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MARRAKECH: Djemaa el Fna, o centro de tudo 

Posted on 03-11-2010 by Registered CommenterArnaldo Interata | Comments9 Comments

Observando a praça de cima __________________________

   A "hora mágica" da praça num terraço: de um lado as montanhas Atlas, do outro a Djemaa el Fna.                    

                       POUCOS prazeres se comparam a assistir ao crepúsculo de um terraço na praça Djemaa el Fna,  o fugaz momento em que a teimosia da luz do dia persiste e parece enfrentar bravamente a força da noite.  É ali que percebemos que se o Marrocos nos parece do outro mundo, a praça mais emblemática do país nos sugere um outro Universo.   Pois é ao anoitecer - quando o sol está se pondo e as luzes se acendendo - que ocorre a "hora mágica" da praça: um curto espaço de tempo em que ela muda de personalidade e de caráter, quando atrai e rouba os olhares mais embevecidos e os cliques mais nervosos.  Deles se podem ver tanto a praça quanto a cidade e as montanhas Atlas.   

  

                       

                        Djemaa el Fna -  Praça dos Mortos -  é seu nome. Se traduzido ao pé da letra seria “Assembléia dos Mortos”, pois há séculos criminosos ali eram executados e suas a cabeças expostas como exemplo. No entanto, como a palavra Djemaa também significa mesquita, pode-se interpretar seu nome como "lugar da mesquita desaparecida", referência à almorávida que existiu no lugar.   

Os aguadeiros da Djemaa el Fna. 

                      HOJE, nada religiosa, quase pagã, é um território eclético onde as mais variadas e exóticas demonstrações artísticas se desenvolvem, desde músicos de rua, malabaristas, arrancadores de dentes, dançarinos, ambulantes, mágicos, acrobatas, tatuadores, contadores de histórias até outras atividades não tão artísticas, como encantadores de serpentes, de micos amestrados e batedores de carteira de turistas encantados.

            

                        PARECE haver certa insanidade coletiva na Djemaa el-Fna a essa hora.  A sedutora praça que todas as noites muda de identidade, de onde junto com o sol vão-se os vendedores de água e de diversão para dar lugar aos barraqueiros das bancas de comida, transforma-se num grande e variado restaurante a céu aberto.   As tralhas dos vendedores começam a ser montadas ao pôr-do-sol e, mais tarde, já com a noite, tudo se transforma completamente num opulento exotismo.  Circular entre as barracas de comida fervilhando, observando locais e estrangeiros que tomam suco de laranja e comem nas centenas de barracas de comida, é uma orgia sensorial.    

 

                         OUVIR um dos cinco chamados diários às preces, vindos da Mesquita Koutoubia, enquanto estamos num terraço observando o movimento da praça, talvez seja a mais evidente e autêntica oportunidade de sentirmos a verdadeira personalidade desta cidade, a experiência mais marcante e inesquecível da visita à imperial Marrakech.

Sopa de caramujos 

                         E, para além de Patrimônio da Humanidade, marco zero e principal ponto turístico da cidade, é ali que se encerra sua verdadeira essência, o que ela tem de mais original. É uma referência cultural para locais e visitantes, um teatro a céu aberto, um circo com picadeiro e platéia, melancólica de dia, e efervescente à noite.  É verdadeiramente impossível nos tornarmos indiferentes ao que acontece nela. Saímos vivos, mas não os mesmos, da Praça dos Mortos. 

 

                        CASO venha a pé, observe as calçadas da Ave. Mohammed V e olhe o céu luminoso de inverno atrás do fabuloso minarete da Mesquita Koutoubia. Repare no longo gradil que separa os jardins da mesquita da larga calçada da grande avenida. Observe os homens caminhando vestidos com suas  djelabas (*) de capuzes pontudos.

                       OUÇA os passos dos cavalos que puxam as caleches (*) que outrora levava donas de casa às mercearias e hoje carregam turistas. Chegue à praça Djemaa el-Fna - às portas do souk - e observe o curioso vai-e-vem de turistas, vendedores de água, encantadores de serpentes, contadores de histórias.

                        EXPERIMENTE, então ficar de pé no centro da Praça Djemma el Fna - a porta de entrada do souq - e perceba que não há praça mais vibrante e pulsante no mundo, o quadrado mais exótico e movimentado que se pode conhecer, o “caos” mais controlado e organizado, a mais surpreendente das experiências que alguém pode ter no Marrocos, do cheiro das ervas, de incenso e de frutas ao som das flautas de encantadores de serpentes, dos músicos e artistas de rua, de instrumentos musicais exóticos e vozes com sotaques dos mais diferentes, enfim, de figuras as mais bizarras.

  

Encanto e magia pairam permanentemente sobre a Djemma el Fna:

de dia mágica e serena. De noite, insana e efervescente.

  Encantadores de serpentes. E de turistas: fotografou, pagou.

                       PARA se ter uma experiência realmente essencial em Marrakech é imprescindível circular entre as barracas de alimentos da Djemma el Fna ao anoitecer. Circule pelos corredores formados pelas dezenas de bancas dos mais exóticos tipos de comidas: cabeças de carneiros assadas e expostas como se tivessem sido acabadas de ser arrancadas dos pobres corpos, cujos cérebros ficam expostos para as ordens "à minuta", tudo iluminado por gambiarras de lâmpadas defumadas pelas grelhas a carvão dos assadores e chapas.

 

                      - “Salam aleikum! Couscous de carneiro, 40 dirham!, Tahine por 30! ”,  “Bonsoir! Mer-haba! Sente-se, senhora, venha provar o mais fresco suco de laranja da África!”....

                       QUEM pode resistir a isso?  E ao tajine, um prato cozido numa panela especial cônica e de cerâmica? Extasiados com o que víamos, a vontade era provarmos tudo o que se oferece: das sopas de caramujos aos peixes fritos, das sopas de cabeças de ovelha e seus cérebros fritos às salsichas e linguiças assadas à apimentada harira - tradicional sopa norte africana com feijão, tomate, legumes e macarrão, os suculentos nacos de carnes de carneiro e galinha, o cuscus, o tagine au poulet, os legumes cozidos, as saladas, tâmaras, chá de menta e doces árabes cobertos de mel.  Apenas nossos estômagos e intestinos poderiam não resistir a tal orgia, mas nossos sentidos sim. Se for comer, faça-o parado ou preferencialmente sentado.

                      NÃO coma na rua ao andar, o que é considerado descortês e atrairá olhares de reprovação.  Os marroquinos sempre sentam-se e param para comer, deixando tudo mais de lado enquanto o fazem.  É seguro comer? Bem, analise as condições e veja se seu sistema digestivo vale o teste. 

 

                      POR falar em comida, temperos e especiarias, convém conhecer alguns exemplares da cozinha do país: as trufas brancas, o açafrão, o vinho e o escargô, a hortelã, as azeitonas de Meknes, as laranjas e os limões de Fez , as especiarias como a canela, o cominho, a cúrcuma, o gengibre, a pimenta preta, a páprica, as sementes de anis, o gergelim e o coentro, as misturas de especiarias - chamadas "Ras al Hanut" - 15 a 34 diferentes que formam um conjunto em pó cujas cores vão do vermelho escuro ao amarelo, assim como outra, a "Harissa", uma pasta que mistura pimentas, usada como condimento básico em todas as cozinhas do Magrebe, além da salsa árabe, usada tanto na forma seca quanto fresca.

 

 

                       NÃO foi à toa que Marrakech encantou Hitchcock, Churchill, Yves Saint Laurent e a elite parisiense. Na década de 50 foram os escritores Truman Capote e Paul Bowles (“O Céu que nos protege”) que quase fizeram residência no Marrocos.  Idealistas como Yves Saint Laurent, os Beatles, Led Zeppelin e Rolling Stones esbarravam com hippies e místicos em suas buscas espirituais e narcóticas entre rolos de fumaça suspeita. Hoje é gente de todo tipo, raça, credo e lugar, porque em tão poucos lugares no mundo se pode fazer turismo chic com tamanha personalidade, autenticidade e exotismo. 

Para beber, só café, água e refrigerantes. Ou suco de laranja, lá embaixo. Cerveja? Só no hotel...

 

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NOTAS:

 (*) Magreb (em árabe, المغرب, Al-Maghrib) é uma região africana que abrange, em sentido estrito, Marrocos, Sahara Ocidental, Argélia e Tunísia (Pequeno Magreb ou Magreb Central). O Grande Magreb inclui também a Mauritânia e a Líbia. Na época do Império Romano, era conhecido como África menor, limitado pelo Mar Mediterrâneo a norte, pelo Oceano Atlântico a oeste, pelo Golfo de Gabés a leste e pelo deserto do Saara a sul. A grande cordilheira do Atlas, com as suas ramificações separadas por planaltos com cerca de 1000 metros de altitude, estende-se na sua parte ocidental. É uma zona de clima mediterrânico, com precipitações escassas, salvo em zonas montanhosas viradas para a zona litoral.

(*) A Dinastia Almôada foi uma potência religiosa bérbere que se tornou a quinta dinastia moura, tendo se destacado do Século XII até meados do XIII.  O nome latino deriva da corruptela do árabe al-Muwahhidun, i.e. "os monoteístas" ou "os unitaristas", que alude ao fundamentalismo do movimento. Os almôadas surgiram no Marrocos descontentes com o insucesso dos almorávidas em revigorar os estados muçulmanos na Península Ibérica, bem como em conter a reconquista cristã. Tendo conquistado o Norte de África até ao Egito, ocuparam sucessivamente grande parte de Al-Andalus.

(*) Djellaba - também conhecido como darija, djellabah, galabiya e jellab - é uma tradicional vestimenta comprida e solta, um robe em forma de túnica, com mangas e capuz. Tradicionalmente as djellabas são feitas de lã e de diferentes formas e cores. Atualmente tecidos leves substituíram os de lã em comunidades de emigrantes no Ocidente, como por exemplo as de Paris, Bruxelas, etc. São usadas na região do Magrebe do Norte África e nos países de língua árabe ao longo do Mediterrâneo.

(*) Caleche é uma charrete popular e tradicional em Marrakech. Está para a cidade assim como as gôndolas estão para Veneza. Há roteiros e preços definidos e um dos mais atraenets é o circuito o redor das muralhas.  O mais importante é barganhar o preço, nõ apenas porque somos tuistas mas porque é uma tradição negociar sempre antes de pagar o preço final. Os pontos finais de paradas das caleches são na rua defronte os jardins entre a Mesquita Koutoubia e a Praça Djemaa el Fna, no El Badi Palace e em alguns dos hotéis de 4 e 5 estrelas da cidade.

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Próximo Capítulo

Circulando em Marrakech:  opções econômicas e luxuosas

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Reader Comments (9)

O primeiro anoitecer na Djemaa el Fna é como um sonho: desnorteante, absurdo. Como é território desconhecido, pisa-se com cautela (baixando a guarda eventualmente), os olhares não se demoram em lugar algum. Os cheiros, barulhos, movimentação incessante, o possível assédio: até onde ir na curiosidade?
Mas o fato é que a praça aos poucos vai ficando mais familiar, mas não menos interessante e quando se percebe, dá vontade de estar ali todos os finais de tarde. Pode ser andando entre as barracas de comida, vendo as lojas, vendo quem foi fisgado pelas tatuadoras de henna, tentando ver um pouco da apresentação dos travestis, dos músicos gnaou...ou simplesmente testando cada terraço e vendo a praça de vários ângulos, com um café nas mãos ou um couscous no prato.
Saudades.

22:42 | Unregistered CommenterEmília

EMÍLIA, seu comentário é um POST em si mesmo! Nossa volta pa casa foi cheia de lembranças. Maravilhoso relembrar....

22:48 | Unregistered CommenterArnaldo

Estive na Praca, em algum horario pelo menos, em todos os sete dias em que estive na cidade. Desconcertante e instigante ao mesmo tempo. Segui o conselho da Rachel Verano e tomei muito do delicioso suco de laranja, me fartei com o cha de menta nos cafes mais charmosinhos do souk e ate comi numa das barraquinhas da praca na ultima noite - e nao me arrependo de nada, nadinha. Belissimas fotos, Arnaldo! Babei.

naooooo, nao creio que nao cheguei até Marrakech, que vista do Atlas, UAU, tenho que voltar...quando fui cheguei só até Fez, bom, voltarei e agora com essas dicas mais facil...

obrigado,
Felipe

Olá Arnaldo,
Obrigada por mais uma vez através da sua descrição, me transportar ao Reino das Mil e Uma Noites, a Praça Djema Al Fna enfeitiçou-me...é mesmo um lugar mágico...cor, cheiro, movimento, fumo, laranja, espiral de emoções em crescendo...maravilhosa...

E o Jardim Majorelle? Estiveram lá?

Abraço e continue...a encantar...

Teresa Ribeiro, Portugal

TERESA, sim, nós estivemos no Jardin Majorelle e em breve haverá fotos e texto publicados aqui. Eu que agardeço a visita e o comentário: muito obrigado!

Arnaldo, oi, boa-noite. Assim como você, viajei muito, tive o privilégio de conhecer lugares que nem a imaginação se atrevia a criar. Pois Marrakech superou tudo. Suspirei fundo vendo seu blog... Friccionei a lâmpada de Aladim, voei num tapete mágico, me hospedei no La Mamounia, vi o vermelho do deserto contrastando com picos nevados, vi oásis, tamareiras, camelos, encantadores de serpentes, guerreiros, pastores e carneiros, mesquitas, palácios, outras formas, outras cores... Senti outros sabores... Ouvi uma língua melodiosa, era Sherazade contando mil e uma histórias... Fantástico...

E que linguagem a sua, Arnaldo! Vai, sim, escrever um livro lindo, viajaremos nas páginas dele, partilhando das emoções que você viveu e nos transmite tão bem pela linguagem do coração, própria daqueles que amam o Belo e o querem repartir.

Obrigada, amigo.

Maria Apparecida, que lindo comentário, que gratidão por seus incentivos e apoio ao que era intenção e tornou-se projeto: escrever o livro " Fatos & Fotos de Viagens".

Receber um elogio (e incentivo) desses vindos de uma escritora tão premiada é mais que um prazer, um orgulho.

Obrigado, meu e da Emília

9:22 | Unregistered CommenterArnaldo

São os pequenhos detalhes do texto e das fotos o que faz adorável o post! Sempre gosto muito de ler sobre seus viagens e gosto porque, em cada nova leitura, descobro e aprendo algo inédito e diferente. Saludos, amigos!

CARMEN, muito obrigado. SALUDOS de Rio a Barcelona.

15:48 | Unregistered CommenterCarmen

Olá Arnaldo,

Mais uma vez aterrei em Marraquexe, no seu Blog.

Muito obrigado por "escrever com o seu coração", como diz a sua amiga, continue a proporcionar estes voos até às Mil e Uma Noites...

Não consigo deixar de voar...

Muito obrigado...e escreva o tal livro...

Estou ansiosa por aterrar no Jardin Majorelle...escreva, ilumine, faça sorrir, chorar com saudade de um lugar mágico que eu nunca tinha visto e proporcione isso a todos os que sonham...e voam...

Muito obrigado

Abraço,

Teresa Ribeiro, Portugal

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