CONHEÇA O AUTOR

          

         Depois de estabelecer-se na Internet desde 1999 escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo (Editora Abril). Agora, Arnaldo prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando na literatura com um livro encantador que, segundo o autor, é o primeiro de uma série.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui neste blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de uma conversa baseada na informalidade, o livro mistura traços de coloquialidade e informalidade com uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, mas é apenas uma outra maneira de me expressar sobre viagens, transmitir sem fantasias o mundo que vejo, isto é, como ele é, não como o imagino. A leitura revelará, todavia, aqui e ali, discrepâncias entre minhas expectativas e a realidade confirmada no destino. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". Então, a partir deste meu primeiro, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase da minha vida.

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo Trindade Affonso é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti 2013 na categoria Reportagens

Ronize Aline:

            "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária e crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista passou pelas redações das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

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Sábado
Mar022013

YANGON, Mianmar - Cidade sem inimigos  

Buda do Chauk Htat Gyi Pagoda. Olhos de cristal, sombra azul, cílios, lábios rubros e face de porcelana

_______ INTRODUÇÃO

                QUEM lê descobre, quem escreve faz descobrirA leitura, um ato fundamental na preparação de minhas viagens, também promove o maior dos meus prazeres depois de viajar: escrever e compartilhar com o leitor. Para um viajante que sabe melhor olhar e fotografar do que escrever, é a leitura que me proporciona o embasamento, me leva às descobertas do conhecimento, condição fundamental para que eu tire o melhor de uma viagem: conhecimento da cultura, da história e do patrimônio de um destino. Sobretudo conhecer o caráter e a personalidade de seu povo. Com Mianmar foi assim, preparei-me para um encontro que por causa da leitura consagrou-se ainda mais fabuloso.

                COM Yangon não. Incorri no erro mais comum a quem visita o país: dediquei quase todo o tempo a pesquisar as estrelas do turismo birmanês - Bagan, Mandalay e Inle lake.  E só então na ex-Capital percebi a falta que a leitura me fez. Não estivesse eu acompanhado de minha doce Emília, do excepcional guia local e do Lonely Planet aquele encontro não teria sido tão proveitoso.


Teria sido a enorme imagem de Buda reclinado mede 65 metros que me lançou feitos em Yangon?

                   MAS e com o resto? E tudo mais? Como foram as descobertas do encontro com sua maior cidade e com o resto do país?

               A pouca leitura não me levou a imaginar Yangon de maneira idílica. E também assim ela não se revelou, senão franca e encantadoramente. Só estou certo do que eu não sei: quem, em Yangon, lançou seus feitiços em mim? Teria sido o incrível Buda deitado de olhos de cristal e sombras azuis em Chauk Htat Gyi Pagoda? As cintilantes cúpulas douradas de Shwedagon Paya? Os brilhantes sorrisos sujos de vermelho, os incríveis rostos sorridentes cobertos de thanaka, a deliciosa receptividade e doçura do povo? Ou, então, a aura de mistério que permeia as fachadas decrépitas de Downtown Yangon? 

Ou seriam os "htis", as "umbrellas" ao Por do Sol em Shwedagon

                    O Shwedagon Pagoda irradia tranqüilidade. O visitante não deixa de perceber o clima positivo, todos os efeitos mágicos e hipnóticos que um dos mais impressionantes pagodas do planeta proporciona a quem o contempla e admira atentamente.


                   "CIDADE sem inimigos". É este o significado de nome Yangon. Deriva da junção de duas palavras: yan e koun. E o nome da cidade parece incrívelmente associado ao caráter de seu povo: sereno, delicado, pacífico, simples e alegre, mas também vibrante. E, aparentemente, sem inimigos. Surpreendentemente aberto para interagirmos com ele. Além de tudo, receptivo e amigável. Basta do nos aproximarmos e dizermos mingalabar - a saudação nacional - que o retorno será ainda mais simpático. Finalmente, o povo de Yangon e todo Mianmar é inspirador. Viver entre sua gente por duas semanas equivale a umas verdadeiras lições de vida.


Terá sido o povo, com seus incríveis rostos sorridentes cobertos por thanaka? 

               CIDADE de um povo magnífico, que vive com tão pouco, esteve muito recentemente sob um regime ditatorial opressivo e tirânico, mas ainda assim conserva o sorriso, a doçura e a receptividade. Tudo o que parece fazer parte da psique do povo. É um comportamento natural. Especialmente atraente porque é uma gente bonita e de modos elegantes. De vida dura e de poucos confortos, mas que demonstra orgulho, patriotismo e encantamento com nossa visita. E até a agradecem! Ficamos absolutamente tocados. Ao final de qualquer contato, agradecíamos com tchezube (pronuncia-se “tchezubê”) e um novo sorriso o finalizava.

                       E assim descobrimos, exploramos e conhecemos YANGON.

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SHWEDAGON PAYA, uma das maravilhas do mundo

                      APESAR do multiculturalismo - reminiscência do período britânico, quando Yangon (ou Rangoon) era a Capital política e econômica do país, e o ponto mais distante do Raj britânico - o budismo é a fundação do caráter birmanês. E sua mais franca identidade. Do budismo Theravada, praticado como em quase todo sudeste da Ásia e no Sri Lanka, aquele que assume traços do bramanismo.

 

Anjos, bestas míticas e divindades. Lavando a estátua de Buda

                    TODOS tiram os sapatos e vestem-se convenientemente. Turistas vão para conhecer e fotografar. Fiéis para rezar, render homenagens a Buda, agradecer, pedir um futuro feliz ou remir um mau karma. Para tanto, realizam diferentes rituais: rezam diante de uma imagem de Buda, acendem incenso, fazem oferendas e despejam água sobre sua estátua. Como de costume, também dão voltas ao redor da stupa, sempre no sentido horário. E o fazem em ato de contrição.

                 ALI, numa visita ao complexo do Shwedagon Pagoda, o visitante testemunha o quão religioso é o povo e quão profundamente o budismo está inserido na sua vida. De civis a monges. O pagoda Shwedagon, não por menos, tornou-se símbolo nacional birmanês, além da bandeira nacional, e abriga o maior conjunto de ícones da nação: templos, stupas, seres celestiais e bestas míticas.

 

Shwedagon Pagoda de Yangon. Símbolo do país, ícone da nação

                        MAIOR atração turística da cidade, equivale a Mecca para os islâmicos. Assim como lá, todo budista birmanês espera visitá-lo ao menos uma vez na vida. Seus 8.677 tijolos, 99 metros de altura, três terraços maciços, um coroamento com sinos dourados, 7.500 diamantes, rubis e outras gemas, além de enorme diamante 76 quilates posto no topo, em conjunto transmitem exatamente o que ele é: impressionante, gigantesco e poderoso.

                        TAMBÉM foi ali entre tanta devoção e respeito que notei a falta de atenção dos ocidentais às regras de conduta num templo budista. A razão é natural, e o desrespeito não intencional. Na ânsia fotográfica que todos nós turistas demonstramos (ainda maior em lugares tão exóticos), e sobretudo porque estrangeiros sejam bem-vindos aos templos budistas, é improvável que um visitante sinta-se intimidado quando os visita e comete algum deslize comportamental de menor importância. Desde que esteja vestido e comporte-se adequadamente.

 

Mudras, os gestos das mãos de Buda. Comunicação não verbal

                       OS gestos das mãos de Buda - ou "mudras" - propiciam uma comunicação não-verbal com os fiéis. E não é para ser, digamos, respondida ou imitada. Cada posição tem seu significado: a busca da iluminação, a libertação de todos os seres sencíveis, um estado de meditação, o triunfo do Dharma entre outros. São plasticamene bonitos. E mesmo não sabendo seus significados, atraem os olhares ocidentais com sua beleza e serenidade tocantes. Todavia, sendo tão sagrados, precisam ser apreciados com moderação.

                       NOS templos há regras de etiqueta nem sempre conhecidas dos ocidentais. Ainda que visitar um templo de qualquer religião em qualquer lugar do mundo deva ser um ato de contrição (não o contrário)  o desconhecimento torna quase natural que acidentalmente erremos na conduta. Ainda assim, dificilmente, conseguiremos ofender algum budista com nossos "deslizes ocidentais". Se entretanto estivermos num país islâmico, as coisas podem ser diferentes e bem mais rígidas.

 

Aviso nem precisa: a pilha de sapatos na entrada é indicação óbvia de onde deixá-los antes de entrar

                        POR exemplo. Tirar chapéu e sapatos é um dos mais conhecidos e óbvios pré-requisitos para ingressarmos num templo budista. E nem precisa de aviso: a pilha de sapatos na entrada é a indicação mais óbvia de onde devemos deixá-los. Todos andam descalços e sem meias. Seja lá em que piso for. De terra, areia, com pedrinhas, azulejados ou cimentados.

                       MAS existem outras, não tão óbvias, cujo bom senso e observação do comportamento local deveria ser suficiente para evitarmos inconseqüências. Jamais tentando imitá-los, todavia. Para observar e absorver, apenas isso. Não há avisos como "Desligue o celular", "retire fones de ouvido", "baixe o tom de voz", "evite conversas", "não fume", "não masque chiclete", "não consuma alimentos e bebidas". Eles são óbvios demais e válidos para qualquer templo de qualquer religião em qualquer lugar do mundo.

Budas e noviças no Shwedagon Pagoda 

                         ENTRETANTO, a regra mais freqüentemente desrespeitada é fotografar-se à frente de uma imagem de Buda imitando seus mudrás. É tão inadequado e incorreto quanto tocá-la. Para qualquer religião isso soaria como um deboche, mesmo que não intencional. Mas os budistas são extremamente tolerantes, "engolem" até que ocidentais sentem-se ao lado ou à frente de Buda. Mas subir nelas ou em sua plataforma trata-se de exagero imperdoável. Fotografás-la durante um culto, dar as costas e apontar com o dedo ou com os pés também. São atos rudes, ainda que relativamente comuns entre os ocidentais. Para um católico seria o mesmo que presenciar um asiático entrar numa igreja, postar-se de pé e de costas para o altar, e bem junto à imagem de Jesus crucificado, sorrindo (!), ser fotografado.

                           "...um mistério dourado, uma bela maravilha brilhando."

                          QUALQUER um que visite Shwedagon o terá na mais alta conta. E não será difícil relacioná-lo entre os monumentos mais belos da humanidade. São quase 90 metros de altura e perto de 60 mil quilos de ouro aplicado em folhas. Construído ainda nos tempos de Buda, sua principal e menos notável característica, é levar o visitante a um mergulho na cultura budista. Acompanhado de um guia, tendo lido e estando informado, o aproveitamento será multiplicado, e o deleite incomparável: conhecer particularidades e detalhes que os olhos desatentos e desinformados não notarão.  

                         DEVE-SE percorrê-lo com calma, placidamente. Há muito o que ver, aprender e entender. E como em todo templo no país, anda-se descalço e sem meias. Mas aqui é sobre um impecável piso de mármore, por vezes quente codo sol, mas varrido ininterrupatamente pelos seus duidadores. O complexo, ou pagoda (paya) de Shwedagon, é composto por uma enorme stupa em forma de sino, no alto da colina, com diversos templos ao seu redor. À noite ou de dia ela reluz. São suas milhões de folhas de ouro revestindo a imensa cúpula, refletindo o Sol ou as poderosas lâmpadas amarelas. Não sem razão Kipling definiu-o como "...um mistério dourado, uma bela maravilha brilhando."

Bandeira budista. Desenhada no final do século 19, simboliza e representa universalmente o budismo

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DOWNTOWN YANGON

 

                     DEPOIS de um dia em Yangon, o "intrépido" viajante a Mianmar só pensa em Bagan e Mandalay. No máximo estende seu desejo a Inle Lake. Provavelmente porque imagina que a mais espetacular atração da cidade - o Shwedagon Pagoda - seja também a única. Os que pensam assim não percebem que um dia a mais na ex-Capital da Birmânia o possibilitaria explorar seus mercados, o centro colonial e os subúrbios, sobretudo ter uma preciosa introdução ao restante do país. Ainda que Yangon não seja uma estrela de primeira grandeza, é uma distinta alternativa às hoje quase genéricas megacidades do sudeste asiático. Ao menos enquanto a globalização não chega. É ainda muito discreta em relação à modernidade. 

 

                    AQUI é o melhor lugar para o visitante notar que a antiga aparência a faz parecer parada no tempo. Ninguém pode prever o que o futuro reserva aos seus edifícios antigos ou da época colonial, seja pela ação do tempo ou da falta de cuidados, seja pelo ímpeto modernizador de qualquer nação atrasada por anos de isolamento em recente abetura. Mas é lícito temer que não seja o melhor.

Downtown Yangon -  A antiga aparência de uma cidade quase parada no tempo 

                        ENQUANTO a evolução política acontece num ritmo veloz em todo o país, as ruas de Yangon mostram que seus dias de glória pararam no tempo. Os britânicos ocuparam Rangoon nos anos 1850 depois da primeira guerra anglo-birmanesa. Decidiram criar um novo lay-out para o centro da cidade. Rangoon já não é mais a Capital. Mudou de nome e tornou-se decadente, quase melancólica. A transferência da Capital para Naypyidaw em 2005 deixou seus edifícios oficiais abandonados à própria sorte. E esvaziou política e econômicamente a cidade. E para mim a charmosa decadência visual do centro de Yangon pareceu uma contradição, uma deliciosa ironia. É justamente sua decadência que reafirma sua intemporalidade, não o contrário. Percorrendo seus caminhos, notamos que sua decrepitude não a torna temporal ou provisória, mas que a decadência é quem lhe confere originalidade. Ou a condição que molda seu caráter: efetiva e perpétua. Foi como eu a notei. E espero que não seja desfigurada pelo novo.

  Downtown Yangon. Uma deliciosa ironia: a contradição da decadência que reafirma sua intemporalidade

                         UMA planta em forma de grade, com ruas e avenidas retas e paralelas cruzando-se ao redor do Sule Pagoda e a partir da Praça Mahabandoola. Defronte a ambos, o belo edifício da City Hall quase apaga o templo dourado. Construído em 1936, suas estranhas linhas misturam o birmanês com o europeu. O resultado arquitetônico é bonito, mas também o mais curioso da área.

 

                        Já o prédio do Myawaddy Bank, na Merchant Street, neoclássico que só, a despeito de seus múltiplos usos e ocupações, os traços de sua herança ainda podem ser notados na entrada: originalmente foi sede do Reserve Bank of India. Em toda a região há inúmeras fachadas residenciais transformadas em uso misto, pintadass em cores vivas, escondidas ou deformadas por instalações elétricas e de refrigeração, mas que ainda mostram sua beleza original. 

 

   Yangon City Hall, tesouro bem mantido. Curiosa arquitetura de estilo quase indecifrável

                        O “batente” para conhecer leva umas 3 horas. É um passeio a pé cobrindo uns 5 quilômetros de Downtown Yangon com foco na arquitetura. Civil, sobretudo, e religiosa, em menor parte. O roteiro destaca o prédio da City Hall, a estação ferroviária, alguns ministérios, além de sítios religiosos, como o da St Marys Cathedral, construído em 1899 e o budista Sule Paya, com sua surpreendente supa dourada marcando o ponto zero da cidade, ideal para começar a explorar a velha Yangon. O templo é antigo, já foi soberbamente mais bonito e original. Atualmente o templo octogonal é cercado por lojinhas, fiéis e curiosos. Não se sabe ao certo sua data de construção, mas asseguram-lhe mais de 2000 anos. O Pagode Sule é além de templo religioso um importante marco na histórica política recente do país. Foi ponto de união popular durante as revoltas de 1988. E ali terminou a Revolução do Açafrão de 2007, uma série de protestos anti-governamentais depois que a junta militar removeu os subsídios do combustível e outros insumos básicos e seus preços subiram 60% numa tacada.

 O transporte público precário...


... fez surgirem soluções criativas, adaptações curiosas...

...e costumes perigosos!

                        Os ônibus de transporte público são em sua grande maioria terrivelmente acabados e sujos. Motivaram o surgimento de um meio de transporte inconfortável, mas bem popular: a carroceria de mini-caminhões adaptados para o transporte de gente. E neles há duas classes: a "econômica" (para os que viajam na caçamba) e a "quase de graça" (para os que vão no teto).

 O ferry vai de um lado ao outro do rio. Entre no barco...


...pegue seu banquinho e sente-se. Só há Classe econômica

                        O porto é apenas para quem fará o breve passeio à outra margem e retornar ao centro da cidade.  Mas defronte a ele está um dos raros prédios reformados, The Strand Hotel, construído em 1901 por quatro irmãos, ricos comerciantes armenos, empreendedores na região e proprietários de grandes hotéis, entre eles o Raffles de Singapura e o Eastern Oriental em George Town, Penang, Malásia. A decoração de época abusava da madeira teca e do mármore, revestimentos que podem ser apreciados numa visita ao saguão ou tomando o chá na mais precisa atmosfera do auge colonial de toda a cidade. O hotel é uma instituição. George Orwell residiu nele por bom tempo.

   The Strand Hotel

                         Jundo aos jardins Mahabandoola, uma curiosidade: homens oferecendo serviços incomuns pra nós, mas bem corriqueiros por aqui: leitura de mão, previsão astrológica e outros tão esotéricos assim. Sentados na calçada com mesas e cadeiras para os consulentes. Não perco tempo com o que não acredito e sigo explorando a cidade antiga, o que me agrada bem mais. A grande praça pública cujo nome homenageia o General Maha Bandula, herói birmanês que lutou contra os britânicos na primeira guerra anglo-birmanesa, de 1824 a 1826, tem no Monumento da Independência - um enorme obelisco construído em 1948, guardado por grandes leões de bronze - o que domina a praça. Inscrições na incrível ortografia birmamesa feitas na base do obelisco são notáveis. O parque chamava-se Fitch Square, em homenagem a Ralph Fitch, um comerciante inglês da época. É bastante popular, vale uma passada se não estiver com pressa.

 O antigo prédio da Suprema Corte. Estilo vitoriano e tijolos vermelhos na Mahabandoola Street 

                        UM grande prédio de tijolos vermelhos em estilo vitoriano, o antigo Tribunal de Yangon, fica na Mahabandoola Street. E nas ruas laterais há outras jóias arquitetônicas parcialmente cobertas por cartazes e anúncios, absolutamente decrépitas. Um dos mais belos edíficios desta parte da cidade é o Yangon City Hall, um tesouro bem mantido, de curiosa arquitetura, cujo estilo, aparentemente indecifrável, mistura elementos asiáticos com toques ocidentais. Por ali também está o Secretariat, o Edifício dos Ministros, de 1902, antiga sede do poder britânico. Na Merchant Road e na Strand Road, margeando o Rio, há inúmeros exemplos de belos edifícios do mesmo período. E na mesma região ficam as comunidades multiétnicas, intactas e vibrantes, coloridas como nos séculos passados: Little India e Chinatown, com lojas, restaurantes, mercados e templos.


Alguns renovados, outros assustadoramente desocupados 

                        ARRANHA-céus são poucos e feios. Revelam as tentativas esdrúxulas da inventividade de seus projetistas: caixas de vidro e alumínio sem graça. Ao contrário destes, tudo mais é definido por edifícios baixos e de desenhos interessantes, ainda que simples e funcionais, e não tão antigos assim. 

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Os mercados de rua de Yangon

                        MERCADO de rua em Yangon significa de rua mesmo. Na rua. E na calçada. Vende de tudo. De comida a alimentos, de roupas a porcariada chinesa, de pirataria a legumes, de frangos e carnes a frutos do mar, de cereais e artigos domésticos a chá, de cebolas a tamarindo, flores a gengibre, especiarias e temperos. A parte mais interessane e curiosa é a de frutas e legumes nativos do sudeste asiático. E tudo aparentemente cultivado em Mianmar.

 

De tudo um pouco, mas a melhor parte é a de alimentos

   

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Yangon e seus bazares

                         EM birmanês mercado chama-se zay ou zei. E Yangon está repleta deles. São ótima maneira de conhecer o ritmo de vida cotidiano da cidade. Não há nada mais atmosférico na cidade. São uma experiência marcante. De sabores, odores e outros efeitos sensoriais. Do início da manhã ao começo da tarde. Como feiras livres improvisadas, são absolutamente interessantes. A primeira impressão é paradoxal: a de um país pobre e carente de tudo produz: verduras, legumes, frutas e cereais de boa qualidade.

  

                         VISITAMOS o Bogyoke (pronuncia-se “boióg”, que significa general) Aung San (o militar pai da liberdade conquistada aos ingleses, e da “senhora”, como respeitosamente chamam a líder oposicionista Aung San Suu Kyi, presa por vinte anos em sua residência). Também chamado Scott Market Scott Market, tem uma imensa quantidade de lojinhas que ocupam um conjunto de prédios. O edifício principal foi construído em 1988, no lugar de um velho galpão de ferro. Ainda é notável numa ou noutra seção. No mais, é feio arquitetônica e estruturalmente, mas proporciona aos visitantes uma oportunidade de presenciar  a variedade gigantesca de produtos, de ervas medicinais a jóias caríssimas. A Birmânia produz jade e pedras preciosas de alta qualidade, entre elas os considerados melhores rubis e safiras do mundo. Há setores de têxteis, máquinas, ferramentas e eletrodomésticos, de alimentos, de artesanato e antiguidaddes, Para o turista, o maior apelo pode ser o de artesanato e antiguidasdes, que no Brasil custariam uma pequena fortuna, mas que por lá podem-se garimpar peças extremamente interessantes.

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O Circle Line de Yangon

                        Impossível dizer qual foi a atração mais marcante em Yangon. Todavia, eu gostaria de recomendar a todo viajante de primeira hora a Mianmar que pense em usar o trem suburbano. Ele parte da Central Railway Station, cujo estilo arquitetônico British Raj do grande edifício mistura linhas ocidentais e orientais. Nem de longe intimida como as estações e trens indianos, mas também não é difícil lembrar-se deles assim que entrarmos na estação. Que dirá, então nos vagões do Circle Line.

 

Yangon Central Railway Station

                        À primeira vista pode até intimidar, mas é por pouco tempo. Logo percebemos que trata-se de uma atrações humana e arquitetônica. Parece impossível comprar um bilhete. Tudo está escrito em birmanês. Até o timetable. Todavia há um guichê próprio para estrangeiros. E exclusivo. Compramos um bilhete baratíssimo e saltamos onde quisemos, umas seis estações depois da Central. A viagem total leva duas horas, mas nem de longe é preciso fazer todo o percurso. Depois retornamos de taxi.

  

Tudo está escrito em birmanês. Até o timetable. Todavia há um próprio para estrangeiros


O bilhete, é baratíssimo. E o passaporte para a melhor experiência antropológica em Yangon

                         Velho, lento e sujo, mas não há melhor maneira de ser apresentado ao modo de vida real, popular e cotidiano do povo da ex-Capital do que num vagão do Circle Line. Tanto pelo que se passa dentro quanto fora. Em cenas rurais e urbanas. De um trem que parece arrastar-se pelos trilhos na periferia da cidade. Os bancos são de madeira, as janelas pequenas, as portas são vãos sempre abertos. As pessoas andam nos trilhos. Vendem-se frutas prontas pra comer em bacias levadas à cabeça. Entram numa estação, saltam na seguinte. Indo e vindo.

    Salte onde desejar. Mas umas seis estações depois da central já basta

                        É uma viagem de trem curta e fascinante. Em velhos trens movidos a locomotivas diesel, sacudindo e balançando ao longo dos trilhos de bitola estreita do velho e pouco funcional sistema birmanês. Uma das coisas boas da vida turística, afinal, é estar preparado para viajar na única classe - ordinária - e em vagões precaríssimos, com bancos de madeira sem acolchoamento e desgastados. Mas observar discretamente a vida que passa fora e circula dentro do trem não tem preço.

Precário, feio, sujo, velho, lento e desconfortável. Mas nossa melhor experiência em Yangon!

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(*) Nota: A noz de bétele é a semente da palmeira de bétele (Areca catechu). Esta palmeira pode crescer até 20 metros e tem folhas com 1 metro de comprimento. É uma das plantas mais populares do mundo. As suas folhas são convertidas em papel para enrolar tabaco e ervas.
A noz de bétele é mastigada com lima queimada e por vezes outras ervas. Há milhões de asiáticos que apreciam a sua dose diária de noz de bétele. Seu uso regular mancha a boca e os dentes de um vermelho forte. Mas os mascadores asiáticos da bétele têm orgulho nestas manchas.

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Leitura recomendável

Myanmar: Burma in Style: An Illustrated History and Guide

By Caroline Courtauld - Odyssey Publications,Hong Kong

ISBN 13: 9789622178328 ISBN 10: 9622178324

O Lago Kandawgyi, o Shwedagon Pagoda ao fundo e o Kandawgyi Palace Hotel em Yangon

                      O guia Lonely Planet é o mais fiel e atualizado de Mianmar. Tem uma edição nova lançada recentemente. 

                      Já não há mais a necessidade de enfrentar filas para conseguir uma reserva num hotel, uma passagem de trem ou de avião. As coisas mudam rapidamente e já existem dezenas de operadoras turísticas nacionais confiáveis, cujas páginas na Internet e e-mails garantem todas as informações e acertos necessários. Também há inúmeras estrangeiras e algumas brasileiras com pacotes diferentes para o país, de individuais a excursões em grupo. Viajamos com a Diethelm Travel (http://www.diethelmtravel.com/Pages/home.aspx) e com a Highlands (http://www.highland.com.br/).

 _________

Próxima parada

Mandalay


(sem legenda!)

 

Reader Comments (5)

Arnaldo, foi um presente ler " Yagon - Cidade sem inimigos " antes de viajar. Como sempre suas observações, fotos e pesquisa me deram além de ótimas dicas, atenção no olhar. Tchezube.

19:10 | Unregistered CommenterElizabeth

Arnaldo,
Fiquei uns tempos sem aparecer por aqui, mas sabia da viagem de voces através da Emilia. Li os 3 posts numa tacada só. Os seus posts não são possíveis de ler e apreciar como se deve na telinha de um telefone. Porisso reservo uma hora com mais calma, um computador com tela maior, para poder melhor apreciar suas fotos e a riqueza de sentimentos com que descreve suas viagens. Voce é um inspirador delas. Simplemente maravilhosa esta viagem de voces a Mianmar. Abs

22:37 | Unregistered CommenterFlora

Em minhas fantasias viajar sempre quis conhecer esse destino e también Vietnã. Anos se passaram e ainda não conosco nada da Ásia, mas eu não me importo, porque de certa forma eu viajar para esses países exóticos através de viagens que você faz. Olhar o seu blog é também uma forma (outra distinta) de viajar. Eu gosto de como você escreve e também as imagens que ilustram os textos. Eu não sei nada de Ásia, mas eu gosto da Ásia por causa de você.
Certeza que é um destino inesquecível na memória.
Bjs

15:08 | Unregistered CommenterCarmen

Muito grato, Carmem.

É possível ler e reler os textos, ver e rever as fotos, sair e voltar do blog, pensar e repensar cada frase, refletir sobre cada uma das tantas curiosidades que são reveladas em cada parágrafo...
Além de tudo isso, o que mais impressiona é a possibilidade de sentir que se está viajando diante de tanta beleza e (in)sensatez. Faz lembrar o que Leonardo Boff diz: "todo ponto de vista é a vista de um ponto". De forma impressionante, você, Arnaldo, nos faz compreender perfeitamente seu jeito de ver cada detalhe e a forma como se delicia com todos eles. Parabéns, vc é realmente incrível.

20:42 | Unregistered CommenterAna Paula

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