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Quinta-feira
Out252012

Khiva, Uzbequistão - Um conto de fadas a mil quilômetros da Capital

                EU ainda não avistava a Cidadela de Khiva mas já sonhava com seus minaretes. O que eu enxergava pela janela do carro eram apenas as imagens de um deserto remoto e desolador. Passavam devagar, na velocidade que o precário piso da estrada permitia, mas nenhuma outra cena poderia ser mais emblemática e condizente com a aridez de um deserto do que as que eu avistava de Kizil-Kum e Karakum.

 

 Eu ainda não avistava a Cidadela de Khiva, mas sonhava com seus minaretes.

                 MESMO assim tudo me surpreendia, ainda que eu já tivesse estado em lugares mais remotos no planeta. Afinal, era nossa primeira incursão rodoviária pelo Uzbequistão, o pequeno trecho até a cidade de Khiva. A forte ansiedade de vencer rapidamente os 31 quilômetros que nos separavam da cidade não me impediam de refletir.  E eu imaginava que o cenário pouco mudara desde as caravanas de comércio da Rota da Seda. A bem da verdade não vi um só camelo dos 300 que compunham as antigas caravanas, mas fora isso, tudo o mais parecia rigorosamente igual e há séculos.

               JÁ não se transportam as sedas e pedras semi-preciosas, as especiarias e corantes, o ouro e a prata, aves e animais exóticos. O que mais encontramos naquela remota estrada foram reminiscências soviéticas: de velhos caminhões, tratores e Ladas russos a placas-monumento de concreto armado anunciando algum lugarejo que não se encontra no mapa. Nenhuma alma viva, sequer uma só mulher uzbeque com sua túnica de veludo brilhante, colorido e marrom.

    

 No deserto de Kizil-Kum até o Sol parece maior  

                  NÃO é do meu estilo tomar posições políticas em viagens, mas não consigo ficar indiferente. São muitos os maus restos da União Soviética ainda presentes. Alguns bastante lamentáveis, como o de um mundo decomposto, de rios e lagos assoreados. O importante Rio Amu Daria, por exemplo, atualmente feio e secando, ou o outrora enorme Mar de Aral, praticamente exterminado, hoje pouco mais que uma poça.  Tudo porque em 1960 os soviéticos decidiram multiplicar por quatro a área plantada de algodão no Uzbequistão. Com seu intento, o fizeram, mas às custas de secarem um mar inteiro, esvaziarem um imponente, caudaloso rio inteiros. Deixaram para trás uma das maiores tragédias ecológicas provocadas pelo homem.  Naquela hora nem queria me recordar da maior quantidade de pesticidas já despejada que se tem notícia. Era a vitória do comunismo sobre a natureza  

               MESMO assim tudo ainda me parecia extremamente exótico e incomum naquele desolador cenário. Seco, árido, quente e poeirento, mas incrivelmente atmosférico. Eu experimentava as melhores sensações de estar ali, sobretudo porque nos aproximávamos de uma cidade de sonhos. 

 

 A velocidade era reduzida na precária estrada a Khiva

                 CHEGÁVAMOS à remota Khiva, a primeira das cidades seculares que hoje sustentam o grande potencial turístico do Uzbequistão. Era nosso primeiro destino na lendária Rota da Seda. Mal eu conseguia conter a ansiedade, afinal estávamos para conhecer uma das mais raras cidades inteiramente preservadas de todo o mundo. E mesmo ainda não avistando suas muralhas, senão as longas extensões de terra cultivadas com milho e algodão, já podia sentir jorrarem da memória leituras e imagens que pesquisara sobre Khiva. O Sol já era inclemente na sua radiação àquela hora da manhã, mas felizmente os índices de raios UV e de calor eram bem mais seguros e confortáveis nesta época do ano. 

                 LOGO um subúrbio de casinhas simpáticas e ingênuas, aparentemente desabitadas, quase melancólicas, anunciava nossa chegada ao perímetro urbano de Khiva. Ali mesmo percebi pela primeira vez as sensações que passariam a nos acompanhar durante toda nossa estada na cidade. E imaginei que seriam as mesmas que experimenta quem faz uma viagem no tempo ou que sonha e devaneia nos contos das Mil e Uma Noites, de Ali Babá, de Sherazade e Aladim. 

  

 

                  EU mal podia imaginar o tamanho do prazer em fotografar aquela cidade, um dos cenários mais exóticos e cativantes do planeta. Brotavam as imagens que eu vira do complexo arquitetônico de Ichan-Kala, as incríveis obras islâmicas dos séculos XII ao XIX, como a Residência do último Khan, o Mausoléu Ismail Khodja, a Madrassa Amin Mohammed Khan, o Castelo-fortaleza Kunya-Ark, a Torre Kalta Minor, o Palácio Tash-Hovli, o Mausoléu Mahmud Pahlavan e a Mesquita Juma.

 

 Chegávamos à remota cidade de Khiva, nosso primeiro destino da Rota da Seda 

                 DE Tashkent a Kiva fomos de avião e carro. O primeiro trecho, de 963 km, até Urgench, vencemos num Airbus A-320 da Uzbekiston Havo Yullary (ou Uzbekistan Airways). Poderia ter sido num Ilyushin IL-114. Melhor pra nós termos voado num avião mais confiável. O vôo foi rápido, tranqüilo e eficiente. E não deixou de ser uma novidade curiosa e adicionar exotismo o fato de voarmos por aquela cia. aérea. E tudo correu perfeitamente bem.

Poderia ter sido num Ilyushin IL-114. Melhor pra nós. (foto Airlines Net)

                 DEPOIS do vôo apenas 31 km e 45 minutos por estrada nos separavam de Khiva. Mas a ansiedade tornava tudo bem mais longo e demorado. Ainda não eram dez horas da manhã. Viajávamos pela desolação do deserto quando a cidade começou a surgir discretamente, revelando-se ao longe no enorme, elegante e delgado Islam Khodja, um minarete que ergue-se a incríveis 45 metros, mas que  dali aparenta ser mais um farol do deserto do que uma torre islâmica.  

   Islam Khodja, o elegante minarete de incríveis 45 metros

                  COLADO à muralha da peculiar, notável e atmosférica cidade de Khiva, me diverti muito ao chegarmos ao simplíssimo Hotel Arqanchi, literalmente dentro da cidadela. Custei a crer que tivéssemos chegados mesmo a um hotel. Mais tarde, já em nossa habitação, de nossa janela olhávamos a monocromática muralha de barro, da mesma cor do deserto e de todas as suas casas.

Hotel Arqanchi, dentro da cidadela. Mais simples impossível, mas uma ótima estada

                 MAIS bem localizado impossível: tudo o que há para ver fica a curta distância a pé. As camas de solteiro, que unimos com a retirada do criado mudo entre elas, eram terríveis de dormir, suas molas espetavam nossas costelas. A água quente é controlada, apenas por uma hora de manhã e outra à noite. E quando havia, eram pouco mais que algumas gotas que desesperadas não queriam deixar o chuveiro. Não havia produtos de higiene pessoal, felizmente trouxemos os nossos. As toalhas eram limpas, mas as mais ásperas e menores que já experimentei. Tudo estava relativamente limpo, o quarto era claro e silencioso e o café da manhã espartano ganhou mem simplicidade de qualquer outro que já tenha experimentado na vida.

   

 Alvenarias de Khiva. Palha e terra, da cor do deserto

                 NA Recepção um atendioso, simpático, gentil e profissional funcionário nos dava dicas quando as pedíamos. A decoração era divertida, bem uzbeque, com bichos de pelúcia sobre o encosto dos dois sofás, entre eles um tigre e um cervo. Panos extremamente coloridos cobriam partes dos sofás. Fotos do presidente uzbeque e de paisagens turísticas do país completavam a ornamentação. Mas tudo era absolutamente agradável, simpático, tranquilo e sereno. Nossa estada naquele oásis de calma foi inesquecível. Nos preparamos para a viagem, a chave para aceitarmos tudo e tirarmos o melhor proveito dela.

 

 Khiva, da cor do deserto

                 ASSIM como as muralhas, todas as alvenarias da construções de Khiva empregam a terra do deserto junto à palha de milho. Tudo tem a mesma monocromática textura e aparência produzidas por aquela mistura, mas para longe de ser monótona, a cidade é incrivelmente atmosférica e encantadora. Assim que deixamos nossas malas e tomamos um rápido desjejum servido mesmo depois de encerrada a hora, saímos para explorar a pé aquele que parecia um fascinante mundo. Contido entre muralhas medievais, o conjunto de arquitetura monumental é de incrível beleza, nas formas e da ornamentação. O clima da cidade nos arrebatou assim que entramos por um de seus portões na cidadela de Ichan-Kala.

Ata Darwase, o Portão Oeste

              

                 ICHAN-Kala é um inigualável, particular, verdadeiro museu de edifícios ao ar livre. Estou certo de que ali encontramos alguns dos melhores exemplos de obras islâmicas da humanidade contido entre paredões. É difícil imaginar uma cidade medieval sem torres, muralhas e fossos, e nisso Ichan Kala não é exceção, cerca-se das paredes mais maciças que se podiam construir na Idade Média e neste lado do mundo.

   As muralhas de Khiva, paredes maciças, defesa e ícone da cidadela

                  CRUZAMOS o portão e experimentamos um notável espírito oriental, exótico e preservado. Ele nos acompanhou até o fim de nossa estada.  Turística, é verdade. E sob olhares mais críticos, tão finamente reconstituída que pode parecer um cenário. Mas é autêntica, ainda que pareça um parque temático de contos de fadas. Percorrem-se as ruas mais cênicas da Ásia Central, visita-se um patrimônio cultural e arquitetônico tão grande que mal cabe entre as graciosas muralhas, protegido, abrigado, espremido e isolado da modernidade.

   

  Dentro de Ichan Kala, as atmosféricas, tranquilas ruas parecem esperar por Aladim

                 PASSEAR por suas ruas às vezes vazias e entrar em suas madrassas sem alma viva com freqüência nos fazia sentir uma sensação curiosa, a de estarmos num lugar tão remoto, no desolado deserto da Ásia Central. Por longo tempo nos pegavamos surpresos por estarmos ali, distantes de qualquer modernidade explícita, rodeados dos padrões decorativos e ornamentais mais simétricos e bem concebidos que já presenciei no mundo islâmico, verdadeiro monumento do trabalho humano vencendo as dificuldades do deserto. Remota, preservada, a cidade medieval clássica é uma jóia, lendária não apenas na sua importância islâmica, mas também na história da humanidade. 

Observar o Pôr-do-Sol do Mirante da Muralha: um dos momentos mais encantadores


               FIGUROU no mapa apenas no século XVI, enquanto capital do Khanato de Khiva, cujo domínio se estendia do Mar Cáspio à Índia. Na época era mais famosa por seu mercado de escravos que pelo fervor religioso: Ichan-Kala serviu como posto comercial do maior mercado de escravos da Ásia Central. E cruel foi o passado para aquela gente: após uma longa e difícil viagem pelas estepes e deserto, os escravos eram encarcerados de maneira sub-humana até serem negociados.

   

Estátua de Muhammad ibn Musa al Khwarizmi, criador da álgebra

                   QUATRO portões de madeira ornamentada marcam cada entrada e um ponto cardeal: Portão Norte, ou Bachtscha Darwase, o Portão Leste, ou Palwan Darwase, o Portão Sul, ou Dascht Darwase, e o Portão Oeste, ou Ata Darwase. Ao contrário de Samarkanda e Bukhara, Khiva tem seus monumentos agrupados no interior desta cidade murada, não estão espalhados pela cidade. E ela ostenta o maior número de minaretes e monumentos da Ásia Central: são 50 ao todo, e mais 250 casas antigas dos séculos 18 e 19.

 

 A Mesquita Djuma e sua floresta de colunas esculpidas em árvores inteiras

  

                  A Mesquita Djuma, do século X, foi reconstruída, mas mantidas suas 112 colunas originais, planejada para acomodar toda população adulta masculina da cidade. Diferente da maioria das mesquitas por ter interior de dimensões incomuns para a época e região, é totalmente coberta, sem pátio interno aberto, como a maioria das mesquitas.

 

   Islam Khodja, o minarete de incríveis 45 metros

                  SÍMBOLO de Khiva, a grande torre azul na praça central da cidade é um minarete inacabado. Grandioso e imponente, ainda que inconcluído. O ambicioso khan Mohammed Amin terminara de construir sua obra, uma madrassa extravagante e que logo ganhou grande prestigio em Khiva. No entanto a sua mesquita precisava de um minarete, mas não um qualquer. Ele imaginava o mais alto e impressionante minarete do Oriente muçulmano, um como jamais alguém construíra. Seu objetivo era mostrar ao seu rival, o Emir de Bukhara - cujo minarete Kalon era o maior da Ásia Central - que poderia fazer algo ainda maior. Ele imaginou um minarete tão alto que poderia até mesmo avistar Bukhara num dia claro.

 Kalta Minor. Azul celeste, azul turqueza, azul marinho.

                 SEUS planos foram desenhados e a construção começou. Em 1855 o Minarete alcançara apenas 26 metros dos 80 projetados. Algumas hostórias contam-se acerca da interrupção da obra, entre elas a de que o arquiteto do khan fez um pacto clandestino com o Emir de Bukhara, quando este soube que estavam tramando a construção de um minarete ainda maior. Descoberta a trama, o castigo foi lançar o arquiteto infeliz do alto da torre Kalta Minor. Outra história afirma que o khan, percebendo que o minarete acabado forneceria aos mulás uma vista aérea de seu harém, prontamente ordenou a interrupção da obra. 

    

 Kalta Minor

                 O fato é que a teoria mais provável é que um projeto tão grande levaria mais tempo do que o de vida que sobrava a Mohammed Amin, que morreu durante uma de suas muitas campanhas contra as tribos turcomanas. Os dois khans seguintes estavam mais preocupados com guerras, haréns e outras demandas, deixando inacabada a construção do minarete Kalta, que assim permanece até hoje. O Kalta Minor, em comparação com os altos e elegantes de Bukhara, é mais desajeitado, baixo e robusto, mas sua história é igualmente curiosa e cercada de mistérios. Em compensação, tornou-se o único minarete inteiramente coberto por cerâmica vitrificada.

 

  Kunya Ark, o palácio-fortaleza

  

                  KUNYA ARK é uma fortaleza dentro de outra. A mais incrível e atmosférica atração de Khiva, foi a primeira residência dos khans da cidade. Tem aparência e função militares, mas como aos khans não agradava o puro estilo de vida militar, garantiram que a Arca fosse equipada tudo que um palácio islâmico deveria ter: residência, supremo tribunal, arsenal, casa de impressão de dinheiro, mesquita, escritório, lugar de recepção, harém, cozinha, estábulos e uma praça para celebrações. Uma restauração da década de 1950 revelou peças arqueológicas que hoje estão em exposição na mesquita.

 

  Kunya Ark  e sua fabulosa, minuciosa, intrincada ornamentação cerâmica

 

                  NUM pátio há um cinema ao ar livre, de uso eventual patrocinado por um hotel. Os imponentes portões da Arca são magníficamente esculpidos, e ao serem cruzados, uma nova cidadela repleta de sucessivas e incríveis atrações se descortina para o visitante. Aqui talvez seja o lugar mais tranquilo de Ichan-Kala e proporciona a mais incrível sensação de volta no tempo.

 

 Vista de Ichan-Kala no Pôr-do-Sol desde o Mirante da Muralha

  

                  AS paredes e os bastiões Ichan-Kala ao passarem por Kunya Ark revelam as fundações da cidade, precisamente na Torre de Vigia também a parte mais antiga de Khiva. A torre tornou-se um local de verdadeira peregrinação de turistas, já que dela tem-se uma das melhores vistas aéreas de Ichan-Kala. Fotografar aqui é uma obrigação. O resultado será a melhor foto da cidade, especialmente ao entardecer, quando a luz cintila e doura toda a cidade. Dificilmente alguém deixará de imaginar que dali a pouco avistará uns tapetes voadores.

                 CAMINHAR sobre as muralhas e olhar para a cidade ao entardecer desde um de seus mirantes foi uma de nossas mais incríveis experiências de viagem e é tão recomendável quanto qualquer Pôr-do-Sol bonito no mundo. Dali percebe-se o plano original da cidade, isto é, contendo o shakhristan (cidade) e a rabat (subúrbio).

  

                 NA manhã seguinte fomos explorar o deserto, na região de Karakalpak, a cerca de 40 quilômetros de Khiva. É um passeio não muito comum, mas adoramos visitaa as ruínas das antigas cidadelas de Ayaz-Kala, Guldurechi-Kala, Toprak-Kala, Kizil-Kala e Ellik-Kala. São apenas vestígios dos Séculos 2 ao 7, mas incrivelmente monumentais e impressionantes, especialmente por estarem tão remotas e terem sido construídas há tantos séculos.

 

                 A viagem terminou com um almoço numa yurta, recebidos por sua proprietária extremamente simpática. Foi muito proveitoso, além de curioso, conhecermos de perto o modo de vida nômade no Uzbequistão.

 

                 A única maneira de se chegar a este lugar é contratando um transporte privado. O jeito seguro de arranjá-lo é na entrada de Ichon-Qala. Custa entre 50 e 70 dólares por um carro com motorista que mal ou bem arranha um inglês precaríssimo e se esforça em fazer o papel de guia. Pagamos 60 sólares.

 

                NO caminho passamos pela região autônoma de Karakalpakistan e curtimos outras paisagens desérticas e típicas em que vivem os nômades da região. No dia seguinte acordaríamos acordar cedo para nosso próximo destino, a incrível Bukhara. Passamos nossa última noite em nossa estalagem e antes de dormirmos janamos cedo na Cidadela para garantirmos um banho quente antes das oito da noite.

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 A seguir: De Khiva a Bukhara, uma viagem mais longe ao passado islâmico

Leia também: Uzbequistão. Por que não?

Notas:

1) Artesanato. Não espere muito do artesanato em Khiva porque certamente não é melhor que Bukhara para comprar tapetes, suzanes, lenços e outros. Mas não deixe de prestigiar e conhecer o interior de algumas madrassas onde instalam-se workshops de artesãos locais autênticos, especialmente de suzanes e tapetes.

   

2) Restaurante. Assim como antigas madrassas converteram-se em ofinicas e lojas de artesanato, emtodas as três cidades, também alguns restaurantes instalaram-se nessas antigas escolas corânicas abandonadas. Em todas as cidades que visitamos - Khiva, Bukhara e Samarkanda - em apenas uma vimos uma funcionando como escola, em Bukhara. Em 2008, o Khorezm Art Restaurant instalou-se na madrassa, a Allakulikhan, no interior de Ichan Kala. Ele tem a istalação mais simpática e confortável de Khiva, com um menu relativamente variado de comida uzbeque. Prestigiamos a cerveja e o vinho locais.

 

Quinta-feira
Out182012

Uzbequistão? Por que não?

Uzbeques, o maior patrimônio do Uzbequistão, nossas melhores recordações do país 

                  SE é verdade que viagens tornam bons viajantes ainda melhores, também é que a ignorância os faz piores. Eu perguntara com espanto: “Uzbequistão?”. Minhas reservas não faziam o menor sentido. O problema estava comigo, naquela pergunta que diminuia a importância de um destino tão fabuloso, na tolice vergonhosa, no erro clássico da falta de saber que rimava Uzbequistão com desinformação. Eu mal sabia onde ficava aquele país maravilhoso, que turisticamente proporciona experiências emocionantes e recompensas brilhantes a todo bom viajante. 

   Vista aérea de Khiva

                 “Uzbequistão, por que não?” A resposta veio tempos depois, ao ponderar as sugestões sempre certeiras de minha doce Emília, pesquisando o passado tão antigo quanto glorioso daquele país, pondo fim à minha tola desinformação. Decidido nosso próximo destino, partimos para concretizar o antigo sonho de minha querida mulher: conhecer a Ásia Central. E então fizemos uma espetacular jornada ao coração do centro do mundo, um remoto mundo, uma incível encruzilhada de povos, de histórias, de lendas e culturas.

                  Uzbequistão sim!, porque ali a Rota da Seda obteve seu maior brilho, porque há numerosos exemplos da esplêndida arquitetura islâmica de origem persa cujas dimensões são tão monumentais quanto a qualidade a mais alta, e também em cuja ornamentação empregaram-se tanto talento quanto apenas os mestres poderiam.

A incrível ornamentação de inspiração persa das madrassas e mesquitas uzbeques 

                 Sim, Uzbequistão, porque um bom turista não pode morrer sem conhecer seus bazares agitados, os nômades do Deserto de Kyzylkum, o Vale do rio Oxus e as três cidades que abrigam a coleção mais homogênea e imponente da arquitetura islâmica no mundo: Khiva, Samarkanda e Bukhara. Congeladas no tempo, imunes ao seus efeitos, profundamente atmosféricas, são verdadeiros cenários das Mil e Uma Noites, berço apropriado para os mais imaginativos sonhos e fantasias de contos de fadas islâmicos, especialmente quando embaladas por alguma melodia nacional uzbeque. A ornamentação cerâmica em tons de azul-celeste contrasta brilhantemente com os ocres dos tijolos da cor do deserto. São brilhantes os tesouros históricos das cidades uzbeques, patrimônios quase desconhecidos dos brasileiros esperando para serem compartilhados. 

 

O pôr-do-Sol sobre as incríveis muralhas da Cidadela de Khiva 

                  Se é maravilhoso conhecer lugares que poucos visitam, ir a cidades das mais antigas do mundo, viver o incomum e aventuras incríveis, se aqui o trio turístico “história-cultura-natureza” é recompensado na plenitude, além de tudo ainda é possível viver experiências marcantes com seu povo. Com a exceção óbvia do Cambodia - mas cada qual à sua maneira -, o Uzbequistão foi o lugar onde tive a melhor impressão de um povo. E como se esse precioso suvenir de viagem não bastasse, as vozes da história contam culturas tão complexas e heterogêneas que apenas influências budista, cristã, muçulmana e do zoroastrismo poderiam criar num só lugar e na história da humanidade. Ainda que eu tentasse, por falta de habilidade não conseguiria descrever o sabor dos Deuses das frutas, as melhores que já comi na vida, e também não o encantamento de conhecer a arte da manufatura dos fabulosos tapetes de Bukhara.

 

  Um conto de fadas islâmico: o Bazar Taki Sarrafon, em Bukhara

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Ásia Central - Chegamos ao meio do mundo

                 EU deixara para ler os capítulos do Uzbequistão e da Rota da Seda do livro “Nas fronteiras do islã (*1) durante o vôo de Istambul a Tashkent.  Eram quase duas horas da manhã e o comandante anunciava a descida para Taskent.

  

                 História é o que não falta ao Uzbequistão, mas foram as fantasias que alimentaram minha mente, inspirando criações extravagantes e exóticas, fazendo correr soltas as imagens de caravanas, de camelos, de mercadores cruzando desertos, de caravançarais, de oásis, tapetes orientais e cidades incríveis. Mergulhei no livro e mal percebi que estávamos para pousar.

 

Uma yurta no deserto 

                  A Ásia Central, um mundo pouco explorado, é um universo exótico, de lendas e de fantasias, mas também de uma história por vezes cruel. É quando ela relata as conquistas sanguinárias do mongol Gengis Khan e do turco Tamerlão, que  deixaram cada qual seus rastros de destruição, de medo e dor. Pilharam e exterminaram populações inteiras, tudo para deixar claros seus poderes e força, não por resistência. (*2). Na história recente foram os soviéticos, não tão sanguinários, mas igualmente cruéis. Preferi ficar com o lado romântico dela, aquele que relata os feitos de bravos aventureiros da Rota da Seda, de gente que serviu aos atos mais pacíficos em gigantescas empreitadas de comércio, deram curso às caravanas de 300 camelos, mas sem saber, além do comércio promoviam a mais incrível troca de valores culturais e espirituais entre a Europa e o Oriente que se tem notícia.

  

 Detalhes arquitetônicos do complexo Imam Khazrati, Tashkent

                  Lembrei-me do quanto estávamos distantes de casa, geográfica e culturalmente. Prestes a entrarmos numa região do meio do mundo, que durante séculos não passou de um espaço em branco no mapa. Esperávamos viver ali as aventuras reais e experiências incríveis que tanto sonháramos, conhecer culturas e povos de etinias tão singulares quanto as dos uzbeques, dos cazaques, cazares, quirguizes, uigures e também tadjiques e russos, as duas minorias não-turcomanas. O anúncio do piloto adicionava ainda mais ansiedade ao nosso já enorme desejo de conhecer Samarkanda, Bukhara e Khiva, as três grandes e mais prodigiosas cidades da Rota da Seda no Uzbequistão, meio caminho, ponto de encontro entre a Europa e o Oriente. E também a beleza natural do Quirguistão, a soviética e verde Capital Bishkek, seus parques naturais, as montanhas Ala-Archa, o Lago Issuk Kul, os Montes Alatau e a cidade de Karakol, onde fizemos maravilhosas incursões às suas paisagens alpinas e caminhadas incríveis a quase 4 mil metros de altitude.

  

  Altyn Arashan. Paisagem alpina no Quirguistão

                 Uzbequistão e Quirguistão são países vizinhos, mas muito distintos. Duas nações que há apenas vinte anos conquistaram  independência, pondo fim a 70 anos de dominação soviética. O período foi sombrio, paralelo, escondido do resto do mundo atrás da Cortina de Ferro. Entretanto, a despeito de todas as tentativas, os comunistas não conseguiram exterminar seus costumes, senão mantê-los vivos, mas guardados, até conquistarem novamente a liberdade. Ainda pouco conhecidos dos estrangeiros, ambos países despontam como os melhores destinos turísticos de grande potencial na Ásia Central, e novamente começam a atrair ocidentais como um imã, sobretudo franceses, alemães e italianos. Em toda nossa viagem de 14 dias pela Ásia Central, encontramos apenas um casal de brasileiros, porque ainda são destinos para viajantes experientes, sobretudo com espírito para aventuras, sem frescuras, que sujeitam-se bem à simplicidade nas hospedagens, à precariedade dos (raros) banheiros públicos, aos inevitáveis problemas intestinais, à dificuldade na obtenção de vistos, à necessidade de andar com grandes somas porque tudo é pago em dinheiro (não há cartões de crédito), de viajar com autonomia, à comida gordurosa cujo preparo nem sempre segue condições sanitárias aceitáveis e, finalmente, mas não menos importante, às dificuldades de comunicação: o russo permanece a lingua-franca, a escríta é cirílica e apenas profissionais do turismo falam inglês. Mas como tudo tem seu lado bom, o turismo de massa - essa tragédia - ainda não descobriu a Ásia Central. Por isso, leitor,  Khush kelibsiz! (seja bem-vindo!) a Tashkent, primeiro capítulo desta nossa incrível viagem.

  

Tashkent. Meio nova, pouco antiga

                 Este é o tipo de viagem ativa, devido às substanciais distâncias percorridas, às extensas caminhadas e a algum rigor nas temperaturas. Os viajantes devem ter boa disposição e flexibilidade, um certo preparo físico e capacidade para aceitar as normas locais e a qualidade dos serviços. Na verdade, trata-se de uma viagem cujo estilo é mais para “expedição”, “aventura” e conhecimento.

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Tashkent - Meio moderna, pouco antiga

                  TERMINADO o desorganizado, lento e burocrático processo de entrada no país, saímos do aeroporto às três da manhã.  O meio do Outono, estação que na Ásia Central é plena, anuncia a chegada de um rigoroso Inverno mas retém lembranças do intenso Verão. As folhas tornam-se amarelas. Logo cairão, mas antes encherão os olhos de uma beleza exclusiva outonal.  As temperaturas começam a esfriar, mas ainda são agradáveis: máximas ao redor dos 27, rondando os 30, míninas aproximando-se dos 5 graus, podendo chegar a valores negativos. O Sol nasce às 6 e meia e se põe às 6 e meia. O Outono marca o fim da alta estação turística, e tudo fica mais vazio e aprazível, ideal para apreciarmos o trio turístico cultura, história e natureza.

  

Monumento soviético aos mortos do terremoto de 1966 

                  Nossa direção, o Le Grand Plaza Hotel. Não estávamos cansados nem sentindo os efeitos do jet-lag: as oito horas de diferença entre o Brasil e o Uzbequistão foram resolvidas com uma noite em Istambul, tornaram tranquila à adaptação às duas horas a mais em relação à Turquia.  Da minha lista de expectativas curiosas, uma das primeiras era com o câmbio: um dólar americano equivale a quase dois mil e quatrocentos Sum, ou UZS, no câmbio paralelo e mil e oitocentos no oficial. Trocar US$ 100 significa sair com 200 notas de mil do dinheiros local. Mas às três da manhã o acanhado aeroporto de Tashkent não tem caixa aberto pra fazer câmbio. Encontramos nosso receptivo lá fora no estacionamento do aeroporto, já pensando que ele não viera nos buscar. Só depois soubemos que eles não podem entrar no saguão de desembrarque.

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Estamos nos anos 70 e nos 80. Só por vezes nos sentimos nos 2000

                 AO entrarmos no Metrô, estaremos viajando no tempo, dos anos 70. No rádio ouvimos músicas dos anos 80. Nas avenidas mais novas por vezes podemos até nos recordar que estamos no presente, mas por vezes somos transportados aos anos 60, de uma URSS que já não existe mais, todavia tendo deixado fortes marcas. Como ex-capital soviética, Tashkent tem nos principais traços de sua personalidade algo comum a todas as demais capitais ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central: Ladas antigos e prédios de arquitetura soviética. E se procurar por Lenin, o encontrará. Em estátuas e nomes de ruas.

 

Carros antigos, fabricados na antiga URSS, ainda circulam e valem dinheiro 

                  Muito mais soviética do que nos faz supor sua antiga importância na Rota da Seda, Tashkent moderniza-se e tenta melhorar a sua infra-estrutura para atrair turistas. Mas eles ainda não chegaram como esperam as autoridades. E há muito que contribui para afastá-los. No caminho para o hotel passamos por ruas largas e monumentais, extremamente desertas nessa hora da madrugada. Parecíamos ter chegado à Rússia, tal a quantidade de reminiscências soviéticas, de carros e edifícios à escrita em caracteres cirílicos, assim como à sinalização de trânsito. Nosso hotel é um quatro estrelas bem menor do que sugere seu pomposo nome, equivaleria a três no Brasil. Ao entrarmos no apartamento, nos deparamos  com um estilo soviético pesadão e chocante: cortinas de seda vermelha, brocados dourados, móveis escuros. Algumas redes hoteleiras estrangeiras pularam fora do Uzbequistão em 2005 depois do incidente de Andijon, quando então os hotéis passaram a ser operados pelo Estado. O padrão de serviços declinou severamente. Nossa estada no Le Grand Plaza Hotel foi lamentável, especialmente pelo barulho dos hóspedes vizinhos. Mas tudo o que desejávamos era um banho e dormirmos. Cansados, queríamos estar em forma para descobrir o melhor de Tashkent na manhã que começava.

     

Russo e usbeque                                                 

                  A Capital do Uzbequistão atual é relativamente moderna e, digamos, também tem atratividade relativa. Não se deve esperar antiguidade histórica, apenas encará-la como introdução ao mundo exótico que é Ásia Central, e aqui na Capital especialmente expresso nos Ladas antigos e na arquitetura funcional soviética. Tashkent é uma cidade de grandes avenidas, praças e árvores, mas antes dos soviéticos tinha grande beleza, lembrava algumas européias, todavia mantinha forte identidade oriental. Imaginem que havia caravanas trafegando pelas ruas, cafés, hotéis, lojas e, sobretudo, liberdade. Após a dominação, tudo o que fosse contrário aos dogmas comunistas foi fechado, impedido e abandonado.

 

Arquitetura soviética: funcional, feia e pesada, ainda que com pitadas orientais 

                 Como desgraça pouca é bobagem, um terremoto arrasador transformou a cidade inteira em escombros. Em entulho, por onde os tanques bolcheviques trafegavam por cima. Foi a oportunidade para que urbanistas soviéticos dessem à cidade sua face atual: gosto duvidoso, arquitetura pobre e funcional, aestética, grandiosa e exagerada. A personalidade passou a ser a do concreto sem desenho. Mas há algo de bom que os soviéticos deixaram: o metrô. Curiosíssimo, bonito e antigo, para nós tornou-se uma de suas mais interessantes atrações. O centro histórico é discreto, mas prepara a mente do visitante para o esplendor, o charme, a personalidade e a atmosfera de Samarkand, a beleza de Bukhara e o magnífico centro histórico de Khiva, as três grandes cidades de contos de fadas islâmicos que visitaríamos nos próximos dias.

     

Museu de Artes Aplicadas - Tashkent

                 Tashkent é uma cidade eclética, movimentada, moderna, crescendo, talvez a mais importante da Ásia Central.  Ainda que um eixo político forte, hub de transportes, a cidade me lembrou Cuba, com todas as características próprias de um regime ainda relativamente fechado. Sobretudo é amigável, simpática e receptiva, segura, sobretudo com um povo extremamente educado e simpático. Na verdade, educado e simpático é pouco pra definir o povo uzbeque: eles são absolutamente adoráveis. Apesar de extremamente pobres,  estão sempre felizes e sorrindo, são profundamente agradáveis com os turistas, o que torna deliciosamente refrescante para o cérebro conviver com eles. Ao contrário de alguns países islâmicos, eles não são agressivos na tentativa de venderem algo aos turistas. E sobretudo estão sempre curiosos e sorridentes quando falamos com eles. Ficamos impressionados com a honestidade das pessoas e o grande interesse por nós.

  

 O complexo Imam Khazrati, Tashkent

                  A principal atração é o complexo Imam Khazrati,  integrado pelo Mausoléu do Sheik Abu-Bakr Muhammed Kaffal Shashi, pela Madrassa Barak Khan e pela Mesquita de Khast Imam, do final do século XVI, onde encontram-se fragmentos do Uthman Qur'an, o mais antigo Corão do mundo, que pertenceu ao terceiro califa Otman, que viveu entre 644 e 656.  Há também o Mausuléu de Kaffal Chachi, uma construção de 1541, a Madrassa Koukeldash, de finais do século XVI, o Palácio do Príncipe Romanov, já do século XIX e da era russa, construído pelo Grão-Duque Nikolai Konstantinovich, neto do Tsar Alexandre III, e seu Museu de Belas Artes do Uzbequistão. Fora da cidade é possível fazer caminhadas, rafting no verão e esqui no inverno nas montanhas do Parque Nacional de Ugam-Chatkal Tyan-Shan.

  

  Detalhes arquitetônicos do complexo Imam Khazrati, Tashkent

                 Andamos também pelas bancas do Bazar Chorsu, o mais famoso mercado público coberto da cidade. Um pouco desapontador, mas foi bom observar suas seções, a qualidade excepcional das verduras, legumes e frutas. Há um setor de seda pura produzida em Margilan, o centro de produção do tecido do Uzbequistão, situado no Vale de Fergana. As mulheres vestem-se em roupas de tons exageradamente coloridos. Os olhos são puxados, as sobrancelhas espessas, os sorrisos francos e de ouro, os cheiros deliciosos, o clima agradável. O pão nacional está por toda parte, chama-se non, lembram os pães sírios em forma circular, mas têm as bordas mais grossas. São decorados com desenhos marcados na própria massa, por vezes cobertos com sementes de papoulas e gergelim. Ao prová-lo os achei mais bonitos que gostosos.

  

 Bazar Chorsu

                 O que mais nos impressionou em Tashkent foram as pessoas. No bazar os vendedores sempre nos perguntavam de onde vínhamos, e então abriam sorrisos e ofereciam os produtos que vendem. Em certo momento um rapazinho nos ofereceu uma bolinha de yogurte com queijo para provarmos. Ao perceber nossa aprovação, deu-nos um saquinho com umas vinte unidades. Ofereci-lhe dinheiro e ele recusou. Insisti e ele recusou novamente. Apertei-lhe a mão em agradecimento, disse que era do Brasil, ele retribuiu com um sorriso, um firme aperto de mão e me agradeceu por estar ali!

  

Bazar Chorsu 

                 Como em qualquer país em que os preços são apenas uma referência. Entretanto não há a desgastante maneira de negociar como com os marroquinos e egípicios. Nota-se que algo em torno de 20 a 30% é a margem máxima de descontos. E tudo corre rapidamente. Se acidentalmente nós pagávamos a mais, o que era comum sempre que cada compra significava entregar milhares de SOM, o  excesso era sempre devolvido, como também era o troco.  Os táxis em geral não usam taxímetro e as corridas custam cerca de 3 dólares. As fisionomias são etnicamente um pouco indefinidas: têm algo de turco, de persa, de árabe, de mongóis com uma pitada de russo. Quando dizemos que somos do Brasil, espanto e sorriso acompanham o invariável “Brasil, futebol, Ronaldo...”  Ainda que eu deteste futebol, adoro como o Brasil abre portas!

Sorrisos de ouro, moda no Uzbequistão  

                  Dizem que o metrô mais incrível do mundo é o de Moscou. Não conheço, mas pelas fotos e depoimentos, acredito que seja. Mas, alguém que foi ao Metrô de Moscou e o descreveu, já esteve no de Tashkent?  Este metrô não foi apenas “inspirado” no de Moscou.  Eles são sistemas gêmeos, na operação e na mensagem institucional bolchevique. Viajar no metrô de Tashkent é uma experiência incrível que  infelizmente não se pode fotografar. É uma viagem rápida e no tempo, aos anos 70 e 80, por estações incríveis, ornamentadas cada uma diferentemente, mas todas em estilo soviético. Os trens são dos anos 70 como na linha 1 e dos 80 na linha 2

  

 Turistas uzbeques

                  A rua principal chama-se Amir Timur, um guerreiro e conquistador usbeque do século 14. É impressionantemente grande, larga e cheia de tráfego de carros e microônibus, de Ladas e outros soviéticos antigos. Depois de Tashkent, meus desejos agora eram encontrar bem mais mistérios e fantasias persas em Samarkanda, Bukhara e Khiva.

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Notas:

(*1) Nas fronteiras do islã, de Sérgio Tulio Caldas - Uma viagem reveladora por desertos, montanhas e entre povos muçulmanos. Série Viagens Radicais - Editora Record - http://livraria.folha.com.br/catalogo/1060201/nas-fronteiras-do-isla - ISBN: 85-0106-337-1 

(*2) Em 1220, Genghis Khan e sua hordas de mongóis invadiram na Ásia Central e conquistando toda a região e destruindo as principais cidades. Os mongóis, por sua vez, foram expulsos em 1363 por Tamerlão, conhecido como Timur, e construiu sua capital em Samarkanda e a adornou com obras de arte e arquitetura dos melhores artistas de todas as terras que ele conquistou. Um dos seus descendentes, Babur, conquistou a Índia e lá em 1526 fundou o Império Mogol. Depois da queda dos timúridas, a Ásia Central foi dividida em cidades-estado governadas por muçulmanos conhecidos como khans. O que é hoje o Uzbequistão, o mais poderoso foi o de Khiva e Bukhara. Os khans governaram Ásia Central por cerca de 400 anos, até um por um, caíram para os russos, entre 1850 e 1920.

Os russos ocuparam Tashkent em 1865 e governaram toda a Ásia Central, em 1920. Em toda a Ásia Central, o exército vermelho foi mantido ocupados sufocar levantes através de 1924. Em seguida, Stalin dividiu o Turquestão soviético e criaou as fronteiras da República Socialista Soviética Uzbeque e os outros “stans”. Na era soviética, as repúblicas da Ásia Central foram úteis para o cultivo de algodão e testes de dispositivos nucleares. Moscou investiu muito no seu desenvolvimento. O Uzbequistão declarou a sua independência da União Soviética em 31 de agosto de 1991. O premier soviético, Islam Karimov, tornou-se presidente do Usbequistão.

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O artesanato uzbeque

                 Quase todo viajante procura trazer algo como suvenir dos países visitados, uma lembrança feita pelas mãos de um artesão, mais tarde provocará as melhores memórias de sua viagem, assim como da cultura e da história do país. Neste particular, o Uzbequistão é um paraíso para os colecionadores de lembranças artesanais, e a dificuldade está em definir a escolha, pois a oferta é grande na variedade e na qualidade.

   

                    A cerâmica decorativa está entre os melhores exemplos da mais antiga tradição do artesanato nacional uzbeque. E para complicar, cada região do país tem sua própria escola de cerâmica tradicional. Na província de Khorezm, há os descendentes aprendizes do famoso R.Matchanov, mestre de Khiva, que fazem peças esmaltadas com predominância dos tons de turquesa.

  

                    Mas também não se consegue ficar indiferente aos bonecos de Samarkanda,umas estatuetas de personagens do folclórico Nasreddin e seu burro, um lendário muito amado pelos Uzbeques. Também há peças que representam os camelos das caravanas, figuras fantásticas, estatuetas de terracota encontradas por arqueólogos entre ruínas antigas,  finas cerâmicas para beber chá, tigelas e pratos com padronagens e cores que lembram a cauda de pavão.

   

O pão nacional 

                 Tanto homens quanto mulheres impressionam-se com as jóias, especialmente os tradicionais brincos kashgar-boldak, pendentes, pulseiras e anéis com pedras semipreciosas e filigranas. Também as peças gravadas sobre metais, na forma de pratos, jarros e bandejas de cobre e latão, onde há imagens dos monumentos arquitetônicos de Bukhara e padrões decorativos. Também de ótimo nível artístico são as esculturas de madeira e as caixas com intrincados padrões e as gravuras pintadas a mão e as suzanes, bordados feitos a mão.

  

                  Suzane: artesanato para adorno e proteção.  Em dias festivos os bordados decorativos são usados na decoração de uma residência. Para nós, são ótimos para serem usados como colcha, almofadas e decoração de paredes. Estas verdadeiras obras-primas da arte popular acompanham a vida dos uzbeques a infância à terceira idade. Esses bordados também são usados como dote quando então são um conjunto necessário ao início da vida de um jovem casal.

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 A seguir: Khiva - Um conto de fadas árabe a 1000 quilômetros da Capital 

Sábado
Set152012

Escrever sobre viagens. Prazer ou desgosto?

 

O Registan, a praça principal de Samarcanda, Uzbequistão. (foto minha)

                      SOB o meu ponto de vista e de uma perspectiva bastante informal, escrever sobre viagens é tão interessante quanto poderia ser incrívelmente desagradável. Eu explico. Um escritor de viagens explora novos destinos e compartilha suas observações com os leitores usando a palavra escrita, emoções e, por vezes, fotografias. Dois dos requisitos mais importantes para o sucesso do trabalho de escrever sobre viagens são:

1) ter o gosto por viajar, sobretudo experimentar novos ambientes e culturas. Com e por prazer.

2) ter alguma resistência física, mente observadora, aberta e receptiva, certo talento para a linguagem descritiva e gosto por aventuras da descoberta. Sintonizar-se atentamente com cada detalhe durante a viagem também costuma render seus bons frutos.

                       São as principais qualidades que o sucesso exige, tanto para conquistar o leitor quanto para inspirá-lo e motivá-lo.  O sucesso depende de algum talento, mas sempre de muita transpiração. Quanto menor o talento, mais suor. Mas também são precisos sobretudo motivação, desejo, experiência, ser conveniente com o destino e ter bom estado de espírito durante a viagem.

                       No meu casoalém de tudo, quanto menos explorado e mais recôndito, melhor eu provar sua comida e cultura, interagir com seu povo, mais fácil, divertido e emocionante será o ato de escrever. Entretanto sempre será um processo demorado e laborioso. Escrevo, reescrevo, corto, modifico, reescrevo de novo até que agrade ao meu senso crítico. A habilidade potencializa o bom resultado, mas quando não se pode contar com ela, é preciso escrever, escrever, escrever e reescrever. É um processo de aprendizado e aperfeiçoamento. Dificilmente um escritor de viagens que queira escrever bem irá preferir relaxar a viver intensamente o destino, deixará de preocupar-se com sua observação e assimilação, com a qualidade das fotos e com fazer suas anotações.

                       Por outro lado, se eu fosse pago para visitar lugares que não gosto, hospedar-me em alojamentos e voar por cias. aéreas que não queira e ao voltar do "sacrifício" ainda tivesse que escrever abordando todos como se tivesse gostado, o resultado seria senão medíocre, um fracasso. Não tenho talento para transmitir emoções que não senti, mentir para ser justo com o anunciante, não com o leitor. Mesmo que o faça amadorísticamente, fortaleço minhas habilidades observando e lendo escritores veteranos, sobretudo os independentes. 

                      Escritor de viagens não sou, tanto por não ter diploma de jornalismo quanto por não ganhar um tostão com isso, sobretudo por não ter me vendido e me recusar a fazê-lo indo contra meus princípios. Ainda que haja muita literatura ruim de viagens, às vezes escritas até mesmo por bons viajantes, é possível procurar inspiração legítima na seção apropriada das livrarias. De todo modo, qualquer pessoa pode escrever sobre viagens, ainda que deva evitar superficialidades e clichês. E eu recomendo vivamente a todo viajante que o faça. Despretensiosamente. Quem sabe não descubra um talento escondido e venha a ser um grande escritor de viagens?

                         Se você, leitor, também é viajante e pensa escrever, eu lhe digo: escreva!

                         Faça uma descrição da sua viagem, descreva suas interações com a população local, suas experiências gastronômicas, seus perrengues e suas descobertas turísticas. Compartilhe esses detalhes sobre sua viagem de forma a motivar seus leitores a visitarem o local. Inclua sua fotos. Descreva suas emoções com seu próprio estilo. Depois peça a amigos, familiares e colegas para lerem e avaliarem seu trabalho. Observe essas análises e respeite suas reações e opiniões. Mas não o faça pensando em dinheiro, senão porque gosta e por prazer em compartilhar. Evite os clichês. Fuja deles.

                          Mas para fazer bons relatos de viagem é preciso ser um bom viajante. E para ser um escritor de viagens é preciso praticar, praticar, praticar. Quando se aprende o ofício da escrita, um simples passeio por nossa cidade basta para que se faça um relato interessante, muitas vezes até emocionante. Bons relatos de viagem precisam dos mesmos ingredientes de qualquer bom romance: narrativa, unidade, atmosfera, revelação. Sobretudo torná-lo pessoal, com a cara do autor, mas antes de tudo, visando o leitor. 

                         Viajamos para a Ásia Central. Estamos conhecendo um dos destinos mais fascinantes e deconhecidos do planeta. Ao final desta viagem, retornaremos repletos de informações e sobretudo inspiradíssimos. Mal posso esperar para compartilhar com você!

Quinta-feira
Set132012

Istambul – Preferência não se discute, mau gosto sim

                 O que torna um destino turístico admirável ou horrendo depende mais da maneira de vê-lo do que propriamente suas características. Ou, como se costuma dizer, decorre do “gosto pessoal”. O MUNDO e mais tudo o que há nele pode ser tão bonito ou tão feio quanto nossa visão nos permita enxergar. Tudo depende de nós, de nosso poder, de nossa sensibilidade e capacidade de o percebermos. O Mundo está aí, e é igualzinho pra todos. Pra todos os diferentes. 

              Istambul é um belo exemplo de destino turístico tão espetacular quanto unânime, extremamente popular entre toda a sorte de pessoas. E não por poucos motivos, mas por inúmeros e diferentes: uma cidade incrível, de pessoas acolhedoras, da comida mais deliciosa, de uma arquitetura fabulosa, de monumentos e paisagens inigualáveis, de um passado de histórias fascinantes e sobretudo por sua enorme quantidade de atrações. Pra não falar de exotismo, porque nem todo mundo gosta dele. Mesmo assim, nem todos gostam de Istambul, o que é absolutamente natural. Entretanto, quando algum destino é tão unânime e tão popular e mesmo assim consegue desagradar a alguém, tomo posição ao lado do primeiro, ou seja da maioria, e reflito que o problema está com quem viu e não gostou, não com o destino. Tal conceito tem me guiado quando faço uso do Tripadvisor. Ao ler comentários e classificações de leitores sobre destinos, atividades, hotéis e restaurantes, descarto opiniões negativas quando são minoria. E acabo sempre confirmando que quem tem problemas é o comentarista.

                 Dizem que gosto não se discute. Eu também discordo disso. Se discute sim. E enquanto bom gosto se aprende com educação e cultura, mau gosto expurga-se. Quem acha que não é discutível por exemplo o mau gosto da música de Michel Teló, levanta o dedo. E também quem acha que não se discute toda a sorte desagradável de lixo artístico que a mídia empurra garganta adentro do público, essa orgia do mau gosto que nos invade. Alguns até verdadeiramente sórdidos. Como, por exemplo, devemos ser obrigados a admitir que o genial Mozart e o funkeiro Mc Sapão têm o mesmo valor?, igualados pelo jargão “Gosto não se discute”. Especialmente aí o jargão toma jeito de petulância coletiva. Tão ignóbil quanto o (mau) gosto por apoiar a legalização das drogas e de negar o direito à união civil gay, seja por preconceito, tacanhice e mau gosto. Mais que sandice, reresentam uma estupidez: a afirmação de que predileções pessoais são indiscutíveis. No campo do turismo, alguém acha de bom gosto as lembrancinhas que trazem apenas o pênis da escultura de David, de Michelangelo, em camisetas?  

“A incapacidade de refletir sobre a própria existência leva pessoas a se apoiarem em verdades dogmáticas em relação a sua própria vida. Quando se diz que "gosto não se discute" encerra-se dogmaticamente a discussão, fazendo exatamente aquilo que se finge condenar: impor uma opinião. Sacraliza-se o tal gosto, impedindo sua discussão como se isso fosse uma heresia.” (*)

                 Pois bem. Tenho especial atração por questionar o que é estabelecido e adotar opiniões contraditórias. Especialmente clichês, jargões e estereótipos. Não pense que é ranzinisse, muito menos que é algo gratuito, senão por acreditar que há muita besteira estabelecida a necessitar demolição. E que é preciso ter peito e coragem pra isso. Escolher posições implica uma série de conseqüências. Boas e más. Sustentar opiniões e argumentar bem, também. Mas como não jogo pra platéia, estou pouco me lixando pro incômodo coletivo, já que escrevo apenas para leitores espertos, educados, inteligentes, que pensam e demonstram bom gosto, assumo as consequências. Especialmente quando noto que meu leitor prefere o valor de uma boa crítica (de bom gosto) a definições grotescas e toscas (de mau gosto) sobre qualquer destino.

                 Dogmas nada mais são do que conceitos que tentam ser verdades absolutas, entretanto não resistem à análise. E a única verdade universal, absoluta, na qual acredito é a mesma que ninguém pode negar: todos, um dia, vamos morrer. Já os gostos e outros comportamentos sociais podemos (e devemos) sim criticar, apontar e discutir, embora jamais julgar. Dentre os conceitos a que me refiro, os que mais me irritam são clichês, jargões, estereótipos, frases feitas, dogmas, mesmices e superficialidades. Especialmente quando estes, em conjunto ou isoladamente, não conseguem disfarçar a pretensão e/ou a superficialidade de quem as profere. Mas são os jargões os que mais desprestigio no universo das superficialidades críticas. Entre eles, “Gosto não se discute”. O jargão pretende assegurar que não há falta de gosto, tampouco gosto medíocre. Assim, fica então definido pelo jargão, que mau gosto não se discute. E quem não pensa, assume-o como verdade. Mesmo que seja o que mais se encontre por aí: falta de gosto e mau gosto.

                 Mas o que é bom gosto senão gostar do que é bom, e mau gosto gostar do que é ruim? Ter preferência não, esta não qualifica absolutamente nada como bom ou ruim, nem de bom ou mau gosto. Quem acha que gosto não se discute não quer ou não pode justificar suas escolhas, pretende apenas evitar polêmicas ou simplesmente abreviar discussões. Mau gosto, não se discute, expurga-se! E sabe como? Com educação e cultura. Gosto é social, é geográfico, é cultural, é estético. Por isso não é igual para todo mundo, obedece a grupos, a valores, a posições sociais. Para uma pessoa de bom gosto, gostar de música erudita, por exemplo, não a impede de gostar de Chico Buarque e de suas músicas e letras cheias de erudição e poesia, daquele perfeito domínio da linguagem e do idioma, algo infelizmente não acessível a todos. Mas decididamente impede esse mesmo alguém de gostar de Michel Teló. O contrário também é verdadeiro. Quem gosta de porcaria detesta Mozart, Chico Buarque, Caetano Leloso, Gozaguinha, Cartola, Paulinho da Viola... Ou melhor, definição do que é bom ou mau gosto resulta de um processo de ensino e aprendizagem, da infância à idade adulta. E de repetição. 

                 O gosto classifica uma pessoa. Ainda que possa não ser algo tão racional assim. Mas daí a dizer que "gosto não se discute" é encerrar qualquer possibilidade de compreensão social, do entendimento de que as pessoas agrupam-se em torno de determinados sistemas de valores e de posições sociais. Gosto é apenas mais uma complexa manifestação humana relacionada a comportamento social. Portanto, o mau gosto decorre sobretudo da imaturidade, da falta de conteúdo, da falta de graça, de cultura, de educação, de acesso, especialmente de competência para criticar bom e mau gosto. A afirmação de que o gosto não se adequa a regras da discussão e do desacordo, ampara-se na suposição de que gosto é único, privativo, resultado de algo individual, portanto distante de argumentações contrárias. Será mesmo assim? Considerar o gosto à prova de questionamento não contradiz o direito de diagnosticar o que é de bom ou de mau gosto. (*)

                  Evidentemente que eu compreendo o fato de que as pessoas são diferentes. Sobretudo de mim. Compreendo, gosto e admiro. Aliás, esta é uma das características mais atraentes nas pessoas: serem diferentes. De mim e dos outros. E seus gostos também. Nada mais do que aquilo que genuinamente todos somos: indivíduos comportando-se bem ou mal. Independentemente de concordar ou não com elas e seus gostos, aqui faço referência aos bons gostos. E ainda mais, àquelas pessoas de bom gosto que podem perfeitamente não gostar de um destino que eu tenha adorado, ainda que ela possa ser minoria. Por essas eu tenho o maior respeito e admiração. Já para as pessoas de opiniões grotescas, deixo o mau gosto dar conta de suas vidas, protegidas por seus raciocínios capciosos, pelo engano, pelo argumento ou raciocínio falso, ainda que com alguma aparência de verdade, pela falta de estilo, pelo estiloso mau gosto, pelo logro do jargão “gosto não se discute”.

                 Quando uma cidade como Istambul, com tal potencial turístico, torna-se familiar, suas melhores atrações deixam de ser as “imperdíveis” e unânimes para os que têm bom gosto, e então tornam-se as “escondidas” e desconhecidas. Ainda que possam estar emolduradas ou vizinhas de incríveis mesquitas otomanas, de muralhas bizantinas, de palácios de sultões e de bazares islâmicos. Ou, então, quando suas mais antigas tradições ficam encobertas aqui e ali pelo último grau de modernidade que um viajante atento e esperto sai para descobrir. Qualquer grande cidade antiga que já tenha sido Capital de tantos impérios da antiguidade - romano, bizantino e otomano, por exemplo - teria sua dose de modernidade fundindo-se ou tornando-se vizinha do antigo, seu repertório de atrações exposto lado a lado com o contemporâneo ou mesmo com o mais arrojadamente moderno. Por certo qualquer cidade monumental e antiquíssima tem atrações tão expostas quanto escondidas, tão dentro quanto fora dos caminhos batidos. Mas por vezes ficam ali à mostra apenas de quem se decide, pode, sabe e quer explorar o incomum. Nesta quarta vez que visitaremos Istambul, estou certo de que ela se tornará ainda mais "nossa", agora já familiar, sobretudo ainda incrivelmente prazerosa.

                 No campo das viagens e seus relatos, estamos cheios de clichês e assertivas. Tudo do qual discordo vivamente. Especialmente de quem pretende aparentar ser cool definindo-se como viajante, não como turista. Ou daquele que diz “não vá em hipótese alguma” a um lugar que detestou porque se esquece que pessoas são diferentes e seus gostos também. Todo e qualquer indivíduo que aparenta ser o que não é, torna-se pretensioso e de mau-gosto. Especialmente um turista que faz o que pode pra parecer local. Nós somos turistas. E sem frescuras. E tenho a mais escancarada vergonha alheia de pessoas que odeiam se sentir turistas enquanto viajam a turismo. Essa gente “bacana” que se espreme entre milhares de turistas para fazer aquela foto do Pôr do Sol em Santorini e depois sai com cara de desgosto e torna isso público. Ninguém é obrigado a gostar de espremer-se, mas deveria ser proibido de sendo turista fingir não ser. Nós nos esprememos quando é inevitável num lugar turístico repleto de turistas cada qual tirando suas fotos. Fazemos nossas fotos nos mesmos lugares onde milhões de outros turistas fizeram, porque afinal estamos ali fazendo o que todos fazem: turistando. E sem qualquer constrangimento tolo. Nos colocamos abertos a experimentar tudo o que há de bom numa cidade, seja turístico ou não. Seja indubitavelmente bom ou inesperadamente ruim. E tanto quanto possível, depois do óbvio, tentamos descobrir caminhos alternativos e jóias escondidas, sem todavia jamais acharmos que aqueles que não o fazem sejam idiotas ou desclassificáveis.

                 Com Istambul tem sido assim: quanto mais a vemos, melhor a percebemos, mais a descobrimos. A cidade velha é onde a maioria dos visitantes concentra-se, e em volta da famosa Mesquita Azul, da Hagia Sophia, do Topkapi, da Cisterna e dos Bazares, todos eles tremendos, espetaculares, tão incríveis quanto turísticos. Mas o turista que esticar seu olhar e desejo para longe dos principais pontos turísticos poderá descobrir verdadeiras jóias pouco exploradas: mesquitas como a Küçük Ayasofia e a Ortakoy, autênticos hammans (Çemberlitaş, Cağaloğlu ou Galatasaray), as yalis do Bósforo, galerias como a Cicek Pasaji de Istiklal Caddesi, as obras do primeiro arquiteto otomano, Mimar Sinan,  a Princes’ Islands, as casas e edifícios antigos do lado asiático, os jardins tranquilos, alguns bairros incríveis de vida cotidiana, como Kumkapı e seus inúmeros restaurantes de peixes.

                 Istambul sempre esteve em nosso imaginário. Talvez por seu exotismo e grandiosidade. Para viajantes nada mais natural do que tornar-se então um destino desejado. O melhor é que tão logo tornou-se realidade, correspondeu tanto ao que sonháramos que logo tornou-se a “nossa cidade”. E não foi apenas pelo que representou, nem só pelo que significa em nossa própria história de vida, de encontro e de amor, mas sobretudo também por sua potência. Istambul, além corresponder, excedeu nossas expectativas. E agora, ao tornar-se familiar, deliciosamente “habitual”, já a conseguimos reconhecer pelos cheiros. E os muitos prazeres que renovam-se a cada visita, mesmo já não aguçando nossos sentidos com a gravidade do primeiro encontro, agora nos proporcionando certos sorrisos, aqueles diferentes sorrisos próprios dos prazeres da familiaridade.  

                 Para esta nossa viagem ao Uzbequistão e Quirguistão escolhemos Istambul e a Turkish Airlines como pontos de chegada e de saída e nosso meio de transporte. Ambas acabaram tornando-se atrações acessórias à nossa viagem principal, uma dobradinha que nos atraiu mais do que a primeira opção - Paris e Air France - tão extremamente familiares e igualmente nada desprezíveis. Ficaremos um dia e meio na ida e dois na volta. E aqui estará o meu relato destas anterior e posterior à visita ao Usbequistão e Quirguistão. 

            Até lá. E boas viagens!

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(*) Notas: 

 Afinal, gosto se discute?”, de Gerson Luís Trombetta - Professor do Curso de Filosofia e do PPG em História da UPF, em

http://www.upf.br/filosofia/download/Texto%20Gerson%20ON%203_Afinal,%20gosto%20se%20discute.pdf

Gosto se discute?”, http://www.recantodasletras.com.br/cronicas/2699121

Gosto se discute?”,  por Ramon Mapa, em Marmita Filosófica:  http://marmitafilosofica.blogspot.com.br/2009/11/gosto-se-discute.html

 

Segunda-feira
Set032012

Usbequistão e Quirguistão. A vida é breve. E sua beleza, perecível.

Introdução ___________________________________________________________________________________________________

                  Vamos para a Ásia Central

                  Minhas viagens não se encaixam em qualquer grupo de clichês. Aliás, não gosto nem um pouco de clichês, estereótipos e preconceitos, e, para minha sorte, eles jamais influenciaram minha maneira de ver o mundo ou dirigiram minha vontade de conhecê-lo. Estereótipo nada mais é do que uma imagem distorcida de uma categoria social. Preconceito é quando a imagem de uma categoria social é classificada degenerativamente. Já o clichê é quando usamos ambos - estereótipos e preconceitos já conhecidos - para definirmos padronizada e distorcidamente a imagem de qualquer coisa.

                  Tenho orgulho de ainda menino ter percebido, mesmo sem saber, que estereótipos, preconceitos e clichês não embalariam minha vida. Em parte porque,enquanto olhava pela janela, percebia que minha vida não seria embalada ou engessada por qualquer coisa ou crença, tampouco que seria comum. Eu almejava ser livre sob todos os aspectos. Livre e responsável. Eu queria não ter a mente dirigida por religiões, políticas, pessoas, intolerâncias e dogmas. E eu já sabia, também sem perceber, que queria conhecer o mundo, que ele precisava ser descoberto por mim. Minhas contemplações e reflexões juvenis eram o prenúncio de que eu seria um adulto livre e do bem e que não compactuaria com qualquer limitação ao meu discernimento. Com o tempo, e especialmente com o gosto por viajar, fui percebendo que não bastava apenas contemplar o mundo, era preciso descobrí-lo. Assim, as viagens foram influenciando minha vida de maneira poderosamente positiva, tornando-se experiências com benefícios pessoais tão vigorosos que nem posso avaliar, quanto mais descrever. Só sei que promovem proativamente meu intelecto, revelam-me a necessidade de olhar para os destinos de maneira saudável.

                 Não gosto de clichês. Um dos que mais abomino no meio das viagens é usado pelos que autointitulam-se “viciados em viagens”. Ou, ainda pior, quando brasileiros usam o termo Travel Addict (original em inglês) pra parecerem cools (ou "descolados"). Abomido estrangeirismos, especialmente os tolos. Além de não ser um viciado em qualquer coisa, considero o vício um estado alterado de consciência. Negativo. Vícios conflitam com minhas convicções (soltar amarras, ser livre, ter controle sobre meu destino, eficácia na vida...) e estou seguro de que pessoas viciadas mais cedo ou mais tarde revelam seus comportamentos estranhos. 

                  Vício é exagero, é compulsão que nos leva a sair do limite do bom senso, aquele conceito ligado às às noções de sabedoria e de razoabilidade, ou a falta de capacidade de ter independência e controle sobre seus desejos. É problema psiquiátrico. Não necessariamente determinado pela quantidade de tempo ou vezes que alguém se dedica (ou se sujeita) à atividade ou consumo de algo, mas o quanto se compromete com ela. Vício é aquilo do qual não se consegue desligar. É o prazer temporário, aparentemente mas sem fim, porque nunca satisfaz. Ainda que alguns vícios possam ser classificados como “dependência legítima" porque não consagram-se nos mesmos efeitos negativos à vida em família, à saúde, como as dependências químicas, por exemplo. 

                  Viagens devem ser feitas num estado de espírito saudável, pois representam ótima forma de mantermos a mente brilhando enquanto longe de casa e de nossas obrigações rotineiras, de enriquecer nossa vida e também das pessoas com quem mantemos contato enquanto viajamos. Jamais um vício. Assim, faço o que posso para que minhas viagens sejam um raro prazer. E aprecio o privilégio de fazê-las quando quero e enquanto posso. E sempre tiro delas o máximo. E como este é um espaço para o exercício das minhas verdades, ou “reflexões da vida e viagens de um viajante vivo (ou esperto)”, se pretendo continuar a desfrutar de credibilidade, preciso assumir: sou viciado em café expresso!

                 Enquanto aprecio uma xícara de Volluto, um de meus Nespressos prediletos, olho para o Mapa Mundi pendurado em minha sala de trabalho e lembro que preciso colocar mais dois pinos, marcar nele os dois novos países para onde viajaremos. Correndo o dedo sobre o mapa vou contando os pinos já instalados. Por cada um que passo, uma paisagem marcante me ocorre. Ao final, contabilizo 43 do total de 80 que tenho o desejo de conhecer. Pelo menos. E então me recordo de algo recorrente: quanto mais viajo (e não importa quanta vezes já o tenha feito, nem quantos países já tenha visitado), volto com a mesma sensação: ainda há muito o que ver. Tanto quanto uma vida só não vai dar conta. 

                Minhas primeiras lembranças de viagens são com minha família, à fazenda da Tia Manu. Nossas idas se davam nas férias escolares até mais ou menos eu ter dez anos.  Há muitos lugares que eu ainda desejo ver e já não espero vê-los todos, mas me considero um privilegiado por ter conseguido ver mais da metade do que pretendia. E já que não consigo conciliar minhas convicções com a crença em vida após a morte, reencarnação e fantasias afins, assumo minha realidade: todo o desejo de conhecer o mundo acabará no último país visitado antes de minha morte. E sempre persistirá a sensação de que ainda sobrarão muitos para conhecer. Vocês eu não sei, mas meus planos de viver pra sempre não vão dar certo. Assim, crendo que a morte é inexorável, tento aproveitar o melhor da vida antes que seja tarde. E sem vícios! É o meu Carpe diem! “...carpe diem, quam minimum credula postero”, cuja tradução possível seria “...colha o dia de hoje e aproveite o momento”. Isso funciona como um mantra para quem acredita que o limite do futuro está no fim da própria vida. Uma exortação a aproveitar o presente usufruindo intensamente de todos os seus momentos sem se preocupar demais com o que futuro reserva”. Segue a linha do epicurismo, o qual defende que a vida é breve, e sua beleza perecível.

                 E assim venho agradecendo à vida, todos os dias, por ela estar me recompensando com muito mais do bom do que do pior. Dos inúmeros privilégios que ela me concedeu, considero os mais importantes viajar às minhas custas, ter a coragem de quebrar paradigmas, carregar no peito uma grande paixão, cultivar no cérebro a crença nos sonhos e, no corpo, a força para soltar amarras contra tudo que limite meu direito de ser feliz. Retribuo tudo respeitando a vida e as pessoas que merecem respeito, especialmente sendo um bom cidadão. E assim, experimentando a vida e o mundo de maneira responsável, minhas viagens tornam-se cada vez mais recompensadoras, tudo o que vou conseguindo natural e gradualmente, por vezes até sem perceber.

                 No âmbito do nosso gosto por viajar, atualmente, quanto mais difícil, distante, exótico e incomum o destino, mais o desejamos. E se temos o privilégio de o visitarmos, nos sentimos recompensados. Exceto por pouquíssimos países, Austrália, Israel e Nova Zelândia os que me recordo agora (por razões de gosto mesmo e afinidades), quase todos os outros daquele enorme mapa ainda vazio de minhas marcas me atraem soberbamente. Especialmente o Irã e Myanmar, primeiros na lista de nossos desejos turísticos, provavelmente os próximos destinos de “aventura” para 2013. Eritréia e Etiópia são sonhos mais distantes. Líbano, Quênia e Tanzânia, todavia, bastante prováveis. Viagens “difíceis” têm sido bem compensadoras. Custos elevados, burocracia, falta de infraestrutura, corrupção, revistas de bagagem pessoal, cercas de arame farpado, pontos de verificação, soldados portando fuzis, quase ninguém falando inglês, atraso e isolamento são alguns dos aspectos que mais emperram o fluxo turístico para algumas nações com grande potencial e minimamente conhecidas. Tem sido assim com a Ásia Central: ainda há poucos turistas, seus países são pedras brutas no turismo internacional, mas contínua e lentamente lapidadas. Certamente, logo estarão no mapa como grandes destinos a descobrir. Não posso deixar de me envergonhar com o fato de estar contribuindo para o crescimento do turismo, esse pecado mortal que arrasa qualquer destino.

                 Não vejo mal algum na contemplação do mundo e, sobretudo da vida. Mas tudo contra o medo de experimentá-los, de ir a fundo, de exercer o natural desejo de viver as maravilhas de uma descoberta, mesmo que o resultado não seja do gosto. O que importa é ter audácia, vencer o medo, pensar em lugares que dificilmente verei na revista Viagem & Turismo, mas por certo encontrarei na Volta ao Mundo ou Viajes NatGeo.

                 Estou longe de ser um “aventureiro responsável”. A definição é minha, mas como eu gostaria de ter sido um! Ao contrário, empreendi apenas uns arremedos de aventura. Talvez por isso admire tanto os dois maravilhosos viajantes ´aventureiros responsáveis´ brasileiros que conheço: o primeiro, Haroldo ´Viajologia´ Castro, que acaba de lançar o fabuloso “Luzes da África”. O livro conta sua jornada de 40 mil quilômetros por 18 países do continente. Com fotos primorosas, um texto cativante, Haroldo - que também é fotógrafo profissional - e seu filho Mikael, realizaram a expedição jornalística percorrendo 40 mil km por 18 países do continente. E que países! O Haroldo é um cara bacana, verdadeiro “gente boa”, como definem os cariocas, e jamais deixou de responder meus e-mails, comenta no meu blog sempre que o convido, conversa sem frescuras, critica o que considera necessário, construtivamente, e quando lhe peço orientação, me dá sugestões e toques francos e úteis. Para além de tudo, recentemente tornou-se carioca, veio morar no Rio. No lançamento de seu livro tivemos o privilégio de conhecê-los, pai e filho, e de termos nosso exemplar de Luzes da África autografado. Tive também a oportunidade de lhe agradecer pelo livro que me enviou, gratuitamente, antes do lançamento e de termos alguns minutos de papo e uma hora de palestra incrível.

                 Outro é Tito Rosemberg, esse um carioca nascido na Urca, cidadão do mundo, jornalista aventureiro, viajante incrível, inspirador ainda aos 66 anos, quase todos dedicados ao surfe, ao jornalismo e às viagens de aventura. Tito participou do Camel Trophy em 1985 e escreveu, em parceria com Carlos Probste, o livro “Aventuras No Camel Trophy Dois Brasileiros No Inferno de Bornéu”. Já empreendeu inúmeras viagens com seu Land Rover por inúmeros países, e também já tive o privilégio de suas visitas no Fatos & Fotos de Viagens, além de ter me correspondido com ele algumas vezes. É outro sem frescuras, gente boa. Hoje vive muito bem, obrigado, em Pipa, no Rio Grande do Norte. Eu o acompanho virtualmente há décadas, desde lá dos tempos do Pier de Ipanema, na íncrível década de 70. Desde então ele tornou-se um dos que me inspiravam e motivavam a sonhar com viagens. Ambos são admiráveis, cada qual com sua história, sobretudo como enxergam o mundo e seus povos e o quanto contribuiram para que seus leitores também o façam. Tito mantém um blog interessante de reflexões, o "Titobeante - Para aqueles que estão sempre na dúvida sobre qual caminho seguir".

                  O homem sempre registra suas viagens, na memória ou na palavra, por necessidade ou por prazer, por profissão ou pela busca do conhecimento, por lazer ou por simples oportunidade. Assim o fizerem Marco Polo, Américo Vespúcio, Pedro Álvares Cabral, Cristóvão Colombo, Bartolomeu Bueno da Silva, Darwin, Margareth Mee, Marechal Cândido Rondon, Amyr Klink, Haroldo Castro e Tito Rosemberg, e também mais da metade da população do planeta que viaja para os destinos mais clássicos - de Nova York a Roma, de Paris a Londres - aos menos comuns, de Timbuktu a Malawi, de Zanzibar a Rangiroa.  A estes que o fazem por sonho, idealismo, prazer e desejo genuíno de compartilhar sem clichês, preconceitos ou estereóticos, agradeço.

                 Entretanto não posso negar que clichês podem ser necessários para classificar viagens e destinos. Felizmente, preconceitos não. Nada de mal nisso, desde que as classificações sirvam para orientar o viajante, não para dirigí-lo ou determinar o que deve ou não fazer, tampouco pasteurizarem o destino. Desse modo, há viagens de “aventura”, de “lazer”, para “solteiros”, “escapadas românticas”, “culturais”, de “auto-conhecimento”, “religiosas”, de “observação da natureza”, de “admiração arquitetônica”, “negócios”, “temáticas”, “culinárias”, “estudo”, enfim, um mundo de diferentes tipos de viagens. Foi começando a escrever sobre esta que lembrei-me do quanto seria oportuno transmitir ao leitor o porquê de nossa escolha, como a definimos e de que jeito eu poderia classificá-la para melhor orientá-lo.

                 Escrever memórias de viagens e transmitir experiências pessoais não é nada fácil. Especialmente para quem não quer exagerar na descrição do encantamento, na precisão das impressões e dirigir pensamentos e opiniões. Penso que deva pensar e agir assim qualquer escritor responsável, de forma isenta e imparcial. Tento ser assim, mesmo que eu não seja profissional, tampouco tenha a competência, talento e experiências do Haroldo e do Tito. Para mim, por vezes, é até penoso escrever sob a luz dessas minhas convicções. São elas que me fazem refletir e revisar, revisar e revisar o que escrevi. É assim, enquanto as planejo, que minhas viagens já ‘acontecem’ antes mesmo de viajá-las. Viajo muito mais ainda durante e enquanto no destino. E viajo depois, deliciosamente, escrevendo sobre elas e revendo minhas fotos. Com sobra de certeza, esta a fase mais difícil. Não é fácil resgatar reminiscências e transformá-las em palavras tentando ser eficaz. Um dos meus desejos é que o leitor do Fatos & Fotos de Viagens sinta-se inspirado e motivado a visitar o destino que lhe apresento, a mergulhar nas suas histórias e tradições, e, neste caso, a descobrir o curioso mundo de sotaques russo e islâmico, de vodka com véus.

                  A Ásia Central, em muitos aspectos, é o sonho qualquer viajante-escritor-fotógrafo, amador ou profissional. Ainda que a região enfrente sérios desafios ambientais, pobreza extrema e governos autoritários tão ciosos de seu poder, que ameaças oposicionistas tratam-nas brutal e sumariamente. Todas, aliás, convenientemente ignoradas pelo Tio Sam, graças à sua sistemática guerra contra o terrorismo. O ansioso “tio” não pode perder qualquer aliado na região. Sempre governado por déspotas, sua história é tão deprimente que até mesmo o comunismo representou um período de relativa prosperidade. Hoje, 13 anos depois da independência, mais uma vez a região é de países governados por tiranos. Contudo, apesar de todos esses absurdos e contradições, a cultura e a arte islâmicas produziram tão enorme e brilhante oferta de atrações que deixa seduzido qualquer viajante apaixonado. A Ásia Central hoje é uma região dividida em países com nomes terminando em "stão" - Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão - mas apenas o Afeganistão poderia ser classificado como “destino de aventura”. Até mesmo para intrépidos como Haroldo e Tito.

                 Foi assim que percebi que, tratando-se de uma viagem incomum, ainda que comemorativa de uma ocasião muito especial na minha vida, não poderia classificá-la como “de aventura”, “romântica”, ou como destino de “Lua-de-Mel”. Pensando mais, sequer como viagem “de férias”. Alimentados por nossa enorme curiosidade, disposição quixotesca e um certo gosto por “aventuras”, fomos para o ´meio de mundo´ - ou Ásia Central. Os pretextos foram a comemoração de nossa união formal, aproveitar nosso período de “férias”, o gosto pela “arquitetura” e pelo mundo islâmico, mas, de verdade  foi mesmo para atender ao antigo desejo de minha doce Emília. A Ásia Central (*) a atrai desde menina, quando lia as viagens fantásticas do Tio Patinhas ao “Patuquistão”. Foi o bastante para que a região não desgrudasse de seu consciente. Convenhamos, para uma mulher que enxerga o mundo como eu, este seria um belo presente de casamento.

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E assim, iremos para Ásia Central

                 Uma das regiões mais misteriosas e fascinantes do planeta, de histórias fantásticas, de verdadeiras jóias da deserto, de caminhos que ainda hoje alimentam mentes de aventureiros, das caravanas de outrora, dos nômades e conquistadores. Esta incrível viagem através de paisagens belíssimas e da cultura islâmica começa em Tashkent, cruza naturezas surreais e termina em Bishkek, no Quirguitão. Visitaremos Tashkent, Samarcanda, Khiva, Bukhara, Bishkek e Karakol. Algumas destas cidades estão paradas no tempo, outras são tão míticas que tornam-se quase lendárias, mas todas são surpreendentes. Por aí o tempo cruza campos, montanhas e semi-desertos na mesma velocidade das caravanas de Alexandre O Grande, de Gengis Khan e de Marco Polo, o mercador, embaixador e explorador veneziano que em 1271, com seu pai Nicolau e seu tio Matteo, seguiram pela região sobre camelos (**). Hoje, os patrimônios brilhantes, as incríveis amostras de um período áureo da cultura muçulmana e alguns dos mais impressionantes monumentos islâmicos do mundo, tornam o destino e a viagem uma incrível jornada de descobertas do que foi uma das mais incríveis aventuras da humanidade. A Rota da Seda, rede de estradas que ligava o Extremo Oriente ao Mediterrâneo transportando produtos do Oriente para a Europa, e no caminho contrário, através de montanhas, desertos e estepes.

                  Açafrão e pistache da Pérsia, incenso, aloé e mirra da Somália, sândalo da Índia, garrafas de vidro do Egito, sedas e outros bens manufaturados tão caros e desejados no ocidente. A seda, tecido leve, macio e sensual, era um dos produtos mais caros entre os que se levavam nas valiosas cargas dos caravaneiros, entre pedras preciosas, especiarias, marfim, cerâmica, porcelana e incenso. Por isso os chineses a mantiveram em segredo por muitos anos, tornando-a uma preciosidade até finalmente popularizar-se. Hoje, os países ao longo da rota são acessíveis como nunca. Os trechos, então poeirentos por onde seguiam os camelos, são agora estradas pavimentadas por onde trafegam carros, ônibus e caminhões. Ainda assim, mantém viva sua história, místicas, bravas e românticas histórias que esperam ser descobertas por nós, os viajantes modernos. Foram o patrimônio, as idéias, culturas, etnias, ideologias e religiões que promoveram nossos mais incríveis desejos de visitar o Uzbequistão e o Quirguistão, que evocam as imagens de bazares coloridos, de mesquitas imponentes, de desertos, de lendas e histórias. O Uzbequistão é o país com melhor infraestrutura turística - de transporte a hospedagem - em toda a Rota da Seda, na parte da Ásia Central. Terminaremos esta viagem em Istambul, a “nossa cidade” e esperamos trazer na bagagem lembranças materiais e enorme massa cultural.

                  Boa viagem! (E leve as crianças!)

                  A seguir... Uzbequistão - O meio do mundo

 NOTAS ___________________________________________________________________

(*) Nota 1: para as Nações Unidas, a Ásia Central é uma sub-região, compreende apenas o Casaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Usbequistão. Todavia, também consideram-se parte dos territórios do Afeganistão, da China, Índia, Irã, Mongólia, Paquistão e da Rússia. Portanto, toda a Ásia Central reconhecida oficialmente pelas Nações Unidas é formada por países da ex União Soviética. 

(**) Nota 2: tornaram-se os primeiros ocidentais a percorrer o caminho entre a Europa e a Ásia, uma série de aventuras mais tarde documentadas em livro próprio. Ainda que jamais a Rota da Seda tenha sido uma única via, senão uma rede de rotas ligando a China à Ásia Central, continuando à Índia, Pérsia até o Mediterrâneo, este é seu trecho mais emblemático e o que mais inspira os viajantes. O nome Rota da Seda refere-se à rede de caminhos que se estendia da China aos portos do Mediterrâneo, por onde circularam entre os séculos I e XV, os mercadores, missionários, peregrinos e conquistadores de diferentes etnias e culturas. Marco Polo provavelmente não foi o primeiro ocidental a passar pela Rota da Seda, mas foi o primeiro a deixar um relato de suas viagens em livro.

 (***) Nota 3: livros recomendados:

 “Nas fronteiras do Islã”, de Sérgio Túlio Caldas – Editora Record - ISBN 8501063371

“In Xanadu”, de William Dalrymple - Lonely Planet - ISBN-10: 1864501731