CONHEÇA O AUTOR

          

         Depois de estabelecer-se na Internet, desde 1999, escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo (Editora Abril). Agora, está preparando o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando na literatura com um livro encantador que, segundo o autor, é o primeiro de uma série.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de uma conversa baseada na informalidade, o livro mistura traços de coloquialidade e informalidade com uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida.

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti 2013 na categoria Reportagens

Ronize Aline:

            "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária e crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista passou pelas redações das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

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Segunda-feira
Out172011

VENEZA, autenticidade garantida

Um Giro in Gondola, romantismo absoluto

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                        A personalidade de Veneza é tão própria que é impossível compará-la, mesmo remotamente, a qualquer outra cidade. Em que outra cidade não há ruas para veículos? Em qual outra as cartas são entregues de barco, o entulho é retirado de barco, a polícia patrulha, os bombeiros apagam incêndios, as ambulâncias levam doentes, as mudanças e os gêneros transportam-se de barco, e barcos são os ônibus e taxis? Não há avenidas, não há carros, não há placas nem sinais de trânsito, nem buzinas e marcas de pneus.

  

                         "Cidade Flutuante", a "Cidade dos Canais", "Cidade das Pontes", "Cidade das Máscaras" ou “Sereníssima”, é como a apelidam. Desgosto por clichês à parte, não posso negar que falte verdade a nenhum eles, ainda que tão óbvios. Há mesmo verdades absolutas e indiscutíveis sobre Veneza, entre elas, sua autenticidade. Custa-me recordar de outra com estilo tão incomparável e incopiável, algo que qualquer visitante parece perceber: não há outra cidade com igual personalidade, a despeito do turismo de massa e de um mundo tão globalizado, no qual Xangai rima com Dubai em todos os sentidos. Ter personalidade e autenticidade, convenhamos, hoje revela-se um importante diferencial.

  

                         Quatrocentas pontes unem os lados dos pequenos canais, juntam um emaranhado de ruas estreitas separadas por eles, algumas tão estreitas que duas pessoas mal passam juntas. Nelas surpreendiam-nos as vistas mais deliciosas de Veneza, por elas íamos aos lugares mais surpreendentes, como a preciosa Parrochia di S. Maria Gloriosa dei Frari, e a Chiesa di San Giacomo dall´Orio, cuja beleza do estilo românico e serenidade do interior emocionam. Por essas vias também se chega à Igreja de São Barnabé, onde em 1989 Harrison Ford procurou o Santo Graal em "Indiana Jones e a Última Cruzada" e onde Katherine Hepburn caiu no canal no filme Summertime.

 

                        Nas calles estreitas ouvem-se apenas vozes, a própria respiração e o clop-clop dos saltos no calçamento. A Veneza dos Canais é um surpreendente arquipélago de 117 ilhas divididas por 150 canais unidas por 400 pontes. Ponto final do eixo Constantinopla-Veneza, tanto foi influenciada pelas ‘bizantinices’ de Istambul que não seria tolice supor que suas fachadas estariam bem em qualquer lugar no Oriente.

  

                        A cidade convida a pular cedo da cama para conhecer uma tranquilidade que a Serenissima só exibe mesmo antes das oito da manhã (ou depois das oito da noite). Em nenhuma outra também persiste o desejo de dormir cedo, porque à noite na cidade vira um deserto assustador. E se existe um lugar em Veneza possível de ser conhecido apenas de manhã bem cedo, este é o Mercado de Rialto, “atração” para madrugadores, hora em que os locais vão às compras do peixe do dia, antes que nós, turistas infames, tenhamos invadido suas ruas.

  

                       As primeiras badaladas dos sinos acordam os moradores, parecem não ter efeito de despertar os invasores. É assim o começo de mais um dia em Veneza: garçons arrumam mesas e cadeiras, barcos descarregam suas mercadorias, fiéis atendem aos chamados para as missas, moradores carregam suas sacolas com as compras do cardápio do dia e senhores fumam enquanto lêem as manchetes do dia, ou tomam o solzinho da manhã.

   

                              Nenhum outro lugar na cidade é tão movimentado de manhã cedo quanto o Mercado do Peixe, ou Pescheria em italiano, ou Pescaria em "veneziano", construído em 1907 por Domenico Rupolo e Laurenti Cesare. Para nós turistas, o mercato é um dos lugares mais surpreendentes de Veneza, à qual vem abastecendo há mil anos.

                             Um passeio pela seção de Erberia - de frutas e verduras - e pela Pescheria, de frutos do mar - resulta no conhecimento da mais incrível mostra de produtos excepcionais, tanto na qualidade quanto na aparência e exotismo. É uma das atrações mais necessárias e inusitadas da cidade.

    

                             Não por acaso certa vez encontrei ali o restauranteur Rogério Fasano acompanhado de sua trupe de gerentes dos restaurantes de sua rede. Realizava um circuito turístico-gastronômico-profissional pela Itália, demonstrando-lhes a qualidade e a originalidade dos produtos e por certo apresentava-lhes alguns desconhecidos, fazendo-os imaginar como ficariam em seus próprios cardápios. O setor de frutos do mar do mercado é especialmente incrível: uma esquisita variedade de peixes, de crustáceos e moluscos que equivale quase a uma visita a algum museu de história natural marinha.

 

                             Por ali o Caffè del Doge (Calle del Cinque, 609) serve um bom café-da-manhã, ali pertinho. Recomendado pelo Time Out, o guia afirma que nele pode-se desfrutar o mais rico, cremoso, delicioso capuccino de Veneza. Feito com uma variedade de cafés de origem única, disponível também para comprar em grãos, vai muito bem com os doces, que por sua vez também podem ser acompanhados do fabuloso expresso feito das seleções mais especiais de cafés que se possam provar, como se já não bastasse estarmos na Itália, onde tem-se o melhor expresso do mundo (ainda que eles não produzam um só grão da arábica).

 

                         Además, o Mercado de Rialto está localizado no Sestiere de San Polo, por si só uma atração a explorar a pé, o bairro onde encontram-se os mais antigos e importantes edifícios no estilo bizantino-veneziano da cidade. 

  

                         A área de Rialto é uma das mais antigas de Veneza. Depois de sua famosa ponte, seu mais popular destaque é o mercado, mas também explorar caminhando pelo bairro, tendo uma visão tão peculiar de suas ruas estreitas por trás do mercado. Começar por Rialto, o bairro mais sofisticado e elegante de Veneza, ainda que dos menos visitados, é matar dois coelhos italianos com uma cajadada só: Mercato e Rialto, com destaque para a Ponte. Dali seguimos para a zona mais imponente da cidade, a área que vai da Ponte de Rialto até a Praça de São Marcos.

  

                         A Ponte de Rialto é uma das primeiras grandes feitas em pedra em Veneza, projetada em 1524, em forma de arco único com 28 metros de extensão a 7,5 metros de altura no seu centro sobre o Grande Canal, começou a ser construída apenas em 1588, concluída quatro anos depois.

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Multidões são Veneza. Veneza é multidão.

                        Os números demonstram que para cada veneziano há duzentos turistas, quase todos tentando conciliar seus sonhos com os preços extorsivos e as bancas dos souvenirs de pior gosto que se podem ver, de máscaras venezianas pra lá de mal feitas e bugigangas de vidro de Murano a jóias antigas falsas e camisas de Michelangelo. Veneza já não controla mais a indústria do turismo tanto quanto não o faz com o mar que a afunda.

                       

                     Mas na hora em que o turista acometer-se da desagradável sensação, sugiro dirigir-se ao Peggy Guggenheim Museum, um oásis de tranquilidade e bom gosto, que além da impresisonante (mesmo!) coleção de arte moderna, abriga um agradável café, um jardim delicioso com esculturas fabulosas e a história interessantíssima de Peggy Guggenheim. Se o visitante tem prazer em conhecer trabalhos de Pablo Picasso, Georges Braque, Fernand Léger, Vasili Kandinsky, Paul Klee, Marc Chagall, Kurt Schwitters, Max Ernst (com quem Peggy casou-se nos anos 40) e Jackson Pollock (a quem Peggy ajudou na primeira exposição), para além de um deleite, um prazer visitar o palácio com vistas para o Grande Canal.

  

                       Toda viagem requer planejamento. Quanto maiores as informações obtidas antes dela, melhores resultados obteremos. No caso de Veneza - sobretudo para que não haja mais decepções do que as que naturalmente afetam o visitante, defendo que ele deva ser ainda mais efetivo, não apenas do ponto-de-vista turístico, mas do preparo para a multidão que também estará desfrutando a cidade, precavendo-se de seus efeitos e contratempos. Em Veneza não há espaços vazios senão muito cedo ou nos campi mais distantes.

  

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É possível encontrar jóias escondidas em Veneza

                        Multidões não são um problema recente: a cidade já teve duas vezes mais habitantes numa época em que não havia os vaporetti, ainda que com muitíssimo menos turistas. Dependendo da época do ano, é como entrar numa lata de sardinhas ao sair da estação Santa Lucia e ingressar num vaporeto, algo ainda mais difícil se estiver carregando malas. Veneza e malas não combinam. O planejamento, aqui, é mais que necessário, seja para a racionalização da bagagem, seja para o encontro de um local para hospedagem, o que pode facilitar e baratear soberbamente os deslocamentos.

 

                         A cidade é labiríntica, quase impossível de ser sinalizada, o que acarreta alguma dificuldade de locomoção. Todavia, perder-se em suas estreitas ruas é um agradável exercício, algo relativamente comum na cidade. E tudo funciona como em qualquer outra cidade excessivamente turística: há ótimos e péssimos restaurantes, há preços tão honestos quanto inflacionados, há serviços tão excelentes quanto pobres, há gente tão inescrupulosa quanto honesta, há comida fantástica e medíocre, há moradores simpáticos e não.

    

                         Um viajante que encontra Veneza pela primeira vez não poderá deixar de ir à Piazza San Marco, mas lá deve preparar-se para disputá-la com os outros 50 mil indivíduos que tiveram a mesma idéia à mesma hora, e para o dobro da quantidade de pombos que ali despejam solenemente suas necessidades nas janelas ao redor da praça e nos ombros dos transeuntes. Todo mundo que vai a Veneza quer ver a Piazza San Marco, visitar a Basílica de São Marcos e o Palácio dos Doges, as três mais importantes atrações da cidade, que recebem as maiores multidões de turistas por ano, e para as quais não há como escapar das longas e demoradas filas de visitação.

 

                         Enfrentar filas para entrar na belíssima igreja é inevitável. A Basílica di San Marco, todavia, requer concentração especial para que o visitante a registre apenas na memória o que viu: fotografias e câmeras são proibidas no interior da fabulosa, bizantina igreja. Se fotografar tem tanta importância quanto conhecer, o visitante deve conformar-se apenas em ver, afinal este é um dos grandes exemplos de arquitetura bizantina no mundo. 

 

                         Colado à igreja, o Palácio dos Doges, sede da arquidiocese de Veneza desde 1807, não é tão imponente quanto a igreja vizinha, mas a recordação de passar pela Ponte dos Suspiros só é possível visitando-se o interior do palácio. Palácio Ducal, ou Palazzo Ducale, Palácio dos Doges como é conhecido por nós, é um dos símbolos e atrações máximas da cidade. Sua fachada em estilo gótico-veneziano surpreende mais do que seu lúgubre interior. Ele domina um dos lados da Piazza de San Marco, a Piazzeta. Construído em 1309, seus arquitetos criaram a Porta della Carta, em estilo gótico tardio, ao lado do palácio, junto à basílica, por onde começa uma visita ao interior. Antiga sede dos Doges de Veneza e da magistratura veneziana hoje abriga o acervo do Museo Civico di Palazzo Ducale.

 

                          Ao sair, se ainda tiver resistência para mais uma fila, entre na que conduz ao topo do Campanile di San Marco, defronte à entrada da basílica. Suba - de escada ou elevador - ao topo do campanário, um dos raros colocados distante do corpo da igreja, entretanto algo comum em Veneza. Dali se tem uma vista inigualável.

  

                          Alguns dizem que subir ao campanário é mais uma armadilha para turistas, mas creio que isso se deva exclusivamente pela extensa fila dos que prentendem fazê-lo. No campanário há uma estátua do Anjo Grabriel e numa das faces um cubo onde figuram os leões - símbolo do evangelista São Marcos - e uma representação feminina, La Giustizia. Se você também tem aversão a filas, saiba que a vista do topo dos 50 metros de altura compensa. Em agosto funciona de 9 da manhã às 9 da noite. 

 

                          Terminou de visitar as três principais atrações? Circule pela piazza cuidando (ou não!) para não chutar um dos pombos que infestam o chão da praça ou ser carimbado por um dos que voam sobre ela. Felizmente os dirigentes da cidade parecem ter acordado para o mal e proibiram que se alimentem os pombos. 

  

                           Caso queira curtir uma atração mais comercial que qualquer outra coisa, tome um expresso num dos dois cafés da praça - o Florian ou o Quadri - (mas não se decepcione se também os achar acanhados e decadentes). Prepare-se para pagar 12 Euros por um cappuccino e mais 8 pelo couvert artístico da orquestra que toca música internacional, mas não reclame, você está em Veneza e, afinal, preparou-se para ela.

  

                          Depois, vale a pena aprofundar-se na Serenissima, tanto mais serena quanto mais distante de sua maior atração, a Piazza e a Piazzeta di San Marco. Aí haverá inúmeras possibilidades de encontrar originalidade e vida real nas praças e vias distantes de San Marco, num dos seis siesteres (bairros) de Veneza: San Marco, Dorsoduro, Castello, Cannaregio, San Polo e Santa Croce.

    

                          Há muitas pequenas praças - chamadas "campo" - que remetem ao passado de Veneza, onde ainda se podem ver as bocas dos poços onde o bairro era abastecido de água, aquela captada da chuva e canalizada para cisternas subterrâneas.  

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A Veneza cotidiana, quase desconhecida dos turistas

                          A maneira comum de se chegar a algum lugar por meio de um mapa não lá muito útil na cidade, onde é mais corriqueiro focar-se no destino e no senso de direção do que no mapa propriamente dito, mas é isso que acaba possibilitando descobrir a Veneza que alguns chamam de “verdadeira”, classificação da qual discordo, como se a outra não o fosse. Entretanto, sair do ‘batido’ e excessivamente turístico é mais fácil do que parece. Para além da área que vai de Rialto à Praça de São Marcos, há uma Veneza ‘atrás dos bastidores’ que deve e pode ser conhecida, onde cenas cotidianas estão nos campi acessíveis a pé desde San Marco ou Accademia.

 

                         Perder-se em Veneza é tão fácil quanto difícil reencontrar-se. A denominação dos logradouros é apenas uma das dificuldades, mas compreendê-los uma ajuda: Calle, Calletta, Via, Fondamenta, Riva, Laguna, Corte, Ruga, Sotoportego, Salizzada, Ramo, Rughetta, Rio, Corte, Cortile, Campo, Campielli, são os termos que designam os logradouros públicos de uma das cidades com o layout mais confuso e as denominações urbanas mais insondáveis do planeta. Ali um mapa é necessário, mas não vai salvá-lo de ao perder-se reencontrar o caminho para seu destino.

 

                         Antes é preciso decifrar o significado dos nomes, ter em mente que eles mudam a cada quarteirão e que podem até repetir-se mais adiante. Mapas não valem tanto mas servem mais do que perguntar a algum veneziano: a resposta será sempre “siga em frente”, óbvia, porque assim chegará ao destino. “Um bom mapa é quase tão útil quanto uma gôndola sem remo”, já disse alguém que infelizmente não me recordo neste fabuloso mundo da Internet. É divertido perder-se em Veneza.

  

                          Algumas vias internas entre os principais pontos turísticos da cidade - San Marco, Accademia, Rialto e Ferrovia - têm nas paredes dos cruzamentos umas placas amarelas apontando direções de um determinado lugar. Essas rotas “sinalizadas” ligam esses principais pontos turísticos, motivo porque estão sempre cheias de nós, turistas. Para ajudar um pouquinho a compreender o lay-out da cidade, visite o endereço abaixo e consulte o Google Map com os principais hotéis, restaurantes, paradas de Vaporettos, escritórios de Informação Turística, Estação de Trem e outras utilidades em Veneza:

 http://www.reidsitaly.com/destinations/veneto/venice/venice_map.html

 Mapa interativo de Veneza

http://maps.veniceconnected.it/it

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Veneza é mesmo romântica? 

                        Supostamente é a cidade mais romântica do mundo, mesmo que tal definição possa parecer mais um de seus um clichês.  E o que eu penso acerca de Veneza ser ou não romântica?  O primeiro a me ocorrer é que o romantismo está dentro de nós. E pode ser um estado de espírito momentâneo, uma característica pessoal ou um acontecimento ocasional. Na verdade não é preciso ser romântico para achar um lugar romântico, basta estar.  Se por um lado Veneza está entre as cidades turísticas mais desejadas do mundo, por outro figura também na lista das que mais decepcionam.

  

                        Assim como viajar é uma experiência absolutamente pessoal, que cada indivíduo vê e define um destino segundo seu próprio estado de espírito, sua personalidade, bagagem cultural, formação, gosto e conteúdo, também o romantismo está em cada um, em maior ou menor graus. Mas Veneza aparenta ser mesmo uma unanimidade, estimula o romantismo e parece não deixar indiferente quem a visita: vimos casais agarradinhos passeando de gôndola ou de mãos dadas namorando nas pontes e até tendo a cidade como cenário para fotos de casamento. Nós mesmos vivenciamos uma experiência inusitada ao passarmos de gôndola sob uma ponte e ao nos beijarmos sermos aplaudidos e fotografados entusiasticamente. 

   

                       É também o romantismo de cada um que definirá sua resistência aos “ratos voadores” da Praça de São Marcos,  felizmente hoje em número muitíssimo mais reduzido do que há anos, quando estive ali pela primeira vez: a prefeitura proibiu que sejam alimentados. O abandono de suas fachadas também me pareceram menos evidentes, mas suas armadilhas turísticas estavam mantidas.

   

                      Por vezes o romantismo de Veneza me parece mais um fetiche plástico do que originalidade. Talvez eu o veja assim porque a prefeitura de Veneza e as operadoras turísticas explorem com exagero o romantismo, de tal maneira que para alguns ela é tão romântica que apaixonam-se antes mesmo de conhecê-la. Sobram slogans obsessivos por defini-la como romântica: “A romântica Cidade de Água”, “Veneza, uma fuga romântica”, “Paraíso romântico na Terra”, “Veneza, uma romântica aventura”, ainda que a história, cultura, arte, arquitetura sejam infinitamente mais notáveis. No meu caso qualquer lugar do mundo em que eu esteja com minha doce Emília terá seu potencial romântico exponencialmente incrementado. Até Veneza.

 

                       Não posso, todavia, negar o clima romântico que a geografia e a arquitetura da cidade sugerem, e que tornam Veneza um cenário propício ao namoro, às declarações de amor legítimas e ao romantismo genuíno. Entretanto o tão propalado romantismo por vezes parece passar longe, mesmo para o mais romântico indivídio. Penso que ir a Veneza com sobre-expectativa é mais ou menos como ir ao Louvre para ver a Mona Lisa achando verá a obra de arte mais bonita do planeta. 

 

                       Casos de amor e amantes famosos estão intimamente ligados à história de Veneza: não se pode esquecer de Giacomo Casanova e Baffo Giorgio. Sob certos aspectos pode ser turística demais pra ser romântica, ao menos no nível apregoado. É romântica sim, mas até onde consegue resistir o romantismo de cada um. Todavia, com boa vontade, consegue-se resistir à falta de romantismo de toda a sorte de badulaques - de máscaras “artesanais” a gôndolas Made in China -, a tanta exploração, às multidões, à Aqua alta, às coisas boiando nos canais, aos preços exorbitantes e à oferta de “serviços” indesejados, viagens gratuitas a Murano encabeçando a lista das chatices. Há até um guia de viagens, The Romantic's Guide to Italy especificamente para os românticos, não apenas de Veneza, mas que descreve as acomodações mais românticas, os restaurantes e os locais para os casais enamorados e até como planejarem um casamento na cidade. 

 

                        Entretanto, nada me parece mais romântico do que o filme Pão e Tulipas, no qual - diferentemente do que mais ocorre na literatura, no cinema e algumas vezes na vida real, onde vai-se a Veneza para morrer - Rosalba, a personagem, decidiu contrariar o mito perpetrado por anônimos e grandes personalidades ao escolher a cidade italiana para voltar a viver. Rosalba (Licia Maglietta) é uma dona de casa de Pescara, Itália, que viaja em uma excursão de ônibus com a família. Em uma das paradas do ônibus é esquecida pelos demais. Sem dinheiro e sem bagagem pede carona, mas no caminho decide mudar de destino e ir à Veneza, a cidade de seus sonhos. Em Veneza, Rosalba tira férias da casa, dos filhos e do marido, arruma um emprego, faz amizades e encontra seu grande amor.

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Próximo capítulo:

Falando de Gôndolas e Fotografia

Reader Comments (12)

Na minha primeira vez em Veneza eu me lembro de ter gostado bastante de San Marco e suas atrações (especialmente a catedral). Mas as lembranças que mais voltam da memória, quase duas décadas depois, são as de caminhar nas ruas tranquilas e familiares em torno do nosso hotel, à beira do Grande Canal, em Canareggio.

Nesta vez eu admito que a praça não me encantou, nas diversas vezes em que passamos por ela a caminho de outros cantos. Não sei se os responsáveis foram os tapumes (incluindo um horroroso da L'Oreal sobre o Palácio Ducal), os pombos, as inúmeras bancas de souvenirs, a multidão tomando todos os espaços ou mais provavelmente tudo isso junto. Mas os lindos campi que vimos, por exemplo, no caminho de San Marco até a Fondamenta Nuove, compensaram a falta de tranquilidade para curtir a maior atração da cidade.

Um beijo...

11:42 | Unregistered CommenterEmília

Caro Arnaldo,

Permita-me um comentário:

Gosto muito do seu olhar sobre os lugares, especialmente o olhar generoso, humano e inteligente de analisar as pessoas que ocupam as diferentes regiões, continentes, países, com suas diferentes culturas. Você consegue fazer com que o leitor valorize o próprio olhar - mais ou menos simples - sobre o que você escreve com tanta propriedade.

E de sobremesa, depois de deliciar o leitor com seus textos, posta imagens que revelam o ser que você é: cuidadoso, educado e acima de tudo, preocupado com a qualidade do que nos apresenta.

Muito obrigada!

Puxa, receber comentários desses, como da minha QUERIDA, doce mulher que enriquece ainda mais meu olhar e os demais sentidos em viagens (e também minha competente revisora ortográfica fantasma!), e de minha REVISORA oficial, dá até vontade (quase!) de não largar o blog!

12:18 | Unregistered CommenterArnaldo

Oi Arnaldo, esta é a primeira vez que visito seu blog e gostei muito! Li seu texto sobre parar com o blog e mesmo com o curto contato que tive até aqui, já acho uma verdadeira pena.
Bjs e abraços,
Maria

15:48 | Unregistered CommenterMaria

Arnaldo,
Ainda nao conheco Veneza, mas sempre que vejo fotos, fico ainda mais curiosa para desbrava-la! Suas fotos esta lindas e cheias de mensagens, como sempre.
Eu continuo nas minhas viagens exoticas. Acabei de voltar do mianmar, antiga Birmania, e fiquei extasiada com a beleza daquele lugar! Um prato cheio para suas lentes!! Vc e Emilia certamente iriam adorar! Fica a dica - depois venha conferir as fotos no blog.
Um beijo ao casal!

Como é possível eu não ter descoberto este blog antes, só agora que ele vai acabar? É pena demais... pelo menos posso me consolar com o fato que tem muita coisa pra ler voltando atrás. Obrigada Arnaldo pelas belíssimas fotos!

Obrigado, Fê Costa. Nós também continuamos as nossas, e tendemos mais para o exotismo.

Iremos à Tailândia (Bangkok e Chiang Mai) e ao Cambodia (Siem Reap/Angkor Wat), Cuba (Havana e algumas cidades do interior), à Índia (Varanasi e Kajurao) e Nepal (Katmandu). São essas as nossas próximas viagens já definidas. Mas temos outras programadas em nossa lista de intenções, como o Delta do Okawango (Bostwana), Zanzibar (Tanzãnia), Ásia Central, entre outros.


Quanto ao Lightroom (acho que vc se refere ao programa de edição de fotos da Adobe Photoshop), eu não uso. Nada contra, apenas tenho preferência pelo ACDSee, um excelente programa de melhoria, correção e edição de fotos, mais leve e fácil, adequado aos nossos propoósitos. Assim mesmo nós os usamos apenas para correções e intervenções leves. Na câmera costumo usar um filtro polarizador circular em dias de sol (especialmente quando há nuvens). O pós processamento restringe-se a melhoria de contraste e brilho, clareamento ou escurecimento da luminosidade, crop e correção de perspectiva (fotos com distorções acentuiadas).

Agradecemos sua visita e os votos, desejamiks daqui muito sucesso em suas viagens, saúde, paz. Volte sempre.

Absurdamente lindas as fotos, eu as vejo e fico pensando no quadro que pintasse na cabeça ao concebelas.Lembro que tu começou a tentar transmitir teus conceitos fotográficos, e acredite eu e meio mundo estamos esperando a continuidade.
Um grande abraço do admirador
Jesus Pires

Fantasticas fotos de uma cidade maravilhosa, parabens!

Caro Arnaldo

Fui a Veneza no início deste mês. Confesso que me decepcionei. Fui sozinha, ouvi amigas dizer que ir a Veneza só era muito chato - e me perdi muito nos seus becos - coisa que adoro fazer ao conhecer um lugar. Qdo cheguei a Veneza fui a pé da estação de trem até ao hotel - claro que andei mais de uma hora.
Melhor que isso foi andar por suas ruelas sozinha de noite - até meia noite - sem levar um susto sequer. De vez em qdo cruzava com alguém, nos olhávamos e cada um seguia seu caminho. Inflzmente preciso tomar remédio para dormir no meu dia-a-dia de RJ, porém neste dia em Veneza dormi o sono dos justos sem um remedinho, nada, nada!! Q maravilha !!!!
Pois é, mas esperava muito mais de Veneza, achei-a meio decadente - um grande polo comercial - e ainda por cima peguei uma de suas enchentes que atrapalhou um bocado meus planos de passeio. Mas valeu, apesar da decepçao, e muito !!!

Abraços
M. Esther

Veneza é indiscritivel só vivendo ,porem vc me faz relembrar com saudades.Parabens por ter essa visão de `´lince `´.Saude e paz.

23:14 | Unregistered Commenterneusa m

muito belas imagens!

Vi um outro blog parecido com esse

http://lentesefotos.blogspot.com.br

Vale a pena dar uma olhada também, parabéns pelo conteúdo!

20:01 | Unregistered CommenterMenphis

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