CONHEÇA O AUTOR

          

         Depois de estabelecer-se na Internet desde 1999 escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema e, depois, em 2006, ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - foi convidado a colaborar com matérias suas publicadas na Revista Viagem & Turismo (Editora Abril). Agora, Arnaldo prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando na literatura com um livro encantador que, segundo o autor, é o primeiro de uma série.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui neste blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de uma conversa com o leitor, baseada na informalidade, no livro misturo traços desta coloquialidade e informalidade com uma escrita literária, sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que - de certa forma e por outro lado- é outra maneira de me expressar sobre minhas viagens, transmitindo sem fantasias o mundo que vejo - como ele é, não como o imaginava -, ainda que a leitura revele expectativas muitas vezes não confirmadas sobre o destino. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, ‘Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro’.  A partir deste primeiro livro, considero esta uma nova fase na minha vida."

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo Trindade Affonso é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti 2013 na categoria Reportagens

Ronize Aline:

            "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária e crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista passou pelas redações das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

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Sexta-feira
Nov302012

SAMARKANDA e seus azuis - Uzbequistão

De TAMERLÃO a Karimov, SAMARKANDA e seus azuis

 

                 NÃO terá sido a primeira vez que alguém associa um destino a uma determinada cor. Mas talvez a última em que ela seja tão onipresente, que não desgrude um só instante da memória de um turista. Em Samarkanda é incrível a variedade dos tons de azul. São todos os azuis da paleta de cores. Onipresentes, mais que coadjuvantes, são a própria personalidade da cidade. Os azuis de Samarkanda  ali tomam um caráter especial, aplicados nas cerâmicas de meticulosos e incríveis mosaicos, nas vestimentas femininas, nos carros e até nas garrafinhas de água mineral. Mas é nas mesquitas, madrassas e mausoléus onde eles tomam sua verdadeira magnífica dimensão, as formas mais lindas e arrebatadoras, ornamentando com a classe incomparável dos estilos persa e islâmico, as mesquitas, madrassas e mausoléus da cidade. 

Detalhe dos mosaicos e cerâmicas ornamentais de Samarkanda - Mausoléus de Shahr-i-Zindar

                É assim que a cidade vive no imaginário ocidental como símbolo de beleza oriental, de mistério islâmico, de qualidade e imponência arquitetônicas. As fachadas das relíquias mais bem preservadas da Ásia Central têm nos azuis de Samarkanda seu mais perfeito complemento.

  A Praça do Registan - Samarkanda, Uzbequistão

                TAMERLÃO inventou Samarkanda. Os soviéticos a esconderam. E por trás de tudo que ocultaram por décadas, estava um grande legado histórico, um dos maiores da humanidade. De cultura, de arte e arquitetura islâmicas medievais. Um fabuloso patrimônio da humanidade que em boa parte resulta de uma história turbulenta, truculenta, por vezes sanguinária. As ambições humanas conquistadoras na Ásia Central são antigas e contemporâneas. As primeiras nasceram nas disputas pelo contrôle dos caminhos da Rota da Seda, sobretudo de seu comércio lucrativo. Mais recentemente, da expansão territorial soviética e sua busca pelas riquezas naturais da região.

                Destruída por Ghengis Khan em 1220, em seguida reconstruído no século XIV por Tamerlão, para então tornar-se o mais importante centro econômico e cultural da Ásia Central, que sofreu grave declínio econômico após o desaparecimento do comércio terrestre de leste-oeste.  Daí, de 1720 à década de 1780 foi abandonada e tornou-se desabitada. Foi apenas em 1876, após a estrada de ferro chegar a Samarkanda, que a cidade reviveu.

  

                Ambas, cada qual ao seu modo, invadiram e dominaram o que encontravam em seus caminhos. Todavia, se por um lado Tamerlão invadiu e dominou, por outro construiu cidades-fortaleza e preservou as que encontrou, sem destruí-las, ao contrário de Alexandre o Grande. Cidades incríveis floresceram e desenvolveram-se a partir das conquistas de Tamerlão, tornaram-se grandes centros agrícolas, verdadeiros oásis ao longo das antigas rotas no meio do deserto.  O tempo passou, a vida e a economia mudaram, até memo velhos costumes: nômades deixaram a difícil vida no deserto e converteram-se à vida urbana, por necessidade econômica ou atraídos pelos confortos da cidade.

                 Entre todas estas incríveis cidades, uma destacou-se, não por acaso, mas por intenção e planejamento de seu fundador: Samarkanda. Cidade das mais antigas cidades do mundo, como Tebas, Roma e Babilônia, imaginada, desenhada e construída por Tamerlão - o "Senhor da Ásia".  Descendente de alguns dos povos mais poderosos do mundo ele conquistou e ocupou uma área promissora no mundo antigo, transformou-a de lugarejo no deserto, num lugar que logo tornou-se ponto de referência no planeta, de convergência de culturas, de proliferação das artes, da ciência, do aprimoramento do conhecimento humano, da promoção das tecnologias e do islamismo. Nascia no deserto um dos exemplos mais notáveis de civilização na história da humanidade.

Madrassa de Ulugh Beg, ou Mīrzā Muhammad Tāriq ibn Shāhrukh, no Registan

                 Mais tarde, anexado à Rússia czarista em 1860, o Uzbequistão tornou-se mais uma entre as repúblicas soviéticas. Em agosto de 1991, com o colapso da URSS, tornou-se independente. A agora faz fronteira com as outras ex-soviéticas, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Afeganistão e Turcomenistão. 

                 Durante seu domínio, os soviéticos não construiram nada exemplar, como Tamerlão. Ao contrário, com o desprezo típico dos déspotas, desprezaram e proibiram quaisquer manifestações religiosas e culturais islâmicas. Inclusive artísticas.  O que fizerem foi escondê-las por 70 anos.  E exaurir a terra, secar rios e lagos, abusar do uso de defensivos agrícolas em sua tentativa de tornar o Uzbequistão o maior produtor mundial de algodão. Não conseguiram seu intento. Mas as conseqüências são visíveis.

 

                Trocando as estátuas de Marx pelas de Tamerlão e Bâbur, em dezembro de 91 Islam Karimov elegeu-se Presidente do novo país independente, devolvendo parcialmente a liberdade de expressão e cultos islâmicosao povo. Mas nada mudou tanto, soviéticamentr falando: Karimov fora Primeiro Secretário do Partido Comunista, e uma espécie de "prefeito" do Uzbequistão na era soviética.  Reeleito duas vezes, consolidou-se no poder e foi ficando, ficando, ficando... Até hoje.  Como bom ditador-democrata, mantém tudo sob controle, da mídia às atividades oposicionistas. 

           TAMERLÃO nasceu em Kash, a "cidade verde", não muito longe da atual Samarkanda, a "cidade azul". Líder nato, gênio guerreiro e estrategista, aos 21 anos partiu para conquistar o mundo. Uma após outra, suas campanhas foram vitoriosas, da Pérsia à Índia. Aos 37 seu império gigantesco ia da atual Moscou até a Grande Muralha, na China. "Senhor da Ásia", como passaram charmar-lhe, Tamerlão precisava de uma Capital tão imponente quanto seu império. Haveria ela de refletir seu poder com igual dimensão.

Uma das estátuas de Tamerlão, em Tashkent

              Com Samarkanda então imaginada, Tamerlão seguiu para torná-la realidade: reuniu os melhores artistas e artesãos que pôde encontrar e os trouxe para construir a nova cidade. E o que eles desenharam a partir dos sonhos de Tamerlão não foi apenas persa, nem só indiano, ou mesmo chinês. Projetaram, e contruíram uma cidade nova emtodos os sentidos, da concepção à deslumbrante aparência . Embelezaram-na com os edifícios mais incríveis, nas dimensões e na arte. Cobriram-nos com milhões de peças de cerâmica azuis, de todos os tons azuis, que ainda hoje dão à cidade seu mais distinto caráter, sua mais franca personalidade. Tanto quanto quem não a conhece pode imagjnar, ou quem a visita pode constatar.

                 Alguns dizem que Tamerlão era cruel. Outros defendem sua memória afirmando que não ele, mas seu exército fora assim. Todavia, a característica pela qual Tamerlão tornou-se conhecido - e temido - foi justamente a crueldade com que tratava os povos conquistados: assassinava crianças, empilhava seus crânios em montes do lado de fora da cidade e cimentava corpos dentro de paredes.

                Em janeiro de 1405, quando morreu, aos 68 anos, encontrava-se em plena campanha, talvez sua maior aventura: acompanhado de 200.000 homens, queria abrir caminho através da Grande muralha da China e conquistá-la. Todavia, a 640 quilômetros de Samarkanda, Tamerlão adoeceu e morreu, sem retornar à sua cidade. Seu corpo então foi lavado, perfumado com água de rosas, almíscar e cânfora, colocado num caixão decorado com pérolas e pedras preciosas e despachado ànoite para o regresso à sua Samarkanda.

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               SAMARKANDA

             Todo clichê é pouco para definir Samarkanda. "Peróla do Oriente", "Jardim da Alma", "Jóia do Islã", "Espelho do Mundo"... Não os faltam, nem nem aos adjetivos. Ela era tão imponente que até se justificam. Alexandre, o Grande a conquistou e viu pela primeira vez, exclamou: "ouvi dizer que era bonita, mas nunca pensei que poderia ser tão bela e majestosa". E poupou-a da destruição, diferente do que fez com tantas outras. E ainda hoje Samarkanda provoca os mesmos efeitos a quem tem o privilégio de conhecê-la: encantamento e admiração. 

                SAMARKANDA tem uma preciosidade histórica e arquitetônica que exige do visitante leitura e preparo para conhecê-las. Ao menos superficialmente, é preciso saber, por exemplo, que a segunda maior cidade do Uzbequistão, a mais central da Rota da Seda, foi um importantísismo centro cultural islâmico no século 14, sede do império de Tamerlão e a cidade onde ficam as mais notáveis obras primas da arquitetura persa fora do Irã. Que a histórica cidade ilustra em sua arte, arquitetura e estrutura urbana as fases mais importantes da Ásia Central em sua história cultural e política, do século XIII até os dias atuais. E que a arquitetura e a paisagem urbana de Samarkanda, uma cidade situada bem no cruzamento de culturas antigas - do Mediterrâneo à China, são as maiores obras-primas da criatividade islâmica em sua soberba expressão artística e cultural. Não será tão proveitosa a visita a Samarkanda sem conhecer um pouco de sua história e a de seu criador. Preparados, fomos de trem de Bukhara a Samarkanda.

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De Bukhara a Samarkanda - Uma "aventura" ferroviária

                Colocamos nosso Lonely Planet nas mãos e seguimos uma de suas mais certeiras recomendações: viajamos de trem de Bukhara a Samarkanda, uma das cidades mais incríveis do mundo, nossacúltima parada no Uzbequistão antes de seguirmos para o Quirguistão. Quase três horas nos separavam de nossa tão esperada visita, o ápice da viagem à Ásia Central.

Madrassa Sherdar - Registan, Samarkanda


                  E se há poucas cidades verdadeiramente turísticas no mundo de onde não se trazem souvenirs na bagagem, mas impressões na memória e milhões bytes de fotografias deslumbrantes no HD, Samarkanda é uma delas. Diante do Registan, foto acima, senti o mesmo impacto que outras capitais do Islã provocam, Damasco e Istambul mais especialmente. Samarkanda brilha, e toca corações e mentes como se fosse de contos, de um modo estranho, como se não fosse real.

                 Trocamos o planejado pelo inesperado: uma entediante e cansativa viagem de cinco horas de carro por algo bem mais agradável, civilizado e divertido, uma viagem de trem. E por apenas duas horas e quarenta e cinco minutos. Compramos os bilhetes numa agência especializada em bilhetes ferroviários. Custaram o equivalente a 8 dólares por pessoa. Na classe mais simples. Mas no trem expresso. Havia duas outras alternativas - executiva e primeira -, e outras opções de horários diurnos e noturno, alguns gastando o dobro do tempo.

                  Não foi tão simples comprar as passagens para nossa “aventura ferroviária”. Fácil, mas não simples. Não fosse a imprescindível ajuda de nossa guia em Bukhara, talvez não conseguíssemos compreender o atendente, a tabela de preços, as opções de trens e horários, tudo falado e escrito em uzbeque. Ou russo. Inclusive os bilhetes.

                  Com dois bilhetes em mãos, no dia seguinte saímos do hotel às sete da manhã para tomar o trem das oito. Fomos à estação de Bukhara, a cerca 9 km da cidade, noutro município, o vizinho Kagan. Após passarmos por 3 sessões de raio x e verificações de passaporte e bilhetes - a primeira do lado de fora da estação, ainda no portão do estacionamento, a próxima ao entrarmos no saguão principal do terminal e o terceiro ao sairmos da sala de espera para a plataforma de embarque.

  

                  O trem chama-se Sharq, ou Meio Oriente. É simples mas civilizado. São 10 vagões com 56 assentos cada. A cor da composição não poderia ser outra: um bonito azul turquesa no exterior, um feioso cinza soviético-metálico no interior. Sombrio, mas com assentos estofados e relativamente confortáveis. Em cada vagão há um televisor preso ao teto. A programação não poderia ser pior: filmes e novelas uzbeques. Divertida, a viagem de trem foi surpreendentemente confortável. Especialmente para quem esperava daquela categoria “econômica” uns bancos de madeira em vez das poltronas estofadas, espaçosas e reclináveis. Contar com uma mesinha de metal no encosto do banco da frente seria um sonho impossível, mas foi nela que escrevi em meu notebook boa parte deste relato. A “trilha sonora” de minha doce Emília vinha do seu amplo, eclético (e ótimo!) repertório no iPod. Vez por outra o compartilhava comigo. Um fone pra lá, outro pra cá. 

                   Mas o que me embalava era o típico ruído de trens correndo sobre os trilhos: o tec-te tlec... tec-te tlec... tec-te tlec das rodas marcando as emendas dos trilhos. E vez por outra o guincho de ferro roçando ferro, as rodas nos trilhos rangendo nas curvas. Ao fundo eu ouvia os diálogos das novela e filmes uzbeques que passavam na TV. De LCD. Durante as 2:45 h da tranquila e agradável viagem o trem fez apenas uma parada, em Navoy, cidade de onde saem outras composições para o norte do país. Afinal, este era o Sharq expresso.

Chegando a Samarkanda, a Estação fica numa bela praça, com ótimas opções de transportes

                   Em minha única tentativa de trocar umas palavras com um funcionário enquanto procurava um banheiro não obtive sucesso. Mas ainda acho que qualquer um é exce­lente pre­texto para um turista inde­pen­dente começar uma con­versa com um local. No percurso, vendedores de revistas e jornais (em usbeque) e refrigerantes passam esporadicamente oferecendo seus produtos.

  

                   E assim chegamos em Samarkanda, desembarcamos em sua ótima estação de trens, concluindo aquela deliciosa “aventura” ferroviária. Chegando lá, há muitas opções para ir ao seu hotel: ônibus, taxi e a pé, se for pertinho...

 

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SAMARKANDA e todos os seus tons de azul

                 Não são azuis apenas seus domos. São de todos os seus tons - do cobalto ao turqueza, do claro ao profundo. Em tudo e por toda a cidade. Sempre há azuis. Parecem vazar para as roupas e tudo mais todos os azuis de Samarkanda. E espalham-se em todos os seus tons conhecidos.

   

                 Dos mais escuros aos azuis-pastel, dos foscos aos brilhantes como o que se encontram no céu, nos azuis das piscinas, nos mares índicos e nos rios e algumas lagoas mais límpidos.  São todos uns azuis lindos, assombrosamente lindos, ainda mais lindos quando combinados. E estão em tudo. E são mais assombrosos quando nos minuciosos padrões decorativos intrincados, um triunfo dos ceramistas dos séculos XIV e XV. Vindos de Shiraz, Isfahan e Herat, eles realizaram um dos esmaltes mais incrivelmente finos, radiantes e resistentes ao frio, calor, sol e chuva. E sem perderem seu brilho.

  

                  Depois de Khiva e Bukhara, não me ocorria imaginar ainda me surpreender com alguma cidade ou monumento na Ásia Central. Até chegar em Samarkanda. Mas ao ver as cúpulas azuis de Samarkanda, lembrei-me das palavras de um poeta, que ao deparar-se com o Mausoléu de Gur Emir, afirmou que “se o firmamento desaparecesse, a cúpula do mausoléu de Gur Emir o substituiria”.

   

se o firmamento desaparecesse, a cúpula do mausoléu de Gur Emir o substituiria

Mausoléu de Gur Emir 

                 E então, naquela nossa primeira manhã em Samarkanda, em nossa visita aos monumentos medievais da cidade, ao me deparar com o mausoléu, percebi que não exagerou nas palavras o poeta, senão desceveu sua romântica, e justa, admiração.

                São chocantes os resultados do processo de reconstrução dos monumentos do Uzbequistão, notáveis e em grande escala, levados a cabo nos anos de independência do país. Buscou-se a modernidade a qualquer custo. Discutível, ela mudou a face e a personalidade de uma das cidades mais belas do mundo. Transformou-a em algo irreconhecível. Bem maior, mais moderna e agitada que as duas primeiras, assim como Tashkent, todavia perdeu sua identidade. Na capital explica-se. O terremoto arrasador não deixou pedra sobre pedra, oportunidade para os urbanistas e arquitetos soviéticos reconstruírem-na segundo as convicções estéticas bolcheviques. 

                 Mas em Samarkanda todavia, passou-se algo muito mais dramático, mais recente e desprezível, depois da independência do pais: um processo em que o Presidente Islam Karimov e sua sanha modernista de transformar em novo um admirável mundo velho, destruir o antigo original, ainda que sem caráter histórico, substituindo-o pela modernidade, linhas gratuitas e ocidentais, por vezes extremamente kitsch.

              Tudo ficou parecendo mais uma rua de subúrbio norte-americano do que de uma antiga cidade da Rota da Seda. Bem perto da Mesquita de Bibi-Hanim e dos Mausoleus de Shah-i-Zinda, toda aquela modernidade desproposital que parecia muito mais fruto de devaneios modernitas de um presidente do que revitalização que toda cidade antiga precisa.

  Derrubaram-se antigos hammans em nome da modernidade ....

                  E assim acabou-se com uma atmosfera das mais típicas da Ásia central, de uma das cidades mais importante da Rota da Seda. Não se encontra mais a atmosfera das “mil e uma noites” em Samarkanda, como ainda resiste bravamente em Khiva e Bukhara. A cidade foi domi­nada pelo desejo desgraçado pela modernidade. Também foram feitas adaptações, digamos exóticas, dos resquícios soviéticos, na forma de concreto e alvenaria que tenta apagar o pas­sado opres­sivo.  Cobriram-se com painéis publi­ci­tá­rios de produtos mul­ti­na­ci­o­nais algumas fachadas e painéis. 

                 Nos monumentos antigos, mestres modernos restauraram as ruínas do complexo Bibi Hanum - dos séculos IX a XV - em 2003, assim como o complexo de Shahi Zinda -dos séculos IX a XV - em 2005. No entanto, os construtores simplesmente revestiram as partes desintegradas das respectivas fachada com mosaicos novos, substituíram por novos tijolos cerâmicos os velhos e rústicos de barro queimado. Como resultado, as novas criações ainda são bastante imponentes e impressionantes, mas agora não mais do ponto de vista de um verdadeiro patrimônio cultural da humanidade, senão em termos de tamanho e beleza.

  ... e por trás das construções modernas ficaram escondidos bairros residenciais antigos e autênticos

                Samarkanda já tinha importância comercial nos tempos medievais, na época, devido à sua localização, cruzamento das rotas de comércio entre a China e a Índia. Com a chegada da ferrovia, em 1896, tornou-se um importante centro para a exportação de vinho, de frutas secas e frescas (incríveis!), de algodão, arroz, seda e couro. Praticamente baseada na agricultura, sua economia depende da fiação e tecelagem de seda, da produção de conservas de frutas e de vinho, mas também na confecção de vestuário, de couro, calçado e tabaco. Fabricação de peças de trator e automóveis também é economicamente importante.

 

 "Dos escuros aos azuis-pastel, dos foscos aos brilhantes, como o que se encontram no céu, nas piscinas, nos mares índicos, nos rios e algumas lagoas límpidas.  São todos azuis lindos, assombrosamente lindos, ainda mais lindos quando combinados e aplicados na cerâmica

                 Há muitos lugares no mundo que inconscientemente guiam nossos pensamentos para um mundo de fantasias, de príncipes e princesas, de sonhos, de contos românticos orientais, de histórias das Mil e Uma Noites. Mas raras foram as que me trouxeram essa sensações, tais como em Bukhara, Khiva e, agora, Samarkanda. Incomparável. Consegue ser grandiosa e singela ao memo tempo. E tem simplesmente mais de 25 séculos, mesma idade de Roma, Atenas e Babilônia. 

               As construções de Tamerlão e seus filhos em Samarkanda têm uma escala estupenda, nas dimensões e na importância. Foram tão ousadas quanto geniais, divulgaram como nenhuma outra as característica distintivas da arquitetura timúrida. A Mesquita Bibi Khanum, construída  entre 1399 e 1404, por exemplo, comemora a esposa de Tamerlão, do outro lado da estrada principal que leva da cidade velha de Afrasiab ao centro da cidade, o Registan.  Um cronista da época relatou que Tamerlão trouxe arquitetos do Irã e da Índia para o projeto, e teria usado noventa e cinco elefantes para transportar o material de sua construção. 

  

                    Mas a cidade tem uma incrível coleção de monumentos antigos que vão bem além da Bibi Khanum. As cúpulas turquesas de Samarkand, por exemplo, estão entre algumas das mais evocativas do mundo islâmico, verdadeiros símbolos arquitetônicos, obras primas de engenharia, arquitetura e ornamentação islâmicas medievais.  São marcos. Da história da humanidade.Sua escala estupenda foi uma ousada estratégia de declaração pública de poder, além de uma característica que distingue a arquitetura timúrida. Trabalho de arquitetos trazidos de Shiraz, Irã, suas madrassas são quase únicas na arquitetura islâmica, pois têm representações de imagens vivas em suas fachadas de mosaicos, extremamente incomuns na arquitetura islâmica, já que a representação de seres vivos é considerada idolatria. Apesar da proibição, a escola corânica da Praça Registan tem no seu magnífico portal incríveis cenas de caça  decorando os incríveis, imponentes arcos voltados para a praça. Mas também são fabulosos os ornamentos geométricos, assim como os enormes minaretes em ambos os lados. O conjunto é um exemplo perfeito de equilíbrio na composição, comparável em harmonia e grandeza ao Taj Mahal.

Uma das espetaculares madrassas do Registan 

                 A planta do período medieval ainda é preservada, com ruas que convergem à cidade antiga, onde estão simplesmente alguns dos principais monumentos da arquitetura persa na ásia Central, desde o século 14, com vários edifícios que datam da época em Samarkanda foi a Capital do império de Tamerlão. Os destaques da cidade são a Praça do Registan, com seus exemplos monumentais de arte islâmica - a Madrassa de Ulugh Beg e a Porta do Leão -, o complexo de mausoléus de Shah-i-Zinda, o curioso Observatório de Ulugh Beg, as ruínas da muralha de Afrosiab, o Mausoléu de Gur-e Amir e a Mesquita de Bibi-Khanym. A Mesquita de Bībī-Khānom, foi terminada em1404, encomendada pela esposa chinesa, e favorita, de Tamerlão. O seu próprio Mausoléu, chamado  Gūr-e Amīr, foi construído em 1405, cujo espetacular interior atual é da segunda metade do século XV, pertencente ao túmulo de Ak Saray, com um dos mais magníficos afrescos islâmicos que já tive o privilégio de conhecer. Notável.

 

Portas se abrem para pátios, madrassas e mesquitas...

 

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O Rīgestān

O caro ingresso para o complexo e o melhor cenário para fotos de casamento


                 Mais misterioso do que pirâmides egípcias, mais atmosférico que o Marrocos, mais incrivelmente ornamentado que o Topkapi, o complexo do Registan é uma maravilha arquitetônica emocionante. Ao menos para os apreciadoras da arquiterura e ornamentação. Mais do que um dos pontos turísticos mais comoventes de toda a Ásia Central, é um dos grandes momentos da arte islâmica no mundo. O conjunto é composto por três madrassas: Ulugbek, do século XV, Sher-Dor, do século XVII, e Tilla-Kari, também do século XVII.

 

                   Aqui os visitantes podem explorar arquitetura persa maravilhosamente restaurada e perder-se nos mausoléus, madrassas, mesquitas e minaretes que cintilam com mosaicos de cerâmica azul característica do Uzbequistão. Cada monumento é surpreendente, mas o conjunto de cúpulas, mosaicos, graciosos arcos ogivais azuis são incrivelmente harmônicos, revelam elevado valor arqutetônico, além de nos conduzirem com sua atmosfera incrível por uma viagem no tempo, séculos atrás.

                  Trabalhos recentes têm restaurado o Rigestan tentando devolver-lhe seu esplendor original, aquele descrito por Lord Curzon como "A praça mais nobre do mundo". Cercada em três lados por madrassas e mesquitas, com um alto minarete de cada lado, um dos lado é aberto, para que todos possam admirar a beleza dos três outros, numa distância que permita ao observador mirar o conjunto. De um lado fica a Madrassa Shirdar, nomeado por causa de seu portal gigante decorado com um tigre e uma gazela, vistas melhor sob a incidência dos raios do sol nascente. No segundo lado fica a Madrassa Tilakari, ou madrassa dourada, devido à quantidade de ouro usada entre os azuis de seus azulejos. E o terceiro lado é o da Madrassa de Ulugh Beg, o astrólogo de Samarkanda, neto de Tamerlão. Como seria de se esperar, sua fachada é decorada com padrões de estrelas enormes.

"Triumfo" - Pintura de Vasily Vereshchagin, retratando a Madrasah Sher-Dor, no Registan, em 1872.

                  O Rīgestān, ou Registan, é uma praça. Pública como todas. Mas impressionante como nenhuma. Nela o impressionante conjunto de madrassas que serviram a Tamerlão, a Ulūgh Beg (1417–20), a Shirdar (1619–163536) e a Tilakari (meados do século XVII), emolduram o espaço em três lados, deixando um livre para os olhos dos visitantes admirarem o conjunto de longe. A beleza imponente do Registan é indescritível por escritores menores. Brilhantemente restaurado, é tão grandioso quanto o Taj Mahal, uma das obras primas da arquitetura. Ao mesmo tempo é enorme na simplicidade, ainda que gigantesca na imponência. Uma festa para os olhos, que fixam-se admirando a intrincada decoração persa, alguns tentando contabilizar os tons de azul. Deve haver todos os da paleta de cores. E são os azuis, que depois das dimensões espetaculares e da arquitetura deslumbrante, fazem o peito dos encantados visitantes suspirar.


                 É impossível descrevê-lo fazendo-lhe plena justiça. Diante de sua magnífica beleza e incrível história é fácil lembrar-se dos versos de Omar Khayyam, o poeta, astrônomo e filósofo persa. E de Tamerlão, seu autor, auto-denominado “conquistador do mundo”. Nobre turcomano, nascido em família nômade durante o declínio do império de Genghis Khan, começou seu poder ainda nas tribos das estepes. Conquistou terras, fez um grande império que ocupou a maior parte da Ásia Central, do Afeganistão, do Paquistão, do Irã, do Iraque e do Cáucaso. Sua capital não poderia ter menor imponência. Assim determinou fixar-se em Samarkanda, para onde Tamerlão levou a maior e mais prestigiosa trupe de intelectuais e artesãos que se tem notícias na história da humanidade naquela época. Conseguiram realizar os devaneios de Tamerlão: tornaram a cidade uma das mais bonitas do mundo.

  A geometria na ornamentação arquitetônica islâmica


                 A geometria e a ornamentação na arquitetura islâmica sempre me encantaram. Mas os padrões uzbeques, incrivelmente lindos, me arrebataram. Diferentes do estilo otomano de Istambul e daqueles que encontraramos em países do Norte de África, se não estivessem ali, se não fossem história, eu não acreditaria. Como podem ter sido feitos aqueles complexos desenhos, tão elaboradamente simétricos, com tal precisão e perfeição, há mais de 500 anos, sem as ferramentas modernas? 

 Geometria e ornamentação nas inovadoras cúpulas de Samarkanda


                Uma das características mais inovadoras e impressionantes das cúpulas de Samarkanda, da arquitetura timúrida, não pode ser vista por fora. É no interior que revela-se a engenhosidade arquitetônica para conectar as conchas e proporcionar-lhes estabilidade. Elas tendiam a ser duplas, ou até mesmo tripla. As abóbadas apoiavam as cúpulas de baixo, um complexo modo estrutural, decorado com estalactite islâmica tradicional, ou muqarnas.

Dentro das madrassas, o ótimo artesanato usbeque

                 Após a praça Registan, o próximo local mais conhecido em Samarkanda é o Mausoléu Gur-e-Amir. Majestoso nas formas arquitetônicas e nos desenhos dos mosaicos colorido, o que tornam o monumento exemplar inigualável da arquitetura medieval. Ele se destaca pela famosa cúpula azul com nervuras que se avista sobre os telhados do centro de Samarkanda. Uma laje maciça de jade verde, no qual Tamerão foi colocado, é o maior pedaço de jade no mundo. No túmulo estão Tarmelão, dois filhos e dois netos. O enorme Mausoléu Gur-e-Amir é de uma simetria perfeita e magistral, tão rara e equilibrada quando a to Taj Mahal, o mausoléu indiano de Agra, notável por seu equilíbrio e simetria.  A cúpula central e a entrada arqueada são ladeadas por minaretes da espelhados.

                 Concluído no século XV, quando Amir morreu, cem anos depois foi inteiramente restaurado e tornou-se mais um entre os tantos patrimônios da humanidade nesta parte do mundo. Há uma história curiosa por trás deste mausoléu. Simplesmente incrível, conta que em 1941 os restos de Tamerlão foram exumados a fim de verificarem sua autenticidade. De acordo com o que escrito na pedra do caixão, "será punido aquele que infringir o preceito de Tamerlão. Uma terrível guerra vai eclodir em todo o mundo." No dia 22 de junho de 1941, apenas três dias após a exumação, forças alemãs atacaram a União Soviética, numa das mais sangrentas batalhas da II Guerra Mundial. Foi a maldição por interromperem seu descanso eterno.

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Mesquita de Bibi-Khanym


                 Outra obra maravilhosa é a gigantesca mesquita de Bibi-Khanym, inciada pela esposa chinesa de Tamerlão, Bibi-Khanym, enquanto ele estava em campanha na Índia. Uma lenda conta que o arquiteto apaixonou-se por ela e se recusou a concluir o prédio até que ela lhe desse um beijo. O beijo foi dado, mas não ficou em segredo. Ao retornar, Tamerlão ordenou a morte de ambos. A cúpula da câmara principal vai a 40 metros.

Mesquita de Bibi-Khanym

              A construção foi concluída em 1404 e por alguns anos foi a mais proeminente de Samakanda. No entanto, lentamente caiu em desuso, razão porque encontra-se em ruínas, por séculos de abandono. A sua sina foi ter sido construída muito rapidamente, tendo-se esquecido das técnicas de construção da época, o que a tornou frágil.

               Mesmo em ruínas, a grande mesquita de Bibi Khanum - única no mundo com oito minaretes - ainda supera em magnitude todas as demais de Samarkanda. Tudo o que resta é um grande arco, as bases de dois minaretes cravejados de azulejos emmosaicos azuis e brancos, uma vasta cúpula em tons de azul turquesa, quebrada por um tiro de canhão russo durante a batalha de Samarkanda, em 1868. Já descrita como a mais bela ruína muçumana em todo o mundo, é incrível observá-la e pensar que sua dimensão colossal foi construída sod o solo fraco da areia do deserto sem o uso de aço ou concreto.

 

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           Mercado Municipal

            O contraste é perfeito, a vizinhança ideal. Depois da Mesquita de Bibi Khanum, bem ao lado fica o Bazar de Samarkanda. Longe de ser uma uma atração turística, muitos acabam visitando-o porque é interessante e conhece-se um pouco da cotidiana da cidade.

Depois das pessoas, a melhor atração do bazar de Samarkanda são as frutas...

        Há de quase tudo: frutas e legumes, ervas e especiarias, pães variados,  doces coloridos, vassouras e artigos domésticos. Para além de um grande prazer visual e um saboroso experimentar de frutas deliciosas, as pessoas estarão ansiosas para cumprimentar-nos, gostam de posar para fotos.

  

          O movimentado mercado municipal é todavia mais interessante no setor de frutas, completo e repleto de melões, romãs, figos, ameixas e uvas púrpuras, verdes, rosas e pretas. Em sua época, foi chamado por Lord Curzon como "Jardim do Éden de Samarkanda". Apesar de suas indústrias, Samarkanda ainda parece ser mesmo uma cidade-oásis em meio ao vasto deserto, abastecida pelo Rio Zeravshan, cujas águas fluem quando derrete neve e geleiras das montanhas Celestian, a 320 quilômetros da cidade.

 Uma representação de época do Bazar de Samarkanda com a Mesquita de Bibi Khanum

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Mausoléus de Shah-i-Zinda

                  Antes de Samarkanda havia Afrosiab, fundada pelos sogdianos, que apesar da forte presença na Ásia Central por 1800 anos, muito de seus vestígios foram apagados e por séculos ficaram escondidos sob a terra e a grama, até arqueólogos russos iniciarem escavações na colina Afrosiab, revelando os segredos. E em nosso último dia em Samarkanda visitamos o antigo cemitério situado na colina chamada Afrasiab.

 

O Portal de Shah-i-Zinda


                 Eu desconhecia o aglomerado de pequenas cúpulas e fachadas turquesas do complexo de incríveis mausoléus Shah-i-Zinda. Depois da visita, tornou-se a segunda atração de Samarkanda que mais gostei. A rua de mausoléus existe desde o século XI. Ali Tamerlão construiu o seu próprio, onde seriam sepultados, além dele, sua família e amigos. São lindíssimos, por dentro e por fora. Muitos com suas pequenas mesquitas particulares. Foram construídos em ambos os lados de uma travessa estreita, cuja perspectiva é notável.

Shah-i-Zinda, um cânion de mausoléus e túmulos espetaculares

               No de Tamerlão ficam as tumbas dele próprio, de sua irmã, de um tio, seu filho, sua primeira esposa e seu amigo e tutor. Cada túmulo é como uma pequena casa com um pátio interno revestido em azulejos azuis. Sempre os azuis. Todos os azuis que se conhecem.

 

                 Um local fascinante. Um dos mais interessantes de Samarkanda. Shah-i-Zinda é um enorme complexo funerário no Vale de Zarafshan, na periferia da cidade velha.  É chamada "rua dos mortos", não sem motivos: são mausoléus e túmulos, nada mais. Todos cobertos pela sempre bonita cerâmica em mosaicos ornamentais nos tons predominantes e onipresentes da cidade: os azuis. Ainda que o Registan seja seu destaque, de maneira nenhuma esquecerei deste que foi um dos lugares mais marcantes de toda nossa viagem.

                  É considerado o mais importante santuário muçulmano da região, para além de complexo composto por dúzias de pequenas mesquitas e mausóléus. A maioria é dos anos 1360 a meados do século seguinte. Há obras de renovação contínuas, algumas bem recentes, o que torna por vezes difícil ver os detalhes originais.

Shah-i-Zinda. Túmulos e mausoléus. Dos mais belos que se podem ver

                 A parte mais antiga do complexo fica na extremidade norte, dentro dos muros da Cidadela de Afrosiab, que aparentemente era uma área residencial. O núcleo mais antigo de Samarkanda situa-se nesta colina de Afrasiab, dizem os estudiosos. Foi ali que um povoado surgiu no início do século VII, ocupando uma área de cerca de 200 hectares. A cidade foi cercada por um muro enorme, e alguns atribuem o local como a antiga capital sogdiana. O limite norte do complexo de túmulos foi um canal de irrigação, ao longo do qual ficavam as oficinas dos ceramistas, nos séculos XIII e XIV.

   Por fora e por dentro, os mausoléus de Shah-i-Zinda expressam o ápice da beleza

e da técnica aplicadas na ornamentação em mosaicos cerâmicos


                Como as tumbas do complexo foram crescendo, ele estendeu-se ao sul, além dos muros. O portão de entrada atual, construído por Ulugh Beg no século XV, fica bem ao nível da rua, é a parte mais baixa do complexo. Uma escada e alguns planos levam ao conjunto, composto por três grupos de estruturas: inferior, médio e superior. Todos são ligados por passagens em arcos abobadados, que aqui chamam-se chartak. O primeiro mausoléu é do século 11, mas há um grupo dos séculos 14 a 15 e construções dos séculos 16 a 19, que todavia não chegam a compremeter a composição geral e como deveria ser sua aparência original. 

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O curioso Observatório de Ulugh Beg

As instalações do Sextante e o Museu ao fundo

                 Ulugh Beg queria observar as estrelas, seguir seus cursos, especialmente observando o céu noturno limpo e claro do deserto de Karakum. E assim imaginou um observatório. E acabou transformando Samarkanda num centro de ciência e arte, fez um dos primeiros mapas astronômicos do mundo usado até por astrólogos chineses.

                 O observatório de Ulugh Beg foi construído no século XV. Extremamente curioso, mesmo que sobre tão pouco de seu original, foi o primeiro do oriente, e tem um incrível sextante de 30 metros construído para fazer mapas astronômicos precisos. Na falta de telescópios, ele obteve sua precisão de observações astronômicas através de seu sextante gigantesco, um Sextante de Fakhri.

  

Cenas de um casamento e Ulugh Beg. Ainda inspirando em Samarkanda

                 Então equipado com os melhores instrumentos da era, que incluíam o sextante feito de mármore, usado para calcular a inclinação eclíptica no Equador, os pontos do equinócio, o comprimento do ano tropical e outras constantes astronômicas medidas pela observação solar, foram encobertos por anos, revelados após escavações. 

                                                                                              

Em 1437, quase um século antes de Copérnico, Ulugh Beg mediu o comprimento do ano solar em 365 dias 5 horas 49 minutos e 15 segundos, com um erro de 25s, mais preciso que a estimativa de Copérnico, cujo erro era de 30s. Em 1437 ele publicou sua obra mais famosa: um catálogo de 992 estrelas, chamado Zidj-i Djadid Sultani. As posições e magnitudes das estrelas observadas por Ptolomeu foram contestadas por Ulugh Beg, que encontrou muitos erros nos cálculos daquele autor.  

                 Ulugh Beg era genial, determinou em seguida, os ângulos das inclinações axiais da terra, valores aceitos até hoje. Ulugh Beg estava mais interessado no estudo da matemática e da astronomia do que em guerras brutais.

  Base do enorme sextante do Observatório de Ulugh Beg

                 Transformou Samarkanda num centro cultural da Ásia Central. Construiu uma madrassa na Praça Registan, seu enorme observatório e deixou grandes avanços intelectuais e culturais: contribui com temas como trigonometria e geometria esférica e deu palestras sobre matemática e astronomia até a sua morte.

                 O Observatório foi destruído depois de sua morte e localizado tempos depois por arqueólogos russos. Perto do histórico Afrosiab agora o observatório é um museu repleto de astrolábios, livros, artigos e fotos de sua vida.  Embaixo há uma estátua de Ulugh Beg, enquadrada num contexto da Via Láctea e de estrelas. 

 

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Samarkanda, além do óbvio

                  

                 Depois do indispensável, incrível e imperdível óbvio turístico, o visitante precisa ir além das Samarkanda de Tamerlão e de Lenin, deixar a parte moderna, afastar-se dos tempos soviéticos e das ruas laras e de tráfego intenso, se quiser entrar num labirinto de ruas estreitas, limpas, suburbanas e simples, com seu jeito humilde e próprio de ser.

 

                Ali um visitante sentirá uma atmosfera diferente da que respirou até então da cidade. Não aquela magnifica e impactante, de tirar o fôlego, na Praça do Registan. Só então poderá viver os mais doces, indescritiveis e inesquecíveis momentos de suaestada, como foram nossos 45 minutos de caminhada por onde turistas quase não vão. Não é nada turístico, e ali conhecemos uma doçura que já não existe, uma simpatia que já não se encontra, uma receptividade que ainda toca, uma generosidade que arrebata.

 

  Cerveja usbeque, shashliks e uma caminhada pelas ruas de trás: combinação mais-que-perfeita

               Ali vimos gente em sua atividade rotineira, tocando seu comércio, varrendo suas calçadas, reformando suas fachadas, comemorando um nascimento, orando, papeando, assando shashliks na calçada, carregando o almoço....

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A seguir

Quirguistão – A Suíça da Ásia Central


Reader Comments (20)

Adorei!
Fotos maravilhosas. Parabéns.
Talvez um dia resolva ir para estes lados.

Parabens pelo destino. Estive no Uzbequistão em 1983, quando ainda era uma repblica soviética, mas as mesquitas maravilhosas devem continuar lindas! (Apenas recomendo, Arnaldo, que suas matérias sejam menores. e que vc coloque menos fotos. Um dos problemas encontrados no seu site é que demora muito fazer o download completo da matérias, principalmente quando vc posta umas 100 fotos como desta vez. As fotos são lindas, mas as melhores 20 já daria para fazer uma bela reportagem visual.)

Caro Haroldo, obrigado pela visita, pelo comentário e sobretudo pela sugestão. Acho que exagerei mesmo!

Diogo, pode pensar a sério porque odestino é seguro, maravilhoso e o povo extremamente educado e receptivo.

Os azuis-turquesa, meus favoritos!
Samarkand foi um sonho realizado, quanto tempo me imaginei na frente do Registan...E, como sempre acontece, o sonho é bem diferente da realidade! Toda a estrutura russa pré e pós revolução não apareciam no meu, ingenuidade, claro. Mas a cidade cativa e no segundo dia já era querida.
Seu post está espetacular, querido. Obrigada por me fazer relembrar da nossa maravilhosa viagem.
Um beijo...

12:15 | Unregistered CommenterEmília

Belíssima viagem, Arnaldo. Parabéns e abraços pra vocês.

Obrigadom Beto, pela visita e comentário. Grande abraço.

Estou fascinada, maravilhada e surpresa com esse post, esse lugar estupendo e totalmente desconhecido para mim. Quem sabe um dia consiga chegar lá. O desejo já está plantado.
Parabéns pelo post, belo texto e belas fotos.

23:58 | Unregistered CommenterEneida

Parabéns, Arnaldo , excelente post. Apesar das reformulações desnecessárias, estes trechos autênticos, com seu conjunto preservado, valem a viagem, não só local, mas uma viagem na história. Uma pena que isto vai ser cada vez mais raro.

7:58 | Unregistered CommenterCarlos

Arnaldo, pode ser que tenha exagerado nas fotos, mas as que retratam o cotidiano, pessoas sorrindo, casamento, são fantásticas (preserve essas sempre, por favor). É muito bom sentir, que mesmo com todas as diferenças, somos muito parecidos. Que simpatia se sente no soriso do rapaz e do menino!

10:29 | Unregistered CommenterRosa

Caríssimo,
Eu já acho que não deveria ser reduzido o número de fotos, nem texto. É um grande prazer observar imagens tão lindas, os ângulos inusitados, a variação de cores, a captura da "alma" do local. Agradeço o verdadeiro presente que vc nos oferece a cada postagem. Acredito que já seja um projeto em andamento, mas, se não, deveria: um livro com as melhores fotografias de viagem. Difícil vai ser o momento de decidir qual foto incluir.

17:09 | Unregistered Commentervera

Carlos, o resultado final das alterações não ficaram mal, todavia poderiam ficar melhor, se se aproximassem mais do original. Obrigado pela visita e comentário.

Rosa, o F&F afinal é um blog diferente, não? Tem MUITAS fotos e MUITO texto. Não éum blog geração twitter. Grande abraço

Vera, muito obrigado pela sugestão. Pode estar certa de que toda vez que penso em escrever um livro a pretensão me faz repensar!

Parabéns Arnaldo, adoro esses seus posts que nos faz viajar um pouquinho também, através de tantos detalhes e fotos sempre lindissimas. Sou fã! A nossa wish list de viagem só está aumentando graças a você e a Mila. Obrigada por compartilhar tantos lugares maravilhosos de uma forma tão envolvente. Beijos

Paula, querida, muito bom "ver" você por aqui e ainda mais ler seu comentário. Obrigado! Um beijo.

Caro Arnaldo
Excelente a matéria(texto + fotos). Depois dela nem preciso mais comprar o Lonely Planet como vocês. Não diminua as fotos postadas. O que é esperar alguns minutos para abri o post em comparação com toda a beleza que as mesmas nos trazem aos olhos? Ademais, complementam os textos.
O que tenho a observar, é que acho que, se possível, você poderia registrar alguns endereços de guias, agências, preços, etc, pois isso ajuda em muito no planejamento de uma viagem.
Abraços

Kenneth

Kenneth, muito grato pela visita e comentário. Agradeço também pelo incentivo. Vc está certo, este blog é para quem gosta de ler e ver boas fotos, não caiu na onda das poucas fotos e textos curtos. Bom ter leitores como vc que reconhecem isso, sobretudo que procuram por isso. Há os que insistem em blogs superficiais, com poucas fotos e textos que não dizem nada. respeito, mas não é o que eu procuro fazer aqui.

Quanto aos dados, esse blog não tem a pretensão de ser um guia com essas informações, até porque há muitos guias - de papel e virtuais - de excelente qualidade, que já fazem isso. Inúmeros. O que imagino é que se um leitor quiser perguntar, eu responderei. E no primeiro capítulo da matéria eu dei o nome da operadora e da cia., aérea que voamos. Todavia, acho que o assunto é pessoal e amplo, personalizável, e tudo dependerá de cada um fazer seu roteiro, definir a classe de hotéis, dias que ficará, meios de locomoção.

Grande abraço

Estou á disposição.

Olá
parabéns pelo texto e fotos. Acompanho, silenciosamente, seu blog já a algum tempo com grande prazer mas os relatos sobre a Ásia Central estão excepcionais. Mais uma vez parabéns. Abraços, Dely
PS. em Bangkok, influenciados por você, eu e meu companheiro ficamos no Shangri La e foi uma estadia inesquecível. Obrigada.

Muitíssimo grato pelo comentário e visita. Como está dito no editorial aqui ao lado, o blog não é um Guia de Viagens, mas um inspirador e motivador delas. Se consigo inpirar como tantas vezes o fiz, e ter o depoimento dos leitores, fico muito lisongeado. Obrigado a vc.

Prezado Arnaldo,
Acompanho o F&F há 4 anos e considero suas fotos e textos maravilhosos.
Inspirada nestes posts sobre a Ásia Central , planejei uma viagem para o próximo mês de junho e serei acompanhada por alguns amigos. Confesso que eles foram convencidos do destino após olharem seu site.
Gostaria de agradece-lo, bem como a Emília em A Turista Acidental pela generosidade dos relatos.
Abraços, Rachel

9:27 | Unregistered CommenterRachel

Rachel, fico muito feliz que nós tenhamos incentivado sua viagem!
É uma experiência incrível estar em um dos poucos lugares no mundo em que nós turistas ainda somos pouco9s.
Esperamos sinceramente que tenham uma viagem tão maravilhosa como a nossa.
Um abraço!
Emilia

13:36 | Unregistered CommenterEmília

Arnaldo,
Os textos são longos? Sim...
As fotos são muitas? Sim...
Ainda bem que é assim...

Muito grato.

11:46 | Unregistered CommenterIsaac

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