CONHEÇA O AUTOR

 

         Depois de estabelecer-se na Internet - em 1999 - escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo, da Editora Abril e, agora, prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando, assim, na literatura de viagens com um livro encantador, segundo o autor, o primeiro de uma série de pelo menos quatro que já planeja produzir, dois deles em plena fase.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de apenas uma "conversa" com o leitor, baseada na informalidade, o livro mistura traços desta coloquialidade e informalidade com os de uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida. 

             Por bom tempo - antes de me decidir por publicar um livro - meu lado esquerdo do cérebro brigou com fúria contra o direito até certificar-se de que o leitor teria nos meus livro não os textos que escrevi no blog, porque, entre outros motivos, livro é coisa séria, e ninguém (ninguém de verdade!) merece ler posts de blogs reproduzidos em livros, especialmente textos efêmeros, perecíveis, descartáveis ou preocupados em agradarem "o mercado" e a blogosfera. Felizmente, ao que parece, posts continuarão restritos aos blogs e livros a serem livros. O tema da viagem parece ainda não ter-se banalizado na literatura universal, nem ter-se rendido às formas diversas da monetização.

           Minha ascensão na escrita de viagens com este trabalho literário não é exatamente uma novidade. Ainda que recentemente eu tenha notado a mente lampejar com a ideia: tornar-me um escritor de viagens. Todavia, ela sempre me rondou. Mesmo que a alguma distância. Não foram poucos os amigos, parentes e leitores do blog que há mais de dez anos recorrem à pergunta: “Por que não escrever um livro?”

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti na categoria Reportagens

Ronize Aline:

             "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária, crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

 


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Quinta-feira
Out182012

UZBEQUISTÃO - Por que não?

Uzbeques, o maior patrimônio do Uzbequistão, nossas melhores recordações do país 

                  SE é verdade que viagens tornam bons viajantes ainda melhores, também é que a ignorância os faz piores. Eu perguntara com espanto: “Uzbequistão?”. Minhas reservas não faziam o menor sentido. O problema estava comigo, naquela pergunta que diminuia a importância de um destino tão fabuloso, na tolice vergonhosa, no erro clássico da falta de saber que rimava Uzbequistão com desinformação. Eu mal sabia onde ficava aquele país maravilhoso, que turisticamente proporciona experiências emocionantes e recompensas brilhantes a todo bom viajante. 

   Vista aérea de Khiva

                 “Uzbequistão, por que não?” A resposta veio tempos depois, ao ponderar as sugestões sempre certeiras de minha doce Emília, pesquisando o passado tão antigo quanto glorioso daquele país, pondo fim à minha tola desinformação. Decidido nosso próximo destino, partimos para concretizar o antigo sonho de minha querida mulher: conhecer a Ásia Central. E então fizemos uma espetacular jornada ao coração do centro do mundo, um remoto mundo, uma incível encruzilhada de povos, de histórias, de lendas e culturas.

                  Uzbequistão sim!, porque ali a Rota da Seda obteve seu maior brilho, porque há numerosos exemplos da esplêndida arquitetura islâmica de origem persa cujas dimensões são tão monumentais quanto a qualidade a mais alta, e também em cuja ornamentação empregaram-se tanto talento quanto apenas os mestres poderiam.

A incrível ornamentação de inspiração persa das madrassas e mesquitas uzbeques 

                 Sim, Uzbequistão, porque um bom turista não pode morrer sem conhecer seus bazares agitados, os nômades do Deserto de Kyzylkum, o Vale do rio Oxus e as três cidades que abrigam a coleção mais homogênea e imponente da arquitetura islâmica no mundo: Khiva, Samarkanda e Bukhara. Congeladas no tempo, imunes ao seus efeitos, profundamente atmosféricas, são verdadeiros cenários das Mil e Uma Noites, berço apropriado para os mais imaginativos sonhos e fantasias de contos de fadas islâmicos, especialmente quando embaladas por alguma melodia nacional uzbeque. A ornamentação cerâmica em tons de azul-celeste contrasta brilhantemente com os ocres dos tijolos da cor do deserto. São brilhantes os tesouros históricos das cidades uzbeques, patrimônios quase desconhecidos dos brasileiros esperando para serem compartilhados. 

 

O pôr-do-Sol sobre as incríveis muralhas da Cidadela de Khiva 

                  Se é maravilhoso conhecer lugares que poucos visitam, ir a cidades das mais antigas do mundo, viver o incomum e aventuras incríveis, se aqui o trio turístico “história-cultura-natureza” é recompensado na plenitude, além de tudo ainda é possível viver experiências marcantes com seu povo. Com a exceção óbvia do Cambodia - mas cada qual à sua maneira -, o Uzbequistão foi o lugar onde tive a melhor impressão de um povo. E como se esse precioso suvenir de viagem não bastasse, as vozes da história contam culturas tão complexas e heterogêneas que apenas influências budista, cristã, muçulmana e do zoroastrismo poderiam criar num só lugar e na história da humanidade. Ainda que eu tentasse, por falta de habilidade não conseguiria descrever o sabor dos Deuses das frutas, as melhores que já comi na vida, e também não o encantamento de conhecer a arte da manufatura dos fabulosos tapetes de Bukhara.

 

  Um conto de fadas islâmico: o Bazar Taki Sarrafon, em Bukhara

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Ásia Central - Chegamos ao meio do mundo

                 EU deixara para ler os capítulos do Uzbequistão e da Rota da Seda do livro “Nas fronteiras do islã (*1) durante o vôo de Istambul a Tashkent.  Eram quase duas horas da manhã e o comandante anunciava a descida para Taskent.

  

                 História é o que não falta ao Uzbequistão, mas foram as fantasias que alimentaram minha mente, inspirando criações extravagantes e exóticas, fazendo correr soltas as imagens de caravanas, de camelos, de mercadores cruzando desertos, de caravançarais, de oásis, tapetes orientais e cidades incríveis. Mergulhei no livro e mal percebi que estávamos para pousar.

 

Uma yurta no deserto 

                  A Ásia Central, um mundo pouco explorado, é um universo exótico, de lendas e de fantasias, mas também de uma história por vezes cruel. É quando ela relata as conquistas sanguinárias do mongol Gengis Khan e do turco Tamerlão, que  deixaram cada qual seus rastros de destruição, de medo e dor. Pilharam e exterminaram populações inteiras, tudo para deixar claros seus poderes e força, não por resistência. (*2). Na história recente foram os soviéticos, não tão sanguinários, mas igualmente cruéis. Preferi ficar com o lado romântico dela, aquele que relata os feitos de bravos aventureiros da Rota da Seda, de gente que serviu aos atos mais pacíficos em gigantescas empreitadas de comércio, deram curso às caravanas de 300 camelos, mas sem saber, além do comércio promoviam a mais incrível troca de valores culturais e espirituais entre a Europa e o Oriente que se tem notícia.

  

 Detalhes arquitetônicos do complexo Imam Khazrati, Tashkent

                  Lembrei-me do quanto estávamos distantes de casa, geográfica e culturalmente. Prestes a entrarmos numa região do meio do mundo, que durante séculos não passou de um espaço em branco no mapa. Esperávamos viver ali as aventuras reais e experiências incríveis que tanto sonháramos, conhecer culturas e povos de etinias tão singulares quanto as dos uzbeques, dos cazaques, cazares, quirguizes, uigures e também tadjiques e russos, as duas minorias não-turcomanas. O anúncio do piloto adicionava ainda mais ansiedade ao nosso já enorme desejo de conhecer Samarkanda, Bukhara e Khiva, as três grandes e mais prodigiosas cidades da Rota da Seda no Uzbequistão, meio caminho, ponto de encontro entre a Europa e o Oriente. E também a beleza natural do Quirguistão, a soviética e verde Capital Bishkek, seus parques naturais, as montanhas Ala-Archa, o Lago Issuk Kul, os Montes Alatau e a cidade de Karakol, onde fizemos maravilhosas incursões às suas paisagens alpinas e caminhadas incríveis a quase 4 mil metros de altitude.

  

  Altyn Arashan. Paisagem alpina no Quirguistão

                 Uzbequistão e Quirguistão são países vizinhos, mas muito distintos. Duas nações que há apenas vinte anos conquistaram  independência, pondo fim a 70 anos de dominação soviética. O período foi sombrio, paralelo, escondido do resto do mundo atrás da Cortina de Ferro. Entretanto, a despeito de todas as tentativas, os comunistas não conseguiram exterminar seus costumes, senão mantê-los vivos, mas guardados, até conquistarem novamente a liberdade. Ainda pouco conhecidos dos estrangeiros, ambos países despontam como os melhores destinos turísticos de grande potencial na Ásia Central, e novamente começam a atrair ocidentais como um imã, sobretudo franceses, alemães e italianos. Em toda nossa viagem de 14 dias pela Ásia Central, encontramos apenas um casal de brasileiros, porque ainda são destinos para viajantes experientes, sobretudo com espírito para aventuras, sem frescuras, que sujeitam-se bem à simplicidade nas hospedagens, à precariedade dos (raros) banheiros públicos, aos inevitáveis problemas intestinais, à dificuldade na obtenção de vistos, à necessidade de andar com grandes somas porque tudo é pago em dinheiro (não há cartões de crédito), de viajar com autonomia, à comida gordurosa cujo preparo nem sempre segue condições sanitárias aceitáveis e, finalmente, mas não menos importante, às dificuldades de comunicação: o russo permanece a lingua-franca, a escríta é cirílica e apenas profissionais do turismo falam inglês. Mas como tudo tem seu lado bom, o turismo de massa - essa tragédia - ainda não descobriu a Ásia Central. Por isso, leitor,  Khush kelibsiz! (seja bem-vindo!) a Tashkent, primeiro capítulo desta nossa incrível viagem.

  

Tashkent. Meio nova, pouco antiga

                 Este é o tipo de viagem ativa, devido às substanciais distâncias percorridas, às extensas caminhadas e a algum rigor nas temperaturas. Os viajantes devem ter boa disposição e flexibilidade, um certo preparo físico e capacidade para aceitar as normas locais e a qualidade dos serviços. Na verdade, trata-se de uma viagem cujo estilo é mais para “expedição”, “aventura” e conhecimento.

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Tashkent - Meio moderna, pouco antiga

                  TERMINADO o desorganizado, lento e burocrático processo de entrada no país, saímos do aeroporto às três da manhã.  O meio do Outono, estação que na Ásia Central é plena, anuncia a chegada de um rigoroso Inverno mas retém lembranças do intenso Verão. As folhas tornam-se amarelas. Logo cairão, mas antes encherão os olhos de uma beleza exclusiva outonal.  As temperaturas começam a esfriar, mas ainda são agradáveis: máximas ao redor dos 27, rondando os 30, míninas aproximando-se dos 5 graus, podendo chegar a valores negativos. O Sol nasce às 6 e meia e se põe às 6 e meia. O Outono marca o fim da alta estação turística, e tudo fica mais vazio e aprazível, ideal para apreciarmos o trio turístico cultura, história e natureza.

  

Monumento soviético aos mortos do terremoto de 1966 

                  Nossa direção, o Le Grand Plaza Hotel. Não estávamos cansados nem sentindo os efeitos do jet-lag: as oito horas de diferença entre o Brasil e o Uzbequistão foram resolvidas com uma noite em Istambul, tornaram tranquila à adaptação às duas horas a mais em relação à Turquia.  Da minha lista de expectativas curiosas, uma das primeiras era com o câmbio: um dólar americano equivale a quase dois mil e quatrocentos Sum, ou UZS, no câmbio paralelo e mil e oitocentos no oficial. Trocar US$ 100 significa sair com 200 notas de mil do dinheiros local. Mas às três da manhã o acanhado aeroporto de Tashkent não tem caixa aberto pra fazer câmbio. Encontramos nosso receptivo lá fora no estacionamento do aeroporto, já pensando que ele não viera nos buscar. Só depois soubemos que eles não podem entrar no saguão de desembrarque.

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Estamos nos anos 70 e nos 80. Só por vezes nos sentimos nos 2000

                 AO entrarmos no Metrô, estaremos viajando no tempo, dos anos 70. No rádio ouvimos músicas dos anos 80. Nas avenidas mais novas por vezes podemos até nos recordar que estamos no presente, mas por vezes somos transportados aos anos 60, de uma URSS que já não existe mais, todavia tendo deixado fortes marcas. Como ex-capital soviética, Tashkent tem nos principais traços de sua personalidade algo comum a todas as demais capitais ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central: Ladas antigos e prédios de arquitetura soviética. E se procurar por Lenin, o encontrará. Em estátuas e nomes de ruas.

 

Carros antigos, fabricados na antiga URSS, ainda circulam e valem dinheiro 

                  Muito mais soviética do que nos faz supor sua antiga importância na Rota da Seda, Tashkent moderniza-se e tenta melhorar a sua infra-estrutura para atrair turistas. Mas eles ainda não chegaram como esperam as autoridades. E há muito que contribui para afastá-los. No caminho para o hotel passamos por ruas largas e monumentais, extremamente desertas nessa hora da madrugada. Parecíamos ter chegado à Rússia, tal a quantidade de reminiscências soviéticas, de carros e edifícios à escrita em caracteres cirílicos, assim como à sinalização de trânsito. Nosso hotel é um quatro estrelas bem menor do que sugere seu pomposo nome, equivaleria a três no Brasil. Ao entrarmos no apartamento, nos deparamos  com um estilo soviético pesadão e chocante: cortinas de seda vermelha, brocados dourados, móveis escuros. Algumas redes hoteleiras estrangeiras pularam fora do Uzbequistão em 2005 depois do incidente de Andijon, quando então os hotéis passaram a ser operados pelo Estado. O padrão de serviços declinou severamente. Nossa estada no Le Grand Plaza Hotel foi lamentável, especialmente pelo barulho dos hóspedes vizinhos. Mas tudo o que desejávamos era um banho e dormirmos. Cansados, queríamos estar em forma para descobrir o melhor de Tashkent na manhã que começava.

     

Russo e usbeque                                                 

                  A Capital do Uzbequistão atual é relativamente moderna e, digamos, também tem atratividade relativa. Não se deve esperar antiguidade histórica, apenas encará-la como introdução ao mundo exótico que é Ásia Central, e aqui na Capital especialmente expresso nos Ladas antigos e na arquitetura funcional soviética. Tashkent é uma cidade de grandes avenidas, praças e árvores, mas antes dos soviéticos tinha grande beleza, lembrava algumas européias, todavia mantinha forte identidade oriental. Imaginem que havia caravanas trafegando pelas ruas, cafés, hotéis, lojas e, sobretudo, liberdade. Após a dominação, tudo o que fosse contrário aos dogmas comunistas foi fechado, impedido e abandonado.

 

Arquitetura soviética: funcional, feia e pesada, ainda que com pitadas orientais 

                 Como desgraça pouca é bobagem, um terremoto arrasador transformou a cidade inteira em escombros. Em entulho, por onde os tanques bolcheviques trafegavam por cima. Foi a oportunidade para que urbanistas soviéticos dessem à cidade sua face atual: gosto duvidoso, arquitetura pobre e funcional, aestética, grandiosa e exagerada. A personalidade passou a ser a do concreto sem desenho. Mas há algo de bom que os soviéticos deixaram: o metrô. Curiosíssimo, bonito e antigo, para nós tornou-se uma de suas mais interessantes atrações. O centro histórico é discreto, mas prepara a mente do visitante para o esplendor, o charme, a personalidade e a atmosfera de Samarkand, a beleza de Bukhara e o magnífico centro histórico de Khiva, as três grandes cidades de contos de fadas islâmicos que visitaríamos nos próximos dias.

     

Museu de Artes Aplicadas - Tashkent

                 Tashkent é uma cidade eclética, movimentada, moderna, crescendo, talvez a mais importante da Ásia Central.  Ainda que um eixo político forte, hub de transportes, a cidade me lembrou Cuba, com todas as características próprias de um regime ainda relativamente fechado. Sobretudo é amigável, simpática e receptiva, segura, sobretudo com um povo extremamente educado e simpático. Na verdade, educado e simpático é pouco pra definir o povo uzbeque: eles são absolutamente adoráveis. Apesar de extremamente pobres,  estão sempre felizes e sorrindo, são profundamente agradáveis com os turistas, o que torna deliciosamente refrescante para o cérebro conviver com eles. Ao contrário de alguns países islâmicos, eles não são agressivos na tentativa de venderem algo aos turistas. E sobretudo estão sempre curiosos e sorridentes quando falamos com eles. Ficamos impressionados com a honestidade das pessoas e o grande interesse por nós.

  

 O complexo Imam Khazrati, Tashkent

                  A principal atração é o complexo Imam Khazrati,  integrado pelo Mausoléu do Sheik Abu-Bakr Muhammed Kaffal Shashi, pela Madrassa Barak Khan e pela Mesquita de Khast Imam, do final do século XVI, onde encontram-se fragmentos do Uthman Qur'an, o mais antigo Corão do mundo, que pertenceu ao terceiro califa Otman, que viveu entre 644 e 656.  Há também o Mausuléu de Kaffal Chachi, uma construção de 1541, a Madrassa Koukeldash, de finais do século XVI, o Palácio do Príncipe Romanov, já do século XIX e da era russa, construído pelo Grão-Duque Nikolai Konstantinovich, neto do Tsar Alexandre III, e seu Museu de Belas Artes do Uzbequistão. Fora da cidade é possível fazer caminhadas, rafting no verão e esqui no inverno nas montanhas do Parque Nacional de Ugam-Chatkal Tyan-Shan.

  

  Detalhes arquitetônicos do complexo Imam Khazrati, Tashkent

                 Andamos também pelas bancas do Bazar Chorsu, o mais famoso mercado público coberto da cidade. Um pouco desapontador, mas foi bom observar suas seções, a qualidade excepcional das verduras, legumes e frutas. Há um setor de seda pura produzida em Margilan, o centro de produção do tecido do Uzbequistão, situado no Vale de Fergana. As mulheres vestem-se em roupas de tons exageradamente coloridos. Os olhos são puxados, as sobrancelhas espessas, os sorrisos francos e de ouro, os cheiros deliciosos, o clima agradável. O pão nacional está por toda parte, chama-se non, lembram os pães sírios em forma circular, mas têm as bordas mais grossas. São decorados com desenhos marcados na própria massa, por vezes cobertos com sementes de papoulas e gergelim. Ao prová-lo os achei mais bonitos que gostosos.

  

 Bazar Chorsu

                 O que mais nos impressionou em Tashkent foram as pessoas. No bazar os vendedores sempre nos perguntavam de onde vínhamos, e então abriam sorrisos e ofereciam os produtos que vendem. Em certo momento um rapazinho nos ofereceu uma bolinha de yogurte com queijo para provarmos. Ao perceber nossa aprovação, deu-nos um saquinho com umas vinte unidades. Ofereci-lhe dinheiro e ele recusou. Insisti e ele recusou novamente. Apertei-lhe a mão em agradecimento, disse que era do Brasil, ele retribuiu com um sorriso, um firme aperto de mão e me agradeceu por estar ali!

  

Bazar Chorsu 

                 Como em qualquer país em que os preços são apenas uma referência. Entretanto não há a desgastante maneira de negociar como com os marroquinos e egípicios. Nota-se que algo em torno de 20 a 30% é a margem máxima de descontos. E tudo corre rapidamente. Se acidentalmente nós pagávamos a mais, o que era comum sempre que cada compra significava entregar milhares de SOM, o  excesso era sempre devolvido, como também era o troco.  Os táxis em geral não usam taxímetro e as corridas custam cerca de 3 dólares. As fisionomias são etnicamente um pouco indefinidas: têm algo de turco, de persa, de árabe, de mongóis com uma pitada de russo. Quando dizemos que somos do Brasil, espanto e sorriso acompanham o invariável “Brasil, futebol, Ronaldo...”  Ainda que eu deteste futebol, adoro como o Brasil abre portas!

Sorrisos de ouro, moda no Uzbequistão  

                  Dizem que o metrô mais incrível do mundo é o de Moscou. Não conheço, mas pelas fotos e depoimentos, acredito que seja. Mas, alguém que foi ao Metrô de Moscou e o descreveu, já esteve no de Tashkent?  Este metrô não foi apenas “inspirado” no de Moscou.  Eles são sistemas gêmeos, na operação e na mensagem institucional bolchevique. Viajar no metrô de Tashkent é uma experiência incrível que  infelizmente não se pode fotografar. É uma viagem rápida e no tempo, aos anos 70 e 80, por estações incríveis, ornamentadas cada uma diferentemente, mas todas em estilo soviético. Os trens são dos anos 70 como na linha 1 e dos 80 na linha 2

  

 Turistas uzbeques

                  A rua principal chama-se Amir Timur, um guerreiro e conquistador usbeque do século 14. É impressionantemente grande, larga e cheia de tráfego de carros e microônibus, de Ladas e outros soviéticos antigos. Depois de Tashkent, meus desejos agora eram encontrar bem mais mistérios e fantasias persas em Samarkanda, Bukhara e Khiva.

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Notas:

(*1) Nas fronteiras do islã, de Sérgio Tulio Caldas - Uma viagem reveladora por desertos, montanhas e entre povos muçulmanos. Série Viagens Radicais - Editora Record - http://livraria.folha.com.br/catalogo/1060201/nas-fronteiras-do-isla - ISBN: 85-0106-337-1 

(*2) Em 1220, Genghis Khan e sua hordas de mongóis invadiram na Ásia Central e conquistando toda a região e destruindo as principais cidades. Os mongóis, por sua vez, foram expulsos em 1363 por Tamerlão, conhecido como Timur, e construiu sua capital em Samarkanda e a adornou com obras de arte e arquitetura dos melhores artistas de todas as terras que ele conquistou. Um dos seus descendentes, Babur, conquistou a Índia e lá em 1526 fundou o Império Mogol. Depois da queda dos timúridas, a Ásia Central foi dividida em cidades-estado governadas por muçulmanos conhecidos como khans. O que é hoje o Uzbequistão, o mais poderoso foi o de Khiva e Bukhara. Os khans governaram Ásia Central por cerca de 400 anos, até um por um, caíram para os russos, entre 1850 e 1920.

Os russos ocuparam Tashkent em 1865 e governaram toda a Ásia Central, em 1920. Em toda a Ásia Central, o exército vermelho foi mantido ocupados sufocar levantes através de 1924. Em seguida, Stalin dividiu o Turquestão soviético e criaou as fronteiras da República Socialista Soviética Uzbeque e os outros “stans”. Na era soviética, as repúblicas da Ásia Central foram úteis para o cultivo de algodão e testes de dispositivos nucleares. Moscou investiu muito no seu desenvolvimento. O Uzbequistão declarou a sua independência da União Soviética em 31 de agosto de 1991. O premier soviético, Islam Karimov, tornou-se presidente do Usbequistão.

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O artesanato uzbeque

                 Quase todo viajante procura trazer algo como suvenir dos países visitados, uma lembrança feita pelas mãos de um artesão, mais tarde provocará as melhores memórias de sua viagem, assim como da cultura e da história do país. Neste particular, o Uzbequistão é um paraíso para os colecionadores de lembranças artesanais, e a dificuldade está em definir a escolha, pois a oferta é grande na variedade e na qualidade.

   

                    A cerâmica decorativa está entre os melhores exemplos da mais antiga tradição do artesanato nacional uzbeque. E para complicar, cada região do país tem sua própria escola de cerâmica tradicional. Na província de Khorezm, há os descendentes aprendizes do famoso R.Matchanov, mestre de Khiva, que fazem peças esmaltadas com predominância dos tons de turquesa.

  

                    Mas também não se consegue ficar indiferente aos bonecos de Samarkanda,umas estatuetas de personagens do folclórico Nasreddin e seu burro, um lendário muito amado pelos Uzbeques. Também há peças que representam os camelos das caravanas, figuras fantásticas, estatuetas de terracota encontradas por arqueólogos entre ruínas antigas,  finas cerâmicas para beber chá, tigelas e pratos com padronagens e cores que lembram a cauda de pavão.

   

O pão nacional 

                 Tanto homens quanto mulheres impressionam-se com as jóias, especialmente os tradicionais brincos kashgar-boldak, pendentes, pulseiras e anéis com pedras semipreciosas e filigranas. Também as peças gravadas sobre metais, na forma de pratos, jarros e bandejas de cobre e latão, onde há imagens dos monumentos arquitetônicos de Bukhara e padrões decorativos. Também de ótimo nível artístico são as esculturas de madeira e as caixas com intrincados padrões e as gravuras pintadas a mão e as suzanes, bordados feitos a mão.

  

                  Suzane: artesanato para adorno e proteção.  Em dias festivos os bordados decorativos são usados na decoração de uma residência. Para nós, são ótimos para serem usados como colcha, almofadas e decoração de paredes. Estas verdadeiras obras-primas da arte popular acompanham a vida dos uzbeques a infância à terceira idade. Esses bordados também são usados como dote quando então são um conjunto necessário ao início da vida de um jovem casal.

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 A seguir: Khiva - Um conto de fadas árabe a 1000 quilômetros da Capital 

Reader Comments (14)

Amigo Arnaldo, que texto, que fotos! Parabéns. Um forte abraço, Bruno

Quando se volta de viagem, parece que está tudo tão fresco e ao mesmo tempo tão longe, com as saudades da viagem recém-terminada. Uma delícia rever o começo da nossa viagem e relembrar da ansiedade com que chegamos naquela madrugada em Tashkent. Que bom que decidimos colocar essa viagem em prática: foi uma daquelas viagens tão intensas e felizes que dão material para muitas lembranças e sonhos e escritas...Um beijo.

13:22 | Unregistered CommenterEmília

Emília, todos os seus leitores (e creio que parte dos meus) esperam ansiosos pelos SEUS posts no "A Turista Acidental". A julgar pelo que presencio, eles serão em breve.

Como sempre, seu texto e suas fotos são sempre... não consigo achar uma palavra que se adapte. Sem palavras!
SAudações,
Tati

6:51 | Unregistered CommenterTatiane

Parabens , sua descrição faz realmente aumentar minha vontade de conheçer esses lugares que voces irão, interessante é ver as suas fotos de mesquitas e complexos serem bem similares ao que vi no Irã ,voces fizeram o roteiro por conta propria ou ou por alguma agencia ou operador ?
Boa viagem.

11:35 | Unregistered Commenternelson.l

FAN-TÁS-TI-CO! Repito: FAN-TÁS-TI-CO! E não sei mais o que dizer. É isso. Obrigado por ter feito essa viagem, esse post e essas fotos. Maravilhoso. Melhor, só vivendo essa aventura ao vivo.

23:11 | Unregistered Commentergabebritto

Queridos, eu já estava enlouquecida com as fotos da Emília no Instagram. Agora, o Uzbequistão entrou de vez para a minha lista do "must see".
Que viagem! Que fotos! Que post!
;)

20:10 | Unregistered CommenterPaula*

Oh! que história mais autêntica do que é a Ásia Central, com issa mistura de culturas e tradições antigas. Eu realmente gostei de ler este post, porque tem atraído o interesse e curiosidade sobre o lugar.

Estou ansiosa para ler mais sobre este destino mágico.
Beleza de fotos (como sempre, Arnaldo)

12:29 | Unregistered CommenterCarmen

Olá,

Adoro as suas fotos! Estão fantasticas!
Parabéns pelo Blog e pelas fotos.

bjs

18:53 | Unregistered CommenterLou

Arnaldo, primeiramente parabéns pelo blog excepcional! Ainda não consegui terminar de ler essa matéria, pois vim direto aos comentários.Tenho uma vontade enorme de conhecer a Ásia Central, mas o difícil vai ser convencer a minha mulher de ir ou mesmo de deixar nossa filha de quase 2 anos.
Quantos dias são necessários para fazer esses 2 países? Vale a pena montar a viagem ou comprar pacote? Grande abraço e mais sucesso!

15:59 | Unregistered CommenterGustavo

GUSTAVO, obrigado pela visita e comentário. Na coluna ao lado vc poderá ver todas as matérias sobre o Uzbequistão e o Quirguistão. Nós fizemos em duias semanas, com mais um dia na ida e outro na volta em Istambul. Não são países tão fáceis, nas há algumas operadoras locais com as quais provavelmente vc poderia montar sua viagem. Nossa experiência foi com uma operadora brasileira. Sinta-se à vonatde para perguntar o que quiser. Mas ao estudar a Ásia Central, não deixe de analisar a possibilidade de ir à China muçulmana.

Obrigado, igualmente.

Parabens, adorei o blog. Cheguei aqui por acaso, procurando informações sobre o Uzbequistão. Estou indo para lá em Setembro. Ficarei 14 dias: Tashkent, Nukus, Khiva, Bukhara, Samarkand e Tashkent. Na volta, paro 4 noites em Istambul.
Irei sozinho. Terei o apoio de uma agência de Tashkent, que cuida do visto, do transporte interno, dos translados, das reservas de hotel e de alguns passeios nas cidades. A maior parte do tempo andarei sozinho pelas cidades, descobrindo atrações, mesquitas, mercados, ruas e becos.
Se alguém estiver interessado: a agência chama-se Advantour. É séria, está recomendada no guia ingles Bradt.
Abraços,
Airton

10:22 | Unregistered CommenterAirton

Primeiro muito obrigada pela materia Arnaldo, viajo para o Uzbequistão em breve. Devo chegar a Tashkent de madrugada também, por favor me diga o que foi necessario para comprar o visto. Pediram foto, aceitam pagamento em dolar?

19:30 | Unregistered CommenterAnna

Anna, nós resolvemos tudo através da operadora Highland Adventures. Dos vistos ao roteiro.

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