OS CAVALEIROS SEM MOINHOS - Krak des Chevaliers, Síria
Krak des Chevaliers, Síria

ELES não tinham o romantismo de um Don Quixote de la Mancha, tampouco a nobreza dos medievais Cavaleiros da Távola Redonda. Não eram guerreiros que protegiam seus senhores, todavia mas tão bravos e guerreiros quanto quaisquer outros. Eram os cavaleiros sem moinhos das Cruzadas, militares, todavia comandados por religiosos cristãos europeus ocidentais e sob ordens supremas do Papa. Seus objetivos eram apenas religiosos: recuperar do controle muçulmano a cidade de Jerusalém e outros lugares de peregrinação situados na Palestina - no então território conhecido pelos cristãos como Terra Santa. Nada mais, nada menos do que mais uma guerra religiosa, esta contra povos pagãos, contra hereges cristãos, contra os inimigos políticos do Papado.

A origem das Cruzadas foi decorrente da expansão dos Selêucidas no Oriente Médio em meados do século XI, cuja conquista da Síria e da Palestina pelos islâmicos provocou verdadeiro alarme nos cristãos ocidentais. Outros invasores turcos também penetraram profundamente no igualmente cristão Império bizantino e puseram os gregos, sírios e armênios cristãos sob seu domínio. As Cruzadas foram, em parte, uma reação a todos estes sucessos assim como o resultado da ambição de alguns papas que buscaram ampliar seu poder político e religioso.

HOMS é uma cidade industrial no centro da Síria e próximo a ela fica o Crac dos Cavaleiros (em árabe, Qala'at al-Hosn), um impressionante castelo-fortaleza da época dos cruzados, uma das principais atrações turísticas da Síria, a 65 quilômetros de Damasco, perto da fronteira com o Líbano. Os franceses o chamavam de "Krak des Chevaliers" expressão que designa um tipo de fortificação característica dos Séculos XII e XIII para promover a defesa dos "Reinos Latinos do Oriente" (*). Alguns exemplos principais eram o Krak dos Cavaleiros – para a defesa do limite Nordeste do Condado de Tripoli, o Krak de Montreal, em al-Chawbak - que defendia o limite Sudeste do Reino de Jerusalém - e o Krak de Moab, em al-Karak, também no Reino de Jerusalém.
PAUL Theroux o descreveu como o melhor exemplo de um “castelo de sonhos” do imaginário fantantil. E para T. E. Lawrence ("Lawrence da Arábia"), o Krak dos Cavaleiros era "o castelo mais admirável do mundo".
Ainda que sem ser exatamente um símbolo romântico do feudalismo, o Krak des Chevaliers - erguido sobre um esporão rochoso do deserto sírio - tem forma e função mais que perfeitas, ou seja, a defesa contra cercos, o alojamento de tropas e guarda de arsenal. O fato é que o castelo foi uma das maiores fortalezas dos Cruzados na Terra Santa e uma das mais imortantes construções militares da antiguidade. É um dos mais bem preservados exemplares da arquitetura militar da Idade Média na região, é classificado pela UNESCO como Patrimônio Mundial desde 2006.
SEU desenho original tinha apenas uma muralha, mas o castelo foi reforçado na segunda metade do século 12, quando a ele foi adicionada uma segunda. A primeira muralha ao redor do castelo cerca um segundo anel de muralhas e torres construídos em volta da prédio central.


A planta, de forma concêntrica, proporcionava aos cavaleiros ampla defesa do perímetro externo contra ataques de muçulmanos, assim como proporcionava dupla proteção, pois se fosse invadida a primeira muralha seria possível recuar em direção ao centro do forte contando com a proteção da segunda. Como as muralhas internas eram mais altas do que as externas, os defensores sempre conseguiriam dominar seus inimigos num plano mais alto.

O castelo tem duas partes: um paredão externo com 13 torres e um interno, ambos, evidentemente, para impedirem a entrada de invasores. Ambos os paredões são separados por um fosso cuja água era usada para dar de beber e banhar os cavalos. Era água limpa, agora estagnada. Através da entrada principal um imponente portão na parede de 5 metros de espessura dá entrada ao castelo e au seu primeiro pátio interno. Um corredor coberdo por delicados trabalhos de entalhe em pedra leva a um Hall com abobodas onde podem ser vistas as antigas latrinas. A Capela foi convertida em mesquita após a tomada do castelo pelo Sultão Beybar, e onde é possível ver o púlpito original. No último pavimento está a Torre da Filha do Rei, de onde se tem uma belíssima vista.
DIVERSOS recursos arquitetônicos foram implantados no castelo para impedir ou dificultar invasões. Os Cavaleiros da Ordem dos Hospitalários (**) construíram uma grande ladeira de pedra em direção ao lado sul do castelo, ligeiramente frágil. Com aproximadamente 24 m em sua base, essa ladeira era tão lisa que Lawrence da Arábia, quando tentou subir descalço por ela, em 1909, só conseguiu chegar até a metade, sem que fossem precisos acionar outros recursos de defesa, como por exemplo bombardear os invasores com pedras e óleo fervente.
FOSSOS, ponte levadiça, vãos para jogar óleo fervente, seteiras para bombardear com pedras e uma passagem com quatro portões e uma grade de ferro que vinha do teto e que fechavam completamente a passagem ao castelo eram os principais elementos construtivos a dificultarem os assaltos. Uma série de ziguezagues fazia com que os invasores se movimentassem devagar, ao passo que aberturas elevadas estratégicas permitiam que os cavaleiros banhassem seus inimigos com flechas, pedras e madeira queimando.
A defesa da entrada do castelo foi uma solução criativa: construiu-se um acesso em zig-zag que seguia pelo declive da escarpa de maneira a que os invasores fossem lentos e estivessem por mais tempo sob as vistas e o fogo dos defensores e entre as portas exterior e interior havia um estreito caminho que se situava entre muralhas e defesas colossais.

NÃO eram muitos os guerreiros que ocupavam o castelo ao final de seu ciclo útil: 200 cavaleiros numa área que abrigara até 2 mil. Em 1271, depois de um breve cerco de um grande exército muçulmano, o castelo foi desocupado pelos cristãos e tomados pelos muçulmanos, ainda que os guerreiros tenham marcado presença por 200 anos na Terra Santa.


A primitiva fortificação foi mandada construir pelo emir de Alepo, e foi conquistada por Raimundo IV de Tolosa em 1099 durante a Primeira Cruzada, mas veio a ser abandonada quando os cruzados seguiram o seu caminho até Jerusalém. O local foi reocupado por Tancredo, príncipe da Galiléia em 1110, e Raimundo II, Conde de Trípoli, cedeu-o aos cavaleiros da Ordem dos Hospitalários em 1142. Durante o século e meio que se seguiu os Hospitalários construíram uma imponente fortaleza - a maior da Terra Santa - que resistiu a pelo menos doze assaltos muçulmanos, até ter sido conquistada pelos mamelucos do sultanato do Egito, pelas forças do sultão Baibars em 8 de abril de 1271.

O castelo resistiu aos ataques árabes por mais de 100 anos e os Cavaleiros Hospitalitários viveram em segurança em seu interior, cujo desenho é elagante, tem elementos góticos, um grandioso hall para banquetes, uma capela românica do século 12, um estábulo que ainda tem em suas paredes os ferros onde eram amarrados os cavalos e compartimentos onde ficavam as cozinhas e a despensa, que de tão grande era possível estocar gêneros para até cinco anos de cerco.


(*) Os estados cruzados - ou estados latinos do oriente - foram estados feudais dos séculos XII e XIII, criados pelas cruzadas dos reinos da Europa Ocidental na Ásia Menor, Grécia, Síria e Terra Santa (atuais Israel e Palestina). Todos acabaram por ser reconquistados pelos exércitos islâmicos do Oriente Médio. FONTE: Wikipédia
(**) Membros da ordem religiosa militar dos Cavaleiros de São João de Jerusalém são geralmente referidos como Hospitalares. Os Hospitalários foram a instituição mais antiga entre as três grandes ordens militares da Igreja Romana, na Palestina, embora inicialmente realizada de caridade em vez de funções militares. No século 11 o nobre francês Gerard fundou uma ordem para cuidar dos peregrinos enfermos, perto da Igreja de SÃo João Batista, em Jerusalém. Em 1113 o Papa Pascoal II reconheceu oficialmente a ordem cuja adesão era limitada a homens de origem nobre.

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Forma e função, Antecedentes (***)
O castelo foi erguido em duas etapas. Na primeira, foram levantadas as muralhas exteriores e um núcleo interno, composto por pequenas edificações de planta quadrada, de modo que, em 1170, as obras estavam concluídas. Em 1202, um terremoto afetou parte do conjunto, de maneira que, pouco tempo depois, iniciou-se uma grande reestruturação das defesas, conferindo-lhe a atual feição: uma muralha exterior de trinta metros de largura, amparada por sete torres com 8 a 10 metros de largura, definindo uma fortificação concêntrica. As escarpas do esporão foram aproveitadas com fins táticos.
AINDA que o local em que se erguia pudesse ser considerado ideal, a fortificação tinha dois pontos fracos: o portão de armas e o flanco Sul, voltado para a planície. Para defender este lado exposto, ergueu-se uma muralha de alvenaria com três grandes torres, precedido de um extenso parapeito também de alvenaria, que em alguns trechos possuía 25 metros de espessura.


A questão de defesa da entrada foi solucionada construindo-se um acesso em zigzag pelo declive escarpado, de modo a expor as forças de um invasor ao fogo dos defensores. Entre as portas exterior e interior, um estreito caminho entre as muralhas e defesas colossais.


A possibilidade de sujeitar a fortificação mediante um assédio também era dificultada. O conjunto contava com um armazém principal de 120 metros de largura e com armazéns adicionais escavados na rocha sob o castelo, onde se armazenavam água e alimentos suficientes para sustentar por até cinco anos uma guarnição de até 2.000 homens. Complementarmente ao controle da rota até ao mar Mediterrâneo, os Hospitalários exerceram influência sobre o Lago Homs a Leste, onde podiam ter controlado a indústria pesqueira vigiado as forças muçulmanas reunidas na Síria.
(***) FONTE: Wikipédia

ATUALMENTE o castelo encontra-se preservado em boas condições, sendo considerado um dos mais belos exemplos de arquitetura militar européia na região. Pertence ao governo sírio, que o mantém aberto à visitação turística, e entre os destaques encontram-se a dupla cintura de muralhas que envolve os edifícios de habitação, a capela em estilo românico, a grande sala e a galeria em estilo gótico, do século XIII. O Krak é um dos poucos lugares do mundo onde se preservou a arte dos cruzados, sob a forma de afrescos. E Eduardo I de Inglaterra, durante a Nona Cruzada, em 1272, viu a fortaleza e utilizou-a como modelo para os seus próprios castelos na Inglaterra e em Gales.
Krak des Chevaliers Church in Syria


