MENSAGEM ao LEITOR
CONHEÇA QUEM ESCREVE

BEM-vindo ao Fatos & Fotos de Viagens, um blog sem jabá e não vulgar

        EXISTE no viajar e no escrever relatos de viagens um terreno fértil para demonstrações de arrogância. É algo simplesmente disseminado. Tanto no mundo virtual quanto na literatura. Mas o que o maravihoso mundo da viagens precisa é de mais viajantes humildes, não de "especialistas" caga-regras que determinam de tudo: desde como arrumar sua mala ao único tipo que você deve comprar, do lugar que você tem que ir, caso contrário sua viagem será uma merda. Nunca tão maravilhosa como a dele. As classificações dos lugares também. Tem sobrado superficialidade a egocentrismo. Autores assim não percebem que tudo é muito subjetivo e pessoal, que a experiência e o prazer de alguém não será necessariamente igual ao de outro.  Sobretudo as necessidades.

      A blogosfera "profissional e "monetizada" vulgarizou-se e tornou-se banal. Carecemos de gente que escreva para motivar e inspirar, para alargar horizontes, de viajantes que "mostrem" os lugares em vez de "ensinarem" a viajar. Moderadamente, ponderadamente, sem afetação típica de deslumbrados que viajam pela primeira vez em classe executiva e precisam espalhar para o mundo em resenhas risíveis. Ao contrário, a blogosfera

       ESTE blog, ao contrário, não fez concessões à vulgarização dos blogs depois da "profissionalização" e da monetização de alguns. Ao contrário, este é um blog singelo, simples, pequeno, inexpressivo na blogosfera, não despesperado por audiência nem seu autor se dedica mais à sua divulgação nas redes sociais do que à escrita. Tento dar graça à leitura e consolidar algo que prezo muito: confiabilidade, credibilidade.

        COMECEI a viajar tarde, você sabe. Por falta de dinheiro. Até que um dia viajei pela primeira vez ao exterior. Eu tinha 35 anos. Fui assim apresentado ao então desconhecido mas fabuloso mundo das viagens. Jamais, todavia, pensaria visitar mais de 60 países, alguns muito improváveis à época. Irã, Uzbequistão, Myanmar, Etiópia, Quirguistão entre eles. Mas foi recentemente que compreendi que as viagens ficam pra sempre, não as coisas. E que é por esse mundo ser tão diverso, por cada país ser tão diferente, que me parece tão atraente e divertido.

       NÃO sou escritor profissional. Tampouco jornalista. Mas invejo esses profissionais por dominarem o idioma, a gramática e as palavras.  Ainda assim, faço meu melhor, meu caro, estimado, raro e precioso leitor. Então, peço-lhe que considere algo: que mesmo escrevendo com sensibilidade e responsabilidade, incorro em erros. Se quiser, aponte-os. Tanto gramaticais quanto de digitação. Como tenho revisor profissional, antes de publicar dou curso a incansáveis revisões. E também submeto-os ao crivo de minha esposa. Ainda assim, alguns nos escapam.

      SOU brasileiro, empresário e casado com a Emília do blog "A Turista Acidental" e desde que a conheci (e antes mesmo de nos casarmos), tornou-se a "mais-que-perfeita" companheira de vida, de idéias, de projetos e ideais, sobretudo encantadora, adorável e inspiradora companhia de viagens e de aventuras. Com ela compreendi o que significa "prazer de viajar". Foi (e continua sendo) minha melhor fonte de inspirações e de motivações. Tanto que qualifico minhas viagens como "antes e depois" da Emília e "antes e depois" da Índia. Foi com ela que percebi o que quis dizer Érico Veríssimo com "Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado certamente chegará mais longe." Somos pais de gêmeos - uma menina e um menino - nascidos em julho de 2015, e de um filho de 34 anos do meu primeiro casamento, em quem o gosto pelas viagens pareceincorporado. Não sou avô, mas as coisas estão bem encaminhadas neste sentido.

       HOJE com 64 anos (boa parte deles dedicados à família e ao trabalho), foi apenas aos 35 que pude começar a viajar internacionalmente. Desde então visitei 61 países, entre os quais alguns dos mais fascinantes e com os sítios mais admiráveis do planeta. Felizmente, para alguns deles ainda a salvo do turismo de massa, cujos excessos arruinam qualquer lugar. Em março de 2006, quando iniciei este blog, o fiz como meio de comunicação com a família e amigos. Anos mais tarde eu descobri o poder de contar histórias em textos e fotografias, e logo ele tomou outro rumo, provavelmente porque os leitores gostavam dos textos e das fotos, ou então porque na época havia pouquíssimos blogs.

       FIZ cerca de 90 viagens internacionais, voei por 40 cias. aéreas diferentes (algumas extintas) em 391 vôos para fora do Brasil e dentro de outros países e em todas as classes possíveis. Segundo Haroldo Castro - jornalista-fotógrafo-escritor que já esteve em 160 países -, o maior viajante que conheço, em seu teste "Viajologia" que se pode fazer em seu site, que considera não apenas a quantidade de países visitados, mas lugares, monumentos e patrimônios, além de transportes, experiências e situações difícieis porque passam os viajantes, alcancei "Mestrado em Viajologia". Mas isso não é nada diante de gente que lá já "graduou-se" em pós-doutorado.

Escrevo este blog sob uma perspectiva lúcida e sem concessões à monetização sem critérios

        Eliminei o contador de visitas deste blog quando marcava mais de 6 milhões. Audiência hoje em blog é decadente. Viajar, escrever e publicar algo que inspire e icentive o leitor é o que mais me motiva. NUNCA como blogueiro interventor nas viagens alheias, ou caga-regras dizendo como alguém deve viajar e que tipo de mala usar e essas chatices que definem as pessoas homogeneamente.Parece ser o que traz os leitores até aqui. Ou porque gostem de fotografia, para além da leitura odepórica, como eu. E por este blog não ter captulado à ambição e vaidade que levou tantos autores de blogs à monetização sem critérios, sobretudo enganando leitores, cada dia torna-se menorzinho e menos importante. Se continuarem assim, os blogs precisarão ser reinventados. Este aqui nasceu livre e assim será até morrer. Por enquanto estou sempre por aqui. Nem que seja em pensamento. Só não sei até quando.

         Agradeço a visita e os comentários e desejo boa viagem aos leitores.

Em tempo: este blog não integra nenhuma associação disfarçada de incentivos à monetização. Mas se um dia fundarem a ABBLI (Associação Brasileira de Blogs Livres e Independentes), por favor, me convidem!

#blogsemjaba

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Quarta-feira
Abr042012

KATMANDU, Nepal - O velho esquecido

   

 Vida cotidiana em Bhaktapur e Katmandu

                        SERENDIPTY não é apenas a palavra mais difícil de traduzir, também é a mais bonita e romântica da lingua inglesa. Demonstra como nenhuma que todo idioma tem suas dificuldades. E que algumas palavras simplesmente não encontram correspondência noutras linguas. Serendipity é uma delas: não há um sinônimo, sua definição é quase poética, mais do que uma palavra, uma expressão, um sentimento. Explicá-la significa dizer que equivale à imensa alegria que sentimos quando encontramos algo tão inesperado quanto fabuloso, exatamente porque não o estávamos procurando.

 

 A Durbar Square de Bhaktapur

                        Felizmente a tal "serendipiticidade" tem me ocorrido com alguma freqüência, talvez mais notável depois que conheci seu significado. A mais surpreendente das vezes que me ocorreu o "acaso auspicioso", conheci minha doce Emília. Hoje, novamente, serendipity me aconteceu enquanto lia “A arte de viajar”, de Alain de Botton. E desta vez me salvou de um conflito ao escrever sobre Katmandu, Capital da distante terra do Nepal.

  

                       HÁ dias vinha tentando encontrar um caminho para descrever minhas impressões sobre Katmandu. Todas sem sucesso. Chegara a abandonar a intenção, mesmo que tivesse o destino enorme potencial. A despeito de seu poder de impulsionar mentes e estimular escritores, a dificuldade morava em mim, nada mais do que uma entre as tantas peças que escrever me prega: como dizer responsavelmente ao leitor que não gostei de Katmandu?

                       COMO fazer isso sem influenciá-lo negativamente? Seria possível transmitir-lhe opinião desfavorável sem contudo depreciar o destino? Como dizer ao leitor que não gostei de uma cidade, mesmo que seu patrimônio seja tão espetacular que a humanidade não poderia prescindir? "Inigualável", "incomparável" e "personalíssima" eram apenas três dos adjetivos que eu tentava selecionar para definir o lado positivo da Durbar Square. O outro lado da moeda, na velha Katmandu, não era nem tanto seu lastimável estado de conservação, mas o pior de todos os desleixos que pode lhe reservar o nepalês: a falta de valor. O desvalor que ele dá ao seu patrimônio arquitetônico.

  

                        EU me perguntava: “Que utilidade pode ter um blog que influencia negativamente seu leitor, assim ao ponto de desmotivá-lo?” Sobretudo com tão pouca informação disponível sobe o destino? Não consigo encontrar vantagem em transmitir opinião que de ante-mão eu saiba induzirá à desmotivação. Seria um preço muito alto a pagar o leitor que entra aqui esperando encontrar inspiração, mas esbarrar com tal leviandade.  Eu temo leviandades, todos sabem. Elas e as banalidades e superficialidades que abundam na Internet. Nada me desagrada tanto quanto demolir o desejo de um leitor em conhecer um lugar. Que dirá Katmandu!

  

                        VIAGENS são as parteiras do pensamento, dizia Alain de Botton na minha leitura de A arte de viajar. Longe de ser um guia turístico, o livro é um tratado sobre viagens. É filosófico, mas compreensível. Nele de Botton diz que Se nossa vida fosse dominada pela busca da felicidade, talvez poucas atividades fossem tão reveladoras dessa dinâmica quanto nossas viagens. A frase me bateu como uma faísca cerebral, desencadeou deliciosas reflexões, quase umas tormentas cerebrais. Não sem motivo: viajar, ler, escrever e fotografar tem sido o que me proporciona as melhores recompensas no lazer. Viajar, especialmente para destinos exóticos e incomuns - tal qual Índia e Nepal - tem me ensejado maravilhosas experiências de vida, prazeres bem mais além do que mundanos. Ler - pré-requisito inevitável ao bom viajante - remunera ainda mais quando é à luz dos que brilham na arte de fazê-lo bem.

  

                        POIS foi lendo os livros “A arte de viajar” e “Três cidades perto do céu - Srinagar, Rishikesh, Katmandu” - de Luciana Tomasi, um divertido, bem humorado relato de viagem à Índia e ao Nepal - onde encontrei o caminho para vencer as dificuldades de escrever sobre Katmandu. Os dois títulos foram, à sua ordem, minha “serendipiticidade”, o “feliz acidente”, a “agradável surpresa”, o “encontro acidental” que fez a diferença, tornou o “encontro casual” algo pra lá de bom e útil. No divertido livro da autora brasileira, daquelas três cidades que visitou, amou as duas primeiras e detestou a última, precisamente Katmandu. Eu o li antes de viajar. E ainda que me acendesse a luz amarela de atenção, me fazer reduzir expectativas até então elevadas, todavia opiniões contrárias costumam ter um efeito contrário em mim: em vez de afastar, atraem.

 

                      Opiniões negativas curiosamente funcionam como um estranha compulsão em conhecer aquilo que outros não gostaram. Eu preciso ter minha própria conclusão, afinal, já não me surpreendo ao gostar muito daquilo que os outros detestaram.  Freqüentemente o “não-gostar” de outros me prepara para que eu goste. Tem sido assim. E foi precisamente este o motivo de minha hesitação em escrever sobre Katmandu.  Sempre o que mais desejo transmitir ao leitor sobre um destino, seja qual for minha impressão, é  “Não acredite piamente no que eu escrevo. Vá em frente com seu desejo, confira com seus próprios olhos, viva a sua experiência e conclua tudo com suas legítimas e próprias opiniões!.

  

                      CONSIDERO meus leitores seletivos, diferenciados, exigentes, experientes. Ou, como se diz na gíria, "safos". Noto que eles reconhecem que boa parte do que se lê na Internet é fértil em injustiças, exageros, egocentrismos e esnobismos. , a tônica dos que escrevem amadoristicamente sobre destinos turísticos: sobram opiniões superficiais, inconseqüentes, primitivas e até mesmo toscas. São um verdadeiro desserviço turístico quando abusam de afirmações egocêntricas e herméticas, tais como "Não vá!" (como se dissesse "porque eu não gostei!").  No lado oposto estão as sugestões ponderadas,  as que mais aprecio e valorizo, do tipo "Vá sim, mas...". São as maior valor, que melhor preparam o leitor, que o induze a ir ao encontro, a tere sua (dele) própria opinião, ainda que eventualmente igual.

 

                        E então, afinal, como ficamos? Como dizer que não gostei de Katmandu?  

                        MINHA primeira tentativa foi tentar sair “pela esquerda”, atenuando minha irritação com o que vi, dizer algo como “não gostei mais ou menos", mas, convenhamos, não dá pra dizer algo tão ruim assim. Pensei então em definir um “não-gostei” menos concreto ou efetivo.  Pensei "Que tal dizer que não gostei “conceitualmente”?  Por certo uma invencionice, no mínimo falta de opinião e coragem de assumir posição, desisti prontamente ao imaginar que o leitor acreditaria que caí na esparrela do twitter e passei a definir tudo superficialmente, só porque é moda.  Como não estou a fim de demolir minha credibilidade construída a duras penas e confiança do leitor, digo que mesmo um escritor medíocre como eu precisa ter opinião e se posicionar, especialmente quando se trata de “prazer” e “desgosto”, ou de “amor e ódio” em relação a um destino.

 

                       Devemos ir ou não a um destino que desejamos porque alguém teve impressão contrária à nossa?  Foi Alain de Botton que me fez compreender que nem todas as respostas às nossas dúvidas alcançamos ficando em casa: é preciso viajar, ir ao destino: "Estamos familiarizados com a idéia de que em viagens nossa realidade não corresponde às nossas expectativas." Bingo!

   

                        POR que então, mesmo presenciando exemplos tão fabulosos de patrimônio arquitetônico nas praças Durbar de Katmandu e Baktapur não gostei do que vi? Simplesmente porque há destinos que ao exercerem uma atração quase sobrenatural, também desencadeiam fortes expectativas. Ainda que perigoso, é uma verdade. Foi assim com a Índia. Só que ali, desde o primeiro encontro, ela tornou-se o melhor de todos os destinos que já visitei. Katmandu, todavia, exigirá mais de meu tempo, sobretudo para não ser injusto. Esse tempo ainda não passou o bastante para que eu aceite o estado deplorável de seus notáveis templos e palácios, o pouco caso que nosso guia fez ao ser perguntado porque tratam aquilo daquele jeito. Sua resposta sonsa, foi me perguntar tempos depois se eu estava menos "nervoso". Para não mandá-lo tomar chai no meio do Everest, assumi que sim, "estou mais tranquilo".

  

                       AINDA que em viagens meu olhar sempre esteja mais complacente, receptivo, simples e doce, não consegui “engolir” Katmandu. Desceu mal. Ficou um gosto amargo. Não digeri o futuro incerto que o tempo, descaso, sujeira e pombos costumam reservar a patrimônios tão antigos e frágeis. Não me reconciliei com Katmandu. Tão logo comecei a escrever, a rever fotos, a ler anotações, só resgatei melancolia. A mesma que senti presenciando algo tão magnífico quanto deprimentemente desleixado. Saí do Nepal como se tivesse visitado um velho pobre e doente. Deixei o país profundamente irritado com o fato do velho ter sido largado, esquecido, desvalorizado que é. Triste ao olhar pra ele e perceber que não resistirá muito. A poluição visual esconde a herança espetacular, a sujeira de pombos corrói as pedras, madeiras e o metal. Mas ninguém acredita que sejam seus templos e palácios o maior patrimônio do país, senão o Everest.

  

                       ARDE no estômago a história de sofrimento que elvolve o Kumari Bahal, uma das atrações de Katmandu. A “Casa da Deusa Viva” há séculos abriga menina-deusa, eleita aos 4 anos, sob métodos e critérios de seleção esdrúxulos. A crendice estabelece que o status divino terá duração definida: apenas até a puberdade, quando os “flúidos impuros” da primeira menstruação lhe roubarão a condição de deusa. Desqualificada, a então mulher ex-deusa voltará pra casa, a mesma de onde foi retirada na infância, a contragosto. Não sem muito trabalho a nova seleção de candidatas a deusas se iniciará obedecendo a um roteiro de esquisitas ações.  

 

                       FOI preciso retornar, reler anotações e concluir a leitura de Kathmandu Valley, de Robert & Linda Fleming (*) a fim de reordenar os pensamentos, aplacar a indignação, acalmar os ânimos e reaver minha vontade de escrever sobre Katmandu. Escritores, poetas e historiadores não se cansam de elogiar este notável espaço urbano e seus inúmeros monumentos, todavia cobertos de sujeira e fezes de pombos, de ervas daninhas nos telhados e fendas, tudo com lastimável aparência. Mesmo com toda a sua originalidade, imponência e personalidade arquitetônica, é tudo “quase-feio”, fruto da desordem urbana e civil, da falta institucional de peocupação com sua manutenção e do apreço de seu povo pelo patrimônio. Foi por esta falta de amor que “não gostei” de Katmandu. Ao menos conceitualmente.

    

                        Grande abraço, leitor. E não deixe de ir a Katmandu!

_______________________

(*)  O curioso processo de seleção e escolha das candidata a deusas é rigoroso. A escolhida, acredita-se, é a encarnação da Deusa Taleju, versão nepalesa da deusa Durga indiana. Será deusa até sua primeira menstruação, doença grave ou perda de sangue proveniente de alguma lesão. A atual deusa foi escolhida aos quatro, em outubro de 2008. Para ser reconhecida como deusa a menina deve vir de uma família budista, além de cumprir outos quatro critérios, entre eles ter um corpo impecável e sem marcas, um rosto perfeito com características e critérios “técnicos” insondáveis de avaliação. Em terceiro lugar são dados a ela um conjunto de objetos bem semelhantes ente si a fim de que ela aponte um que tenha sido usado pela última deusa. Finalmente, as jovens candidatas permanecem numa câmara fechada para que passem uma noite com os restos de 108 búfalos decapitados. A criança que não chorar ou demonstrar medo será escolhida como deusa. Uma vez selecionada a menina é removida da sua família e levada para a casa de Durbar Square, onde viverá na clausura e será cuidada por uma família de sacerdotes, que acreditam que assim que ela derrame qualquer sangue, a deusa deixará seu corpo. Normalmente as meninas são cercadas de cuidados até atingirem a puberdade, quando nenhum cuidado as impedirá de menstruarem. Embora privilegiada a vida, depois que deixam de ser deusas, tornam-se infelizes, porque é raro encontrarem um homem disposto a se casarem com uma ex-deusa.

_______________________

“A arte de viajar” - Alain de Botton - Editora Rocco - ISBN 85-325-1578-9

“Três cidades perto do céu - Srinagar, Rishikesh, Katmandu - Luciana Tomasi (Editora Artes e Ofícios) - ISBN: 978-85-7421-192-3

“Kathmandu Valley” - Robert & Linda Fleming - Allied Publishers - ISBN 0-87011-328-3

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A seguir

A Katmandu no Século 21

Reader Comments (11)

Katmandu requer mesmo muita ponderação: você, na escrita do seu post, e eu, neste momento, para tecer esse comentário. Para mim foi difícil admitir que a cidade não me tocou: nos preparamos, nos deslocamos, criamos expectativas, investimos no destino - a nossa predisposição é sempre gostar. Em primeiro lugar, viemos de Varanasi, um lugar cheio de personalidade e vida para chegar a um destino morno, um patrimônio da humanidade parecendo abandonado, um povo indiferente: a comparação é inevitável e aumenta a percepção que já existiria em relação à cidade.
Não vou dizer que não gostei, afinal é difícil conhecer a Durbar Square e não ficar embasbacado: é linda e única. Mas o desleixo corta o coração: como não seria fantástico se fosse um sítio estruturado e bem-cuidado? Quanto tempo ainda as esculturas de madeira aguentarão?
Mas ainda devo dizer que adorei Bhaktapur e que só ela já valeu a viagem ao Nepal...junto com o emocionante vôo para ver o Everest.
Beijo, meu querido.

13:26 | Unregistered CommenterEmília

Algumas cidades aqui no Brasil me causam essa sensação, o que poderia ser belo, é simplesmente um lixo, por falta de cuidado das pessoas, dos governantes. O sentimento é de que ninguém tem amor ao lugar, mas todo cuidado é pouco, quando a gente faz uma crítica, os plantonistas já estão com sete pedras na mão. Algumas cidades ilustram bem a diferença do velho e antigo, o velho sempre jogado, deixado de lado, o antigo tem seu valor e é cuidado.
Outra coisa que me entristece e não consigo entender: como nossas cidades podem ser tão pichadas, acho que são as campeãs nesse quesito, lamentável.

15:39 | Unregistered CommenterRosa

Serendipty, perguntei a meu marido, que é ingles, sobre essa palavra, ele não conhecia e gostou de aprender. Minha filha conhecia a palavra mas não conhece o Nepal. Eu conheço o Nepal e acho que você tem toda razão, eu também senti quase dor em ver os templos e lugares tão descuidados mas gostei de Kathmandu. No Thamel, bairro de Kathmandu, curti o movimento dos alpinistas e dos grupos que fazem trekking se preparando, as massagens, o artesanato e o povo.
Gosto muito dos seus textos, fotos e estou sempre aprendendo com seu blog.

19:43 | Unregistered CommenterElizabeth

Bom dia.
Trabalho em uma empresa de aluguel de apartamentos para temporada chamada Local Nomad, com sede em Barcelona. Gostaria de entrar em contato com o editor do blog para fazer uma proposta, mas nao encontrei um email para o qual pudesse escrever. Fico no aguardo de um retorno no endereço maria.l@localnomad.com Obrigada.

Visitei. Comento depois.

23:21 | Unregistered CommenterPapa Jojoy

Boas
Visitei com esposa e filha de 19 anos Katmandu, Patan, Baktapur e Nagarkot por 4 dias em Março de 2008.
Recordo-me perfeitamente de ter feito a mesma pergunta ao nosso guia de 1 dia, o David (Inglesismo do seu nome tibetano, pois tratava-se de um descente de um médico ayurveda refugiado do Tibete aquando da ocupação pelos Chineses), pessoa culta, em como era possível deixar os templos e monumentos atingirem aquele grau de degradação bem como, porque os agentes do turismo não faziam pressão para controlar a proliferação de pombos e de motos nas zonas históricas. Com a mesma indiferença respondeu-me que ali as pessoas já estavam habituadas, logo era-lhes indiferente.Ou seja, o ponto passou-lhe ao lado.
Mais tarde compreendi em parte porque; Como budistas, eles adaptam-se a tudo e está fora de questão fazer mal ao pombos ainda que o remédio para estes não fosse mais que fazer o controle de natalidade como se faz por exemplo em Lisboa de há uns anos a esta parte.
Pior que tudo, decorriam eleições, e havia cartazes espalhados por todo o lado, sem qualquer respeito pelos monumentos, bem como paredes de edifícios antigos vandalisados com grafites políticos.
Para agravar tudo, durante um dos passeios por Katmandu, no meio do frenesim das ruas, uma moto machucou seriamente uma mão da minha esposa, foi a gota de água.

Mas... espero lá voltar.
Tenho pena que as actuais gerações "tenham nozes e não tenham dentes".

Este é dos melhores blogs de viagens que tenho encontrado nas minhas andanças. Gosto das fotos, mas aprecio muito mais a escrita. Vê-se que é genuíno nas apreciações e que tem uma veia altruísta nos conselhos que dá.

Convido-o a ver as minhas fotos em worldphototravel.blogspot.com
Pense seriamente num passeio a Moçambique, minha terra. Fico ansioso pela sua apreciação, sincera como sempre. Veja algumas fotos no meu modestíssimo blog.

Um abraço
carlos martins

Olá, fui por um acaso que descobri este blog o qual gosto imenso, a descrição com uma leitura fluída e real, também já fui ao Nepal e Tibete em 1997 tendo uma opinião ligeiramente mais leve sobre a conservação dos monumentos á época,recordo que em Patan decorriam obras pelo património da UNESCO adorei a arquitectura sobretudo o rendilhado de madeira tudo manual sem recorrer a máquinas, verdadeiros artistas pena é que não preservem as maravilhas de que são donos e que lhes darão frutos para o futuro pois também a sujeira é muita pelo que vi nas fotos, as quais estão muito boas. obrigada por me ajudar a reviver de novo a minha viagem. Isabel

Olá ao autor do blog e demais leitores...

Primeiramente também quero expressar meu profundo apreço por tudo que escreve sobre os destinos visitados... impecavelmente você procura ser justo e jamais leviano nas colocações!

Visitei o Nepal há apenas 3 meses e, parte do que descreveu também foi a mesma sensação que tive...

Refletindo um pouco "com meus botões" penso que o Nepal por si só gera muita expectativa em todas as pessoas ... tanta que torna-se um "balde de água fria" o descaso com tão "magico" país...

Achei a cidade de Kathmandu bem suja e largada sim porém Patan não estava em minhas expectativas então causou-me agradavel surpresa toda aquela arquitetura tão singular e única.

Contudo como visitei esse pequeno país por apenas 4 dias preciso de mais tempo para "degustá-lo apropriadamente", preciso de mais visitas.

Talvez parte da "energia pesada" desse local decorra de estranhas praticas hindus (que em nada se parecem com o hinduismo puro da India, sem sangue e sacrifícios de animais...) ... fato é ... por exemplo, que eu não gostei particularmente de Patshupati (local sagrado do hinduismo deles) ao lado de um necrotério e com ar tão pesado e estranho.

Aqueles "sadhus" considerados tão santos para eles mais me parecem feiticeiros de uma antiga seita Bhon-po banida no sec, XIV por Tsong-Kapha justamente por se confundir com as sagradas praticas do budismo tibetano.

Enfim, algo de estranho acontece por lá e isso se traduz nas impressões que temos, nos impactos que absorvemos e em outras sensações que são difíceis de colocarmos em palavras.

Um grande abraço a todos!

Prezada Katia, para além de um comentário dos mais bacanas que já recebi na história deste blog, ele veio bem a calhar: estou escrevendo sobre Pashupati e novamente "mergulhado" sobre o que foi nossa visita ao lugar, sobretudo a impressão de que estávamos num "com ar tão pesado e estranho". E felizmente eu já sabia que os sadhus ali não são verdadeiros.

Especialmente grato por perceber o cuidado com "procurar ser justo e jamais leviano nas colocações".

Um grande abraço!

Prezado Arnaldo,

Obrigada por suas palavras e gentileza. Uma honra para mim.

Vindo de pessoas sábias e experientes como você (nota-se, isto não é um mero elogio!) tornam-se referências sábias à minhas buscas e pesquisas!

Mais uma vez digo: gratidão!

Um grande abraço a todos!

KD

Katia, novamente agradeço. Fico orgulhoso, claro, com os elogios. Uns eu até humildemente reconheço o merecimento (ser justo, jamais leviano, experiente, escrever com alma, tocar o coração...), mas outros não, sinceramente. Ainda que me envaideça, todavia, "sábio" estou longe de ser!

De toda maneira, muito grato pela audiência e pelos comentários. Apareça sempre

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