MENSAGEM ao LEITOR
BIO

BEM-vindo!

        Sou brasileiro e empresário. Viajo com minha doce Emília, esposa e autora do blog "A Turista Acidental". Além de cia. excepcional, complementa, reforça, aumenta e me ensina. Tanto que qualifica minhas viagens antes e depois dela. Desde que nos conhecemos, passamos a viajar juntos e eu a compreender o que quis dizer Érico Veríssimo com "Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado com certeza chegará mais longe." 

      Desde então, passei a escrever ainda mais inspirado, com maior entusiamo e dação ao ato de esrcever.  Agora estamos grávidos. De gêmeos - uma menina e um menino - que nascerão em julho próximo. Embora isso nada tenha a ver com um blog de viagens, provavelmente terá muito com o futuro deste aqui. Ou porque teremos que interromper por bom tempo nossas viagens ou porque se viagens sempre foram uma motivação, agora - com os gêmeos - ainda mais.  Claro, primeiramente para destinos menos arriscados para os pequenos. Como todoss os pais, queremos o melhor para nossos filhos. E talvez como todos, temos muitas dúvidas do que efetivamente é melhor para eles. Mas viajar, não, não temos.

        Tenho 63 anos, boa parte deles dedicados à família e ao trabalho. Aos 35 comecei a viajar internacionalmente. Desde então visitei 60 países, entre os quais alguns dos mais fascinantes e que abrigam sítios dos mais admiráveis do planeta. Felizmente para alguns deles quando ainda estavam a salvo do turismo de massa, cujos excessos arruinam qualquer lugar. Tornei-me blogueiro há nove anos ao descobri que não agradava os amigos e familiares ao entupir-lhes as caixas postais com e-mails recheados de textos e fotos. O blog foi a maneira de compartilhar minhas notícias, fotos e textos para quem quisesse e quando desejasse vê-los. 

        Para alguns países retornei tantas vezes que tornei-me íntimo. Para outros, uma ou duas mais apenas, freqüência que todavia ainda não me esgotou deles. Em cerca de 90 viagens internacionais, voei por 40 cias. aéreas diferentes (algumas extintas) em 391 vôos para fora do Brasil e dentro de outros países. Segundo o Haroldo Castro - jornalista-fotógrafo que já esteve em 160 países -, fazendo o teste "Viajologia" em seu site (que considera não só países visitados, mas lugares, monumentos e patrimônios, além de transportes, experiências e situações em viagens), alcancei "Mestrado em Viajologia". Mas isso não é nada, ou quase nada diante de gente que tem pós-doutorado em viagens. Se eu conseguisse resumir o que esses quase trinta anos viajando me proporcionaram em termos de aprendizado, diria que perceber que quanto maior a flexibilidade de adaptação aos ambientes, mais e melhor consigo extrair deles foi o mais útil. Incontáveis marcas as viagens me deixaram, entre elas a simpatia e a humildade legítima dos birmaneses e dos uzbeques, entre os povos mais doces e inesquecíveis com quem tive o privilégio de conviver.

         Ainda que nada me pareça mais excitante do que viajar, também por fotografar e escrever tenho muito gosto. E desde a infância. Fazê-los sobre viagens tornou-se então natural, ainda que este blog tenha sido bem mais tardio, e passado de lugar onde compartilho viagens e imagensa à intenção de inspirar e motivar os leitores a viajarem. Melhor seria dizer, contagiar! Sobretudo a exercitarem o prazer de viajarem sem serem guiados. Uma das minhas esperanças é que os leitores do meu blog queiram descobrir os destinos que visitei mas que o façam enxergando tudo com seus próprios olhos, que vivam suas experiências e então concluam suas com suas próprias opiniões. Agradeço a visita e os comentários. E desejo boa viagem!

Em tempo: não importa o estilo, admiro quem mostra iniciativa e paixão escrevendo um blog, os que descrevem ao seu jeito suas viagens e refletem sobre os destinos que visitam. No outro lado, lamento que muitos tenham sido mordidos pelo bicho da monetização dos blogs, sobretudo os que o fizeram irrefletidamente, e a qualquer custo, especialmente o da perda de credibilidade e admiração. Dos blogs amadores aos profissionais, muitos transformaram-se em exemplos lamentáveis de má gestão, de amadorismo, de relatos de viagens pagas, patrocinadas e a convite de órgãos oficiais de turismo. E o que era um prazer de ler, tornou-se sem personalidade, falso, comprometido, vendido. Hoje esses blogueiros são escravos do que plantaram.

Eu não viajo de graça, não sou puxa-saco de destino, baba-ovo de blogueiro da "rede" nem vivo pagando-pau pra hotéis e companhias aéreas na esperança de ficar bem com o trade e conseguir gratuidades, vantagens, benefícios ou privilégios pra viajar. Nada tenho quem ganha dinheiro com blog, desde que não iluda seu leitor.

Então, não tenho obrigação de falar bem do que quer que seja. A não ser legitimamente. Por isso é bom saber, caro leitor, que não aderi ao "esquema" corporativista da blogosfera que se protege e se incentiva mutuamente, os que jogam no time da vulgarização de matérias em troco de dinheiro. Não estou preocupado com audiência se ela significar perda de credibilidade. Prefiro ter poucos leitores, mas aqueles dos que gosto: espertos, que não caem nas lorotas de blogueiros vendidos, sabem diferenciar enganadoros que escrevem porque fizeram uma viagem gratuita. Sou admirador da enorme comunidade de blogueiros que escreve legitimamente e sem compromisso comercial.

Leitores como você, que vieram até aqui, leram o conteúdo até o final, que reconhecem e valorizam os bons blogs são o motivo de eu ainda estar aqui. Então, novamente, obrigado.

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Jun122013

IRÃ - Reflexões sobre uma viagem e um país

                  A melhor virtude de envelhecer bem é não perder a curiosidade. Ela é uma característica própria aos jovens. Eu sei, já fui jovem. E ainda me recordo bem dos meus 21 anos. E também de que faz muito tempo que passei da marca. Muito tempo. Entretanto, quanto mais ele passa pra mim, maior a alegria ao perceber que não perdi algumas das boas características das mentes juvenis. Então, afortunadamente não deixei de ter curiosidade, justamente o que me conduz às descobertas, ao conhecimento e, finalmente, me impulsiona a viajar.

                 Como posso ser tão óbvio, perguntará o leitor? Nada pode ser mais claro e intuitivo, ele concluirá! Posso até concordar com o leitor, mas apenas se ele tiver 21. Para ele digo: refiro-me ao fato de que na minha idade boa  parte dos indivíduos imagina já ter visto tudo, compreendido o suficiente. E então deixa de impulsionar-se em direção à verdadeira sabedoria: compreender que jamais saberemos tudo, especialmente as pessoas e seus comportamentos.

                  Mas é nas viagens que em mim a curiosidade melhor se manifesta. Após cada nova, reconheço o quanto melhor percebo o mundo (como ele é, não como o imaginava). E que ainda aparentemente paradoxal, quanto mais o visito, "conhecê-lo" torna-se mais distante. Tem sido assim: quanto mais curiosidade, melhores as descobertas. São as premissas que nos fazem escolher destinos de viagens. Quando não são por lazer ou para destinos comuns, miramos olhares para lugares onde o medo de visitá-los limita a curiosidade em conhecê-los. Índia, Uzbequistão, Mianmar, Cambodia e Quirguistão que o digam. Etiópia, em janeiro, e Eritréia algum dia, que nos venham a dizer. Evidentemente que não precisaremos de coragem para ir a alguma ilha do Caribe, ou ainda Seychelles, destinos desejados e bem prováveis para 2013.

                 Sendo assim, não seria exagero afirmar que em minha vida de viagens posso considerar as que fiz antes e depois de perder o medo. E de potencializar a curiosidade. Foi assim com a Índia. Mas tenho lido depoimentos que deverá ser assim também com o Irã.  Afirmações assim podem soar exageradas, mas provavelmente apenas para quem nunca pisou naquelas terras. Os que já as exploraram sabem o quanto marcaram-se e foram afetados em suas perspectivas como viajantes. Tenho lido muitos depoimentos e notado que o país costuma influenciar as pessoas até mesmo como indivíduos. Sobretudo o seu modo de encarar suas próximas viagens. As minhas serviram para muito, sobretudo para perceber que eu estava errado acreditando que não há gente genuinamente generosa. Tenho especial inclinação para acreditar que a humanidade está definitivamente comprometida. Seja pela falta de honestidade e princípios, seja pela de generosidade. Sou dos que têm a coragem de assumir a ciência, o conhecimento e a cultura como os únicos meios de verdadeiramente compreender a vida. Não nos dogmas religiosos. Foi justamente a religião que me fez compreender que justamente ela não se pode contestar livremente, expressar sensatez discordância, exercer honestidade de pensamento e discordar de seus dogmas. Desde moleque não acredito em dogmas religiosos. E creio profundamente que este foi um dos meus caminhos para a felicidade.

                 Sobre a humanidade, minhas convicções podem mesmo estar equivocadas, e deixar de crer que sua maior parte está bem mais comprometida com receber do que dar, com ter do que ser. Reconheço a ranzinisse. Mas depois de visitar o Uzbequistão, o Cambodia e Mianmar  -  lugares onde a generosidade é tão legítima, a receptividade tão  e natural -  foi desconsertante perceber como sua gente demoliu meus, digamos, preconceitos. Segundo tenho lido, provavelmente também o Irã, que visitaremos em outubro próximo, comprometerá ainda mais gravemente tais convicções, a de que a humanidade é medíocre. 

                  Independentemente do grau de fascínio de seus autores, os relatos de viagens que tenho lido sobre o Irã, Índia e Uzbequistão têm revelado emoções incomuns, que apontam justamente para esta realidade, a de que a humanidade não é toda medíocre. Talvez apenas a menor parte dela. Grandes escritores de viagens já o fizerem. Anônimos e simples contadores de histórias também. Não por menos. Estes lugares costumam influenciar mentes brilhantes.

 

                   Aqui deste lado ainda me surpreendo com o que me leva a escrever. E também no quanto entro em conflito toda vez que o faço. Primeiro ao perguntar-me se o que faço terá alguma relevância para o leitor. E para a blogosfera turística decente. Se contribuirá para elevar seu nível. Ou, ainda, se será mais um relato insosso. Depois, se alguma utilidade encontrará nele o leitor, mesmo que não pretenda visitar o lugar que descrevo. Finalmente, se o inspirará, se conseguirá transmitir-lhe conteúdo, responsabilidade na abordagem dos temas, maturidade, correção e imparcialidade, virtudes que tanto defendo nos relatos de viagens. Tudo  evidentemente sem parecer impositivo. Pretensão aqui só existe uma: atrair o leitor até a última linha do texto. Mais ou menos como conseguem os blogs efetivamente criativos, sérios e interessantes. Nesta hora (boa hora!) me ocorre mencionar um, ainda que tantos outros eu pudesse:

 

1) o Gabriel quer Viajar.  Exemplo notável para quem procura vida inteligente no mundo dos blogs, para os que alinham-se com autores que não sucumbiram à superficialidade ou àquele jabázinho descarado (*).

 

2) a viajadíssima blogueira e gente boa Fê Costta, do Viaggio-Mondo, que acaba de comentar aqui no blog (no post Irã, o último segredo do Oriente) informando que viajará ao Irã em agosto! Mais dois bons relatos na blogosfera brasileira estão por vir. É aguardar e conferir. E então, deliciar-se.

 

                  Ainda teimo na pretensão de escrever. E agora, sobre o Irã, de maneira ainda mais preocupada com a positividade e a imparcialidade. Sobretudo sem preconceitos. Seguindo estes valores, a tarefa será bem complexa, porque relatar uma viagem ao Irã - sob o ponto-de-vista de um ocidental - não é algo simples se a intenção não for uma abordagem superficial. Como os leitores mais antigos já reconhecem, não escrevo um guia de viagens. Já há muitos extensos e bons. Então, fazê-lo seria uma pretensiosa inutilidade. E nada mais ne desagrada tanto quanto pensar na possibilidade de escrever sobre futilidades, inútil e superficialmente. Portanto, para quem precisa de um guia de viagens excepcional, recomendo o Lonely Planet. E para visitar o país com um bom conteúdo hitórico, uma boa bagagem de conhecimentos político e cultural, recomendo a literatura mencionada nas notas ao fim deste post. São as leituras a que me entrego neste momento de mergulho no Irã. E ainda que outras viagens estejam a caminho antes desta, não paro de consumir o Irã enquanto isso. Iremos ao Grand Teton e ao Yellowstone National Parks, em Jackson (Wyoming). E depois faremos um Safari fotográfico em Sabi Sands, na África do Sul.

 

                  Meu objetivo será contar uma viagem surpreendente à República Islâmica do Irã, revelar em fatos e fotos suas belezas naturais e arquitetônicas, mostrar seu povo, seu caráter, seus costumes e também suas contradições. O resultado será imensamente compensador se o leitor inspirar-se e motivar-se a conhecer o país. Se para mim uma viagem vale mais quanto maiores os prazeres que ela me proporciona, transmitir isso ao leitor vale o trabalho de ter escrito e publicado seu relato. E ter leitores que já testemunharam isso consagra-se num grande privilégio. O exemplo mais recente foi de um leitor que decidiu viajar com sua esposa ao Uzbequistão e Quirguistão após ter lido nossos relatos e ver nossas fotos aqui no Fatos & Fotos de Viagens e no A Turista Acidental, de minha doce Emília. E já tendo ido ao Irã, gentilmente ofereceu-nos suas dicas. Obrigado, Nelson Laskowsky (*).

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IRÃ - Um país mal conhecido, um lugar nada comunzinho

                   Estereótipos.  E uma realidade bem mais complexa e diversificada do que supõe a vã filosofia ocidental. É tudo o que basta para atribuir o caráter violento e belicoso ao seu povo. E acreditam num arraigado e generalizado sentimento anti-ocidental. Ainda que este último não fosse injusto, muito, mas muito longe disso, o Irã tem um povo extremamente gentil, culto, bem informado, que cultua a poesia, a família e a hospitalidade. E não se podem relacionar tantos povos assim tão genuinamente interessados em atender aos viajantes, em serví-los bem e cativá-los. Ainda que politicamente o governo não incentive o turismo internacional e suas más influências. As atitudes de seus governantes e líderes religiosos e seu programa nuclear "suspeito", todavia, não representam o que pensa toda a sociedade civil. Ainda que seja uma República islâmica, ao contrário do que acontece com os paíese da "Primavera árabe", Egito, Síria e Tunísia os exemplos mais evidentes, a religião não é a chave da vida do povo.

                  Jomhuri-ye Islami-ye Iran, ou República Islâmica do Irã, é um país geograficamente asiático, situado do Oriente Médio. Faz divisas com a Armênia, o Azerbaijão, o Turquemenistão, o Mar Cáspio, o Afeganistão, Paquistão, Iraque e Turquia, além de com os Golfos de Omã e Pérsico. Há cinqüenta anos os Estados Unidos derrubaram o governo de Mohamed Mossadegh, primeiro-ministro eleito democraticamente eleito. O golpe de Estado foi também uma lição importante e definitiva sobre os perigos de intervenções estrangeiras em países islâmicos. A conspiração que depôs reconduziu o xá Mohamed Reza Pahlevi ao poder deu lugar à Revolução Islâmica de 1979 e à subida ao poder do aiatolá Khomeini. Estava começando uma virada histórica que abriu caminho para o fundamentalismo islâmico e que influenciou profundamente a história do Irã, do Oriente Médio e do mundo. Durante 25 anos o tirânico regime pró-ocidental do xá desenvolveu sem saber a revolução Islâmica de 1979, hoje uma forte fonte de inspiração de fundamentalistas de todo o mundo islâmico. Especialmente dos talibãs e dos terroristas sob a sua proteção. Mas o Irã tem mantido uma personalidade distinta do restante do mundo islâmico. É justamente este o ponto mais importante a seguir para se compreender o país e suas enormes contradições.

                  Menos de uma década depois dos USA invadirem o Iraque, depois de um processo fraudulento que revelou falta de informação e intenções escusas, estão tentanto empurrar a América em direção a uma guerra com o Irã. Porque Israel não tem coragem de fazer isso sózinho. O que qualquer indivíduo isento espera é que Obama inspire-se. E perceba que o Irã não é a caricatura que lhe parece, e faça a potência perder um pouco de sua prepotência, distender-se e aproximar-se do Irã.

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Uma eterna sedução    

                   E por que o Irã nos seduz assim?  Convenhamos, não é tão fácil encontrar no mapa um destino incomum, não óbvio, genuinamente original e exótico como o Irã. Me refiro aos destinos possíveis, para onde se pode viajar com segurança. É justamente por esta razão que lamento que este país jamais tenha sido capa de uma revista de viagens brasileira. Apesar do território tão grande, da geografia tão variada e da história tão longa e rica. Para mim não seria possível imaginar que as revistas de viagens brasileiras de grande circulação não saissem um milímetro de sua costumeira obviedade e olhassem para o Irã. Não por outro motivo deixei de ler a Viagem & Turismo, da Editora Abril. Questão de princípios. No universo da imprensa nacional, não curto mesmice, superficialidade e falta de criatividade. Assim como não curto no mundo virtual o estilo "cagação de regras" (*) dos que acreditam que haja apenas um jeito de arrumar malas de viagens, um bom modelo de malas, uma maneira de viajar, que só haja um tipo de ser humano, que a humanidade seja linear, que não existam outros lados, gostos, opiniões, conceitos, afinidades, interessses, disponibilidades.

                    A não ser pela revista Terra (edição de abril de 2005), de uma jurássica Revista Geográfica Universal de 1975, da National Geographic (que afinal não é brasileira), nem mesmo nas excepcionais revistas portuguesas Volta ao Mundo e Rotas & Destinos encontrei matérias de capa sobre o país.  Acho incrível que a imprensa especializada não tenha se motivado pelos três mil anos de história, pelos milênios de sabedoria acumulada, pelos treze Patrimônios da Humanidade e por uma cultura tão soberba num país tão acolhedor e com enorme potencial turístico. Além de tudo, no Irã há montanhas onde a neve cobre os topos durante meses, desertos incandescentes, arquitetura fascinante e um povo educado e profundamente acolhedor. Parece muito, mas é pouco se comparado a tudo mais que o país tem a oferecer ao turista.

                  Por que então deixar o Irã pra depois? Porque o país é fechado, a religião é ortodoxa, os costumes conservadores, as leis rígidas e as mulheres não valorizadas?  Porque Irã apóia terroritas? Porque é real e pernamente a possibilidade de guerra com Israel? Porque é mantido em segredo seu programa nuclear? São fatos incontestáveis, polêmicos e sobretudo aparentemente assustadores. Então, por que duvidar da apreensão universal? Se é verdade que de um lado há muito o que conhecer antes do Irã, há outro. Para mim a resposta a todas estas questões foram simples: porque tudo sempre tem dois lados.  

                  Contra o Irã já basta ser injustamente demonizado pela mídia e abordado com banal superficialidade. Em viagens turísticas somos apolílitos. Separamos bem o que é governo do que são o povo e o país. Turistas de bom senso, lúcidos e razoáveis não deixariam o Irã pra depois baseados apenas nestas premissas. Afinal, a desinformação e o preconceito são irmãos gêmeos. Univitelinos.  O Irã é um dos países mais incompreendidos no mundo ocidental. E seu povo um dos mais injustamente temidos. Mas poucos sabem efetivamente algo consistente sobre ambos.  Pelo menos aquilo que vá além da política e da religião. Ainda assim, quase sempre superficialmente. Nossa experiência em lugares tidos como inseguros - Mianmar e Uzbequistão dois exemplos mais recentes - nos fez compreender que elas podem ser muito diferentes daquilo que se avalia quando nos baseamos apenas no que encontramos na mídia. Porque frequentemente o que acontece nos poderes não é o que se vê e se experimenta nas ruas. Foi pensando assim que nosso desejo antigo nos fez questionar por quê boa parte do mundo deliberadamente alimenta forte sentimento anti-Irã.  Eu me perguntava: "Se há dois lados - um que afasta e outro que atrai a maioria dos turistas -, se todos os livros e revistas que li e estou a ler, se tudo o que consultei com conteúdo decente na Internet foi sempre extremamente positivo, por que então não ouví-los?". Para uns viajar ao Irã aparenta ser uma insanidade. Ou um perigo. Para outros é uma enorme oportunidade. Para nós o Irã é um desejo antigo que nos seduzia com freqüência como um dos mais espetaculares destinos turísticos do planeta. Ainda que viajar até lá seja um desafio, requeira árduo planejamento e boa dose de desprendimento, felizmente tem dois lados: sabemos que viajaremos a um país extremamente seguro para o turista. Especialmente o brasileiro. E com razoável padrão de serviços turísticos. Que nos hospedaremos em hotéis medianamente luxuosos e outros muito econômicos, que encontraremos um povo civilizado, educado, culto, acolhedor, simpático e gentil.

                   É o que pretendo mostrar numa série de relatos que tenho a intenção de escrever sobre esta nossa viagem ao Irã. Por quinze dias viajaremos por um dos países mais fechados e enigmáticos do planeta, herdeiro da cultura e do patrimônio milenares do Império Persa, através de um estado profundamente teocrático e conservador, cuja autoridade suprema é de um chefe religioso, indicado por um alto clero xiita, onde os preceitos do Alcorão são seguidos rigidamente. Provavelmente também ao país mais demonizado pela mídia ocidental, mas cuja percepção é tambpem uma das mais ignorantes. O Irã não é a terra de malfeitores, pelo menos não da maneira generalizada que alguns prentendem. Ao contrário, é de gente educada, boa, culta, generosa e hospitaleira.  Aliás, o iraniano é um artista da hospitalidade. Nada mais que uma viagem ao país pode ser feito para tornar mais limpo o olhar ocidental sobre ele e seu povo. E, dizem as boas linguas, qualquer viajante se surpreende com o Irã. Até mesmo o mais conservador e fechado norte-americano do Texas. Não seremos os primeiros. E espero que muitos brasileiros possam ter a mesma experiência, não apenas a turística, que por si já é fabulosa, mas a dos encontros e descobertas que só a curiosidade nos possibilita. 

                  Dizem que o país é surpreendente por mais que nos preparemos para ele. E que o turista brasileiro terá a garantia de um tempo bem passado, de experiências fabulosas, de encontros inesquecíveis, de tranquilidade e segurança, do conhecimento de um patrimônio encantador e de uma das civilizações mais antigas do planeta. Provavelmente, como nós, esse turista estará satisfeito por cada centavo investido a viagem ao país. De Tabriz - no extremo norte do Irã - até Shiraz, no extremo sul, nosso roteiro contemplará algumas maravilhas da antiguidade. Visitaremos  cidades com os mercados mais antigos e tradicionais do oriente, caravanserais, jardins magníficos, mesquitas e praças gigantescas. Conheceremos cidades onde se tecem os melhores tapetes orientais do planeta, uma de minhas paixões materiais: Tabriz, Shiraz, Isfahan e Kashan, cidades produtoras de alguns dos tapetes persas mais reconhecidos no mundo. Começaremos por Teerã, a Capital, cidade enorme e movimentada, que à primeira vista não aparenta ser tão amigável quanto as demais do interior. Mas também iremos a Kandovan, Kerman, Yazd, Persépolis e Pasárgada. Ao Irã voaremos pela Emirates. E no país viajaremos de carro e de avião, pela Iran Air.

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(*) Notas:

(*) "Cagação de regras" é o ato de achar que todos devem seguir um só comportamento. E considerar que a experiência pessoal do "cagador de regras" é única que vale para todo o Universo. Esse tipo é muito comum. Mas o "cagador de regras" é bem mais nocivo, perigoso, prejudicial e ruinoso do que se possa pensar. Ele acredita que a sociedade é linear,  pensa por exemplo que só há um jeito de arrumar malas, que todas as necessidades e gostos pessoais são iguais às suas e que todo mundo tem orçamentos, afinidades, interesses semelhantes. É o sujeito que diz "não vá e hipótese alguma" (a determinado lugar) ou então "vá a qualquer custo".  É o tipo que aconselha o que você deve ver ou não. Ou melhor, "deve" não, tem que ir, tem que comer, tem que se hospedar,  tem que voar (pela cia. aérea). E por aí vai.

 

Dar ouvidos ao "cagador de regras"  (o que diz "não vá em hipótese nenhuma"), em vez de a quem sugere e indica "vá se...",  costuma ter suas conseqüências. Afinal, a pretensão do "cagador de regras" é impôr limites às de quem ele "aconselha". O "cagador de regras", antes de ser um chato, é presunçoso. O tipo imagina que suas opiniões têm nobreza, que tornam a vida das pessoas melhores, mas impondo-lhes conselhos e desclassificando os desejos, circunstâncias, anseios e personalidade dos outros, na verdade o que faz é um  "cagador de regras" tornando a vida dos outros mais complicada e limitada. "Cagadores de regras" sempre existiram. A Internet só deu mais palco a eles. E as redes sociais amplificaram suas vozes. E também lhes deram oportunidade de fofocar, de intrigar, de opinar pretensiosamente e intrometer-se nas vidas alheias. Adoram criticar as vidas e os gostos alheios. Antes das redes sociais eles faziam sucesso nas caixas de comentários dos blogs. Mais tarde nas reuniões sociais presenciais da blogosfera. Os "cagadores de regras", ou "donos da verdade",  não têm idéias.  É bem comum que vivam de copiar as idéias dos outros apenas modificando-lhes para parecerem próprias. Ter idéia e opinião é uma coisa. "Cagar regra" na Internet (em blogs, Twitter e Facebook) é outra. Ambos são lugares férteis na produção desses malas, dessa gente que vive verborrejando suas babaquices turísticas como se o mundo fosse igual e as pessoas idem.

Adoro gente com opinião, especialmente as experientes e balizadas. Ainda mais as opinativas, as que têm coragem de se manifestar. São elas que respeitam as opiniões contrárias, sobretudo que opinam sem "cagar regra". Não é lá muito fácil identificar um "cagador de regras". Aliás, é bem difícil diferenciá-lo de um sujeito bem intencionado. O segundo tem “sugestões”, sabe que suas dicas podem ser utéis ou não. Já o "cagador de regras" em geral começa falando sobre o que não tem relevância. É o carinha que explica demais, expressa-se em verdades absolutas, copia frases da literatura e as toma como suas e recebe o aplauso da sua turma de seguidores desinformados e incultos que acham o máximo suas citações chupadas. Geralmente o "cagador de regras" é um cara de pau. Todo mundo tem seu lado "cagador de regras". A diferença está entre reconhecer isso e parar de fazê-lo ou continuar "cagando regras" a vida inteira. Para identificar um "cagador de regras" basta perceber se ele tem modéstia ou não. Ainda que se fantasie de bem intencionado, ele usa uma verborragia que convence multidões com suas dicas que parecem interessantes mas que revelam uma personalidade pretensiosa. O "caga-regras" não é um cara com idéias e opiniões, mas aquele que dita regras a torto e direito. O Twitter e o Facebook está cheio deles. E do excesso de compartilhamento, das cutucadas alheias, da incrível capacidade e desejo de evadir sua privacidade (sobretudo "cagando regra"). Passam a sua vidinha on line tentando provar que detém toda a sabedoria universal. O "caga regras" virtual é um grande comentarista nos blogs e gigantesco flooder das redes sociais. Sempre têm opinião sobre tudo. Mesmo quando não têm, vão buscar no Google e inventar uma. Adoram postar links de matérias, vídeos do Youtube e sugerir aplicativos. Sabe-se que esse tipo se alimenta de likes dados por seus amigo-seguidores. Como o "cagador de regras" não precisa ter muita profundidade ou conhecimento sobre a regra que está cagando, porque sabe que quem lê sua opinião também não, ele costuma fazer o maior sucesso.a

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1) Hotéis em que nos hospedaremos no Irã: Tehran: Espinas, KandovanLaleh, KermanPars hotel, YazdMoshir, ShirazChamran, IsfahanAbbasi, KashanManouchehri, DubaiRadisson Blu Dubai Creek.

1.1) Montamos nosso roteiro individual e personalizado com a operadora Highland (*)

(*) todos os produtos e serviços aqui mencionados não têm o conhecimento dos mesmos e não são recompensados de qualquer forma, anterior ou posteriormente à sua publicação. Foram descritos por liberalidade minha. Nossas viagens são escolhas pessoais. Pagas com recursos próprios e a preços de mercado. Viajamos independentemente. Assim como com independência emito opiniões e faço escolhas. Seja de um hotel, cia. aérea, atração. Cada link citado ou produto mencionado é feito com a suposição de que o leitor já saiba identificar os objetivos do blog. Sobretudo que as verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão. 

 

2) Leitor: Nelson Laskowsky: http://interata.squarespace.com/jornal-de-viagens/2013/5/17/dois-mil-templos-sob-o-ceu-de-bagan-mianmar.html#comment20042308

3) Livros que lemos e estamos lendo (além do Guia Lonely Planet Iran):

 “A revolução iraniana”, de Osvaldo Coggiola e Emília Viotti da Costa (Editora UNESP, 2007) ISBN 8571398267

“Todos os homens do Xá” – de Stephen Kinzer  (Bertrand Brasil, 2003)

“O Irã sob o chador” -  de Adriana Carranca e Marcia Camargos (Globo Livros) ISBN: 978-85-250-4879-0)

 “The Valleys of the Assassins: and Other Persian Travels” – de Freya Stark (Modern Library, 2001) ISBN-10: 0375757538

“In the Land of the Ayatollahs Tupac Shakur Is King: Reflections from Iran and the Arab World” – de Shahzad Aziz (Amal Press, 2007) ISBN-10: 0955235928

"Iran - Culture Smart!: the essential guide to customs & culture" - de Stuart Williams (Kuperard - 2008) ISBN-10: 1857334701

"El país esquizofrénico (Un retrato de irán) - de Jordi Pérez Colomé [Kindle Edition] - ASIN: B0089N3VPQ

 

4) Revistas:

https://www.dropbox.com/s/svxfuov0relk3ty/Revista%20Geogr%C3%A1fica%20Universal%20-%20maio%20de%201975.pdf

https://www.dropbox.com/s/an9517csilmf4le/Revista%20Terra%20-%20abril%20de%202005.pdf

https://www.dropbox.com/s/aley8yvve6lbg3f/Revista%20Hist%C3%B3ria%20Viva%20-%20mar%C3%A7o%20de%202009.pdf

5) Blogs e sites:

Coordenada XY http://www.coordenadaxy.com

Gabriel quer Viajar http://gabrielquerviajar.com.br

Samy Adghirni - Um brasileiro no Irã http://samyadghirni.blogfolha.uol.com.br/

João Leitão http://www.joaoleitao.com/viagens/irao/

Chá de Lima da Pérsia http://azizamiran.blogspot.com.br/

Obamaworld.es http://www.obamaworld.es/category/los-viajes-de-obamaworld/2012-04-iran/

Domingo
Mai262013

Portas e janelas da Provence

                  A França é um país autênticamente sofisticado onde pode. E genuinamente simples onde deve. São precisamente as características que mais me atraem. Autenticidade, com requinte e sofisticação, encontra-se até mesmo naquilo que é rústico. Da culinária à cultura, da arquitetura aos costumes. Mas jamais imaginei que as presenciaria nas portas e janelas da Provence. Especialmente porque ali revestem-se de sua característica mais notável: a rusticidade.

 

  

                    JANELAS antigas, rústicas e belas há em qualquer vilarejo mediterrâneo. Todavia, não encontrei alguma com a personalidade das provençais. Elas me conquistaram nesta viagem à Dordonha e Provence. E mostraram-se tão insinuantes ao meu olhar quanto à virtude genética dos artistas plásticos locais. É imensa a quantidade de pinturas influenciadas pelo tema e expostas por todas as galerias da região. Felizmente os artistas de hoje são bem mais compreendidos que o genial Van Gogh, que tão magnificamente retratou em telas as paisagens da Provence

 

                         ELAS são assim mesmo, têm esse poder de iluminar a admiração de qualquer um, a despeito de toda sua rusticidade, justamente por estarem recobertas por incontestável sofisticação. Por isso gosto tanto delas. E de tê-las fotografado. Para os fotógrafos, aliás, são um deleite. Para escritores, um desafio.

 

                  ENTÃO nada me pareceria mais singular que meu desejo em registrá-las. Um desejo enorme. Por certo não fui o primeiro a percebê-las assim. E também não o último a notar seu poder de atrair, de surpreender tanto quanto as outras incríveis atrações da Provence.

     

                    EU encontrei um livro na primeira lojinha de badulaques turísticos, e depois invariavelmente em todas as outras de qualquer museu ou atração da região. Seu título, Portes et fenêtres en Provence - a monografia da fotógrafa Marie Etienne que tornou-se livro da série "Secrets de Provence" (Editora Equinox, ISBN 2841356388). Foi o bastante para me fazer “descobrir” que não havia nenhuma novidade na minha pretensão de escrever sobre as janelas da Provence. O livro encerrou a bom tempo e de maneira apropriada meu suposto direito de escrever algo novo, útil e criativo sobre o tema. 

                    MAS nem assim elas deixaram de me inspirar. E como me atraíam aquelas portas e janelas da Provence. Tornaram-se quase uma obsessão fotografá-las. Freqüentemente emolduradas por flores, de cores suaves, nas grandes cidades ou nas pequenas aldeias são tantas e tão formosas e atraentes que invariavelmente captavam meus olhares. Pesquisando, encontrei um mundo de fotos e de matérias em revistas e blogs abordando o tema. Tornou-se tema tão corriqueiro e tão bem explorado que cheguei a pensar em desistir de minha “luminosa idéia”: publicar algo novo e assertivo sobre as portas e janelas da Provence.

                   A pá de cal na pretensão veio depois de reler o post do dublê de blogueiro e jornalista Beto Pachoalini. Em seu “O meu lugar”, um dos blogs mais antológicos na blogosfera, cujos textos eram sempre incomparáveis, acordei para o fato de que não sou capaz de escrever algo tão bom sobre o tema, sobretudo com tamanha simplicidade. Ainda mais com alguma novidade criativa. Se o caro leitor quiser constatar o que eu defino como "escrever bem", sugiro dar uma passada em "Você já foi à Provence nega? Então vá!".

                   AS janelas são de muitas cores, ainda que os azuis tenham tomado pra si a representação do estilo provençal. De simples caixas de janela às decoradas mais elaboradamente, a variedade parece infinita. Abertas, fechadas, com ou sem cortinas de rendas, rodeadas por alvenarias de pedras rústicas ou emboçadas, simétricas ou não, grandes, médias, pequenas e minúsculas, de madeira maciça e ferragens brutas em ferro forjado, pintadas, cruas, bem mantidas ou descuidadas, em casas elegantes ou simples casinhas rurais, com ou sem vasos de flores, algumas abandonadas, outras cheias de vida, de tantas e tão belas formas que vêm atraindo fotógrafos, pintores, escritores e simples turistas.  

                SÃO notáveis, verdadeiras obras de arte primitiva as janelas da Provence. E eu as capturava com mais admiração e encantamento do que como fotógrafo. 

  

 

Sexta-feira
Mai172013

Dois mil templos sob o céu de Bagan, Mianmar

Visitá-los é bom, de todas as maneiras. Mas nada como vê-los de um balão...

                 Imagine uma terra árida e poeirenta, um cerrado de arbustos coalhado de pináculos de tijolos, restos de templos budistas milenares, abandonados, espalhados até onde os olhos alcançam. Na Ásia sobram lugares sagrados. Todos preciosos patrimônios da humanidade: Angkor, no Camboja e Chiang Mai, na Tailândia, são apenas dois destes tesouros. Mas Bagan é surpreendente, mesmo para quem já tenha se deslumbrado com os outros. Já há turistas em boa conta. Ainda assim é bem vazia de gente e extremamente mais rústica que aquelas duas. É notável, um oásis absurdamente tocante de beleza, de geografia, de ambientes e de histórias. É grandiosa, na extensão e na quantidade de templos. E são incomparáveis suas vistas panorâmicas.  

Terra árida e poeirenta, um cerrado de arbustos coalhado de pináculos, de restos de templos milenares

                Da idade do ouro de Bagan - o reinado de Anawrahta, em 1057, até quando as forças de Kublai Khan invadiram o lugar, em 1287 - treze mil templos, pagodas e outras stupas foram construídos.  Sete séculos mais tarde, há "apenas" duas mil. Duzentas ainda íntegras e visitáveis. Algumas ainda mantém surpreendente afrescos. Ladrões em busca de tesouros, o tempo, terremotos e abandono dilaceraram os demais, reduziram-nos a pouco mais que pilhas de tijolos. Cada qual tem sua prórpia identidade. E estilo, ainda que variem pouco. Mas todos são obras primas da arquitetura. Uns exploram-se a pé, outros apreciam-se com moderação: apenas de fora. Nenhum deixa de valer o esforço da caminhada, da escalada e da exploração. E na imensidão de Bagan só é possível perceber sua verdadeira dimensão quando vista do alto de alguns deles. Ou, então, como os olham os pássaros, num vôo de balão. 

Obras primas de arquitetura oriental

                Madruga-se para voar de balão. Mas nunca um prêmio valeu tanto o sacrifício de acordar tão cedo para aceder a um dos mais cobiçados vôos de balão do planeta. É do alto que observamos o nascer do Sol, por si um dos espetáculos mais admiráveis da natureza, e sob ele, a incrível beleza de Bagan. A viagem dura cerca de 45 minutos. E leva apenas oito privilegiados indivíduos em cada um de seus enormes cestos. Fora o piloto.

                    A aventura começa às 05:30 da manhã, quando um curioso ônibus adaptado ao chassis de caminhões da segunda Guerra Mundial busca os passageiros em seus hotéis. A primeira impressão é de espanto. Como ainda podem funcionar aquelas velharias militares com mais de meio século? A resposta é simples: os motores são chineses, contemporâneos. O resultado é extremamente exótico. E curioso.

                Quando chegamos no campo de onde sobem os balões, cidadãos ingleses e australianos que comandam a Baloons over Bagan preparam seus artefatos auxiliados por um exército de birmaneses. Enquanto esperamos, servem-nos um desjejum leve e nos dão instruções. Tudo muito profissional. O clima é meio britânico, de safari colonial, mas com aquela elegância aventureira que só os britânicos possuem. Os vôos ocorrem apenas uma vez por dia. E só entre os finais de outubro e abril. O vôo é guiado pela suave força dos ventos, característica desta época do ano.

Ao final, todos brindam a experiência com champagne e recebem seus certificados de vôo

 

Quinta-feira
Abr252013

Viajando em família pela França

                SEMPRE viajamos sozinhos. E como gostamos de fazê-lo. Gente, não é brincadeira não, eu falo sério: nada (nada mesmo!) é tão prazeroso quanto viajar com minha doce Emília. Os que amam e viajam com quem amam entenderão meus arroubos românticos. Portanto, uma viagem assim é tão valiosa e agradável quanto se fosse em nossa família, nosso bem mais querido e precioso. E olha só: não é que desta vez iremos todos? Nesta viagem à França, à região da Dordonha e Provença. Eu, minha espetacular esposa (desculpe, leitor, a chatice esse meu jeito tão apaixonado...) e também de minha não menos encantadora sogra, ótima cia. de viagens com quem já tive o privilégio de viajar por Cuba, e finalmente dos meus queridos cunhados e nossos dois lindos e deliciosos sobrinhos.

 

                Viajamos para o sudoeste da França - entre o Vale do Loire e os Altos Pirineus, antiga província de Perigord Noir - região turisticamente riquíssima, todavia pouco conhecida dos brasileiros. Visitaremos cidades medievais paradas no tempo, caminharemos por ruas muito antigas e labirínticas, visitaremos castelos e abadias sobre rochedos,  cruzaremos suas florestas e rios,  nos hospedaremos em alguns hotéis romântico em prédios medievais.

 

            Começaremos por Toulouse, onde chegaremos de avião desde Paris, pegaremos um carro para seguirmos até Carcassone, nossa primeira parada, se o clima ajudar, navegaremos pelo Canal de Midi, ajudando ou não seguiremos viagem até Albi e continuaremos viajando por Cordes-sur-ciel, Cahors, St Cirq Lapopie, Autoire, Rocamadour, Domme, La Roque Gageac, Sarlat, Turenne, Collonges La Rouge e Brive La Gallarde. Voltaremos a Paris. Ficaremos um par de dias e então desceremos até a Provença. Aí visitaremos Aix-en-Provence, Gordes, L'Isle sur la Sorgue. Faremos o Tour do Luberon (Menèrbes, Lacoste, Bonnieux, Buoux e Lourmarin), iremos a Gorges du Verdon, Moustiers Sainte Marie, Avignon, St-Remy e finalmente Marseille. De onde retornaremos a Paris, finalizando esta mais-que-perfeita viagem.

 

              Um grande abraço a todos, até a volta.

Quarta-feira
Abr172013

INLE LAKE, Mianmar - A serena beleza de um lago

O incrível Pôr-do-sol no Lago Inle

                 O Sol se põe e torna o anoitecer no lago uma cena tão bela que depois dela não seria razoável esperar por nada igual. Eis que então surge o céu do Lago Inle. Não aquele céu urbano a que estamos acostumados, senão o mais escandalosamente limpo, claro e cravejado firmamento que se possa almejar. E onde todas as constelações revelam-se ao alcance do mais simples olhar.

                 A tarde terminava e o bimotor ATR 72-210 da Yangon Airways pousava no Aeroporto de Heho. Vínhamos de Mandalay. Em quinze minutos estávamos no carro em direção a Nyaung Shwe, o portão de entrada para Inle Lake. E 45 minutos depois, por uma estrada esburacada, chegávamos ao porto do Lago Inle, onde tomaríamos nossa embarcação até o hotel. Em pouco mais de cinco minutos embarcávamos na longa canoa motorizada, infernalmente barulhenta e incrivelmente rápida. Sentamo-nos em duas poltrona de madeira, postas em fila, e cobrimo-nos com um providencial cobertor de lã. Seguimos ao nosso destino, o Paramount Resort.

  Yangon Airways e o Resort palafita 

                 Com olhos arregalados eu tentava enxergar o que vinha à frente. Mas não via dois metros adiante da proa. Eu ainda desconfiava da capacidade do barqueiro encontrar seu caminho. A escuridão total me desencorajava o relaxamento. Com o tempo - e a segurança transmitida pelo condutor - deixei a preocupação e passei a concentrar-me no mais límpido e magnífico céu que já presenciara. Chegamos à noite ao resort. No meio do lago, sobre palafitas. Um hotel-ilha, cercado de água por todos os lados. A tranquilidade absoluta, como tudo mais no lago, nos permitiu dormir profundamente e nos preparar dedo para um dia seguinte inteiro de exploração do Lago Inle. Mal sabíamos que havia tanta beleza e experiências a nos aguardar...

Incrívelmente rápidos, infernalmente barulhentos


                 O Lago Inle é mundo que não parece deste mundo. É inesperado. E lindo, sereno, incomum. Tem um dinamismo que não impede sua incrível tranquilidade. É enorme, são 500 quilômetros quadrados, onde num labirinto de canais laterais vivem 70 mil pessoas de diferentes etnias. Moram em casas sobre palafitas, com jardins, hortas e plantações suspensas. Trafegam sobre canoas e barcos, criam animais e vivem na mais perfeita ordem e sintonia com a natureza e suas comunidades.

  A vida no Lago Inle demonstra a notável capacidade do ser humano adaptar-se ao meio ambiente

                 Uma incursão pelo Lago Inle, especialmente pelos canais vicinais, é mais que um deleite para os olhos ou um curioso passeio turístico, senão uma experiência antropológica. Ele nos leva às reflexões sobre a notável capacidade do ser humano adaptar-se ao meio ambiente, àquele estranho, encantador modo de vida. Para tudo olhávamos admirados com os 360 graus de beleza e quietude.  Não resisto a escrever e mostrar em fotos o singular modo de vida do Lago Inle. Neste e num próximo capítulo.

Moram em palafitas de madeira e bambú, vivem e produzem flutuando sobre as águas do Inle

  

                  Mas não é fácil escolher entre as milhares de fotos que fiz como um louco. Tampouco descrever o impressionante lago com fidelidade à sua incrível vida flutuante, as aldeias inteiras com escolas, casas, plantações, restaurantes, hotéis, templos, comércio e fábricas. Passeios de barco nos levam a assistir, conhecer e visitar tudo: pescadores remando com um pé, fábricas de cigarros, de guarda-chuvas tradicionais, de seda, forjas e mercados não flutuantes às margens do lago e templos.

O dinamismo do lago não impede a incrível atmosfera de tranquilidade

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As misteriosas stupas de Shwe Indain Pagoda

                   Uma floresta de stupas escondidas. O Complexo de pagodas Indain (também chamado Indein) no lado oeste do Lago Inle, é chamado popularmente de "stupas de selva", ou, oficialmente, Shwe Indain Pagoda. O ponto de partida é o porto de nosso hotel. O trajeto de barco até Ywama village, no centro de Inle, de onde caminhamos um quilômetro por estrada de terra e margeando lindo canal com cenas de vida cotidiana. É um prazer a experiência de observar ambas as margens do canal enquanto estamos no barco. Há escolas, templos, residências, campos.

  

             Búfalos banham-se enquanto as mulheres lavam roupa e um grupo de homens reforçam um dique no canal.

                 Chegando à vila, aportamos num pequeno cais onde há barracas que vendem artesanato e lembranças, de chapéus de bambu a estatuetas de monges. O lugar é uma típica armadilha para turistas, mas à frente passamos por um mercado mais autêntico, onde o povo da aldeias das montanhas vende os produtos que cultivam e artesanato.

 

                Foram os vendedores mais persistentes que a maioria dos outros que já vi em Inle Lake, talvez porque essa área não receba tantos turistas, o que explica tornarem-se os mais insistentes do lago .

                    Ao lado da estrada de terra até os templos há um interessante mercado cujo telhado de zinco é suportado por 403 pilares antigos. Seguimos por nosso caminho até o morro, enquanto turistas seguiam por dentro do mercado. A história de Shwe Indain é misteriosa. Não há registros de sua construção, senão algumas estórias do povo de Shan. A colina de pagodas é tranquila e calma. É fascinante o lugar.

                    Indein Village é uma atração excepcional para quem está no Lago Inle.  Uma floresta de antigas stupas que se extende por uma colina vale a leve subida. A colina é coberta por muitas stupas e pagodas de vários tamanhos, cujo inventário de 1999 contabilizou 1054. A amioria das stupas é alta e delgada, decorada com um chattra, construídas entre os séculos 14 e 18, em diferentes desenhos e estilos arquitetônicos. Observados detalhadamente, alguns revelam belíssimos trabalhos artísticos de entalhes em pedra e em decorações em stucco.

  
Algumas stupas e pagodas revelam belíssimos entalhes em pedra e decorações em stucco


                  Alguns estão sendo infelizmente restaurados com doações de estrangeiros que colocam placas com seus nomes. O resultado final será lamentável, pois não aparentam ter o cuidado de recuperar os aspectos originais. Não estão sendo restauradas apenas pelos moradores, mas por fiéis de toda a Ásia, da América e da Europa, que doam dinheiro para reconstruí-las.

                 O que é particularmente interessante no complexo Shwe Indein são os diferentes graus de ruína das stupas: algumas parecem ter realmente a idade original, enquanto outras restauradas parecem ter sido acabadas de construir, ainda com a cor do cimento fresco. Algumas são recentemente caiadas de branco, outras douradas, umas sem reboco. As mais interessantes efetivamente são as arruinadas, ainda que seja louvável sua restauração.     

A seguir: