Kruger Park para a Viagem & Turismo especial

A seguir, na íntegra, a matéria que acaba de ser publicada na edição especial da
"Viagem & Turismo Especial África do Sul de A a Z"
(Agradeço especialmente às editoras Adriana Setti, pela indicação, e Rachel Verano, pelo convite, pela primorosa revisão (melhoria!) do texto e pela eficiência e profissionalismo com que comandou o trabalho. Obrigado!
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KRUGER PARK
Nosso leitor desbravou a mais exclusiva faceta do espetacular parque sul-africano: o mundo maravilhoso das reservas particulares e lodges de luxo
Texto e fotos Arnaldo Interata
O QUE TÊM a ver Henry Mancini, John Wayne, Bert Kaempfert e um hi-fi a válvula com um safári na África do Sul? Bem, pelo menos para mim, tudo. Corria o ano de 1962. Eu era um moleque e nada marcou tanto a minha vida naquela época quanto o filme Hatari! – uma comédia dramática rodada na África pelo diretor Howard Hawks, um notável filme de ação entre as savanas recheadas de animais, ao som de uma espetacular trilha sonora de Henry Mancini.

QUEM não se lembra do tema O Passo do Elefantinho (Baby Elephant Walk )? “Hatari”, em swahili, significa “perigo”, e perigoso era o trabalho do personagem de John Wayne em busca da captura de animais para mandá-los a zoológicos de todo o mundo. E ainda tinha a Elsa Martinelli! ...
ENTÃO eis que surge Bert Kaempfert na minha vida. Meu pai era um verdadeiro aficcionado por música e, no começo dos anos 60, comprou o que era a última palavra tecnológica em termos de equipamento de som: um amplificador monaural – a válvulas! – e um toca-disco inglês que tinha uma inacreditável agulha de diamante.
TUDO montado em um armário tipo cômoda, bem típico daquela época, que ocupava um belo lugar de destaque na sala de visitas. Pois bem. Aos 10 anos de idade eu ficava ali, sentado no chão e com o ouvido bem perto de uma enorme caixa de som que tinha a minha altura, ouvindo jazz e clássicos. Foi quando fui arrebatado - pela segunda vez depois de Hatari! - pelo LP Afrikaan Beat, de Bert Kaempfert. Eu me lembrava de cada cena do filme, numa atmosfera auto-hipnotizante. Assim fui apresentado à África. E jamais deixei de desejá-la.

MARÇO de 2007. Da pequena janela do turbo-hélice de 29 lugares eu avisto o aeroporto, na verdade uma tira de asfalto cercada de savana por todos os lados. Johannesburgo tinha ficado para trás havia uma hora, e a aventura começava pelo simples fato de saber que estava me preparando para aterrissar numa reserva onde a cidade mais próxima estava a três horas de carro.
O endereço era apenas “perto de Hazeyview, Mpumalanga”. Impossível controlar a ansiedade de estar em pleno habitat de animais selvagens que circulam livremente – a conclusão imediata é de que, aqui, os intrusos somos nós. Era meio-dia de um domingo de sol arrasador e céu inacreditavelmente azul. Os passageiros que embarcariam de volta no mesmo avião aguardavam sob a sombra de uma árvore. Nick, um sul-africano branco de 25 anos, se apresenta como nosso ranger e nos conduz ao Land Rover que nos levaria ao nosso lodge. Cinco minutos e uma estrada poeirenta depois e já estávamos na recepção do Mala Mala Main Camp. Uma lufada de ar-condicionado congelante e um delicioso iced tea com folhas frescas nos dão as boas-vindas.

POR um caminho de terra impecavelmente ladeado por gramados e muros floridos, e entre sombrosas árvores – entre elas um raríssimo Baobá que não existe nesta região da África do Sul – chegamos ao nosso chalé. A sensação era a de estar em outra dimensão, com uma vista arrebatadora sobre a reserva. Tudo era impecável: da temperatura, com o ar-condicionado a mil, às cortinas esvoaçantes e aos mimos que iam de sais de banho a dois roupões por pessoa: um de toalha, para sair do banho, e outro de algodão – com estampa de zebra! – para relaxar no quarto de mais de 100 metros quadrados. Já naquela tarde saímos para o nosso primeiro safári. Eu mal podia esperar.
UMA tri-atleta norte-americana de 48 anos e seu filho de 12, uma advogada australiana de Brisbane, eu e minha mulher éramos os passageiros de Nick e Eric, nossos ranger e tracker, respectivamente. De cara, logo na saída do lodge para o campo, pela estradinha de terra, nos deparamos com um grupo de impalas e antílopes. Lindos, grandes, saudáveis. O macho era jovem e seguia um pouco destacado do bando de suas inúmeras fêmeas, sempre agrupadinhas e extremamente atentas às enormes possibilidades de virarem presas enquanto pastavam. De repente, cinco minutos depois, damos de cara com um enorme elefante macho, adulto, parado bem no meio da estrada e destruindo uma árvore para comer suas folhas. Impossível não soltarmos (e ouvirmos) uns oooohhhhs!...aaaahhhhs!

DIANTE daquela imponência a tão poucos metros de nós, passageiros de um jipe sem teto e sem portas, é impossível não sentir um misto de admiração, encantamento, receio, ansiedade, prazer. Foi emocionante me deparar pela primeira vez na vida (a não ser em zoológicos, o que, decididamente, é incomparável) com um enorme elefante de belas e perfeitas presas, inteiramente livre para fazer o que quiser, a poucos metros de nossa frente e olhando pra nós com aquela tromba balançando entre suas duas grandes presas de marfim. Passada a surpresa... fotos, fotos, fotos. Pronto, eu acabara de ser formalmente introduzido (ou abduzido?) a um safári fotográfico turístico na África do Sul, algo com que sempre sonhei.

ESTAMOS no coração da Mala Mala Game Reserve, uma das maiores e mais exclusivas na região da Sabie Sand Game Reserve, um complexo de reservas particulares na borda sul do gigantesco Kruger Park. Mala Mala é considerado o melhor game viewing da África do Sul, definitivamente por causa de sua área de 12 mil hectares primitivos e imaculados, o que o faz o maior campo privado de reserva animal do Kruger Park, com a menor densidade populacional humana e o menor impacto ao meio-ambiente em todo o país.

TUDO é superlativo no Kruger, um dos mais antigos parques do continente africano, criado em 1898, e também um dos maiores: são cerca de 2 milhões de hectares, que se dividem em uma faixa de 350 por 65 quilômetros. Banhado por seis rios, tem uma enorme diversidade animal representada por 147 espécies de mamíferos, 114 tipos de répteis e mais de 500 espécies de pássaros. Não há destino mais certeiro para quem pretende ver de perto os Big Five – leão, rinoceronte, elefante, leopardo e búfalo – num safári (leia mais sobre estes animais na letra B, de Big Five). A cada ano, mais de um milhão de visitantes passam por lá. Dentro da área do parque nacional, as opções de hospedagem vão de simples campings a cabanas e bangalôs cinco estrelas. Mas as experiências mais exclusivas estão nas reservas particulares, onde há mais de 200 lodges de luxo.
DENTRO da reserva de Mala Mala há três lodges, sendo que o Mala Mala Main Camp, às margens do Rio Sand, é o mais antigo deles, construído no início dos anos 1900, e um dos mais lendários do país. Para mimar os hóspedes dos 25 chalés, há 115 funcionários, o que dá uma média de quase 3 funcionários por pessoa. Além de uma bela piscina, tem sala de massagens, uma boa adega, biblioteca de DVDs e livros e lounges deliciosos que incluem um deck de madeira de onde se tem uma vista de camarote para os animais que circulam pela mata e às margens do rio. Elefantes, búfalos e antílopes são figurinhas freqüentes.

UM dia típico no lodge começa às 5h30 da manhã. Depois de um rápido café com biscoitos, é hora de sair para o primeiro safári. Entre 6h e 9h, os guias mostrarão e explicarão tudo sobre o ecossistema da região, em passeios de jipe por estradas de terra e pela mata. Café da manhã de verdade, só na volta. E de 9h às 10h é hora de um autêntico breakfast inglês, com uma grande variedade de frutas, cereais, frios, ovos e bacon preparados a gosto e na hora, bem como tomates assados, salsichas e uma quantidade sem fim de guloseimas. Depois, o tempo é livre até as 12h30. Não que isso signifique muita coisa, já que é proibido sair do lodge (como não há muros e nem cercas, os animais circulam livremente, o que pode ser extremamente perigoso sem o acompanhamento de um guia).
É hora de ler, entregar-se a uma massagem, mergulhar na piscina ou mesmo recuperar o sono. Quem quiser pode ainda solicitar o acompanhamento de um guia para fazer um walking safari, ou seja, um safári a pé. O objetivo é ver de perto pequenos animais e plantas. Entre 12h30 e 13h30 é servido o almoço e depois é a hora da siesta. Entre 15h30 e 16h é a hora do chá. Como estamos num país colonizado por ingleses, o hábito é sagrado – ainda que não seja às cinco em ponto – e acompanhado de deliciosos bolinhos.

ÀS 16h começa o safári noturno, com duração de aproximadamente quatro horas. É o momento ideal para ver animais diferentes daqueles avistados pela manhã. Quando escurece, vemos primeiro os olhos dos animais brilhando, para depois identificá-los. Dá um frio na barriga, mas nada é mais lindo do que o luar e o céu estreladíssimo da savana africana.
DE volta ao lodge, é hora de uma rápida chuveirada seguida pelo jantar, o momento mais formal do dia. A refeição é servida ao ar livre, em uma boma, aqueles típicos cercados africanos de chão de terra com cercas de gravetos e pequenos troncos de árvores, justamente para impedir o acesso de animais. À luz de velas são servidas delícias sul-africanas, como carnes de antílope, avestruz, crocodilo. Para acompanhar, o excelente vinho local (leia mais na letra V, de Vinhos). Pouco depois das 22h, acredite, vai bater um sono incontrolável. E no dia seguinte começa tudo de novo às 5h da manhã. Para voltar ao chalé, um guia devidamente armado é indispensável. Nunca se sabe o que pode aparecer pelo caminho... É à noite que os animais costumam se aproximar do lodge. É comum dormir com o barulho dos bichos do lado de fora e, de manhã, ver os seus rastros. Veados e babuínos vieram até a nossa varanda.

PARA a maioria das pessoas, viagens turísticas significam lazer e espontaneidade, além do total controle do tempo e de suas atividades. É sempre bom ressaltar que um safári pode ser o oposto a tudo isso. A rotina diária é rígida, os horários são definidos e puxados, a bagagem deve ser a menor possível (os pequenos aviões que voam até as reservas aceitam no máximo 20 quilos por passageiro). TV e internet, embora muitas vezes disponíveis, não combinam nem um pouco.
E ainda há uma série de regras a seguir durante os safáris. É preciso ter paciência para ficar longos períodos nos jipes sem ver nada, sob calor ou frio. Não se pode levantar, sair do veículo ou fazer barulho – os animais entendem que carro e pessoas fazem parte de uma mesma massa e, caso percebam o contrário, podem tornar-se agressivos. Se vale a pena? Antes mesmo de ir embora eu já me perguntava quando repetiria a dose. Em poucos dias, vi de perto antílopes, cervos, elefantes, rinocerontes, hipopótamos, hienas, leopardos, girafas, zebras, búfalos, macacos... Não há Hatari! capaz de chegar perto da emoção que eu senti.
(Abraços a todos)


Reader Comments (14)
Não vem um especial Dubai e Estambul na V&T?
GRANDE abraço, é uma honra ter o Haroldo Castro aqui!
http://www.viajologia.globolog.com.br
BORJA, obrigado pela visita, pelo trabalho de registrá-la aqui e pelo elogio. Volte sempre!
RODRIGO, se dependesse de MIM (e não da Rachel Verano e Adriana Setti e Editora Abril) eu sairia em TODAS!
Grande abraço
Eu e a Clara fomos à banca hoje e não achamos, eu estava procurando a revista de Novembro e não o especial África do Sul, amanhã resolvo isso.
Parabéns, é pra se orgulhar mesmo.
MARI CAMPOS, Obrigado, mais uma vez, pelas tantas vezes que vem aqui e deixa elogios. MUITO obrigado.
Grande abraço a todos.
Abraços!