CONHEÇA O AUTOR

          

         Depois de estabelecer-se na Internet, desde 1999, escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo (Editora Abril). Agora, está preparando o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando na literatura com um livro encantador que, segundo o autor, é o primeiro de uma série.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de uma conversa baseada na informalidade, o livro mistura traços de coloquialidade e informalidade com uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida.

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti 2013 na categoria Reportagens

Ronize Aline:

            "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária e crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista passou pelas redações das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

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Quinta-feira
Mar292012

VARANASI, Índia. Onde a morte é um evento positivo

Varanasi, bons momentos para meditação e fotografias                  

                 O BARCO escorregava silencioso nas águas leitosas do Ganges. Íamos em direção ao Ghat Manikarnika e de longe víamos as fogueiras refletindo na superfície calma do rio. Junto a outros barcos, estacionamos a alguns metros da margem do rio. Passamos então a exercer aquilo para o qual todos vão ali: o voyerismo das cremações. Sentimos o peso da experiência, mas não foi desagradável, tampouco incômodo, senão incrivelmente bonito e digno, ainda que triste. Tudo é pesado e solene, mas natural e corriqueiro. Até o silêncio dos expectadores. Sentimos no máximo uma perversão às nossas faculdades de percepção e compreensão, como se estivéssemos num mundo paralelo.

                 Os grandes e altos edifícios por trás do flanco do rio são crematórios, ghats elevados, extremamente antigos, assombrosos, cobertos por centenas de anos de fuligem e cinzas da queima dos mortos. O aspecto desses ghats elevados é espantoso, extraordinário, maravilhoso. Por todo lado assistíamos eventos em diferentes estágios, de corpos sendo trazidos sobre macas de bambu - marcando o início do processo - às cinzas despejadas solenemente no rio - definindo seu fim.

                Parentes e amigos circulam ao redor das fogueiras e observam o corpo que será reduzido a cinzas, última homenagem necessária à que sua alma alcance o tão almejado moksha, a libertação do ciclo de vida, de morte e de renascimento. Rama nama hai satya .... rama nama hai satya ... rama nama hai satya... O mantra é cantado enquanto dão voltas ao redor da pira, o fogo ainda não foi aceso, o cadáver está embrulhado em chita. Não nos aproximamos ao ponto de sentirmos o odor de carne humana queimando, não ficamos horrorizados, nem mesmo desconfortáveis, sequer com nosso voyerismo. Mas não poderia supor que assistir aquilo me deixaria tão fascinado, experimentando um encantamento estranho. De todo modo o que sobrou foi um privilégio imenso de ter podido presenciar algo tão dramático e comovente, digno e incrível. Que experiência!

                DasaswamedhManikarnikaHarischandra são os 3 mais proeminentes dos 84 ghats de Varanasi. Palcos das mais incríveis demonstrações e extravagâncias, de fé e crenças de atividades cotidianas e comerciais. Por trás deles há incríveis construções mogóis e contemporâneas. Ainda mais atrás ficam os galis, os becos labirínticos e estreitos, bastidores dos ghats. Olhando-os desde o rio eles são contínuos, podemos caminhar por eles sem interrupções. Ao menos até onde os olhos podem ver. Cada qual tem sua própria utilidade e história. Alguns são impressionantes em grandiosidade e beleza, outros bem mais simples.

               Uma das curisidades mais interessantes do Marnikarnika Ghat é que ao contrário dos lugares de cremação do resto da Índia, as outras são localizadas nos limites das cidades. Em Varanasi não, a cremação é feita no centro da cidade, no seu lugar mais importante, central e auspicioso. Vem daí a natureza tão especial que esta cidade tem, além de sua enorme importância para os hindus.

   Atrás dos ghats, de frente para o rio, há incríveis construções

                  VIMOS vacas, sadus, gente de todos os tipos, simples, trabalhadores, donas de casa, escolares, mendigos, moradores de rua, além de vacas, cães e macacos. Todos pisam (ou deslizam) no chão ora marcados por fezes de vacas, ora coberto de lixo ou da sopa milenar, o misto daquilo tudo. O momento que antecede ao do encontro com um ghat, o mais auspicioso lugar de Varanasi, diante do mais auspicioso rio da Índia, é energético, penetrante. Fomos de barco a primeira vez, a pé e sozinhos, na segunda. Caminhamos seguindo a margem do rio, sempre importunados por touts. Ouvimos sinos, vozes de crianças, jovens em diversão, músicas, vendendores, mulheres fazendo suas atividades domésticas, desocupados, contempladores, yogues.

  

 Presenciar cremações não foi dramático, mas comovente, digno, incrível

                 Não houve espanto, angústia ou dor, mas curiosidade legítima, respeitosa. E reconhecimento, admiração, ainda que tudo acompanhado de uma breve subversão às noções de tempo e de espaço, de lógica e crença, de fantasia e realidade. Como num estado alterado de consciência, sobretudo porque a morte aparentava ser muito familiar e positiva.

    Não houve espanto, angústia nem dor. Apenas curiosidade respeitosa, admiração

                  Talvez esta seja a única cidade do mundo onde turismo e morte não se opõem, assim como ciência e religião também não em toda a Índia. Varanasi nos proporcionou mil sensações, uma quase incrível diversidade de sensações, especialmente as que sentimos nos ghats. De serenidade a êxtase,  circulando por eles ou simplesmente os observando e à sua gente bebendo chai, orando, "lavando" roupas, jogando críquete, meditando, cortando cabelos, limpando ouvidos, varrendo cinzas, tudo fluindo naquela naturalidade bastante indiana. Aparentemente caóticos, são na verdade extremamente organizados, funcionais.

 

 Fomos de barco a primeira vez, a pé e sozinhos, na segunda 

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SAMSARA, o último sacrifício 

                 ENTRE as muitas crenças populares hindus há a de que sua alma passa por um processo de sucessivas vidas, chamadas samsara. E que uma reencarnação reflete a vida passada, ou karma, não a presente. E que cada indivíduo é responsável por suas ações na vida (bem, nisso eu acredito!), ou seja, deve assumir as conseqüências de seus bons e maus karmas. E que o pobre coitado que vier depois pagará pelos maus atos na próxima vida.  

Cremação, o último sacrifício 

                O último sacrifício do ciclo da vida, ou samsara, é o alcance do moksha, precisamente o fim deste ciclo de nascimento, morte, renascimento, remorte. É o quarto e último artha, que transcende a todos os demais arthas. Se possível um hindu prefere morrer em casa, quando então o membro mais velho da família acende uma vela, coloca-a sobre o corpo posto na entrada da residência e com a cabeça voltada para Sul, quando então é banhado, ungido com sândalo, raspado na cabeça e na face, se for homem, e finalmente envolto num pano de algodão e conduzido para a cremação que deve ocorrer no dia seguinte ao da morte.

   O fogo cresce e jamais perde potência

                   TODOS então posicionam-se ao redor da pira no flanco elameado do rio. A terra adquiriu a cor das cinzas. Deve ser desta cor há séculos, desde que Varanasi existe, antes de Babilônia, de Roma e de Atenas, cidade mais antiga do mundo que é. 

                    Ajeitam o corpo embrulhado num pano laranja e dourado. Colocam-no sobre a pira funerária os parentes masculinos.  Entoam-se orações para Yama, o Deus da morte. O fazem caminhando três vezes ao redor da pira, sempre no sentido anti-horário. Na cama funerária os pés do morto devem apontar para o Sul, direção do reino de Yama. A cabeça, para o norte, aponta para o reino de Kubera, Deus da riqueza. Acesa a pira, o corpo passa então a ser uma oferenda a Agni, Deus do fogo.

 

 Se uma não for suficiente há 15 cremações por hora

                 O fogo cresce e jamais perde potência, alimentado pelos Dom, os trabalhadores da casta mais inferior, encarregado de manter a cremações, depois colocar as cinzas em potes e entregá-las a um dos parentes do morto, que então as soltará no rio, marcando o término da cerimônia e do processo de reencarnação. As mulheres não participam do funeral. Dizem que por serem mais sensíveis que os homens, pois choram e suas lágrimas, assim como qualquer flúido corpóreo, são impuras e inadequadas àquele momento.

                 Mas a verdade não é essa, e nada como conhecê-la: os britânicos proibiram-nas nos funeráis no início do século XIX, quando já não podiam controlar as viúvas inconsoláveis e descontroladas que suicidavam saltando sobre as fogueiras, queimando-se com seus maridos. A prática era muito comum, um ato de devoção final, a imolação a que se chamava sati. O folclore diz que mulheres não participam porque choram demais. Não acredite nisso. Presenciamos um funeral hindu no Nepal onde a viúva sofria e chorava abraçada ao seus filhos e debruçada sobre o corpo do marido, permanecendo todo o tempo ao lado da pira.

Ritual hindu de cremação em Pashupatinath, Katmandu - Nepal

                  EM rigor mortis o corpo espera a cremação sobre a pira. Embaixo dela ficam os troncos mais grossos, acima os mais finos. Espirra-se a água sagrada do rio, lavam-se os pecados, purifica-se a alma. Retira-se o tecido enfeitado revelando um corpo esguio envolto num pano de algodão fino e branco ou laranja. Outras piras queimam em diferentes níveis do ghat. Quanto mais perto do Ganges, mais barata a cremação, próprias para as castas mais baixas. Quanto mais alta a casta, mais ao alta será a pira, até mesmo em terraços, lages de concreto, plataformas onde também queimam-se corpos com a mais alta qualidade da madeira. Outros corpos vão chegando. Cerca de trezentos serão cremados durante todo o dia. O céu ficou enegrecido acima do ghat e nosso barco começou a retornar ao ghat de embarque. Observamos as luzes nos prédios antigos e as velas flutuantes lançadas ao longo do rio. Também lançamos nossos pujas, um doce momento em que lançamos nossa ofenrenda ao rio e fizemos nosso pedido à Deusa Ganga, segundo nos orientou nosso guia. Ao fim, curiosos um com o pedido do outro, não nos surpreendemos por terem sido o mesmo.

 

       Não há quem não saiba as regras: é proibido fotografar. 

Mas o voyerismo muitas vezes não é suficiente, então disparam-se câmeras. 

O que nem todos sabem são as sérias conseqüências disso.

                     Os cerca de 80.000 restos carbonizados são lançados no rio anualmente, além de corpos inteiros de grávidas, crianças, leprosos e dos que por motivos hindus morreram e não podem ser cremados. Peregrinos nadam e bebem desta sopa de cadáveres e cinzas humanas, leitosa e espumante, com milhares de vezes mais coliformes fecais e metais pesados do que recomenda a Organização Mundial de Saúde da ONU (*). E acreditam na cura do corpo, na purificação da alma e nos milagres da sopa. Muitos dos que assistem sabem que estarão ali em breve, protagonizando, em vez de assistirem, mas nenhum deles acredita que por conta de ter bebido aquilo. E assim segue Varanasi o seu ciclo milenar de vida e morte, confundindo quem espera encontrar espiritualidade em estado puro, o “encontro consigo mesmo” ou outras procuras e sentido para suas vidas. Estes devem sair mais conturbados, do que quando chegaram, creio eu. Penso que se Varanasi tem potência de agir assim na cabeça dos não espiritualizados, imagino o que deve provocar nos que acreditam em tantos deuses, santos e vivem eternamente em busca do que não se prova nem se explica.

O Sol nascendo no Ganges 

                 OBSERVO a tudo e me pergunto: “Quantas Índias há na Índia?” A da erótica Khajuraho, a da imponente e histórica Delhi, a da magnífica Udaipur, a da gigantesca Mumbai, a da sagrada Varanasi? Há muitas mais do que eu possa imaginar, talvez menos quantas meus olhos consigam enxergar e tantas quanto eu gostaria de conhecer. 

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UM passeio de barco no Ganges

                   SÃO 5 e meia da manhã. Faz quase frio. É fevereiro, estamos em Varanasi, no típico inverno indiano, prestes a entrar no barco para o passeio pelo Ganges. Nosso primeiro destino é o Manikarnika Ghat, maior e mais importante crematório de toda a Índia, cerca de 2 km rio acima desde o Dashashwamedh Ghat, principal e mais espetacular de Varanasi, nosso ponto de embarque.  

São 6 e meia da manhã, estamos no Ganges, em Varanasi 

                  VARANASI, chamava-se Benares, e antes disso, Kashi. O Rio Ganges é seu maior patrimônio. Para os hindus, se a Índia é o corpo, o Ganges a alma. Eles referem-se assim ao rio, a “Alma da Índia”, e adoram-no com uma deusa que traz prosperidade e serve de lavatório dos pecados humanos, não tanto como um irrigador de campos ou um lavanderia de roupas e animais, abastecimento de cidades e destino de esgotos. Mas para todos Varanasi tem seus efeitos: acentua a humildade, despe vaidades, faz refletir, leva ao entendimento e perturba egocêntricos.

  

Às oito e meia da manhã, estávamos voltando a pé por um dos galis 

                 A imagem panorâmica do horizonte é incrível nos 4 km de ghats ao longo do lento rio. São mil detalhes e movimentos, são dezenas de edifícios antigos. É uma história milenar, além da melhor e mais bonita seda de toda a Índia. São os passeios de barco, o anoitecer na beira do Ganges, o cuidado solene com que lançamos nossas pujas ao rio, as velas acesas seguindo o ritmo lento das águas leitosas, os estreitos, labirínticos galis ora pujantes, ora desérticos. São momentos tensos, são os macacos, as vacas agressivas, as matilhas de cães vadios assustadores disputando território, é o lixo milenar, o comércio da morte, são os homens sagrados e outros nem tanto, são os aproveitadores, são corpos cremando, são cinzas lançadas.

  

Há muito mais vida na cidade da morte 

                   São as lenhas empilhadas, as fogueiras enormes, as chamas luminosas, os jogos de cricket, os touts, os peregrinos, os desocupados, estrangeiros, convertidos e observadores, hippies, pós-hippies, neo-hippies, peregrinos no banho sagrado, gente em contrição, as águas sagradas putrefatas, os lavadores de lençóis um dia brancos, o misticismo, a realidade, o exotismo, a simplicidade, a vida e a morte. O sol ainda não nasceu, mas ameaça no horizonte. Os becos de Varanasi já começam seu movimento, ainda que longe do burburinho do dia pleno.

   

 

 

                     A vida turística começa cedo em Varanasi

                   OS passeios de barco são comuns, turísticos, extremamente divertidos e interessantes. Fizemos o nosso num barco privativo onde além de nós, estavam apenas nosso guia, um indivíduo incrível, e o condutor, no comando dos remos. Não há outra maneira de conhecer os ghats nesta dimensão, com o enquadramento visto do rio. Desliza-se pelo Ganges e cenas incríveis desfilam diante de nós, algumas que jamais esquecerei, especialmente a imponência dos edifícios antigos, as fogueiras ardento, os banhos sagrados e toda a vida que segue há milênios da mesma maneira.

 

Nos ghats há vida, bem mais do que morte. Até joga-se criket   

                  O Manikarnika Ghat tem status mais elevado entre os ghats de cremação. É o mais caro. Presenciá-lom desde o rio é intoxicante, não pela fumaça, mas pela complexidade que é assistir corpos humanos cremando a céu aberto. Foi uma da melhores atividades em Varanasi. Mas também gostamos das cenas diferentes não relacionadas à morte, como a dos dhobi wallahs, homens e mulheres que "lavam" roupas nas mesmas águas. 

                 Todavia, uma vez na Índia, muitos conceitos e valores são revistos. Especialmente os ocidentais. Observa-se, por exemplo, que a limpeza não está associada ao sagrado como no ocidente. Ao contrário, parece ser a sujeira. Há esterco de vaca e búfalo, fezes de cãos, macacos, humanos nas ruas. Os homens santos são sujos, as ruas são sujas, os ghats são sujos, os templos são sujos, os homens sagrados são sujos, os mendigos, sujos, têm seu valor, não são afastados para as periferias. Leiteiros lavam seus galões, lavadeiras suas roupas, crianças mergulham, pessoas escovam os denets. E mesmo convivendo com tanta sujeira os indianos não são um povo doente, ao menos mais do que qualquer outro. 

  

 

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Notas para quem quer saber mais: 

(*) Contraem-se de Febre tifóide e poliomielite a icterícia e inúmeras outras sérias doenças transmitidas pela água do Ganges. Por normas oficiais suas águas apresentam, na média, mais de 500 bactérias coliformes fecais por 100 ml de água, o que o torna considerado impróprio até para se tocar, que dirá beber. Mas no trecho de 6,5 km dos ghats de Varanasi o Ganges chega a apresentar 60.000 bactérias por 100 ml. Em Varanasi o governo do Estado de Uttar Pradesh construiu três estações de tratamento com capacidade total de cerca de 100 mil litros de esgoto por dia. Mas Varanasi já produzia 150 mil litros quando elas foram construídas e já agora produzem duas vezes esse montante. Além disso, as plantas raramente operam em plena capacidade, em razão dos freqüentes cortes de energia e dos fluxos de águas residuais não tratados no Ganges. Durante a estação chuvosa, que dura em torno de cinco meses cada ano, o rio inunda e traz de longe ainda mais dejetos.

 

 Há oficialmente 84 ghats - as escadarias em forma de arquibancadas - em Varanasi para diferentes finalidades. Construídos ao longo dos séculos, alguns estão relacionados à eligião hinduísta, isto é, aos banhos sagrados dos rituais hinduistas, ou pujas, assim como outros usados para lavar roupaso gado, e para “higiene” pessoal. Os crematórios, ou Shmashan ghats, são destinados à cremação. Crianças e mulheres grávidas (por que crianças são puras e mulheres que as levam no ventre também), leprosos (pois há risco de contágio), e pessoas que morreram por picadas de cobras venenosas não são cremados, apenas lançadas no rio, assim como os restos dos corpos incinerados, que por nunca se queimarem por completo, não raro encontram-se boiando nas águas imundas do Ganges. Alguns dos mais importantes são os ghats Assi, Dasaswamedh, Manikarnika, Tulsi e Panch Ganga. Os ghats são de longe os lugares mais coloridos, fascinantes e surpreendentes de Varanasi. Entre os mais populares estão o Dashaswamedha ghat, o Manikarnika ghat, o Harishchandra ghat, o Assi ghat e o Lalita ghat, cada qual com sua história e importância. Cada ghat foi construído por um rei medieval diferente e foram inspirados segundo cada própria mitologia. 

 

Um funeral completo custa entre 12 e 70 dólares. O filho mais velho então raspa a cabeça e barbeia o rosto, no caso de ser seu pai, obtém a certidão de óbito do governo e combina a cremação o ghat, compra madeira para a queima do corpo - entre 200 a 300 quilos -, mais incenso ou sândalo para amenizar o cheiro terrível de queima a carne e o cabelo. Nem todos podem pagar pela melhor, e mais cara, madeira para toda a fogueira, o sândalo. O ideal de uma cremação perfeita é que ocorra em até no máximpo 12 horas depois da morte ou, o mais tardar, antes do Sol se pôr no dia seguinte, caso a morte tenha ocorrido no final de uma tarde. Normalmente o filho mais velho realiza os ritos funerários, o que inclui acender a pira funerária após a colocação de uma vara ardente na boca do falecido. Somente filhos podem realizar ritos fúnebres. Há pouco luto quando morre um hindu, porque acreditam que uma vez que uma pessoa nasce nunca morre, rão porque não se vêm muitas pessoas chorando nos funerais, mas também porque os indianos querem demonstram respeito, não tristeza, ou, ainda, porque acreditam que os mortos estarão a partir dali num mundo muito melhor do que aquele que viveu. Tradicionalmente as mulheres não participam das cremações porque eles podem chorar, e suas lágrimas, assim como todos os fluidos corporais, são consideradas impuras, portanto, elas váo até ajudar a arrumar o corpo para a cremação, mas nada além disso. As piras funerárias muitas vezes contêm cânfora, sândalo e outros perfumes. Uma típica pira é feita com cerca de 300 quilos de madeira. Famílias ricas usam mais madeira e em geral de melhor qualidade. As pobres usam esterco de vaca em maior quantidade que madeira. Um corpo demora de três a quatro horas para queimar. O fogo é deixado queimando a madeira e durante esse tempo espera-se que o crânio exploda para liberar a alma ao céu. Quando o fogo esfria e o crânio ainda não se rachou o crânio, o filho mais velho o golpeia, abrindo-o.

(*) Galis são as ruas estreitas de Varanasi, por trás dos ghats, labirínticos, com residências e comércio, escolas e templos, venda de alimentos, vida urbana, albergues, lojas de especiarias e de apetrechos para as cremações e cultos. Vacas misturam-se às bicicletas, gente e cães. Por vezes ficam “estacionadas” defronte às casas de seus proprietários, já que não há quintais para criá-las. Algumas parecem não ser de propriedade de ninguém. Vira-se uma uma esquina de um beco estreito e depara-se com uma vaca e um pequeno santuário sem saber ao certo para qual devemos prestar atenção. Há muito o que ver neles. Explorá-los pode ser tão ou mais incrível do que aos ghats. Os mais indicados a explorar são o Vishwanath Gali, Kachauri Gali, Thatheri Bazar Gali e Khoa Gali, entre outros.

A Day in Varanasi (by Sven Dreesbach) - Documentário não narrado, com 10 minutos de duração, o qual - bem filmado - que mostra a vida cotidiana ao longo do rio Ganges. http://vimeo.com/4098527

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A seguir: Um passeio a Sarnath

 

 

Reader Comments (9)

Arnaldo,

Simplesmente tocante o post.
É justamente esta diversidade de culturas e costumes que faz do ato de viajar algo tão magnífico.

Em Varanasi damo-nos conta de que o mais chocante é perceber que, ao contrário do que é para nós ocidentais, a morte não é um tabu para os hindus (ou bem menos tabu, talvez).

Não falamos da morte, fugimos dela. Nossos velórios são ocasiões constrangedoras.Os hindus fazem suas despedidas de maneira mais aberta e franca: tocam, lavam e beijam seus mortos, choram, sofrem e sentem alívio de poder oferecer ao familiar que se vai o que há de melhor em termos espirituais. Talvez por isso ver as cremações não tenha sido traumático, mas esclarecedor e, por que não, fascinante.

Que post lindo e sensível, meu querido.

13:18 | Unregistered CommenterEmília

Arnaldo, adorei!

Que grande fotógrafo e escritor vc se revela mais uma vez. Quanta e que rara sensibilidade! E quantas lembranças da minha própria viagem à Índia, em especial a Benares, quando caminhei entre leprosos, naveguei pelo Ganges num amanhecer fantasmagórico, vi cadáveres boiando,fogueiras crematórias ardendo nas margens...

Mas, nesse mundo de miséria, doença e dor, vc percebeu aspectos, despercebidos por mim, tomada pela surpresa e compaixão; vc viu vida pujante e registrou em suas fotos a alegria das formas, das cores...

Muito obrigada, Maria Apparecida.

Gostaria de escrever, mas ainda estou entorpecida pelas belo texto, lindas fotos e a pela sensibilidade deste relato... não sei o que dizer, as palavras me faltam... talvez volte aqui depois...
Obrigado!

Legal ! Mais para você que para mim.

19:26 | Unregistered CommenterRicardo

Eu tenho um amiga do trabalho que tem viajado muito na África e na Ásia. Ela sempre me diz que o lugar mais estranho e diferente da nossa cultura é a Índia.

Diz que na qualquer lugar de África se sente como em casa, mas na Índia, ela é um estranho.
O que ela surpreendeu a maioria da Índia foi o cheiro. Foi em uma cerimônia funebre e que nunca, nunca esquecer o cheiro dos mortos.
Não sei. Eu acho que deveria ser Varanasi...

Beijos e um forte abraço

11:08 | Unregistered CommenterCarmen

Nossa suas fotos estão maravilhosas! Adorei o blog principalmente pelas fotos, que lindas!

16:38 | Unregistered CommenterM. Arantes

Amei! Sou louca para ir aí.
Seu texto e fotos são maravilhosos e tocante.
Adoro seu Blog e sempre que vou viajar venho aqui dá uma olhada.
Boa viagem!

21:40 | Unregistered CommenterBebel

Arnaldo e Emilia,

Amo os posts e comentários subsequentes...

Vocês vêem e sentem a Índia como eu vejo e sinto... é difícil as pessoas compreenderem esse "olhar" ... se despojarem das próprias crenças para compreender realidades tão diferentes das nossas...

Os indianos são completamente diferentes dos ocidentais. Ao menos grande parte deles. Procuram viver e praticar os preceitos de espiritualidade que têm. Está impregnado na alma da Índia isso...

Não fui a Varanasi (ainda...) mas estive em Rishikesh e, o que posso dizer simplesmente é: APAIXONANTE...

O povo, a forma como pacificamente perambulam pelas ruas, a maneira pela qual as vaquinhas são glutonas e mansas, os cães, os macacos (danados por umas bolachas), o Ganga Aart na beira do Ganges todos os dias ao final da tarde... e, principalmente, o quanto o Ganges é límpido e lindo em seu quase berço nascente, já que vem do Himalaia, e Rishikesh está quase aos pés do Teto do Mundo...

Enfim, tudo que tem neste blog sobre a Índia só me faz ter mais e mais vontade de voltar e, espero, muito em breve realizar esse desejo! Enquanto isso me deleito e viajo com a alma de vocês por toda esta milenar história de nossa humanidade.

Acredito que já devam saber sobre o comentário de Nehru sobre o Ganges mas, mesmo assim, vale repeti-lo:

O ex-primeiro-ministro da Índia Jawaharlal Nehru, em seu livro Descoberta da Índia, atribui ao rio diversos significados simbólicos, dentre eles, o seguinte:

"O Ganges, acima de tudo, é o rio da Índia, que manteve cativo o coração da Índia e atraiu incontáveis milhões às suas margens desde a alvorada da história. A história do Ganges, de sua fonte ao mar, dos tempos antigos aos modernos, é a história da civilização e da cultura da Índia, da ascensão e queda de impérios, de cidades grandes e orgulhosas, de aventuras do homem."

E, por fim, nem tenho o que dizer sobre Delhi... ainda não pude ver tudo o que aquela megalópole tem para contar ... apenas deixo aqui o meu relato sobre o magnânimo Museu Nacional que, de longe, é um espanto de história viva! Não há como não nos impressionarmos e tudo aquilo despertar de dentro de nossas almas algo maior e mais antigo do que nós mesmos!

Este blog é um deleite diário que aos poucos vou lendo com carinho e, na medida de minha humilde visão e vivência, vou deixando palavras que vêm do meu coração!

Obrigada por existirem e nos propiciarem tão sensível compartilhamento.

Um grande abraço,

Katia Diniz

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