MENSAGEM ao LEITOR
BIO

Brasileiro, casado (com a "Turista Acidental"), empresário, viajante há 27 anos, 60 países visitados (alguns íntimos) em 91 viagens internacionais e por cerca de 40 cias. aéreas diferentes em 391 vôos. O que segundo o Haroldo Castro, significa ter "Mestrado" em Viajologia.

Escrevo honestamente. Como um amador e sem truques, sem disfarces ou maquiagem, ainda que não seja fácil para os sem talento produzir relatos de viagem que valham a leitura. Sobretudo que inspirem e motivem o leitor. Jamais para guiá-lo. O nome deste blog demonstra minhas intenções: escrever sobre viagens e reflexões ao viajar, também um pouco sobre o meu modo de viver a vida, antes, durante e depois de nossas viagens. Ocasionalmente escrevo para destacar o que me agrada ou não na blogosfera de viagens, na Internet, nas redes sociais, nas revistas e na literaturade de viagens.

Fotografar também faço com o mesmo gosto que tenho por escrever. Igualmente como amador. Avançado, talvez, mas amador. Jamais fiz cursos de fotografia nem de redação. Adoraria ter cursado jornalismo. Não o fiz, então, não sou "escritor de viagens".

 Ainda temos uns 40 países que desejamos visitar além dos que já estivemos. A eles pretendemos dedicar nosso tempo em viagens. Burkina Faso, Gana, Togo e Benin, provavelmente seriam os próximos.

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Sexta-feira
Mar152013

BAGAN - Déjà vu sobre os templos 

                        NÃO era passado. E até parecia um sonho. Mas a cena era presente. E eu sabia que logo terminaria. Afinal, quem já experimentou sabe o quanto dura um déjà vu. É rápido e potente como uma faísca. Uma fração tão mínima de segundo que nem dá pra contar. Mas se percebe a deliciosa, fugaz, estranha sensação de ver o já visto sem nunca ter visto.

                        A imagem parecia de sonho, a paisagem quase irreal. Não fosse produzida por James Stanfields (*) e publicada na National Geographic, seria uma das mais notáveis criações da imaginação e da computação gráfica. Mas era uma fotografia. E uma das mais belas que eu já vira. Guardada num cantinho do cérebro, foi ela quem promoveu aquele bug cerebral enquanto eu sobrevoava Bagan.

                        O registro - uma vista aérea dos templos do antigo Reino de Bagan - fora tomado a partir de um balão. E retratava a planície semi-árida, um mar de templos ruinosos brotando da terra vermelha. Eles exalam antiguidade e mistério. Especialmente sob a luz e a bruma do alvorecer, quando entre árvores da rala floresta que os parece engolir tornam o cenário espetacular.

                     Ao longe, outros balões sobrevoavam o cenário incrível. Tinham a mesma padronagem, a mesma cor que as primeiras luzes da manhã atenuam: dos tijolos dos templos, da terra e até do fogo que os mantêm mais leves que o ar. A composição era perfeita. O enquadramento, de mestre. Uma belíssima fotografia de paisagem. Dessas que teimo em tentar produzir. Sem sucesso.

                          Anos depois eu estava ali, no mesmo lugar, à mesma hora, no mesmo cenário incrível e experimentando um dos maiores privilégios que as viagens têm me proporcionado: voar de balão sobre os templos de Bagan. Extasiado, quase incrédulo, olhava sem respirar, vivia momentos efêmeros, de sonho-realidade. Silenciosamente como voam os pássaros, observava milhares de pagodas e stupas da outrora grandiosa Bagan. E disparava minha nova full-frame como se o mundo fosse acabar ali, tão rapidamente quanto um déjà vu. Tentando vergonhosamente copiar James Stanfields.

                   As fotos são minhas, feitas a partir do nascer do sol do dia 13 de Fevereiro de 2013, com uma NIKON D800 e uma lente Nikon 28-200mm F3.5-5.6 durante um vôo de balão sobre Bagan.

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(*) Nota: James Stanfields vive aventuras invejáveis para quem é um curioso natural pelo mundo. Já esteve em mais de 120 países fotografando para reportagens, dedicando-se a um serviço que já lhe rendeu inúmeros prêmios, além de uma vida fascinante e de muitas histórias para contar. Juntou-se ao pessoal de fotografia da National Geographic magazine em 1967. É como o nosso Haroldo Castro.

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A seguir:

Mil templos sob o céu de Bagan

Segunda-feira
Mar112013

Mandalay já não é mais romântica

              Monges em fila para sua única refeição diária no Mosteiro Mahagandhayon

                       ELE também caiu de amores. Pela terra e o povo da Birmânia. Nada extraordinário, afinal, tantos outros escritores e poetas o fizeram. Assim como nós, que lá estivemos e há pouco voltamos. Mas nenhum demonstrou igual capacidade de descrever um lugar com tanta fidelidade. Sobretudo sem jamais tê-lo visto. Pois foi assim - Ásia em sua essência - que as palavras de Rudyard Kipling no poema "Mandalay" - romântica, tradicional, atemporal, exótica e sedutora -  fizeram o mundo enxergar. E também graças ao seu conto "Estrada para Mandalay" a cidade surgiu no mapa. E nele permaneceu. No livro, o escritor narra detalhes da abertura de uma trilha pelas florestas da Birmânia, revela a vida do povo na época do colonialismo e a luta pelo poder dos chefes locais. 

As colinas de Sagaing e o Rio Ayeyarwaddy

                       Era o auge do colonialismo britânico na Birmânia. Provavelmente assim a atmosfera poética construída pelo autor, mesmo que capturada remotamente de Yangon. Seu principal mérito - a que apenas indivíduos românticos, sensíveis e com o domínio da palavra podem demonstrar - foi capturar e descrever um mistério, exotismo e romantismo que todavia não conheceu. E Mandalay tornou-se sinônimo de romantismo.

                       O nome e a história de Mandalay ainda hoje mantêm alguma conotação exótica. Um quê romântico sabiamente explorado pelo mercado turístico. Sua sonoridade parece ainda evocar as palavras do poeta. Mas hoje Mandalay é bem mais digna de seu título contemporâneo - "capital cultural birmanesa" - do que qualquer outro. À época de Kipling permanece fiel apenas sua história de esplendor. Tudo o mais se perdeu. Mandalay não é sequer antiga.

 

  AVA, antiga Capital - Paisagem rural, monges e mosteiros centenários

                      Fundada em 1857 pelo rei Mindon, tornou-se capital de um reino independente por 30 anos. Romântica já não é. Nem particularmente bonita. Feia, certamente. Uma das mais feias que já conheci. De longe e de perto. Com cerca de 1,2 milhões de habitantes, é grande, desorganizada, poeirenta, suja e quente. Charme só se encontra em sua gente. Pra dar e sobrar. Mas se o olhar do visitante for além da aspereza, Mandalay o encantará. É só saber explorar suas atrações: as cidades vizinhas.

   Kuthodaw Pagoda e o maior livro do mundo

                        Segunda cidade de nosso roteiro em Mianmar, foi uma grande surpresa turística. Grande e boa. Eu gostei muito de Mandalay. Muito. E hoje, escrevendo, noto que tanta coisa ficou por ser vista. Como lamento. E selecionando as fotos para este post, ainda sinto no peito um aperto de saudades. Acho que Mianmar jamais nos deixará.

Palácio de Mandalay

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Mandalay hoje

                        MANDALAY é um composto de prédios de arquitetura clássica e moderna, com casas e edifícios de alvenaria e arquitetura pobre. O antigo e tradicional não mais existem, nem mesmo no Palácio Real. Inteiramente reconstruído, ainda que rigorosamente copiado do original, após ter sido queimado na Segunda Guerra Mundial durante bombardeio japonês com artefatos incendiários. Fora do núcleo urbano da poeirenta cidade, nas três antigas Capitais Mandalay é pura Birmânia.

Mandalay hoje. Romantismo já não há...

                        A magia de Mandalay não é imediatamente aparente. Ao contrário, é preciso saber encontrá-la. Não fica exatamente nos domínios da cidade, senão nas antigas Ava, Amarapura e Sagaing. Ao longos dos anos a paisagem da cidade mudou muito. Restam poucas das casas de madeira e bambu, trocadas por prédios modernos de arquitetura duvidosa e construção chinesa. Apenas a muralha do Palácio de Mandalay e alguns templos sobrevivem para rememorar o glorioso passado da antiga Capital de Mianmar

  Templo do Mahamuni Buddha - Romantismo já não há, mas exotismo é abundante

                        A cidade funciona como um hub para visitas às antigas e próximas cidades reais. Nelas, sim, o viajante encontrará boa coleção de atrações. Em Ava, por exemplo, antiga Capital, e em Amarapura e Sagaing, assim como em Mingun e Pyin Oo Lwin, mais distantes, existem ótimas opções para quem tiver o tempo que não nos sobrou.

Bagaya Monastery

                         A cada dia o turismo de massa torna mais difíceis as emoções das descobertas e dos encontros com o desconhecido. Mandalay é, frequentemente, apontada como o equivalente birmanês à cidade de Chiang Mai, também "capital cultural tailandesa", outra preciosidade turística do sudeste asiático. E, como esta, a segunda mais importante cidade turística do país. Conheço ambas. E minha impressão é a de que Mandalay está anos-luz distante de Chiang Mai: incomparáveis na imponência, na história, no conteúdo, no patrimônio e nas paisagens.

Golden Pagoda em Sagaing Hill

                       Mandalay tem ainda outra vantagem a seu favor: ainda não enfrenta o turismo de massa, que décadas seguidas de crescimento turístico desfiguram a Tailândia, e tornam difíceis encontros genuinamente autênticos. O melhor exemplo é o mercado flutuante de Damnoen Saduak. Pagou o preço por ter sucumbido ao turismo de massa, essa tragédia que tudo desfigura e mascara. Mandalay ainda não. Ainda não. Fora dos camihos batidos ainda é possível encontrar lugares autênticos e ainda não ameaçados pelo turismo.

O Lago Taungthaman visto da Ponte U Pein

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A seguir:

 

As atrações de Mandalay

 O Mercado de Jade, o Palácio de Mandalay, o Shwenandaw Kyaung Pagoda, o Kuthodaw Pagoda, Ava, a antiga Capital, as colinas de Sagaing, Amarapura, a Ponte U Pein, o  Mosteiro Maha Aungmye Bonzan e o Mosteiro Mahagandhayon, Mahamuni Buddha

Mosteiro Maha Aungmye Bonzan 

Terça-feira
Mar052013

Mianmar - Quando as pessoas "fazem" um destino

 

                        MIANMAR tem no seu conjunto de tradições culturais alguns dos elementos mais atraentes para o viajante apaixonar-se. Uns requerem alguma sensibilidade para percebê-los, outros um mergulho bem além da superfície. Há também os que precisam de certo estudo antes da  viagem. Mas há um, que acima de todos parece ser a tônica mais evidente da nação: o povo incrivelmente caloroso e acolhedorPara compreender Mianmar é preciso saber ao menos superficialmente um pouco dessa complexidade racial, sobretudo que é um país multiétnico, que para piorar as coisas tem uma longa história de conflitos civis.

                        FILÓSOFOS e cientistas já afirmaram que viagens nos tornam mais felizes. Seja pelos prazeres da descoberta, pelo privilégio de interagir com pessoas, conhecer culturas tão distintas da nossa ou até mesmo pelo gosto de provar comidas inesquecíveis. Mas quando os encontros são com um povo que "faz" o lugar, nada se compara às emoções desses encontros. Quanto maiores as diferenças culturais, provavelmente mais estarei atraído por um destino. Provavelmente é quando elas ultrapassam os limites da imaginação, excedem todas as expectativas e acentuam os prazeres que as viagens proporcionam. Mas nada se compara à alegria de conhecer um povo de etnias e origens tão diferentes da nossa, absolutamente receptivo e encantador, que torna ainda mais esplêndido o destino que visitamos.

                         MAIS do que feliz por ter o privilégio de conhecer muitos países, ter viajado tanto, eu reconheço o quanto as viagens incrementam meu aprendizado sobre a humanidade e a história. São coisas que aprendo visitando museus, patrimônios da humanidade e vivendo culturas, costumes e manifestações folclóricas exóticas. É tudo o que espero de minhas viagens: conhecer, aprender e divertir-me. Sou feliz quando viajo, mesmo quando infeliz ao encontrar pobreza. Simplesmente porque sei tirar do encontro elementos para expandir a mente, educar-me e aprender.

  

                        DESDE moleque acho o mundo encantador. E foi viajando que pude conhecer suas muitas faces, aquelas que mesmo a mais fértil e desimpedida imaginação infantil jamais poderia supor. Tenho tempo, desejo e recursos para explorar o mundo, mas não deixo de reconhecer que este é um dos maiores privilégios que a vida tem me reservado. E à medida que o faço, o mundo vai tornando-se ainda mais atraente, eu o admirando mais e o respeitando.

                        CADA nova viagem tem sido mais surpreendente que a outra. Aliás, esta é uma das melhores recompensas que tenho tido ultimamente em viagens:  quando penso estar certo de que não encontrarei nenhum lugar tão marcante quanto o último, e então me deparo com um novo ainda mais incrível. Foi assim com a Índia e o Cambodia. E agora com Mianmar. Pensando nisso, percebo porque sempre penso na próxima viagem antes mesmo de concluir a última.

                         VIAJAR tem me proporcionado outras grandes experiências, mais raras, é verdade, talvez por isso tão fabulosas. É quando tenho oportunidades de ir além do conhecimento de países e cidades, de seus museus, paisagens e patrimônios, isto é, o encontro com pessoas excepcionais e profundamente marcantes. Gente que ao longo da viagem "faz" o destino. Então, viver experiências de relacionamentos sociais com gente assim tem tornado algumas de minhas viagens tão marcantes que esqueço até de tudo o mais de maravilhso que vi. Quanto mais acolhedor um povo, maiores as chances dele sobressair acima de todas as belezas de seu país. Infelizmente estas não são experiências tão linearmente comuns quanto eu poderia desejar.

  

                        AO contrário do povo birmanês, alguns são comumente planos, indiferentes e até mesmo antipáticos com os turistas. E ainda mais raramente podem ser até desagradáveis. Por exemplo: quando viajo pela Espanha ou Alemanha, as possibilidades de encantar-me com suas paisagens e patrimônio são infinitamente maiores do que ter experiências marcantes com seu povo. E a culpa não é minha. Sou simpático, educado, respeitoso e discreto. Faço amizades até com postes.

 

                        NÃO me surpreende o fato de que as únicas experiências verdadeiramente desagradáveis em viagens ao exterior tenham sido precisamente nestes dois encantadores países. Cujo patrimômio excede imensamente em qualidade a falta de simpatia de seu povo para com o viajante brasileiro.  

  

                        ENTRETANTO já me ocorreram algumas situações tão marcantes, maiores que todas as belezas que já vi pelo mundo, que qualquer das duas experiências infelizes não resistem na memória às delícias de ter conhecido pessoas tão doces na Índia, Cambodia e Mianmar.

 

                       SÃO encontros assim, que ultrapassam quaisquer expectativas, que nos permitem entrar em suas caas, vidas, história, conhecer seu caráter, dificuldades e suas soluções, que tormam algumas de nossas viagens tão mais dignas que outras.

  

                        AGUNS desses momentos foram tão verdadeiramente marcantes que tornaram-se experiências raras e inesquecíveis. Como alguns no Cambodia e na Índia, especialmente agora em Mianmar. Um simples olhar pode revelar que as adversidades, a pobreza, as dificuldades e sobretudo o triunfo sobre elas é que dignificam as pessoas, e sem perceberem, nos ensinam. Foi assim com o povo do Mianmar. Fui profundamente tocado por sua dignidade ao compartilhar de alguns diferentes momentos de sua vida, de aprender com sua maneira de viver.

  

                        LEMBRO-ME de um especial e muito inspirador, quando presenciei e interagi com alunos e uma professora de uma tosca escola numa aldeia de Kyaing Tong. Vi crianças de regiões tão isoladas, de um país tão remoto, que mesmo contra todas as dificuldades aprendiam a ler e a escrever. Por abnegação e bondade de professores que as ensinavam sem nada receberem.

                        E quando elas ainda sorriam com os cadernos e lápis que lhes presenteamos, fui prum canto tentar disfarçar minhas lágrimas. Espero jamais esqueçer aquele dia.

  

                      TODAS as faces, momentos e histórias diferentes deixaram marcas. Com elas tive o privilégio de viver alguns dos momentos mais doces, emocionantes e singelos nesta viagem. E agradeço a contribuição de seu povo por expandirem minha mente, encantarem meu olhar, marcarem meu coração.  Voltamos pra casa e nem mesmo o tempo e os milhares de quilômetros de distância conseguirão apagar tão boas lembranças.

OBRIGADO, Mianmar!

Sábado
Mar022013

Yangon - Cidade sem inimigos  

Buda do Chauk Htat Gyi Pagoda. Olhos de cristal, sombra azul, cílios, lábios rubros e face de porcelana

_______ INTRODUÇÃO

                QUEM lê descobre, quem escreve faz descobrirA leitura, um ato fundamental na preparação de minhas viagens, também promove o maior dos meus prazeres depois de viajar: escrever e compartilhar com o leitor. Para um viajante que sabe melhor olhar e fotografar do que escrever, é a leitura que me proporciona o embasamento, me leva às descobertas do conhecimento, condição fundamental para que eu tire o melhor de uma viagem: conhecimento da cultura, da história e do patrimônio de um destino. Sobretudo conhecer o caráter e a personalidade de seu povo. Com Mianmar foi assim, preparei-me para um encontro que por causa da leitura consagrou-se ainda mais fabuloso.

                COM Yangon não. Incorri no erro mais comum a quem visita o país: dediquei quase todo o tempo a pesquisar as estrelas do turismo birmanês - Bagan, Mandalay e Inle lake.  E só então na ex-Capital percebi a falta que a leitura me fez. Não estivesse eu acompanhado de minha doce Emília, do excepcional guia local e do Lonely Planet aquele encontro não teria sido tão proveitoso.


Teria sido a enorme imagem de Buda reclinado mede 65 metros que me lançou feitos em Yangon?

                   MAS e com o resto? E tudo mais? Como foram as descobertas do encontro com sua maior cidade e com o resto do país?

               A pouca leitura não me levou a imaginar Yangon de maneira idílica. E também assim ela não se revelou, senão franca e encantadoramente. Só estou certo do que eu não sei: quem, em Yangon, lançou seus feitiços em mim? Teria sido o incrível Buda deitado de olhos de cristal e sombras azuis em Chauk Htat Gyi Pagoda? As cintilantes cúpulas douradas de Shwedagon Paya? Os brilhantes sorrisos sujos de vermelho, os incríveis rostos sorridentes cobertos de thanaka, a deliciosa receptividade e doçura do povo? Ou, então, a aura de mistério que permeia as fachadas decrépitas de Downtown Yangon? 

Ou seriam os "htis", as "umbrellas" ao Por do Sol em Shwedagon

                    O Shwedagon Pagoda irradia tranqüilidade. O visitante não deixa de perceber o clima positivo, todos os efeitos mágicos e hipnóticos que um dos mais impressionantes pagodas do planeta proporciona a quem o contempla e admira atentamente.


                   "CIDADE sem inimigos". É este o significado de nome Yangon. Deriva da junção de duas palavras: yan e koun. E o nome da cidade parece incrívelmente associado ao caráter de seu povo: sereno, delicado, pacífico, simples e alegre, mas também vibrante. E, aparentemente, sem inimigos. Surpreendentemente aberto para interagirmos com ele. Além de tudo, receptivo e amigável. Basta do nos aproximarmos e dizermos mingalabar - a saudação nacional - que o retorno será ainda mais simpático. Finalmente, o povo de Yangon e todo Mianmar é inspirador. Viver entre sua gente por duas semanas equivale a umas verdadeiras lições de vida.


Terá sido o povo, com seus incríveis rostos sorridentes cobertos por thanaka? 

               CIDADE de um povo magnífico, que vive com tão pouco, esteve muito recentemente sob um regime ditatorial opressivo e tirânico, mas ainda assim conserva o sorriso, a doçura e a receptividade. Tudo o que parece fazer parte da psique do povo. É um comportamento natural. Especialmente atraente porque é uma gente bonita e de modos elegantes. De vida dura e de poucos confortos, mas que demonstra orgulho, patriotismo e encantamento com nossa visita. E até a agradecem! Ficamos absolutamente tocados. Ao final de qualquer contato, agradecíamos com tchezube (pronuncia-se “tchezubê”) e um novo sorriso o finalizava.

                       E assim descobrimos, exploramos e conhecemos YANGON.

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SHWEDAGON PAYA, uma das maravilhas do mundo

                      APESAR do multiculturalismo - reminiscência do período britânico, quando Yangon (ou Rangoon) era a Capital política e econômica do país, e o ponto mais distante do Raj britânico - o budismo é a fundação do caráter birmanês. E sua mais franca identidade. Do budismo Theravada, praticado como em quase todo sudeste da Ásia e no Sri Lanka, aquele que assume traços do bramanismo.

 

Anjos, bestas míticas e divindades. Lavando a estátua de Buda

                    TODOS tiram os sapatos e vestem-se convenientemente. Turistas vão para conhecer e fotografar. Fiéis para rezar, render homenagens a Buda, agradecer, pedir um futuro feliz ou remir um mau karma. Para tanto, realizam diferentes rituais: rezam diante de uma imagem de Buda, acendem incenso, fazem oferendas e despejam água sobre sua estátua. Como de costume, também dão voltas ao redor da stupa, sempre no sentido horário. E o fazem em ato de contrição.

                 ALI, numa visita ao complexo do Shwedagon Pagoda, o visitante testemunha o quão religioso é o povo e quão profundamente o budismo está inserido na sua vida. De civis a monges. O pagoda Shwedagon, não por menos, tornou-se símbolo nacional birmanês, além da bandeira nacional, e abriga o maior conjunto de ícones da nação: templos, stupas, seres celestiais e bestas míticas.

 

Shwedagon Pagoda de Yangon. Símbolo do país, ícone da nação

                        MAIOR atração turística da cidade, equivale a Mecca para os islâmicos. Assim como lá, todo budista birmanês espera visitá-lo ao menos uma vez na vida. Seus 8.677 tijolos, 99 metros de altura, três terraços maciços, um coroamento com sinos dourados, 7.500 diamantes, rubis e outras gemas, além de enorme diamante 76 quilates posto no topo, em conjunto transmitem exatamente o que ele é: impressionante, gigantesco e poderoso.

                        TAMBÉM foi ali entre tanta devoção e respeito que notei a falta de atenção dos ocidentais às regras de conduta num templo budista. A razão é natural, e o desrespeito não intencional. Na ânsia fotográfica que todos nós turistas demonstramos (ainda maior em lugares tão exóticos), e sobretudo porque estrangeiros sejam bem-vindos aos templos budistas, é improvável que um visitante sinta-se intimidado quando os visita e comete algum deslize comportamental de menor importância. Desde que esteja vestido e comporte-se adequadamente.

 

Mudras, os gestos das mãos de Buda. Comunicação não verbal

                       OS gestos das mãos de Buda - ou "mudras" - propiciam uma comunicação não-verbal com os fiéis. E não é para ser, digamos, respondida ou imitada. Cada posição tem seu significado: a busca da iluminação, a libertação de todos os seres sencíveis, um estado de meditação, o triunfo do Dharma entre outros. São plasticamene bonitos. E mesmo não sabendo seus significados, atraem os olhares ocidentais com sua beleza e serenidade tocantes. Todavia, sendo tão sagrados, precisam ser apreciados com moderação.

                       NOS templos há regras de etiqueta nem sempre conhecidas dos ocidentais. Ainda que visitar um templo de qualquer religião em qualquer lugar do mundo deva ser um ato de contrição (não o contrário)  o desconhecimento torna quase natural que acidentalmente erremos na conduta. Ainda assim, dificilmente, conseguiremos ofender algum budista com nossos "deslizes ocidentais". Se entretanto estivermos num país islâmico, as coisas podem ser diferentes e bem mais rígidas.

 

Aviso nem precisa: a pilha de sapatos na entrada é indicação óbvia de onde deixá-los antes de entrar

                        POR exemplo. Tirar chapéu e sapatos é um dos mais conhecidos e óbvios pré-requisitos para ingressarmos num templo budista. E nem precisa de aviso: a pilha de sapatos na entrada é a indicação mais óbvia de onde devemos deixá-los. Todos andam descalços e sem meias. Seja lá em que piso for. De terra, areia, com pedrinhas, azulejados ou cimentados.

                       MAS existem outras, não tão óbvias, cujo bom senso e observação do comportamento local deveria ser suficiente para evitarmos inconseqüências. Jamais tentando imitá-los, todavia. Para observar e absorver, apenas isso. Não há avisos como "Desligue o celular", "retire fones de ouvido", "baixe o tom de voz", "evite conversas", "não fume", "não masque chiclete", "não consuma alimentos e bebidas". Eles são óbvios demais e válidos para qualquer templo de qualquer religião em qualquer lugar do mundo.

Budas e noviças no Shwedagon Pagoda 

                         ENTRETANTO, a regra mais freqüentemente desrespeitada é fotografar-se à frente de uma imagem de Buda imitando seus mudrás. É tão inadequado e incorreto quanto tocá-la. Para qualquer religião isso soaria como um deboche, mesmo que não intencional. Mas os budistas são extremamente tolerantes, "engolem" até que ocidentais sentem-se ao lado ou à frente de Buda. Mas subir nelas ou em sua plataforma trata-se de exagero imperdoável. Fotografás-la durante um culto, dar as costas e apontar com o dedo ou com os pés também. São atos rudes, ainda que relativamente comuns entre os ocidentais. Para um católico seria o mesmo que presenciar um asiático entrar numa igreja, postar-se de pé e de costas para o altar, e bem junto à imagem de Jesus crucificado, sorrindo (!), ser fotografado.

                           "...um mistério dourado, uma bela maravilha brilhando."

                          QUALQUER um que visite Shwedagon o terá na mais alta conta. E não será difícil relacioná-lo entre os monumentos mais belos da humanidade. São quase 90 metros de altura e perto de 60 mil quilos de ouro aplicado em folhas. Construído ainda nos tempos de Buda, sua principal e menos notável característica, é levar o visitante a um mergulho na cultura budista. Acompanhado de um guia, tendo lido e estando informado, o aproveitamento será multiplicado, e o deleite incomparável: conhecer particularidades e detalhes que os olhos desatentos e desinformados não notarão.  

                         DEVE-SE percorrê-lo com calma, placidamente. Há muito o que ver, aprender e entender. E como em todo templo no país, anda-se descalço e sem meias. Mas aqui é sobre um impecável piso de mármore, por vezes quente codo sol, mas varrido ininterrupatamente pelos seus duidadores. O complexo, ou pagoda (paya) de Shwedagon, é composto por uma enorme stupa em forma de sino, no alto da colina, com diversos templos ao seu redor. À noite ou de dia ela reluz. São suas milhões de folhas de ouro revestindo a imensa cúpula, refletindo o Sol ou as poderosas lâmpadas amarelas. Não sem razão Kipling definiu-o como "...um mistério dourado, uma bela maravilha brilhando."

Bandeira budista. Desenhada no final do século 19, simboliza e representa universalmente o budismo

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DOWNTOWN YANGON

 

                     DEPOIS de um dia em Yangon, o "intrépido" viajante a Mianmar só pensa em Bagan e Mandalay. No máximo estende seu desejo a Inle Lake. Provavelmente porque imagina que a mais espetacular atração da cidade - o Shwedagon Pagoda - seja também a única. Os que pensam assim não percebem que um dia a mais na ex-Capital da Birmânia o possibilitaria explorar seus mercados, o centro colonial e os subúrbios, sobretudo ter uma preciosa introdução ao restante do país. Ainda que Yangon não seja uma estrela de primeira grandeza, é uma distinta alternativa às hoje quase genéricas megacidades do sudeste asiático. Ao menos enquanto a globalização não chega. É ainda muito discreta em relação à modernidade. 

 

                    AQUI é o melhor lugar para o visitante notar que a antiga aparência a faz parecer parada no tempo. Ninguém pode prever o que o futuro reserva aos seus edifícios antigos ou da época colonial, seja pela ação do tempo ou da falta de cuidados, seja pelo ímpeto modernizador de qualquer nação atrasada por anos de isolamento em recente abetura. Mas é lícito temer que não seja o melhor.

Downtown Yangon -  A antiga aparência de uma cidade quase parada no tempo 

                        ENQUANTO a evolução política acontece num ritmo veloz em todo o país, as ruas de Yangon mostram que seus dias de glória pararam no tempo. Os britânicos ocuparam Rangoon nos anos 1850 depois da primeira guerra anglo-birmanesa. Decidiram criar um novo lay-out para o centro da cidade. Rangoon já não é mais a Capital. Mudou de nome e tornou-se decadente, quase melancólica. A transferência da Capital para Naypyidaw em 2005 deixou seus edifícios oficiais abandonados à própria sorte. E esvaziou política e econômicamente a cidade. E para mim a charmosa decadência visual do centro de Yangon pareceu uma contradição, uma deliciosa ironia. É justamente sua decadência que reafirma sua intemporalidade, não o contrário. Percorrendo seus caminhos, notamos que sua decrepitude não a torna temporal ou provisória, mas que a decadência é quem lhe confere originalidade. Ou a condição que molda seu caráter: efetiva e perpétua. Foi como eu a notei. E espero que não seja desfigurada pelo novo.

  Downtown Yangon. Uma deliciosa ironia: a contradição da decadência que reafirma sua intemporalidade

                         UMA planta em forma de grade, com ruas e avenidas retas e paralelas cruzando-se ao redor do Sule Pagoda e a partir da Praça Mahabandoola. Defronte a ambos, o belo edifício da City Hall quase apaga o templo dourado. Construído em 1936, suas estranhas linhas misturam o birmanês com o europeu. O resultado arquitetônico é bonito, mas também o mais curioso da área.

 

                        Já o prédio do Myawaddy Bank, na Merchant Street, neoclássico que só, a despeito de seus múltiplos usos e ocupações, os traços de sua herança ainda podem ser notados na entrada: originalmente foi sede do Reserve Bank of India. Em toda a região há inúmeras fachadas residenciais transformadas em uso misto, pintadass em cores vivas, escondidas ou deformadas por instalações elétricas e de refrigeração, mas que ainda mostram sua beleza original. 

 

   Yangon City Hall, tesouro bem mantido. Curiosa arquitetura de estilo quase indecifrável

                        O “batente” para conhecer leva umas 3 horas. É um passeio a pé cobrindo uns 5 quilômetros de Downtown Yangon com foco na arquitetura. Civil, sobretudo, e religiosa, em menor parte. O roteiro destaca o prédio da City Hall, a estação ferroviária, alguns ministérios, além de sítios religiosos, como o da St Marys Cathedral, construído em 1899 e o budista Sule Paya, com sua surpreendente supa dourada marcando o ponto zero da cidade, ideal para começar a explorar a velha Yangon. O templo é antigo, já foi soberbamente mais bonito e original. Atualmente o templo octogonal é cercado por lojinhas, fiéis e curiosos. Não se sabe ao certo sua data de construção, mas asseguram-lhe mais de 2000 anos. O Pagode Sule é além de templo religioso um importante marco na histórica política recente do país. Foi ponto de união popular durante as revoltas de 1988. E ali terminou a Revolução do Açafrão de 2007, uma série de protestos anti-governamentais depois que a junta militar removeu os subsídios do combustível e outros insumos básicos e seus preços subiram 60% numa tacada.

 O transporte público precário...


... fez surgirem soluções criativas, adaptações curiosas...

...e costumes perigosos!

                        Os ônibus de transporte público são em sua grande maioria terrivelmente acabados e sujos. Motivaram o surgimento de um meio de transporte inconfortável, mas bem popular: a carroceria de mini-caminhões adaptados para o transporte de gente. E neles há duas classes: a "econômica" (para os que viajam na caçamba) e a "quase de graça" (para os que vão no teto).

 O ferry vai de um lado ao outro do rio. Entre no barco...


...pegue seu banquinho e sente-se. Só há Classe econômica

                        O porto é apenas para quem fará o breve passeio à outra margem e retornar ao centro da cidade.  Mas defronte a ele está um dos raros prédios reformados, The Strand Hotel, construído em 1901 por quatro irmãos, ricos comerciantes armenos, empreendedores na região e proprietários de grandes hotéis, entre eles o Raffles de Singapura e o Eastern Oriental em George Town, Penang, Malásia. A decoração de época abusava da madeira teca e do mármore, revestimentos que podem ser apreciados numa visita ao saguão ou tomando o chá na mais precisa atmosfera do auge colonial de toda a cidade. O hotel é uma instituição. George Orwell residiu nele por bom tempo.

   The Strand Hotel

                         Jundo aos jardins Mahabandoola, uma curiosidade: homens oferecendo serviços incomuns pra nós, mas bem corriqueiros por aqui: leitura de mão, previsão astrológica e outros tão esotéricos assim. Sentados na calçada com mesas e cadeiras para os consulentes. Não perco tempo com o que não acredito e sigo explorando a cidade antiga, o que me agrada bem mais. A grande praça pública cujo nome homenageia o General Maha Bandula, herói birmanês que lutou contra os britânicos na primeira guerra anglo-birmanesa, de 1824 a 1826, tem no Monumento da Independência - um enorme obelisco construído em 1948, guardado por grandes leões de bronze - o que domina a praça. Inscrições na incrível ortografia birmamesa feitas na base do obelisco são notáveis. O parque chamava-se Fitch Square, em homenagem a Ralph Fitch, um comerciante inglês da época. É bastante popular, vale uma passada se não estiver com pressa.

 O antigo prédio da Suprema Corte. Estilo vitoriano e tijolos vermelhos na Mahabandoola Street 

                        UM grande prédio de tijolos vermelhos em estilo vitoriano, o antigo Tribunal de Yangon, fica na Mahabandoola Street. E nas ruas laterais há outras jóias arquitetônicas parcialmente cobertas por cartazes e anúncios, absolutamente decrépitas. Um dos mais belos edíficios desta parte da cidade é o Yangon City Hall, um tesouro bem mantido, de curiosa arquitetura, cujo estilo, aparentemente indecifrável, mistura elementos asiáticos com toques ocidentais. Por ali também está o Secretariat, o Edifício dos Ministros, de 1902, antiga sede do poder britânico. Na Merchant Road e na Strand Road, margeando o Rio, há inúmeros exemplos de belos edifícios do mesmo período. E na mesma região ficam as comunidades multiétnicas, intactas e vibrantes, coloridas como nos séculos passados: Little India e Chinatown, com lojas, restaurantes, mercados e templos.


Alguns renovados, outros assustadoramente desocupados 

                        ARRANHA-céus são poucos e feios. Revelam as tentativas esdrúxulas da inventividade de seus projetistas: caixas de vidro e alumínio sem graça. Ao contrário destes, tudo mais é definido por edifícios baixos e de desenhos interessantes, ainda que simples e funcionais, e não tão antigos assim. 

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Os mercados de rua de Yangon

                        MERCADO de rua em Yangon significa de rua mesmo. Na rua. E na calçada. Vende de tudo. De comida a alimentos, de roupas a porcariada chinesa, de pirataria a legumes, de frangos e carnes a frutos do mar, de cereais e artigos domésticos a chá, de cebolas a tamarindo, flores a gengibre, especiarias e temperos. A parte mais interessane e curiosa é a de frutas e legumes nativos do sudeste asiático. E tudo aparentemente cultivado em Mianmar.

 

De tudo um pouco, mas a melhor parte é a de alimentos

   

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Yangon e seus bazares

                         EM birmanês mercado chama-se zay ou zei. E Yangon está repleta deles. São ótima maneira de conhecer o ritmo de vida cotidiano da cidade. Não há nada mais atmosférico na cidade. São uma experiência marcante. De sabores, odores e outros efeitos sensoriais. Do início da manhã ao começo da tarde. Como feiras livres improvisadas, são absolutamente interessantes. A primeira impressão é paradoxal: a de um país pobre e carente de tudo produz: verduras, legumes, frutas e cereais de boa qualidade.

  

                         VISITAMOS o Bogyoke (pronuncia-se “boióg”, que significa general) Aung San (o militar pai da liberdade conquistada aos ingleses, e da “senhora”, como respeitosamente chamam a líder oposicionista Aung San Suu Kyi, presa por vinte anos em sua residência). Também chamado Scott Market Scott Market, tem uma imensa quantidade de lojinhas que ocupam um conjunto de prédios. O edifício principal foi construído em 1988, no lugar de um velho galpão de ferro. Ainda é notável numa ou noutra seção. No mais, é feio arquitetônica e estruturalmente, mas proporciona aos visitantes uma oportunidade de presenciar  a variedade gigantesca de produtos, de ervas medicinais a jóias caríssimas. A Birmânia produz jade e pedras preciosas de alta qualidade, entre elas os considerados melhores rubis e safiras do mundo. Há setores de têxteis, máquinas, ferramentas e eletrodomésticos, de alimentos, de artesanato e antiguidaddes, Para o turista, o maior apelo pode ser o de artesanato e antiguidasdes, que no Brasil custariam uma pequena fortuna, mas que por lá podem-se garimpar peças extremamente interessantes.

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O Circle Line de Yangon

                        Impossível dizer qual foi a atração mais marcante em Yangon. Todavia, eu gostaria de recomendar a todo viajante de primeira hora a Mianmar que pense em usar o trem suburbano. Ele parte da Central Railway Station, cujo estilo arquitetônico British Raj do grande edifício mistura linhas ocidentais e orientais. Nem de longe intimida como as estações e trens indianos, mas também não é difícil lembrar-se deles assim que entrarmos na estação. Que dirá, então nos vagões do Circle Line.

 

Yangon Central Railway Station

                        À primeira vista pode até intimidar, mas é por pouco tempo. Logo percebemos que trata-se de uma atrações humana e arquitetônica. Parece impossível comprar um bilhete. Tudo está escrito em birmanês. Até o timetable. Todavia há um guichê próprio para estrangeiros. E exclusivo. Compramos um bilhete baratíssimo e saltamos onde quisemos, umas seis estações depois da Central. A viagem total leva duas horas, mas nem de longe é preciso fazer todo o percurso. Depois retornamos de taxi.

  

Tudo está escrito em birmanês. Até o timetable. Todavia há um próprio para estrangeiros


O bilhete, é baratíssimo. E o passaporte para a melhor experiência antropológica em Yangon

                         Velho, lento e sujo, mas não há melhor maneira de ser apresentado ao modo de vida real, popular e cotidiano do povo da ex-Capital do que num vagão do Circle Line. Tanto pelo que se passa dentro quanto fora. Em cenas rurais e urbanas. De um trem que parece arrastar-se pelos trilhos na periferia da cidade. Os bancos são de madeira, as janelas pequenas, as portas são vãos sempre abertos. As pessoas andam nos trilhos. Vendem-se frutas prontas pra comer em bacias levadas à cabeça. Entram numa estação, saltam na seguinte. Indo e vindo.

    Salte onde desejar. Mas umas seis estações depois da central já basta

                        É uma viagem de trem curta e fascinante. Em velhos trens movidos a locomotivas diesel, sacudindo e balançando ao longo dos trilhos de bitola estreita do velho e pouco funcional sistema birmanês. Uma das coisas boas da vida turística, afinal, é estar preparado para viajar na única classe - ordinária - e em vagões precaríssimos, com bancos de madeira sem acolchoamento e desgastados. Mas observar discretamente a vida que passa fora e circula dentro do trem não tem preço.

Precário, feio, sujo, velho, lento e desconfortável. Mas nossa melhor experiência em Yangon!

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(*) Nota: A noz de bétele é a semente da palmeira de bétele (Areca catechu). Esta palmeira pode crescer até 20 metros e tem folhas com 1 metro de comprimento. É uma das plantas mais populares do mundo. As suas folhas são convertidas em papel para enrolar tabaco e ervas.
A noz de bétele é mastigada com lima queimada e por vezes outras ervas. Há milhões de asiáticos que apreciam a sua dose diária de noz de bétele. Seu uso regular mancha a boca e os dentes de um vermelho forte. Mas os mascadores asiáticos da bétele têm orgulho nestas manchas.

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Leitura recomendável

Myanmar: Burma in Style: An Illustrated History and Guide

By Caroline Courtauld - Odyssey Publications,Hong Kong

ISBN 13: 9789622178328 ISBN 10: 9622178324

O Lago Kandawgyi, o Shwedagon Pagoda ao fundo e o Kandawgyi Palace Hotel em Yangon

                      O guia Lonely Planet é o mais fiel e atualizado de Mianmar. Tem uma edição nova lançada recentemente. 

                      Já não há mais a necessidade de enfrentar filas para conseguir uma reserva num hotel, uma passagem de trem ou de avião. As coisas mudam rapidamente e já existem dezenas de operadoras turísticas nacionais confiáveis, cujas páginas na Internet e e-mails garantem todas as informações e acertos necessários. Também há inúmeras estrangeiras e algumas brasileiras com pacotes diferentes para o país, de individuais a excursões em grupo. Viajamos com a Diethelm Travel (http://www.diethelmtravel.com/Pages/home.aspx) e com a Highlands (http://www.highland.com.br/).

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Próxima parada

Mandalay


(sem legenda!)

 

Quarta-feira
Fev202013

YANGON, Mianmar – O primeiro sabor birmanês

Pequeno monge noviciado numa escola monástica do Bagaya MonasteryInnwa, província de Mandalay

________ INTRODUÇÃO

              MIANMAR está sendo tomado por estrangeiros. Mas desta vez os invasores não são imperialistas britânicos. São turistas, especialmente europeus, loucos por destinos incomuns, ávidos por exotismos e ansiosos por conhecerem um lugar até bem pouco isolado do mundo. Oficialmente aberto ao turismo internacional em meados de 2012, o fim do regime militar encerrou a miséria ideológica e abriu ao mundo o acesso a um patrimônio espetacular. Não é de estranhar então o fenomenal salto de 300 mil para 1 milhão de visitantes nos últimos doze meses. Entre eles, nós. Provavelmente os dois únicos brasileiros desembarcando em Yangon naquela manhã.

Antigos pagodas budistas de Indein – Inle lake, provícia de Shan, Mianmar

                   O país ainda não é para principiantes, mas seria exagero afirmar que é para intrépidos e aventureiros. É pouco conhecido, já foi assustador, mas está longe de ser incivilizado ou inseguro. Ao contrário, é um desses que a gente pode circular com surpreendente tranquilidade e deliciosa receptividade. Sabendo disso, por que então eu experimentava uma ansiedade tão incomum?  Quanto mais eu imaginava uma recepção inquisitiva, fruto das naturais reminiscências de anos de govêrno pela "junta", mais rapidamente me dirigia ao departamento de imigração. Ainda que sem nada a temer, de fato eu esperava encontrar agentes militares de poucas palavras e nenhum sorriso, um desenrolar lento de bagagens, um despacho alfandegário intimidativo e até mesmo a fiscalização de nossas malas. Ditaduras e estados de exceção freqüentemente deixam sequelas. E suas reminiscências custam a se apagar. Afinal, a democracia birmanesa ainda é bem recente. E aparenta ser bem tênue.  

Htilominlo Pahto, do Século 11, um dos espetaculares payas de Bagan 

                   Um cartaz anunciava que Em Mianmar o tráfico de drogas é punido com a pena de morte”. Tais anúncios soam curiosos e exóticos para quem não os teme, mas não deixam de sugerir contrôle alfandegário rígido e intimidativo. Mas então um outro cartaz logo à frente dizia “Warmly Welcome and Take Care of Tourists”, em birmanês e inglês, que dali em diante encontraria por todo o país. Àquela altura, tudo mudou. E de uma viagem que eu esperava muito, não poderia supor que ainda no aeroporto já sinalizava ser bem mais fascinante. Talvez a arquitetura oriental do terminal aéreo, ornada com volutas e pináculos dourados, já me concedesse tais liberdades românticas. Mas o fato é que eu não contava com me apaixonar tão cedo. Não deixa de ser desconcertante para um turista experiente deixar-se pegar assim.

A incrível vida flutuante do Lago Inle

                    Aquela atmosfera doce, o exotismo autêntico, a cultura não globalizada, os costumes não plastificados pareciam já haver me conquistado mal eu desembarcara. Eu percorria aquele corredor iluminado pelo sol e já começava a compreender a complexidade e as contradições do país naqueles avisos - um tão severo, outro tão gentil. Eu sabia bem que nos próximos 15 dias ficaríamos sem Internet e celular (*1), sem presenciar ocidentalismos e sem poder usar cartões de crédito. E felizmente também sem ver letreiros de grifes famosas e afortunadamente também não de fast foods americanos, de Starbucks e 7-elevens.  Provavelmente também não encontraria touts ou as espertezas turísticas tão comuns ao destinos turísticos de massa.

Campos de arroz em Kyaing Tong

                       Naquela manhã eu só pensava em me desvencilhar correndo desses trâmites e começar a explorar Yangon (pronuncia-se “jangon”), sua poética decadência do centro velho, visitar seus templos, ver Buda representado nas mais lindas estátuas, caminhar entre monges e pessoas comuns, ver gente de faces exóticas, silhuetas elegantes e gestos finos, tudo o que tanto havia me atraído em fotografias. Ainda na pequena fila do balcão de imigração eu me recordava do quanto havia me preparado, lido e explorado para conhecer a complexa diversidade do país, seus mosteiros mais incríveis, os movimentados mercados populares, as incríveis etnias das montanhas de Kyaing Tong (*2) , a curiosa vida flutuante do Lago Inle, a diversidade de Mandalay e por fim experimentar meu primeiro vôo de balão, especialmente porque seria sobre os milenares templos de Bagan.

 A vida no interior do país: etnias e palafitas de bambú

                       Mianmar já se revelava não como alguns países - aos poucos e em camadas - mas com seu estilo, personalidade e caráter inconfundíveis abertos no primeiro encontro. Reconheço que a tônica de minha imaginação é sempre romântica, que sou receptivo e aberto em viagens, mas francamente não esperava um procedimento de imigração tão simpático, a ausência de perguntas, o menor sinal de dúvida acerca das nossas intenções turísticas e pacíficas. Muito menos, depois daquele cartaz, por uma liberação rápida de nossa insuspeita bagagem.

 Turistas, sejam bem-vindos!

                       Pegamos a nossa, passamos pela alfândega sem que nos pedissem os formulários preenchidos no avião e saímos no saguão de desembarque. Oficialmente estávamos em território birmanês. E ali mesmo encontrei homens e mulheres vestidos à moda birmanesa, trajando seus elegantes longyis e eingyi (*3), com atitudes e gestos doces e discretos. Trocamos um pouco de dólares pelo dinheiro local - o Kyat (pronuncia-se “chat”) - e logo tomamos um taxi a caminho do hotel. Não sem antes nos surpreendermos com a quantidade de turistas. Talvez porque novembro a fevereiro sejam os melhores meses para visitar Mianmar. O clima é "ameno" e seco, em nada lembra os tórridos e úmidos das monções. Pra quem caminhará muito, vencerá trechos em bicicleta e de barco descoberto, fará trekkings nas montanhas de Kyaing Tong (pronuncia-se “chain ton”), as temperaturas suportáveis e a ausência de chuva são os fundamentos para uma viagem agradável e proveitosa.

São incríveis as estátuas de Buda em Mianmar

                    No caminho ao hotel não foi a arquitetura de Yangon o que me pareceu “fazer” a cidade, senão as pessoas e os veículos. E já ali confirmavam nossas boas expectativas. Notamos um descompasso entre os desejos de modernidade e a deterioração da cidade pela perda de status para a nova Capital. No trânsito percebi a falta de um veículo comum às ruas do sudeste asiático: as motonetas. Foram proibidas na então capital pela insanidade dos militares: certo dia um deles, revoltado por ter seu carro oficial abalroado por uma, levou à “junta” seu pedido de proibição daqueles veículos na cidade. E a obteve! Já no resto do país, dominam as ruas e estradas. Mas são sempre conduzidos lenta e pacificamente. Os carros têm volante do lado direito, ainda que não trafeguem do esquerdo. A maioria é dos anos 80. Alguns parecem dos 70. Os ônibus também, terrivelmente acabados e sujos, motivaram o surgimento de um meio de transporte nada confortável, mas bem popular: a carroceria de mini-caminhões adaptados para o transporte de gente. E neles há duas classes: a econômica, para os que viajam na caçamba, e a quase de graça, para os que vão no teto. Chegar em Mianmar vindo de Doha é uma agradável volta no tempo.

Elegantes: na simplicidade de seus longyis e nos gestos contidos

                         Lá estivemos nós em Mianmar. E tivemos bem mais do que um breve vislumbre sobre o país. É bem fácil enganar-se pela aparente suavidade do país. Ainda repleto de conflitos e contradições, com uma história recente horripilante, ainda hoje um país incerto, entretanto conseguimos compreender e absorver sua cultura, sobretudo nos deliciamos com ela. E aceitamos algumas de suas maravilhosas contradições relaxando como os birmaneses. Fizemos de nossos o seu modo de vida, compreendemos sua história, respeitamos seu destino e, como a suavidade com que deixam fluir sua própria vida, abertos, nos misturamos à sua gente em suas paisagens rurais e urbanas, nos deliciamos com sua comida e nos encatamos com seu patrimônio.

A beleza e doçura do povo, ainda mais tocantes nas crianças

                       Mianmar é um belíssimo país de uma gente espetacular. Como nós percebemos, espero que também o leitor o possa ao ler a série de matérias que aqui se inicia sobre este país ancantador, de um povo encantador, de paisagens diversas, de patrimônio extraordinário e de experiências marcantes. Boa viagem!

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(*1) Nota: Internet existe. Mas a lentidão e as interrupções frequentes dão a tônica das conexões. Nenhuma novidade pra nós que fomos ao Uzbequistão, Quirguistão e outros países do oriente médio com restrições e dificuldades semelhantes. Para os que não vivem desconectados, é preciso preparar-se, Para os que conectam, paciência. Elas sempre variam muito na velocidade. Vão de extremamente lentas, sobretudo no interior, a relativamente lentas, nas principais cidades. Recentemente foram levantadas algumas restrições de acesso à Internet. Passou a ser possível ter acesso a Facebook, Twitter, G+ e outras chatices. Telefone celular? Melhor não contar com ele. O Roaming é possível apenas operadoras de paises vizinhos. Mas em breve será possível comprar chips locais para celulares brasileiros.

 (*2) Nota: se imaginarmos um mapa etnográfico de Mianmar ele se pareceria com uma colcha de retalhos. O maior grupo é da etnia “birmanesa”, e vive numa região denominada pelos britânicos à época colonial como “Burma Proper”, que extende-se pela vasta área da planície do Rio Ayeryarwady (pronuncia-se “Ejaruádi”). Da população atual de 60 milhões de habitantes, são a esmagadora maioria. O restante é de minorias, divididas em 7 principais e outras 60 ainda menores.

 (*3) Nota: todos usam o longyi. Homens e mulheres. Mas ainda que os nomes definam a vestimenta comum a ambos os sexos, são diferentes na forma, na confecção, no tecido e no modo de usar. Seu primeiro efeito é proporcionar uma maneira democrática de todos vestirem-se, ou seja, não se percebem grandes diferenças sociais entre os que se vestem à moda tradicional. Basicamente é um sarong, uma saia comprida que vai da cintura ao tornozelo. Nos homens ela tem a forma de um saco enrolado em torno da cintura, onde é preso com um nó não muito simples: uma das pontas enfia-se para dentro da bermuda (no meu caso, porque no deles usam apenas roupa de baixo), e a outra torcida e presa no própiro nó. Se for bem amarrado, dura bastante tempo. Não há qualquer outro tipo de fecho, cinto, prendedor ou amarração. Todos acabam tendo que ajustar vez por outra seus longyis à cintura. Usa-se com chinelos tipo havaianas, o genérico chinês delas, de borracha, ou a nacional, melhor, mais bonota e de melhor gosto, em palha, sola de borracha fina e tiras de tecido acolchoado. É extremamente confortável e prático, leve e ainda mais adequado ao calor. Usa-se com camisa de algodão social de mangas curtas ou compridas, dessas ocidentais. Todavia, fica ainda mais bacana usado com uma camisa eingyi, de linho ou algodão, de mangas curtas, com gola de padre, abotoada à frente. Igualmente extremamente confortáveis e frescas.

Os modelos femininos são mais bonitos e elaborados nos tecidos e na confecção. E são um tecido contínuo não costurado, uma folha de pano amarrada lateralmente com duas pequenas faixas costurada a ele. São bem mais finos, porque em geral feitos em seda com algodão, ou seda pura, ou ainda na seda feita de fibra de lotus, tecido tipicamente birmanês.

Comprei meu próprio longyi e ainda sem dominar a técnica de amarrá-lo à cintura com firmeza (tampouco sem parecer um palhaço fantasiado), não foi difícil querer usá-lo todos os dias. Com a ajuda indispensável de um local, eu o vestia e o usava como se deve. E depois achar a roupa mais confortável do mundo (especialmente quando usado com o eingyi, uma camisa de mangas curtas, a ainda mais charmosa se for no estilo shan, abotoada à moda chinesa). Só não a usei sem estar de bermuda por baixo. Não encontrei auto-confiança suficente para tanto.

Estando no país muitos turistas usam-no, tanto por ser confortável quanto pelo fato de que causam extrema receptividade e simpatia por parte dos locais. Especialmente se o fizermos como o fazem os birmaneses, com naturalidade e ajeitando-os para que não pareçamos fantasiados, senão vestidos como eles. Senti saudades dos meus longyis. 

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  A seguir: 

A velha Yangon