MENSAGEM ao LEITOR
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BEM-vindo ao Fatos & Fotos de Viagens, um blog sem jabá e não vulgar

        EXISTE no viajar e no escrever relatos de viagens um terreno fértil para demonstrações de arrogância. É algo simplesmente disseminado. Tanto no mundo virtual quanto na literatura. Mas o que o maravihoso mundo da viagens precisa é de mais viajantes humildes, não de "especialistas" caga-regras que determinam de tudo: desde como arrumar sua mala ao único tipo que você deve comprar, do lugar que você tem que ir, caso contrário sua viagem será uma merda. Nunca tão maravilhosa como a dele. As classificações dos lugares também. Tem sobrado superficialidade a egocentrismo. Autores assim não percebem que tudo é muito subjetivo e pessoal, que a experiência e o prazer de alguém não será necessariamente igual ao de outro.  Sobretudo as necessidades.

      A blogosfera "profissional e "monetizada" vulgarizou-se e tornou-se banal. Carecemos de gente que escreva para motivar e inspirar, para alargar horizontes, de viajantes que "mostrem" os lugares em vez de "ensinarem" a viajar. Moderadamente, ponderadamente, sem afetação típica de deslumbrados que viajam pela primeira vez em classe executiva e precisam espalhar para o mundo em resenhas risíveis. Ao contrário, a blogosfera

       ESTE blog, ao contrário, não fez concessões à vulgarização dos blogs depois da "profissionalização" e da monetização de alguns. Ao contrário, este é um blog singelo, simples, pequeno, inexpressivo na blogosfera, não despesperado por audiência nem seu autor se dedica mais à sua divulgação nas redes sociais do que à escrita. Tento dar graça à leitura e consolidar algo que prezo muito: confiabilidade, credibilidade.

        COMECEI a viajar tarde, você sabe. Por falta de dinheiro. Até que um dia viajei pela primeira vez ao exterior. Eu tinha 35 anos. Fui assim apresentado ao então desconhecido mas fabuloso mundo das viagens. Jamais, todavia, pensaria visitar mais de 60 países, alguns muito improváveis à época. Irã, Uzbequistão, Myanmar, Etiópia, Quirguistão entre eles. Mas foi recentemente que compreendi que as viagens ficam pra sempre, não as coisas. E que é por esse mundo ser tão diverso, por cada país ser tão diferente, que me parece tão atraente e divertido.

       NÃO sou escritor profissional. Tampouco jornalista. Mas invejo esses profissionais por dominarem o idioma, a gramática e as palavras.  Ainda assim, faço meu melhor, meu caro, estimado, raro e precioso leitor. Então, peço-lhe que considere algo: que mesmo escrevendo com sensibilidade e responsabilidade, incorro em erros. Se quiser, aponte-os. Tanto gramaticais quanto de digitação. Como tenho revisor profissional, antes de publicar dou curso a incansáveis revisões. E também submeto-os ao crivo de minha esposa. Ainda assim, alguns nos escapam.

      SOU brasileiro, empresário e casado com a Emília do blog "A Turista Acidental" e desde que a conheci (e antes mesmo de nos casarmos), tornou-se a "mais-que-perfeita" companheira de vida, de idéias, de projetos e ideais, sobretudo encantadora, adorável e inspiradora companhia de viagens e de aventuras. Com ela compreendi o que significa "prazer de viajar". Foi (e continua sendo) minha melhor fonte de inspirações e de motivações. Tanto que qualifico minhas viagens como "antes e depois" da Emília e "antes e depois" da Índia. Foi com ela que percebi o que quis dizer Érico Veríssimo com "Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado certamente chegará mais longe." Somos pais de gêmeos - uma menina e um menino - nascidos em julho de 2015, e de um filho de 34 anos do meu primeiro casamento, em quem o gosto pelas viagens pareceincorporado. Não sou avô, mas as coisas estão bem encaminhadas neste sentido.

       HOJE com 64 anos (boa parte deles dedicados à família e ao trabalho), foi apenas aos 35 que pude começar a viajar internacionalmente. Desde então visitei 61 países, entre os quais alguns dos mais fascinantes e com os sítios mais admiráveis do planeta. Felizmente, para alguns deles ainda a salvo do turismo de massa, cujos excessos arruinam qualquer lugar. Em março de 2006, quando iniciei este blog, o fiz como meio de comunicação com a família e amigos. Anos mais tarde eu descobri o poder de contar histórias em textos e fotografias, e logo ele tomou outro rumo, provavelmente porque os leitores gostavam dos textos e das fotos, ou então porque na época havia pouquíssimos blogs.

       FIZ cerca de 90 viagens internacionais, voei por 40 cias. aéreas diferentes (algumas extintas) em 391 vôos para fora do Brasil e dentro de outros países e em todas as classes possíveis. Segundo Haroldo Castro - jornalista-fotógrafo-escritor que já esteve em 160 países -, o maior viajante que conheço, em seu teste "Viajologia" que se pode fazer em seu site, que considera não apenas a quantidade de países visitados, mas lugares, monumentos e patrimônios, além de transportes, experiências e situações difícieis porque passam os viajantes, alcancei "Mestrado em Viajologia". Mas isso não é nada diante de gente que lá já "graduou-se" em pós-doutorado.

Escrevo este blog sob uma perspectiva lúcida e sem concessões à monetização sem critérios

        Eliminei o contador de visitas deste blog quando marcava mais de 6 milhões. Audiência hoje em blog é decadente. Viajar, escrever e publicar algo que inspire e icentive o leitor é o que mais me motiva. NUNCA como blogueiro interventor nas viagens alheias, ou caga-regras dizendo como alguém deve viajar e que tipo de mala usar e essas chatices que definem as pessoas homogeneamente.Parece ser o que traz os leitores até aqui. Ou porque gostem de fotografia, para além da leitura odepórica, como eu. E por este blog não ter captulado à ambição e vaidade que levou tantos autores de blogs à monetização sem critérios, sobretudo enganando leitores, cada dia torna-se menorzinho e menos importante. Se continuarem assim, os blogs precisarão ser reinventados. Este aqui nasceu livre e assim será até morrer. Por enquanto estou sempre por aqui. Nem que seja em pensamento. Só não sei até quando.

         Agradeço a visita e os comentários e desejo boa viagem aos leitores.

Em tempo: este blog não integra nenhuma associação disfarçada de incentivos à monetização. Mas se um dia fundarem a ABBLI (Associação Brasileira de Blogs Livres e Independentes), por favor, me convidem!

#blogsemjaba

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Sexta-feira
Dez072012

QUIRGUISTÃO – A Suíça da Ásia Central 

Estradas ruins, paisagens estonteantes

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Doer para. O que não para é ter doído

                   TODA dor um dia cessa. E vira cicatriz que nos acompanha o resto da vida, nos lembrando a dor que sentimos e também que ela parou de doer. A dor pára, o que não pára é ter doído. Como as cicatrizes.

                    Países que um dia foram dominados por governos sanguinários e que após sua libertação demonstram soberba capacidade de relevar a dor, exercem grande atração em mim. São poucos. Afinal, invasões e dominações cruéis costumam deixar sequelas. Bem mais graves que marcas no corpo. Encarar cicatrizes sem mágoa ou rancor é apenas para povos privilegiados. E pode parecer cruel, revelar insensibilidade ou ainda egocentrismo eu admitir que me atraem como imãs o ferro os raros países que sofreram muito com regimes despóticos mas encaram bem suas cicatrizes.

Como em qualquer quintal de Karakol, paisagem alpina

                  É uma particularidade para a qual tenho profunda admiração. Respeito as mentes elevadas. Talvez porque as inveje. Mahatma Gandhi seria meu melhor exemplo de indivíduo com tal capacidade. Mas aqui me refiro à de toda uma nação, não apenas de um indivíduo, mas a de um povo inteiro que se distingue e sobressai mesmo depois da imensa dor vivida. É um misto de conformismo magnânimo, e admirável, com uma resistência intelectual soberba. Só uma palavra me ocorre para exprimir tal grandeza intelectual e tamanha generosidade moral: nobreza.

Campos cultivados, vistas de tirar o fôlego  

                 O mais tocante exemplo de nossa experiência em conviver com povos profundamente marcados pela dor, e igualmente magnânimos em relevá-la foi no Camboja. Dali saímos tão tocados quanto jamais havíamos pensado numa viagem. Ainda hoje cremos que nunca mais sentiremos emoção igual. Depois foi na Índia. Experiência apenas semelhante, já que a dor ali resulta da imensa pobreza, não de governos despóticos ou regimes sanguinários. Mas também revela seu caráter, especialmente auqle expresso nas faces mais conformadas e resignadas que já presenciei. Ainda não me largam da memória. E espero que jamais saiam. Nem as minhas melhores reflexões e divagações sobre os limites da conformação humana chegariam aos pés dos resultados de viver aquelas experiências ao vivo. Foi ali que percebi o quão pretensiosos eram meus prognósticos sobre tal capacidade humana. Agora, a mais recente experiência foi no Uzbequistão.

Pôr do Sol nos meandros de um rio

                 Quando minha mulher sugeriu o destino eu mal sabia onde ficava. E turisticamente nos proporcionou experiências emocionantes, recompensas brilhantes que almeja todo bom viajante. Lugares onde tivemos as melhores impressões de um povo, esse precioso suvenir de viagem. Universo exótico, de lendas e fantasias, com uma história cruel de conquistas sanguinárias, do mongol Gengis Khan ao turco Tamerlão. Cada qual deixou suas marcas, as cicatrizes que um dia foram imensa dor, a do extermínio de populações inteiras apenas para registrar seus poderes, não por resistência. Bem mais tarde foram os soviéticos, não tão sanguinários, mas igualmente cruéis.

 Crianças doces, adultos sizudos

               NOSSOS momentos foram perfeitos, as experiências memoráveis e as convivências inesquecíveis. Eu poderia resumir assim nossa estada  no Uzbequistão: "grandes momentos".  Mas chegara a hora de deixarmos o país, o que nos rendia a primeira grande saudade de uma viagem incrível. Desolados, deixamos Samarkanda em direção ao próximo destino - Quirguistão, o menos conhecido “stão” da Ásia Central, provavelmente um dos lugares menos visitados do mundo. Desse jeito pegamos a estrada às 7:15 da manhã. Quatro horas depois estávamos novamentoe na agora familiar Tashkent, Capital do Uzbequistão, onde começamos nossa viagem. Nosso vôo pela Uzbekistan Airways até Bishkek sairia às 16:10 h. Havia tempo suficiente para aproveitarmos até a última gota o país. Assim, comemos nosso último plov num restaurante gigantesco - o curiosíssimo Centro de Plov da Ásia Central - que apesar de suas dimensões serve apenas aquele simples, mas saboroso prato nacional. Não deu pra contar, mas assim por cima, havia cerca de quinhentos indivíduos comendo ali.

                 Éramos os únicos ocidentais, atraíamos mais olhares do que o prato nacional. Mas os uzbeques são incrivelmente simpáticos e educados, nos sentimos bem sendo alvo dos olhares curiosos, mas discretos, na imensidão daquele restaurante. Alimentados, nosso próximo destino agora seria o Manas Airportaeroporto internacional de Bishkek, único lugar do mundo onde militares russos dividem espaço com norte-americanos.  A ex União soviética não larga o osso. E os Estados Unidos mantêm base de apoio às sua operações no Afeganistão. Estacionados na pista do aeroporto, os enormes B 52 ficam tão próximos dos aviões de carreira que nosso Airbus A 380 pareceia um monomotor.

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Bishkek, a Capital da Suíça asiática

  Fotógrafo e fotografado, mútua curiosidade

                  Se propaganda não fosse a alma do negócio, o título "Terra do Sorriso" iria para o Uzbequistão, não para a Tailândia. E o prêmio "povo mais simpático do mundo" para o usbeque, não para o cambojano, ainda que a disputa fosse acirrada. Já o "Troféu Limão" sairia das mãos dos antipáticos espanhóis (com relutância!) e cairia na dos quirguises (como uma luva!). Confrontada com a simpatia dos usbeques, a falta dela nos quirguises é chocante. O povo é frio, seco, não se interessa pelo turista, não é simpático, nem mesmo protocolarmente receptivo. Que dirá hospitaleiro. Receber um sorriso natural e espontâneo ali é motivo pra desconfiança. Pior pra eles: quanto mais fechado um povo, mais difícil um turista conhecer sua cultura e gostar dele. O povo do Quirguistão tem lá sua nobreza, óbviamente. Vêm de uma tradição de cavaleiros nômades, de guerreiros das estepes na Ásia Central, ainda que quase sempre tenham estado sob o domínio de governantes do vasto império de um povo estrangeiro, de Genghis Khan aos soviéticos. Mas ali a nobreza do conformismo magnânimo, da admirável resistência intelectual, parecem mascaradas numas dores que ainda doem.

                  Ainda sem conhecer tal indiferença entre o Uzbequistão e o Quirguistão, descemos do avião em Bishkek e enquanto caminhávamos eu pensava: "tenho vontade de viajar desde pequeno". Ainda moleque, viajava nos sonhos, nas revistas e na imaginação. Mas daí pensar que um dia iria ao Quirguistão tem uma distância. Menor do que a sorte de estar ali, maior do que a da porta do avião até o balcão de vistos. Não fosse minha doce Emília, provavelmente minha ignorância me faria jamais ter visitado o país.

                Se o desembarque e a imigração em Bishkek são brincadeira de criança, em Tashkent a coisa é para doutores. Incrivelmente simples e rápido, o Quirguistão tem o regime de vistos turísticos mais liberal da Ásia Central.  E se o Uzbequistão é um destino de contos das 1001 noites, para apreciar patrimônios culturais e arquitetônicos sem paralelos, o Quirguistão se destaca pela natureza. E que natureza! Tashkent é cinza, Bishkek é verde: cerca de 90% de seu território são cobertos por montanhas e lagos. Verdejantes e límpidos. É um país com paisagens que a gente só vê na National Geographic. Ou indo até lá. As fisionomias também são diferentes. Aqui são orientais, primordialmente da etinia chinesa han com pitadas mongóis. 

 

                    A beleza natural é estonteante. Com a vantagem de não ser asfaltada como nos Alpes suíços, ou plastificada e certinha como nos austríacos. Logo estávamos a caminho do hotel, bem longe do aeroporto, no centro da cidade. Ele fica de frente para a cordilheira Tian Shan, no Vale do Chui. De nossa janela avistávamos a magestosa carreira de montanhas, e mais abaixo a cidade relativamente nova, lugar ideal para começar uma viagem às montanhas e aos lagos alpinos. As experiências aqui seriam outras: o convívio com a natureza, já que em termos de patrimônio arquitetônico é quase nula. E creiam, pelo que vimos, e que o leitor pode julgar pelas fotos, as paisagens  de montanha são estonteantes, as experiências de caminhar por elas fabulosas e a beleza natural impressionante.

Circo. Herança cultural e arquitetônica soviética

                 Das cidades que visitamos na Ásia Central, esta é com mais e maiores resquícios soviéticos. Planejada por urbanistas czaristas, tem avenidas grandes, praças enormes, parques ainda maiores e muito, muito verde. Mas também tem muito mais aparência ocidental que oriental. A beleza natural contrasta com os edifícios administrativos e residenciais dos tempos soviéticos. Ou de hotéis de cadeias americanas. E tudo é perfeitamente emoldurado pela cordilheira Tian Shan, cujos 4800 metros de altura ainda estão cobertos de neve nesta época do ano. A cidade é plana, coladinha na base da cordilheira, o que garante a vista sempre dominante. É ela que anuncia o quão cênico é o interior do país.

 

                 O dia foi inteiro de caminhadas pela cidade. Bishkek não é nenhum encanto, mas não deixa de ser uma cidade agradável. Os locais a chamam de Cidade do Sol. Dizem que até mesmo no alto inverno raramente se vêm nuvens. Com beleza assim e clima ideal, turistas vão ao Quirguistão para fazer trekking e montanhismo, não para visitar Bishkek. É fácil conhecê-la bem em um dia de caminhada pelas suas principais atrações, começando pela Victory Square. Bishkek é agradável para passear de dia, mas à noite as ruas são mal iluminadas, as calçadas são e irregulares e podem ser um perigo no escuro. Hotéis sugerem evitar andar pelas ruas à noite. Os táxis são baratos e devem se evitar os ônibus, porque há batedores de carteira. Para quem procura resquícios soviéticos Bishkek não desaponta. Seja na praça principal ou entre as árvores de uma de suas inumeras praças. Há edifícios, monumentos, estátuas e lembranças da ex URSS por todos os lados.

Victory Monument na Victory Square

  

                O ponto de partida para um passeio a pé por Bishkek é o Victory Monument na Victory Square. Este memorial foi concluído em 1984, no 40º aniversário da vitória sobre a Alemanha nazista na segunda Guerra Mundial. O monumento tenta relembrar uma yurta, através de três costelas de granito vermelho que representam a estrutura fundamental da tenda. No centro há uma figura de uma mulher representando sua importância na sociedade e na família quirguis, a chama eterna, e a espera por seu marido que nunca retornará da guerra. O conjunto leva à reflexão sobre o grande custo da vitória. É o lugar predileto para noivos colocarem flores em memória dos mortos e para fotos vestidoa a caráter.

  Da arquitetura aos quepes

                Da grandiosa arquitetura concreta aos quepes dos militares que guardam a "Casa Branca" quirguis, tudo ainda parece promover as virtudes do comunismo. Num dos frondosos parques fica o imponente monumento à uma heroína genuinamente nacional - Kurmanjan Datka, rainha do Quirguistão -  que no fim do século XIX e início do XX foi responsável por liberar o fértil Vale de Fergana do domínio do Canato de Kokand.  Vizinho a ele, não é preciso procurar Lenin. Ele domina um pedaço da Praça Ala-Too, ou Ала-тоо аянты, principal e enorme espaço público da cidade, onde fica a bandeira nacional e acontece a troca da guarda.

               Construído em 1984 para comemorar o 60º aniversário da República Socialista Soviética do Quirguistão, em seu centro, dominando o lugar, sob um enorme pedestal de mármore ficava a prodigiosa, extraordinária estátua de Vladimir Ilyitch Uliánov, vulgo Lenin.Ficava porque em 2003, já independente, o governo a transferiu para, digamos, os fundos da praça, e atrás do Museu Histórico do Quirguistão, o herói bolchevique. Aqui a atração mais interessante é a cerimônia da troca da guarda, cuja coreografia é baseada na de Moscou, talvez o maior resquício da ainda muito presente era soviética.

 

 

                   Ainda que a causa tenha sido nobre, Lenin foi mesmo é despejado. Perdeu o posto para um herói verdadeiramente nacional: Manas, montado em seu fiel cavalo Akkula, representando numa composição em bronze chamada Erkindik, ou liberdade. O cavaleiro herói foi responsável por unir quarenta clãs do Quirguistão contra seus inimigos - os uiguris -, condição fundamental para encerrar o sectarismo e construir o estado quirguis. Dizem que a estátua de Manas foi inspirada em outra, a de St. George, em Moscou. Talvez para  mostrar que as semelhanças entre  quirguizes e soviéticos existissem apenas na imaginação dos segundos.

Manas em seu fiel cavalo Akkula, na Praça Ala Too


                    Todavia a curiosidade maior sobre a estátua de Lenin é bem discreta: além de despejado, agora Lenin olha para o Edifício do Parlamento, símbolo da democracia.

                     Mas há outro fato inusitado, este ainda mais discreto. Ele nos faz lembrar que nada é para sempre. Tampouco os regimes totalitários.  Escondido, o detalhe fugirá à percepção de um visitante desinformado: bem defronte à estátua de Marx e Engels fica o prédio da Universidade Americana (ops!) da Ásia Central. Originalmente era um edifício da administração soviética.

                    Em sua fachada há uma bela escultura lavrada em pedra. Nela estão representadas a foice e o martelo, símbolo comunista. Imediatamente abaixo, agora há um letreiro: American University of Central Asia. E para este olham Marx e Engels, sentados lado a lado, eternizados em bronze, conversando sobre o que enxergam. Provavemente sobre as voltas que este nosso insólito mundo dá.

É verdade, companheiro, esse mundo dá muitas voltas...

                    No mesmo parque Dubovy, ou Parque dos Carvalhos, além daqueles exemplos da natureza, as belissimas árvores, há outras atrações, como um obelisco gigante, vermelho, em mármore, que marca a sepultura comum dos bolcheviques mortos em 1918 durante a contra-revolução. O homem creditado por derrotar a contra-revolução é Yakov Nikoforovich Logvinenko, também enterrado aqui.

                    No centro da Praça Ala-Too há um enorme mastro com a bonita e gigantesca bandeira do país, de onde podem ser vistos alguns edifícios de cúpula douradas à sua frente. A praça tem um triste hitória. Perto dela, há um monumento memorial que o relembra: em março de 2005 foi local do maior protesto contra o governo da revolução das tulipas. Depois de semanas de agitação por todo o país, cerca de 15 mil pessoas se reuniram para protestar contra os resultados das eleições parlamentares de 2005, defronte ao palácio. O presidente ordenou que seus solados atirassem contra os manifestantes. Duas pessoas foram mortas e mais de 100 feridas. Mesmo assim, invadiram a "casa branca" e forçaram Askar Akayev, primeiro presidente do Quirguistão, a fugir do país e demitir-se do cargo.  

 

                   O auge soviético em Bishkek está denro do curioso Museu Histórico. Ainda mais curioso e original por não ter nada escrito em inglês. DO teto ao piso o prédio é soviético até nas fundações. Grandes escadarias de mármore se abrem para a maior exposição centrada em Lenin que deve existir no planeta fora de Moscou. Tudo, de bustos a livros, cartas a artigos de jornal e exposições de fotografias a cenas de batalha e momentos vitoriosos na vida Lenin. 

  

Museu Histórico. Profusão de alegorias da Propaganda soviética

                   O Osh Bazaar, maior da cidade, é completo, o mais movimentado e complexo,  dividido em diferentes áreas, de mercado de roupas e utensílios domésticos a alimentos industrializados e horti-fruti-granjeiros.  É uma das mais curiosas atrações da cidade. Na muvuca também se vende de carne de cavalo às partes mais inusitadas do corpo bovino.

Osh Bazar. De carne de cavalo a Café Pelé

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A seguir

Trekking nas alturas - As montanhas Ala Tau

NOTA: Segurança: conflitos políticos e motins étnicos podem causar problemas, especialmente no sul do país, área não considerada segura para viajar. A capital Bishkek e o norte do país não são particularmente perigosos. Há corrupção, crimes, alguma violência e as mulheres não devem viajar desacompanhadas. As estradas são ruins, há excesso de velocidade, falta de sinalização e regras de trânsito negligenciadas. Inglês não é falado no Quirguistão. Aprender alguma coisa de russo ou quirguis é fundamental para quem viaja sem guia.  

 

Reader Comments (24)

"É um país com paisagens que a gente só vê na National Geographic. Ou indo até lá."
Agora a terceira opção: a gente tem o privilégio de ver acessando o incrível blog F&F.
Que crianças fofas!!!

14:35 | Unregistered CommenterRosa

Cara Rosa, as crianças são encantadoras. Essas duas aí arrancaram nossos mais francos olhares de carinho e admiração. Crianças são crianças, em qualquer lugar do mundo, mas essas aqui, não sei como te contar!

Obrigado e grande abraço!

Arnaldo.

Fenomenal..... Fotos de tirar o fôlego.. Além de ótimo para abrir nossos horizontes..

Parabéns, como sempre..

Obrigado, Daniel. Grande abraço!

Arnaldo, se não fosse seu relato e as belas fotos, eu até duvidaria da existência de um lugar destes.
Simplesmente mágico!

É uma paisagem deslumbrante. Certamente as pessoas sentir-se pequeno diante da imensidão da natureza.

Eu não sabia nada desse país. Eu estou contenta de ler suas histórias e descobrir essa parte do mundo que eu não conosco e que é provável que não pode visitar jamais. É uma pena!

As fotos são fantásticas. Suas fotos mostram muito bem o poder da natureza. Sua viagem para a Ásia Central tem sido uma descoberta completa pra mim.
Bjs

16:28 | Unregistered CommenterCarmen

Que paisagem , Sensacional , voces foram por alguma operadora ou agencia ou por conta propria ?
Quantos dias voces ficarão no Quirguistão ? as acomodações eram boas ?
Desculpe tanta pergunta , mais com certeza vou incluir esse local em minha lista , assim como o Uzbequistão ,que já havia lhe dito é muito , mais muito parecido ,visto por suas fotos com as que tirei pelo Irã.

18:49 | Unregistered Commenternelson.l

Um belo artigos com fotos muito boas!
Muito parabens!
http://documentaromundo.wordpress.com

7:56 | Unregistered CommenterLuis

Que viagem fascinante. Não imaginava que haveria belas paisagens nesses lugares.
Fiquei encantada com as fotos. Parabéns!

Abraços,
Lillian.

Arnaldo,

Primeiramente quero agradecer sua generosa visita ao meu blog. E, também tenho que parabenizar esse belíssimo blog. Textos exuberantes. Viagens exóticas. Pesquisas detalhadas. A leitura é envolvente. Fui transportada para o Uzbequistão. Lindo país.

Acabei de voltar do Butão. Assim que terminar de escrever sobre a Índia começo a série de posts sobre o Butão. Pais espetacular e muito pouco visitado, também. Recomendo o Butão para vocês, pois percebi que gostam de destinos pouco prováveis.

Um abraço,

Claudia

Há algo na primeira foto desse post que me atrai de maneira especial. Por algum motivo (que não é lá muito difícil de explicar) sinto especial atração por lugares como esses que preservam tamanha autenticidade. É curioso e quase um paradoxo pensar que de certa maneira, quando mais estruturado um lugar se torna ao turismo, menos turístico ele se torna! Mas o que é um lugar turístico afinal? É onde os turistas conseguem comprar chaveirinhos e miniaturas de monumentos a cada esquina? Onde existem multidões cumprindo um trajeto protocolado? Prefiro pensar que um lugar turístico é onde o turista consegue VIAJAR BEM. Consequentemente, consegue voltar para casa uma pessoa um pouco melhor do que a que partiu. E pelo que você transmite Arnaldo, o Quirquistão, na minha concepção é um lugar verdadeiramente turístico.

CLAUDIA Liechaviciius. Nós adoramos rever Delhi (que visitamos duas vezes) em seu blog e através de suas ótimas fotos e útil texto. A Índia nos conquistou irremediavelmente e queremos voltar ao país para revisitar o que mais gostamos e conhecer o que ainda não tivemos a oportunidade.

Sim, somos viajantes com preferência por lugares incomuns, mas também adoramos os mais conhecidos e turísticos. Em maio, por exemplo, iremos à França explorar o sudoeste e o sul do país. Certamente o Butão sem dúvidas está entre os primeiros 10 países que temos vontade de conhecer em nossas próximas viagens e certamente serei um leitor atento aos seus posts sobre sua viagem pra lá.

Agora em fevereiro iremos a Mianmar, com uma "pssada" em Doha, Qatar. Estamos "namorando" o Irã, e possivelmente será nosso próximo destino "improvável". Também almejamos a Etiópia (haverá um vôo do Brasil para Adis Abeba, pela Ethiopian Airlines, em 2013), Tanzânia com Zanzibar e alguns países não tão "improváveis", mas menos turísticos, na Europa.

Um grande abraço e obrigado pela visita, comentários e elogios.

Parabéns Arnaldo, não vou usar os tantos adjetivos necessários para qualificar os seus textos, ou para as suas fotos. Você já tem tido muitos e merecidos elogios. Quero apenas agradecer por dividir tudo isso conosco. Certamente, a grande maioria dos visitantes do F&F não conseguirão viver estas experiências pessoalmente (penso eu, esse é o meu caso), mas vivemos um pouco de cada um desses lugares, dessas culturas e da história desses povos pela lente que o seu olhar nos conduz e que seu texto descreve. Obrigada.

Caro Arnaldo

Seu blog, a meu ver, é um dos melhores que navegam nesta internet brasileira. A beleza de suas fotos, o texto bem escrito, as viagens a lugares fora do circuitão tradicional. Que sorte a minha em ter conhecido este MARAVILHOSO blog.
Parabéns e Muito Obrigada por sua generosidade em compartilhar suas experiências conosco
Seu blog me alivia a alma
Abraços
Maria Esther Rolim

Muito bom vc compartilhar as suas caminhadas. As imagens estão lindíssimas. Parabéns
O blog me supreendeu, pois, de início imaginei que seria algo menos, vamos dizer, profundo.
Abrçs

15:08 | Unregistered Commentergeraldo

olá ,gostei muito dos textos e fotos,mas gostaria de fazer algumas perguntas uma vez que vou atravessar este país vindo de Kashi e Xi'an na china de bicicleta queria perguntar o que acharam da segurança,se ha zonas minadas como refere o site da CIA na américa e se foi necessário visa nas fronteiras uma vez que aqui me dizem na agência que me vendeu o bilhete e na que me esta fazendo o pedido do visa para a china que não é necessário (pelo menos para cidadão português) não sei se, como brasileiro foi necessário ou não
obrigado
Http://namastibet.blogspot.com

Desculpe, Jorge santos, NUNCA li ou ouvi falar sobre ocorrência de minas no Quirguistão. Para brasileiro tiramos visto sim, mas na chegada no aeroporto. Para o Uzbequistão tiramos antes.

Caro Arnaldo,

Adoro o seu blog, com textos super completos e bem escritos e fotos espetaculares!

Estava sondando a idéia de passar pelo Quirguistão numa viagem em abril deste ano. Será que é uma boa época?

Em que época do ano você visitou o país?

11:05 | Unregistered CommenterThiago Sá

Adorei ler seu post! Estive em Bishkek em novembro, época ruim para visitar as montanhas, mas achei a cidade muito gostosinha e estou pensando voltar lá para melhorar meu russo.

A propósito, suas fotos são de dar inveja (aquela inveja boa!)...

Pedro, desculpe a demora (estamos em pelna viagem à Etiópia e nem sempre consigo conectar. Bem, fomos em setembro, a temperatura e o clima eram excelentes. Creio que em abril ainda deva ser um pouco frio. Mas vale pesquisar nos sites climáticos. Obrigado pela visita e comentário.

Parabéns pelo relato de sua viagem e pelas belas imagens, tenho estes países na lista de minhas próximas viagens :-) Se não for incomodo gostaria de saber se vocês foram através de uma agência de viagens ou organizaram tudo sozinhos? Eu costumo viajar sempre sozinha, isso seria um empecilho para visitar o Quirguistão? Vou começar a estudar um pouco de russo para aproveitar ao máximo a viagem quando for :-) obrigada

14:17 | Unregistered CommenterClaudia

Claudia, nóstambém viajamos sós e independentemente, mas para certos lugares é muito melhor arranjarmos tudo antecipadamente. Neste caso, organizamos e personalizamos a viagem com a Highland Adventures (http://www.highland.com.br/) aqui no Brasil.

Se precisar de alguma informação adicional que estiver ao meu alcance, por favor, pergunte.

Olá, que bom saber sobre o Quirguistão. . Estou querendo ir lá em Maio sei que o visto eu consigo na entrada do país, através da operadora de turismo local, essa operadora é lá? além disso eu preciso me preocupar com outras coisas? Vou viajar sozinha, meu namorado foi trabalhar lá e vou visita - lo. Gostaria de saber mais sobre a entrada no país. Obrigada

0:07 | Unregistered CommenterThalita

Belo texto, só queria registrar que Gandhi não é o homem que todos gostariam que fosse (assim como Madre Teresa). Deve ter alguém decente para se cultuar, mas ainda não encontrei: http://www.vice.com/pt_br/read/gandhi-era-um-racista-que-obrigava-meninas-a-dormir-na-cama-com-ele

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