Índia - As faces e os lugares do Rajastão
OLHOS e ouvidos não conseguem coordenar o turbilhão que passa pela janela do carro. É como se o mundo passasse por mim, não o contrário. Milhares de pessoas atravessam as ruas aparentemente sem destino, camelos conduzem cargas pesadas com seu andar desajeitado, tratores carregam fardos maiores que seus próprios tamanhos, ônibus levam passageiros no teto e animais vadios seguem seus rumos sem destino. As estradas entre Agra e Jaipur fornecem o extrato da desordem mais completa, e ainda que divertido, o ziguezaguear permanente e necessário para o desvio de tudo traz recorrente tensão à viagem.
Nosso carro é conduzido por Anil, o trânsito pela proteção divina, os pedestres sabe-se lá por quem. Desviamos de riquixás, de motocicletas, de carros, ônibus e caminhões, entre fumaça e buzinaço, sob o eterno céu leitoso que cobre a Índia. Tudo me surpreende, da confusão à capacidade de harmonizarem-se com ela. Todavia nada tem maior impacto em mim do que aquilo que melhor revela o caráter indiano: paciência, resignação, impassividade. Todos parecem conviver bem com o caos.
Pelo percurso, vou confirmando, um a um, todos os estereótipos indianos: o mais louco e desordenado tráfego que flui em todas as direções, as dezenas de pessoas e animais que exibem inegável competência e destemida coragem ao cruzarem com toda a sorte de veículos, disputando os mesmos espaços.
______ Pelo percurso, vou confirmando, um a um, todos os estereótipos indianos ______
NOSSA chegada a Jaipur é um estupro aos sentidos. A seqüência avassaladora de exageros, do lixo às pessoas, de vendedores de coisas que não se quer e não se precisa à espetacular arquitetura, da ordem urbanística à desordem urbana, da poluição à pobreza, tudo fornece as doses mais elevadas de sobrecarga sensorial que mesmo o mais indiferente indivíduo pode suportar.
______ Mulheres envoltas em saris multicoloridos, uma das faces do Rajastão ______
HAVELIS, templos incrivelmente esculpidos, fortalezas e fabulosos monumentos de todas as formas em pedras rosa e marrom, músicos tocando instrumentos exóticos, mulheres envoltas em saris multicoloridos carregando vasos de água nas cabeças e nas mãos, homens com longos bigodes, turbantes de uma cor ou multicoloridos, animais e tudo o que faz das cidades do Rajastão uma festa vibrante para o turista, uma sedução para fotógrafos, um estímulo para escritores.
______ Vimos mulheres carregando vasos de água nas cabeças e nas mãos ______
INICIÁVAMOS ali nossa viagem ao Rajastão, o Estado mais emblemático do país, e ainda que esperançosos, jamais poderíamos imaginar a seqüência tão fabulosa de monumentos que veríamos e os momentos mais enriquecedores, curiosos e divertidos que viveríamos na Índia, especialmente depois do tanto que já nos encantara em Delhi, Agra, Sikandra e Fatehpur Sikri.
______ Vimos homens de turbantes coloridos de muitas voltas ______
______ Um, dois, três, quatro ... ______

______ ..cinco etapas que fazem tudo parecer tão fácil ______
Ainda que preparados e abastecidos, não imaginávamos que ali começavam as verdadeiras experiências, o mergulho mais profundo no pântano indiano onde estão suas mais nobres e ricas tradições culturais, seus tesouros arquitetônicos mais impressionantes, as nossas mais magníficas experiências antropológicas de toda nossa viagem.
______ Vimos pobreza, encontramos beleza em tudo ______
O Rajastão surpreende até o viajante mais experiente, aquele que já conhece lugares exóticos e grandiosos na história, nos costumes e no patrimônio arquitetônico de desenho caprichoso. Aquela avassaladora introdução ao Rajastão demonstrava que o Estado potencializa e condensa em si todas as características mais comuns atribuídas a Índia: o trânsito mais louco, os cheiros e sons mais intensos, as cores e sabores mais fortes, a pobreza, a riqueza, os monumentos incríveis, a cultura fabulosa, tudo sempre em doses espetaculares.

______ Vimos encantadores de serpentes, vimos instrumentos exóticos ______
Vimos mulheres usando orhnis vermelhos e laranjas brilhantes e sarees esvoaçantes. Vimos homens com bigodes enormes e vistosos turbantes de muitas voltas. É o povo rajastani, então, que representa o maior destaque do Estado ao exibir o caráter mais orgulhoso, a altivez mais evidente e o jeito mais nobre que presenciamos em toda a viagem.
______ Vimos mulheres usando orhnis vermelhos e laranjas brilhantes e sarees esvoaçantes ______
O Rajastão tem em sua gente o vestir mais colorido, na humildade o caráter mais digno, nas favelas a feiura mais bela, nos animais a melhor saúde, nas crianças a alegria mais natural. E ainda que pareça contradição, é justamente esse conjunto de estereótipos que torna a Índia tão vibrante, atraente e interessante. O colorido e energético Rajastão é a síntese mais que perfeita de todas as imensas riquezas e pobrezas, de todas as contradições e contrastes desse país fabuloso.
______ Vimos beleza em tudo, do povo à arquitetura ______
______ Vimos havelis encantadores, monumentos arrasadores ______
À primeira vista, são as cores que distinguem as cidades turísticas do Rajastão: Jaipur é a "Cidade Rosa", de um vermelho alaranjado esmaecido e onipresente nas fachadas. Jodhpur é a "Cidade Azul", murada e labiríntica, cujo monocromatismo é o mais curioso e elegante entre todas elas. Jaisalmer é a "Cidade Dourada", cujos tons do arenito proporcionam um efeito espetacular. Udaipur é a "Cidade Branca", onde a cor das casas caiadas, emolduradas por palácios e havelis proporciona uma imponência sem similar. Todavia, um tom predomina: é o vermelho, onipresente em todas as suas variações, tanto nas construções quanto nos monumentos, sedas, cerimônias de casamento, no sindoor (*), no pó vermelho do gulaal (**) usado no festival Holi (***).
NOTAS:
Sindoor (*): é um risco pó vermelho feito com o dedo e aplicado na testa, aproximando da região onde começa o cabelo. Também é usado como um ponto no mesmo lugar, representando, no hinduísmo, a marca de uma mulher casada. As mulheres solteiras usam o ponto em cores diferentes, que são chamados bindi, em hindi. As viúvas deixam de usá-lo, significando que seu marido não está mais vivo. A versão utilizada em rituais hindus - ou puja -, tanto em homens quanto em mulheres, é conhecido como kumkum, feito através da trituração da cúrcuma seca transformada em pó. Algumas gotas de limão adicionadas ao pó amarelo resultam numa reação que o transforma em vermelho brilhante. O kumkum é considerado auspicioso pelos índianos e por isso utilizado para fins diferentes e em ocasiões especiais, como casamentos e festas.
Gulaal (**): é o pó de diversas cores jogado nas pessoas durante ofestival Holi na Índia.
Holi (***): é uma festa religiosa celebrada pelos hindus e sikhs na primavera, ocorrendo principalmente na Índia, Nepal e Sri Lanka, mas também em países com grandes populações de indianos.
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Próximo capítulo:
Jaipur, primeiro destino



Reader Comments (3)
Jaipur é uma bela introdução ao Rajastão, uma cidade que tem amostras de tudo o que pode se encontrar na região: desde mercados agitados até os grandes palácios e fortes. Isso sem contar as mulheres com roupas tribais, tão diferentes das saris e salwar kameez mais cosmopolitas de Delhi. Não vejo a hora de rever Jaipur e Galta por aqui...
Estou fascinada com os textos e com as fotos. Índia deve ser uma experiência incrível. Fantástico!!!
Claudia
www.viajarpelomundo.com
Definitivamente apaixonada pela India....!