MENSAGEM ao LEITOR
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BEM-vindo ao Fatos & Fotos de Viagens, um blog sem jabá e não vulgar

        EXISTE no viajar e no escrever relatos de viagens um terreno fértil para demonstrações de arrogância. É algo simplesmente disseminado. Tanto no mundo virtual quanto na literatura. Mas o que o maravihoso mundo da viagens precisa é de mais viajantes humildes, não de "especialistas" caga-regras que determinam de tudo: desde como arrumar sua mala ao único tipo que você deve comprar, do lugar que você tem que ir, caso contrário sua viagem será uma merda. Nunca tão maravilhosa como a dele. As classificações dos lugares também. Tem sobrado superficialidade a egocentrismo. Autores assim não percebem que tudo é muito subjetivo e pessoal, que a experiência e o prazer de alguém não será necessariamente igual ao de outro.  Sobretudo as necessidades.

      A blogosfera "profissional e "monetizada" vulgarizou-se e tornou-se banal. Carecemos de gente que escreva para motivar e inspirar, para alargar horizontes, de viajantes que "mostrem" os lugares em vez de "ensinarem" a viajar. Moderadamente, ponderadamente, sem afetação típica de deslumbrados que viajam pela primeira vez em classe executiva e precisam espalhar para o mundo em resenhas risíveis. Ao contrário, a blogosfera

       ESTE blog, ao contrário, não fez concessões à vulgarização dos blogs depois da "profissionalização" e da monetização de alguns. Ao contrário, este é um blog singelo, simples, pequeno, inexpressivo na blogosfera, não despesperado por audiência nem seu autor se dedica mais à sua divulgação nas redes sociais do que à escrita. Tento dar graça à leitura e consolidar algo que prezo muito: confiabilidade, credibilidade.

        COMECEI a viajar tarde, você sabe. Por falta de dinheiro. Até que um dia viajei pela primeira vez ao exterior. Eu tinha 35 anos. Fui assim apresentado ao então desconhecido mas fabuloso mundo das viagens. Jamais, todavia, pensaria visitar mais de 60 países, alguns muito improváveis à época. Irã, Uzbequistão, Myanmar, Etiópia, Quirguistão entre eles. Mas foi recentemente que compreendi que as viagens ficam pra sempre, não as coisas. E que é por esse mundo ser tão diverso, por cada país ser tão diferente, que me parece tão atraente e divertido.

       NÃO sou escritor profissional. Tampouco jornalista. Mas invejo esses profissionais por dominarem o idioma, a gramática e as palavras.  Ainda assim, faço meu melhor, meu caro, estimado, raro e precioso leitor. Então, peço-lhe que considere algo: que mesmo escrevendo com sensibilidade e responsabilidade, incorro em erros. Se quiser, aponte-os. Tanto gramaticais quanto de digitação. Como tenho revisor profissional, antes de publicar dou curso a incansáveis revisões. E também submeto-os ao crivo de minha esposa. Ainda assim, alguns nos escapam.

      SOU brasileiro, empresário e casado com a doce Emília do blog "A Turista Acidental". Desde que a conheci (e antes mesmo de nos casarmos), tornou-se a "mais-que-perfeita" companheira de vida, de idéias, de projetos e ideais, sobretudo encantadora, adorável e inspiradora companhia de viagens e de aventuras. Com ela compreendi o que significa "prazer de viajar". Foi (e continua sendo) minha melhor fonte de inspirações e de motivações. Tanto que qualifico minhas viagens como "antes e depois" da Emília e "antes e depois" da Índia. Foi com ela que percebi o que quis dizer Érico Veríssimo com "Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado certamente chegará mais longe." Somos pais de gêmeos - uma menina e um menino - nascidos em julho de 2015.

       HOJE com 64 anos (boa parte deles dedicados à família e ao trabalho), foi apenas aos 35 que pude começar a viajar internacionalmente. Desde então visitei 61 países, entre os quais alguns dos mais fascinantes e com os sítios mais admiráveis do planeta. Felizmente, para alguns deles ainda a salvo do turismo de massa, cujos excessos arruinam qualquer lugar. Em março de 2006, quando iniciei este blog, o fiz como meio de comunicação com a família e amigos. Anos mais tarde eu descobri o poder de contar histórias em textos e fotografias, e logo ele tomou outro rumo, provavelmente porque os leitores gostavam dos textos e das fotos, ou então porque na época havia pouquíssimos blogs.

       FIZ cerca de 90 viagens internacionais, voei por 40 cias. aéreas diferentes (algumas extintas) em 391 vôos para fora do Brasil e dentro de outros países e em todas as classes possíveis. Segundo Haroldo Castro - jornalista-fotógrafo-escritor que já esteve em 160 países -, o maior viajante que conheço, em seu teste "Viajologia" que se pode fazer em seu site, que considera não apenas a quantidade de países visitados, mas lugares, monumentos e patrimônios, além de transportes, experiências e situações difícieis porque passam os viajantes, alcancei "Mestrado em Viajologia". Mas isso não é nada diante de gente que lá já "graduou-se" em pós-doutorado.

Escrevo este blog sob uma perspectiva lúcida e sem concessões à monetização sem critérios

        Eliminei o contador de visitas deste blog quando marcava mais de 6 milhões. Audiência hoje em blog é decadente. Viajar, escrever e publicar algo que inspire e icentive o leitor é o que mais me motiva. NUNCA como blogueiro interventor nas viagens alheias, ou caga-regras dizendo como alguém deve viajar e que tipo de mala usar e essas chatices que definem as pessoas homogeneamente.Parece ser o que traz os leitores até aqui. Ou porque gostem de fotografia, para além da leitura odepórica, como eu. E por este blog não ter captulado à ambição e vaidade que levou tantos autores de blogs à monetização sem critérios, sobretudo enganando leitores, cada dia torna-se menorzinho e menos importante. Se continuarem assim, os blogs precisarão ser reinventados. Este aqui nasceu livre e assim será até morrer. Por enquanto estou sempre por aqui. Nem que seja em pensamento. Só não sei até quando.

         Agradeço a visita e os comentários e desejo boa viagem aos leitores.

Em tempo: este blog não integra nenhuma associação disfarçada de incentivos à monetização. Mas se um dia fundarem a ABBLI (Associação Brasileira de Blogs Livres e Independentes), por favor, me convidem!

#blogsemjaba

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Segunda-feira
Nov042013

IRÃ - Kandovan, a extraordinária vila troglodita

 

 

                Kuh-e Sahand é o nome do monte mais alto da província do Azerbaijão Oriental, no território do Irã. Na verdade não é uma montanha, mas um vulcão inativo que emoldura como o céu azul a incrível vila troglodita . Fica meio escondida, a uns 40 km de carro ao sul de Tabriz. Incomum e algo misteriosa desde o século XIII, chega-se a ela por uma estrada que passa por Khosrowshahr, parte da região do Lago Urmia, Condado de Osku, lugar onde os assírios, antecessores dos persas, deixaram inscrições nas rochas, isso lá em 844 a.C. A região, bem mais tarde, também foi centro do início da segunda fase da história do Zoroastrismo no Irã.

 



             A escolha de um lugar remoto, pouco visitado, não muito populoso, uma pequena aldeia ou vila, por exemplo, num país de turismo discreto, é o que costuma tornar uma viagem mais emocionante. Descobrir lugares assim é sempre legal porque são maiores as possibilidades de surpresas ao longo do caminho. Os praticantes de montanhismo sabem do que falo, porque também experimentam lugares incomuns e caminhos pouco frequentados, seja por dificuldade de acesso, seja por pouca divulgação.

 

          

            Kandovan é um desses lugares. Tão incríveis que parecem ilusórios. Ou lembram cenários de filmes de ficção ou então cidades extra-terrestres. Mas nada que se pareça com nosso planeta. Mas é. E também a última aldeia que resta no país. Lá as casas não são apenas construídas na montanha, mas esculpidas nas suas rochas.

 

 


               É muito comum o visitante hospedar-se em Tabriz e visitar Kandovan num bate-e-volta. Optamos pelo inverso. Visitamos Tabriz no dia seguinte, depois de Kandovan. Não perderíamos por nada a oportunidade de dormir nesse incrível lugar, tampouco a experiência de passar uma noite num hotel-caverna, ainda que dos tempos modernos. Nossa noite troglodita foi uma experiência interessante e curiosa.

 


                Além de singular, Kandovan é antiga. Consta que do século XIII. A cidade é de uma curiosidade e personalidade indiscutíveis. Suas residências escavadas na rocha, algumas com 700 anos e ainda habitadas. Um notável exemplo da capacidade humana de adaptar-se ao meio-ambiente por gosto ou por necessiade. Os morros em forma de cones que a natureza pôs lado a lado, que de longe parecem gomos nascidos duma terra espremida. Entretanto o que toca o visitante é a irreverência inquestionável de seu povo. Dizem que são 700 habitantes. A comunidade é conservadora, extremamente fechada, ainda que receptiva e muito simpática, como afinal é bem própria da iraniana. Vivem como há séculos, de um jeito rústico e simples, sem luxo mas conforto. Foi um lugar que visitar não traduziu-se apenas num prazer turístico, mas numa experiência das mais notáveis em nossa viagem.

 

 A cidade é dividida em duas: a antiga, escavada na rocha, e a baixa, mais "moderna", onde ficam o comércio e os negócios, cujas construções são de alvenaria tradicional. É muito provável que alguém leia sobre a cidade comparando-a à Capadócia, Turquia. Se de fato houver semelhança, todavia é pequena. A rocha que compõe os cones da aldeia de Kandovan é proveniente de um depósito vulcânico chamado tufo, a partir de cinzas e detritos despejados pelas erupções do Monte Sahand. Relativamente macia, favorece o trabalho das ferramentas de metal. Apesar de isolada, há turistas circulando pelas ruas estreitas, fotografando atônitos e encantados a curiosa aldeia e entrando numa ou outra residência possível.

 

 

Mais curioso é o jeito de viver da população, nos espaços internos confortáveis de suas residências, onde a rocha funciona como isolante térmico, aquece o ambiente no inverno, esfria no verão. Têm mobiliário, geladeira e TV. Do lado de fora, um pequeno terraço éo teto da casa inferior. O céu limpo também é um conforto. Especialmente para quem vem de Teerã e lá sentiu nos olhos e narinas irritados. O tráfego é ínfimo, o que nos leva a pensar como era o mundo sem carros. É uma gente  que vive da agricultura e pecuária, um pouco do turismo.

 

     Há um hotel surpreendente. Sua arquitetura inspira-se nas construções tradicionais de Kandovan. O nome é pomposo: Kandovan Internacional Rocky Hotel. Mais que uma hospedagem, é uma experiência complementar à visita à cidade. Se não incomum, o mais curioso hotel do mundo. Pelo menos dos que eu conheci. É novo, inaugurado em 2007. Assim como as demais casas trogloditas de Kandovan, sua habitações têm saleta, quarto, banheiro privativo, TV e alguns até uma cozinha. São amplas e confortáveis, rústicas, com tapetes persas e iluminação embutida. Mas é a pedra que se impõe sobre tudo mais. Inclusive no restaurante do hotel. Em termos de hospedagem não foi tão notável passar a noite no hotel, mas uma curiosidade a experiência.

 

 A combinação das construções curiosas com a natureza torna a vila um destino popular para turismo. Sobretudo interno. Cerca de 300.000 turistas nacionais, sobretudo, e alguns estrangeiros a cada ano. É uma questão de tempo para a população depender do turismo como fonte de renda, deixando suas tradições pastorais e agrícolas de lado.

 

   Era feriado de Kurban Bayram ou Festival do Sacrifício. Foi um privilégio presenciar um momento tão raro para nós, um dos mais importantes no mundo islâmico. Celebrado anualmente em todo o planeta, honra a disposição de Abraão sacrificar seu filho primogênito, Ismael, como ato de suprema submissão ao seu Deus, antes que este desse a Abraão um cordeiro para o sacrifício. Os islâmicos oram ao sacrificar a ovelha em nome de seu Deus, depois retiram seu pelo, limpam, repartem e cortam, doando parte da carne para os pobres e necessitados.

    A data varia em função do calendário islâmico lunar. É uma grande celebração familiar e entre amigos e vizinhos. Após o sacrifício de um carneiro, a família e convidados - homens, mulheres e crianças - compartilham desde o sacrifício até a refeição.

 

 

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Nota

 

Para Kandovan fomos via Tabriz de Teerã, às 09:55, pela Mahan Air, serviço feito por um Boeing que saiu do aeroporto Mehrabad, doméstico. O vôo de uma hora e dez minutos cobre a distância de 526 km. Chegou ao aeroporto de Tabriz (TBZ) às 11:05 e dali pegamos um carro até Kandovan, a 40 quilômetros de distância. Voltamos a Teerã do mesmo jeito. O Aeroporto Mehrabad foi usado para vôos domésticos e internacionais até a inauguração do Imam Khomeini International Airport. Agora é apenas para voos domésticos e internacionais para lugares de grande peregrinação, como Mecca. Em termos de aparência e instalações não se iguala ao novo. mas há bonitos painéis fotográficos de Persépolis, a Capital do Império Aquemênida em Shiraz, e de grandes atrações no Irã. A atmosfera é inegavelmente atraente.

 

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A seguir

Tabriz, a cidade dos "primeiros" 

 

 

Segunda-feira
Nov042013

IRÃ, Teerã – As primeiras lições da Pérsia

A belíssima caligrafia farsi no mural do National Museum of Iran

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26 de Novembro de 2013, dia da partida: Restaurante Shabestan, Teerã.

CINCO brasileiros, o encontro e um jantar de despedida

                       SE o visto era uma insígnia, a viagem um troféu. Que embora não devesse, terminava naquela noite em Teerã. Nos despedimos com melancolia, de um jeito que me ocorre apenas em viagens brilhantes. A cada nova cidade, novas e tão boas lembranças, experiências, encontros e boas surpresas se sucediam. E se havia algum conforto revendo as milhares de fotos, relendo anotações, naquela última noite no Irã recordar o que vivemos aumentava a saudade, ressaltava a tristeza da partida.

                       VIAJAR é sempre um privilégio que agradeço, especialmente nas despedidas. Retornar retornar pra casa, todavia, é um prazer de ainda maior valor. Entretanto ainda que fosse, não devia ser a hora de partirmos, e assim lamentávamos a despedida do Irã. Até o clima parecia conspirar a favor do nosso estado de humor: chovia em Teerã, o céu estava sombrio como nunca víramos nos quinze dias andando pelo país sob sol pleno e nenhum sinal de nuvens. Lamentávamos não ter mais uns míseros diazinhos no Irã. Na manhã seguinte o voo de Teerã a Dubai seria bem cedo. A longa distância do Aeroporto Imam Khomeini obrigava-nos deixar o hotel no fim da madrugada. Nada então poderia ser mais oportuno que uma despedida como aquela: jantando com três ilustres brasileiros em Teerã!

                       ÉRAMOS cinco. Além de nós, Gabriel Britto e sua Márcia - que começavam sua jornada pelo Irã -, a simpática Caroline Dutra, já familiarizada com o país, onde mora e trabalha, e nas horas que pode comanda o Coordenada XY, blog onde compartilha informações úteis e suas opiniões sobre o Irã. No dia seguinte teríamos o privilégio de jantar com a brasileira Fê Costa, desta vez em Dubai. Sua simpatia e delicadeza já nos coquistara virtualmente, e ansiávamos agora conhecê-la presencialmente. Mora e trabalha há cinco anos no Emirado, viaja mais que andorinha em migração e conta tudo no Viaggio Mondo. Tornou-se uma "embaixadora" brasileira, não oficial, mas que promove o encontro de outros blogueiros em visita ao país.   

                        FOI no Shabestan Iranian Traditional Restaurant, em Teerã, escolha do Gabriel - pela conveniência da proximidade com nosso hotel e pela recomendação no Lonely Planet. Teria sido uma daquelas noites de varar madrugada, de comida boa, entusiasmo coletivo, afinidades e alegria do encontro, da ansiedade por trocarmos experiências no país. Enfim, cheia de motivos para ser uma dessas que terminam com garçons pondo cadeiras sobre as mesas e varrendo os pés de clientes.

Shabestan Iranian Traditional Restaurant, em Teerã

                      ENTÃO, a contra-gosto, encerramos o encontro, mesmo com tanta vontade de continuá-lo. Foi por volta da meia-noite. Mas não de qualquer uma, senão de uma memorável noite. Já no hotel tentei descrevê-la em breves anotações. Mas a página em branco foi um tormento. Sobrava assunto, mas faltava entusiasmo.  Tentei reconfortar-me voltando no tempo, antes de dormir. Não muito, treze dias, quando chegamos em Teerã

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13 de Novembro de 2013, dia da chegada em Teerã.

AS primeiras lições da Pérsia 

                       PARA mim aquilo não era coisa simples. Eu estava no Irã. Acordei às dez da manhã. Dormimos às quatro, mas a ansiedade da exploração já nos deixara despertos àquela hora. Ainda que faltassem horas de sono e sobrassem de fuso horário. Embriagado por um trivial jet leg que um vôo Rio-Dubai-Teerã (por mais confortável que seja) não exclui ninguém dos efeitos, abri as cortinas espessas da janela do quarto.

Primeira de todas as lições da Pérsia: o povo é bonito, educado, elegante, discreto, receptivo e hospitaleiro

                      Eu estava ansioso pela vista que o hotel nos reservava. Eu não esperava avistar usinas atômicas, mas confesso que também não um panorama tão feio: o quarto andar lateral que o hotel nos entregara revelava telhados, um horizonte limitadíssimo, uma ruazinha sem vida, uns prédios feios e a lage do pavimento de serviços do hotel. Não era um espetáculo...mas eu estava no Irã

 Narguilé, o chachimbo de água, extremamente popular no Irã, entre homens e mulheres

                         O desjejum foi um reconforto. Mas havia ansiedade. Tudo o que eu queria - começar a viver nas ruas nosso primeiro dia no país - não me conferia o direito de relaxar. Afinal, chegava ao fim a manhã, um desperdício. Eu ainda me sentia num universo paralelo, nada era familiar, ainda que confortável e seguro. A falta de familiaridade, ou exotismo, contudo muito me agrada em viagens.

                       O ar em Outubro é respirável, a temperatura é amena, ronda os 25 graus no topo e os 12 na base. Os dias são plenamente ensolarados. Não se encontram sinais de nuveus no céu. O hotel parece estar num bom lugar, é centra, movimentado, não remoto. Mas Teerã é gigantesca, eu ainda não sabia avaliar a localização. O café espresso foi revigorante. E muito interessante o desjejum com raros estrangeiros e muitos iranianos. Às onze e meia estávamos na Recepção do hotel e logo encontramos Mojick, nosso guia, o jovem extremamente educado, simpático, elegante e culto. Características que só mais tarde perceberíamos serem comuns aos iranianos.

  Centro de Teerã. Movimentada, frenética, ardida de fumaça, mas receptiva e hospitaleira

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TEERÃ, a megalópole

                       Toda cidade tem sua personalidade, história, momentos de brilho e declínio. Algumas resistem aos seus conquistadores e governantes, outras não. Umas atraem mais, outras nem tanto, têm mais história ou modernidade. Teerã tem tudo para agradar, mas não posso dizer que seja encantadora. É o portão de entrada do país, o primeiro gosto que se tem da Pérsia, mas não o mais saboroso. É megalópole, impressionante. E entupida pelo tráfego, engasgada pela fumaça. Tem 8 milhões de habitantes, ou 15 se contabilizados quem vive na periferia, ou Grande Teerã. Entretanto, limpeza e capricho parecem fazer parte da cultura persa, porque apesar desta fenomenal aglomeração urbana, e de todos os problemas comuns às megalópole, sobretudo da poluição do ar (e visual), a cidade é limpa no chão. 

 (Kashan) Antigas ou não, ruínas ou conservadas, as principais atrações do Irã não estão em Teerã

                         As muitas maravilhas do Irã não estão concentradas apenas na arte e arquitetura. Quem lê sobre o país sabe que a Pérsia tem uma literatura rica e abundante, especialmente representada pelos poetas Ferdowsi, Rumi, Sa´di, Hafiz e Omar Kayan. E uma natureza relativamente variada em seus 1.648.000 Km2. Tem clima variado, que representa bem as quatro estações do ano. Dpois da água, o Sol é um patrimônio. Juntos com o solo, proporcionam plantio e colheita de produtos da agricultura, limitada na variedade, rica na qualidade: arroz, trigo, frutas, milho, cevada, por exemplo. E tem produtos da pesca, originados do Mar Cáspio, no Norte do país. Tem altas montanhas, densas florestas e semi-desertos.

  Tapetes persas. Principal produto de exportação. Na foto, um lindo Tabriz

                        Não se pode dizer que o gosto iraniano moderno - na decoração e ornamentação de suas fachadas e nos letreiros das lojas - seja o que se possa chamar "minimalista". Tampouco atual. Há excesso de linhas e conceitos, ainda que tudo com uma personalidade indiscutível. Vimos bairros com habitações simples, outros mais requintados. Soubemos que o valor do metro quadrado de um apartamento vai de mil a três mil dólares em Teerã nos bairros melhores. As ruas são bem calçadas e arborizadas. O asfalto é impecável, liso e brilhante, como además em todas as cidades que visitamos e nas rodovias. O país vive problemas econômicos restritivos, mas o equipamento urbano é bom e bem mantido. Teerã é bem sinalizada. São muitos os viadutos, túneis e passarelas, todos enriquecidos com mosaicos cerâmicos decorativos de desenhos bonitos. E bem iluminados à noite.  

 Em geral, bem sinalizadas são estradas e cidades. Mas podem render boas aventuras quando escritas apenas em farsi

                       Os hotéis são medianos e há boa quantidade de restaurantes. Tudo na cidade espalha-se por seu imenso território. Anda-se com segurança e tranquilidade nas ruas, como o fizemos várias vezes à noite e a sós. Não há tanto o que ver turisticamente em Teerã, mas o muito que viver. São excelentes os museus, sobretudo no acervo, ainda que extremamente simples as instalações. A cidade é apropriada para aclimatar o turista ao país, sobretudo para resolverem questões práticas relacionadas às jornadas pelo interior. Há boas agências de viagens e casas de câmbio. Com um dólar americano trocado por 30 mil rials, o câmbio de 200 ou 300 equivale a sair com um monte de notas velhas. 

Portal de Bagh Melli, de 1922. Construído por Reza Khan. Estilo "qajar-pahlevi" em Teerã

                       O que eu sabia do Irã estava nos livros de História, nos romances, nas lendas e nos contos persas. E a Capital não é a cidade que represente tão bem esse papel de milhares de anos de história, de romantismo, dasde influências pré-islâmica, islâmica, assíria, babilônica, egípcia e grega, civilizações que moldaram a cultura do país. Gostamos da cidade, mas eu ansiava pelo interior, pelos oito sítios classificados pela UNESCO como Patrimônio Mundial, pelas pequenas cidades, e tudo o que estivesse associado aos poetas iranianos Omar Khayyam, Hafez e Saadi, precursores da sofisticada cultura da poesia, mais valorizada pelo povo que o petróleo por seus exploradores. O gosto vem de tempos antigos, parecem ter sido influenciados por povos ancestrais que governaram a Pérsia: safávidas, afsháridas e qadjars. E também pelo romantismo das cidadelas, mesquitas, madrassas e bazares, jardins, fontes e perfumes. E fundamentalmente pelo que é mais nobre: o amor.

  

Viajar pelo interior é adorável. Mas nos banheiros, nem sempre é possível identificar feminino ou masculino!

                        Não fosse minha disposição em olhar o mundo como ele é, provavelmente o faria como divulgam americanos e israelenses. Para quase todo o Oriente Médio, sobretudo para o Irã. Mas nada como viajar ao país para logo perceber que o Irã em nada se parece com aquelas imagens perversas: violência, fanatismo, atrasos econômico e social, ignorância e falta de cultura. Não é o Estado, mas a sociedade civil que se destaca no país. Ideologicamente teocrática, profundamente controlada pelo governo, dominada pela religião, mas também regida pelo capitalismo. O país é riquíssimo em recursos naturais. Tem a segunda reserva mundial de gás e petróleo do planeta, uma indústria automobilística que produz 500 mil veículos por ano, entre carros e caminhõs de marcas nacionais. Há muitas outras fábricas, a maioria estatais.  

As estradas por onde passamos, assim como as cidades, tinham asfalto impecável

                        As covardes sanções econômicas impostas ao Irã impedem-no de serem a potência econômica e a liderança do Oriente Médio, que tanto temem (e não desejam!) Estados Unidos e Israel. Mas os dias da demonização americana, temperados com pitadas de suja e preconceituosa visão ocidental, não fizeram o mundo inteiro acreditar que o Irã fosse mesmo o centro de todo o mal. Muitíssimo menos uma incendiária sociedade inculta, ignorante, incivilizada, que vive para disseminar o ódio pelo Ocidente. Colocaram o Irã no patamar do Paquistão, da Somáia, do Afeganistão e do Iraque. Uma barbaridade que felizmente o visitante compreende ser apenas o que tentam fazer crer israelenses e norte-americanos.

  

E ainda que a sinalização seja eficiente, nem sempre é eficaz para quem não domina o farsi

                        O povo é culto e educado: apenas 8% são analfabetos entre os 75 milhões de habitantes. O desenvolvimento econômico seria comparáveis e até superiores aos do Brasil e México, não fossem os embargos. O país não depende de importação de alimentos, inclusive de milho. Produz arroz da melhor qualidade, mas não o suficiente para o gigantesco consumo interno. E um certo desperdício que notamos na quantidade que sempre sobrava ao pedirmos os pratos sempre acompanhados de arroz. O que lhe falta, importa da Tailândia, mas consideram de qualidade inferior o produto. Também é um dos maiores produtores de trigo e de frutas, que também exporta. Na pecuária, tem cerca de com 60 milhões de ovinos, 40 milhões de caprinos e 12 milhões de bovinos. Seu produto de exportação mais reconhecido são os tapetes persas, depois o caviar.

Eu já mencionei que o povo é simpático, sorridente, gentil, acolhedor e bonito? OK!

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São insondáveis os costumes iranianos 

                       Viajar é um interminável aprendizado. O caráter do povo é impressionante, sua polidez e elegância comuns em qualquer nível sócio-econômico, de forte identidade nacional. Como bem definem as palavras de João Oliveira, cidadão português, autor do livro “Uma Volta ao Mundo - Crónicas em Viagem(*):

O que pensar de um povo que peregrina aos túmulos de seus poetas, alí se reúne e convive com alegria? O que pensar de um povo  que pede aos poetas que alí estão enterrados, sua benção?”  (como seria bom ler escritores brasileiros de viagens escrevendo tão bem quanto s autores portugueses. Quanta diferença!).

                       O Irã é grande demais para ignorar. E complexo demais para entender. Tudo o que recomenda aos visitantes estudarem as características fundamentais da sociedade, a cultura e o patrimônio do país. Mesmo que num relance. Um viajante que o fizer verá muitas portas e janelas abrirem-se, levando-os a enxergarem além da superfície, compreenderem as peculiaridades, encontrarem mais que o óbvio.

Portão do Parade Ground Complex -Teerã. Portas e janelas que se abrem ao visitante

                       Minha primeira fonte de consulta sobre costumes e comportamento foi o livro "Iran - Culture Smart!: the essential guide to customs & culture"(*). E não ignorei o universo de informações disponíveis na Internet. Turísticas ou não. Das mais práticas, de sobrevivência, às mais complexas, comportamentais. Coisas como saber que não se aceitam cartões de crédito internacionais, o que torna imprescindível viajar com boa soma de dinheiro. E saber como trocá-lo pela moeda local. Foi assim que encontrei o blog Coordenada XY no mundo de informações brasileiras e estrangeiras na Internet.

                       Com a eleição de Rohani, há muita coisa nova no horizonte sobre o Irã. Há céticos e descrentes, mas também quem acredite em mudanças. O que eu pude sentir, tanto quanto me foi possível avaliar, é um discreto sentimento de alívio das pessoas com o fim do período Ahmadinejad. Especialmente percebido quando em conversas conseguíamos desenvolver o assunto. Notamos esperança nas perspectivas de um futuro diferente, na abertura do país para o mundo e no relaxamento nas sanções econômicas impostas por parte do Ocidente. 

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T'aarof, Ta’arof ou Tarof – O ritual da cortesia

                       A mais curiosa e complexa forma de expressão comportamental é o Tarof. Superficialmente é fácil entendê-la, mas impossível colocá-la em prática. Resumidamente o tarof origina-se na hospitalidade ancestral do iraniano. Tournou-se parte da psiquê do povo, mais que educação, polidez ou formalidade social. O termo é persa, portanto define um costume exclusivamente iraniano. Fundamentados na polidez e na pretensão da humildade, no costume de tratar bem aos convidados até melhor que à própria família. No Ocidente o que mais se aproxima do "taarof" é quando duas pessoas discutem quem vai pagar a conta no restaurante. É um código do tipo “recusar-se para depois aceitar”. Mas é importante saber que uma das partes esconde sua verdadeira intenção, isto é, recusa duas vezes e espera a terceira oferta para aceitá-la. Jamais deve ser confundida com “barganha”, costume comum aos árabes, não muito aos persas. Se fosse possível traduzir para o português, eu chamaria "jogo de cerimônia". Algo como oferecer demais (ou recusar), por educação. 

                        Experimentamos nosso primeiro taroof ainda no primeiro dia em Teerã. Pagamos o almoço de nosso motorista, que ao fim do dia convidou-nos para jantar em sua casa. Declinamos porque estávamos exaustos, mal dormidos, sobretudo porque não estávamos certos de que o convite era para ser aceito. Todavia, ficamos tocados com a simpatia do senhor. Foi muito agradável comermos deliciosos kebabs, yogurte, salada e arroz iraniano com açafrão sentados em tapetes orientais. Também experimentamos o taroof quando almoçamos num restaurante popular no Grande Bazar de Kerman. Ao pagarmos a conta o dono do restaurante “zerou” seu ábaco (sim, ele não usava uma calculadora eletrônica!) dizendo que não tínhamos que pagar nada, que era um prazer receber brasileiros em seu restaurante. Recusamos com simpatia e ele aceitou o pagamento pelo delicioso almoço. Outro cuidado que o turista deve ter é que não deixa de ser relativamente comum ser convidado para ir à casa de um iraniano. Mas é preciso saber se o convite é real ou uma forma polida de despedir-se. Não é muito fácil distinguir o que deve ou não ser aceito.

O povo. Casais andam no máximo de mãos dadas

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O povo 

                       O Irã é uma sociedade multiétnica e multicultural. Resulta de milênios de migrações e conquistas. A maioria da população fala persa e dialetos relacionados à sua etnia principal. O restante, línguas indo-européias, uralo-altaicas, grupo hipotético de idiomas que seriam compostos pela união das línguas urálicas com as línguas altaicas e de outras da família semítica. Homens e mulheres socializam-se separadamente. Apresentações geralmente restringem-se ao mesmo sexo. Uma mulher jamais estende a mão a um homem, tampouco senta-se ao lado dele num lugar público, a menos que seja da mesma família. Casais andam nas ruas no máximo de mãos dadas. Beijos, nem pensar. Homens cumprimentam-se beijando outros homems no rosto. Com três beijos. Mulheres também.

                       Talvez devido à multietinicidade o iraniano seja tão historicamente curioso acerca de nós. Sobretudo de que país viemos. Mas nos perguntam se somos casados e em que trabalhamos. Um turista desavisado poderá intimidar-se, mas a curiosidade é honesta. O iraniano é low profile. Além de sua orientação religiosa ortodoxa, foi provavelmente esta característica comportamental que ajudou a desenhar seu caráter tão formal. Na hora de comprar, diferentemente do que acontece nos países árabes do Magreb, o iraniano não dá um preço inicial exagerado esperando negociá-lo para então fechá-lo pela metade. Ao contrário, são objetivos, muito mais transparentes, confiáveis. Preços aceitam descontos no máximo em torno dos 10% a 13%. Todavia há casos em que nenhum desconto é concedido. As compras no país, então são bem mais agradáveis e serenas, confiáveis e transparentes do que no Marrocos e Egito, por exemplo. Além de tudo o iraniano é extremamente simpático, educado e polido, fala baixo, não gesticula e respeita as mulheres. Visitantes são considerados uma honra, mais que isso, um privilégio. Recebem-nos então com calor e generosidade. E uma delícia inteagir com eles. Mas são os jovens particularmente os mais curiosos e abertos ao contato. São bem informados sobre o Ocidente.

Eu já disse que o povo é doce, simpático, educado, receptivo, curioso e interessante? Ok!

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Teerã, turisticamente falando

                       HÁ bons museus. De arte moderna, do vidro, de tapetes, de jóias e obras antigas. Bons mesmo. O National Jewels Museum of Iran tem peças tão incríveis da dinastia safávida, que governou a Pérsia de 1502 a 1736, que seu enorme valor e significado ocupa uma enorme caixa forte no subsolo da Casa da Moeda do Irã. São jóias que literalmente fazem o visitante reavaliar tudo que já viu. Até ao ponto de achar o Topkapi de Istambul um diamante tosco e as jóias da coroa inglesa uma pobreza. É tão valioso, tão espetacular, tão abundantemente rico que a visitração é controladíssima, feita em grupos de cerca de 15 pessoas, acompanhada por dois agentes do Banco Central do Irã. Há alarmes e câmeras por todo lado. Evidentemente que não se pode fotografar a suntuosa coleção.

                     O National Museum of Iran combina dois museus, projetados em 1937 pelo arquiteto francês Andre Godar. O prédio principal abriga uma coleção arqueológica apreciável, distribuída em três halls, com artefatos das eras paleolítica, neolitica, da idade do bronze, da idade média e dos períodos aquemidas, seleucidas, sassanidas. A parte pós-islâmica foi inaugurada em 1996, ocupa três andares e contém peças cerâmicas, têxteis, instrumentos e peças com até 1.400 anos de história islâmica.

Persépolis, no National Museum of Iran

                      Do Grand Bazaar não se pode dizer que seja grande. É enorme. Um centro comercial oriental labiríntico, autêntico, ainda que a recheado de lojinhas de badulaques e bugigangas chinesas. Há lojas de jóias de ouro e prata, de especiarias, de cobre, de tapetes, de tecidos, de roupas, alimentos, especiarias, de tudo, distribuídas por um enorme conjunto de corredores cobertos e por setores. Dizem que são mais de 10 km de ruas internas cobertas, sei lá quantos milhares de lojinhas e dezenas de caravansarais antigos transformados em espaços comerciais.

 No Bazar de Esfahan, um mundo de produtos e artesanato fabuloso

                       Para as mulheres estrangeiras,é um bom lugar para adaptarem-se à moda iraniana, ainda que seja popular e a qualidade bem inferior ao que se encontra em lojas de rua. Para a sociedade local, é também um lugar para discussões, encontros sócio-políticos, e de todas as classes sociais.

É difícil encontrar um lugar mais atmosférico que o interior de um Bazar iraniano. Especialmente entre 12 e 15 horas, quando fecham para a sesta, reabrindo até 21 horas

                     Complementando o Grand Bazaar de Teerã, há serviços como bancos, financeiros, câmbio, mesquitas, restaurantes e até guest houses. Já visitei alguns bazares no Oriente Médio, na Turquia, no Norte da África, especialmente o de Damasco, Síria. O de Teerã não me empolgou tanto, ainda que tenha sua autenticidade, seja algo atmosférico. Mas não é tão misterioso e fascinante quanto os do interior do país. 

Bazares. Em todo o Oriente Médio, uma grande atração, mas os do Irã excedem na autencidade e atmosfera...

                       Na lista de curiosidades da Capital iraniana, ainda que não propriamente uma atração turística, está a antiga embaixada Norte-americana, chamada U.S. Den of Espionage (antro de espionagem). Pegamos o metrô cuja estação sai diretamente defronte a ela. O complexo abrigou agentes da CIA que em 1953 engenharam o golpe de estado contra Mohammad Mossadegh, depôs o governante eleito pelo povo. Depois, por 25 anos, serviu de base às ações americanas que suportavam o Sha Reza Pahlevi, posto no poder pelos americanos. Em Novembro de 1979, depois que o Ayatollah Khomeini foi eleito Supremo Lider da primeira República Islâmica do mundo, a embaixada abrigou os 52 cidadãos norte-americanos mantidos reféns por 444 dias, em represália à não devolução do Xá, exigida pelo Irã, que fugira para a Europa e depois para os Estados Unidos.

 Foto: João Leitão Travel

http://www.flickr.com/photos/joaoleitao/

                       O edifício agora abriga a Sepah, a guarda revolucionária.  O complexo era fechado ao público na época de nossa visita, mas lemos que uma semana depois foi aberto. O que os transeuntes não ignoram são os murais coloridos pintados nas paredões que cercam a embaixada, mostrando a aversão do Irã aos Estados Unidos, especialmente o que retrata a Estátua da Liberdade com face de caveira, segurando um rifle em vez da tocha original. Há incrições em inglês e persa desejando a "morte" da América. O antigo selo dos Estados Unidos, originalmente exibido no portão da antiga embaixada, foi raspado até praticamente tornar-se ilegível. Infelizmente fomos advertidos para não tirarmos fotos. Mas há boas no Flickr, feitas por quem teve mais coragem que nós.

Os palácios

                       O Palácio de Golestan é uma das atrações turísticas mais atraentes e concorridas de Teerã. Na Praça Khordad, é um conjunto de edifícios dentro de um parque, murado e rodeado por com canais que trazem água das montanhas Tochal. Originalmente construído na época de Shah Abbas, da dinastia Safávida, que durou de 1502 a 1736, foi renovado por Karim Khan Zand (1750-1779). Agha Mohamd Khan Qajar (1742–1797) escolheu Teerã como capital de seu reinado, a partir da Dinastia Qajar, e tornou o palácio sua residência oficial e da família real. Fica no Arg, ou cidadela, a parte antiga mais histórica da cidade. Desde sua construção novos edifícios foram sendo construídos durante os diferentes reinados de Karim Khan Zand, tais como o Shams-ol-Emaneh (Edifício do Sol) e o Emarat-e Badgir (Edifício das torres de vento), ambos com traços de um estilo arquitetônico com traços europeus, influências obtidas durante as viagens do rei. O interior de alguns edifícios foram projetados para impressionar dignatários estrangeiros durante suas visitas oficiais ao país na corte Qajar. O Eyvan-e Takht-e Marmar (Terraço do trono de mármore) e o Talar-e Aineh (Salão dos espelhos) têm um belo curioso trabalho decorativo de espelhos cobrindo parte de suas paredes. Também podem-se ver bonitos exemplos de pinturas, mosaicos e vitrais iranianos.

 

                      O Saadabad Palace Complex é um complexo palaciano construído pela Dinastia Pahlavi, onde o Xá Reza Pahlavi viveu na década de 1920. Após a Revolução Iraniana, em 1979, os pavilhões foram transformados em museus, mas o palácio presidencial atual do Irã, ou Kakhe malakeye madar, é adjacente. Numa visita, além da arquitetura o ornamentação, o visitante pode observar parte da história do Irã e aspectos culturais do país através do seu acervo. 

Palácio da era Pahlevi. Os maiores tapetes iranianos do mundo

                     O Azadi Monument não é exatamente uma "atração turística", mas tem a curiosidade de ser o símbolo da cidade e da independência do país. Foi construído em 1971, pelo Xá Mohammad Reza celebrando os 2500 anos de reinados persas. São 3 andares em 45 metros de altura, revestido com  25.000 blocos de granito da província de Hamadan. Apesar de seu desenho moderno, nele incorporam-se traços dos períodos islâmico e pré-islâmico na arquitetura e na ornamentação, como o arco de 21 metros, que representa o período sassânida, pré-islâmico. O desenho do monumento também representa as mãos em oração. Quatro elevadores e duas escadas com 286 degraus levam ao topo do monumento, de onde se tem uma grande vista de Teerã. No porão há um museu com cerâmicas, artefatos de bronze e vidros pré-históricos, além de fotografias e modelos retratado a vida tradicional de diferentes partes do Irã. É fora de mão, fica a meio caminho do aeroporto interncional.

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O Metrô de Teerã

                      Ainda que um projeto dos anos 70, o Metrô de Teerã foi inaugurado em 2001. Tem 4 linhas, duas construídas recentemente, em 2007. Transporta mais de 2 milhões de passageiros por dia e em 2010 foram contabilizados 459 milhões de passageiros. É bonito, moderno, claro, confortável e eficiente. 

                      Passamos um dia e meio em Teerã nesta primeira fase da viagem. Foi suficiente, útil para nos aclimatarmos ao país e à diferença de fuso horário. Estávamos então fisicamente bem para o intenso roteiro dos próximos dias. Na manhã do terceiro dia seguimos de avião para Tabriz. Ao chegarmos, fomos de carro para Kandovan, a 60 quilômetros. É seguro o Irã? SIM. Absolutamente. Pelo menos ao nível da segurança pessoal a que estamos preocupados em viagens, como assaltos e coisas assim. O maior motivo de preocupação até aqui foi com o trânsito. Atravessar as ruas em Teerã é uma grande aventura.

                     Em gratidão a todos que nos atenderam, serviram, guiaram e acompanharam no Irã, expresso meu sincero e sensível reconhecimento.

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Notas: 

(*) O mundo olha pro Irã por causa de suas pretensões atômicas, mas o que poucos sabem é que o país é o único produtor do Oriente Médio de geradores de energia eólica e solar. E, aqui entre nós, é meio prepotente esse jeito americano e israelense achar que só eles podem ter bombas atômicas e protegerem-se de ataques externos.

(*) Livros: Uma Volta ao Mundo - Crónicas em Viagem do Irã, de João Oliveira - Edições Longe - ASIN: B0045EOJ18

Iran - Culture Smart!: the essential guide to customs & culture  - de Stuart Williams – Kuperard ISBN-10: 1857334701

(*) Patrimônios mundiais classificados pela UNESCO: Meidan Emam, ou praça de Abbas I em Esfahan; Persépolis, a antiga capital persa, fundada por Dário I em 518 a.C.; Tchogha Zanbil, a capital religiosa do reino elamita fundada em 1250 a.C.; Bam, cidade do período aqueménida fundada entre os séculos VI e IV a.C.; Pasárgada, capital do império aquêmida; Takht-e Soleyman, o sítio arqueológico com um templo sassânida dedicado à deusa Anahita; Soltaniyeh e Bisotun.

(*) Comida: quase todas as refeições iranianas incluem o pão (nun) ou o arroz (berenj). Existem basicamente quatro variedades de pão: lavash, pão fino consumido no café da manhã; o barbari, um pão fofo e salgado feito com farinha branca e por vezes coberto por sementes de gergelim; o sangak, comprido, cozido sobre pedras lisas, e o taftun, fino e oval. O arroz branso simples, cozido, é chamado de chelo; quando com outros ingredientes, frutos secos ou carnes, por exemplo, é chamado pollo. O açafrão dá cor e sabor ao arroz que acompanha carnes de carneiro. O chá encerra todas as refeições. 

(*) Depois de quatro anos de bloqueio, o governo iraniano anunciou ter liberado em setembro último o acesso ao Facebook e ao Twitter, segundo jornalistas estrangeiros que vivem no país. As redes sociais haviam sido proibidas em 2009 com os protestos que marcaram a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad. No entanto não sonseguimos acessar estes e muitos outros sites. 

 

(*) Espinas International Hotel Tehran http://www.espinashotels.com/about-espinas.html foi nossa primeira experiência hoteleira no Irã. Tem 66 avaliações e 26 fotos de viajantes no Tripadvisor, algumas bem recentes. É classificado como cinco estrelas, mas vale quatro. Fica "bem localizado", próximo ao Laleh Park, a "zona verde" da cidade, uma área especialmente agitada. Não é um bairro turístico. O check-in foi rápido, receptivo, simpáticoe atencioso, por recepcionistas com bom domínio do inglês. Retiveram nossos passaportes até o check-out, como depois em todos os hotéis que nos hospedamos. Aparentemente é um hotel para viagens de negócio, mas também ponto de encontro da sociedade local, e um bom lugar para grandes eventos, de casamentos ao encontro de embaixadores em Teerã, ocorrido numa das noites em que tomávamos um expresso delicioso no saguão. O quarto é confortável, estava limpo, adequado aos nossos propósitos. Há conexão à Internet por wi-fi gratuita, sofrível. O banheiro é mediano, os produtos de quarto abundantes e o café da manhã honesto, sem charme, mas relativamente variado, típico de hotelão, na verdade o melhor de toda a viagem. E tem café expresso. É um hotel impessoal, mas foi nossa melhor experiência em termos de hospedagem.

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A seguir

Kandovan - A estranha vila iraniana escavada nas rochas 

 Kandovan, nossa próxima parada no Irã 

Sexta-feira
Out182013

IRÃ - Chegamos ao país atômico 

 Senhora iraniana em Teerã em traje conservador

                 ERAM quase duas da manhã. Trinta minutos mais, pousaríamos em Teerã. Nada me preocupava, senão a intensidade dos estímulos daquele momento. Não era medo. Nem desconforto. Tampouco insegurança. Afinal, sabíamos de antemão, não corríamos perigo algum, a não ser de nos apaixonarmos pelo Irã. Era ansiedade, um "não sofrimento", a sensação de ver materializar-se um sonho tão bem sonhado, de uma viagem tão esperada.

 Kamenei e Komeini

                 Peguei meu passaporte e olhei o visto iraniano pela enésima vez. Parecia um "troféu", uma insígnia de viagem, uma jóia rara entre tantas outras, de tantos destinos fabulosos. Que bonito! Recordei-me do privilégio de ter viajado a países memoráveis, vivido tantas experiências saborosas, e como num filme acelerado, revi cenas de lugares que os vistos me traziam de volta. Tudo parecia fantástico demais... Não "preguei" os olhos no vôo desde Dubai. Se sonhei, foi acordado. Eu estava feliz naquele avião. Vivia mais um privilégio da vida, desta vez consagrando-se em mais uma de nossas viagens. 

  Porta de uma madrassa no Bazar de Kerman

                Em alguns minutos pisaríamos em solo iraniano, estaríamos prestes a conhecer o fabuloso conjunto de monumentos e de paisagens, e viver a história de um império de 2500 anos, do Irã antigo e místico, de contos de fadas. Mas também estávamos curiosos para a variedade natural, pela arquitetura, pela cultura exemplar, pela relação com as pessoas. Eu sonhava com os tapetes persas, uma de minhas paixões, especialmente os Tabriz. Prometi deixar alguma curiosidade para o que é moderno, para a história da Revolução de 79, para o Irã que tornou-se centro das atenções do mundo depois disso. 

Placa de rua em Teerã

                 O comandante anunciou as advertências de praxe: apertar cintos, voltar encostos das poltronas, essas coisas. As mulheres começaram a cobrir a cabeça, adaptando-se às regras de vestimenta do país muçulmano xiita, de leis rigorosas, sobretudo na forma de vestirem-se: cabelos, braços e pernas precisam ser cobertos.

    

              Tradicionalmente, através do 'chador', ou então, com calças e blusas compridas, o manteau e o hijab. Observava minha doce Emília preparando sua transformação de mulher ocidental a persa, também para atender os desígnios da Constituição do Irã, respeitar as virtudes morais do islamismo. Ajeitava o lenço sobre os cabelos. Não estava certo de que cumpriria seus preceitos, parecia instável aquele lenço, relutava em permanecer no lugar. Ela não, parecia está confiante, o mantinha à cabeça movimentando-se naturalmente. Treinou em casa, encontrou seu jeito feminino de ficar bem (como sempre), o que me encanta (como nunca). "Está linda!", eu lhe disse. “Mesmo?”, disse ela pergunta, como se duvidasse da verdade.

No Bazar de tapetes antigos de Tabriz 

                 Enquanto não pousávamos eu ia me lembrava da História. Dia primeiro de fevereiro de 1979, um avião da Air France pousou no mesmo Aeroporto Internacional de Teerã trazendo Ruhollah Musavi Khomeini, o clérigo islâmico, natural do interior rural do Irã, não pisava sua terra natal há 15 anos. Não por gosto, mas por isolamento imposto políticamente. Suas vestes pretas constrastavam com a espessa barba branca que a usou até a morte. Desceu do avião apoiado por um oficial francês. Tinha pose de estadista, cara de homem mau. Seguido por dez pessoas no curto percurso da escada ao solo de seu país, milhões (estimam-se 5) o esperavam em terra. O retorno foi triunfante. Marcava o fim de uma era, que tirou do poder o xá Reza Pahlevi, e de um povo frustrado com a pobreza e a violência daquele regime. Irrompeu em fúria, derrubou o monarca esbanjador apoiado e protegido pelos Estados Unidos (e Israel, claro). O evento marcou o início de outra era: a Revolução Iraniana. Desde então sobram raivas e acusações retóricas entre os três países: de um lado o programa nuclear e o apoio iraniano ao Hamas e ao Hezbollah, de outro os territórios palestinos ocupados por Israel. As tensões acirraram-se em 2005 com a eleição de Mahmoud Ahmadinejad, presidente populista, falastrão, o Lula do Oriente Médio. Só que linha-dura radical.

Painel revolucionário em Teerã

                 Trinta e quatro anos depois de Khomeini chegamos nós. Gente sem qualquer relevância, anônima, pacífica, simples turistas encantados com o momento da chegada, provavelmente tão entusiasmados quanto Khomeini em 79. Mas vínhamos do país do futebol, quatro meses depois da seleção iraniana qualificar-se para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. O assunto futebol costuma render assunto. Imagino quanto o poderá no Irã. Não faz muito tempo houve outra grande festa, celebrava a eleição de Hassan Rouhani, o novo presidente. "Reformista", parece seguir a via do diálogo, da moderação. Menos conservador que Ahmadinejad, o que é um grande alento. Mas ainda é pouco para sabermos como será o Irã depois de Rouhani. Alguns pensam ser uma ingênua esperança, mesmo depois de suas boas e recentes demonstrações de distensão em relação aos Estados Unidos.  

 Brasil com Z, não tão popular, mas querido

                  Da janela do avião eu via o solo aproximar-se. Uma série de lâmpadas urbanas se destacam e vão enchendo a janelinha. São nossas primeiras imagens de uma cidade imensa, de um país relativamente moderno e civilizado. À primeira vista - apesar das evidências arqueológicas registrarem a presença humana em Teerã desde 6000 A.C. a Capital mais parece uma megalópole moderna, do século XX, não um sítio tão antigo. As luzes dos carros estão acesas. São poucos ainda a trafegarem, mas nos fazem perceber as proporções da cidade. Dizem que a vida é agitada, que o trânsito é horrível, mas não ainda nesta hora do dia. 

Bazar de Tabriz, setor de tapetes

               O trem de pouso do Airbus da Emirates tocou discretamente o solo. Pousar ali pela primeira vez significava bem mais do que o prazer de concluir um vôo seguro. O avião taxiava e aproximava-se do gate do pequeno, moderno Aeroporto Internacional Imam Khomeini (IKA). Iniciamos o desembarque prontos para os bombardeios. Não os que Israel e Estados Unidos vivem prometendo ao Irã. Mas os bons, de imagens e ótimas impressões, da receptividade e da cultura, da tradição e da arquitetura persa, de tudo o que tanto nos encantou na viagem ao Uzbequistão, uma ótima introdução ao Irã.

Grande Bazar de Tabriz

                   Para os padrões internacionais, o aeroporto é vazio. O fluxo turístico é inexpressivo, ainda que enorme o potencial do país. Coisas de países que se isolam. Dizem que a hospitalidade iraniana é prática milenar, orgulho nacional, compromisso sagrado, parte da psiquê iraniana. Creio que ajuda o fato do Irã ainda não ter sido estragado pelo turismo de massa. Não deixa de ser favorável que muita gente ache arriscado, um contra-senso viajar ao Irã.

Romã, fruta nacional

                 Mas os esforços internacionais para isolar o país e forçá-lo a interromper seu programa de enriquecimento de urânio parecem provocar impacto positivo no turismo: o despertar da curiosidade do mundo, um "salto" no fluxo turístico para cerca de 3 milhões de "corajosos" visitantes anualmente. Que deixam 2 bilhões de necessários dólares na economia do país. O governo então olha docemente para o movimento. Dizem que a maioria dos turistas estrangeiros vem da China. Mas quem hoje em dia não vem da China? Brasileiros são traço nas estatísticas, lamentavelmente. Parte significativa dos visitantes vem da Europa. Especialmente franceses, os turistas mais descolados e aventureiros do planeta. Mas também alemães, italianos. Se encontrarmos algum brasileiro além de nós será delicioso. Já garantimos um, o privilégio inusitado de jantarmos com o Gabriel Britto e sua Márcia ao final de nossa viagem e começo da deles. Jantaremos em Teerã. O segundo será com a Fê Costta, brasileira que viaja mais que andorinha em migração e escreve o Viaggio Mondo. Não em Teerã, que já visitou recentemente, mas em Dubai, onde mora. Tivemos o privilégio de seu convite para um café e o aceitamos com imenso prazer.

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Enfim, entramos no Irã!

                 Foi experiência tranquila. E descontraída. Diferente do que poderia imaginar quem assistiu ao filme Argo: uma imigração inquisidora e lenta, feita por oficiais militares barbudos e com cara de maus, vestidos militarmente, num aeroporto de terceiro mundo. Curiosamente, está localizado em Ahmadabad, cidade a cerca de 30 km de Teerã. Para um grande aeroporto internacional, faltou um pouco de inspiração persa, sobrou monotonia.  Eu não esperava ver cartazes revolucionários anti-americanos espalhados nos corredores do aeropoto no caminho do avião aos balcões de imigração. Sei que ficam na cidade. Tampouco ser interrogado por soldados suspeitando de nossas pacíficas intenções turísticas, mas também não por agentes com fisionomias tão simpáticas, descontraídas mesmo com o avançado da hora. Estávamos na fila dos estrangeiros. A dos irananos estava bem cheia. À nossa frente apenas um casal de franceses enfrentava a formalidade da entrada no país. Não posso dizer que o coração batia no modo calmo, mas foi tão rápida e sem perguntas nossa imigração que fiquei quase decepcionado. A bagagem veio em tempo aceitável. Passamos pelo Raio X da alfândega sem problemas. Antes de sairmos ao saguão fui ao caixa do banco trocar uns dólares. O simpático atendente sugeriu que eu trocasse na cidade, onde a cotação era muito mais favorável que a dele!

Pedaço de Persépolis no espetacular Museu Nacional do Irã, Teerã 

                 Lá fora, no saguão do aeroporto, nosso receptivo segurava uma placa com meu nome e nos dava boas vindas com um sorriso assim que acenamos. Em perfeito inglês. Podia até ser um barbudo mal encarado, mas não, era um jovem com ótima apresentação e polido. Nos disse "Bem-vindos ao Irã! Perguntei-lhe como seria em farsi e ele respondeu "Khosh Amadid'. Eu respondi-lhe "Mamnoon", obrigado, não muito convicto de minha pronúncia. Merci (do francês, mas como em “mêrci”), à maneira corriqueira.

                 Depois dos cumprimentos e apresentações, nos conduziu com simpatia, receptividade e profissionalismo ao carro que nos levaria pela madrugada ao nosso hotel. Um carro velho, do começo dos anos 90. E iraniano, como a frota do país, onde no porta-malas cabia apenas uma das nossas, metade ocupada pelo o enorme tanque de gáz natural, o combustível do motor.

               - Meu nome é Mojtaba, mas podem me chamar de Mojick, disse o jovem. “Fica mais fácil”, completou. Passou a explicar as atividades turísticas previstas para a tarde do nosso primeiro dia na Capital. Mas às três da manhã eu só pensava em dormir. Do aeroporto à cidade pegamos uma ótima rodovia de três pistas, sinalizada com placas em farsi e inglês. Passmos pelo enorme complexo onde fica o mausoléu de Komeini. Depois atravessamos avenidas largas, arborizadas, praças e parques públicos,  alguns edifícios altos. Mas não vimos os famosos murais de líderes religiosos e anti-americanos. Tudo ainda era desértico, escuro e fechado, próprio às madrugadas, mesmo de uma metrópole. Só conseguimos dormir às 4:00 da manhã. Acordamos às nove. Nosso dia começaria às 11:00.

                 Vou dormir, mas prometo voltar pra contar.

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(*) Notas:

 a) Hospitalidade: ainda que o estereótipo mais comum seja definir o povo iraniano linear e generalisticamente como “fundamentalistas que odeiam ocidentais” (especialmente americanos). Ainda que de fato haja cartazes e grafites gigantescos pelo país desejando a morte da América, definitivamente estou certo de que isto é exceção. E também não tenho dúvidas de que é uma imagem que boa parte do povo parece doida por mudar. Mas há um provérbio iraniano - “Visitantes são enviados de Deus” - que parece desenhar a base da incrível hospitalidade iraniana. Para os brasileiros a sensação será ainda mais notável. Somos um povo que atrai simpatia em quase todo o planeta. Talvez tenha sido este o motivo da imigração mais rápida e fácil porque já passei.

 Embora antes de vir para o Irã eu já soubesse dessa característica, nada superaria a experiência de viver com pessoas tão amigáveis, nem eu poderia jamais esquecer como fomos tratados durante o tempo em que estivemos no país. Do primeiro ao último minuto. Não houve um momento que alguém não tenha demonstrado hospitalidade. Não seria possível descreevr o tipo da enorme atenção e simpatia com que fomos recebidos. Foi como sê-lo em suas casas, quando ainda demonstram mais para que se seus convidados se sintam confortáveis e bem-vindos. Outra característica da personalidade dos iranianos é a cultura e a sofisticação: não conheço nenhum outro país onde as pessoas declamam poesia nas ruas.

 b) Clichês: evitá-los é fundamental para qualquer destino, especialmente ao escrever. Mas tratando-se do Irã, é preciso cuidado especial para não usá-los. Ler muito sobre o país ocasionalmente nos faz encontrá-los. O clichê mais comum é afirmar que o governo do Irã não é seu povo. É possível que tenham me escapado alguns e os encontrem aqui os leitores. Peço desculpas e que os apontem sem cerimônias. Entretanto, os mais óbvios, não encontrarão: "O Irã não é o que se espera"; "O Irã é uma terra de contradições"; "O Irã é um país exótico"; "O povo é  muito hospitaleiro"; "O Irã é um país de contrastes"; "Há fotos de heróis da revolução e de mártires por todo lado"; "O iraniano dirige como um louco"; "Os carros são velhos"; "Os cidadãos têm uma vida pública e outra privada". 

Estereótipos levam tempo para se dissiparem da mente. Tempo e informação. É preciso muita leitura e pesquisa. Estereótipos fazem parte da natureza humana, infelizmente alguns arraigados demais. Eles existem quase sempre em relação a pessoas diferentes de nós. No caso do Irã, nada como uma viagem ao país para vermos como é notável nossa desinformação, para demoli-los arrasadoramente. 

 c) Turismo: de acordo com dados oficiais iranianos, cerca de 3.200.000 de turistas estrangeiros visitaram o Irã em 2012, embora as estatísticas não distinguam o que é turismo de negócios, de lazer ou de peregrinação religiosa. Apenas que a maioria vem de países asiáticos, especialmente China e Índia, mas incluindo aí as repúblicas da Ásia Central. A menor parte vem da América do Norte e da União Européia, especialmente da Alemanha, Itália, Bulgária, França e Bélgica. Brasileiros são traço nas estatísticas.

 d) Argo: o filme de Ben Affleck que conta a história do resgate de seis americanos sequestrados no Irã, é um bom filme de suspense, mesmo que a gente já conheça o final. A versão conta como foi o resgate em Teerã, em janeiro de 1980. Não é só uma boa história, mas útil para que se conheça as origens do confronto dos Estados Unidos com o Irã.

 e) Hijab: em persa a pronúncia é hejab, mas o significado é o mesmo do árabe hijab, "cobertura" ou "véu", mais precisamente o termo designa uma conduta de pureza e modéstia na religião islâmica. Por isso tomei a liberdade de usar ambas as pronúncias no texto. Embora o cabelo deva ser coberto, não precisa ter o lenço apertado em torno da cabeça. É bastante aceitável deixar uma parte dos cabelos livremente. A moda iraniana tem que ser respeitada, ainda que os limites precisos do vestuário feminino sejam uma incógnita de difícil compreensão para nós ocidentais: a despeito de todo o esforço da Polícia Moral, a sociedade iraniana frequentemente é incontrolável, ao menos pacificamente. Sempre que podem, jovens demonstram sua força e desejo em desrespeitá-la, o que significa dizer contrariar o islã, aquele praticado pela maioria dos iranianos, e que governa suas vidas pessoais, políticas, econômicas e jurídicas. Aquele mesmo islã que emana da atual - e conservadoríssima - Arábia Saudita. Desde 1979 a vida das mulheres no Irã mudou drásticamente. Décadas antes elas já não usavam véus nem precisavam esconder tanto seus corpos. Mas desde então, a revolução pareceu concentrar nos costumes o foco das mudanças revolucionárias.

Fontes: Chá de Lima da Pérsia http://azizamiran.blogspot.com.br/2012/06/o-hijab-no-ira-e-suas-variacoes.html

News About Iran http://iransnews.wordpress.com/2011/04/19/

 f) Segurança: salvo nas províncias de Sistan, Baluquistão e Khorasan, regiões de tráfico de drogas do Afeganistão, onde há crimes de roubo, morte e seqüestro, e em cidades como Zahedan, Zabol e Mirjaveh, particularmente perigosas, o Irã é tranquilo, seguro e amigável para o turista.

g) Internet: depois de quatro anos de bloqueio, o governo iraniano liberou nesta segunda-feira (16/09) o acesso de seus cidadãos ao Facebook e ao Twitter, de acordo com publicações nas contas de jornalistas vivendo no país. Essas redes sociais haviam sido proibidas em 2009, em decorrência dos protestos que marcaram a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad. Fonte: Folha Política -" Irã permite acesso a Facebook e Twitter pela primeira vez desde 2009. http://www.folhapolitica.org/2013/10/ira-permite-acesso-facebook-e-twitter.html

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A seguir:

Teerã - As primeiras lições da Pérsia

Terça-feira
Out082013

IRÃ. A Serendipitia, o Amigo do Rei e a (minha) "arte" de viajar 

 A Serendipitia  ______________________________________________________________

A Serendipitia e os livros 

                          LIVROS nem sempre chegam a mim por desejo. De certa forma, até por acidente, assim, meio sem querer, como os acasos da vida. Acontecem, simplesmente. A lingua inglesa define estes casos fortuitos com uma bela palavra: serendiptyÉ difícil a tradução, daí outros idiomas resumirem-se às equivalências sonoras. Em francês, por exemplo, sérendipicité ou sérendipité. E foi a única lingua a tentar traduzir a palavra. Virou heureux hasard, ou chance fortúita. As demais respeitaram a bela sonoridade original, adaptando-a aos seus sotaques: serendipità, em italiano; serendipiteit em holandês; serendipität em alemão; serendipiti (セレンディピティ) em japonês; serendipitet em sueco, dinamarquês e norueguês; serendipitate em romeno ; em espanhol ficou serendipia; em polonês serendypność e em filandês serendipiteetti.

                          A definição conceitual faz juz à romântica sonoridade quando define a serendipitia como "ocorrência inesperada, circunstancial, extremamente oportuna e de grande utilidade". Dessa rara contingência, ou dom, das descobertas felizes, casuais e proveitosas -  tenho tirado o máximo proveito, mesmo esperando o mínimo. Têm produzido bons resultados as minhas serendipitias com os livros e as viagens, sobretudo quando enfrento minhas dificuldades ao escrever.


Irã: "Espelhos do Não Visto" e os Vistos

                          NÃO faz muito tempo a serendipitia me pegou. É claro porque em boa dose eu estava preparado para ela, também porque pareço não fazer mais nada na vida do que pensar, me preparar, ler, pesquisaar e "estudar" o Irã para nossa viagem. A web promove essas oportunidades das descobertas fortuitas e aprendizado. Talvez porque nunca se tenha compartilhado tanta informação e conteúdo. Então foi assim, através da web e com a serendipidade que ocorreu meu encontro com Mirros of the Unseen: Journeys in Iran.

                        O livro seria uma feliz descoberta mesmo pela simples leitura de um primoroso relato de viagem. Mas para quem está embarcando ao Irã e pretende aventurar-se a escrever sobre o país, o encontro torna-se bem mais proveitoro, precioso. Seu valor assume então um grau superior, o de tesouro, de tão repleto de idéias, informações, inspiração e motivações. E também a pensar que quanto mais guia de viagem um relato for, mais rapidamente se tornará obsoleto, desatualizado. Ao contrário, sendo escritos como romances do tema, os relatos de viagens permanacerão atraindo, cativando e encantando leitores mesmo depois de tantos anos escritos.

                          AS reflexões e experiências descritas pelo autor - o londrino Jason Elliot - focadas na tradição e no intelecto do povo persa, resultaram de suas inúmeras viagens ao Irã. Estudou farsi, a lingua nacional, para que tudo ficasse mais fácil, da comunicação ao aprendizado. Mas Elliot trata do assunto Irã com uma particularidade que me agrada: evita a política contemporânea sem ignorá-la ou também alienar-se dela. Que sabedoria! Revelada em cada palavra do relato, em forma de contos e depoimentos, de opiniões, história e cultura. É como, afinal, deveriam ser todos os relatos de viagem. Mas, para escrever algo assim é preciso ter, além de talento, um bom jeito de olhar para os lugares: generosidade intelectual e humanismo. Elliot vai fundo para perceber os povos e culturas, sobretudo eliminando clichês e estereótipos. E cativa os leitores, com a sabedoria de deixá-los livres para que tirem suas próprias conclusões.  

                             NA história da literatura de lingua inglesa o gênero "relato de viagem" tem destaque no "hall da fama". Inclusive sobre a Pérsia. Viagens bem viajadas e bem escritas sempre levam a boas reflexões. Não apenas para quem as escreve, sobretudo para quem as lê. Mas não é fácil produzir bons relatos, documentar histórias de viagem onde destacam-se a cultura, o patrimônio e a civilização. Para além de talento, é preciso abordagem pessoal. Personalidade, afinal, é o que os tornam atraentes, os diferem dos guias de viagem. Mas Elliot tem uma peculiaridade ainda mais incomum, especialmente quando escreve sobre o Irã: usa arquitetura como personagem. E vai a fundo na sua origem. Interpreta seu caráter, forma e estrutura, e ainda encadeia as arquiteturas persa e islâmica com civilização e cultura. Tudo com um talento que leva o leitor à admiração por sua inovadora característica na arte de escrever relatos de viagens.

                             NÃO é pra menos. A arquitetura persa vem dos Séculos VI a IV a.C. E deriva sobretudo das ruínas dos palácios e templos de Pasárgada, Persépolis e Susa, onde as linhas mostram influências egípicias e gregas, resultando todavia num desenho único, persa, como nos ensina o livro História Ilustrada da Arquitetura (Emily Cole, PubliFolha). A perícia arquitetônica e ornamental persa não é casual nem superficial. Em Persépolis, por exemplo, trabalhavam artesãos extremamente habilidosos de todos os cantos do império. Produziam um acabamento tão meticuloso que algumas apredes eram polidas até ficarem com aparência de jóias. Paredes de pedra e peças de madeira eram entalhadas intrincadamente e com tal fineza que pareciam trabalhadas por joalheiros. Volutas, rosetas, capitéis, colunas e carpitaria muitas vezes eram pintados de turqueza, amarelo e vermelho, revestidos em ouro, incrustados em marfim, turmalina verde e hematita vermelha.

                            QUALQUER bom escritor tomaria Elliot como exemplo. A nós, medíocres, só resta invejá-lo. A história vai se revelando na sua viagem por um texto pessoal, entretanto sem jamais "cair" na armadilha que aprisiona alguns autores do gênero: a pretensão de prevalecerem sobre o destino. O que descreve Elliot é sempre maior daquilo que ele pensa. Então, a serendipitia não poderia ter sido mais oportuna: o livro orientou meu pensamento, guiou meus primeiros passos para compreender o país e inspirou-me a enfrentar minha própria aventura: escrever sobre o Irã com o mesmo grau de responsabilidade e consistência. 

                            MINHA memória é recheada de outros bons escritores viajantes dos séculos 20 e 21. Paul Bowles, Paul Theroux e William Dalrymple são alguns exemplos desses extraordinários autores viajantes, ainda que Theroux seja por vezes meio convencido. São autores tão excepcionais que os críticos de suas obras já não as consideram simples relatos de viagem, mas romances do tema. Destaco Jason Elliot pela serendipitidade, a fortuita oportunidade deste nosso momento tão sonhado: nossa viagem para o Irã. O autor tornou-se referência entre os escritores contemporâneos de viagens. Consideram-no um dos grandes viajantes escritores da atualidade. E conquistou fãs da mesma forma que Robert Byron fez depois de The Road to Oxiana, também considerado o primeiro grande escritor moderno de relatos de viagens. Jason Elliot seguiu a tradição iniciada por Byron, todavia inovou tanto que passaram a considerá-lo também um "criador de novo ciclo no gênero", autor de uma nova maneira de escrever sobre viagens. Inspirei-me nele (desculpe, Elliot!) e no seu poder descritivo, na sua imensa capacidade de evocar, na sua justiça e imparcialidade ao abordar o país. E o fiz sem a mais remota pretensão, senão num grau superior de referência, de modelo e de admiração. E me alegra muito perceber que grandes viajantes não precisam de um blog, site, publicidade e pagamento para viajarem e produzirem bons livros. São autores escrupulosos.

                            NO primeiro parágrafo, na introdução à sua obra, Jason Elliot reconhece que “Não há nada como escrever um livro sobre outro país para estender nossas fronteiras da ignorância.” Com uma afirmação dessas, elementar mas precisa, fui conduzido a refletir de novo sobre o tema: quanto mais conheço o mundo, mas difícil torna-se generalizá-lo. Cada nova viagem, cada país que visito, detalhe que observo, pessoa que conheço, comida que provo, residência que entro, sou levado a aprender algo. Do mais simples ao mais importante. E todos vão tornando mais difícil encarar o mundo com a presunção de que é possível compreendê-lo. E tudo torna qualquer generalidade um estereótipo. Assim vou viajando, sabendo que por mais que eu "conheça" o mundo, mais percebo sua complexidade e contradições. 

                            COM a "arte" de escrever sobre viagens morrendo, sobretudo levando consigo o interesse do leitor, não deixa de ser um alento conhecer um livro tão genial. E bem mais do que levar-me a boas reflexões, este serviu-me de alento: se de fato o gênero morrer, que o faça com a mesma dignidade deste livro.

                             ALGUÉM aí se recorda de um bom best seller do gênero relato de viagem? O último que me ocorre, caro leitor, é “Comer, Rezar, Amar”, de Elisabeth Gilbert. Não o li. Não me "fala" o estilo, ainda que bastante o gênero. É meio "auto-ajuda", e Paulo Coelho demais. Mas fez sucesso estrondoso, não posso negar. Queria ver um “Comer, Rezar e Amar”, no Irã! Mas aquele foi do tipo “não li e não gostei”, reconheço. Até virou filme. Foi protagonizado por Julia Roberts. Assisti. Não gostei, mas não estou certo se por causa da "sem-gracisse" da protagonista ou pela "qualidade" literária. Ao menos foi legítimo, escrito com base no que viveu sua autora, não dirigido pela "monetização" dos relatos de viagens. Ganhou dinheiro, mas com que legitimidade.

                            O mesmo aconteceu quando "encontrei" David Byrne. O músico, compositor e produtor musical, dublê de escritor, é muito mais famoso por fundar a banda Talking Heads, em 1974 e por ter sido um dos precursores do new wave e do worldbeat. Foi até premiado com diversos Grammy. Enfim, este mesmo Byrne escreveu Diários de Bicicleta. Por serendipidade. Ela o pegou, tornou-o escritor por mera casualidade e circunstância. Em seu livro o músico-viajante-escritor afirma: Não ando de bicicleta para todo lugar por ser ecológico ou digno de nota. Faço principalmente pelo senso de liberdade e êxtase. Byrne narrou suas passagens pelos Estados Unidos, Berlim, Istambul, Buenos Aires, Filipinas, Sidney e Londres. Por onde ia, levava sua bicicleta dobrável. E a usava como meio de transporte. Genuinamente. Por gosto, não por modinha. Tampouco tentando ser politicamente correto, ainda que admitisse estar sendo. Byrne até poderia tornar-se um ativista chato, um "bici-chato" (já há tantos). Mas não. Com simplicidade convida o leitor a viajar em suas pedaladas. E como bom escritor o agarra no começo da leitura e o solta só quando ela termina.

                             SE então escrever e compartilhar viagens é como afirma o virulento Paul Theroux a mais baixa forma de estilo literário, uma falsidade criativa, linguagem despropositada, exibicionismo inveterado, quase uma distorção da Síndrome de Munchausen(*), para Paul Bowles, bem menos ácido (e mais simples), eles são a história do que aconteceu a alguém num determinado lugar. Sem informações de hotéis e estradas, sem lista de frases úteis, estatísticas e dicas de vestimenta. Pode ser que pertençam a uma categoria destinada à extinção. Espero que não, porque nada me agrada mais ler do que um relato de viagem preciso, de um escritor inteligente, descrevendo o que lhe aconteceu distante de casa.

                             ENQUANTO os leio fico aqui pensando se as assombrações recorrentes quando escrevo aparecem pra toda essa gente. Ou se mesmo apenas para os sem talento. Será que apenas os menos afortunados sofrem esse exercício crítico que bloqueia o modo criativo e põe a escrita encalhada?

 

                                   E com os geniais? Apenas para os auto-exigentes? Para os que com ela tentam aplacar a incompetência? Ou somente para os que não se possam chamar de "estilistas da escrita", os capazes de produzir algo interessante e atraente todo o tempo? Não sei, mas o que faço é tentar, tentar, tentar. E imaginar que um dia não morrerei na "praia". Os meus “fantasmas” assustam, mas de uma forma peculiar: todos sabem que não acredito neles, em almas deste ou de outro mundo. Então, para mim, eles tomam a forma de vergonha. Alheia. Aquela que poderá expressar o leitor ao ler o que escrevi. Sou um perdulário das palavras. De muitas e pobres palavras. E assumo que elas "despencam" da mente quando tento escrever. E ao tomarem a forma escrita, junto-as tentando dar-lhes sentido. Mas a coisa vai tornando-se mais difícil à medida que tento desenvolver parágrafos: apenas alongam a distância entre intenção e resultado. Um eterno conflito vivo entre querer (escrever bem) e não poder. Mais que um exercício, a arte de escrever sobre viagens para mim é uma acrobacia. Ainda assim persisto nela, agora num atrevimento ainda maior: sobre o Irã. E sem saber se é possível fazê-lo bem, turisticamente falando, exercendo a minha própria "falsidade criativa", a "linguagem despropositada" e o "exibicionismo inveterado" com que nos classificou Paul Theroux. A conferir. Se a minha luta contra a mesmice, a perseverança e resistência, o meu esforço para tentar criar de algo decente, resultará numa vingança positiva. Vocês sabem, minha gratidão aos leitores é inversamente proporcional ao meu desapego por este blog.

 Fomos para o Irã (com os dedos cruzados)  _______________________________

                             E a menos que Israel e o arrogante Netanyahu, com os Estados Unidos, cumpram as promessas ameaçadoras - bombardearem o Irã -, voltaremos pra contar nossa viagem ao país atômico. E revelar ao leitor a grandiosidade patrimonial, a riqueza histórica e nossa experiência no país. Será a minha maneira de retribuir tanta coisa boa e consistente que li sobre o país em meses de pesquisa. E também a atenção dos leitores que por aqui passarem e nos desejarem boa viagem. Tudo na minha singela maneira de relatar viagens: em fatos, fotos, pensamentos e reflexões. Desta vez abordando a arte e a arquitetura persas e islâmicas, as cidades e lugares que visitamos, as paisagens, o que é turístico e o que não é, a comida, a gente, enfim, os caminhos que percorremos para chegar a Teerã, Tabriz, Shiraz, Isfahan, Kashan, Kandovan, Kerman, Yazd, Persépolis e Pasárgada. Sobretudo um mundo raramente visto no noticiário da TV, nossas descobertas e o que fizer sentido para quebrarmos até os mais discretos clichês e estereótipos.

 O Amigo do Rei   ___________________________________________________

                            O Amigo do Rei é um lugar pra se comer comida iraniana. Único no Brasil. É "um lugar" porque não é um restaurante. Já foi. Em Belo Horizonte e em Paraty, por onde os donos andaram cozinhando. Tentativas infrutíferas de ir aos dois lugares desde 2004 só agora se resolveram. Hoje é um serviço especializado em culinária iraniana na casa dos interessados. Exclusivamente em São Paulo.

                            A culinária persa, tão indescritível quanto maravilhosa e requintada, também pode ser provada na residência da cadbanou* Nasrin.  É experiência igualàque se pode ter no Irã, onde dizem não serincomum que famílias convidem turistas a comerem em suas casas. Aqui é fácil agendar por telefone. Assim o fizemos. 

                           Na casa de Nasrin e seu marido Claudio Battaglia estava também sua filha Iramaya. Agora nos correspondemos por e mail. Eles nos mandam dicas do Irã, nós lhe enviamos notícias nossas. Provamos a culinária riquíssima mas não sei se experiência deliciosa foi maior pela qualidade da comida, pela simpatia dos anfitriões ou por horas de conversa sobre o Irã com a família.  Só sei que voltaremos depois da viagem ao Irã.

 A (minha) "arte" de viajar  _________________________________________________

                             QUANDO menino jamais pensei que conversar comigo mesmo fosse um desajuste, senão um jeito tímido de ser. Ou diferente dos demais. Eu me percebia assim quando olhava meus colegas. Embora jamais tenha achado que algo de errado houvesse comigo. Mesmo que alguns “intérpretes” do meu jeito de ser julgassem-no uma forma sutil de “desajuste”. Não era. Apenas introspecção. E foi um psiquiatra, não um idiota, quem esclareceu tudo. E me fez compreender que pessoas saudáveis intelectualmente são diferentes umas das outras. Apenas isso. Não fui levado ao profissional porque estava doente, mas para que me aplicasse um teste vocacional. Eu tinha uns quinze anos. O médico definiu-me técnicamente como “cerebrotônico”. E diante de meu espanto com a palavra, antes que eu pensasse ter uma doença grave, explicou-me que são as pessoas introvertidas, que têm predominância das atividades intelectuais sobre as físicas. E que em nada os cerebrotônicos são superiores aos demais. Mas também não inferiores. A não ser na prática de alguns esportes, no que somos uma negação! Estamos apenas enquadrados entre os tipos classificáveis pela psiquiatria. Tudo então tornou-se ainda mais claro, e só confirmou o que eu já sabia: não havia nada de errado comigo.

                            AO recomendar aos meus pais que me ajudassem a fazer certos ajustes de conduta, a fim de tornar-me um pouco mais extrovertido, o profissional também orientou-lhes explicando que por trás da minha introversão eu desenvolvera um precoce prazer em escrever. E de refletir sobre mim mesmo, sobre o mundo e tudo mais. Desde então mudei minha abordagem filosófica sobre o mundo e as pessoas. Particularmente das religiões. Passei a ser livre delas. E a desprezar estereótipos e classificações não profissionais. Sou assim até hoje. E enquanto viajante-escritor amador transmito no que escrevo minha visão positiva de como devemos encarar o mundo: como ele é, não como o prescreveram. Deste então me tornei pronto para conhecer o mundo. E foi assim que eu e as viagens ficamos amigos muito cedo. 

                            GRAÇAS à vida por ter-me dado tanto: a sorte de receber orientação e cuidado familiares, a compreensão de que pessoas são diferentes e que o mundo é como é. Ainda garoto, passava horas olhando o horizonte da janela imaginando o mundo. Eu mal sabia dele, mas muito desejava conhecê-lo. Foi de meu pai que herdei esses traços: o gosto por viajar, pela leitura, por escrever e fotografar. E assim, muito cedo, infiltrou-se em mim a curiosidade pelos países, então um sonho impossível. Ainda hoje sinto a intensidade deles. Prestes a embarcar para o Irã - tesouro entre meus tesouros turísticos -, reconheço o imenso privilégio, e considero que o “tanto“ a que os versos da canção de Mercedes Sosa se referem equivalem a muitos outros privilégios. Entre todos, o de poder viajar tantas vezes para tantos lugares. E olhar o mundo sem classificá-lo, com a tolerância dos justos, a mente dos espertos, o respeito pela diversidade dos viajantes vivos, a admiração pelo destino, a complacência com as diferenças e a concentração no que importa: positividade sobre todas as coisas. Tratando-se do Irã, é a maneira efetiva de compreender o país e tudo o que ele representa de tão grandioso. Tudo o que consagra-se na verdadeira arte de viajar, que tão cedo e sem saber, aprendi.

                            VIAJAR, pra mim, não é fuga, senão convergência pra mim mesmo. É para estar comigo mesmo (e minha doce Emília!). Não é para fugir de mim, tampouco da vida que tenho. Para os ccerebrotônicos é coisa de gente que pensa muito e despretensiosamente. Ao menos pensa bem mais do que se exercita fisicamente. É coisa de gente inquieta, mas não da inquietude nociva dos inconformados, senão a das explorações positivas que levam às descobertas e ao aprendizado.

                           É própria de gente ávida por respostas, mas que vive uma eterna boa relação com a vida. Porque não pensa na morte. Simplesmente porque não acredita em “vida” depois dela.  Viajar para mim não tem relação com insatisfações pessoais, com “buscas de mim mesmo”, “fuga” de qualquer coisa, com “sentido para a vida” ou com nenhuma outra forma de angústia, de desconforto ou inconformismo. Não viajo para ser feliz. Sou feliz porque viajo. E nada mais faz tanto sentido. E se há coisas que me movem e promovem, viajar e contar estão entre elas.

                          E assim fomos para o Irã.

                         OBRIGADO pela visita. E deixem-se apaixonar (pelo Irã). Até lá! 

Segunda-feira
Set302013

IRÃ, na semana que vem

                   SEMANA que vem embarcaremos para o Irã. Sexta passada pegamos nossos vistos, bilhetes aéreos externos e internos, vouchers e seguro. Creio que para qualquer viajante, sonhar, planejar e organizar uma viagem é fenomenal. E perceber que o sonho vai se tornando realidade seja uma experiência e tanto. Mas nada supera o prazer de viver a viagem. Acedito que seja menor apenas que o arrependimento de não tê-la feito. Não vivo esses conflitos, felizmente. Viajamos para onde escolhemos e quando queremos. Já escrever sobre viagens é meu tormendo.

               Ninguém precisa entrar em conflito por escrever turisticamente sobre um país. Mesmo sobre os mais complexos e controversos, como o Irã. E discordando ou não de seus governos, regimes e governantes. Penso muito sobre isso, sobretudo em "quem sou eu para julgar costumes, política e religião dos países que visito?". Ainda que um país cujas idéias políticas me pareçam tão medievais e tresloucadas. Sobretudo por serem mediadas pela religião. E criadas na mente de clérigos que interpretam escrituras às suas maneiras. E determinam normas de comportamento social e costumes a todo seu povo, impondo-os à força. Aliás, as relações entre Religião e Estado são sempre promíscuas e resultam em "doenças".

                Como desconsiderar o tratamento dado aos cães no Irã? Aos cães?! Sim, estes belos animais de estimação, pelos quais sou apaixonado, lá são proibidos, caçados e extermindados. Sob a alegação de que possuir animais de estimação é um desprezível costume ocidental. Que raiva do Ocidente! Como admitir, em pleno Século 21, a persistência da pena de apedrejamento às mulheres, um castigo legal que consta da lei islâmica tradicional? Aos meus olhos nada mais é do que um baita e grosseiro desrespeito aos direitos e à dignidade humanos. A atitude é inadmissível, sobretudo porque aplicam-na em nome de uma religião. Não espero nada de religiões, ao contrário. Nem mesmo a valorização de qualquer forma de vida. Tampouco a promoção da liberdade dos homens. Nenhuma religião sobreviveria sem medos, sem punições, sem castigos e repressão. Assim como os governos autocráticos, despóticos e autoritários. 

                Parte do que li revela o imenso abismo entre o que é o Irã e o que se percebe dele no Ocidente. Não posso negar que o próprio país contribui para tantos e tão distorcidos preconceitos: Armadinejad, o antigo Presidente, era esquisito. O novo, recém eleito, apenas uma esperança, ainda que menos conservador. Mas ainda não disse claramente a que veio. Alguns afirmam ser um conservador de araque, um hábil "enrolador" do Ocidente. Até já conseguiu bater um papo com Obama. Entretanto, nada mais é do que o sub-comandante de um regime religioso obsessivamente controlador. Onde não há espaço para as liberdades individuais mais elementares, onde sobram repressão e violência. Mesmo assim, a visão política do Ocidente sobre o Irã é no mínimo suspeita. Sobretudo quando olha com ignorância e soberba, generalista e classificatória do país como "belicoso". Pior ainda, de gente insana, uma permanente ameaça ao Ocidente. É notável a capacidade da mídia norteamericana olhar com arrogância cultural para os iranianos. Nesses dias da intencional demonização do Irã levada a cabo por israelenses e norte-americanos, não posso acreditar em rapozas "cuidando" de galinheiros, felinos de ninhos de roedores. Encaro a ambos no mínimo com reservas.

                A Revolução Islâmica de 1979, o retorno e a subida ao poder do aiatolá Khomeini assinalaram a virada histórica que abriu caminho para o fundamentalismo islâmico atual no Irã. Mas por que? Como se explicam as posições tão extremas que opõem o Oriente ao Ocidente? Stephen Kinzer, repórter do New York Times, correspondente assíduo no Médio Oriente, conta tudo em “Todos Os Homens Do Xá”. O golpe de estado em 1953, histórias de espiões, sabotagem e agentes secretos, de revoltas encenadas, de malas cheias de dinheiro, de encontros à meia-noite, enfim, de tudo o qua aconteceu para sabermos e compreendermos a ascensão do fundamentalismo islâmico, a oposição ao Ocidente que hoje domina o Islã, o que fizerem os Estados Unidos e a Inglaterra liderados por Einsenhower e Churchill, a derrubada do regime democrático, de tudo mais que alterou o curso da história. O livro é a maneira de qualquer um perceber o que a insensatez de britânicos e americanos fez com o Irã.

                 A história conta que o Irã já viveu períodos importantes políticos e sociais: a era imperial do poderoso Ciro, o grande, desde 550 A.C.; a conquista muçulmana árabe no século VII; a mudança de religiões - do zoroastrismo para o islamismo; o de sua independência para os árabes, depois para tribos turcas e mongóis; em seguida para uma sucessão de fanáticas dinastias xiitas, ainda que tenham restabelecido à Pérsia sua independência. Em 1919 a nação esteve perto de ser loteada por ingleses e russos. O Norte ficou sob o controle da Rússia czarista, o Sul pelo da invasão da coroa britânica; a Revolução Constitucional de 1906, tempo de Mohammed Mossadegh, depois sua derrubada por americanos e britânicos em 1953.

                Incentivados por tantas interferências estrangeiras, o povo iraniano foi reafirmando sua soberania, como nação forte e independente, de povo orgulhoso. Passou então a ser visto como ameaça ao Ocidente. Mas por quê o Irã é tão endemoniado depois de tanto tampo? Porque não obedeceu aos Estados Unidos ao orquestrarem a derrubada de um governo democrático e legítimamente eleito, o de Mohammad Mossadegh? A História conta que em 1941 tropas britânicas e soviéticas ocuparam o Irã, obrigaram o xá Pahlavi a abdicar em favor de seu filho, Mohammad Reza. Agentes da inteligência britânica e norte-americana orquestraram um impressionante golpe de Estado contra Mossadegh. O novo xá prometeu agir como monarca constitucional, mas com frequência interferia nos negócios dos governantes eleitos. Depois de desarticulada uma conspiração das forças de esquerda, em 1949, o monarca concentrou ainda mais poder. O descontentamento religioso cresceu. E o xá tornou-se ainda mais repressivo, pondo em prática uma brutal polícia secreta. Matou muita gente. Bastava declarar-se contrário ao regime para no dia seguinte sumir do mapa iraniano. O comportamento conquistou a antipatia de estudantes e intelectuais, tornou maior e crescente o apoio a Khomeini. Então, em 8 de setembro de 1978, as forças de repressão do xá atiraram num grupo de manifestantes. Mataram centenas, feriram milhares. Foi o bastante para dois meses depois o povo tomar as ruas de Teerã, provocar distúrbios e destruir símbolos ocidentais, como bancos e lojas de bebidas alcoólicas. O aliado americano, Xá Reza Pahlavi, foi derrubado por um levante popular. Terminou assim o regime opressor da monarquia autocrática pró-Ocidente. Khomeini conclamou a imediata derrubada do xá. E em 11 de dezembro um grupo de soldados amotinou-se, atacando oficiais das forças de segurança do monarca, fazendo o regime ruir de vez, obrigando o xá a fugir do país. Reza Pahlavi viajou por diversos países antes de entrar nos Estados Unidos em outubro de 1979 para o tratamento de um câncer. Militantes exigiram o retorno do xá para que fosse julgado por seus crimes no país. Os Estados Unidos recusaram-se a negociar. Não devolveram o monarca. Então 52 reféns norteamericanos foram detidos por 444 dias na Embaixada americana em Teerã.

               Considera-se o evento o estopim da explosão. Não de um poderoso artefato destruidor, mas de reações hostis contra a América, ainda hoje nada dissimulado. Poucos, todavia, mencionam que militarmente as “ameaças” iranianas nunca foram relevantes. E muitos parecem não se lembrar que há séculos o Irã não se comporta agressivamente além de suas fronteiras. Fingem. Especialmente não revelando que nos últimos trinta anos foi o "outro lado" - Israel - que invadiu o Líbano cinco vezes. Com ajuda americana, claro. E que os Estados Unidos invadiram o vizinho Iraque por um motivo tolo. E o Afeganistão por vingança. Agora ameaçam a Síria. A desconfiança é mútua, assim como os conflitos e os erros. Os Estados Unidos levaram a comunidade internacional a implantar uma das mais completas sanções econômicas contra o Irã. Em reposta o Irã acelerou seu programa nuclear. Anos depois, nenhuma distensão houve. E no curso atual das posições, de um confronto perigoso, há apenas um caminho a tomar para que ambos não entrem em guerra: a solução política da negociação e do entendimento.

                Não pretendo desmistificar ou comprovar nada sobre o Irã. Simplesmente porque sou incapaz de fazê-lo. Mas como viajante, indivíduo com olhar aberto e pacífico, um turista do bem, meu desejo é escrever algo positivo, inspirador e motivador sobre o país. Ele merece. E o leitor também. Independentemente se desejar conhecer o país ou não. É para evitar que olhares “estrangeiros” conspirem contra os nossos. E para ter opinião, escolhi informar-me. Inspirar-me em Heródoto, no que foi escrito por estudiosos e historiadores, por globetrotters em relatos de viagens, por gênios da arte de escrever, cada qual com sua visão, à sua maneira e estilo.

                É fácil escrever besteira sobre o Irã. Muitos o fazem quando centram seus pensamentos nos governos, na política, na religião. Na mídia internacional sempre tem um figurão afirmando que Israel vai exterminar o Irã, que o país é uma ameaça, que está próximo de produzir uma bomba nuclear, que então despejará seu arsenal de ogivas sobre o “pobre e indefeso” Israel. O “bla bla bla” é costumeiro. Além da agressividade típica dos líderes políticos em busca de simpatia e apoio, é abominável porque olha para os fabricantes de armas. Parte dessa mídia costuma conduzir seus leitores a olharem para o Irã como uma nação de párias. A ignorância tem levado a grandes erros, e muitos a pensarem que o país é linearmente habitado por fanáticos religiosos, por um povo inimigo do Ocidente e patrocinador do terrorismo. Os iranianos não são gente hostil, inculta e ignorante. Muitos escritores cairam na armadilha, produziram textos ruins, muita prolixidade e abundante ignorância. Por outro lado, não li uma só narrativa de viagem que não fosse extremamente positiva. De blogueiros conhecidos - como Rick Steves -, a anônimos - europeus, asiáticos, australianos, norte-americanos. Todos positivamente encantados com suas visitas ao país, perceberam o mesmo abismo entre o que leram e o que vivenciaram. Aqui no Brasil, destaco os relatos da blogueira Fê Costa, do Viaggio Mondo, e do Gabriel Britto, que escreve o Gabriel quer viajar. São duas fontes sérias de consultas entre as quais espero figurar em breve também relatando nossa viagem e experiências no Irã.

                E por que? Porque tenho a mais sincera esperança que brasileiros visitem o Irã. E a mesma doce oportunidade de viverem experiências encantadoras. E saibam que o país não é fácil de viajar, tampouco adequado a principiantes, mas também está longe de tornar qualquer um que o visite um "aventureiro" ou "intrépido explorador". Absolutamente viável, seguro, civilizado e com boa infra-estrutura para acolher o turismo, o Irã tem um povo soberbamente acolhedor. Viagens ao Irã requerem apenas bons planejamentos. E serão tranquilas, proveitosas, memoráveis. Quem vai deve acompanhar-se de bons guias impressos, entre eles (mas a eles não se restringindo), o Lonely Planet e o Bradt Guide. O turista conhecerá uma nação de grande variedade e profundidade intelectuais, uma civilização das mais esplêndidas, poderosas e duradouras das grandes culturas históricas e reconhecerá ainda notáveis os impactos políticos que a Pérsia causou desde a antiguidade.

                Não sou simpático ao regime, mas extremamente ao país e ao seu povo. E não me atraverei no pântano das abordagens políticas, dos temas contraditórios, nem dos superficiais, senão quando inseridos num contexto. Tal como a revolução de 79, com a volta do aiatolá Khomeini do exílio. E a crise dos reféns norteamericanos. Ou até à condenação de mulheres ao apedrejamento, o extermínio de cães, a guerra contra o Iraque, a desvalorização da mulher, a ascensão do presidente Khatami e de Armadinejad, do recém eleito presidente Hassan Rouhani, os motins de 1999, a crise internacional sobre o programa nuclear iraniano, os conflitos de interêsses entre Israel, Estados Unidos e o Irã, as tensões entre o Irã, a Síria e a Turquia ou do Irã com o Baluquistão e Paquistão, sobretudo (e se possível) se os iranianos estão ou não satisfeitos com seus líderes, com o regime e como sentem-se vivendo controlados e tolhidos em suas liberdades.

               “Um bom viajante deve abraçar as normas culturais dos lugares que visita, não julgar, mas tentar compreendê-las. Mesmo que por vezes seja difícil aceitar que hindus tratem suas vacas melhor que a seus filhos." A prosa é de Rick Steves. Bacana, não?

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A seguir:

Fomos pro IRÃ, a Serendipitia e o Amigo do Rei