CONHEÇA O AUTOR

 

         Depois de estabelecer-se na Internet - em 1999 - escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo, da Editora Abril e, agora, prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando, assim, na literatura de viagens com um livro encantador, segundo o autor, o primeiro de uma série de pelo menos quatro que já planeja produzir, dois deles em plena fase.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de apenas uma "conversa" com o leitor, baseada na informalidade, o livro mistura traços desta coloquialidade e informalidade com os de uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida. 

              Minha ascensão na escrita de viagens com este trabalho literário não é exatamente uma novidade. Ainda que recentemente eu tenha notado a mente lampejar com a ideia: tornar-me um escritor de viagens. Todavia, ela sempre me rondou. Mesmo que a alguma distância. Não foram poucos os amigos, parentes e leitores do blog que há mais de dez anos recorrem à pergunta: “Por que não escrever um livro?”

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti na categoria Reportagens

Ronize Aline:

             "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária, crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

 


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Quinta-feira
Out252012

KHIVA, Uzbequistão - Um conto de fadas a mil quilômetros da Capital

                EU ainda não avistava a Cidadela de Khiva mas já sonhava com seus minaretes. O que eu enxergava pela janela do carro eram apenas as imagens de um deserto remoto e desolador. Passavam devagar, na velocidade que o precário piso da estrada permitia, mas nenhuma outra cena poderia ser mais emblemática e condizente com a aridez de um deserto do que as que eu avistava de Kizil-Kum e Karakum.

 

 Eu ainda não avistava a Cidadela de Khiva, mas sonhava com seus minaretes.

                 MESMO assim tudo me surpreendia, ainda que eu já tivesse estado em lugares mais remotos no planeta. Afinal, era nossa primeira incursão rodoviária pelo Uzbequistão, o pequeno trecho até a cidade de Khiva. A forte ansiedade de vencer rapidamente os 31 quilômetros que nos separavam da cidade não me impediam de refletir.  E eu imaginava que o cenário pouco mudara desde as caravanas de comércio da Rota da Seda. A bem da verdade não vi um só camelo dos 300 que compunham as antigas caravanas, mas fora isso, tudo o mais parecia rigorosamente igual e há séculos.

               JÁ não se transportam as sedas e pedras semi-preciosas, as especiarias e corantes, o ouro e a prata, aves e animais exóticos. O que mais encontramos naquela remota estrada foram reminiscências soviéticas: de velhos caminhões, tratores e Ladas russos a placas-monumento de concreto armado anunciando algum lugarejo que não se encontra no mapa. Nenhuma alma viva, sequer uma só mulher uzbeque com sua túnica de veludo brilhante, colorido e marrom.

    

 No deserto de Kizil-Kum até o Sol parece maior  

                  NÃO é do meu estilo tomar posições políticas em viagens, mas não consigo ficar indiferente. São muitos os maus restos da União Soviética ainda presentes. Alguns bastante lamentáveis, como o de um mundo decomposto, de rios e lagos assoreados. O importante Rio Amu Daria, por exemplo, atualmente feio e secando, ou o outrora enorme Mar de Aral, praticamente exterminado, hoje pouco mais que uma poça.  Tudo porque em 1960 os soviéticos decidiram multiplicar por quatro a área plantada de algodão no Uzbequistão. Com seu intento, o fizeram, mas às custas de secarem um mar inteiro, esvaziarem um imponente, caudaloso rio inteiros. Deixaram para trás uma das maiores tragédias ecológicas provocadas pelo homem.  Naquela hora nem queria me recordar da maior quantidade de pesticidas já despejada que se tem notícia. Era a vitória do comunismo sobre a natureza  

               MESMO assim tudo ainda me parecia extremamente exótico e incomum naquele desolador cenário. Seco, árido, quente e poeirento, mas incrivelmente atmosférico. Eu experimentava as melhores sensações de estar ali, sobretudo porque nos aproximávamos de uma cidade de sonhos. 

 

 A velocidade era reduzida na precária estrada a Khiva

                 CHEGÁVAMOS à remota Khiva, a primeira das cidades seculares que hoje sustentam o grande potencial turístico do Uzbequistão. Era nosso primeiro destino na lendária Rota da Seda. Mal eu conseguia conter a ansiedade, afinal estávamos para conhecer uma das mais raras cidades inteiramente preservadas de todo o mundo. E mesmo ainda não avistando suas muralhas, senão as longas extensões de terra cultivadas com milho e algodão, já podia sentir jorrarem da memória leituras e imagens que pesquisara sobre Khiva. O Sol já era inclemente na sua radiação àquela hora da manhã, mas felizmente os índices de raios UV e de calor eram bem mais seguros e confortáveis nesta época do ano. 

                 LOGO um subúrbio de casinhas simpáticas e ingênuas, aparentemente desabitadas, quase melancólicas, anunciava nossa chegada ao perímetro urbano de Khiva. Ali mesmo percebi pela primeira vez as sensações que passariam a nos acompanhar durante toda nossa estada na cidade. E imaginei que seriam as mesmas que experimenta quem faz uma viagem no tempo ou que sonha e devaneia nos contos das Mil e Uma Noites, de Ali Babá, de Sherazade e Aladim. 

  

 

                  EU mal podia imaginar o tamanho do prazer em fotografar aquela cidade, um dos cenários mais exóticos e cativantes do planeta. Brotavam as imagens que eu vira do complexo arquitetônico de Ichan-Kala, as incríveis obras islâmicas dos séculos XII ao XIX, como a Residência do último Khan, o Mausoléu Ismail Khodja, a Madrassa Amin Mohammed Khan, o Castelo-fortaleza Kunya-Ark, a Torre Kalta Minor, o Palácio Tash-Hovli, o Mausoléu Mahmud Pahlavan e a Mesquita Juma.

 

 Chegávamos à remota cidade de Khiva, nosso primeiro destino da Rota da Seda 

                 DE Tashkent a Kiva fomos de avião e carro. O primeiro trecho, de 963 km, até Urgench, vencemos num Airbus A-320 da Uzbekiston Havo Yullary (ou Uzbekistan Airways). Poderia ter sido num Ilyushin IL-114. Melhor pra nós termos voado num avião mais confiável. O vôo foi rápido, tranqüilo e eficiente. E não deixou de ser uma novidade curiosa e adicionar exotismo o fato de voarmos por aquela cia. aérea. E tudo correu perfeitamente bem.

Poderia ter sido num Ilyushin IL-114. Melhor pra nós. (foto Airlines Net)

                 DEPOIS do vôo apenas 31 km e 45 minutos por estrada nos separavam de Khiva. Mas a ansiedade tornava tudo bem mais longo e demorado. Ainda não eram dez horas da manhã. Viajávamos pela desolação do deserto quando a cidade começou a surgir discretamente, revelando-se ao longe no enorme, elegante e delgado Islam Khodja, um minarete que ergue-se a incríveis 45 metros, mas que  dali aparenta ser mais um farol do deserto do que uma torre islâmica.  

   Islam Khodja, o elegante minarete de incríveis 45 metros

                  COLADO à muralha da peculiar, notável e atmosférica cidade de Khiva, me diverti muito ao chegarmos ao simplíssimo Hotel Arqanchi, literalmente dentro da cidadela. Custei a crer que tivéssemos chegados mesmo a um hotel. Mais tarde, já em nossa habitação, de nossa janela olhávamos a monocromática muralha de barro, da mesma cor do deserto e de todas as suas casas.

Hotel Arqanchi, dentro da cidadela. Mais simples impossível, mas uma ótima estada

                 MAIS bem localizado impossível: tudo o que há para ver fica a curta distância a pé. As camas de solteiro, que unimos com a retirada do criado mudo entre elas, eram terríveis de dormir, suas molas espetavam nossas costelas. A água quente é controlada, apenas por uma hora de manhã e outra à noite. E quando havia, eram pouco mais que algumas gotas que desesperadas não queriam deixar o chuveiro. Não havia produtos de higiene pessoal, felizmente trouxemos os nossos. As toalhas eram limpas, mas as mais ásperas e menores que já experimentei. Tudo estava relativamente limpo, o quarto era claro e silencioso e o café da manhã espartano ganhou mem simplicidade de qualquer outro que já tenha experimentado na vida.

   

 Alvenarias de Khiva. Palha e terra, da cor do deserto

                 NA Recepção um atendioso, simpático, gentil e profissional funcionário nos dava dicas quando as pedíamos. A decoração era divertida, bem uzbeque, com bichos de pelúcia sobre o encosto dos dois sofás, entre eles um tigre e um cervo. Panos extremamente coloridos cobriam partes dos sofás. Fotos do presidente uzbeque e de paisagens turísticas do país completavam a ornamentação. Mas tudo era absolutamente agradável, simpático, tranquilo e sereno. Nossa estada naquele oásis de calma foi inesquecível. Nos preparamos para a viagem, a chave para aceitarmos tudo e tirarmos o melhor proveito dela.

 

 Khiva, da cor do deserto

                 ASSIM como as muralhas, todas as alvenarias da construções de Khiva empregam a terra do deserto junto à palha de milho. Tudo tem a mesma monocromática textura e aparência produzidas por aquela mistura, mas para longe de ser monótona, a cidade é incrivelmente atmosférica e encantadora. Assim que deixamos nossas malas e tomamos um rápido desjejum servido mesmo depois de encerrada a hora, saímos para explorar a pé aquele que parecia um fascinante mundo. Contido entre muralhas medievais, o conjunto de arquitetura monumental é de incrível beleza, nas formas e da ornamentação. O clima da cidade nos arrebatou assim que entramos por um de seus portões na cidadela de Ichan-Kala.

Ata Darwase, o Portão Oeste

              

                 ICHAN-Kala é um inigualável, particular, verdadeiro museu de edifícios ao ar livre. Estou certo de que ali encontramos alguns dos melhores exemplos de obras islâmicas da humanidade contido entre paredões. É difícil imaginar uma cidade medieval sem torres, muralhas e fossos, e nisso Ichan Kala não é exceção, cerca-se das paredes mais maciças que se podiam construir na Idade Média e neste lado do mundo.

   As muralhas de Khiva, paredes maciças, defesa e ícone da cidadela

                  CRUZAMOS o portão e experimentamos um notável espírito oriental, exótico e preservado. Ele nos acompanhou até o fim de nossa estada.  Turística, é verdade. E sob olhares mais críticos, tão finamente reconstituída que pode parecer um cenário. Mas é autêntica, ainda que pareça um parque temático de contos de fadas. Percorrem-se as ruas mais cênicas da Ásia Central, visita-se um patrimônio cultural e arquitetônico tão grande que mal cabe entre as graciosas muralhas, protegido, abrigado, espremido e isolado da modernidade.

   

  Dentro de Ichan Kala, as atmosféricas, tranquilas ruas parecem esperar por Aladim

                 PASSEAR por suas ruas às vezes vazias e entrar em suas madrassas sem alma viva com freqüência nos fazia sentir uma sensação curiosa, a de estarmos num lugar tão remoto, no desolado deserto da Ásia Central. Por longo tempo nos pegavamos surpresos por estarmos ali, distantes de qualquer modernidade explícita, rodeados dos padrões decorativos e ornamentais mais simétricos e bem concebidos que já presenciei no mundo islâmico, verdadeiro monumento do trabalho humano vencendo as dificuldades do deserto. Remota, preservada, a cidade medieval clássica é uma jóia, lendária não apenas na sua importância islâmica, mas também na história da humanidade. 

Observar o Pôr-do-Sol do Mirante da Muralha: um dos momentos mais encantadores


               FIGUROU no mapa apenas no século XVI, enquanto capital do Khanato de Khiva, cujo domínio se estendia do Mar Cáspio à Índia. Na época era mais famosa por seu mercado de escravos que pelo fervor religioso: Ichan-Kala serviu como posto comercial do maior mercado de escravos da Ásia Central. E cruel foi o passado para aquela gente: após uma longa e difícil viagem pelas estepes e deserto, os escravos eram encarcerados de maneira sub-humana até serem negociados.

   

Estátua de Muhammad ibn Musa al Khwarizmi, criador da álgebra

                   QUATRO portões de madeira ornamentada marcam cada entrada e um ponto cardeal: Portão Norte, ou Bachtscha Darwase, o Portão Leste, ou Palwan Darwase, o Portão Sul, ou Dascht Darwase, e o Portão Oeste, ou Ata Darwase. Ao contrário de Samarkanda e Bukhara, Khiva tem seus monumentos agrupados no interior desta cidade murada, não estão espalhados pela cidade. E ela ostenta o maior número de minaretes e monumentos da Ásia Central: são 50 ao todo, e mais 250 casas antigas dos séculos 18 e 19.

 

 A Mesquita Djuma e sua floresta de colunas esculpidas em árvores inteiras

  

                  A Mesquita Djuma, do século X, foi reconstruída, mas mantidas suas 112 colunas originais, planejada para acomodar toda população adulta masculina da cidade. Diferente da maioria das mesquitas por ter interior de dimensões incomuns para a época e região, é totalmente coberta, sem pátio interno aberto, como a maioria das mesquitas.

 

   Islam Khodja, o minarete de incríveis 45 metros

                  SÍMBOLO de Khiva, a grande torre azul na praça central da cidade é um minarete inacabado. Grandioso e imponente, ainda que inconcluído. O ambicioso khan Mohammed Amin terminara de construir sua obra, uma madrassa extravagante e que logo ganhou grande prestigio em Khiva. No entanto a sua mesquita precisava de um minarete, mas não um qualquer. Ele imaginava o mais alto e impressionante minarete do Oriente muçulmano, um como jamais alguém construíra. Seu objetivo era mostrar ao seu rival, o Emir de Bukhara - cujo minarete Kalon era o maior da Ásia Central - que poderia fazer algo ainda maior. Ele imaginou um minarete tão alto que poderia até mesmo avistar Bukhara num dia claro.

 Kalta Minor. Azul celeste, azul turqueza, azul marinho.

                 SEUS planos foram desenhados e a construção começou. Em 1855 o Minarete alcançara apenas 26 metros dos 80 projetados. Algumas hostórias contam-se acerca da interrupção da obra, entre elas a de que o arquiteto do khan fez um pacto clandestino com o Emir de Bukhara, quando este soube que estavam tramando a construção de um minarete ainda maior. Descoberta a trama, o castigo foi lançar o arquiteto infeliz do alto da torre Kalta Minor. Outra história afirma que o khan, percebendo que o minarete acabado forneceria aos mulás uma vista aérea de seu harém, prontamente ordenou a interrupção da obra. 

    

 Kalta Minor

                 O fato é que a teoria mais provável é que um projeto tão grande levaria mais tempo do que o de vida que sobrava a Mohammed Amin, que morreu durante uma de suas muitas campanhas contra as tribos turcomanas. Os dois khans seguintes estavam mais preocupados com guerras, haréns e outras demandas, deixando inacabada a construção do minarete Kalta, que assim permanece até hoje. O Kalta Minor, em comparação com os altos e elegantes de Bukhara, é mais desajeitado, baixo e robusto, mas sua história é igualmente curiosa e cercada de mistérios. Em compensação, tornou-se o único minarete inteiramente coberto por cerâmica vitrificada.

 

  Kunya Ark, o palácio-fortaleza

  

                  KUNYA ARK é uma fortaleza dentro de outra. A mais incrível e atmosférica atração de Khiva, foi a primeira residência dos khans da cidade. Tem aparência e função militares, mas como aos khans não agradava o puro estilo de vida militar, garantiram que a Arca fosse equipada tudo que um palácio islâmico deveria ter: residência, supremo tribunal, arsenal, casa de impressão de dinheiro, mesquita, escritório, lugar de recepção, harém, cozinha, estábulos e uma praça para celebrações. Uma restauração da década de 1950 revelou peças arqueológicas que hoje estão em exposição na mesquita.

 

  Kunya Ark  e sua fabulosa, minuciosa, intrincada ornamentação cerâmica

 

                  NUM pátio há um cinema ao ar livre, de uso eventual patrocinado por um hotel. Os imponentes portões da Arca são magníficamente esculpidos, e ao serem cruzados, uma nova cidadela repleta de sucessivas e incríveis atrações se descortina para o visitante. Aqui talvez seja o lugar mais tranquilo de Ichan-Kala e proporciona a mais incrível sensação de volta no tempo.

 

 Vista de Ichan-Kala no Pôr-do-Sol desde o Mirante da Muralha

  

                  AS paredes e os bastiões Ichan-Kala ao passarem por Kunya Ark revelam as fundações da cidade, precisamente na Torre de Vigia também a parte mais antiga de Khiva. A torre tornou-se um local de verdadeira peregrinação de turistas, já que dela tem-se uma das melhores vistas aéreas de Ichan-Kala. Fotografar aqui é uma obrigação. O resultado será a melhor foto da cidade, especialmente ao entardecer, quando a luz cintila e doura toda a cidade. Dificilmente alguém deixará de imaginar que dali a pouco avistará uns tapetes voadores.

                 CAMINHAR sobre as muralhas e olhar para a cidade ao entardecer desde um de seus mirantes foi uma de nossas mais incríveis experiências de viagem e é tão recomendável quanto qualquer Pôr-do-Sol bonito no mundo. Dali percebe-se o plano original da cidade, isto é, contendo o shakhristan (cidade) e a rabat (subúrbio).

  

                 NA manhã seguinte fomos explorar o deserto, na região de Karakalpak, a cerca de 40 quilômetros de Khiva. É um passeio não muito comum, mas adoramos visitaa as ruínas das antigas cidadelas de Ayaz-Kala, Guldurechi-Kala, Toprak-Kala, Kizil-Kala e Ellik-Kala. São apenas vestígios dos Séculos 2 ao 7, mas incrivelmente monumentais e impressionantes, especialmente por estarem tão remotas e terem sido construídas há tantos séculos.

 

                 A viagem terminou com um almoço numa yurta, recebidos por sua proprietária extremamente simpática. Foi muito proveitoso, além de curioso, conhecermos de perto o modo de vida nômade no Uzbequistão.

 

                 A única maneira de se chegar a este lugar é contratando um transporte privado. O jeito seguro de arranjá-lo é na entrada de Ichon-Qala. Custa entre 50 e 70 dólares por um carro com motorista que mal ou bem arranha um inglês precaríssimo e se esforça em fazer o papel de guia. Pagamos 60 sólares.

 

                NO caminho passamos pela região autônoma de Karakalpakistan e curtimos outras paisagens desérticas e típicas em que vivem os nômades da região. No dia seguinte acordaríamos acordar cedo para nosso próximo destino, a incrível Bukhara. Passamos nossa última noite em nossa estalagem e antes de dormirmos janamos cedo na Cidadela para garantirmos um banho quente antes das oito da noite.

______________________________________________

 A seguir: De Khiva a Bukhara, uma viagem mais longe ao passado islâmico

Leia também: Uzbequistão. Por que não?

Notas:

1) Artesanato. Não espere muito do artesanato em Khiva porque certamente não é melhor que Bukhara para comprar tapetes, suzanes, lenços e outros. Mas não deixe de prestigiar e conhecer o interior de algumas madrassas onde instalam-se workshops de artesãos locais autênticos, especialmente de suzanes e tapetes.

   

2) Restaurante. Assim como antigas madrassas converteram-se em ofinicas e lojas de artesanato, emtodas as três cidades, também alguns restaurantes instalaram-se nessas antigas escolas corânicas abandonadas. Em todas as cidades que visitamos - Khiva, Bukhara e Samarkanda - em apenas uma vimos uma funcionando como escola, em Bukhara. Em 2008, o Khorezm Art Restaurant instalou-se na madrassa, a Allakulikhan, no interior de Ichan Kala. Ele tem a istalação mais simpática e confortável de Khiva, com um menu relativamente variado de comida uzbeque. Prestigiamos a cerveja e o vinho locais.

 

Reader Comments (12)

Que céu maravilhoso é esse???
Belíssimas fotos!

Estive em Khiva em 1983 (ou seja um Retorno de Saturno atrás, 29 anos) e as muralhas parecem as mesmas! Parabéns, belíssimas fotos!

Que pouco eu poderia imaginar que tão longe do meu país tinha um lugar tão bonito!
Quando li as sues relatos da Ásia Central percebo o quão grande é o mundo e quão pequeno é o homem. Mas também, eu verificar que ele é capaz de fazer: um ser tão pequeno como é o homem. Esta magnífica escultura ea arquitetura decorativa é projetada e feita pelo homem. Sendo assim pequeno, ele pode fazer grandes coisas.

Obrigada por compartir com nós, esse grande segredo.

5:26 | Unregistered CommenterCarmen

Meu Deus, onde vocês foram parar? É muita aventura com atmosfera que exala amor e companheirismo!

10:45 | Unregistered CommenterRosa

Querido Arnaldo, esta viagem de vocês acabou superando toda expectativa, que já era muito alta. Uma única fotografia de lugares como o Islam Khodja já seria suficiente para enlouquecer a gente com uma vontade incrível de conhecer os lugares visitados por vocês.

Mais uma coleção tão absolutamente fantástica de lugares e experiências que fazem da viagem um sonho, que vamos ter que curtir da tela de nossos computadores enquanto nossa imaginação passeia pela Ásia com a ajuda de vocês.

Grande abraço.

8:01 | Unregistered CommenterTony

Arnaldo, eu tive o grande prazer de viajar um pouquinho com vocês através das fotos que a Emília postava diariamente no Instagram. Que prazer maior ainda é vir aqui, agora, ler seus posts sobre essa linda viagem que, seguramente, também está nos meus planos (aliás, em 2013, já está mais do que na hora de eu retornar à Ásia, enfim!). Belíssimas fotos, como sempre. Uma delícia vir aqui me inspirar.

Que viagem incrível! Que post! Que fotos! Dá vontade de sair correndo para lá. Sou fã de carteirinha do seu blog.

23:33 | Unregistered CommenterFlora

Caro amigo HAROLDO CASTRO, ainda que você já tenha ido, pense em retornar e explorar mais cidades e países da Ásia Central. Muito honrado em ter sua visita e ainda mais seu comentário. Grande abraço.

CARMEN, gentis e inspiradas palavras, como sempre. Obrigado pela visita e comentário.

ROSA. Longe, fomos parar longe. Mas foi uma viagem adorável e encontramos, além de paisagens belíssimas e conteúdo arquitetônico memorável, pessoas marcantes, gentis, receptivas e doces, que nos fizerem nos sentir menos longe um pouco, tão acolhedoras eram conosco.

MARI CAMPOS, sei que vc acompanhou as fotos que a Emília postava no Instagram (e elas estavam mesmo bonitas, inspiradas e convidativas a ler e conhecer mais do Uzbequistão e Quirguistão). Mas EU que digo: o prazer é meu de ter sua visita e, ainda mais, seu gentil comentário. Sim, a Ásia Central foi um belo destino. Nosso próximo desejo são Mianmar (quase certo para fevereiro de 2013. Estamos empolgadíssimos!), Etiópia (aguardando a Ethiopian Airlines inaugurar seu vôo para o Brasil, em breve. Já temos o programa definido). Na África, temos Botswana e Tanzânia (com Zanzibar) também nos planos. Agora em Novembro daremos um "pulo" ao Peru (Cuzco e redondezas, e Machu Pichu). Se eu tiver tempo e disponibilidade, postarei aqui. Um grande abraço e obrigado.

FLORA, sou fã de carteirinha de seus comentários! Muito obrigado.

Arnaldo, acabei de ver seu comentário sobre a Etiopia na resposta para a Mari e queria compartilhar com você, caso você não estiver ciente, que parece que a Ethiopian adiou o início das operações no Brasil (agora está se falando em março, mas sem confirmação definitiva). Abs.

6:48 | Unregistered CommenterTony

Obrigado, Tony. Mesmo sem o adiamentov não teríamos condições de ir logo. Acho que mesmo sem a Ethiopian iremos ao país, por desejo antigo e por termos conversado com algumas pessoas que já o fizeram e nos receomendaram vivamente. Pela Ethiopian seria apenas o caminho mais curto, que preferimos. De toda maneira, agradeço.

Ah, claro que quando formos à Espanha não deixaremos de visitá-los. E pensem em nosso convite de passarem uns dias no Rio conosco.

Que lugares impressionantes!!! E cidades que eu infelizmente nunca tinha ouvido falar! Adorando acompanhar o seus relatos e da Emilia! Aprendendo mais um pouco desse mundo com vcs! Lindo demais!

Obrigado, Guta, pela visita e pelo comentário. Eu também pouco conhecia sobre aquelas cidades e li e pesquisei o que pude para nos prepararmos para a viagem. Concordo, os textos da Emília estão inspiradores como nunca!

Grande abraço.

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