhecido “stão” da Ásia Central, provavelmente um dos lugares menos visitados do mundo. Desse jeito pegamos a estrada às 7:15 da manhã. Quatro horas depois estávamos novamentoe na agora familiar Tashkent, Capital do Uzbequistão, onde começamos nossa viagem. Nosso vôo pela Uzbekistan Airways até Bishkek sairia às 16:10 h. Havia tempo suficiente para aproveitarmos até a última gota o país. Assim, comemos nosso último plov num restaurante gigantesco - o curiosíssimo Centro de Plov da Ásia Central - que apesar de suas dimensões serve apenas aquele simples, mas saboroso prato nacional. Não deu pra contar, mas assim por cima, havia cerca de quinhentos indivíduos comendo ali.

                 Éramos os únicos ocidentais, atraíamos mais olhares do que o prato nacional. Mas os uzbeques são incrivelmente simpáticos e educados, nos sentimos bem sendo alvo dos olhares curiosos, mas discretos, na imensidão daquele restaurante. Alimentados, nosso próximo destino agora seria o Manas Airportaeroporto internacional de Bishkek, único lugar do mundo onde militares russos dividem espaço com norte-americanos.  A ex União soviética não larga o osso. E os Estados Unidos mantêm base de apoio às sua operações no Afeganistão. Estacionados na pista do aeroporto, os enormes B 52 ficam tão próximos dos aviões de carreira que nosso Airbus A 380 pareceia um monomotor.

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Bishkek, a Capital da Suíça asiática

  Fotógrafo e fotografado, mútua curiosidade

                  Se propaganda não fosse a alma do negócio, o título "Terra do Sorriso" iria para o Uzbequistão, não para a Tailândia. E o prêmio "povo mais simpático do mundo" para o usbeque, não para o cambojano, ainda que a disputa fosse acirrada. Já o "Troféu Limão" sairia das mãos dos antipáticos espanhóis (com relutância!) e cairia na dos quirguises (como uma luva!). Confrontada com a simpatia dos usbeques, a falta dela nos quirguises é chocante. O povo é frio, seco, não se interessa pelo turista, não é simpático, nem mesmo protocolarmente receptivo. Que dirá hospitaleiro. Receber um sorriso natural e espontâneo ali é motivo pra desconfiança. Pior pra eles: quanto mais fechado um povo, mais difícil um turista conhecer sua cultura e gostar dele. O povo do Quirguistão tem lá sua nobreza, óbviamente. Vêm de uma tradição de cavaleiros nômades, de guerreiros das estepes na Ásia Central, ainda que quase sempre tenham estado sob o domínio de governantes do vasto império de um povo estrangeiro, de Genghis Khan aos soviéticos. Mas ali a nobreza do conformismo magnânimo, da admirável resistência intelectual, parecem mascaradas numas dores que ainda doem.

                  Ainda sem conhecer tal indiferença entre o Uzbequistão e o Quirguistão, descemos do avião em Bishkek e enquanto caminhávamos eu pensava: "tenho vontade de viajar desde pequeno". Ainda moleque, viajava nos sonhos, nas revistas e na imaginação. Mas daí pensar que um dia iria ao Quirguistão tem uma distância. Menor do que a sorte de estar ali, maior do que a da porta do avião até o balcão de vistos. Não fosse minha doce Emília, provavelmente minha ignorância me faria jamais ter visitado o país.

                Se o desembarque e a imigração em Bishkek são brincadeira de criança, em Tashkent a coisa é para doutores. Incrivelmente simples e rápido, o Quirguistão tem o regime de vistos turísticos mais liberal da Ásia Central.  E se o Uzbequistão é um destino de contos das 1001 noites, para apreciar patrimônios culturais e arquitetônicos sem paralelos, o Quirguistão se destaca pela natureza. E que natureza! Tashkent é cinza, Bishkek é verde: cerca de 90% de seu território são cobertos por montanhas e lagos. Verdejantes e límpidos. É um país com paisagens que a gente só vê na National Geographic. Ou indo até lá. As fisionomias também são diferentes. Aqui são orientais, primordialmente da etinia chinesa han com pitadas mongóis. 

 

                    A beleza natural é estonteante. Com a vantagem de não ser asfaltada como nos Alpes suíços, ou plastificada e certinha como nos austríacos. Logo estávamos a caminho do hotel, bem longe do aeroporto, no centro da cidade. Ele fica de frente para a cordilheira Tian Shan, no Vale do Chui. De nossa janela avistávamos a magestosa carreira de montanhas, e mais abaixo a cidade relativamente nova, lugar ideal para começar uma viagem às montanhas e aos lagos alpinos. As experiências aqui seriam outras: o convívio com a natureza, já que em termos de patrimônio arquitetônico é quase nula. E creiam, pelo que vimos, e que o leitor pode julgar pelas fotos, as paisagens  de montanha são estonteantes, as experiências de caminhar por elas fabulosas e a beleza natural impressionante.

Circo. Herança cultural e arquitetônica soviética

                 Das cidades que visitamos na Ásia Central, esta é com mais e maiores resquícios soviéticos. Planejada por urbanistas czaristas, tem avenidas grandes, praças enormes, parques ainda maiores e muito, muito verde. Mas também tem muito mais aparência ocidental que oriental. A beleza natural contrasta com os edifícios administrativos e residenciais dos tempos soviéticos. Ou de hotéis de cadeias americanas. E tudo é perfeitamente emoldurado pela cordilheira Tian Shan, cujos 4800 metros de altura ainda estão cobertos de neve nesta época do ano. A cidade é plana, coladinha na base da cordilheira, o que garante a vista sempre dominante. É ela que anuncia o quão cênico é o interior do país.

 

                 O dia foi inteiro de caminhadas pela cidade. Bishkek não é nenhum encanto, mas não deixa de ser uma cidade agradável. Os locais a chamam de Cidade do Sol. Dizem que até mesmo no alto inverno raramente se vêm nuvens. Com beleza assim e clima ideal, turistas vão ao Quirguistão para fazer trekking e montanhismo, não para visitar Bishkek. É fácil conhecê-la bem em um dia de caminhada pelas suas principais atrações, começando pela Victory Square. Bishkek é agradável para passear de dia, mas à noite as ruas são mal iluminadas, as calçadas são e irregulares e podem ser um perigo no escuro. Hotéis sugerem evitar andar pelas ruas à noite. Os táxis são baratos e devem se evitar os ônibus, porque há batedores de carteira. Para quem procura resquícios soviéticos Bishkek não desaponta. Seja na praça principal ou entre as árvores de uma de suas inumeras praças. Há edifícios, monumentos, estátuas e lembranças da ex URSS por todos os lados.

Victory Monument na Victory Square

  

                O ponto de partida para um passeio a pé por Bishkek é o Victory Monument na Victory Square. Este memorial foi concluído em 1984, no 40º aniversário da vitória sobre a Alemanha nazista na segunda Guerra Mundial. O monumento tenta relembrar uma yurta, através de três costelas de granito vermelho que representam a estrutura fundamental da tenda. No centro há uma figura de uma mulher representando sua importância na sociedade e na família quirguis, a chama eterna, e a espera por seu marido que nunca retornará da guerra. O conjunto leva à reflexão sobre o grande custo da vitória. É o lugar predileto para noivos colocarem flores em memória dos mortos e para fotos vestidoa a caráter.

  Da arquitetura aos quepes

                Da grandiosa arquitetura concreta aos quepes dos militares que guardam a "Casa Branca" quirguis, tudo ainda parece promover as virtudes do comunismo. Num dos frondosos parques fica o imponente monumento à uma heroína genuinamente nacional - Kurmanjan Datka, rainha do Quirguistão -  que no fim do século XIX e início do XX foi responsável por liberar o fértil Vale de Fergana do domínio do Canato de Kokand.  Vizinho a ele, não é preciso procurar Lenin. Ele domina um pedaço da Praça Ala-Too, ou Ала-тоо аянты, principal e enorme espaço público da cidade, onde fica a bandeira nacional e acontece a troca da guarda.

               Construído em 1984 para comemorar o 60º aniversário da República Socialista Soviética do Quirguistão, em seu centro, dominando o lugar, sob um enorme pedestal de mármore ficava a prodigiosa, extraordinária estátua de Vladimir Ilyitch Uliánov, vulgo Lenin.Ficava porque em 2003, já independente, o governo a transferiu para, digamos, os fundos da praça, e atrás do Museu Histórico do Quirguistão, o herói bolchevique. Aqui a atração mais interessante é a cerimônia da troca da guarda, cuja coreografia é baseada na de Moscou, talvez o maior resquício da ainda muito presente era soviética.

 

 

                   Ainda que a causa tenha sido nobre, Lenin foi mesmo é despejado. Perdeu o posto para um herói verdadeiramente nacional: Manas, montado em seu fiel cavalo Akkula, representando numa composição em bronze chamada Erkindik, ou liberdade. O cavaleiro herói foi responsável por unir quarenta clãs do Quirguistão contra seus inimigos - os uiguris -, condição fundamental para encerrar o sectarismo e construir o estado quirguis. Dizem que a estátua de Manas foi inspirada em outra, a de St. George, em Moscou. Talvez para  mostrar que as semelhanças entre  quirguizes e soviéticos existissem apenas na imaginação dos segundos.

Manas em seu fiel cavalo Akkula, na Praça Ala Too


                    Todavia a curiosidade maior sobre a estátua de Lenin é bem discreta: além de despejado, agora Lenin olha para o Edifício do Parlamento, símbolo da democracia.

                     Mas há outro fato inusitado, este ainda mais discreto. Ele nos faz lembrar que nada é para sempre. Tampouco os regimes totalitários.  Escondido, o detalhe fugirá à percepção de um visitante desinformado: bem defronte à estátua de Marx e Engels fica o prédio da Universidade Americana (ops!) da Ásia Central. Originalmente era um edifício da administração soviética.

                    Em sua fachada há uma bela escultura lavrada em pedra. Nela estão representadas a foice e o martelo, símbolo comunista. Imediatamente abaixo, agora há um letreiro: American University of Central Asia. E para este olham Marx e Engels, sentados lado a lado, eternizados em bronze, conversando sobre o que enxergam. Provavemente sobre as voltas que este nosso insólito mundo dá.

É verdade, companheiro, esse mundo dá muitas voltas...

                    No mesmo parque Dubovy, ou Parque dos Carvalhos, além daqueles exemplos da natureza, as belissimas árvores, há outras atrações, como um obelisco gigante, vermelho, em mármore, que marca a sepultura comum dos bolcheviques mortos em 1918 durante a contra-revolução. O homem creditado por derrotar a contra-revolução é Yakov Nikoforovich Logvinenko, também enterrado aqui.

                    No centro da Praça Ala-Too há um enorme mastro com a bonita e gigantesca bandeira do país, de onde podem ser vistos alguns edifícios de cúpula douradas à sua frente. A praça tem um triste hitória. Perto dela, há um monumento memorial que o relembra: em março de 2005 foi local do maior protesto contra o governo da revolução das tulipas. Depois de semanas de agitação por todo o país, cerca de 15 mil pessoas se reuniram para protestar contra os resultados das eleições parlamentares de 2005, defronte ao palácio. O presidente ordenou que seus solados atirassem contra os manifestantes. Duas pessoas foram mortas e mais de 100 feridas. Mesmo assim, invadiram a "casa branca" e forçaram Askar Akayev, primeiro presidente do Quirguistão, a fugir do país e demitir-se do cargo.  

 

                   O auge soviético em Bishkek está denro do curioso Museu Histórico. Ainda mais curioso e original por não ter nada escrito em inglês. DO teto ao piso o prédio é soviético até nas fundações. Grandes escadarias de mármore se abrem para a maior exposição centrada em Lenin que deve existir no planeta fora de Moscou. Tudo, de bustos a livros, cartas a artigos de jornal e exposições de fotografias a cenas de batalha e momentos vitoriosos na vida Lenin. 

  

Museu Histórico. Profusão de alegorias da Propaganda soviética

                   O Osh Bazaar, maior da cidade, é completo, o mais movimentado e complexo,  dividido em diferentes áreas, de mercado de roupas e utensílios domésticos a alimentos industrializados e horti-fruti-granjeiros.  É uma das mais curiosas atrações da cidade. Na muvuca também se vende de carne de cavalo às partes mais inusitadas do corpo bovino.

Osh Bazar. De carne de cavalo a Café Pelé

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A seguir

Trekking nas alturas - As montanhas Ala Tau

NOTA: Segurança: conflitos políticos e motins étnicos podem causar problemas, especialmente no sul do país, área não considerada segura para viajar. A capital Bishkek e o norte do país não são particularmente perigosos. Há corrupção, crimes, alguma violência e as mulheres não devem viajar desacompanhadas. As estradas são ruins, há excesso de velocidade, falta de sinalização e regras de trânsito negligenciadas. Inglês não é falado no Quirguistão. Aprender alguma coisa de russo ou quirguis é fundamental para quem viaja sem guia.  

 

Sexta-feira
Nov302012

Samarkanda e seus azuis

De TAMERLÃO a Karimov, SAMARKANDA e seus azuis

 

                 NÃO terá sido a primeira vez que alguém associa um destino a uma determinada cor. Mas talvez a última em que ela seja tão onipresente, que não desgrude um só instante da memória de um turista. Em Samarkanda é incrível a variedade dos tons de azul. São todos os azuis da paleta de cores. Onipresentes, mais que coadjuvantes, são a própria personalidade da cidade. Os azuis de Samarkanda  ali tomam um caráter especial, aplicados nas cerâmicas de meticulosos e incríveis mosaicos, nas vestimentas femininas, nos carros e até nas garrafinhas de água mineral. Mas é nas mesquitas, madrassas e mausoléus onde eles tomam sua verdadeira magnífica dimensão, as formas mais lindas e arrebatadoras, ornamentando com a classe incomparável dos estilos persa e islâmico, as mesquitas, madrassas e mausoléus da cidade. 

Detalhe dos mosaicos e cerâmicas ornamentais de Samarkanda - Mausoléus de Shahr-i-Zindar

                É assim que a cidade vive no imaginário ocidental como símbolo de beleza oriental, de mistério islâmico, de qualidade e imponência arquitetônicas. As fachadas das relíquias mais bem preservadas da Ásia Central têm nos azuis de Samarkanda seu mais perfeito complemento.

  A Praça do Registan - Samarkanda, Uzbequistão

                TAMERLÃO inventou Samarkanda. Os soviéticos a esconderam. E por trás de tudo que ocultaram por décadas, estava um grande legado histórico, um dos maiores da humanidade. De cultura, de arte e arquitetura islâmicas medievais. Um fabuloso patrimônio da humanidade que em boa parte resulta de uma história turbulenta, truculenta, por vezes sanguinária. As ambições humanas conquistadoras na Ásia Central são antigas e contemporâneas. As primeiras nasceram nas disputas pelo contrôle dos caminhos da Rota da Seda, sobretudo de seu comércio lucrativo. Mais recentemente, da expansão territorial soviética e sua busca pelas riquezas naturais da região.

                Destruída por Ghengis Khan em 1220, em seguida reconstruído no século XIV por Tamerlão, para então tornar-se o mais importante centro econômico e cultural da Ásia Central, que sofreu grave declínio econômico após o desaparecimento do comércio terrestre de leste-oeste.  Daí, de 1720 à década de 1780 foi abandonada e tornou-se desabitada. Foi apenas em 1876, após a estrada de ferro chegar a Samarkanda, que a cidade reviveu.

  

                Ambas, cada qual ao seu modo, invadiram e dominaram o que encontravam em seus caminhos. Todavia, se por um lado Tamerlão invadiu e dominou, por outro construiu cidades-fortaleza e preservou as que encontrou, sem destruí-las, ao contrário de Alexandre o Grande. Cidades incríveis floresceram e desenvolveram-se a partir das conquistas de Tamerlão, tornaram-se grandes centros agrícolas, verdadeiros oásis ao longo das antigas rotas no meio do deserto.  O tempo passou, a vida e a economia mudaram, até memo velhos costumes: nômades deixaram a difícil vida no deserto e converteram-se à vida urbana, por necessidade econômica ou atraídos pelos confortos da cidade.

                 Entre todas estas incríveis cidades, uma destacou-se, não por acaso, mas por intenção e planejamento de seu fundador: Samarkanda. Cidade das mais antigas cidades do mundo, como Tebas, Roma e Babilônia, imaginada, desenhada e construída por Tamerlão - o "Senhor da Ásia".  Descendente de alguns dos povos mais poderosos do mundo ele conquistou e ocupou uma área promissora no mundo antigo, transformou-a de lugarejo no deserto, num lugar que logo tornou-se ponto de referência no planeta, de convergência de culturas, de proliferação das artes, da ciência, do aprimoramento do conhecimento humano, da promoção das tecnologias e do islamismo. Nascia no deserto um dos exemplos mais notáveis de civilização na história da humanidade.

Madrassa de Ulugh Beg, ou Mīrzā Muhammad Tāriq ibn Shāhrukh, no Registan

                 Mais tarde, anexado à Rússia czarista em 1860, o Uzbequistão tornou-se mais uma entre as repúblicas soviéticas. Em agosto de 1991, com o colapso da URSS, tornou-se independente. A agora faz fronteira com as outras ex-soviéticas, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Afeganistão e Turcomenistão. 

                 Durante seu domínio, os soviéticos não construiram nada exemplar, como Tamerlão. Ao contrário, com o desprezo típico dos déspotas, desprezaram e proibiram quaisquer manifestações religiosas e culturais islâmicas. Inclusive artísticas.  O que fizerem foi escondê-las por 70 anos.  E exaurir a terra, secar rios e lagos, abusar do uso de defensivos agrícolas em sua tentativa de tornar o Uzbequistão o maior produtor mundial de algodão. Não conseguiram seu intento. Mas as conseqüências são visíveis.

 

                Trocando as estátuas de Marx pelas de Tamerlão e Bâbur, em dezembro de 91 Islam Karimov elegeu-se Presidente do novo país independente, devolvendo parcialmente a liberdade de expressão e cultos islâmicosao povo. Mas nada mudou tanto, soviéticamentr falando: Karimov fora Primeiro Secretário do Partido Comunista, e uma espécie de "prefeito" do Uzbequistão na era soviética.  Reeleito duas vezes, consolidou-se no poder e foi ficando, ficando, ficando... Até hoje.  Como bom ditador-democrata, mantém tudo sob controle, da mídia às atividades oposicionistas. 

           TAMERLÃO nasceu em Kash, a "cidade verde", não muito longe da atual Samarkanda, a "cidade azul". Líder nato, gênio guerreiro e estrategista, aos 21 anos partiu para conquistar o mundo. Uma após outra, suas campanhas foram vitoriosas, da Pérsia à Índia. Aos 37 seu império gigantesco ia da atual Moscou até a Grande Muralha, na China. "Senhor da Ásia", como passaram charmar-lhe, Tamerlão precisava de uma Capital tão imponente quanto seu império. Haveria ela de refletir seu poder com igual dimensão.

Uma das estátuas de Tamerlão, em Tashkent

              Com Samarkanda então imaginada, Tamerlão seguiu para torná-la realidade: reuniu os melhores artistas e artesãos que pôde encontrar e os trouxe para construir a nova cidade. E o que eles desenharam a partir dos sonhos de Tamerlão não foi apenas persa, nem só indiano, ou mesmo chinês. Projetaram, e contruíram uma cidade nova emtodos os sentidos, da concepção à deslumbrante aparência . Embelezaram-na com os edifícios mais incríveis, nas dimensões e na arte. Cobriram-nos com milhões de peças de cerâmica azuis, de todos os tons azuis, que ainda hoje dão à cidade seu mais distinto caráter, sua mais franca personalidade. Tanto quanto quem não a conhece pode imagjnar, ou quem a visita pode constatar.

                 Alguns dizem que Tamerlão era cruel. Outros defendem sua memória afirmando que não ele, mas seu exército fora assim. Todavia, a característica pela qual Tamerlão tornou-se conhecido - e temido - foi justamente a crueldade com que tratava os povos conquistados: assassinava crianças, empilhava seus crânios em montes do lado de fora da cidade e cimentava corpos dentro de paredes.

                Em janeiro de 1405, quando morreu, aos 68 anos, encontrava-se em plena campanha, talvez sua maior aventura: acompanhado de 200.000 homens, queria abrir caminho através da Grande muralha da China e conquistá-la. Todavia, a 640 quilômetros de Samarkanda, Tamerlão adoeceu e morreu, sem retornar à sua cidade. Seu corpo então foi lavado, perfumado com água de rosas, almíscar e cânfora, colocado num caixão decorado com pérolas e pedras preciosas e despachado ànoite para o regresso à sua Samarkanda.

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               SAMARKANDA

             Todo clichê é pouco para definir Samarkanda. "Peróla do Oriente", "Jardim da Alma", "Jóia do Islã", "Espelho do Mundo"... Não os faltam, nem nem aos adjetivos. Ela era tão imponente que até se justificam. Alexandre, o Grande a conquistou e viu pela primeira vez, exclamou: "ouvi dizer que era bonita, mas nunca pensei que poderia ser tão bela e majestosa". E poupou-a da destruição, diferente do que fez com tantas outras. E ainda hoje Samarkanda provoca os mesmos efeitos a quem tem o privilégio de conhecê-la: encantamento e admiração. 

                SAMARKANDA tem uma preciosidade histórica e arquitetônica que exige do visitante leitura e preparo para conhecê-las. Ao menos superficialmente, é preciso saber, por exemplo, que a segunda maior cidade do Uzbequistão, a mais central da Rota da Seda, foi um importantísismo centro cultural islâmico no século 14, sede do império de Tamerlão e a cidade onde ficam as mais notáveis obras primas da arquitetura persa fora do Irã. Que a histórica cidade ilustra em sua arte, arquitetura e estrutura urbana as fases mais importantes da Ásia Central em sua história cultural e política, do século XIII até os dias atuais. E que a arquitetura e a paisagem urbana de Samarkanda, uma cidade situada bem no cruzamento de culturas antigas - do Mediterrâneo à China, são as maiores obras-primas da criatividade islâmica em sua soberba expressão artística e cultural. Não será tão proveitosa a visita a Samarkanda sem conhecer um pouco de sua história e a de seu criador. Preparados, fomos de trem de Bukhara a Samarkanda.

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De Bukhara a Samarkanda - Uma "aventura" ferroviária

                Colocamos nosso Lonely Planet nas mãos e seguimos uma de suas mais certeiras recomendações: viajamos de trem de Bukhara a Samarkanda, uma das cidades mais incríveis do mundo, nossacúltima parada no Uzbequistão antes de seguirmos para o Quirguistão. Quase três horas nos separavam de nossa tão esperada visita, o ápice da viagem à Ásia Central.

Madrassa Sherdar - Registan, Samarkanda


                  E se há poucas cidades verdadeiramente turísticas no mundo de onde não se trazem souvenirs na bagagem, mas impressões na memória e milhões bytes de fotografias deslumbrantes no HD, Samarkanda é uma delas. Diante do Registan, foto acima, senti o mesmo impacto que outras capitais do Islã provocam, Damasco e Istambul mais especialmente. Samarkanda brilha, e toca corações e mentes como se fosse de contos, de um modo estranho, como se não fosse real.

                 Trocamos o planejado pelo inesperado: uma entediante e cansativa viagem de cinco horas de carro por algo bem mais agradável, civilizado e divertido, uma viagem de trem. E por apenas duas horas e quarenta e cinco minutos. Compramos os bilhetes numa agência especializada em bilhetes ferroviários. Custaram o equivalente a 8 dólares por pessoa. Na classe mais simples. Mas no trem expresso. Havia duas outras alternativas - executiva e primeira -, e outras opções de horários diurnos e noturno, alguns gastando o dobro do tempo.

                  Não foi tão simples comprar as passagens para nossa “aventura ferroviária”. Fácil, mas não simples. Não fosse a imprescindível ajuda de nossa guia em Bukhara, talvez não conseguíssemos compreender o atendente, a tabela de preços, as opções de trens e horários, tudo falado e escrito em uzbeque. Ou russo. Inclusive os bilhetes.

                  Com dois bilhetes em mãos, no dia seguinte saímos do hotel às sete da manhã para tomar o trem das oito. Fomos à estação de Bukhara, a cerca 9 km da cidade, noutro município, o vizinho Kagan. Após passarmos por 3 sessões de raio x e verificações de passaporte e bilhetes - a primeira do lado de fora da estação, ainda no portão do estacionamento, a próxima ao entrarmos no saguão principal do terminal e o terceiro ao sairmos da sala de espera para a plataforma de embarque.

  

                  O trem chama-se Sharq, ou Meio Oriente. É simples mas civilizado. São 10 vagões com 56 assentos cada. A cor da composição não poderia ser outra: um bonito azul turquesa no exterior, um feioso cinza soviético-metálico no interior. Sombrio, mas com assentos estofados e relativamente confortáveis. Em cada vagão há um televisor preso ao teto. A programação não poderia ser pior: filmes e novelas uzbeques. Divertida, a viagem de trem foi surpreendentemente confortável. Especialmente para quem esperava daquela categoria “econômica” uns bancos de madeira em vez das poltronas estofadas, espaçosas e reclináveis. Contar com uma mesinha de metal no encosto do banco da frente seria um sonho impossível, mas foi nela que escrevi em meu notebook boa parte deste relato. A “trilha sonora” de minha doce Emília vinha do seu amplo, eclético (e ótimo!) repertório no iPod. Vez por outra o compartilhava comigo. Um fone pra lá, outro pra cá. 

                   Mas o que me embalava era o típico ruído de trens correndo sobre os trilhos: o tec-te tlec... tec-te tlec... tec-te tlec das rodas marcando as emendas dos trilhos. E vez por outra o guincho de ferro roçando ferro, as rodas nos trilhos rangendo nas curvas. Ao fundo eu ouvia os diálogos das novela e filmes uzbeques que passavam na TV. De LCD. Durante as 2:45 h da tranquila e agradável viagem o trem fez apenas uma parada, em Navoy, cidade de onde saem outras composições para o norte do país. Afinal, este era o Sharq expresso.

Chegando a Samarkanda, a Estação fica numa bela praça, com ótimas opções de transportes

                   Em minha única tentativa de trocar umas palavras com um funcionário enquanto procurava um banheiro não obtive sucesso. Mas ainda acho que qualquer um é exce­lente pre­texto para um turista inde­pen­dente começar uma con­versa com um local. No percurso, vendedores de revistas e jornais (em usbeque) e refrigerantes passam esporadicamente oferecendo seus produtos.

  

                   E assim chegamos em Samarkanda, desembarcamos em sua ótima estação de trens, concluindo aquela deliciosa “aventura” ferroviária. Chegando lá, há muitas opções para ir ao seu hotel: ônibus, taxi e a pé, se for pertinho...

 

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SAMARKANDA e todos os seus tons de azul

                 Não são azuis apenas seus domos. São de todos os seus tons - do cobalto ao turqueza, do claro ao profundo. Em tudo e por toda a cidade. Sempre há azuis. Parecem vazar para as roupas e tudo mais todos os azuis de Samarkanda. E espalham-se em todos os seus tons conhecidos.

   

                 Dos mais escuros aos azuis-pastel, dos foscos aos brilhantes como o que se encontram no céu, nos azuis das piscinas, nos mares índicos e nos rios e algumas lagoas mais límpidos.  São todos uns azuis lindos, assombrosamente lindos, ainda mais lindos quando combinados. E estão em tudo. E são mais assombrosos quando nos minuciosos padrões decorativos intrincados, um triunfo dos ceramistas dos séculos XIV e XV. Vindos de Shiraz, Isfahan e Herat, eles realizaram um dos esmaltes mais incrivelmente finos, radiantes e resistentes ao frio, calor, sol e chuva. E sem perderem seu brilho.

  

                  Depois de Khiva e Bukhara, não me ocorria imaginar ainda me surpreender com alguma cidade ou monumento na Ásia Central. Até chegar em Samarkanda. Mas ao ver as cúpulas azuis de Samarkanda, lembrei-me das palavras de um poeta, que ao deparar-se com o Mausoléu de Gur Emir, afirmou que “se o firmamento desaparecesse, a cúpula do mausoléu de Gur Emir o substituiria”.

   

se o firmamento desaparecesse, a cúpula do mausoléu de Gur Emir o substituiria

Mausoléu de Gur Emir 

                 E então, naquela nossa primeira manhã em Samarkanda, em nossa visita aos monumentos medievais da cidade, ao me deparar com o mausoléu, percebi que não exagerou nas palavras o poeta, senão desceveu sua romântica, e justa, admiração.

                São chocantes os resultados do processo de reconstrução dos monumentos do Uzbequistão, notáveis e em grande escala, levados a cabo nos anos de independência do país. Buscou-se a modernidade a qualquer custo. Discutível, ela mudou a face e a personalidade de uma das cidades mais belas do mundo. Transformou-a em algo irreconhecível. Bem maior, mais moderna e agitada que as duas primeiras, assim como Tashkent, todavia perdeu sua identidade. Na capital explica-se. O terremoto arrasador não deixou pedra sobre pedra, oportunidade para os urbanistas e arquitetos soviéticos reconstruírem-na segundo as convicções estéticas bolcheviques. 

                 Mas em Samarkanda todavia, passou-se algo muito mais dramático, mais recente e desprezível, depois da independência do pais: um processo em que o Presidente Islam Karimov e sua sanha modernista de transformar em novo um admirável mundo velho, destruir o antigo original, ainda que sem caráter histórico, substituindo-o pela modernidade, linhas gratuitas e ocidentais, por vezes extremamente kitsch.

              Tudo ficou parecendo mais uma rua de subúrbio norte-americano do que de uma antiga cidade da Rota da Seda. Bem perto da Mesquita de Bibi-Hanim e dos Mausoleus de Shah-i-Zinda, toda aquela modernidade desproposital que parecia muito mais fruto de devaneios modernitas de um presidente do que revitalização que toda cidade antiga precisa.

  Derrubaram-se antigos hammans em nome da modernidade ....

                  E assim acabou-se com uma atmosfera das mais típicas da Ásia central, de uma das cidades mais importante da Rota da Seda. Não se encontra mais a atmosfera das “mil e uma noites” em Samarkanda, como ainda resiste bravamente em Khiva e Bukhara. A cidade foi domi­nada pelo desejo desgraçado pela modernidade. Também foram feitas adaptações, digamos exóticas, dos resquícios soviéticos, na forma de concreto e alvenaria que tenta apagar o pas­sado opres­sivo.  Cobriram-se com painéis publi­ci­tá­rios de produtos mul­ti­na­ci­o­nais algumas fachadas e painéis. 

                 Nos monumentos antigos, mestres modernos restauraram as ruínas do complexo Bibi Hanum - dos séculos IX a XV - em 2003, assim como o complexo de Shahi Zinda -dos séculos IX a XV - em 2005. No entanto, os construtores simplesmente revestiram as partes desintegradas das respectivas fachada com mosaicos novos, substituíram por novos tijolos cerâmicos os velhos e rústicos de barro queimado. Como resultado, as novas criações ainda são bastante imponentes e impressionantes, mas agora não mais do ponto de vista de um verdadeiro patrimônio cultural da humanidade, senão em termos de tamanho e beleza.

  ... e por trás das construções modernas ficaram escondidos bairros residenciais antigos e autênticos

                Samarkanda já tinha importância comercial nos tempos medievais, na época, devido à sua localização, cruzamento das rotas de comércio entre a China e a Índia. Com a chegada da ferrovia, em 1896, tornou-se um importante centro para a exportação de vinho, de frutas secas e frescas (incríveis!), de algodão, arroz, seda e couro. Praticamente baseada na agricultura, sua economia depende da fiação e tecelagem de seda, da produção de conservas de frutas e de vinho, mas também na confecção de vestuário, de couro, calçado e tabaco. Fabricação de peças de trator e automóveis também é economicamente importante.

 

 "Dos escuros aos azuis-pastel, dos foscos aos brilhantes, como o que se encontram no céu, nas piscinas, nos mares índicos, nos rios e algumas lagoas límpidas.  São todos azuis lindos, assombrosamente lindos, ainda mais lindos quando combinados e aplicados na cerâmica

                 Há muitos lugares no mundo que inconscientemente guiam nossos pensamentos para um mundo de fantasias, de príncipes e princesas, de sonhos, de contos românticos orientais, de histórias das Mil e Uma Noites. Mas raras foram as que me trouxeram essa sensações, tais como em Bukhara, Khiva e, agora, Samarkanda. Incomparável. Consegue ser grandiosa e singela ao memo tempo. E tem simplesmente mais de 25 séculos, mesma idade de Roma, Atenas e Babilônia. 

               As construções de Tamerlão e seus filhos em Samarkanda têm uma escala estupenda, nas dimensões e na importância. Foram tão ousadas quanto geniais, divulgaram como nenhuma outra as característica distintivas da arquitetura timúrida. A Mesquita Bibi Khanum, construída  entre 1399 e 1404, por exemplo, comemora a esposa de Tamerlão, do outro lado da estrada principal que leva da cidade velha de Afrasiab ao centro da cidade, o Registan.  Um cronista da época relatou que Tamerlão trouxe arquitetos do Irã e da Índia para o projeto, e teria usado noventa e cinco elefantes para transportar o material de sua construção. 

  

                    Mas a cidade tem uma incrível coleção de monumentos antigos que vão bem além da Bibi Khanum. As cúpulas turquesas de Samarkand, por exemplo, estão entre algumas das mais evocativas do mundo islâmico, verdadeiros símbolos arquitetônicos, obras primas de engenharia, arquitetura e ornamentação islâmicas medievais.  São marcos. Da história da humanidade.Sua escala estupenda foi uma ousada estratégia de declaração pública de poder, além de uma característica que distingue a arquitetura timúrida. Trabalho de arquitetos trazidos de Shiraz, Irã, suas madrassas são quase únicas na arquitetura islâmica, pois têm representações de imagens vivas em suas fachadas de mosaicos, extremamente incomuns na arquitetura islâmica, já que a representação de seres vivos é considerada idolatria. Apesar da proibição, a escola corânica da Praça Registan tem no seu magnífico portal incríveis cenas de caça  decorando os incríveis, imponentes arcos voltados para a praça. Mas também são fabulosos os ornamentos geométricos, assim como os enormes minaretes em ambos os lados. O conjunto é um exemplo perfeito de equilíbrio na composição, comparável em harmonia e grandeza ao Taj Mahal.

Uma das espetaculares madrassas do Registan 

                 A planta do período medieval ainda é preservada, com ruas que convergem à cidade antiga, onde estão simplesmente alguns dos principais monumentos da arquitetura persa na ásia Central, desde o século 14, com vários edifícios que datam da época em Samarkanda foi a Capital do império de Tamerlão. Os destaques da cidade são a Praça do Registan, com seus exemplos monumentais de arte islâmica - a Madrassa de Ulugh Beg e a Porta do Leão -, o complexo de mausoléus de Shah-i-Zinda, o curioso Observatório de Ulugh Beg, as ruínas da muralha de Afrosiab, o Mausoléu de Gur-e Amir e a Mesquita de Bibi-Khanym. A Mesquita de Bībī-Khānom, foi terminada em1404, encomendada pela esposa chinesa, e favorita, de Tamerlão. O seu próprio Mausoléu, chamado  Gūr-e Amīr, foi construído em 1405, cujo espetacular interior atual é da segunda metade do século XV, pertencente ao túmulo de Ak Saray, com um dos mais magníficos afrescos islâmicos que já tive o privilégio de conhecer. Notável.

 

Portas se abrem para pátios, madrassas e mesquitas...

 

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O Rīgestān

O caro ingresso para o complexo e o melhor cenário para fotos de casamento


                 Mais misterioso do que pirâmides egípcias, mais atmosférico que o Marrocos, mais incrivelmente ornamentado que o Topkapi, o complexo do Registan é uma maravilha arquitetônica emocionante. Ao menos para os apreciadoras da arquiterura e ornamentação. Mais do que um dos pontos turísticos mais comoventes de toda a Ásia Central, é um dos grandes momentos da arte islâmica no mundo. O conjunto é composto por três madrassas: Ulugbek, do século XV, Sher-Dor, do século XVII, e Tilla-Kari, também do século XVII.

 

                   Aqui os visitantes podem explorar arquitetura persa maravilhosamente restaurada e perder-se nos mausoléus, madrassas, mesquitas e minaretes que cintilam com mosaicos de cerâmica azul característica do Uzbequistão. Cada monumento é surpreendente, mas o conjunto de cúpulas, mosaicos, graciosos arcos ogivais azuis são incrivelmente harmônicos, revelam elevado valor arqutetônico, além de nos conduzirem com sua atmosfera incrível por uma viagem no tempo, séculos atrás.

                  Trabalhos recentes têm restaurado o Rigestan tentando devolver-lhe seu esplendor original, aquele descrito por Lord Curzon como "A praça mais nobre do mundo". Cercada em três lados por madrassas e mesquitas, com um alto minarete de cada lado, um dos lado é aberto, para que todos possam admirar a beleza dos três outros, numa distância que permita ao observador mirar o conjunto. De um lado fica a Madrassa Shirdar, nomeado por causa de seu portal gigante decorado com um tigre e uma gazela, vistas melhor sob a incidência dos raios do sol nascente. No segundo lado fica a Madrassa Tilakari, ou madrassa dourada, devido à quantidade de ouro usada entre os azuis de seus azulejos. E o terceiro lado é o da Madrassa de Ulugh Beg, o astrólogo de Samarkanda, neto de Tamerlão. Como seria de se esperar, sua fachada é decorada com padrões de estrelas enormes.

"Triumfo" - Pintura de Vasily Vereshchagin, retratando a Madrasah Sher-Dor, no Registan, em 1872.

                  O Rīgestān, ou Registan, é uma praça. Pública como todas. Mas impressionante como nenhuma. Nela o impressionante conjunto de madrassas que serviram a Tamerlão, a Ulūgh Beg (1417–20), a Shirdar (1619–163536) e a Tilakari (meados do século XVII), emolduram o espaço em três lados, deixando um livre para os olhos dos visitantes admirarem o conjunto de longe. A beleza imponente do Registan é indescritível por escritores menores. Brilhantemente restaurado, é tão grandioso quanto o Taj Mahal, uma das obras primas da arquitetura. Ao mesmo tempo é enorme na simplicidade, ainda que gigantesca na imponência. Uma festa para os olhos, que fixam-se admirando a intrincada decoração persa, alguns tentando contabilizar os tons de azul. Deve haver todos os da paleta de cores. E são os azuis, que depois das dimensões espetaculares e da arquitetura deslumbrante, fazem o peito dos encantados visitantes suspirar.


                 É impossível descrevê-lo fazendo-lhe plena justiça. Diante de sua magnífica beleza e incrível história é fácil lembrar-se dos versos de Omar Khayyam, o poeta, astrônomo e filósofo persa. E de Tamerlão, seu autor, auto-denominado “conquistador do mundo”. Nobre turcomano, nascido em família nômade durante o declínio do império de Genghis Khan, começou seu poder ainda nas tribos das estepes. Conquistou terras, fez um grande império que ocupou a maior parte da Ásia Central, do Afeganistão, do Paquistão, do Irã, do Iraque e do Cáucaso. Sua capital não poderia ter menor imponência. Assim determinou fixar-se em Samarkanda, para onde Tamerlão levou a maior e mais prestigiosa trupe de intelectuais e artesãos que se tem notícias na história da humanidade naquela época. Conseguiram realizar os devaneios de Tamerlão: tornaram a cidade uma das mais bonitas do mundo.

  A geometria na ornamentação arquitetônica islâmica


                 A geometria e a ornamentação na arquitetura islâmica sempre me encantaram. Mas os padrões uzbeques, incrivelmente lindos, me arrebataram. Diferentes do estilo otomano de Istambul e daqueles que encontraramos em países do Norte de África, se não estivessem ali, se não fossem história, eu não acreditaria. Como podem ter sido feitos aqueles complexos desenhos, tão elaboradamente simétricos, com tal precisão e perfeição, há mais de 500 anos, sem as ferramentas modernas? 

 Geometria e ornamentação nas inovadoras cúpulas de Samarkanda


                Uma das características mais inovadoras e impressionantes das cúpulas de Samarkanda, da arquitetura timúrida, não pode ser vista por fora. É no interior que revela-se a engenhosidade arquitetônica para conectar as conchas e proporcionar-lhes estabilidade. Elas tendiam a ser duplas, ou até mesmo tripla. As abóbadas apoiavam as cúpulas de baixo, um complexo modo estrutural, decorado com estalactite islâmica tradicional, ou muqarnas.

Dentro das madrassas, o ótimo artesanato usbeque

                 Após a praça Registan, o próximo local mais conhecido em Samarkanda é o Mausoléu Gur-e-Amir. Majestoso nas formas arquitetônicas e nos desenhos dos mosaicos colorido, o que tornam o monumento exemplar inigualável da arquitetura medieval. Ele se destaca pela famosa cúpula azul com nervuras que se avista sobre os telhados do centro de Samarkanda. Uma laje maciça de jade verde, no qual Tamerão foi colocado, é o maior pedaço de jade no mundo. No túmulo estão Tarmelão, dois filhos e dois netos. O enorme Mausoléu Gur-e-Amir é de uma simetria perfeita e magistral, tão rara e equilibrada quando a to Taj Mahal, o mausoléu indiano de Agra, notável por seu equilíbrio e simetria.  A cúpula central e a entrada arqueada são ladeadas por minaretes da espelhados.

                 Concluído no século XV, quando Amir morreu, cem anos depois foi inteiramente restaurado e tornou-se mais um entre os tantos patrimônios da humanidade nesta parte do mundo. Há uma história curiosa por trás deste mausoléu. Simplesmente incrível, conta que em 1941 os restos de Tamerlão foram exumados a fim de verificarem sua autenticidade. De acordo com o que escrito na pedra do caixão, "será punido aquele que infringir o preceito de Tamerlão. Uma terrível guerra vai eclodir em todo o mundo." No dia 22 de junho de 1941, apenas três dias após a exumação, forças alemãs atacaram a União Soviética, numa das mais sangrentas batalhas da II Guerra Mundial. Foi a maldição por interromperem seu descanso eterno.

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Mesquita de Bibi-Khanym


                 Outra obra maravilhosa é a gigantesca mesquita de Bibi-Khanym, inciada pela esposa chinesa de Tamerlão, Bibi-Khanym, enquanto ele estava em campanha na Índia. Uma lenda conta que o arquiteto apaixonou-se por ela e se recusou a concluir o prédio até que ela lhe desse um beijo. O beijo foi dado, mas não ficou em segredo. Ao retornar, Tamerlão ordenou a morte de ambos. A cúpula da câmara principal vai a 40 metros.

Mesquita de Bibi-Khanym

              A construção foi concluída em 1404 e por alguns anos foi a mais proeminente de Samakanda. No entanto, lentamente caiu em desuso, razão porque encontra-se em ruínas, por séculos de abandono. A sua sina foi ter sido construída muito rapidamente, tendo-se esquecido das técnicas de construção da época, o que a tornou frágil.

               Mesmo em ruínas, a grande mesquita de Bibi Khanum - única no mundo com oito minaretes - ainda supera em magnitude todas as demais de Samarkanda. Tudo o que resta é um grande arco, as bases de dois minaretes cravejados de azulejos emmosaicos azuis e brancos, uma vasta cúpula em tons de azul turquesa, quebrada por um tiro de canhão russo durante a batalha de Samarkanda, em 1868. Já descrita como a mais bela ruína muçumana em todo o mundo, é incrível observá-la e pensar que sua dimensão colossal foi construída sod o solo fraco da areia do deserto sem o uso de aço ou concreto.

 

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           Mercado Municipal

            O contraste é perfeito, a vizinhança ideal. Depois da Mesquita de Bibi Khanum, bem ao lado fica o Bazar de Samarkanda. Longe de ser uma uma atração turística, muitos acabam visitando-o porque é interessante e conhece-se um pouco da cotidiana da cidade.

Depois das pessoas, a melhor atração do bazar de Samarkanda são as frutas...

        Há de quase tudo: frutas e legumes, ervas e especiarias, pães variados,  doces coloridos, vassouras e artigos domésticos. Para além de um grande prazer visual e um saboroso experimentar de frutas deliciosas, as pessoas estarão ansiosas para cumprimentar-nos, gostam de posar para fotos.

  

          O movimentado mercado municipal é todavia mais interessante no setor de frutas, completo e repleto de melões, romãs, figos, ameixas e uvas púrpuras, verdes, rosas e pretas. Em sua época, foi chamado por Lord Curzon como "Jardim do Éden de Samarkanda". Apesar de suas indústrias, Samarkanda ainda parece ser mesmo uma cidade-oásis em meio ao vasto deserto, abastecida pelo Rio Zeravshan, cujas águas fluem quando derrete neve e geleiras das montanhas Celestian, a 320 quilômetros da cidade.

 Uma representação de época do Bazar de Samarkanda com a Mesquita de Bibi Khanum

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Mausoléus de Shah-i-Zinda

                  Antes de Samarkanda havia Afrosiab, fundada pelos sogdianos, que apesar da forte presença na Ásia Central por 1800 anos, muito de seus vestígios foram apagados e por séculos ficaram escondidos sob a terra e a grama, até arqueólogos russos iniciarem escavações na colina Afrosiab, revelando os segredos. E em nosso último dia em Samarkanda visitamos o antigo cemitério situado na colina chamada Afrasiab.

 

O Portal de Shah-i-Zinda


                 Eu desconhecia o aglomerado de pequenas cúpulas e fachadas turquesas do complexo de incríveis mausoléus Shah-i-Zinda. Depois da visita, tornou-se a segunda atração de Samarkanda que mais gostei. A rua de mausoléus existe desde o século XI. Ali Tamerlão construiu o seu próprio, onde seriam sepultados, além dele, sua família e amigos. São lindíssimos, por dentro e por fora. Muitos com suas pequenas mesquitas particulares. Foram construídos em ambos os lados de uma travessa estreita, cuja perspectiva é notável.

Shah-i-Zinda, um cânion de mausoléus e túmulos espetaculares

               No de Tamerlão ficam as tumbas dele próprio, de sua irmã, de um tio, seu filho, sua primeira esposa e seu amigo e tutor. Cada túmulo é como uma pequena casa com um pátio interno revestido em azulejos azuis. Sempre os azuis. Todos os azuis que se conhecem.

 

                 Um local fascinante. Um dos mais interessantes de Samarkanda. Shah-i-Zinda é um enorme complexo funerário no Vale de Zarafshan, na periferia da cidade velha.  É chamada "rua dos mortos", não sem motivos: são mausoléus e túmulos, nada mais. Todos cobertos pela sempre bonita cerâmica em mosaicos ornamentais nos tons predominantes e onipresentes da cidade: os azuis. Ainda que o Registan seja seu destaque, de maneira nenhuma esquecerei deste que foi um dos lugares mais marcantes de toda nossa viagem.

                  É considerado o mais importante santuário muçulmano da região, para além de complexo composto por dúzias de pequenas mesquitas e mausóléus. A maioria é dos anos 1360 a meados do século seguinte. Há obras de renovação contínuas, algumas bem recentes, o que torna por vezes difícil ver os detalhes originais.

Shah-i-Zinda. Túmulos e mausoléus. Dos mais belos que se podem ver

                 A parte mais antiga do complexo fica na extremidade norte, dentro dos muros da Cidadela de Afrosiab, que aparentemente era uma área residencial. O núcleo mais antigo de Samarkanda situa-se nesta colina de Afrasiab, dizem os estudiosos. Foi ali que um povoado surgiu no início do século VII, ocupando uma área de cerca de 200 hectares. A cidade foi cercada por um muro enorme, e alguns atribuem o local como a antiga capital sogdiana. O limite norte do complexo de túmulos foi um canal de irrigação, ao longo do qual ficavam as oficinas dos ceramistas, nos séculos XIII e XIV.

   Por fora e por dentro, os mausoléus de Shah-i-Zinda expressam o ápice da beleza

e da técnica aplicadas na ornamentação em mosaicos cerâmicos


                Como as tumbas do complexo foram crescendo, ele estendeu-se ao sul, além dos muros. O portão de entrada atual, construído por Ulugh Beg no século XV, fica bem ao nível da rua, é a parte mais baixa do complexo. Uma escada e alguns planos levam ao conjunto, composto por três grupos de estruturas: inferior, médio e superior. Todos são ligados por passagens em arcos abobadados, que aqui chamam-se chartak. O primeiro mausoléu é do século 11, mas há um grupo dos séculos 14 a 15 e construções dos séculos 16 a 19, que todavia não chegam a compremeter a composição geral e como deveria ser sua aparência original. 

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O curioso Observatório de Ulugh Beg

As instalações do Sextante e o Museu ao fundo

                 Ulugh Beg queria observar as estrelas, seguir seus cursos, especialmente observando o céu noturno limpo e claro do deserto de Karakum. E assim imaginou um observatório. E acabou transformando Samarkanda num centro de ciência e arte, fez um dos primeiros mapas astronômicos do mundo usado até por astrólogos chineses.

                 O observatório de Ulugh Beg foi construído no século XV. Extremamente curioso, mesmo que sobre tão pouco de seu original, foi o primeiro do oriente, e tem um incrível sextante de 30 metros construído para fazer mapas astronômicos precisos. Na falta de telescópios, ele obteve sua precisão de observações astronômicas através de seu sextante gigantesco, um Sextante de Fakhri.

  

Cenas de um casamento e Ulugh Beg. Ainda inspirando em Samarkanda

                 Então equipado com os melhores instrumentos da era, que incluíam o sextante feito de mármore, usado para calcular a inclinação eclíptica no Equador, os pontos do equinócio, o comprimento do ano tropical e outras constantes astronômicas medidas pela observação solar, foram encobertos por anos, revelados após escavações. 

                                                                                              

Em 1437, quase um século antes de Copérnico, Ulugh Beg mediu o comprimento do ano solar em 365 dias 5 horas 49 minutos e 15 segundos, com um erro de 25s, mais preciso que a estimativa de Copérnico, cujo erro era de 30s. Em 1437 ele publicou sua obra mais famosa: um catálogo de 992 estrelas, chamado Zidj-i Djadid Sultani. As posições e magnitudes das estrelas observadas por Ptolomeu foram contestadas por Ulugh Beg, que encontrou muitos erros nos cálculos daquele autor.  

                 Ulugh Beg era genial, determinou em seguida, os ângulos das inclinações axiais da terra, valores aceitos até hoje. Ulugh Beg estava mais interessado no estudo da matemática e da astronomia do que em guerras brutais.

  Base do enorme sextante do Observatório de Ulugh Beg

                 Transformou Samarkanda num centro cultural da Ásia Central. Construiu uma madrassa na Praça Registan, seu enorme observatório e deixou grandes avanços intelectuais e culturais: contribui com temas como trigonometria e geometria esférica e deu palestras sobre matemática e astronomia até a sua morte.

                 O Observatório foi destruído depois de sua morte e localizado tempos depois por arqueólogos russos. Perto do histórico Afrosiab agora o observatório é um museu repleto de astrolábios, livros, artigos e fotos de sua vida.  Embaixo há uma estátua de Ulugh Beg, enquadrada num contexto da Via Láctea e de estrelas. 

 

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Samarkanda, além do óbvio

                  

                 Depois do indispensável, incrível e imperdível óbvio turístico, o visitante precisa ir além das Samarkanda de Tamerlão e de Lenin, deixar a parte moderna, afastar-se dos tempos soviéticos e das ruas laras e de tráfego intenso, se quiser entrar num labirinto de ruas estreitas, limpas, suburbanas e simples, com seu jeito humilde e próprio de ser.

 

                Ali um visitante sentirá uma atmosfera diferente da que respirou até então da cidade. Não aquela magnifica e impactante, de tirar o fôlego, na Praça do Registan. Só então poderá viver os mais doces, indescritiveis e inesquecíveis momentos de suaestada, como foram nossos 45 minutos de caminhada por onde turistas quase não vão. Não é nada turístico, e ali conhecemos uma doçura que já não existe, uma simpatia que já não se encontra, uma receptividade que ainda toca, uma generosidade que arrebata.

 

  Cerveja usbeque, shashliks e uma caminhada pelas ruas de trás: combinação mais-que-perfeita

               Ali vimos gente em sua atividade rotineira, tocando seu comércio, varrendo suas calçadas, reformando suas fachadas, comemorando um nascimento, orando, papeando, assando shashliks na calçada, carregando o almoço....

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A seguir

Quirguistão – A Suíça da Ásia Central


Quinta-feira
Nov222012

Mianmar e viagens - Um baú de motivos para escrever e inspirar

                TODA viagem é um bom motivo para escrever. Sobretudo quando é para motivar o leitor a viajar e inspirá-lo a conhecer um destino que visitei.  Mas há algumas viagens diferentes.  São verdadeiramente especiais, baús repletos de motivos, as que excedem até mesmo os dois objetivos fundamentais deste blog: inspirar e motivar o leitor. Elas me conduzem à leitura e à pesquisa como poucas, e acessoriamente promovem meu próprio auto-conhecimento e minha felicidade. Foi assim com a Índia. E igualmente considero Mianmar um “destino-privilégio”, ou "destino necessário" que todo bom viajante deve desejar e conhecer. Também desejando Mianmar fui conduzido às melhores reflexões, mergulhei nas pesquisas para poder planejar uma viagem ao destino.

                Assim, para aprender como viajar ao país e escrever sobre ele, a primeira pérola que encontrei foi a Lonely Planet Magazine de janeiro de 2012, cuja edição apresentava o destino como "um dos melhores lugares para visitar em 2013". As 14 páginas da matéria fartamente ilustrada, cujo título era "Fora das sombras: um novo amanhecer na Birmânia", tornaram-se minha primeira viagem virtual ao país. Logo depois encontrei a edição 129 da revista Volta ao Mundo, de julho de 2005, que guardava entre as outras mais antigas. A matéria de capa daquela edição era "Birmânia, a viagem de uma vida". Para nos aprofundarmos na pesquisa e na leitura fomos à Livraria Argumento, no Rio de Janeiro, e compramos o guia Burma - The alternative Guide, da Thames & Hudson, e o Lonely Planet Myanmar (Burma) Travel Guide (Country Travel Guide).

                  Falando de "felicidade", sei bem que cada qual tem sua receita para encontrá-la. São como as manias, cada um tem as suas. Não fujo à regra. Mas como me faltam talento e conhecimento para escrever um "manual literário-filosófico" sobre "como ser feliz em viagens" e eu tenha de sobra o reconhecimento de que meus leitores não precisam dessas filosofias amadoras, dispenso-os de lerem minhas reflexões sobre o tema aqui, ainda que ele me agrade bastante, e que alcançar a felicidade em viagens seja a meta. Estou convicto de que não a encontra um turista que fotografa um monumento sem saber seu significado, não prova a comida local, que não frequenta lugares além dos turísticos, não conhece minimamente sua história, que não se mistura ao povo e sobretudo desrespeita e incomoda-se com suas tradições. Ao contrário, um bom viajante, aquele que é feliz vajando, informa-se, reconhece que para saber olhar é preciso aprender, que necessita abrir a mente para compreender, experimentar para ter opinião, respeitar as diferenças para não se aborrecer com elas. Felicidade em viagem não se alcança apenas indo, mas preparando-se para ir

                 Por este motivo encontro muitas razões para escrever algo útil e inspirador sobre Mianmar. E caso o leitor queira ir além, aprofundar-se no assunto "A Arte da Viagem", recomendo a boa literatura escrita por quem sabe escrever sobre o tema. Entre eles (mas a eles não me restrinjo) destaco Haroldo Castro, Alain de Boton, Bruce Chatwin, Paul Bowles, Paul Theroux, Jack Kerouac, Bill Bryson, Gonçalo Cadilhe, Gustave Flaubert, Edward Hopper, Baudelaire, Van Gogh, George Orwel, Charles Dickens, Ernest Hemingway e Marcopolo. São os exemplos que me ocorrem de bons viajantes inveterados e escritores exemplares que sabem como relata e retratar suas aventuras, experiências e saberes em suas ótimas respectivas obras literárias.

                Aqui, no Fatos & Fotos de Viagens, compartilharei nossa experiência e impressões sobre o país numa série que começo a escrever mesmo antes de viajar, intitulada "Mianmar ou Birmânia? O prazer de conhecer".

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Mianmar ou Birmânia? O prazer de conhecer

                  "Birmânia" evoca as melhores imagens de pagodes reluzentes. " Mianmar ", o regime totalitário e despótico. Seja lá como for, é o país que exerce curiosidade e atrai a atenção do mundo. Fechado e mantido por décadas em segredo, começa a abrir-se para o turismo, tornando-se bem mais fáci conhecê-lo. Longe de ser um país para "férias padrão", senão para turistas experientes e que se sujeitam a dificuldades e desconfortos, que conseguem enxergar além destes, todavia é um destino de recompensas inevitáveis. Se há poucos países para um turista viver experiências da descoberta, Mianmar encabeça a lista. Sobram assuntos relacionados às questões políticas do país. Governado por uma junta militar ditatorial há 23 anos, regime notório por empregar força repressiva exagerada às mais pacíficas manifestações de liberdade, tudo torna-se complexo avaliar no país, até mesmo quando nos referimos ao seu nome e de sua Capital. Birmânia ou Mianmar? Rangoon ou Yangon? Qual usar? Ainda que a questão pareça simples, não é. Tudo no país é complexo, e até no seu nome divergem linguistas e juristas tentando resgatar termos banidos pela ditadura militar ou preservar a pureza cultural e liguística do país. Este é apenas um dos exemplos do quanto política e tradições se opõem no Mianmar.

                Não é novidade que países mudem de nome. Sião para Tailândia e Ceilão para Sri Lanka são dois exemplos. no caso de Mianmar é relativamente fácil tomar partido, mas não é permanecer consistente na posição. Mianmar (*1) é a designação óbvia, reconhecida pelas Nações Unidas, a mais usada internacionalmente. Mas não é aceita pelos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Canadá e Irlanda, países que permanecem usando Birmânia para designá-lo. Não sem motivos. Grupos oposicionistas ao regime militar também empregam Birmânia, não reconhecem a legitimidade do governo, tampouco sua autoridade, para alterar o nome do país. Revistas turísticas internacionais - entre elas a ótima portuguesa Volta ao Mundo - permanecem usando Birmânia em sua matérias turísticas. Nas prateleiras das livrarias podemos encontrar lado a lado guias turísticos com as duas diferentes as designações.  Até mesmo as duas no mesmo título. O guia Lonely Planet chama-se  Myanmar (Burma) Travel Guide (Country Travel Guide), e outro que compramos chama-se Burma, the alternative guide

                Em sua histórica visita ao país, em novembro de 2012, o presidente Barack Obama usou “Mianmar”, ainda que oficialmente os Estados Unidos usem “Birmânia” para denominar o país. Foi uma estratégia diplomática muito bem vista pelo alto escalão do governo do país visitado. Segundo a Agência O Globo (Seg, 19 de nov de 2012)O assunto é tão sensível que assessores de Obama disseram nesta segunda-feira que o presidente evitaria mencionar nomes com pesos políticos, razão porque o presidente americano usou ambos em sua viagem: "Myanmar" empregava em conversas com o presidente Thein Sein. "Birmânia" usava no encontro com a líder oposicionista, e prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi."

                 Optei por Mianmar e Yangon. Indo mais longe na história, soube que o nome original era “Myanma”,  o que por si justifica o emprego do nome atual - Myanmar (com "y" na versão em inglês, e "i" na em português. É também o que melhor abrange a diversidade étnica do país, tendo sido usado até que os colonisadores britânicos renomeassem o país para “Burma” (ou Birmânia, em português), nome que permaneceu até 1989, quando a junta militar tomou o poder e baniu termos que lembrassem o colonialismo inglês. O nome original se justifica, porque marca o retorno à tradição após a independência do país em 1948. Pagan também foi dado pelos ingleses para nomear uma de suas cidades mais importantes, que virou Bagan. Assim também ocorreu como as Ilhas Mergui, que tormanaram-se Myeik, com Pegu, agora Bago, e com o Rio Irrawaddy, que atualmente chama-se Ayeyarwady. Contudo, a mesma junta que modificou estes nomes manteve o termo "birmanês" para designar o idioma falado no país, o mesmo usado no colonialismo, mais uma contradição a alimentar as discussões sobre o tema.

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Mas, que país é este que visitaremos?

                 Mianmar está entre os países menos visitados do mundo. Divide com a Coréia do Norte, as Ilhas Marshall, o Butão, Nicarágua, Bolívia, Argélia, Líbano, Madagascar, Eslováquia, Bósnia e Herzegovina e Ruanda os primeiros lugares desta lista.

                 Embora um quarto dos assentos do Parlamento de Mianmar sejam reservados aos militares,   que o presidente e seu vice sejam oficiais militares, quase toda a comunidade internacional admita que o país está se movendo em direção à democracia, é claro que há os críticos e céticos. Alegam serem cosméticas e planejadas apenas para agradar o ocidente e obter o levantamento das sanções econômicas impostas ao país. Do outro lado há os que enxergam um caminho verdadeiro em direção a um sistema mais democrático, ainda que controlado, provavelmente igual ao regime indonésio, onde as forças armadas têm papel preponderante e jamais são desafiadas. Em 2012, efetivamente muita coisa aconteceu nesta direção. Entre elas, eleições diretas que levaram Aung San Suu Kyi - presa política domiciliar, Prêmio Nobel da Paz - a ter assento no Parlamento.  Há muito o que falar sobre Aung San Suu Kii, cujo prêmio foi uma conseqüência de sua luta pela democracia, contra o golpe militar e especialmente contra o sofrimento do povo birmanês. Sua história de luta pela liberdade e direitos humanos é facil de se conhecer com uma simples pesquisa no Google e na Wikipedia.

                 muita receptividade e os acontecimentos são promissores. Os Estados Unidos nomearam seu primeiro embaixador no país em uma década. Outros, sobretudo europeus, fizeram o mesmo. Como resposta, todos tiveram as credenciais de seus embaixadores aceitas pelo presidente do país. A secretária de Estado Hillary Clinton visitou Mianmar antes do Presidente Obama, preparando a reaproximação.  Cuidadosa em seus pronunciamentos, referiu-se à nação como "este país", evitando citar seu nome. Encontrou receptividade e simpatia do governo às mudanças que ela sugeriu. Reformas significativas estão em curso, como as primeiras eleições gerais em duas décadas, a libertação da ativista política Aung San Suu de sua prisão domicilar, sua eleição para ocupar uma cadeira no Parlamento e a soltura e anistia de centenas de presos políticos, entre eles, a volta do exílio de um de seus mais queridos artistas, o comediante Zaganar.

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Turistas. Enviados da liberdade ou promotores da ditadura?

                 Há alguns meses o país intensificou o processo de abertura ao turismo internacional, ampliando a abertura. A resposta foi imediata e crescente: operadoras e agências de todo o mundo têm respondido, começam a levar turistas em número jamais visto. Assim, uma das sanções econômicas impostas ao país - o boicote turístico - tende a acabar. Entretanto, muitos ainda questionam se os turistas são enviados da liberdade ou promotores da ditadura. Ainda que em qualquer lugar do planeta o turismo seja uma arma poderosa que tanto promove quanto pode ser cruel, em Mianmar esta questão assume conotação complexa e acentua discussões éticas e apaixonadas, sobretudo por serem controversas. Há quem alegue que o turismo permite conectar aquele povo isolado com o mundo, que à sua maneira forma, emancipa e educa uma população mantida alienada por tanto tempo, e também que o turismo abre os olhos do mundo sobre Mianmar. Outros o condenam afirmando que o turista não distribui seus gastos entre a população, uma vez que não há iniciativa privada, mas uma junta militar que define zonas a serem visitadas, cujos membros do governo controlam e beneficiam-se das receitas turísticas.  Desde que Aung San Suu Kyi iniciou sua campanha mundial de boicote ao turismo, poucos foram os ocidentais dispostos a entrar no país. Revistas, suplementos e guias de viagem (exceto o Lonely Planet) seguiram o pedido e ignoraram promover o turismo em Mianmar.  É verdade que turistas podem ver apenas o que estão autorizados, que experimentam somente o que têm permissão, mas ainda assim desempenham um dos mais justos papéis do turismo no mundo: a riqueza e sua distribuição. Mesmo que em Mianmar isso ainda signifique alimentar quase exclusivamente os generais que comandam o país e dominam a iniciativa privada turística. Mas é ele, o turista, que também promove os pequenos negócios não oficiais, que incentiva o povo a superar suas dificuldades, permite crescer uma das poucas indústrias a que o trabalhador birmanês tem acesso.

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Como iremos para Mianmar?

                 Nosso desejo de conhecer o país era mas antigo do que nossa possibilidade de fazê-lo. Mas tão logo pudemos realizá-lo, aproveitamos nossa disponibilidade em fevereiro próximo, melhor mês para visitar Mianmar, para conhecermos sua rica história, cultura e tradições. Começamos nossas pesquisas em setembro de 2012. Precisávamos correr com o planejamento a fim de viabilizarmos a viagem em fevereiro de 2013. Queríamos um roteiro um pouco mais abrangente, menos comum, além de Yangoon e Bagan. Assim, nos definimos por Yangoon, Bagan, Kyaing Tong, Mrauk U, Sittwe, Inle Lake, Mandalay, Mount Popa e Salay. Infelizmente não foi possível incluir a Pedra Dourada, o famoso santuário budista no topo da montanha Kyaikhtiyo.  E muitas questões surgiram a partir de nossa decisão. A primeira delas foi "Como ir?" Pela Air France, via Bangkok, ou pela Qatar Airways, via Doha? Nos decidimos pela Qatar Airways, com uma parada em Doha na ida e outra na volta. Outras dúvidas surgiram: como conseguir vistos? E reservar hotéis? Como nos locomover, arranjar os vôos internos e deslocamentos pelo país? Que operadora poderia resolvê-las e concretizar nosso desejo? Conversamos então com o Mauro Chwarts - proprietário da Highland Adventures (*2) - e tivemos todas as perguntas respondidas numa entrevista em que minha doce Emília acertou tudo. Ele acabara de retornar do país e ficamos sabendo que agora o governo de Mianmar reconhece que os turistas são discretos e inofensivos, um motivo a mais para nos decidirmos logo e conhecermos a nova era de esperança e otimismo do país. Outro especialista em Mianmar é o Haroldo Castro (*3).

                   Viajamos independente e individualmente. E agradecemos ao Mauro Chwarts e à Aurea - especialista em Ásia da operadora - pela ajuda, orientação e viabilização de nosso desejo, montando um programa especial e personalizado para nós, seguindo nosso desejo e condições.

                   Aos leitores, razão final de todo este trabalho, dedico a série de matérias sobre Mianmar, a serem publicadas ao fim da viagem, esperando que ela seja um quadro amplo, novo, diferente e desembaçado da incrível atmosfera que se vive no país, da imensa receptividade de seu povo, das aventuras que experimentaremos, das descobertas de lugares mais incríveis. Através de minha versão pessoal, de meu olhar, tenho a pretensão de alternar cenas de paisagens do patrimônio natural e arquitetônico com a realidade social do país. E já sem conflitos, transmití-las com o coração, não com o fígado.  

                   Boa viagem, caro leitor.

Notas:

(*1) Mianmar e Birmânia são os nomes em português; Myanmar e Burma em inglês.

(*2) A Highland Adventures foi fundada em 1990 por Mauro Chwarts. Na época, de volta ao Brasil após seis anos na Ásia, trocou a engenharia naval por outra engenharia: a do turismo de aventura internacional, mas super-estruturado. Conversamos pessoalmente com ele. Em cada uma de suas expedições ele testa e aprova o que vende e recomenda antes de tornar um roteiro. Fizemos nosso roteiro indivudual e personalizado com esta operadora.

A operadora Latitudes também conhecemos, já usamos e podemos recomendar. Opera pacotes para Mianmar, inclusive um roteiro guiado por Haroldo Castro. Todavia, neste caso trata-se de uma excursão em grupo, e nós preferímos viajar individualmente.

(*3) Haroldo Castro nasceu em Roma, Itália, é filho de pai brasileiro e mãe francesa, morou em todos os seus paises de origem - Itália, França e Brasil - assim como nos EUA, mas já visitou mais de 155 paises do mundo. Atualmente mora na Cidade do Rio de Janeiro. Amigos consideram Haroldo um renascentista moderno, pessoa de múltiplos talentos, de personalidade livre, homem que adapta-se com facilidade tanto num encontro com um ministro quanto num ritual xamanico. “A diversidade é a chave da vida na Terra. A natureza é muito diversa, e assim também somos nós, humanos. Diversidade de atividades é o antídoto da rotina”, afirma Haroldo. Durante a ultima década, Haroldo passou a metade do seu tempo viajando pelos cinco continentes, filmando gorilas em Ruanda, fotografando nômades da Mongólia, liderando oficinas de fotografias no Chile, participando de encontros internacionais sobre meio-ambiente, escrevendo e contribuindo para o desenvlvimento de novas estratégias de comunicação. Quando lhe perguntam sobre sua frenética atividade, ele responde: “Quero viver cada dia com a maior intensidade possível.

 Moeda: Myanmar Kyat (MMK) Voltagem: 230V, 50Hz Tomadas: C ou D ou F ou G Lingua:  Burmês e Inglês Time zone: GMT +6.30 International dialling code: +0095-1 (FONTE: Qatar Airways)

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Observação IMPORTANTE:

Todos os produtos e serviços aqui citados não têm o conhecimento dos mesmos e não são recompensados de qualquer forma, anterior ou posteriormente à sua publicação. E servem apenas para orientar o leitor. Nossas viagens são escolhas pessoais, pagas com recursos próprios e aos preços de mercado. Somos viajantes independentes, inclusive nas opiniões. Nossas viagens não são organizadas por nenhum grupo, arranjadas por nenhum anunciante, promovidas por nenhum escritório de turismo, colaboradas por quem quer que seja. Não recebemos hospedagem, transporte ou alimentação em cortesia. Sobretudo em troca de publicação. 

Cada link citado, cada produto mencionado, cada recomendação dada é feita com a suposição de que o leitor saiba identificar os objetivos do blog, sobretudo pressupondo que o leitor as verificará com o fabricante, o fornecedor ou o prestador do serviço em questão. O autor deste blog valoriza e preserva a honestidade no relacionamento com o leitor, razão porque renuncia, desaprova e repudia qualquer menção ou associação que comprometa a integridade, a confiabilidade e a honestidade de suas opiniões. Enfim, o F&F não aceita “jabá”.