CONHEÇA O AUTOR

 

         Depois de estabelecer-se na Internet - em 1999 - escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo, da Editora Abril e, agora, prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando, assim, na literatura de viagens com um livro encantador, segundo o autor, o primeiro de uma série de pelo menos quatro que já planeja produzir, dois deles em plena fase.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de apenas uma "conversa" com o leitor, baseada na informalidade, o livro mistura traços desta coloquialidade e informalidade com os de uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida. 

              Minha ascensão na escrita de viagens com este trabalho literário não é exatamente uma novidade. Ainda que recentemente eu tenha notado a mente lampejar com a ideia: tornar-me um escritor de viagens. Todavia, ela sempre me rondou. Mesmo que a alguma distância. Não foram poucos os amigos, parentes e leitores do blog que há mais de dez anos recorrem à pergunta: “Por que não escrever um livro?”

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti na categoria Reportagens

Ronize Aline:

             "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária, crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

 


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Terça-feira
Out082013

IRÃ. A Serendipitia, o Amigo do Rei e a (minha) "arte" de viajar 

 A Serendipitia  ______________________________________________________________

A Serendipitia e os livros 

                          LIVROS nem sempre chegam a mim por desejo. De certa forma, até por acidente, assim, meio sem querer, como os acasos da vida. Acontecem, simplesmente. A lingua inglesa define estes casos fortuitos com uma bela palavra: serendiptyÉ difícil a tradução, daí outros idiomas resumirem-se às equivalências sonoras. Em francês, por exemplo, sérendipicité ou sérendipité. E foi a única lingua a tentar traduzir a palavra. Virou heureux hasard, ou chance fortúita. As demais respeitaram a bela sonoridade original, adaptando-a aos seus sotaques: serendipità, em italiano; serendipiteit em holandês; serendipität em alemão; serendipiti (セレンディピティ) em japonês; serendipitet em sueco, dinamarquês e norueguês; serendipitate em romeno ; em espanhol ficou serendipia; em polonês serendypność e em filandês serendipiteetti.

                          A definição conceitual faz juz à romântica sonoridade quando define a serendipitia como "ocorrência inesperada, circunstancial, extremamente oportuna e de grande utilidade". Dessa rara contingência, ou dom, das descobertas felizes, casuais e proveitosas -  tenho tirado o máximo proveito, mesmo esperando o mínimo. Têm produzido bons resultados as minhas serendipitias com os livros e as viagens, sobretudo quando enfrento minhas dificuldades ao escrever.


Irã: "Espelhos do Não Visto" e os Vistos

                          NÃO faz muito tempo a serendipitia me pegou. É claro porque em boa dose eu estava preparado para ela, também porque pareço não fazer mais nada na vida do que pensar, me preparar, ler, pesquisaar e "estudar" o Irã para nossa viagem. A web promove essas oportunidades das descobertas fortuitas e aprendizado. Talvez porque nunca se tenha compartilhado tanta informação e conteúdo. Então foi assim, através da web e com a serendipidade que ocorreu meu encontro com Mirros of the Unseen: Journeys in Iran.

                        O livro seria uma feliz descoberta mesmo pela simples leitura de um primoroso relato de viagem. Mas para quem está embarcando ao Irã e pretende aventurar-se a escrever sobre o país, o encontro torna-se bem mais proveitoro, precioso. Seu valor assume então um grau superior, o de tesouro, de tão repleto de idéias, informações, inspiração e motivações. E também a pensar que quanto mais guia de viagem um relato for, mais rapidamente se tornará obsoleto, desatualizado. Ao contrário, sendo escritos como romances do tema, os relatos de viagens permanacerão atraindo, cativando e encantando leitores mesmo depois de tantos anos escritos.

                          AS reflexões e experiências descritas pelo autor - o londrino Jason Elliot - focadas na tradição e no intelecto do povo persa, resultaram de suas inúmeras viagens ao Irã. Estudou farsi, a lingua nacional, para que tudo ficasse mais fácil, da comunicação ao aprendizado. Mas Elliot trata do assunto Irã com uma particularidade que me agrada: evita a política contemporânea sem ignorá-la ou também alienar-se dela. Que sabedoria! Revelada em cada palavra do relato, em forma de contos e depoimentos, de opiniões, história e cultura. É como, afinal, deveriam ser todos os relatos de viagem. Mas, para escrever algo assim é preciso ter, além de talento, um bom jeito de olhar para os lugares: generosidade intelectual e humanismo. Elliot vai fundo para perceber os povos e culturas, sobretudo eliminando clichês e estereótipos. E cativa os leitores, com a sabedoria de deixá-los livres para que tirem suas próprias conclusões.  

                             NA história da literatura de lingua inglesa o gênero "relato de viagem" tem destaque no "hall da fama". Inclusive sobre a Pérsia. Viagens bem viajadas e bem escritas sempre levam a boas reflexões. Não apenas para quem as escreve, sobretudo para quem as lê. Mas não é fácil produzir bons relatos, documentar histórias de viagem onde destacam-se a cultura, o patrimônio e a civilização. Para além de talento, é preciso abordagem pessoal. Personalidade, afinal, é o que os tornam atraentes, os diferem dos guias de viagem. Mas Elliot tem uma peculiaridade ainda mais incomum, especialmente quando escreve sobre o Irã: usa arquitetura como personagem. E vai a fundo na sua origem. Interpreta seu caráter, forma e estrutura, e ainda encadeia as arquiteturas persa e islâmica com civilização e cultura. Tudo com um talento que leva o leitor à admiração por sua inovadora característica na arte de escrever relatos de viagens.

                             NÃO é pra menos. A arquitetura persa vem dos Séculos VI a IV a.C. E deriva sobretudo das ruínas dos palácios e templos de Pasárgada, Persépolis e Susa, onde as linhas mostram influências egípicias e gregas, resultando todavia num desenho único, persa, como nos ensina o livro História Ilustrada da Arquitetura (Emily Cole, PubliFolha). A perícia arquitetônica e ornamental persa não é casual nem superficial. Em Persépolis, por exemplo, trabalhavam artesãos extremamente habilidosos de todos os cantos do império. Produziam um acabamento tão meticuloso que algumas apredes eram polidas até ficarem com aparência de jóias. Paredes de pedra e peças de madeira eram entalhadas intrincadamente e com tal fineza que pareciam trabalhadas por joalheiros. Volutas, rosetas, capitéis, colunas e carpitaria muitas vezes eram pintados de turqueza, amarelo e vermelho, revestidos em ouro, incrustados em marfim, turmalina verde e hematita vermelha.

                            QUALQUER bom escritor tomaria Elliot como exemplo. A nós, medíocres, só resta invejá-lo. A história vai se revelando na sua viagem por um texto pessoal, entretanto sem jamais "cair" na armadilha que aprisiona alguns autores do gênero: a pretensão de prevalecerem sobre o destino. O que descreve Elliot é sempre maior daquilo que ele pensa. Então, a serendipitia não poderia ter sido mais oportuna: o livro orientou meu pensamento, guiou meus primeiros passos para compreender o país e inspirou-me a enfrentar minha própria aventura: escrever sobre o Irã com o mesmo grau de responsabilidade e consistência. 

                            MINHA memória é recheada de outros bons escritores viajantes dos séculos 20 e 21. Paul Bowles, Paul Theroux e William Dalrymple são alguns exemplos desses extraordinários autores viajantes, ainda que Theroux seja por vezes meio convencido. São autores tão excepcionais que os críticos de suas obras já não as consideram simples relatos de viagem, mas romances do tema. Destaco Jason Elliot pela serendipitidade, a fortuita oportunidade deste nosso momento tão sonhado: nossa viagem para o Irã. O autor tornou-se referência entre os escritores contemporâneos de viagens. Consideram-no um dos grandes viajantes escritores da atualidade. E conquistou fãs da mesma forma que Robert Byron fez depois de The Road to Oxiana, também considerado o primeiro grande escritor moderno de relatos de viagens. Jason Elliot seguiu a tradição iniciada por Byron, todavia inovou tanto que passaram a considerá-lo também um "criador de novo ciclo no gênero", autor de uma nova maneira de escrever sobre viagens. Inspirei-me nele (desculpe, Elliot!) e no seu poder descritivo, na sua imensa capacidade de evocar, na sua justiça e imparcialidade ao abordar o país. E o fiz sem a mais remota pretensão, senão num grau superior de referência, de modelo e de admiração. E me alegra muito perceber que grandes viajantes não precisam de um blog, site, publicidade e pagamento para viajarem e produzirem bons livros. São autores escrupulosos.

                            NO primeiro parágrafo, na introdução à sua obra, Jason Elliot reconhece que “Não há nada como escrever um livro sobre outro país para estender nossas fronteiras da ignorância.” Com uma afirmação dessas, elementar mas precisa, fui conduzido a refletir de novo sobre o tema: quanto mais conheço o mundo, mas difícil torna-se generalizá-lo. Cada nova viagem, cada país que visito, detalhe que observo, pessoa que conheço, comida que provo, residência que entro, sou levado a aprender algo. Do mais simples ao mais importante. E todos vão tornando mais difícil encarar o mundo com a presunção de que é possível compreendê-lo. E tudo torna qualquer generalidade um estereótipo. Assim vou viajando, sabendo que por mais que eu "conheça" o mundo, mais percebo sua complexidade e contradições. 

                            COM a "arte" de escrever sobre viagens morrendo, sobretudo levando consigo o interesse do leitor, não deixa de ser um alento conhecer um livro tão genial. E bem mais do que levar-me a boas reflexões, este serviu-me de alento: se de fato o gênero morrer, que o faça com a mesma dignidade deste livro.

                             ALGUÉM aí se recorda de um bom best seller do gênero relato de viagem? O último que me ocorre, caro leitor, é “Comer, Rezar, Amar”, de Elisabeth Gilbert. Não o li. Não me "fala" o estilo, ainda que bastante o gênero. É meio "auto-ajuda", e Paulo Coelho demais. Mas fez sucesso estrondoso, não posso negar. Queria ver um “Comer, Rezar e Amar”, no Irã! Mas aquele foi do tipo “não li e não gostei”, reconheço. Até virou filme. Foi protagonizado por Julia Roberts. Assisti. Não gostei, mas não estou certo se por causa da "sem-gracisse" da protagonista ou pela "qualidade" literária. Ao menos foi legítimo, escrito com base no que viveu sua autora, não dirigido pela "monetização" dos relatos de viagens. Ganhou dinheiro, mas com que legitimidade.

                            O mesmo aconteceu quando "encontrei" David Byrne. O músico, compositor e produtor musical, dublê de escritor, é muito mais famoso por fundar a banda Talking Heads, em 1974 e por ter sido um dos precursores do new wave e do worldbeat. Foi até premiado com diversos Grammy. Enfim, este mesmo Byrne escreveu Diários de Bicicleta. Por serendipidade. Ela o pegou, tornou-o escritor por mera casualidade e circunstância. Em seu livro o músico-viajante-escritor afirma: Não ando de bicicleta para todo lugar por ser ecológico ou digno de nota. Faço principalmente pelo senso de liberdade e êxtase. Byrne narrou suas passagens pelos Estados Unidos, Berlim, Istambul, Buenos Aires, Filipinas, Sidney e Londres. Por onde ia, levava sua bicicleta dobrável. E a usava como meio de transporte. Genuinamente. Por gosto, não por modinha. Tampouco tentando ser politicamente correto, ainda que admitisse estar sendo. Byrne até poderia tornar-se um ativista chato, um "bici-chato" (já há tantos). Mas não. Com simplicidade convida o leitor a viajar em suas pedaladas. E como bom escritor o agarra no começo da leitura e o solta só quando ela termina.

                             SE então escrever e compartilhar viagens é como afirma o virulento Paul Theroux a mais baixa forma de estilo literário, uma falsidade criativa, linguagem despropositada, exibicionismo inveterado, quase uma distorção da Síndrome de Munchausen(*), para Paul Bowles, bem menos ácido (e mais simples), eles são a história do que aconteceu a alguém num determinado lugar. Sem informações de hotéis e estradas, sem lista de frases úteis, estatísticas e dicas de vestimenta. Pode ser que pertençam a uma categoria destinada à extinção. Espero que não, porque nada me agrada mais ler do que um relato de viagem preciso, de um escritor inteligente, descrevendo o que lhe aconteceu distante de casa.

                             ENQUANTO os leio fico aqui pensando se as assombrações recorrentes quando escrevo aparecem pra toda essa gente. Ou se mesmo apenas para os sem talento. Será que apenas os menos afortunados sofrem esse exercício crítico que bloqueia o modo criativo e põe a escrita encalhada?

 

                                   E com os geniais? Apenas para os auto-exigentes? Para os que com ela tentam aplacar a incompetência? Ou somente para os que não se possam chamar de "estilistas da escrita", os capazes de produzir algo interessante e atraente todo o tempo? Não sei, mas o que faço é tentar, tentar, tentar. E imaginar que um dia não morrerei na "praia". Os meus “fantasmas” assustam, mas de uma forma peculiar: todos sabem que não acredito neles, em almas deste ou de outro mundo. Então, para mim, eles tomam a forma de vergonha. Alheia. Aquela que poderá expressar o leitor ao ler o que escrevi. Sou um perdulário das palavras. De muitas e pobres palavras. E assumo que elas "despencam" da mente quando tento escrever. E ao tomarem a forma escrita, junto-as tentando dar-lhes sentido. Mas a coisa vai tornando-se mais difícil à medida que tento desenvolver parágrafos: apenas alongam a distância entre intenção e resultado. Um eterno conflito vivo entre querer (escrever bem) e não poder. Mais que um exercício, a arte de escrever sobre viagens para mim é uma acrobacia. Ainda assim persisto nela, agora num atrevimento ainda maior: sobre o Irã. E sem saber se é possível fazê-lo bem, turisticamente falando, exercendo a minha própria "falsidade criativa", a "linguagem despropositada" e o "exibicionismo inveterado" com que nos classificou Paul Theroux. A conferir. Se a minha luta contra a mesmice, a perseverança e resistência, o meu esforço para tentar criar de algo decente, resultará numa vingança positiva. Vocês sabem, minha gratidão aos leitores é inversamente proporcional ao meu desapego por este blog.

 Fomos para o Irã (com os dedos cruzados)  _______________________________

                             E a menos que Israel e o arrogante Netanyahu, com os Estados Unidos, cumpram as promessas ameaçadoras - bombardearem o Irã -, voltaremos pra contar nossa viagem ao país atômico. E revelar ao leitor a grandiosidade patrimonial, a riqueza histórica e nossa experiência no país. Será a minha maneira de retribuir tanta coisa boa e consistente que li sobre o país em meses de pesquisa. E também a atenção dos leitores que por aqui passarem e nos desejarem boa viagem. Tudo na minha singela maneira de relatar viagens: em fatos, fotos, pensamentos e reflexões. Desta vez abordando a arte e a arquitetura persas e islâmicas, as cidades e lugares que visitamos, as paisagens, o que é turístico e o que não é, a comida, a gente, enfim, os caminhos que percorremos para chegar a Teerã, Tabriz, Shiraz, Isfahan, Kashan, Kandovan, Kerman, Yazd, Persépolis e Pasárgada. Sobretudo um mundo raramente visto no noticiário da TV, nossas descobertas e o que fizer sentido para quebrarmos até os mais discretos clichês e estereótipos.

 O Amigo do Rei   ___________________________________________________

                            O Amigo do Rei é um lugar pra se comer comida iraniana. Único no Brasil. É "um lugar" porque não é um restaurante. Já foi. Em Belo Horizonte e em Paraty, por onde os donos andaram cozinhando. Tentativas infrutíferas de ir aos dois lugares desde 2004 só agora se resolveram. Hoje é um serviço especializado em culinária iraniana na casa dos interessados. Exclusivamente em São Paulo.

                            A culinária persa, tão indescritível quanto maravilhosa e requintada, também pode ser provada na residência da cadbanou* Nasrin.  É experiência igualàque se pode ter no Irã, onde dizem não serincomum que famílias convidem turistas a comerem em suas casas. Aqui é fácil agendar por telefone. Assim o fizemos. 

                           Na casa de Nasrin e seu marido Claudio Battaglia estava também sua filha Iramaya. Agora nos correspondemos por e mail. Eles nos mandam dicas do Irã, nós lhe enviamos notícias nossas. Provamos a culinária riquíssima mas não sei se experiência deliciosa foi maior pela qualidade da comida, pela simpatia dos anfitriões ou por horas de conversa sobre o Irã com a família.  Só sei que voltaremos depois da viagem ao Irã.

 A (minha) "arte" de viajar  _________________________________________________

                             QUANDO menino jamais pensei que conversar comigo mesmo fosse um desajuste, senão um jeito tímido de ser. Ou diferente dos demais. Eu me percebia assim quando olhava meus colegas. Embora jamais tenha achado que algo de errado houvesse comigo. Mesmo que alguns “intérpretes” do meu jeito de ser julgassem-no uma forma sutil de “desajuste”. Não era. Apenas introspecção. E foi um psiquiatra, não um idiota, quem esclareceu tudo. E me fez compreender que pessoas saudáveis intelectualmente são diferentes umas das outras. Apenas isso. Não fui levado ao profissional porque estava doente, mas para que me aplicasse um teste vocacional. Eu tinha uns quinze anos. O médico definiu-me técnicamente como “cerebrotônico”. E diante de meu espanto com a palavra, antes que eu pensasse ter uma doença grave, explicou-me que são as pessoas introvertidas, que têm predominância das atividades intelectuais sobre as físicas. E que em nada os cerebrotônicos são superiores aos demais. Mas também não inferiores. A não ser na prática de alguns esportes, no que somos uma negação! Estamos apenas enquadrados entre os tipos classificáveis pela psiquiatria. Tudo então tornou-se ainda mais claro, e só confirmou o que eu já sabia: não havia nada de errado comigo.

                            AO recomendar aos meus pais que me ajudassem a fazer certos ajustes de conduta, a fim de tornar-me um pouco mais extrovertido, o profissional também orientou-lhes explicando que por trás da minha introversão eu desenvolvera um precoce prazer em escrever. E de refletir sobre mim mesmo, sobre o mundo e tudo mais. Desde então mudei minha abordagem filosófica sobre o mundo e as pessoas. Particularmente das religiões. Passei a ser livre delas. E a desprezar estereótipos e classificações não profissionais. Sou assim até hoje. E enquanto viajante-escritor amador transmito no que escrevo minha visão positiva de como devemos encarar o mundo: como ele é, não como o prescreveram. Deste então me tornei pronto para conhecer o mundo. E foi assim que eu e as viagens ficamos amigos muito cedo. 

                            GRAÇAS à vida por ter-me dado tanto: a sorte de receber orientação e cuidado familiares, a compreensão de que pessoas são diferentes e que o mundo é como é. Ainda garoto, passava horas olhando o horizonte da janela imaginando o mundo. Eu mal sabia dele, mas muito desejava conhecê-lo. Foi de meu pai que herdei esses traços: o gosto por viajar, pela leitura, por escrever e fotografar. E assim, muito cedo, infiltrou-se em mim a curiosidade pelos países, então um sonho impossível. Ainda hoje sinto a intensidade deles. Prestes a embarcar para o Irã - tesouro entre meus tesouros turísticos -, reconheço o imenso privilégio, e considero que o “tanto“ a que os versos da canção de Mercedes Sosa se referem equivalem a muitos outros privilégios. Entre todos, o de poder viajar tantas vezes para tantos lugares. E olhar o mundo sem classificá-lo, com a tolerância dos justos, a mente dos espertos, o respeito pela diversidade dos viajantes vivos, a admiração pelo destino, a complacência com as diferenças e a concentração no que importa: positividade sobre todas as coisas. Tratando-se do Irã, é a maneira efetiva de compreender o país e tudo o que ele representa de tão grandioso. Tudo o que consagra-se na verdadeira arte de viajar, que tão cedo e sem saber, aprendi.

                            VIAJAR, pra mim, não é fuga, senão convergência pra mim mesmo. É para estar comigo mesmo (e minha doce Emília!). Não é para fugir de mim, tampouco da vida que tenho. Para os ccerebrotônicos é coisa de gente que pensa muito e despretensiosamente. Ao menos pensa bem mais do que se exercita fisicamente. É coisa de gente inquieta, mas não da inquietude nociva dos inconformados, senão a das explorações positivas que levam às descobertas e ao aprendizado.

                           É própria de gente ávida por respostas, mas que vive uma eterna boa relação com a vida. Porque não pensa na morte. Simplesmente porque não acredita em “vida” depois dela.  Viajar para mim não tem relação com insatisfações pessoais, com “buscas de mim mesmo”, “fuga” de qualquer coisa, com “sentido para a vida” ou com nenhuma outra forma de angústia, de desconforto ou inconformismo. Não viajo para ser feliz. Sou feliz porque viajo. E nada mais faz tanto sentido. E se há coisas que me movem e promovem, viajar e contar estão entre elas.

                          E assim fomos para o Irã.

                         OBRIGADO pela visita. E deixem-se apaixonar (pelo Irã). Até lá! 

Reader Comments (6)

Muito legal, parabéns!!!

21:15 | Unregistered CommenterPhoto A

Lindas reflexões, como sempre! Devoro o que você escreve, com muito gosto. Parabéns pelo talento e sensibilidade com que você percebe e descreve as coisas. Um abraço e boa viagem para vocês!

22:19 | Unregistered CommenterElen Rocha

Texto tipo: Li e Gostei, como todos os outros!

9:31 | Unregistered CommenterRosa

Parabéns pelo texto, excelente como sempre. Boa viagem, aproveitem tudo e voltem bem.Beijos

22:17 | Unregistered CommenterMariliana

Parabéns pelo texto, excelente como sempre. Boa viagem, aproveitem tudo e voltem bem. Beijos

22:21 | Unregistered CommenterMariliana

Eu acho que é uma verdadeira sorte ver os restos arqueológicos da antiga cidade de Persépolis, com suas colunas esbeltas e altas!
(eu, entretanto, estou contenta com olhar o filme de animação Persépolis, que conta a história de uma jovem iraniana que vive a transformação do seu país)

10:58 | Unregistered CommenterCarmen L.

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