CONHEÇA O AUTOR

 

         Depois de estabelecer-se na Internet - em 1999 - escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo, da Editora Abril e, agora, prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando, assim, na literatura de viagens com um livro encantador, segundo o autor, o primeiro de uma série de pelo menos quatro que já planeja produzir, dois deles em plena fase.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de apenas uma "conversa" com o leitor, baseada na informalidade, o livro mistura traços desta coloquialidade e informalidade com os de uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida. 

             Por bom tempo - antes de me decidir por publicar um livro - meu lado esquerdo do cérebro brigou com fúria contra o direito até certificar-se de que o leitor teria nos meus livro não os textos que escrevi no blog, porque, entre outros motivos, livro é coisa séria, e ninguém (ninguém de verdade!) merece ler posts de blogs reproduzidos em livros, especialmente textos efêmeros, perecíveis, descartáveis ou preocupados em agradarem "o mercado" e a blogosfera. Felizmente, ao que parece, posts continuarão restritos aos blogs e livros a serem livros. O tema da viagem parece ainda não ter-se banalizado na literatura universal, nem ter-se rendido às formas diversas da monetização.

           Minha ascensão na escrita de viagens com este trabalho literário não é exatamente uma novidade. Ainda que recentemente eu tenha notado a mente lampejar com a ideia: tornar-me um escritor de viagens. Todavia, ela sempre me rondou. Mesmo que a alguma distância. Não foram poucos os amigos, parentes e leitores do blog que há mais de dez anos recorrem à pergunta: “Por que não escrever um livro?”

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti na categoria Reportagens

Ronize Aline:

             "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária, crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

 


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Quinta-feira
Mar152012

VARANASI, Índia. Retratos da vida na cidade da morte

 

 Dashashwamedh Ghat, principal e mais espetacular lugar de Varanasi

                         AO contrário do que imaginávamos, há bem mais vida que morte nos ghats (*1) de Varanasi. Presenciamos muito mais celebrações à vida, ao hinduismo e ao Ganges do que à morte. A cidade é movimento, festa, peregrinação, fé. Até mesmo quando assistimos cremações, notamos um certo caráter festivo nos eventos. 

                        A morte é coadjuvante, definitivamente não está em tudo nem espalhada por todo canto como se pode supor. Varanasi foi reveladora e surpreendente, não foi difícil compreender a moral e o caráter de todos os eventos que se desenvolvem nos ghats, perceber seus sentidos e encará-los de forma ética, alinhando-nos na tentativa senão de compreendê-los, aceitá-los.  "Aceitação”, afinal já sabíamos ser a chave para se gostar da Índia. Ainda que as extravagâncias sejam de matar qualquer pretensão de entendimento -  especialmente a moral religiosa hindu -  presenciar os eventos nos ghats é uma experiência complexa do ponto-de-vista da sociedade em que fomos criados.

                        A cidade é repleta de vida e misticismos, de peregrinação religiosa, de antiguidades e vibrações, de todas as energias que apenas a vida pode proporcionar.  E mesmo quando o tema é a morte, Varanasi propõe ao visitante sua compreensão sob um ponto-de-vista diferente do que se tem aqui deste lado ocidental e cristão do mundo. Quando se visita um ghat de cremação, pratica-se o voyerismo. Afinal, quase todos vão ali para isso. Mas o turista que o faz bem abastecido de informações, sabendo o que observará, e acompanhar-se de um bom guia, poderá compreender que a morte é um evento positivo em Varanasi.

    

Todos seguíamos na mesma direção, ombro a ombro, com igual frenesi...

                  Caminhávamos prestes a entrar num dos mais caóticos lugares do planeta, de onde não se sai incólume e sem marcas. No trecho mais velho da cidade íamos em direção ao ghat, o lugar mais auspicioso da Índia, situado à margem do Ganges. Alinhados à multidão, todos na mesma direção e com igual frenesi, passávamos entre edifícios decrépitos e a maior gama de exotismos e extravagâncias que jamais supomos presenciar. O clima era vibrante. E todos pareciam compartilhá-lo. Entretanto, para nós por vezes aparentava pouco mais do que poderíamos suportar, ainda que jamais tenhamos chegado a tal ponto. Nosso destino era o Dashashwamedh Ghat, principal e mais espetacular lugar de Varanasi.  

   Não há melhor maneira de conhecer os ghats em toda dimensão que num passeio de barco

                           A ansiedade nos provocava confusões mentais impossíveis de aplacar, o que jamais sentimos nem mesmo em nossas outras andanças pela Índia. Esperimentávamos tantas e tão novas experiências nesta segunda visita à Índia, mas jamais poxíamos supor como seria o primeiro encontro com o mais vibrante ghat de Varanasi, um universo paralelo.  

                          A peregrinação aos ghats é ao mesmo tempo emocionante e desconcertante. Como num ritual, sua aproximação exerce efeitos incríveis e complexos aos que chegam e permanecem mesmo depois que chegarmos, parecem perdurar até o fim do dia, já na volta ao hotel.

 

Nas águas sagradas do Ganges, lava-se roupa, o gado, faz-se a “higiene” pessoal e celebra-se o hinduismo

                 A experiência dura pouco mais de dez minutos, mas é transcendental. Ao menos não está quente. É Inverno na Índia. Melhor assim. Afinal tudo o que vemos, sentimos e vivemos no percurso até o ghat é ora controverso, ora contraditório, mas sempre obscuro, improvável, compreensível, por vezes até inaceitável. São os efeitos estranhos que, Varanasi provoca, fruto da inspiração que absorvemos a cada passo do caminho, das imagens que vemos a cada esquina, das contradições que percebemos a cada passo. Estamos, não sem surpresa, na mais espiritual e sagrada cidade da Índia, e sabemos que ela é toda de espantos, de vida e de morte, de peregrinação e de excessos. Também sabemos, e sentimos na pele, que o turista é insignificante, peregrinos são a maioria e o mais importante para a cidade.                         

                  O Caminho até o ghat é chocante, mas não há tempo para frescuras, só lugar para as ansiedades, talvez para um pouquinho de nervosismo, apreensão, nada mais. Para os hindus Varanasi é o "portal para o Céu", tão sagrada a cidade quanto o Vaticano e Mecca para os cristãos e muçulmanos, ou como Sarnath para os budistas, cidadezinha que visitamos depois de 3 dias em Varanasi. Para nós tudo não passou de uma experiência memorável, uma das mais penetrantes e adoráveis que tivemos em viagens, mesmo na Índia.

  Peregrinos, religiosos, turistas, mendigos e touts ocupam seu lugar num degrau do Dashashwamedh Ghat 

                     Todos - turistas, peregrinos, mendigos, leprosos -, definitivamente a mais complexa e variada gama de indivíduos e raças, com as mais isondáveis intenções, além das bicicletas, de motonetas, de animais, de sujeira, mercadorias e carrocinhas seguia disputando o mesmo exíguo espaço. O caos é apenas aparente caos, há aquela ordem subliminar que só ocorre na Índia. A direção? O lugar mais sagrado de Varanasi, a cidade mais sagrada da Índia, um país já sobrenatural. Estar ali equivale ao que deva ser a experiência de viver noutra dimensão, a subverter compreensões de como as coisas funcionam. Ali se vive e tudo segue ritmos, formas, forças e modos diferentes.

  

                    Há 84 ghats em Varanasi. Eles têm a forma de escadarias, são como arquibancadas, servem a diferentes finalidades. Construídos ao longo dos séculos, muitos estão relacionados à religião hinduísta, isto é, aos banhos sagrados e tantos outros rituais. Mas também há os ghats utilitários,  usados para lavar roupas, o gado e para “higiene” pessoal (*2) . Os ghats crematórios chamam-se shmashan ghats. Neles apenas crianças e mulheres grávidas não são cremados: crianças são puras e mulheres que as levam no ventre também. Os leprosos não se cremam porque supõem-se haja riscos de contágios, assim como pessoas que morreram picadas por cobras venenosas também não são cremadas: seus corpos são lançados no rio, assim como as cinzas e os restos de corpos não inteiramente cremados.

                  Alguns dos mais importantes são os ghats Lalit, Assi, Dasaswamedh, Manikarnika, Tulsi e Panch Ganga. São de longe a melhor atração, os lugares mais coloridos, fascinantes e surpreendentes de Varanasi, cada qual com sua história e importância, construído por um rei diferente e inspirado cada qual em uma própria mitologia. 

                                               

   A direção? O lugar mais sagrado de Varanasi: um ghat 

                 Ainda que uma tentativa ingênua eu procurava compreender a moral e o caráter dos eventos que se desenvolvem nos ghats. Ou então procurar seu sentido, a fim de que de uma forma mais ética me alinhasse a eles. Mas as extravagâncias eram de matar qualquer pretensão de entendimento das regras da moral religiosa, de uma vida de experiências aparentemente sem limites, especialmente sob o ponto de vista da sociedade em que me criei. Só consegui alcançar a acenitação, jamais a compreensão de tudo tão paradoxal, que depois de tamanha evolução a humanidade ainda me surpreendessem crenças e mecanismos tão esdrúxulos, tais como pingar gotas do rio putrefado na boca de um recém nascido a fim de assegurar sua saúde, banhar-se e beber daquela sopa imunda. Nenhuma questão moral me abatia, apenas a perplexidade, que afinal acompanhou-me por todo o tempo, tanto quanto encantou-me a estada em Varanasi.

                   Talvez por isso Varanasi seja um perigo para os desavisados, uma inconseqüência para os fracos. A mais incomum das cidades do planeta não é um destino tão recomendável e distinto, tampouco um lugar para se cair de amores. Visitar a cidade não é uma experiência romântica, muito menos relaxante. E ainda que memorável, é desconcertante. Como em toda a Índia, para uns é deplorável, para outros adorável. Para quase todos, todavia, é desoladora, porque abala conceitos, dissolve paciências, exige resignação, o que nem sempre está tão disponível em todos. Não se indica aos viajantes mal informados, senão aos experientes. Tampouco aos estômagos fracos e às mentes melindrosas.

 

                    Engana-se quem acha que a cidade atinge apenas aos místicos e religiosos. Ao contrário, exerce influências iguais nos céticos, agnósticos e ateus. Todavia é fortemente contra-indicada aos inocentes, aos ingênuos, aos desatentos e despreparados. Para estes reserva sérios efeitos colateriais. De todos, indistintamente, requer senso de humor e olhar abrangente. Cairá melhor em quem assumir o voyerismo da morte e a observação de extravagâncias sem culpas, mas ainda assim será cruel e implacável. Em Varanasi a morte não é trágica nem surpreendente.

                       Ao contrário, trivial e aguardada, é corriqueira, ainda que solene. Tirará mais proveito aquele que se preparar para os ghats - mas os que são palcos da vida, não da morte. Assim como para os galis, seus coadjuvantes. Ambos são desnorteantes, os primeiros amplos, os outros labirínticos. Por eles jamais se caminha placidamente, corpo e mente seguem quase sempre em desvario. São mundos paralelos, por vezes sombrios demais, ásperos e opressivos. Noutras são extremamente vibrantes, amplos, claros, cheios de vida. Ambos - ghats e galis (*3) - exigem bem mais do que muitos conseguem suportar. Mas são uma jóia rara para quem se atrai por mistérios, quem se encanta com exotismos, quem aceita bem os contrastes, digere excentricidades e admite diversidades.

 

                         Varanasi dá trabalho. E que trabalho dá ao cérebro! Exige preparo, talvez o maior que já se requere para a Índia. Precisa-se muito dele para observar e compreender o fim da vida ao modo hindu, especialmente quando observada de um ghat de cremação. Ali, aquele que encarar as cremações como um simples espetáculo, estará incorrendo em ingenuidade e inconseqüência. Não se tratam de simples queima de corpos, mas algo para se compreende e aceitar a inexorabilidade do fim da vida. 

                         Tanta concentração pode tornar raros os momentos de relaxamento, mas será viver momentos de reflexão e encantamento, ainda que possam representar o desgaste de energias vitais, o desalinhar de pensamentos, prova aos sentidos, questionamento de convicções, especialmente as não muito convictas. Para quem já gosta da Índia, recompensa mais do que cobra, vale mais do que custa. E faz o visitante perceber a complexidade da humanidade e da vida. Não deixa pedra-sobre-pedra sobre o que seja a Índia e até adiciona sabedoria ao visitante.

                          Somos alvos veementes da ação dos touts e de suas tentativas de ganhar algumas rúpias dos visitantes estrangeiros. São os mais insistentes da Índia. Jamais aceitam “não” como resposta. E não desgrudam. Nem mesmo quando os ignoramos. São criativos. Como Shiva, são onipresentes. Os ghats são seu ninho, mas nos galis se dispersam. Aproximam-se com o papinho de sempre, “informam” gratuitamente que é muito bom pro o karma pagar por um quilo de lenha aos que não têm dinheiro pra comprá-la. E olha que nem é tão caro assim o custo de limpar a barra de seu karma: cerca de 200 rúpias. Convenhamos, é muito econômico liberar seu caminho pro céu em Varanasi. Qualquer cidadão decente não exitaria em doar uns trocados para famílias paupérrimas comprarem a lenha para cremar seus mortos. Caso contrário, teriam que jogar o corpo diretamente no rio. Entretanto, se a doação vai chegar ao destinatário e, mesmo chegando, se será usada para ao fim proposto, aí já são outras quinhentas rúpias. Para a cremação gastam-se cerca de 360 quilos de madeira. Custam até 7 mil rupias. É muito dinheiro para muitos indianos. Alguns ganham essa quantia por um mês de trabalho duro. Não quero nem me referir às interferências assustadoras dos touts que flagram turistas fotografando uma cremação.

 

                         Por ali não há o romantismo, tampouco as cores do Rajastão. Nem a dança sensual, a elegância indiscreta de suas mulheres. São parcos os prazeres que ela concede, ao menos nos aspectos turísticos. É mais cheia e suja do que todas as cidades do Rajastão e de Uttar Pradesh juntas. Respira-se o mais complexo misto de cheiros desagradáveis que se possa sonhar produzir. Qualquer curtume de Marrakech parecer cheirar a água de colônia comparado aos de Varanasi. Mas se a autencidade é o foco, se o apelo turístico é autêntico, tudo poderá ser tão deslumbrante quanto pode ser o sobrenatural, tão excitante e perturbadora, feia e bela como só ela consegue ser. 

 

                      As águas do Ganges - o rio mais sagrado da Índia e maior patrimônio de Varanasi - têm a cor e consistência de uma sopa de ervilhas. Silencioso, o caldo segue seu curso testemunhando a história e os incrívei, variados eventos que se desenrolam nos ghats. Para ali os hindus vão encontrar a morte, ou para apressá-la, a julgar os que bebem dela. Aqueles que já a encontraram são levados à cremação. Suas cinzas, assim como o resto que o fogo não consumiu, jogam-se ao rio, no mesmo rio onde homens, mulheres, crianças e animais mergulham até o pescoço, turistas navegam, corpos boiam, bilhões de litros de esgoto são despejados, “lava-se” roupa e toma-se o banho sagrado para a livração do mau karma. Os muito pobres lançam os corpos de seus entes queridos embrulhados em chita diretamente nas águas, antes amarrando-lhes pedras para que afundem no leito do rio. Eles não têm dinheiro para a lenha. Esta perfurante realidade cotidiana é tão comum que nem mesmo a morte a estanca: a vida continua. São vivos os ghats da morte em Varanasi.

  

                         A vida num ghat não termina com a morte, segue um ritmo próprio, rápido como nos galis, lento como as águas do Ganges. Mesmo com todo seu poder de afastar, Varanasi atrai. Há milênios. De Buda a Shiva, de Mark Twain a Paul Theroux, de celebridades hollywoodianas a outras tantas mundiais, de turistas comuns a curiosos, de estudiosos a religiosos, de ateus a voyeurs. E a todos atrai pelas mais variadas razões, de uma simples experiência turística aos fins mais nobres: pesquisas filosóficas, religiosas e antropológicas, tratamentos terapêuticos naturais, busca de inspiração para um livro, um filme, para a moda, para aperfeiçoar-se no yoga ou aprender culinária. Todos passaram, passam e passarão pelos mesmos becos sombrios, sob os mesmos edifícios decrépitos, entre as multidões permanentes, pisando na mesma sujeira de sempre. E ao fim de suas jornadas terão a impressão real, espontânea, natural e inquestionável, positiva ou não.

 

    Ainda mais atrás estão os galis, becos labirínticos e estreitos, os “bastidores” daqueles “palcos”.

                         Nenhuma viagem à Índia é igual. E ninguém compartilha das mesmas opiniões. Sabemos que experiências de viagens são diferentes, ainda que iguais sejam os roteiros. Dizem até que há dois tipos de viajantes: os que já foram à Índia e os que ainda não. Entre os que já foram, há dois subtipos: os que amam e os que juram não voltar. Muitos, todavia, não sabem é boa parte dos que detestam poderia figurarar entre os primeiros se tivessem se preparado para ir à Índia.  Nós estamos entre os que amam a Índia, desde o primeiro encontro. e entre os que acham Varanasi uma experiência indispensável a qualquer indivíduo adulto e maduro.

 

                         Este relato, em dois capítulos - 1) Varanasi. Retratos da vida na cidade da morte, e 2) Varanasi. Morte, um evento positivo - é um apanhado de minhas reflexões, escritas para mostrar a essência de Varanasi, não o atrevimento de escrever sobre religião, misticismo, crenças, fé e morte, o que significa incorrer em sério perigo, passar por um pântano de superficialidades, incorreções, banalidades, ingenuidades e erros que sempre temi. É apenas minha visão pessoal de Varanasi, um grande esforço na tentativa de ser imparcial.

  

                       Dedico este relato à minha doce Emília, excepcional companheira de viagens e de vida, suporte intelectual que tornou a viagem ainda mais excepcional, quer por seu positivismo, quer por suas ótimas sugestões de roteiros, de fantásticos lugares a visitar. Obrigado, Emília, por me levar a aproveitar ainda melhor cada minuto do dia em Varanasi. E o publico em atenção ao leitor, esperando transmitir-lhe a essência da cidade ao seu julgamento.

                       Obrigado, leitor. Boa viagem na leitura.

______________________

A seguir:   

Varanasi. Morte, um evento positivo

(*1) Um funeral completo custa entre 12 e 70 dólares. O filho mais velho então raspa a cabeça e barbeia o rosto, no caso de ser seu pai, obtém a certidão de óbito do governo e combina a cremação o ghat, compra madeira para a queima do corpo - entre 200 a 300 quilos -, mais incenso ou sândalo para amenizar o cheiro terrível de queima a carne e o cabelo. Nem todos podem pagar pela melhor, e mais cara, madeira para toda a fogueira, o sândalo. O ideal de uma cremação perfeita é que ocorra em até no máximpo 12 horas depois da morte ou, o mais tardar, antes do Sol se pôr no dia seguinte, caso a morte tenha ocorrido no final de uma tarde. Normalmente o filho mais velho realiza os ritos funerários, o que inclui acender a pira funerária após a colocação de uma vara ardente na boca do falecido. Somente filhos podem realizar ritos fúnebres. Há pouco luto quando morre um hindu, porque acreditam que uma vez que uma pessoa nasce nunca morre, rão porque não se vêm muitas pessoas chorando nos funerais, mas também porque os indianos querem demonstram respeito, não tristeza, ou, ainda, porque acreditam que os mortos estarão a partir dali num mundo muito melhor do que aquele que viveu. Tradicionalmente as mulheres não participam das cremações porque eles podem chorar, e suas lágrimas, assim como todos os fluidos corporais, são consideradas impuras, portanto, elas váo até ajudar a arrumar o corpo para a cremação, mas nada além disso. As piras funerárias muitas vezes contêm cânfora, sândalo e outros perfumes. Uma típica pira é feita com cerca de 300 quilos de madeira. Famílias ricas usam mais madeira e em geral de melhor qualidade. As pobres usam esterco de vaca em maior quantidade que madeira. Um corpo demora de três a quatro horas para queimar. O fogo é deixado queimando a madeira e durante esse tempo espera-se que o crânio exploda para liberar a alma ao céu. Quando o fogo esfria e o crânio ainda não se rachou o crânio, o filho mais velho o golpeia, abrindo-o.

(*2) “Higiene” pessoal. contrai-se de Febre tifóide e poliomielite a icterícia e inúmeras outras sérias doenças transmitidas pela água do Ganges. Por normas oficiais suas águas apresentam, na média, mais de 500 bactérias coliformes fecais por 100 ml de água, o que o torna considerado impróprio até para se tocar, que dirá beber. Mas no trecho de 6,5 km dos ghats de Varanasi o Ganges chega a apresentar 60.000 bactérias por 100 ml. Em Varanasi o governo do Estado de Uttar Pradesh construiu três estações de tratamento com capacidade total de cerca de 100 mil litros de esgoto por dia. Mas Varanasi já produzia 150 mil litros quando elas foram construídas e já agora produzem duas vezes esse montante. Além disso, as plantas raramente operam em plena capacidade, em razão dos freqüentes cortes de energia e dos fluxos de águas residuais não tratados no Ganges. Durante a estação chuvosa, que dura em torno de cinco meses cada ano, o rio inunda e traz de longe ainda mais dejetos.

(*3) Galis são as ruas estreitas de Varanasi, por trás dos ghats, labirínticos, com residências e comércio, escolas e templos, venda de alimentos, vida urbana, albergues, lojas de especiarias e de apetrechos para as cremações e cultos. Vacas misturam-se às bicicletas, gente e cães. Por vezes ficam “estacionadas” defronte às casas de seus proprietários, já que não há quintais para criá-las. Algumas parecem não ser de propriedade de ninguém. Vira-se uma uma esquina de um beco estreito e depara-se com uma vaca e um pequeno santuário sem saber ao certo para qual devemos prestar atenção. Há muito o que ver neles. Explorá-los pode ser tão ou mais incrível do que aos ghats. Os mais indicados a explorar são o Vishwanath Gali, Kachauri Gali, Thatheri Bazar Gali e Khoa Gali, entre outros. 

Reader Comments (6)

Chocante... Isso só lendo o que está aqui no blog. Imagino ao vivo e à cores. Com certeza tem que estar muito preparado! e muito saudável. Hoje, depois de uma experiência de cirurgia cardíaca na família, confesso que não teria condições de encarar uma dessas sem que isso me provocasse algum sofrimento.
Que bom que vocês conseguiram e tiraram as melhores lições.

16:44 | Unregistered CommenterRosa

Seu relato foi fantastico! Parabens.

Vomitei depois de ler sobre os ghats...

16:17 | Unregistered CommenterDan Brown

Incrível! Adorei seus relatos.. tenho muita vontade de conhecer a Índia, mesmo depois de ler o trecho "Respira-se o mais complexo misto de cheiros desagradáveis que se possa sonhar produzir". Abraços!

16:24 | Unregistered CommenterLane Lima

Olá!

Gostei muito do seu blog! Gostaria de saber onde você ficou hospedado em Varanasi...estou indo para a Índia daqui a 15 dias! :)
Obrigada!

17:03 | Unregistered CommenterElisa

Elisa, ficamos no RAMADA em Varanasi, mas não recomendamos. Tentamos ficar no Taj (link abaixo), mas não conseguimos:

http://www.tajhotels.com/Cities/Varanasi/default.htm

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