Cuba - Havana e Santiago

O Cortiço
MAIS do que toda história, cultura e hospitalidade, a verdadeira glória de Havana está na sua pobreza. A maior atração de Cuba é testemunhar as conseqüências da Revolução de 59, do comunismo e sua derrocada, do embargo comercial, do fim da União Soviética e os efeitos da falta de tudo. Paraíso para fotógrafos, Havana tem nas suas construções encapsuladas no tempo, sob os efeitos de meio século de erosão, corrosão e pobreza, resultados tão degradantes quanto fotogênicos. Nossa motivação foi explorar a arquitetura glamurosa e intocável e não os resorts da ilha e seu mar. Foi assim que Cuba se revelou para nós, exibiu toda sua dimensão, sua incrível música, sua gente encantadora, seu patrimônio histórico.
Tem de tudo na ilha. Se você gosta, Cuba pode ser apenas um destino de praias azuis como tantas outras caribenhas, com resorts berm razoáveis nas cidades de Varadero e Cayo Largo. Todavia, se procura pela herança comunista comece em Havana e visite Trinidad, Santiago e Cienfuegos. De todo modo, tudo começa em Havana.
Num cortiço de Havana convivem dignidade, pobreza e glória do passado
Fruto de uma clausura de 53 anos imposta pela revolução de Fidel, Cuba é o último, curioso exemplo de estado socialista ocidental no mundo. Foi a falta de tudo a responsável por trazer intacto ao século 21 todo seu patrimônio arquitetônico, tão grande quanto a própria cidade, ao menos aos olhos turísticos. O imponente conjunto de prédios de elevado valor estilístico, congelado no tempo, guardado nos limites de um muro político virtual, largado à própria sorte, é para além de um deleite fotográfico, um fabuloso patrimônio da humanidade. Tudo foi protegido e resguardado das marretas da modernidade, pela falta de desenvolvimento, de recursos, da impossibilidade de trocar o velho pelo novo e do desleixo. Desgastado o original, ainda vislumbra-se sua beleza extraordinária e arrebatadora.
Grande Teatro Nacional, Havana
Havana é surreal. As curiosidades e contradições são gigantescas, das mais românticas às mais penetrantes. Como por exemplo a onipresença de Ernest Hemingway e Che Guevara. O americano (cuja estátua de bronze do “Papa”, em tamanho natural ocupa seu lugar favorito no balcão do bar La Floridita, onde ele e um bar-man inventaram o famoso coquetel daiquiri) divide com o argentino Che Guevara, o libertador Jose Martí, e os revolucionários Camilo Cienfuegos e Fidel Castro a mesma importância e reverência. Ambos os bares - Bodeguita del Medio e El Floridita - mostram em seus letreiros de fachada que são casas preferidas por Hemingway, a primeira “mi mojito en la Bodeguita", e a segunda "mi daiquirí en El Floridita”.
Ou, então, que quase toda sua suntuosidade mantém-se virgem, inocente e em evidente decrepitude. Mas mesmo assim, suja, abandonada e desleixada, a cidade é gloriosa, uma rara oportunidade turística, cuja autenticidade, realidade social e econômica tocam na mesma proporção o coração, os olhos e a mente do visitante.
Saímos felizes de Cuba, orgulhosos por conhecer seu patrimônio, sua cultura e sua gente tão incrível. É possível que alguns mais sensíveis, a meu exemplo, saiam deprimidos de uma visita à nação, especialmente ao saberem que 85% do povo trabalham para o estado, recebem salário mensal de 20 dólares, uma cesta básica sem sabonete e pasta de dente e que vive em crise permanente há 53 anos. O regime populista, o socialismo de estado e o nacionalismo anti-imperialista estão profundamente arraigados na população, e levam o visitante à permanente convivência com as duas Cubas, contraditórias como só elas: a dos dólares turísticos e a dos pesos nacionais, a da dualidade econômica que sustenta um mercado miserável de lojas vazias de gente e de produtos, a de péssimos serviços de transportes, de hotelaria e de alimentação, a do mercado negro de diversos produtos secundários e de primeira necessidade, a de produtos roubados do estado, a de contrabando de objetos de luxo e de arte, entre tantas mostras de uma realidade que incomoda, mas da qual não se pode fugir.
Esplendorosa e fechada para o mundo, Havana vive hoje seu maior dilema: o que virá com o fim da Era Fidel e de sua Revolução? O que será desse brilhante museu ao vivo, cujas obras estão expostas ao ar livre e concentradas nos limites de Habana Vieja e Habana Centro? O que ocorrerá com as incríveis fachadas em estilos tão belos quanto diversos, cujos desenhos brilhantes vão do colonial ao art-deco, do modernismo ao eclético, do art-nouveau ao mourisco?
É uma questão inexorável de tempo. Como em Berlim, mais um “muro” cairá. Com ele uma enxurrada de novidades, de liberdade e de descobertas. Tudo poderá acontecer mas nada se pode afirmar. Aposta-se que no máximo em dez anos o país volte a ser aberto e torne-se de novo um quintal caribenho norte-americano. Seja lá como for, não escapará do dinheiro acumulado nos bolsos de exilados cubanos enriquecidos em Miami - um quinto da população do país - numa abundância que jamais se experimentou na ilha, nem mesmo na terrível era Batista. O fim da Era Fidel trará de volta os gusanos, “vermes” burgueses exilados na Flórida, e toda sua riqueza material acumulada em mais de 50 anos.
Cessará então o embargo americano e Cuba começará seu justo processo de enriquecimento e desenvolvimento. Todavia não se pode negar o risco de tornar-se mais um país sem personalidade, como tantos outros vizinhos caribenhos. Mas a alguns, ainda que perca autenticidade e exotismo, reconfortará saber dos ganhos positivos: liberdade e progresso. Assim que cair mais uma ditadura violenta e atrasada no mundo, um povo com liberdade e oportunidades surgirá. Mas é preciso visitar Cuba logo, para que se registrem em fotos, em textos e na posteridade da memória toda sua incrível autenticidade. Para os brasileiros, visitar Cuba significa viver uma assombrosa simpatia, admiração e hospitalidade, ainda mais encantadora quando nos dizem: “Amamos suas novelas, nós amamos suas novelas!”
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Turismo, a nova revolução cubana
Cuba tem um charme incomparável, especialmente se posta ao lado de todos os outros países caribenhos. São mais de 400 anos de domínio espanhol, de personalidade, de cultura e de legado arquitetônico, cujo povo tem costumes atraentes, tradições do açúcar, do tabaco, do rum, da música e da dança, e onde riquezas naturais litorâneas e de montanha enchem os olhos de quem visita a ilha. Entretanto, esteja certo, é a cultura da Revolução que torna a ilha uma jóia rara do Caribe, a preciosidade do mundo e um dos países mais genuínos das américas. Para todo o mundo, especialmente para nós brasileiros, deve tornar-se um destino dos mais populares, como tem sido para cerca de 3 milhões de turistas por ano.
Todavia, hoje dói verificar os efeitos da nova revolução: quase tudo é estatal e muito pouco do dinheiro turístico circula entre o povo. Muitos profissionais liberais deixaram seus ofícios como médicos, enfermeiros e professores para trabalharem no crescente setor turístico, a nova revolução cubana, sua única táboa de salvação. Mas o turismo é apenas mais um dos contrastes do país: promove uma economia desequilibrada e traz conseqüências inimagináveis. Minha impressão pessoal do país foi comparável a uma ligeira depressão.

Por enquanto, a “jóia rara do Caribe” ainda está parada no tempo, naquele bem diferente que roda no resto do mundo, exposto nos outdoors de McDonalds, Starbucks e shopping malls. Não há anúncios comerciais. Cartazes, só mesmo os revolucionários, ou estatais, alguns tão ingênuos e exóticos quanto defasados na ideologia e no tempo. Por isso Cuba precisa ser visitada enquanto permanece assim, autêntica e congelada, e antes que torne-se um destino bate-e-volta de Key West, antes que acabem-se os paladares - restaurantes privados dirigidos por famílias cubanas -, e “hospedagens familiares”, dois tímidos exemplos de empreendedorismo da “nova” Cuba de Raul Castro. É possível que a “nova revolução” elimine o desconfortável contraste entre nós - que vivemos tão bem - e eles, que vivem tão mal.
Camilo Cienfuegos e Che Guevara
Fomos a Cuba aproveitando o feriado de Natal e Reveillon, para comemorarmos meu aniversário e para conferirmos as novidades desta nova revolução cubana. Fomos para entender Cuba com uma visão pessoal, para nos divertir ouvindo rumba e son, guaracha e mambo, para dançar salsa, beber mojito e daiquiri, para fumar uns Cohibas (*) e passear por Havana e Santiago de Cuba. O tempo foi pouco para tanto o que há para ser visto, e ao fim deixou o desejo de voltar para conhecer a ilha de ponta a cabo: Trinidad, Topes de Collantes, Cienfuegos, Santa Clara, Pinar del Rio, Gran Piedra, Vinales, Soroa, Baracoa, e, quem sabe, até mesmo Varadero e Cayo Largo. Talvez até antes de Cuba voltar a ser um parque temático norte-americano e de se instalar o primeiro McDonald's.
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(*) Um Cohiba custa R$ 100,00 a unidade no Brasil e R$ 10,00 em Havana, na Partagas!
Esta viagem foi a realização de um desejo antigo de três pessoas que estão felizes por terem ido, por voltarem ainda melhores, que viveram mais uma esplêndida experiência em viagens. Viajamos com emoção, o que tem sido comum entre nós, talvez pela maturidade, experiência e pela boa sorte na escolha dos destinos. Saímos intrigados, permanecemos encantados, voltamos fascinados. Faltam competência e tempo para expressar o privilégio de ter rompido o ano em Santiago de Cuba, de comemorar meu aniversário em Havana e de compartilhar esta viagem com minha doce Emília e sua dulcíssima mãe, Mariliana. Só me resta dizer: muitíssimo obrigado, Emília, Mariliana e Cuba!
Veja também o apaixonante relato e as boas fotos da Emília no seu blog A Turista Acidental, com o título "Simplesmente Havana".
Hasta luego!



Reader Comments (6)
Arnaldo, parabéns pela descrição de Cuba, é tudo o que eu gostaria de dizer e não saberia. Se já havia a vontade de voltar, lendo seu blog ainda fiquei com muito mais. Obrigada pelo carinho e atenção, foi um privilégio ter estado com você e minha querida filha neste lugar tão encantador e assim realizar um sonho de muitos anos. Obrigada e um beijo.
Olá,
adorei teu blog. Muito legal mesmo.
Cuba me fascinou. A qualidade humana do povo cubano. A fortaleza para suportar todos os problemas. A resistência contra a injustiça. Também resistência a condições climáticas mais adversas: poderosos furacões que tendem a destruir a ilha.
Mas eu não entendo um longo embargo, porque dói sempre para os mais fracos. Não merece sua população um "embargo" infinito....
Cuba linda. Cuba merecia a sua visita, Arnaldo
Carmen, só mesmo um comentário como este seu adia o último suspiro do Fatos & Fotos de Viagens em sua permanência no CTI!
Obrigado, grande abraço!
Arnaldo,
acabei de conhecer seu blog e estou encantada! Tanto detalhe e tanta riqueza de informação e beleza! Estou planejando uma viagem para Europa e suas dicas são de ouro!
Muito obrigada.
Abraços!!
Cheguei aqui indiretamente via Lucia Malla (que mandou pro blog da sua esposa) e fiquei encantada. Com Cuba e com toda a sua escrita. Tínhamos uma viagem agendada (e paga via Groupon, que devolveu o dinheiro e cortou nosso barato) para lá, e depois da zebra resolvemos ir pra Buenos Aires/Montevidéu... mas já me arrependi. Enfim, fica pra próxima. Obrigada por essa visão tão linda da Ilha.