Jordânia e Síria. Doces riscos. – A preparação da viagem

ESTÁVAMOS num almoço em família e a conversa girava em torno de nossas viagens. Perguntavam-me para onde seria a próxima antes mesmo que eu terminasse de lhes contar a última viagem: “E o próximo destino? Para onde será a próxima viagem?”. “Jordânia”, respondi. “Em abril iremos à Jordânia e à Síria”, completei. “Jordânia? Síria!?”
AS exclamações, acompanhadas de expressões de surpresa e espanto - naturalíssimas, convenhamos - soavam como um “Onde diabos fica isso?”, ou então um “Mas...Jordânia e Síria!, por que a Jordânia?!”. “Aqueles países no Oriente Médio, colados no Iraque? O que vocês vão fazer lá?”
ENQUANTO ouvia Imaginava que logo me perguntariam “E vão esticar ao Iraque e à Palestina também?”
OCIDENTAIS já viajam ao Oriente Médio há séculos. De imortais celebridades - como Mark Twain, Gustave Flaubert e Agatha Christie liderando a lista dos dez mais - a insignificantes turistas mortais, como eu, a encerrarem a relação dos dez menos. Todos, contudo ajudaram a conduzir Egito, Dubai e Israel ao topo da lista dos países mais visitados da região.
A gente sabe que não dá pra fazer um CTRL+ALT+DEL, executar o “Gerenciador de Tarefas” e “finalizar” a realidade presencial tal qual se faz com a cibernética e a virtual. É assim com o Oriente Médio, não se podem apagar os conceitos que habitam o inconsciente coletivo de boa parte do planeta. Geograficamente falando, é aquela região que se estende do leste do Mediterrâneo ao Golfo Pérsico. Uma espécie de sub-região da África-Eurásia, ou trocando em miúdos, aquelas partes da Turquia que ficam no continente Europeu, assim como partes da Ásia e da África Setentrional.
CONTUDO não é por suas vastas áreas desérticas e semi-desérticas, por seus famosos e escassos mananciais como os rios Jordão, Tigre e Eufrates, por um ou outro Oásis, por sua fabulosa história e cultura, pela monumental e incomparável herança arquitetônica que milhares de anos de civilização nos legou, tampouco por ter sido o berço da civilização, o que já seria suficiente para que no inconsciente coletivo do planeta esta região ficasse impressa e lembrada, apenas por boas, magníficas lembranças.

Wadi Run, o Deserto - Jordânia
A despeito de sua comida fabulosa e de sua gente espetacular, de sua riqueza incontestável, o Oriente Médio é mesmo mais conhecido por seus eternos, lamentáveis conflitos. E o pior é que apesar de serem fundamentados em dois únicos pontos, trata-se de uma questão tão complexa quanto a própria existência: diferenças religiosas e étnicas. Pois é assim que o Oriente Médio se apresenta para o planeta: uma região em eterno conflito que decorre fundamentalmente da não aceitação às opções religiosas e diferenças étnicas.
SE nos fosse possível dar o tal comando “ctrl+alt+del” nesta realidade, tornaríamos as nações que integram a região em estados laicos. Depois dos três cliques os fundamentos do desentendimento e da beligerância estariam “deletados”, ainda que não fossem os únicos - petróleo e água em terceiro e quarto lugares. Ao comando ‘finalizaríamos a tarefa’ dos conflitos, ‘deletando’ Palestina, Israel, Cisjordânia, Síria, Jordânia, Arábia Saudita, Iraque e Irã, criando uma só nação onde todos viveriam em harmonia e igualdade. Esta grandiosa nação se chamaria Jornalina, Palestânia, Israrábia, Cis-síria, Israrã, Jordael, Saudisíria, ou Isralestina.
"Imortais celebridades ocidentais já viajam ao Oriente Médio há séculos:
Mark Twain, Gustave Flaubert e Agatha Christie entre tantos"

TODAVIA ocidentais já viajarem ao Oriente Médio há séculos, Síria e Jordânia ainda permanecem dois (grandes) destinos a descobrir, recém-chegados ao mercado turístico internacional de expressão e ambos 'olham' para o futuro e para o turismo como uma imprescindível fonte de renda. Além disso, ambos enxergam o ocidente e distanciam-se de fundamentalistas, condição primordial para que ingressem no primeiro mundo com o destaque que merecem.
NÃO há escapatória: esta é a única maneira de ambos países introduzirem-se no mundo globalizado, civilizado e pacífico, de obterem condições indispensáveis para romperem a barreira dos 10 milhões de turistas anuais e vencerem tanto o preconceito quanto a desinformação por parte do mundo. Esta é uma verdadeira Guerra de Cruzados.
FAZER turismo no Oriente Médio poderia parecer um paradoxo - terrorismo e guerras motivando opiniões antagônicas, medos, receios, temores, tremores, terrores e afins. Contudo, Jordânia e Síria, graças aos preços (ainda) baratos, aos novos hotéis luxuosos de redes internacionais (Four Seasons inaugurou em 2006 uma unidade em Amã, outra em Damasco) e os aos hotéis boutique charmosos e sofisticados, instalados em preciosos palacetes literalmente dentro das suas cidadelas medievais, ao povo extremamente acolhedor (tão curioso por nós quanto nós por eles) e o conjunto espetacular de riquezas arquitetônica, histórica, cultural e gastronômica tornam o turismo na Jordânia e na Síria altamente recomendáveis, atraentes, receptivos e seguros. Simpatia e hospitalidade dizem ser o "plus" que ambos os países oferecem aos seus visitantes.
SIM, há riscos: o estilo desesperado de conduzir dos jordanianos e síros (assim como o dos egípicios) recomenda que o viajante tenha bom senso e atenção, extremo cuidado ao atravessar as ruas. Não, não se trata de uma nova modalidade de terrorismo e extermínio de ocidentais por fundamentalistas islâmicos. As intenções não são nada suicidas nem assassinas. Aquele jeito kamikaze de dirigir é apenas resultado de uma atitude de caráter cultural (que, convenhamos, nem é assim tão estranha a nós brasileiros), decorrente das distâncias sempre inversamente proporcionais à disponibilidade de tempo para percorrê-las. A bem da verdade tais riscos são mínimos para nós brasileiros acostumados ao trânsito e ao jeito de dirigir verde e amarelo.

NÃO se podem negar, contudo, outros riscos reais, especialmente os de sequestro: um turista ocidental será sempre "alvo" de algum jordaniano ou sírio comerciante. Neste particular, tenha muito cuidado no interior de um labiríntico souq. Fique atento àquele comerciante à espreita, dono daquele típico "olhar sequestrador". Se adentrar seu "cativeiro" -o interior daquela lojinha extremamente atraente - quase sempre só será possível "escapar" depois de pagar um "resgate", cujo valor será sempre menor ou maior à sua capacidade de barganhar o preço daquela lindíssima lâmpada de Aladim, daquela caixinha belíssima de macheteria damascena ou até mesmo daquele espetacular tapete que cairia como uma luva no hallzinho de casa.

O turista encontrará gente simpática, hospitaleira, simpática e acolhedora,
tão curiosa por nós quanto nós por eles.
LEMBRE-SE que também há algum risco de "arresto" - menor é verdade, mas ainda real - levado a cabo por alguma acolhedora família. De certa forma é bem comum que lhe façam um convite para que entre em alguma casa de família "suspeita" e lá seja "obrigado" a provar sua deliciosa comida. Neste caso a soma a pagar pelo resgate será proporcional ao seu grau de culpa e trauma por ter cedido aos prazeres da gula.

Doces "sequestros", deliciosos "resgates"
A fabulosa comida síria e jordaniana é irresistível e o costume de comprtailhá-la uma tradição simpaticíssima dos jornadianos e sírios, talvez mesmo de todo povo árabe. A síndrome do trauma pós-sequestro será proporcional ao tanto que acrescentou ao seu pneuzinho e ao espanto por ter descoberto que ainda são possíveis atitudes tão francas e surpreendente que julgava não mais existirem no mundo atual. Doces riscos! Doces riscos você correrá na Jordânia e na Síria.
A região é seguramente um dos mais fascinantes destinos turísticos do planeta. O patrimônio cultural, histórico e religioso deste lugar que viu nascer no seu solo algumas das mais importantes civilizações e religiões, que mantém cidades que são verdadeiros museus a céus abertos, constitui-se inegável recompensa para o visitante. O Oriente Médio é uma vasta área formada por vários países e há grandiosos diferentes lugares pra se conhecer, como na Jordânia, na Síria e no Irã. E a despeito de serem países e povos tão endemoniados pela imprensa norte-americana e consequentemente erroneamente pela opinião pública ocidental, o visitante invariavelmente encontrará seres humanos dignos, hospitaleiros, amistosos, simpáticos, educados e interessados em mostrarem orgulhosos seu patrimônio.

Ao atravessar as ruas o trânsito é um perigo real para o turista
ESTES serão capítulos de história e de cultura, de povos e de patrimônio arquitetônico incomparáveis, de dois países islâmicos não fundamentalistas, de duas nações que recebem calorosamente o turista e retribuem a visita com história e cultura sofisticadas, mercados árabes que pararam no tempo, receptivos e complacentes com outras culturas e que adotam modo de ser contrários ao preconceito racial e religioso. Jordânia e Síria são países árabes socialmente avançados, cujas mulheres são educadas, esclarecidas, informadas, modernas e que assumem importantes cargos administrativos governamentais e funções sociais, domésticas e familiares.
A maioria dos visitantes chega à Jordânia pelo ar e pousa no Queen Alia International Airport Amman (AMM) em vôos dos Estados Unidos e da Europa – American Airlines e Air France e Lufthansa liderando as cias. aéreas - mas também ultimamente através da Emirates, a cia. aérea nacional de Dubai. Ou,se seu destino primeiro for a Capital da Síria, ao Damascus International Airport, seja pela Syrian Arab Airlines, pela Royal Jordanian, pela KLM, pela Air France e pela Lufthansa. Saindo de Paris - o meu caso - são quatro horas e meia de vôo até Amã e uma hora a mais de fuso horário.

De Amã a Damasco num EMBRAER da Royal Jordanian
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JORDÂNIA
PETRA - a “jóia da coroa” do patrimônio turístico do país - uma das Sete Novas Maravilhas do Mundo, a magnífica cidade rosa de pedra dos nabateus, foi descoberta pelo turismo mundial apenas no Século 19. Mas foi com Indiana Jones que Petra foi alçada à posição que ocupa hoje no ranking do turismo mundial. Todavia a Jordânia ser bem mais do que Petra - tem Amam, sua capital, tem Jerash, Aqaba e o Mar Morto - foi Wadi Rum, o deserto, cenário de Lawrence da Arábia, que colocou a Jordânia no inconsciente coletivo turístico do mundo há décadas.
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SÍRIA
UMA terra muito antiga. Uma história rica e turbulenta de civilizações humanas que vão até 5000 a.C. A Síria transpira, exala uma fascinante história de comércio, política, conquistas e ocupações por impérios importantíssimos na história da humanidade: assírios, hititas, persas, romanos, bizantinos, omaíadas, islâmicos e turcos otomanos. Por diversas vezes o território foi controlado por egípcios, babilônios, turcos, persas e franceses, e quase todos deixaram suas marcas e impressões, seja em grandes construções como fortalezas, anfiteatros, igrejas, mesquitas, seja na cultura.
PALMYRA foi construída no meio ao deserto, ao pé de uma cadeia de colinas, suas ruínas romanas conservam o esplendor do império. Destruída por um grande incêndio e mais tarde por um terremoto, é possível visitar as ruínas do Templo de Baal, a Grande Colunata, a Ágora, e o Palácio Qala´at ibn Maan, um castelo árabe do século XVII.
ALEPPO é uma cidade com uma cidadela, museus e caranvaçarais. Os fascinantes souqs são cobertos e se extendem por um grande labirinto. Ao norte dos souqs a Grande Mesquita tem um minarete construído em 1090 e um púlpito entalhado em madeira de grande valor histórico e sem dúvidas turístico.
Krak des Chevaliers é um fabuloso castelo dos Cruzados, está exatamente como era há 800 anos, quando foi construído. O castelo é dividido em duas partes, a muralha externa com treze torres e a muralha interna, que contém um portão imponente de 5 metros de altura, a antiga capela transformada em mesquita, entre outras atrações.
Ahlan wa sahlan! Até já!
FOTOS: Eric Lafforgue
Jordânia: http://www.ericlafforgue.com/jordan.htm
Síria: http://www.ericlafforgue.com/syria.htm
A seguir:
Jordânia – Introdução (Ao Vivo, direto Amã)
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As muitas faces da Jordânia, o reino das fronteiras selvagens



Reader Comments (8)
APROVEITA muito essa viagem! Você vai amar...
Desses lugares eu só conheço Petra... e confesso que foi um dos lugares mais fascinantes que já vi!!!
Abs
MIRELLA, eu acabando escrever e vocccê comentando, que bacana! Ainda desejando boa viagem. Bem ainda faltam doze dias até lá, mas agardeço sua simpatia e presença, seu gentil comentário. Eu me injspirei e me inspirarei sobre Petra no que você escreveu, além de outros lugares e do que eu sentir.
Grande ABRAÇO.
Arnaldo, a escolha de um destino é pessoal e intransferível. Eu visitei Israel, Turquia e Egito antes de conhecer Nova York ou Milão. E todo mundo me olhava espantado: "mas o que você vai fazer em ISAREL?" Já comentei em alguma oportunidade... quem não viaja tem medo! E medo quase sempre causado por desconhecimento, por falta de interesse. Quando li o seu texto tive a sensação de que ir à JORDÂNIA e à SÍRIA é fundamental no currículo de qualquer viajante! Tão importante quanto Paris, tão necessário quanto Praga! Seu estudo e sua dedicação aos temas da viagem ajudam a criar uma nova leitura dos destinos. Isso é muito importante na promoção turística! Daqui a pouco a OMT - Organização Mundial de Turismo contrata você como consultor! :-)
Arnaldo, eu concordo com a Silvia. Seus textos ajudam a "desmistificar" destinos que são considerados por muito exóticos. Isso é muito importante e interessante. Aproveito também, para lhe desejar uma ótima viagem! Confesso que já estou curiosa para ver as fotos...
Além do povo ocidental rotular o Oriente Médio por região de conflitos, muita gente não aprendeu a respeitá-los e apreciar as suas belezas. Abraço
Nossa, lindíssimas imagens. Excelentes relatos e blog maravilhoso!
Nos divertimos muito com seu texto, querido. Ficamos lembrando da nossa "visita ao Marrocos"... Boa viagem e que as fotos sejam ainda melhores que o texto! Abraços
Como sempre belíssimas fotos!!!!
Mas dessa vez estou passando por aqui p/ tirar algumas dúvidas....também estou indo p/ Jordania e gostaria de saber se vc fez o passeio p/ Wadi Rum....estou pensando em ficar uma noite no deserto com os Beduínos. Sabe se é realmente legal?? não parece ser o seu estilo(também não é muito o meu, mas estou tentada), mas tem alguma referência???
As botas de trekking são realmente necessárias? não dá pra ser um tênis confortável,com anti impacto e blá,blá,blá.... Já estou me preparando fisicamente p/ o evento ,mas definitivamente não faço o estilo esportivo, elas irão ficar num remoto canto do meu armário até a próxima viagem....será que vale á pena????