CONHEÇA O AUTOR

 

         Depois de estabelecer-se na Internet - em 1999 - escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo, da Editora Abril e, agora, prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando, assim, na literatura de viagens com um livro encantador, segundo o autor, o primeiro de uma série de pelo menos quatro que já planeja produzir, dois deles em plena fase.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de apenas uma "conversa" com o leitor, baseada na informalidade, o livro mistura traços desta coloquialidade e informalidade com os de uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida. 

              Minha ascensão na escrita de viagens com este trabalho literário não é exatamente uma novidade. Ainda que recentemente eu tenha notado a mente lampejar com a ideia: tornar-me um escritor de viagens. Todavia, ela sempre me rondou. Mesmo que a alguma distância. Não foram poucos os amigos, parentes e leitores do blog que há mais de dez anos recorrem à pergunta: “Por que não escrever um livro?”

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti na categoria Reportagens

Ronize Aline:

             "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária, crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

 


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Segunda-feira
Set032012

UZBEQUISTÃO e QUIRGUISTÃO - A vida é breve. E sua beleza, perecível.

Introdução ___________________________________________________________________________________________________

                  Vamos para a Ásia Central

                  Minhas viagens não se encaixam em qualquer grupo de clichês. Aliás, não gosto nem um pouco de clichês, estereótipos e preconceitos, e, para minha sorte, eles jamais influenciaram minha maneira de ver o mundo ou dirigiram minha vontade de conhecê-lo. Estereótipo nada mais é do que uma imagem distorcida de uma categoria social. Preconceito é quando a imagem de uma categoria social é classificada degenerativamente. Já o clichê é quando usamos ambos - estereótipos e preconceitos já conhecidos - para definirmos padronizada e distorcidamente a imagem de qualquer coisa.

                  Tenho orgulho de ainda menino ter percebido, mesmo sem saber, que estereótipos, preconceitos e clichês não embalariam minha vida. Em parte porque,enquanto olhava pela janela, percebia que minha vida não seria embalada ou engessada por qualquer coisa ou crença, tampouco que seria comum. Eu almejava ser livre sob todos os aspectos. Livre e responsável. Eu queria não ter a mente dirigida por religiões, políticas, pessoas, intolerâncias e dogmas. E eu já sabia, também sem perceber, que queria conhecer o mundo, que ele precisava ser descoberto por mim. Minhas contemplações e reflexões juvenis eram o prenúncio de que eu seria um adulto livre e do bem e que não compactuaria com qualquer limitação ao meu discernimento. Com o tempo, e especialmente com o gosto por viajar, fui percebendo que não bastava apenas contemplar o mundo, era preciso descobrí-lo. Assim, as viagens foram influenciando minha vida de maneira poderosamente positiva, tornando-se experiências com benefícios pessoais tão vigorosos que nem posso avaliar, quanto mais descrever. Só sei que promovem proativamente meu intelecto, revelam-me a necessidade de olhar para os destinos de maneira saudável.

                 Não gosto de clichês. Um dos que mais abomino no meio das viagens é usado pelos que autointitulam-se “viciados em viagens”. Ou, ainda pior, quando brasileiros usam o termo Travel Addict (original em inglês) pra parecerem cools (ou "descolados"). Abomido estrangeirismos, especialmente os tolos. Além de não ser um viciado em qualquer coisa, considero o vício um estado alterado de consciência. Negativo. Vícios conflitam com minhas convicções (soltar amarras, ser livre, ter controle sobre meu destino, eficácia na vida...) e estou seguro de que pessoas viciadas mais cedo ou mais tarde revelam seus comportamentos estranhos. 

                  Vício é exagero, é compulsão que nos leva a sair do limite do bom senso, aquele conceito ligado às às noções de sabedoria e de razoabilidade, ou a falta de capacidade de ter independência e controle sobre seus desejos. É problema psiquiátrico. Não necessariamente determinado pela quantidade de tempo ou vezes que alguém se dedica (ou se sujeita) à atividade ou consumo de algo, mas o quanto se compromete com ela. Vício é aquilo do qual não se consegue desligar. É o prazer temporário, aparentemente mas sem fim, porque nunca satisfaz. Ainda que alguns vícios possam ser classificados como “dependência legítima" porque não consagram-se nos mesmos efeitos negativos à vida em família, à saúde, como as dependências químicas, por exemplo. 

                  Viagens devem ser feitas num estado de espírito saudável, pois representam ótima forma de mantermos a mente brilhando enquanto longe de casa e de nossas obrigações rotineiras, de enriquecer nossa vida e também das pessoas com quem mantemos contato enquanto viajamos. Jamais um vício. Assim, faço o que posso para que minhas viagens sejam um raro prazer. E aprecio o privilégio de fazê-las quando quero e enquanto posso. E sempre tiro delas o máximo. E como este é um espaço para o exercício das minhas verdades, ou “reflexões da vida e viagens de um viajante vivo (ou esperto)”, se pretendo continuar a desfrutar de credibilidade, preciso assumir: sou viciado em café expresso!

                 Enquanto aprecio uma xícara de Volluto, um de meus Nespressos prediletos, olho para o Mapa Mundi pendurado em minha sala de trabalho e lembro que preciso colocar mais dois pinos, marcar nele os dois novos países para onde viajaremos. Correndo o dedo sobre o mapa vou contando os pinos já instalados. Por cada um que passo, uma paisagem marcante me ocorre. Ao final, contabilizo 43 do total de 80 que tenho o desejo de conhecer. Pelo menos. E então me recordo de algo recorrente: quanto mais viajo (e não importa quanta vezes já o tenha feito, nem quantos países já tenha visitado), volto com a mesma sensação: ainda há muito o que ver. Tanto quanto uma vida só não vai dar conta. 

                Minhas primeiras lembranças de viagens são com minha família, à fazenda da Tia Manu. Nossas idas se davam nas férias escolares até mais ou menos eu ter dez anos.  Há muitos lugares que eu ainda desejo ver e já não espero vê-los todos, mas me considero um privilegiado por ter conseguido ver mais da metade do que pretendia. E já que não consigo conciliar minhas convicções com a crença em vida após a morte, reencarnação e fantasias afins, assumo minha realidade: todo o desejo de conhecer o mundo acabará no último país visitado antes de minha morte. E sempre persistirá a sensação de que ainda sobrarão muitos para conhecer. Vocês eu não sei, mas meus planos de viver pra sempre não vão dar certo. Assim, crendo que a morte é inexorável, tento aproveitar o melhor da vida antes que seja tarde. E sem vícios! É o meu Carpe diem! “...carpe diem, quam minimum credula postero”, cuja tradução possível seria “...colha o dia de hoje e aproveite o momento”. Isso funciona como um mantra para quem acredita que o limite do futuro está no fim da própria vida. Uma exortação a aproveitar o presente usufruindo intensamente de todos os seus momentos sem se preocupar demais com o que futuro reserva”. Segue a linha do epicurismo, o qual defende que a vida é breve, e sua beleza perecível.

                 E assim venho agradecendo à vida, todos os dias, por ela estar me recompensando com muito mais do bom do que do pior. Dos inúmeros privilégios que ela me concedeu, considero os mais importantes viajar às minhas custas, ter a coragem de quebrar paradigmas, carregar no peito uma grande paixão, cultivar no cérebro a crença nos sonhos e, no corpo, a força para soltar amarras contra tudo que limite meu direito de ser feliz. Retribuo tudo respeitando a vida e as pessoas que merecem respeito, especialmente sendo um bom cidadão. E assim, experimentando a vida e o mundo de maneira responsável, minhas viagens tornam-se cada vez mais recompensadoras, tudo o que vou conseguindo natural e gradualmente, por vezes até sem perceber.

                 No âmbito do nosso gosto por viajar, atualmente, quanto mais difícil, distante, exótico e incomum o destino, mais o desejamos. E se temos o privilégio de o visitarmos, nos sentimos recompensados. Exceto por pouquíssimos países, Austrália, Israel e Nova Zelândia os que me recordo agora (por razões de gosto mesmo e afinidades), quase todos os outros daquele enorme mapa ainda vazio de minhas marcas me atraem soberbamente. Especialmente o Irã e Myanmar, primeiros na lista de nossos desejos turísticos, provavelmente os próximos destinos de “aventura” para 2013. Eritréia e Etiópia são sonhos mais distantes. Líbano, Quênia e Tanzânia, todavia, bastante prováveis. Viagens “difíceis” têm sido bem compensadoras. Custos elevados, burocracia, falta de infraestrutura, corrupção, revistas de bagagem pessoal, cercas de arame farpado, pontos de verificação, soldados portando fuzis, quase ninguém falando inglês, atraso e isolamento são alguns dos aspectos que mais emperram o fluxo turístico para algumas nações com grande potencial e minimamente conhecidas. Tem sido assim com a Ásia Central: ainda há poucos turistas, seus países são pedras brutas no turismo internacional, mas contínua e lentamente lapidadas. Certamente, logo estarão no mapa como grandes destinos a descobrir. Não posso deixar de me envergonhar com o fato de estar contribuindo para o crescimento do turismo, esse pecado mortal que arrasa qualquer destino.

                 Não vejo mal algum na contemplação do mundo e, sobretudo da vida. Mas tudo contra o medo de experimentá-los, de ir a fundo, de exercer o natural desejo de viver as maravilhas de uma descoberta, mesmo que o resultado não seja do gosto. O que importa é ter audácia, vencer o medo, pensar em lugares que dificilmente verei na revista Viagem & Turismo, mas por certo encontrarei na Volta ao Mundo ou Viajes NatGeo.

                 Estou longe de ser um “aventureiro responsável”. A definição é minha, mas como eu gostaria de ter sido um! Ao contrário, empreendi apenas uns arremedos de aventura. Talvez por isso admire tanto os dois maravilhosos viajantes ´aventureiros responsáveis´ brasileiros que conheço: o primeiro, Haroldo ´Viajologia´ Castro, que acaba de lançar o fabuloso “Luzes da África”. O livro conta sua jornada de 40 mil quilômetros por 18 países do continente. Com fotos primorosas, um texto cativante, Haroldo - que também é fotógrafo profissional - e seu filho Mikael, realizaram a expedição jornalística percorrendo 40 mil km por 18 países do continente. E que países! O Haroldo é um cara bacana, verdadeiro “gente boa”, como definem os cariocas, e jamais deixou de responder meus e-mails, comenta no meu blog sempre que o convido, conversa sem frescuras, critica o que considera necessário, construtivamente, e quando lhe peço orientação, me dá sugestões e toques francos e úteis. Para além de tudo, recentemente tornou-se carioca, veio morar no Rio. No lançamento de seu livro tivemos o privilégio de conhecê-los, pai e filho, e de termos nosso exemplar de Luzes da África autografado. Tive também a oportunidade de lhe agradecer pelo livro que me enviou, gratuitamente, antes do lançamento e de termos alguns minutos de papo e uma hora de palestra incrível.

                 Outro é Tito Rosemberg, esse um carioca nascido na Urca, cidadão do mundo, jornalista aventureiro, viajante incrível, inspirador ainda aos 66 anos, quase todos dedicados ao surfe, ao jornalismo e às viagens de aventura. Tito participou do Camel Trophy em 1985 e escreveu, em parceria com Carlos Probste, o livro “Aventuras No Camel Trophy Dois Brasileiros No Inferno de Bornéu”. Já empreendeu inúmeras viagens com seu Land Rover por inúmeros países, e também já tive o privilégio de suas visitas no Fatos & Fotos de Viagens, além de ter me correspondido com ele algumas vezes. É outro sem frescuras, gente boa. Hoje vive muito bem, obrigado, em Pipa, no Rio Grande do Norte. Eu o acompanho virtualmente há décadas, desde lá dos tempos do Pier de Ipanema, na íncrível década de 70. Desde então ele tornou-se um dos que me inspiravam e motivavam a sonhar com viagens. Ambos são admiráveis, cada qual com sua história, sobretudo como enxergam o mundo e seus povos e o quanto contribuiram para que seus leitores também o façam. Tito mantém um blog interessante de reflexões, o "Titobeante - Para aqueles que estão sempre na dúvida sobre qual caminho seguir".

                  O homem sempre registra suas viagens, na memória ou na palavra, por necessidade ou por prazer, por profissão ou pela busca do conhecimento, por lazer ou por simples oportunidade. Assim o fizerem Marco Polo, Américo Vespúcio, Pedro Álvares Cabral, Cristóvão Colombo, Bartolomeu Bueno da Silva, Darwin, Margareth Mee, Marechal Cândido Rondon, Amyr Klink, Haroldo Castro e Tito Rosemberg, e também mais da metade da população do planeta que viaja para os destinos mais clássicos - de Nova York a Roma, de Paris a Londres - aos menos comuns, de Timbuktu a Malawi, de Zanzibar a Rangiroa.  A estes que o fazem por sonho, idealismo, prazer e desejo genuíno de compartilhar sem clichês, preconceitos ou estereóticos, agradeço.

                 Entretanto não posso negar que clichês podem ser necessários para classificar viagens e destinos. Felizmente, preconceitos não. Nada de mal nisso, desde que as classificações sirvam para orientar o viajante, não para dirigí-lo ou determinar o que deve ou não fazer, tampouco pasteurizarem o destino. Desse modo, há viagens de “aventura”, de “lazer”, para “solteiros”, “escapadas românticas”, “culturais”, de “auto-conhecimento”, “religiosas”, de “observação da natureza”, de “admiração arquitetônica”, “negócios”, “temáticas”, “culinárias”, “estudo”, enfim, um mundo de diferentes tipos de viagens. Foi começando a escrever sobre esta que lembrei-me do quanto seria oportuno transmitir ao leitor o porquê de nossa escolha, como a definimos e de que jeito eu poderia classificá-la para melhor orientá-lo.

                 Escrever memórias de viagens e transmitir experiências pessoais não é nada fácil. Especialmente para quem não quer exagerar na descrição do encantamento, na precisão das impressões e dirigir pensamentos e opiniões. Penso que deva pensar e agir assim qualquer escritor responsável, de forma isenta e imparcial. Tento ser assim, mesmo que eu não seja profissional, tampouco tenha a competência, talento e experiências do Haroldo e do Tito. Para mim, por vezes, é até penoso escrever sob a luz dessas minhas convicções. São elas que me fazem refletir e revisar, revisar e revisar o que escrevi. É assim, enquanto as planejo, que minhas viagens já ‘acontecem’ antes mesmo de viajá-las. Viajo muito mais ainda durante e enquanto no destino. E viajo depois, deliciosamente, escrevendo sobre elas e revendo minhas fotos. Com sobra de certeza, esta a fase mais difícil. Não é fácil resgatar reminiscências e transformá-las em palavras tentando ser eficaz. Um dos meus desejos é que o leitor do Fatos & Fotos de Viagens sinta-se inspirado e motivado a visitar o destino que lhe apresento, a mergulhar nas suas histórias e tradições, e, neste caso, a descobrir o curioso mundo de sotaques russo e islâmico, de vodka com véus.

                  A Ásia Central, em muitos aspectos, é o sonho qualquer viajante-escritor-fotógrafo, amador ou profissional. Ainda que a região enfrente sérios desafios ambientais, pobreza extrema e governos autoritários tão ciosos de seu poder, que ameaças oposicionistas tratam-nas brutal e sumariamente. Todas, aliás, convenientemente ignoradas pelo Tio Sam, graças à sua sistemática guerra contra o terrorismo. O ansioso “tio” não pode perder qualquer aliado na região. Sempre governado por déspotas, sua história é tão deprimente que até mesmo o comunismo representou um período de relativa prosperidade. Hoje, 13 anos depois da independência, mais uma vez a região é de países governados por tiranos. Contudo, apesar de todos esses absurdos e contradições, a cultura e a arte islâmicas produziram tão enorme e brilhante oferta de atrações que deixa seduzido qualquer viajante apaixonado. A Ásia Central hoje é uma região dividida em países com nomes terminando em "stão" - Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão - mas apenas o Afeganistão poderia ser classificado como “destino de aventura”. Até mesmo para intrépidos como Haroldo e Tito.

                 Foi assim que percebi que, tratando-se de uma viagem incomum, ainda que comemorativa de uma ocasião muito especial na minha vida, não poderia classificá-la como “de aventura”, “romântica”, ou como destino de “Lua-de-Mel”. Pensando mais, sequer como viagem “de férias”. Alimentados por nossa enorme curiosidade, disposição quixotesca e um certo gosto por “aventuras”, fomos para o ´meio de mundo´ - ou Ásia Central. Os pretextos foram a comemoração de nossa união formal, aproveitar nosso período de “férias”, o gosto pela “arquitetura” e pelo mundo islâmico, mas, de verdade  foi mesmo para atender ao antigo desejo de minha doce Emília. A Ásia Central (*) a atrai desde menina, quando lia as viagens fantásticas do Tio Patinhas ao “Patuquistão”. Foi o bastante para que a região não desgrudasse de seu consciente. Convenhamos, para uma mulher que enxerga o mundo como eu, este seria um belo presente de casamento.

____________________________________________

E assim, iremos para Ásia Central

                 Uma das regiões mais misteriosas e fascinantes do planeta, de histórias fantásticas, de verdadeiras jóias da deserto, de caminhos que ainda hoje alimentam mentes de aventureiros, das caravanas de outrora, dos nômades e conquistadores. Esta incrível viagem através de paisagens belíssimas e da cultura islâmica começa em Tashkent, cruza naturezas surreais e termina em Bishkek, no Quirguitão. Visitaremos Tashkent, Samarcanda, Khiva, Bukhara, Bishkek e Karakol. Algumas destas cidades estão paradas no tempo, outras são tão míticas que tornam-se quase lendárias, mas todas são surpreendentes. Por aí o tempo cruza campos, montanhas e semi-desertos na mesma velocidade das caravanas de Alexandre O Grande, de Gengis Khan e de Marco Polo, o mercador, embaixador e explorador veneziano que em 1271, com seu pai Nicolau e seu tio Matteo, seguiram pela região sobre camelos (**). Hoje, os patrimônios brilhantes, as incríveis amostras de um período áureo da cultura muçulmana e alguns dos mais impressionantes monumentos islâmicos do mundo, tornam o destino e a viagem uma incrível jornada de descobertas do que foi uma das mais incríveis aventuras da humanidade. A Rota da Seda, rede de estradas que ligava o Extremo Oriente ao Mediterrâneo transportando produtos do Oriente para a Europa, e no caminho contrário, através de montanhas, desertos e estepes.

                  Açafrão e pistache da Pérsia, incenso, aloé e mirra da Somália, sândalo da Índia, garrafas de vidro do Egito, sedas e outros bens manufaturados tão caros e desejados no ocidente. A seda, tecido leve, macio e sensual, era um dos produtos mais caros entre os que se levavam nas valiosas cargas dos caravaneiros, entre pedras preciosas, especiarias, marfim, cerâmica, porcelana e incenso. Por isso os chineses a mantiveram em segredo por muitos anos, tornando-a uma preciosidade até finalmente popularizar-se. Hoje, os países ao longo da rota são acessíveis como nunca. Os trechos, então poeirentos por onde seguiam os camelos, são agora estradas pavimentadas por onde trafegam carros, ônibus e caminhões. Ainda assim, mantém viva sua história, místicas, bravas e românticas histórias que esperam ser descobertas por nós, os viajantes modernos. Foram o patrimônio, as idéias, culturas, etnias, ideologias e religiões que promoveram nossos mais incríveis desejos de visitar o Uzbequistão e o Quirguistão, que evocam as imagens de bazares coloridos, de mesquitas imponentes, de desertos, de lendas e histórias. O Uzbequistão é o país com melhor infraestrutura turística - de transporte a hospedagem - em toda a Rota da Seda, na parte da Ásia Central. Terminaremos esta viagem em Istambul, a “nossa cidade” e esperamos trazer na bagagem lembranças materiais e enorme massa cultural.

                  Boa viagem! (E leve as crianças!)

                  A seguir... Uzbequistão - O meio do mundo

 NOTAS ___________________________________________________________________

(*) Nota 1: para as Nações Unidas, a Ásia Central é uma sub-região, compreende apenas o Casaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Usbequistão. Todavia, também consideram-se parte dos territórios do Afeganistão, da China, Índia, Irã, Mongólia, Paquistão e da Rússia. Portanto, toda a Ásia Central reconhecida oficialmente pelas Nações Unidas é formada por países da ex União Soviética. 

(**) Nota 2: tornaram-se os primeiros ocidentais a percorrer o caminho entre a Europa e a Ásia, uma série de aventuras mais tarde documentadas em livro próprio. Ainda que jamais a Rota da Seda tenha sido uma única via, senão uma rede de rotas ligando a China à Ásia Central, continuando à Índia, Pérsia até o Mediterrâneo, este é seu trecho mais emblemático e o que mais inspira os viajantes. O nome Rota da Seda refere-se à rede de caminhos que se estendia da China aos portos do Mediterrâneo, por onde circularam entre os séculos I e XV, os mercadores, missionários, peregrinos e conquistadores de diferentes etnias e culturas. Marco Polo provavelmente não foi o primeiro ocidental a passar pela Rota da Seda, mas foi o primeiro a deixar um relato de suas viagens em livro.

 (***) Nota 3: livros recomendados:

 “Nas fronteiras do Islã”, de Sérgio Túlio Caldas – Editora Record - ISBN 8501063371

“In Xanadu”, de William Dalrymple - Lonely Planet - ISBN-10: 1864501731

Reader Comments (9)

Arnaldo.

Mais uma vez agradeço por me trazer tão boas sensações ao longo de uma leitura. É realmente impressionante a sensibilidade de seus textos. Sempre inspirador.....
Saiba que mais do que leitores, vc possui "torcedores".. risos... Pelo menos posso falar assim de minha parte....
Torço muito pra que tudo dê certo em suas viagens... que tudo dê sempre certo com vc e a Emília... e que tudo dê certo e chegue logo o próximo post.. risos...

Grande abraço e boa sorte....
Vocês merecem....

Caro Daniel, eu é que agradeço por seu comentário e seus votos tão genuínos e gentis.

Tudo vem dando certo, felizmente, em todos os aspectos, mas nunca é demais receber votos assim.

Quanto aos próximos posts, virão sim, na medida da minha disponibilidade, e após a viagem.

Um grande abraço, saúde, paz e boas viagens.

Parabéns! Ficou muito lindo. Você tem realmente o dom de escrever, de expressar idéias, pensamentos e sentimentos.

Obrigada por compartilhar conosco tantos relatos lindos e verdadeiros. Beijos

14:51 | Unregistered CommenterAna Paula

Gostei das novidades: foto, cores, tudo muito bacana, deve ter dado muito trabalho até chegar nesse ponto, mas valeu a pena. E o texto... maravilhoso, como sempre!
Muito inspirador, já deu vontade de ir junto para Ásia.

17:39 | Unregistered CommenterRosa

Oi Arnaldo,

Que boa notícia a que vocês vão ao Usbequistão e ao Quirgusitão. Estive em Tashkent, Bukhara e Samarkand em 1983, ainda quando era URSS. Mas as cidades já eram e ainda são magnificas. Deveriamos ter ido juntos!!! Morro de vontade de ir para aquelas bandas. Mas vou aprender russo antes (o idioma franco em todas estas republicas. O uzbeque só serviria no Uzbequistão para falar com os uzbeques, há muitas outras línguas no país e naquela região).

As mesquitas, as mais belas do mundo, talvez possam apenas ser comparadas com algumas no Irã e no Afeganistão. Mas o Quirguistão, ainda não fui. Quero ir. Vamos ver o que vai rolar para eu fazer os "Stão" da Asia Central…

Obrigado pela menção sobre o livro. Espero que seus leitores se animem e se aventurem a conhecer a Africa através das 570 paginas e 130 fotos. Vc leu até o final?

Um abraço, Haroldo

_________________________________________
Haroldo Castro - Jornalista e fotógrafo

Autor de "Luzes da África" (maio 2012)
https://www.facebook.com/LuzesDaAfrica/

Arnaldo,
foi um prazer encontrar este blog! Me identifiquei de imediato, seu critério de viagens é muito parecido com o meu e de minha mulher, sempre atrás de novas descobertas e fora dos padrões convencionais.

Já estivemos em 45 países, em todos os continentes, polinésia e caribe e temos também algumas "moscas brancas" como Sri Lanka, Cook Island, Senegal,Moçambique, Tanzânia (Zanzibar), Vietnan, etc, mas uma viagem que está a n anos no meu radar (só estava esperando meus dois filhos ficarem um pouco maiores) é esta dos "stão".

Já comprei alguns guias e livros e planejo no próximo ano ir para o Usbeskistão e Quirguistão, assim espero pelas suas informações após sua viagem! Estou planejando a partir do Quirguistão passar para Kashgar (Kashi) na China, que faz parte da China muçulmana e tem a maior feira a céu aberto do mundo, reuinindo todas aquleas etnias.

Aproveitem os Stãos!

Kelson

15:54 | Unregistered CommenterKelson

Kelson, viajar pela Ásia Central tem algumas limitações. Por isso nós que ambém estávamos loucos por ir à China islâmica, não conseguimos viabilizar nesta viagem nas condições que desejávamos.

Não espere muito pra levar os filhos!

Boas viagens e muito grato pelo comentário.

Olá Arnaldo,
Gosto muito do seu blog. Eu e meu marido também viajamos muito e estamos sempre buscando novos lugares e culturas para conhecer.
Estamos indo em maio para o Irã e o Uzsbequistão e suas preciosas dicas tem nos auxiliado a tomar decisões sobre o tempo de permanência no país.
Já estivemos duas vezem em Myanmar. Uma em outubro de 2009 e outra, agora em novembro de 2012. Somos apaixonados pelo povo birmanês que parece agora começar a reescrever uma nova história.
O país é maravilhoso e estamos a disposição para qualquer dica que precise.
Uma forma de retribuir seu precioso auxílio no Uzbequistão.
Boa viagem,
Marly

12:41 | Unregistered CommenterMarly

MARLY, não vou esconder, gosto muito de comentários como o seu!

Bem, falando sério, muitíssimo grato por este gentil comentário. Saiba que fico extremamente bem quando noto que legitimamente contribuí para ajudar no planejamento de uma viagem de um leitor.

Sim, estamos quase lá em Mianmar, mas acerda desta viagem não me lembro de nada que reste de dúvidas a lhe perguntar. Já sobre o IRÃ, sobram MUITAS. É um destino que gostaríamos de visitar em Outubro de 2013. Sabemos de uma operadora brasileira que faz roteiros personalidados e pessoais para o país, mas gostaria de saber como vocês arranjaram tudo. Antes de ir, se puder nos adiantar informações fundamentais, e ao retornarem puder nos contar como foi, as "portas" do blog estão abertas.

Uma grande viagem! Parabéns pela escolha. Irã e Uzbequistão são bastante próximos históricamente, e as influências arquitetônicas do primeiro ao segundo, notáveis.

Obrigado.

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