MENSAGEM ao LEITOR
BIO

BEM-vindo!

       Sou brasileiro, empresário e casado com a doce Emília do blog "A Turista Acidental". Desde que a conheci (e antes mesmo de nos casarmos), tornou-se a "mais-que-perfeita" companheira de vida, de idéias, de projetos e ideais, sobretudo encantadora, adorável e inspiradora companhia de viagens e de aventuras. Com ela compreendi o que significa "prazer de viajar". Foi (e continua sendo) minha melhor fonte de inspirações e de motivações. Tanto que qualifico minhas viagens como "antes e depois" da Emília e "antes e depois" da Índia. Foi com ela que percebi o que quis dizer Érico Veríssimo com "Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado certamente chegará mais longe." Somos pais de gêmeos - uma menina e um menino - nascidos em julho de 2015.

       Tenho 64 anos, boa parte deles dedicados à família e ao trabalho, mas apenas aos 35 pude começar a viajar internacionalmente. Desde então visitei 60 países, entre os quais alguns dos mais fascinantes e com os sítios mais admiráveis do planeta. Felizmente, para alguns deles ainda a salvo do turismo de massa, cujos excessos arruinam qualquer lugar. Em março de 2006, quando iniciei este blog, o fiz como meio de comunicação com a família e amigos. Anos mais tarde eu descobri o poder de contar histórias em textos e fotografias, e logo ele tomou outro rumo, provavelmente porque os leitores gostavam dos textos e das fotos, ou então porque na época havia pouquíssimos blogs.

       Fiz cerca de 90 viagens internacionais, voei por 40 cias. aéreas diferentes (algumas extintas) em 391 vôos para fora do Brasil e dentro de outros países e em todas as classes possíveis. Segundo Haroldo Castro - jornalista-fotógrafo-escritor que já esteve em 160 países -, o maior viajante que conheço, em seu teste "Viajologia" que se pode fazer em seu site, que considera não apenas a quantidade de países visitados, mas lugares, monumentos e patrimônios, além de transportes, experiências e situações difícieis porque passam os viajantes, alcancei "Mestrado em Viajologia". Mas isso não é nada diante de gente que lá já "graduou-se" em pós-doutorado.

Escrevo este blog sob uma perspectiva lúcida e sem concessões à monetização sem critérios

        Eliminei o contador de visitas deste blog quando marcava mais de 6 milhões. Audiência hoje em blog é decadente. Viajar, escrever e publicar algo que inspire e icentive o leitor é o que mais me motiva, e também parece ser o que trouxe tantos até aqui. Ou porque gostem de fotografia, para além da leitura odepórica, como eu. E por este blog não ter captulado à ambição e vaidade que levou tantos autores de blogs à monetização sem critérios, sobretudo enganando leitores, cada dia torna-se menorzinho e menos importante. Se continuarem assim, os blogs precisarão ser reinventados. Mas estou sempre por aqui. Nem que seja em pensamento.

         Agradeço a visita e os comentários e desejo boa viagem aos leitores.

#blogsemjaba

Em tempo: este blog não integra nenhuma associação disfarçada de incentivos à monetização. Mas se um dia fundarem a ABBLI (Associação Brasileira de Blogs Livres e Independentes), por favor, me convidem!

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Sexta-feira
Out182013

IRÃ - Chegamos ao país atômico 

 Senhora iraniana em Teerã em traje conservador

                 ERAM quase duas da manhã. Trinta minutos mais, pousaríamos em Teerã. Nada me preocupava, senão a intensidade dos estímulos daquele momento. Não era medo. Nem desconforto. Tampouco insegurança. Afinal, sabíamos de antemão, não corríamos perigo algum, a não ser de nos apaixonarmos pelo Irã. Era ansiedade, um "não sofrimento", a sensação de ver materializar-se um sonho tão bem sonhado, de uma viagem tão esperada.

 Kamenei e Komeini

                 Peguei meu passaporte e olhei o visto iraniano pela enésima vez. Parecia um "troféu", uma insígnia de viagem, uma jóia rara entre tantas outras, de tantos destinos fabulosos. Que bonito! Recordei-me do privilégio de ter viajado a países memoráveis, vivido tantas experiências saborosas, e como num filme acelerado, revi cenas de lugares que os vistos me traziam de volta. Tudo parecia fantástico demais... Não "preguei" os olhos no vôo desde Dubai. Se sonhei, foi acordado. Eu estava feliz naquele avião. Vivia mais um privilégio da vida, desta vez consagrando-se em mais uma de nossas viagens. 

  Porta de uma madrassa no Bazar de Kerman

                Em alguns minutos pisaríamos em solo iraniano, estaríamos prestes a conhecer o fabuloso conjunto de monumentos e de paisagens, e viver a história de um império de 2500 anos, do Irã antigo e místico, de contos de fadas. Mas também estávamos curiosos para a variedade natural, pela arquitetura, pela cultura exemplar, pela relação com as pessoas. Eu sonhava com os tapetes persas, uma de minhas paixões, especialmente os Tabriz. Prometi deixar alguma curiosidade para o que é moderno, para a história da Revolução de 79, para o Irã que tornou-se centro das atenções do mundo depois disso. 

Placa de rua em Teerã

                 O comandante anunciou as advertências de praxe: apertar cintos, voltar encostos das poltronas, essas coisas. As mulheres começaram a cobrir a cabeça, adaptando-se às regras de vestimenta do país muçulmano xiita, de leis rigorosas, sobretudo na forma de vestirem-se: cabelos, braços e pernas precisam ser cobertos.

    

              Tradicionalmente, através do 'chador', ou então, com calças e blusas compridas, o manteau e o hijab. Observava minha doce Emília preparando sua transformação de mulher ocidental a persa, também para atender os desígnios da Constituição do Irã, respeitar as virtudes morais do islamismo. Ajeitava o lenço sobre os cabelos. Não estava certo de que cumpriria seus preceitos, parecia instável aquele lenço, relutava em permanecer no lugar. Ela não, parecia está confiante, o mantinha à cabeça movimentando-se naturalmente. Treinou em casa, encontrou seu jeito feminino de ficar bem (como sempre), o que me encanta (como nunca). "Está linda!", eu lhe disse. “Mesmo?”, disse ela pergunta, como se duvidasse da verdade.

No Bazar de tapetes antigos de Tabriz 

                 Enquanto não pousávamos eu ia me lembrava da História. Dia primeiro de fevereiro de 1979, um avião da Air France pousou no mesmo Aeroporto Internacional de Teerã trazendo Ruhollah Musavi Khomeini, o clérigo islâmico, natural do interior rural do Irã, não pisava sua terra natal há 15 anos. Não por gosto, mas por isolamento imposto políticamente. Suas vestes pretas constrastavam com a espessa barba branca que a usou até a morte. Desceu do avião apoiado por um oficial francês. Tinha pose de estadista, cara de homem mau. Seguido por dez pessoas no curto percurso da escada ao solo de seu país, milhões (estimam-se 5) o esperavam em terra. O retorno foi triunfante. Marcava o fim de uma era, que tirou do poder o xá Reza Pahlevi, e de um povo frustrado com a pobreza e a violência daquele regime. Irrompeu em fúria, derrubou o monarca esbanjador apoiado e protegido pelos Estados Unidos (e Israel, claro). O evento marcou o início de outra era: a Revolução Iraniana. Desde então sobram raivas e acusações retóricas entre os três países: de um lado o programa nuclear e o apoio iraniano ao Hamas e ao Hezbollah, de outro os territórios palestinos ocupados por Israel. As tensões acirraram-se em 2005 com a eleição de Mahmoud Ahmadinejad, presidente populista, falastrão, o Lula do Oriente Médio. Só que linha-dura radical.

Painel revolucionário em Teerã

                 Trinta e quatro anos depois de Khomeini chegamos nós. Gente sem qualquer relevância, anônima, pacífica, simples turistas encantados com o momento da chegada, provavelmente tão entusiasmados quanto Khomeini em 79. Mas vínhamos do país do futebol, quatro meses depois da seleção iraniana qualificar-se para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. O assunto futebol costuma render assunto. Imagino quanto o poderá no Irã. Não faz muito tempo houve outra grande festa, celebrava a eleição de Hassan Rouhani, o novo presidente. "Reformista", parece seguir a via do diálogo, da moderação. Menos conservador que Ahmadinejad, o que é um grande alento. Mas ainda é pouco para sabermos como será o Irã depois de Rouhani. Alguns pensam ser uma ingênua esperança, mesmo depois de suas boas e recentes demonstrações de distensão em relação aos Estados Unidos.  

 Brasil com Z, não tão popular, mas querido

                  Da janela do avião eu via o solo aproximar-se. Uma série de lâmpadas urbanas se destacam e vão enchendo a janelinha. São nossas primeiras imagens de uma cidade imensa, de um país relativamente moderno e civilizado. À primeira vista - apesar das evidências arqueológicas registrarem a presença humana em Teerã desde 6000 A.C. a Capital mais parece uma megalópole moderna, do século XX, não um sítio tão antigo. As luzes dos carros estão acesas. São poucos ainda a trafegarem, mas nos fazem perceber as proporções da cidade. Dizem que a vida é agitada, que o trânsito é horrível, mas não ainda nesta hora do dia. 

Bazar de Tabriz, setor de tapetes

               O trem de pouso do Airbus da Emirates tocou discretamente o solo. Pousar ali pela primeira vez significava bem mais do que o prazer de concluir um vôo seguro. O avião taxiava e aproximava-se do gate do pequeno, moderno Aeroporto Internacional Imam Khomeini (IKA). Iniciamos o desembarque prontos para os bombardeios. Não os que Israel e Estados Unidos vivem prometendo ao Irã. Mas os bons, de imagens e ótimas impressões, da receptividade e da cultura, da tradição e da arquitetura persa, de tudo o que tanto nos encantou na viagem ao Uzbequistão, uma ótima introdução ao Irã.

Grande Bazar de Tabriz

                   Para os padrões internacionais, o aeroporto é vazio. O fluxo turístico é inexpressivo, ainda que enorme o potencial do país. Coisas de países que se isolam. Dizem que a hospitalidade iraniana é prática milenar, orgulho nacional, compromisso sagrado, parte da psiquê iraniana. Creio que ajuda o fato do Irã ainda não ter sido estragado pelo turismo de massa. Não deixa de ser favorável que muita gente ache arriscado, um contra-senso viajar ao Irã.

Romã, fruta nacional

                 Mas os esforços internacionais para isolar o país e forçá-lo a interromper seu programa de enriquecimento de urânio parecem provocar impacto positivo no turismo: o despertar da curiosidade do mundo, um "salto" no fluxo turístico para cerca de 3 milhões de "corajosos" visitantes anualmente. Que deixam 2 bilhões de necessários dólares na economia do país. O governo então olha docemente para o movimento. Dizem que a maioria dos turistas estrangeiros vem da China. Mas quem hoje em dia não vem da China? Brasileiros são traço nas estatísticas, lamentavelmente. Parte significativa dos visitantes vem da Europa. Especialmente franceses, os turistas mais descolados e aventureiros do planeta. Mas também alemães, italianos. Se encontrarmos algum brasileiro além de nós será delicioso. Já garantimos um, o privilégio inusitado de jantarmos com o Gabriel Britto e sua Márcia ao final de nossa viagem e começo da deles. Jantaremos em Teerã. O segundo será com a Fê Costta, brasileira que viaja mais que andorinha em migração e escreve o Viaggio Mondo. Não em Teerã, que já visitou recentemente, mas em Dubai, onde mora. Tivemos o privilégio de seu convite para um café e o aceitamos com imenso prazer.

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Enfim, entramos no Irã!

                 Foi experiência tranquila. E descontraída. Diferente do que poderia imaginar quem assistiu ao filme Argo: uma imigração inquisidora e lenta, feita por oficiais militares barbudos e com cara de maus, vestidos militarmente, num aeroporto de terceiro mundo. Curiosamente, está localizado em Ahmadabad, cidade a cerca de 30 km de Teerã. Para um grande aeroporto internacional, faltou um pouco de inspiração persa, sobrou monotonia.  Eu não esperava ver cartazes revolucionários anti-americanos espalhados nos corredores do aeropoto no caminho do avião aos balcões de imigração. Sei que ficam na cidade. Tampouco ser interrogado por soldados suspeitando de nossas pacíficas intenções turísticas, mas também não por agentes com fisionomias tão simpáticas, descontraídas mesmo com o avançado da hora. Estávamos na fila dos estrangeiros. A dos irananos estava bem cheia. À nossa frente apenas um casal de franceses enfrentava a formalidade da entrada no país. Não posso dizer que o coração batia no modo calmo, mas foi tão rápida e sem perguntas nossa imigração que fiquei quase decepcionado. A bagagem veio em tempo aceitável. Passamos pelo Raio X da alfândega sem problemas. Antes de sairmos ao saguão fui ao caixa do banco trocar uns dólares. O simpático atendente sugeriu que eu trocasse na cidade, onde a cotação era muito mais favorável que a dele!

Pedaço de Persépolis no espetacular Museu Nacional do Irã, Teerã 

                 Lá fora, no saguão do aeroporto, nosso receptivo segurava uma placa com meu nome e nos dava boas vindas com um sorriso assim que acenamos. Em perfeito inglês. Podia até ser um barbudo mal encarado, mas não, era um jovem com ótima apresentação e polido. Nos disse "Bem-vindos ao Irã! Perguntei-lhe como seria em farsi e ele respondeu "Khosh Amadid'. Eu respondi-lhe "Mamnoon", obrigado, não muito convicto de minha pronúncia. Merci (do francês, mas como em “mêrci”), à maneira corriqueira.

                 Depois dos cumprimentos e apresentações, nos conduziu com simpatia, receptividade e profissionalismo ao carro que nos levaria pela madrugada ao nosso hotel. Um carro velho, do começo dos anos 90. E iraniano, como a frota do país, onde no porta-malas cabia apenas uma das nossas, metade ocupada pelo o enorme tanque de gáz natural, o combustível do motor.

               - Meu nome é Mojtaba, mas podem me chamar de Mojick, disse o jovem. “Fica mais fácil”, completou. Passou a explicar as atividades turísticas previstas para a tarde do nosso primeiro dia na Capital. Mas às três da manhã eu só pensava em dormir. Do aeroporto à cidade pegamos uma ótima rodovia de três pistas, sinalizada com placas em farsi e inglês. Passmos pelo enorme complexo onde fica o mausoléu de Komeini. Depois atravessamos avenidas largas, arborizadas, praças e parques públicos,  alguns edifícios altos. Mas não vimos os famosos murais de líderes religiosos e anti-americanos. Tudo ainda era desértico, escuro e fechado, próprio às madrugadas, mesmo de uma metrópole. Só conseguimos dormir às 4:00 da manhã. Acordamos às nove. Nosso dia começaria às 11:00.

                 Vou dormir, mas prometo voltar pra contar.

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(*) Notas:

 a) Hospitalidade: ainda que o estereótipo mais comum seja definir o povo iraniano linear e generalisticamente como “fundamentalistas que odeiam ocidentais” (especialmente americanos). Ainda que de fato haja cartazes e grafites gigantescos pelo país desejando a morte da América, definitivamente estou certo de que isto é exceção. E também não tenho dúvidas de que é uma imagem que boa parte do povo parece doida por mudar. Mas há um provérbio iraniano - “Visitantes são enviados de Deus” - que parece desenhar a base da incrível hospitalidade iraniana. Para os brasileiros a sensação será ainda mais notável. Somos um povo que atrai simpatia em quase todo o planeta. Talvez tenha sido este o motivo da imigração mais rápida e fácil porque já passei.

 Embora antes de vir para o Irã eu já soubesse dessa característica, nada superaria a experiência de viver com pessoas tão amigáveis, nem eu poderia jamais esquecer como fomos tratados durante o tempo em que estivemos no país. Do primeiro ao último minuto. Não houve um momento que alguém não tenha demonstrado hospitalidade. Não seria possível descreevr o tipo da enorme atenção e simpatia com que fomos recebidos. Foi como sê-lo em suas casas, quando ainda demonstram mais para que se seus convidados se sintam confortáveis e bem-vindos. Outra característica da personalidade dos iranianos é a cultura e a sofisticação: não conheço nenhum outro país onde as pessoas declamam poesia nas ruas.

 b) Clichês: evitá-los é fundamental para qualquer destino, especialmente ao escrever. Mas tratando-se do Irã, é preciso cuidado especial para não usá-los. Ler muito sobre o país ocasionalmente nos faz encontrá-los. O clichê mais comum é afirmar que o governo do Irã não é seu povo. É possível que tenham me escapado alguns e os encontrem aqui os leitores. Peço desculpas e que os apontem sem cerimônias. Entretanto, os mais óbvios, não encontrarão: "O Irã não é o que se espera"; "O Irã é uma terra de contradições"; "O Irã é um país exótico"; "O povo é  muito hospitaleiro"; "O Irã é um país de contrastes"; "Há fotos de heróis da revolução e de mártires por todo lado"; "O iraniano dirige como um louco"; "Os carros são velhos"; "Os cidadãos têm uma vida pública e outra privada". 

Estereótipos levam tempo para se dissiparem da mente. Tempo e informação. É preciso muita leitura e pesquisa. Estereótipos fazem parte da natureza humana, infelizmente alguns arraigados demais. Eles existem quase sempre em relação a pessoas diferentes de nós. No caso do Irã, nada como uma viagem ao país para vermos como é notável nossa desinformação, para demoli-los arrasadoramente. 

 c) Turismo: de acordo com dados oficiais iranianos, cerca de 3.200.000 de turistas estrangeiros visitaram o Irã em 2012, embora as estatísticas não distinguam o que é turismo de negócios, de lazer ou de peregrinação religiosa. Apenas que a maioria vem de países asiáticos, especialmente China e Índia, mas incluindo aí as repúblicas da Ásia Central. A menor parte vem da América do Norte e da União Européia, especialmente da Alemanha, Itália, Bulgária, França e Bélgica. Brasileiros são traço nas estatísticas.

 d) Argo: o filme de Ben Affleck que conta a história do resgate de seis americanos sequestrados no Irã, é um bom filme de suspense, mesmo que a gente já conheça o final. A versão conta como foi o resgate em Teerã, em janeiro de 1980. Não é só uma boa história, mas útil para que se conheça as origens do confronto dos Estados Unidos com o Irã.

 e) Hijab: em persa a pronúncia é hejab, mas o significado é o mesmo do árabe hijab, "cobertura" ou "véu", mais precisamente o termo designa uma conduta de pureza e modéstia na religião islâmica. Por isso tomei a liberdade de usar ambas as pronúncias no texto. Embora o cabelo deva ser coberto, não precisa ter o lenço apertado em torno da cabeça. É bastante aceitável deixar uma parte dos cabelos livremente. A moda iraniana tem que ser respeitada, ainda que os limites precisos do vestuário feminino sejam uma incógnita de difícil compreensão para nós ocidentais: a despeito de todo o esforço da Polícia Moral, a sociedade iraniana frequentemente é incontrolável, ao menos pacificamente. Sempre que podem, jovens demonstram sua força e desejo em desrespeitá-la, o que significa dizer contrariar o islã, aquele praticado pela maioria dos iranianos, e que governa suas vidas pessoais, políticas, econômicas e jurídicas. Aquele mesmo islã que emana da atual - e conservadoríssima - Arábia Saudita. Desde 1979 a vida das mulheres no Irã mudou drásticamente. Décadas antes elas já não usavam véus nem precisavam esconder tanto seus corpos. Mas desde então, a revolução pareceu concentrar nos costumes o foco das mudanças revolucionárias.

Fontes: Chá de Lima da Pérsia http://azizamiran.blogspot.com.br/2012/06/o-hijab-no-ira-e-suas-variacoes.html

News About Iran http://iransnews.wordpress.com/2011/04/19/

 f) Segurança: salvo nas províncias de Sistan, Baluquistão e Khorasan, regiões de tráfico de drogas do Afeganistão, onde há crimes de roubo, morte e seqüestro, e em cidades como Zahedan, Zabol e Mirjaveh, particularmente perigosas, o Irã é tranquilo, seguro e amigável para o turista.

g) Internet: depois de quatro anos de bloqueio, o governo iraniano liberou nesta segunda-feira (16/09) o acesso de seus cidadãos ao Facebook e ao Twitter, de acordo com publicações nas contas de jornalistas vivendo no país. Essas redes sociais haviam sido proibidas em 2009, em decorrência dos protestos que marcaram a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad. Fonte: Folha Política -" Irã permite acesso a Facebook e Twitter pela primeira vez desde 2009. http://www.folhapolitica.org/2013/10/ira-permite-acesso-facebook-e-twitter.html

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A seguir:

Teerã - As primeiras lições da Pérsia

Terça-feira
Out082013

IRÃ. A Serendipitia, o Amigo do Rei e a (minha) "arte" de viajar 

 A Serendipitia  ______________________________________________________________

A Serendipitia e os livros 

                          LIVROS nem sempre chegam a mim por desejo. De certa forma, até por acidente, assim, meio sem querer, como os acasos da vida. Acontecem, simplesmente. A lingua inglesa define estes casos fortuitos com uma bela palavra: serendiptyÉ difícil a tradução, daí outros idiomas resumirem-se às equivalências sonoras. Em francês, por exemplo, sérendipicité ou sérendipité. E foi a única lingua a tentar traduzir a palavra. Virou heureux hasard, ou chance fortúita. As demais respeitaram a bela sonoridade original, adaptando-a aos seus sotaques: serendipità, em italiano; serendipiteit em holandês; serendipität em alemão; serendipiti (セレンディピティ) em japonês; serendipitet em sueco, dinamarquês e norueguês; serendipitate em romeno ; em espanhol ficou serendipia; em polonês serendypność e em filandês serendipiteetti.

                          A definição conceitual faz juz à romântica sonoridade quando define a serendipitia como "ocorrência inesperada, circunstancial, extremamente oportuna e de grande utilidade". Dessa rara contingência, ou dom, das descobertas felizes, casuais e proveitosas -  tenho tirado o máximo proveito, mesmo esperando o mínimo. Têm produzido bons resultados as minhas serendipitias com os livros e as viagens, sobretudo quando enfrento minhas dificuldades ao escrever.


Irã: "Espelhos do Não Visto" e os Vistos

                          NÃO faz muito tempo a serendipitia me pegou. É claro porque em boa dose eu estava preparado para ela, também porque pareço não fazer mais nada na vida do que pensar, me preparar, ler, pesquisaar e "estudar" o Irã para nossa viagem. A web promove essas oportunidades das descobertas fortuitas e aprendizado. Talvez porque nunca se tenha compartilhado tanta informação e conteúdo. Então foi assim, através da web e com a serendipidade que ocorreu meu encontro com Mirros of the Unseen: Journeys in Iran.

                        O livro seria uma feliz descoberta mesmo pela simples leitura de um primoroso relato de viagem. Mas para quem está embarcando ao Irã e pretende aventurar-se a escrever sobre o país, o encontro torna-se bem mais proveitoro, precioso. Seu valor assume então um grau superior, o de tesouro, de tão repleto de idéias, informações, inspiração e motivações. E também a pensar que quanto mais guia de viagem um relato for, mais rapidamente se tornará obsoleto, desatualizado. Ao contrário, sendo escritos como romances do tema, os relatos de viagens permanacerão atraindo, cativando e encantando leitores mesmo depois de tantos anos escritos.

                          AS reflexões e experiências descritas pelo autor - o londrino Jason Elliot - focadas na tradição e no intelecto do povo persa, resultaram de suas inúmeras viagens ao Irã. Estudou farsi, a lingua nacional, para que tudo ficasse mais fácil, da comunicação ao aprendizado. Mas Elliot trata do assunto Irã com uma particularidade que me agrada: evita a política contemporânea sem ignorá-la ou também alienar-se dela. Que sabedoria! Revelada em cada palavra do relato, em forma de contos e depoimentos, de opiniões, história e cultura. É como, afinal, deveriam ser todos os relatos de viagem. Mas, para escrever algo assim é preciso ter, além de talento, um bom jeito de olhar para os lugares: generosidade intelectual e humanismo. Elliot vai fundo para perceber os povos e culturas, sobretudo eliminando clichês e estereótipos. E cativa os leitores, com a sabedoria de deixá-los livres para que tirem suas próprias conclusões.  

                             NA história da literatura de lingua inglesa o gênero "relato de viagem" tem destaque no "hall da fama". Inclusive sobre a Pérsia. Viagens bem viajadas e bem escritas sempre levam a boas reflexões. Não apenas para quem as escreve, sobretudo para quem as lê. Mas não é fácil produzir bons relatos, documentar histórias de viagem onde destacam-se a cultura, o patrimônio e a civilização. Para além de talento, é preciso abordagem pessoal. Personalidade, afinal, é o que os tornam atraentes, os diferem dos guias de viagem. Mas Elliot tem uma peculiaridade ainda mais incomum, especialmente quando escreve sobre o Irã: usa arquitetura como personagem. E vai a fundo na sua origem. Interpreta seu caráter, forma e estrutura, e ainda encadeia as arquiteturas persa e islâmica com civilização e cultura. Tudo com um talento que leva o leitor à admiração por sua inovadora característica na arte de escrever relatos de viagens.

                             NÃO é pra menos. A arquitetura persa vem dos Séculos VI a IV a.C. E deriva sobretudo das ruínas dos palácios e templos de Pasárgada, Persépolis e Susa, onde as linhas mostram influências egípicias e gregas, resultando todavia num desenho único, persa, como nos ensina o livro História Ilustrada da Arquitetura (Emily Cole, PubliFolha). A perícia arquitetônica e ornamental persa não é casual nem superficial. Em Persépolis, por exemplo, trabalhavam artesãos extremamente habilidosos de todos os cantos do império. Produziam um acabamento tão meticuloso que algumas apredes eram polidas até ficarem com aparência de jóias. Paredes de pedra e peças de madeira eram entalhadas intrincadamente e com tal fineza que pareciam trabalhadas por joalheiros. Volutas, rosetas, capitéis, colunas e carpitaria muitas vezes eram pintados de turqueza, amarelo e vermelho, revestidos em ouro, incrustados em marfim, turmalina verde e hematita vermelha.

                            QUALQUER bom escritor tomaria Elliot como exemplo. A nós, medíocres, só resta invejá-lo. A história vai se revelando na sua viagem por um texto pessoal, entretanto sem jamais "cair" na armadilha que aprisiona alguns autores do gênero: a pretensão de prevalecerem sobre o destino. O que descreve Elliot é sempre maior daquilo que ele pensa. Então, a serendipitia não poderia ter sido mais oportuna: o livro orientou meu pensamento, guiou meus primeiros passos para compreender o país e inspirou-me a enfrentar minha própria aventura: escrever sobre o Irã com o mesmo grau de responsabilidade e consistência. 

                            MINHA memória é recheada de outros bons escritores viajantes dos séculos 20 e 21. Paul Bowles, Paul Theroux e William Dalrymple são alguns exemplos desses extraordinários autores viajantes, ainda que Theroux seja por vezes meio convencido. São autores tão excepcionais que os críticos de suas obras já não as consideram simples relatos de viagem, mas romances do tema. Destaco Jason Elliot pela serendipitidade, a fortuita oportunidade deste nosso momento tão sonhado: nossa viagem para o Irã. O autor tornou-se referência entre os escritores contemporâneos de viagens. Consideram-no um dos grandes viajantes escritores da atualidade. E conquistou fãs da mesma forma que Robert Byron fez depois de The Road to Oxiana, também considerado o primeiro grande escritor moderno de relatos de viagens. Jason Elliot seguiu a tradição iniciada por Byron, todavia inovou tanto que passaram a considerá-lo também um "criador de novo ciclo no gênero", autor de uma nova maneira de escrever sobre viagens. Inspirei-me nele (desculpe, Elliot!) e no seu poder descritivo, na sua imensa capacidade de evocar, na sua justiça e imparcialidade ao abordar o país. E o fiz sem a mais remota pretensão, senão num grau superior de referência, de modelo e de admiração. E me alegra muito perceber que grandes viajantes não precisam de um blog, site, publicidade e pagamento para viajarem e produzirem bons livros. São autores escrupulosos.

                            NO primeiro parágrafo, na introdução à sua obra, Jason Elliot reconhece que “Não há nada como escrever um livro sobre outro país para estender nossas fronteiras da ignorância.” Com uma afirmação dessas, elementar mas precisa, fui conduzido a refletir de novo sobre o tema: quanto mais conheço o mundo, mas difícil torna-se generalizá-lo. Cada nova viagem, cada país que visito, detalhe que observo, pessoa que conheço, comida que provo, residência que entro, sou levado a aprender algo. Do mais simples ao mais importante. E todos vão tornando mais difícil encarar o mundo com a presunção de que é possível compreendê-lo. E tudo torna qualquer generalidade um estereótipo. Assim vou viajando, sabendo que por mais que eu "conheça" o mundo, mais percebo sua complexidade e contradições. 

                            COM a "arte" de escrever sobre viagens morrendo, sobretudo levando consigo o interesse do leitor, não deixa de ser um alento conhecer um livro tão genial. E bem mais do que levar-me a boas reflexões, este serviu-me de alento: se de fato o gênero morrer, que o faça com a mesma dignidade deste livro.

                             ALGUÉM aí se recorda de um bom best seller do gênero relato de viagem? O último que me ocorre, caro leitor, é “Comer, Rezar, Amar”, de Elisabeth Gilbert. Não o li. Não me "fala" o estilo, ainda que bastante o gênero. É meio "auto-ajuda", e Paulo Coelho demais. Mas fez sucesso estrondoso, não posso negar. Queria ver um “Comer, Rezar e Amar”, no Irã! Mas aquele foi do tipo “não li e não gostei”, reconheço. Até virou filme. Foi protagonizado por Julia Roberts. Assisti. Não gostei, mas não estou certo se por causa da "sem-gracisse" da protagonista ou pela "qualidade" literária. Ao menos foi legítimo, escrito com base no que viveu sua autora, não dirigido pela "monetização" dos relatos de viagens. Ganhou dinheiro, mas com que legitimidade.

                            O mesmo aconteceu quando "encontrei" David Byrne. O músico, compositor e produtor musical, dublê de escritor, é muito mais famoso por fundar a banda Talking Heads, em 1974 e por ter sido um dos precursores do new wave e do worldbeat. Foi até premiado com diversos Grammy. Enfim, este mesmo Byrne escreveu Diários de Bicicleta. Por serendipidade. Ela o pegou, tornou-o escritor por mera casualidade e circunstância. Em seu livro o músico-viajante-escritor afirma: Não ando de bicicleta para todo lugar por ser ecológico ou digno de nota. Faço principalmente pelo senso de liberdade e êxtase. Byrne narrou suas passagens pelos Estados Unidos, Berlim, Istambul, Buenos Aires, Filipinas, Sidney e Londres. Por onde ia, levava sua bicicleta dobrável. E a usava como meio de transporte. Genuinamente. Por gosto, não por modinha. Tampouco tentando ser politicamente correto, ainda que admitisse estar sendo. Byrne até poderia tornar-se um ativista chato, um "bici-chato" (já há tantos). Mas não. Com simplicidade convida o leitor a viajar em suas pedaladas. E como bom escritor o agarra no começo da leitura e o solta só quando ela termina.

                             SE então escrever e compartilhar viagens é como afirma o virulento Paul Theroux a mais baixa forma de estilo literário, uma falsidade criativa, linguagem despropositada, exibicionismo inveterado, quase uma distorção da Síndrome de Munchausen(*), para Paul Bowles, bem menos ácido (e mais simples), eles são a história do que aconteceu a alguém num determinado lugar. Sem informações de hotéis e estradas, sem lista de frases úteis, estatísticas e dicas de vestimenta. Pode ser que pertençam a uma categoria destinada à extinção. Espero que não, porque nada me agrada mais ler do que um relato de viagem preciso, de um escritor inteligente, descrevendo o que lhe aconteceu distante de casa.

                             ENQUANTO os leio fico aqui pensando se as assombrações recorrentes quando escrevo aparecem pra toda essa gente. Ou se mesmo apenas para os sem talento. Será que apenas os menos afortunados sofrem esse exercício crítico que bloqueia o modo criativo e põe a escrita encalhada?

 

                                   E com os geniais? Apenas para os auto-exigentes? Para os que com ela tentam aplacar a incompetência? Ou somente para os que não se possam chamar de "estilistas da escrita", os capazes de produzir algo interessante e atraente todo o tempo? Não sei, mas o que faço é tentar, tentar, tentar. E imaginar que um dia não morrerei na "praia". Os meus “fantasmas” assustam, mas de uma forma peculiar: todos sabem que não acredito neles, em almas deste ou de outro mundo. Então, para mim, eles tomam a forma de vergonha. Alheia. Aquela que poderá expressar o leitor ao ler o que escrevi. Sou um perdulário das palavras. De muitas e pobres palavras. E assumo que elas "despencam" da mente quando tento escrever. E ao tomarem a forma escrita, junto-as tentando dar-lhes sentido. Mas a coisa vai tornando-se mais difícil à medida que tento desenvolver parágrafos: apenas alongam a distância entre intenção e resultado. Um eterno conflito vivo entre querer (escrever bem) e não poder. Mais que um exercício, a arte de escrever sobre viagens para mim é uma acrobacia. Ainda assim persisto nela, agora num atrevimento ainda maior: sobre o Irã. E sem saber se é possível fazê-lo bem, turisticamente falando, exercendo a minha própria "falsidade criativa", a "linguagem despropositada" e o "exibicionismo inveterado" com que nos classificou Paul Theroux. A conferir. Se a minha luta contra a mesmice, a perseverança e resistência, o meu esforço para tentar criar de algo decente, resultará numa vingança positiva. Vocês sabem, minha gratidão aos leitores é inversamente proporcional ao meu desapego por este blog.

 Fomos para o Irã (com os dedos cruzados)  _______________________________

                             E a menos que Israel e o arrogante Netanyahu, com os Estados Unidos, cumpram as promessas ameaçadoras - bombardearem o Irã -, voltaremos pra contar nossa viagem ao país atômico. E revelar ao leitor a grandiosidade patrimonial, a riqueza histórica e nossa experiência no país. Será a minha maneira de retribuir tanta coisa boa e consistente que li sobre o país em meses de pesquisa. E também a atenção dos leitores que por aqui passarem e nos desejarem boa viagem. Tudo na minha singela maneira de relatar viagens: em fatos, fotos, pensamentos e reflexões. Desta vez abordando a arte e a arquitetura persas e islâmicas, as cidades e lugares que visitamos, as paisagens, o que é turístico e o que não é, a comida, a gente, enfim, os caminhos que percorremos para chegar a Teerã, Tabriz, Shiraz, Isfahan, Kashan, Kandovan, Kerman, Yazd, Persépolis e Pasárgada. Sobretudo um mundo raramente visto no noticiário da TV, nossas descobertas e o que fizer sentido para quebrarmos até os mais discretos clichês e estereótipos.

 O Amigo do Rei   ___________________________________________________

                            O Amigo do Rei é um lugar pra se comer comida iraniana. Único no Brasil. É "um lugar" porque não é um restaurante. Já foi. Em Belo Horizonte e em Paraty, por onde os donos andaram cozinhando. Tentativas infrutíferas de ir aos dois lugares desde 2004 só agora se resolveram. Hoje é um serviço especializado em culinária iraniana na casa dos interessados. Exclusivamente em São Paulo.

                            A culinária persa, tão indescritível quanto maravilhosa e requintada, também pode ser provada na residência da cadbanou* Nasrin.  É experiência igualàque se pode ter no Irã, onde dizem não serincomum que famílias convidem turistas a comerem em suas casas. Aqui é fácil agendar por telefone. Assim o fizemos. 

                           Na casa de Nasrin e seu marido Claudio Battaglia estava também sua filha Iramaya. Agora nos correspondemos por e mail. Eles nos mandam dicas do Irã, nós lhe enviamos notícias nossas. Provamos a culinária riquíssima mas não sei se experiência deliciosa foi maior pela qualidade da comida, pela simpatia dos anfitriões ou por horas de conversa sobre o Irã com a família.  Só sei que voltaremos depois da viagem ao Irã.

 A (minha) "arte" de viajar  _________________________________________________

                             QUANDO menino jamais pensei que conversar comigo mesmo fosse um desajuste, senão um jeito tímido de ser. Ou diferente dos demais. Eu me percebia assim quando olhava meus colegas. Embora jamais tenha achado que algo de errado houvesse comigo. Mesmo que alguns “intérpretes” do meu jeito de ser julgassem-no uma forma sutil de “desajuste”. Não era. Apenas introspecção. E foi um psiquiatra, não um idiota, quem esclareceu tudo. E me fez compreender que pessoas saudáveis intelectualmente são diferentes umas das outras. Apenas isso. Não fui levado ao profissional porque estava doente, mas para que me aplicasse um teste vocacional. Eu tinha uns quinze anos. O médico definiu-me técnicamente como “cerebrotônico”. E diante de meu espanto com a palavra, antes que eu pensasse ter uma doença grave, explicou-me que são as pessoas introvertidas, que têm predominância das atividades intelectuais sobre as físicas. E que em nada os cerebrotônicos são superiores aos demais. Mas também não inferiores. A não ser na prática de alguns esportes, no que somos uma negação! Estamos apenas enquadrados entre os tipos classificáveis pela psiquiatria. Tudo então tornou-se ainda mais claro, e só confirmou o que eu já sabia: não havia nada de errado comigo.

                            AO recomendar aos meus pais que me ajudassem a fazer certos ajustes de conduta, a fim de tornar-me um pouco mais extrovertido, o profissional também orientou-lhes explicando que por trás da minha introversão eu desenvolvera um precoce prazer em escrever. E de refletir sobre mim mesmo, sobre o mundo e tudo mais. Desde então mudei minha abordagem filosófica sobre o mundo e as pessoas. Particularmente das religiões. Passei a ser livre delas. E a desprezar estereótipos e classificações não profissionais. Sou assim até hoje. E enquanto viajante-escritor amador transmito no que escrevo minha visão positiva de como devemos encarar o mundo: como ele é, não como o prescreveram. Deste então me tornei pronto para conhecer o mundo. E foi assim que eu e as viagens ficamos amigos muito cedo. 

                            GRAÇAS à vida por ter-me dado tanto: a sorte de receber orientação e cuidado familiares, a compreensão de que pessoas são diferentes e que o mundo é como é. Ainda garoto, passava horas olhando o horizonte da janela imaginando o mundo. Eu mal sabia dele, mas muito desejava conhecê-lo. Foi de meu pai que herdei esses traços: o gosto por viajar, pela leitura, por escrever e fotografar. E assim, muito cedo, infiltrou-se em mim a curiosidade pelos países, então um sonho impossível. Ainda hoje sinto a intensidade deles. Prestes a embarcar para o Irã - tesouro entre meus tesouros turísticos -, reconheço o imenso privilégio, e considero que o “tanto“ a que os versos da canção de Mercedes Sosa se referem equivalem a muitos outros privilégios. Entre todos, o de poder viajar tantas vezes para tantos lugares. E olhar o mundo sem classificá-lo, com a tolerância dos justos, a mente dos espertos, o respeito pela diversidade dos viajantes vivos, a admiração pelo destino, a complacência com as diferenças e a concentração no que importa: positividade sobre todas as coisas. Tratando-se do Irã, é a maneira efetiva de compreender o país e tudo o que ele representa de tão grandioso. Tudo o que consagra-se na verdadeira arte de viajar, que tão cedo e sem saber, aprendi.

                            VIAJAR, pra mim, não é fuga, senão convergência pra mim mesmo. É para estar comigo mesmo (e minha doce Emília!). Não é para fugir de mim, tampouco da vida que tenho. Para os ccerebrotônicos é coisa de gente que pensa muito e despretensiosamente. Ao menos pensa bem mais do que se exercita fisicamente. É coisa de gente inquieta, mas não da inquietude nociva dos inconformados, senão a das explorações positivas que levam às descobertas e ao aprendizado.

                           É própria de gente ávida por respostas, mas que vive uma eterna boa relação com a vida. Porque não pensa na morte. Simplesmente porque não acredita em “vida” depois dela.  Viajar para mim não tem relação com insatisfações pessoais, com “buscas de mim mesmo”, “fuga” de qualquer coisa, com “sentido para a vida” ou com nenhuma outra forma de angústia, de desconforto ou inconformismo. Não viajo para ser feliz. Sou feliz porque viajo. E nada mais faz tanto sentido. E se há coisas que me movem e promovem, viajar e contar estão entre elas.

                          E assim fomos para o Irã.

                         OBRIGADO pela visita. E deixem-se apaixonar (pelo Irã). Até lá! 

Segunda-feira
Set302013

IRÃ, na semana que vem

                   SEMANA que vem embarcaremos para o Irã. Sexta passada pegamos nossos vistos, bilhetes aéreos externos e internos, vouchers e seguro. Creio que para qualquer viajante, sonhar, planejar e organizar uma viagem é fenomenal. E perceber que o sonho vai se tornando realidade seja uma experiência e tanto. Mas nada supera o prazer de viver a viagem. Acedito que seja menor apenas que o arrependimento de não tê-la feito. Não vivo esses conflitos, felizmente. Viajamos para onde escolhemos e quando queremos. Já escrever sobre viagens é meu tormendo.

               Ninguém precisa entrar em conflito por escrever turisticamente sobre um país. Mesmo sobre os mais complexos e controversos, como o Irã. E discordando ou não de seus governos, regimes e governantes. Penso muito sobre isso, sobretudo em "quem sou eu para julgar costumes, política e religião dos países que visito?". Ainda que um país cujas idéias políticas me pareçam tão medievais e tresloucadas. Sobretudo por serem mediadas pela religião. E criadas na mente de clérigos que interpretam escrituras às suas maneiras. E determinam normas de comportamento social e costumes a todo seu povo, impondo-os à força. Aliás, as relações entre Religião e Estado são sempre promíscuas e resultam em "doenças".

                Como desconsiderar o tratamento dado aos cães no Irã? Aos cães?! Sim, estes belos animais de estimação, pelos quais sou apaixonado, lá são proibidos, caçados e extermindados. Sob a alegação de que possuir animais de estimação é um desprezível costume ocidental. Que raiva do Ocidente! Como admitir, em pleno Século 21, a persistência da pena de apedrejamento às mulheres, um castigo legal que consta da lei islâmica tradicional? Aos meus olhos nada mais é do que um baita e grosseiro desrespeito aos direitos e à dignidade humanos. A atitude é inadmissível, sobretudo porque aplicam-na em nome de uma religião. Não espero nada de religiões, ao contrário. Nem mesmo a valorização de qualquer forma de vida. Tampouco a promoção da liberdade dos homens. Nenhuma religião sobreviveria sem medos, sem punições, sem castigos e repressão. Assim como os governos autocráticos, despóticos e autoritários. 

                Parte do que li revela o imenso abismo entre o que é o Irã e o que se percebe dele no Ocidente. Não posso negar que o próprio país contribui para tantos e tão distorcidos preconceitos: Armadinejad, o antigo Presidente, era esquisito. O novo, recém eleito, apenas uma esperança, ainda que menos conservador. Mas ainda não disse claramente a que veio. Alguns afirmam ser um conservador de araque, um hábil "enrolador" do Ocidente. Até já conseguiu bater um papo com Obama. Entretanto, nada mais é do que o sub-comandante de um regime religioso obsessivamente controlador. Onde não há espaço para as liberdades individuais mais elementares, onde sobram repressão e violência. Mesmo assim, a visão política do Ocidente sobre o Irã é no mínimo suspeita. Sobretudo quando olha com ignorância e soberba, generalista e classificatória do país como "belicoso". Pior ainda, de gente insana, uma permanente ameaça ao Ocidente. É notável a capacidade da mídia norteamericana olhar com arrogância cultural para os iranianos. Nesses dias da intencional demonização do Irã levada a cabo por israelenses e norte-americanos, não posso acreditar em rapozas "cuidando" de galinheiros, felinos de ninhos de roedores. Encaro a ambos no mínimo com reservas.

                A Revolução Islâmica de 1979, o retorno e a subida ao poder do aiatolá Khomeini assinalaram a virada histórica que abriu caminho para o fundamentalismo islâmico atual no Irã. Mas por que? Como se explicam as posições tão extremas que opõem o Oriente ao Ocidente? Stephen Kinzer, repórter do New York Times, correspondente assíduo no Médio Oriente, conta tudo em “Todos Os Homens Do Xá”. O golpe de estado em 1953, histórias de espiões, sabotagem e agentes secretos, de revoltas encenadas, de malas cheias de dinheiro, de encontros à meia-noite, enfim, de tudo o qua aconteceu para sabermos e compreendermos a ascensão do fundamentalismo islâmico, a oposição ao Ocidente que hoje domina o Islã, o que fizerem os Estados Unidos e a Inglaterra liderados por Einsenhower e Churchill, a derrubada do regime democrático, de tudo mais que alterou o curso da história. O livro é a maneira de qualquer um perceber o que a insensatez de britânicos e americanos fez com o Irã.

                 A história conta que o Irã já viveu períodos importantes políticos e sociais: a era imperial do poderoso Ciro, o grande, desde 550 A.C.; a conquista muçulmana árabe no século VII; a mudança de religiões - do zoroastrismo para o islamismo; o de sua independência para os árabes, depois para tribos turcas e mongóis; em seguida para uma sucessão de fanáticas dinastias xiitas, ainda que tenham restabelecido à Pérsia sua independência. Em 1919 a nação esteve perto de ser loteada por ingleses e russos. O Norte ficou sob o controle da Rússia czarista, o Sul pelo da invasão da coroa britânica; a Revolução Constitucional de 1906, tempo de Mohammed Mossadegh, depois sua derrubada por americanos e britânicos em 1953.

                Incentivados por tantas interferências estrangeiras, o povo iraniano foi reafirmando sua soberania, como nação forte e independente, de povo orgulhoso. Passou então a ser visto como ameaça ao Ocidente. Mas por quê o Irã é tão endemoniado depois de tanto tampo? Porque não obedeceu aos Estados Unidos ao orquestrarem a derrubada de um governo democrático e legítimamente eleito, o de Mohammad Mossadegh? A História conta que em 1941 tropas britânicas e soviéticas ocuparam o Irã, obrigaram o xá Pahlavi a abdicar em favor de seu filho, Mohammad Reza. Agentes da inteligência britânica e norte-americana orquestraram um impressionante golpe de Estado contra Mossadegh. O novo xá prometeu agir como monarca constitucional, mas com frequência interferia nos negócios dos governantes eleitos. Depois de desarticulada uma conspiração das forças de esquerda, em 1949, o monarca concentrou ainda mais poder. O descontentamento religioso cresceu. E o xá tornou-se ainda mais repressivo, pondo em prática uma brutal polícia secreta. Matou muita gente. Bastava declarar-se contrário ao regime para no dia seguinte sumir do mapa iraniano. O comportamento conquistou a antipatia de estudantes e intelectuais, tornou maior e crescente o apoio a Khomeini. Então, em 8 de setembro de 1978, as forças de repressão do xá atiraram num grupo de manifestantes. Mataram centenas, feriram milhares. Foi o bastante para dois meses depois o povo tomar as ruas de Teerã, provocar distúrbios e destruir símbolos ocidentais, como bancos e lojas de bebidas alcoólicas. O aliado americano, Xá Reza Pahlavi, foi derrubado por um levante popular. Terminou assim o regime opressor da monarquia autocrática pró-Ocidente. Khomeini conclamou a imediata derrubada do xá. E em 11 de dezembro um grupo de soldados amotinou-se, atacando oficiais das forças de segurança do monarca, fazendo o regime ruir de vez, obrigando o xá a fugir do país. Reza Pahlavi viajou por diversos países antes de entrar nos Estados Unidos em outubro de 1979 para o tratamento de um câncer. Militantes exigiram o retorno do xá para que fosse julgado por seus crimes no país. Os Estados Unidos recusaram-se a negociar. Não devolveram o monarca. Então 52 reféns norteamericanos foram detidos por 444 dias na Embaixada americana em Teerã.

               Considera-se o evento o estopim da explosão. Não de um poderoso artefato destruidor, mas de reações hostis contra a América, ainda hoje nada dissimulado. Poucos, todavia, mencionam que militarmente as “ameaças” iranianas nunca foram relevantes. E muitos parecem não se lembrar que há séculos o Irã não se comporta agressivamente além de suas fronteiras. Fingem. Especialmente não revelando que nos últimos trinta anos foi o "outro lado" - Israel - que invadiu o Líbano cinco vezes. Com ajuda americana, claro. E que os Estados Unidos invadiram o vizinho Iraque por um motivo tolo. E o Afeganistão por vingança. Agora ameaçam a Síria. A desconfiança é mútua, assim como os conflitos e os erros. Os Estados Unidos levaram a comunidade internacional a implantar uma das mais completas sanções econômicas contra o Irã. Em reposta o Irã acelerou seu programa nuclear. Anos depois, nenhuma distensão houve. E no curso atual das posições, de um confronto perigoso, há apenas um caminho a tomar para que ambos não entrem em guerra: a solução política da negociação e do entendimento.

                Não pretendo desmistificar ou comprovar nada sobre o Irã. Simplesmente porque sou incapaz de fazê-lo. Mas como viajante, indivíduo com olhar aberto e pacífico, um turista do bem, meu desejo é escrever algo positivo, inspirador e motivador sobre o país. Ele merece. E o leitor também. Independentemente se desejar conhecer o país ou não. É para evitar que olhares “estrangeiros” conspirem contra os nossos. E para ter opinião, escolhi informar-me. Inspirar-me em Heródoto, no que foi escrito por estudiosos e historiadores, por globetrotters em relatos de viagens, por gênios da arte de escrever, cada qual com sua visão, à sua maneira e estilo.

                É fácil escrever besteira sobre o Irã. Muitos o fazem quando centram seus pensamentos nos governos, na política, na religião. Na mídia internacional sempre tem um figurão afirmando que Israel vai exterminar o Irã, que o país é uma ameaça, que está próximo de produzir uma bomba nuclear, que então despejará seu arsenal de ogivas sobre o “pobre e indefeso” Israel. O “bla bla bla” é costumeiro. Além da agressividade típica dos líderes políticos em busca de simpatia e apoio, é abominável porque olha para os fabricantes de armas. Parte dessa mídia costuma conduzir seus leitores a olharem para o Irã como uma nação de párias. A ignorância tem levado a grandes erros, e muitos a pensarem que o país é linearmente habitado por fanáticos religiosos, por um povo inimigo do Ocidente e patrocinador do terrorismo. Os iranianos não são gente hostil, inculta e ignorante. Muitos escritores cairam na armadilha, produziram textos ruins, muita prolixidade e abundante ignorância. Por outro lado, não li uma só narrativa de viagem que não fosse extremamente positiva. De blogueiros conhecidos - como Rick Steves -, a anônimos - europeus, asiáticos, australianos, norte-americanos. Todos positivamente encantados com suas visitas ao país, perceberam o mesmo abismo entre o que leram e o que vivenciaram. Aqui no Brasil, destaco os relatos da blogueira Fê Costa, do Viaggio Mondo, e do Gabriel Britto, que escreve o Gabriel quer viajar. São duas fontes sérias de consultas entre as quais espero figurar em breve também relatando nossa viagem e experiências no Irã.

                E por que? Porque tenho a mais sincera esperança que brasileiros visitem o Irã. E a mesma doce oportunidade de viverem experiências encantadoras. E saibam que o país não é fácil de viajar, tampouco adequado a principiantes, mas também está longe de tornar qualquer um que o visite um "aventureiro" ou "intrépido explorador". Absolutamente viável, seguro, civilizado e com boa infra-estrutura para acolher o turismo, o Irã tem um povo soberbamente acolhedor. Viagens ao Irã requerem apenas bons planejamentos. E serão tranquilas, proveitosas, memoráveis. Quem vai deve acompanhar-se de bons guias impressos, entre eles (mas a eles não se restringindo), o Lonely Planet e o Bradt Guide. O turista conhecerá uma nação de grande variedade e profundidade intelectuais, uma civilização das mais esplêndidas, poderosas e duradouras das grandes culturas históricas e reconhecerá ainda notáveis os impactos políticos que a Pérsia causou desde a antiguidade.

                Não sou simpático ao regime, mas extremamente ao país e ao seu povo. E não me atraverei no pântano das abordagens políticas, dos temas contraditórios, nem dos superficiais, senão quando inseridos num contexto. Tal como a revolução de 79, com a volta do aiatolá Khomeini do exílio. E a crise dos reféns norteamericanos. Ou até à condenação de mulheres ao apedrejamento, o extermínio de cães, a guerra contra o Iraque, a desvalorização da mulher, a ascensão do presidente Khatami e de Armadinejad, do recém eleito presidente Hassan Rouhani, os motins de 1999, a crise internacional sobre o programa nuclear iraniano, os conflitos de interêsses entre Israel, Estados Unidos e o Irã, as tensões entre o Irã, a Síria e a Turquia ou do Irã com o Baluquistão e Paquistão, sobretudo (e se possível) se os iranianos estão ou não satisfeitos com seus líderes, com o regime e como sentem-se vivendo controlados e tolhidos em suas liberdades.

               “Um bom viajante deve abraçar as normas culturais dos lugares que visita, não julgar, mas tentar compreendê-las. Mesmo que por vezes seja difícil aceitar que hindus tratem suas vacas melhor que a seus filhos." A prosa é de Rick Steves. Bacana, não?

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A seguir:

Fomos pro IRÃ, a Serendipitia e o Amigo do Rei

 

Sábado
Set212013

IRÃ - Tudo pronto para a viagem

Esperando o melhor, preparado para o pior 

Former US Embassy, Tehran *. [ Iran, WJ Numero 13] - http://www.flickr.com/photos/-john-/

                       O Grande Satã contra o Eixo do Mal. Ou, se preferirem, a batalha do mal contra o mal. Mas um pode conter o outro? O tema é fresquíssimo. E me fez recordar da matéria do Economist, Hope for the best, prepare for the worst. De como o "grande Satã" tem olhado para o "eixo do Mal": com esperança, mas preparado para o pior. Assim como raposas "cuidando" de um galinheiro.

                       Tudo parece válido para os Estados Unidos e Israel deterem a ascensão do poder persa. Até mesmo o "grande Satã" bombardear a Síria. Ainda que sem apoio de ninguém, nem mesmo interno, sobretudo externo, de um país sem credibilidade internacional. Propõem uma guerra light, sem invasão física. Mas uma guerra. Enquanto Israel lança mísseis pro ar em exercícios de mera demonstração de força. Ambos, doidos por uma guerra de fato. Mas e o Irã pode ser contido? Ninguém sabe muito bem. Provavelmente não.

Persepolis, Iran - http://www.flickr.com/photos/indigoprime/ - Nick Taylor indigoprime

                       Ainda que os tempos sejam outros, não mais do populista e falastrão Ahmadinejad, mas do sorridente Hassan Rohani, seu sucessor. Todavia, tudo não passa de uma esperança. Ela é natural, mesmo que represente uma simples possibilidade de distensão entre ambos os lados: o mal e o mal. Para o resto do mundo, sobretudo para o Irã, deve ser um alívio. Não tenho dúvidas de que o Irã quer paz. É uma nação pacífica. Que almeja relações construtivas com o resto do mundo. Especialmente porque sofre tanto tempo sob um regime de repressão. E se ali a brutalidade cessar, a “promessa” de um futuro melhor seria um alento. Sobretudo se despertar uma economia atolada na inflação, acima de 30%, e desatolar as desigualdades sociais, no terreno onde 40% do povo fica abaixo da linha de pobreza. Todos os olhos miram a possibilidade de uma relação menos tensa entre o Eixo do Mal e o Grande Satã. Mesmo que tênue seja a distensão entre o mal e o mal. Sobretudo para a suspensão dos embargos. E todos esperam ver um Irã democrático. E que a paz e a prosperidade seja uma nova realidade em todo o Oriente Médio.

Shiraz, Masjed-e Nasir-al-Mulk Mosque, Islamic Architecture - Todos os direitos reservados a MY2200

                       Mas Bem e Mal são valores morais. Regulam a vida cotidiana das pessoas. E como tal, provocam uma verdadeira “zona” na humanidade, uma bagunça de tal complexidade e diversidade que suas interpretações não me fazem ter muita esperança. Sobretudo na humanidade. Para mim, ambos os valores - bem e mal - não se definem em princípios cósmicos, mas nos pessoais. Eu, por exemplo, encontro em mim (no plano da vida, não no espiritual), e nas pessoas e em todas as coisas, todas respostas a tudo o que busco. Tenho em mim, e na vida, tudo o que preciso para resolver meus problemas e dúvidas: bons pensamentos, boas ações e boas palavras. Além de confiança e perseverança. Bons pensamentos, boas ações, boas palavras. Como falou Zaratustra!, nome na versão grega de Zoroastro, cujo significado pode ser “contemplador de astros”, e foi dado ao profeta que nasceu na Pérsia no meio do século VII a.C., fundador do zoroastrismo, que tornou-se religião oficial dos Aquemênidas.

Viajar, uma escolha pessoal. E para o Irã não é uma aventura!

Isfahan - Vank Cathedral - Todos os direitos reservados a damonlynch

                       Viagens românticas, culturais, de aventura, econômicas, gastronômicas, luxuosas, mochileiras, em família, de refúgio, religiosas, de relaxamento, encontros, reflexões...Para ilhas, montanhas, praias, megalópoles, destinos populares, paraísos escondidos, lugares incomuns... Não faltam inspiração nem destinos. Para todos os gostos, estilos e preferências. E todas são válidas. E altamente recomendáveis. A mim, todas agradam e atraem (exceto as religiosas). E devo admitir, viagens como esta, ao Irã, muito desejadas e excitantes, me provocam um entusiasmo anterior bem mais acentuado que todas as demais. Afinal, viajar é uma das minhas paixões. Mas não como um turista clássico, que se hospeda num resort all inclusive e fica tostando numa praia ensolarada. Como “aventureiro”, não importa o lugar, se Paris ou Samarkanda. Do meu jeito de ser “explorador”: o menos convencionalmente que me for possível. Para conhecer países, culturas e pessoas. Para encontros e descobertas. Mas sou apenas um sujeito com pretensões ao meu ideal do que seja um aventureiro de verdade. Sou um mero aventureiro entre aspas. Interessado em viajar a destinos que me atraem, sejam comuns ou não. Viajar é o que me importa quando penso em viajar. Por isso viajaremos ao Irã em Outubro, à Etiópia em Janeiro, ao Sri Lanka em fevereiro. E estamos namorando em profundidade um roteiro à Sibéria e Mongólia, pela Transsiberiana, pelo Lago Baikal e pelo Desero de Gobi em julho.

Bazare Mozaffariye Tabriz – YounAlTa - http://www.flickr.com/photos/youness/33223741/

                       Viajar par ao Irã não é uma aventura. Mas quando menciono que visitaremos o país agora em Outubro, invariavelmente expressam um misto de espanto e medo. Depois dizem: "Mas, para o Irã?!..." Aí eu brinco e respondo: “Sim, ao Eixo do Mal!” E avante! A maioria considera quem viaja ao Irã um ousado aventureiro. Alguns um explorador insensato, outros um indivíduo inconseqüente. A avaliação é um erro, ainda que toda viagem seja de certa forma uma pequena aventura. Como é uma simples saída de nossa zona de conforto. E quase tudo o que seja sair de casa, alguma forma de aventura. Mas erro pior é alguém presumir-se aventureiro só porque viajará ao Irã. Quem me dera ser um! Teria realizado meu maior sonho da juventude...

Meybod, Yazd - http://www.flickr.com/photos/67459161@N08/ - Galeria de Serge Hill

                      Como todos, também tenho meus sonhos. Especialmente quando era mais jovem. Sonhava ser como o Tito Rosemberg,  jornalista, viajante, surfista, aventureiro e expedicionário intrépido do Camel Trophy. Aquele sim, foi um autêntico explorador do mundo. Mais do que um viajante. Ou o australiano John Muir, norte-americano nascido na Escócia, um naturalista, explorador e escritor do século XIX que lutou pela preservação do patrimônio natural dos Estados Unidos. Ou os irmãos Omidvar, jovens iranianos que partiram em 1954 numa expedição de 10 anos para os lugares mais remotos do mundo. Contudo, o máximo que consegui foram umas caminhadas na floresta, umas escaladas em rocha, um e outro rapel por despenhadeiros apavorantes, cannioning numas cachoeiras assustadoras e a exploração rastejante de duas ou três cavernas claustrofóbicas. Também fiz meus passeios off-road, de jipe e moto, a maioria terminando atolado. Ah, não sei se conto como aventuras meus acampamentos na praia e no mato. Eram coisas muito corriqueiras na minha juventude. Logo terminei minha pretensão às aventuras radicais. Eu gostava muito daquilo, mas quando pude começar a fazê-las já estava velho demais. Fora isso, nunca fui um viajante aventureiro. Ainda que continue atraído pelo "fora-do-comum" ou pelo que chamam "destinos não batidos". Ansiosamente esperando, com tudo pronto e arranjado, nosso embarque para o Irã.

Kandovan - Todos os direitos reservados a uncorneredmarket - http://www.flickr.com/photos/uncorneredmarket/

                        Para visitarmos Teerã, Tabriz, Shiraz, Isfahan, Kashan, Kandovan, Kerman, Yazd, Persépolis e Pasárgada. Muito mais que um país fascinante, acima de tudo o berço cultural do Oriente Médio, com história que começa há milhares anos, o Irã vem afirmando a cultura do império persa e deixando uma herança cultural inestimável para o mundo. E é possível visitar esse destino tão fabuloso, de cidades cujos nomes - Esfahan, Teerã e sobretudo Persépolis - evocam os contos das mil e uma noites e a fineza da arte persa. De uma gente amigável, calorosa, receptiva e também orgulhosa. Estou certo de que o Irã nos seduzirá e arrebatará como o faz com todos os viajantes que lá vão admirá-la.

                     Quem sabe tenhamos a sorte e o privilégio de encontrarmos por lá o Gabriel Britto? Enquanto isso, acompanhamos os relatos da blogueira Fê Costa, do Viaggio Mondo, que já foi e voltou, e do próprio Gabriel, que parece tão empolgado quanto nós por embarcar logo para o Irã. Até lá também vou escrevendo aqui minhas reflexões e nosso preparo para este fascinante país.

                     Até mais!

Terça-feira
Set172013

CARTAGENA das Índias, Colômbia - Dias quentes, noites mágicas

 

                EM novembro, os dias são úmidos e quentes. No plano das ruas - de nomes românticos, "da Amargura" por exemplo - tudo é protegido por muralhas. De pedras centenárias que outrora impediam invasores, e hoje só separam a cidade do mar e de suas brisas. A vida é frenética. E o sol inclemente. De um calor que já nas primeiras luzes da manhã se faz sentir na pele e noutros órgãos.

                   E faz brilhar de um jeito seu as fachadas coloridas. Ilumina os balcões de um disciplinado, romântico desenho espanhol, que esconde o que nem se imagina de beleza interior. Às vezes faz sombras de encantar os olhos fotográficos. E esquenta as flores das sacadas, que assim ficam mornas até sob a luz da lua.

  ... e o Sol faz sombras de encantar os olhos fotográficos

                  Ainda cedo, e sob um céu azul de doer nos olhos, o calor e a umidade se mostram no corpo. Brilham na pele, molham a roupa. Choques térmicos embaçam os óculos e as lentes das câmeras. É preciso proteger-se. Com um legítimo Panamá. E roupas frescas de algodão. E escapadas à sombra.

                 Também refresca-se comendo frutas frescas. Compradas de qualquer palenquera, coloridas vendedoras que não faltam às ruas da cidade. Mas também entra-se num café ou num bar. Dos tantos e tão bons que há em Cartagena. Sob o pretexto de consumir, mas disfarçar usufruindo seu ar refrigerado. 

                  Como do calor, também não se escapa do clima romântico de Cartagena. Caminhar por suas callejuelas extasiava-nos a cada esquina. Às duas da tarde, pra fugir do calor, todos somem. Também nós, turistas, voltamos aos hotéis-boutique, refrescamo-nos em suas piscinas.

  

                  Os locais retiram-se à siesta, herança espanhola. Às quatro, todos voltam às ruas. E continuam fazendo o que devem, ou vendo o que um par de séculos de domínio espanhol produziu de tanta beleza: a Heróica Cartagena. 

                 Ao entardecer, subimos a muralha, sentamo-nos no Café del Mar, tomamos a limonada de côco de Cartagena. Saudamos a nós, ao nosso amor, ao fim do dia na bela Cartagena. Assistimos ao pôr-do-sol. Não os únicos que pareciam enamorados fazendo o mesmo. Outros aconchegavam-se nas janelas da muralha ou sobre ela. E olhavam pro mesmo mar, não qualquer um, mas pro Mar do Caribe. Cada um ocupando sua vigia da muralha. Então, ali entendemos porque a cidade tem tanto carisma e magia.   

                Nos seus subúrbios, se assim podemos chamar Getsemaní, vimos um sapateiro trabalhando rente à calçada. E um alfaiate em sua oficina que também beirava a rua. É ali que o povo vive. E se casa. E churrasqueia nas calçadas. E curte a noite ao ar livre e menos quente. E entre goles de cerveja cartagena, brincam adultos de malabares e crianças de pega-pega.

                À noite, por diferentes razões, tudo muda, torna-se mágico. É nesta hora que melhor parece nos entranhar o espírito da cidade, mais do que em qualquer outra do dia. Também ferve a noite em Cartagena, mas de um calor que vem da gente. Caminhamos pela mesma velha cidade, agora iluminada por luzes amarelas, que brilham no chão, morrem no ar e nos invadem como música e poesia. Ainda mais com a sorte de uma Lua cheia. Tudo tomou-se de uma quietude curiosa...

                  As lojas fecham, as pessoas vão pras casas, ouvem-se os passos dos cavalos no asfalto. De longe ouvimos um som de salsa. Ou seria chiva? Não sei, parecia vir dos bares. Então, atendendo ao seu chamado, só pensávamos em dançar. Fomos pro Café Havana, meca da salsa em Cartagena. E sentimos saudades de Cuba. E de novo nos pegamos desejando-a ardentemente. E bebemos mojito. E também desejamos a nós mesmos. E voltamos de madrugada, sem conhecer outro lugar onde as horas são tão marcadas, não por relógios, mas pelo ritmo de uma cidade.

                  Despedimo-nos de Cartagena. Enamorados, sentindo saudades. Dessas de querer voltar. Ou então de não partir. Até logo, Cartagena!