CONHEÇA O AUTOR

 

         Depois de estabelecer-se na Internet - em 1999 - escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo, da Editora Abril e, agora, prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando, assim, na literatura de viagens com um livro encantador, segundo o autor, o primeiro de uma série de pelo menos quatro que já planeja produzir, dois deles em plena fase.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de apenas uma "conversa" com o leitor, baseada na informalidade, o livro mistura traços desta coloquialidade e informalidade com os de uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida. 

             Por bom tempo - antes de me decidir por publicar um livro - meu lado esquerdo do cérebro brigou com fúria contra o direito até certificar-se de que o leitor teria nos meus livro não os textos que escrevi no blog, porque, entre outros motivos, livro é coisa séria, e ninguém (ninguém de verdade!) merece ler posts de blogs reproduzidos em livros, especialmente textos efêmeros, perecíveis, descartáveis ou preocupados em agradarem "o mercado" e a blogosfera. Felizmente, ao que parece, posts continuarão restritos aos blogs e livros a serem livros. O tema da viagem parece ainda não ter-se banalizado na literatura universal, nem ter-se rendido às formas diversas da monetização.

           Minha ascensão na escrita de viagens com este trabalho literário não é exatamente uma novidade. Ainda que recentemente eu tenha notado a mente lampejar com a ideia: tornar-me um escritor de viagens. Todavia, ela sempre me rondou. Mesmo que a alguma distância. Não foram poucos os amigos, parentes e leitores do blog que há mais de dez anos recorrem à pergunta: “Por que não escrever um livro?”

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti na categoria Reportagens

Ronize Aline:

             "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária, crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

 


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Quarta-feira
Fev192014

HARAR e a magia das viagens

___   Asmadin Bari, o túnel do tempo para entrar em Jugol, ciade antiga de Harar   ___

            IMPRESSIONADO, cruzo os muros de Harar. Me sinto um explorador, como Richard Burton, diplomata britânico que entrou na cidade em 1854, por um dos portões até então jamais ultrapasssados por qualquer ocidental. Pelas mesmas vias estreitas e inclinadas, desviando de gente e de burros de carga, pisávamos nas pedras centenárias seguindo os mesmos passos do explorador.

              Entrávamos na quarta cidade mais sagrada do mundo islâmico. E também não víamos ocidentais. E eu ia refletindo, que quanto mais viajo, menos me impressiono com as coisas,  mas ainda assim a magia das viagens continua fazendo das suas : surpreendendo, instigando, mostrando lugares incríveis e capazes de inundar a gente, nos transbordar de si mesmas.

           A cada passo Harar excedia expectativas, estimulava e se fazia arder no cérebro. E eu pensava que devem ser poucas, afinal, as capazes de nos inflamar desse jeito. Parecem implicar com nossas certezas, nos fazer repensar conceitos e nos levarem a perceber que ao contrário, quanto mais viajamos, melhores turistas nos tornamos.

            Caminhando pela cidade, espremidos em seus mercados, nós íamos vivendo sua intensa, e aparentemente infindável vibração. Protegidos e guardados pelo excepcional guia local, que nos dava liberdade de explorar, mas nos vigiava de atenções indesejadas. Como, afinal, deveria ser todo guia: protetor, mas não possessivo, como o que nos acompanhou por toda a Etiópia.

          HARAR. Muralhas, gente, cores, cheiros e hienas

        O Vale do Omo e o Circuito Histórico já tinham sido tão fabulosos que o bom senso não me recomendava esperar muito daquela cidade. Vista de fora, não parecia nada atraente, muito menos convidativa. Todavia, ao entrarmos, mostrou-se simples e receptiva, uma das mais agradáveis que visitamos na Etiópia.

___   A dois passos do século 11: Asmadin Bari, a porta do tempo em Harar   ___ 

          Fotógrafos entram em êxtase com a potencial daquele cenário. Escritores desorientam-se ao tentar descrevê-los. Entrar em Jugol e fazer parte de sua rotina igual há séculos, entre paredes chapiscadas e coloridas, ruas tão estreitas e sob uma atmosfera contagiante, é o que faz de Harar uma  experiência deliciosa para um viajante na Etiópia.  

 ___  A atmosfera encantadora de Jugol se revela assim que cruzamos um de seus portões  ___

            Por fora, nada atraente. Por dentro, um mundo vibrante. É na idade o que ela tem de melhor: alguns belos edifícios estão desmoronando, é verdade, e parece que ninguém está preocupado com isso. A vida segue, como sempre, nos fazendo voltar no tempo. E concluímos que se a Etiópia é destino fascinante, Harar retém boa parte desse fascínio.

___   Por fora, Peugeots e bajajs decrépitos. Por dentro, "bela viola"  ___

          O Sol ainda não estava alto, mas já havia o frenético movimento que contribui para a atmosfera indescritível de Harar. Imagino ser a mesma que contagiou o poeta Rimbaud e o explorador Richard Burton.

___   A cidade então despeja sobre o visitante sua atmosfera   ___

 A cidade derrama sobre nós e de uma só vez seu burburinho, um movimento de cores e sons, de vida, de mercados e vendedores. Não há carros nem motos, só curiosos. Por nós e nossas câmeras e smartphones fotográfios. Para nós, uma volta no tempo, para eles ficção científica. As pessoas prevalecem sobre a arquietura e as construções, não deixam a cidade esfriar, mas crescer e nos dominar. E em minutos nos tornamos apaixonados por Harar.

___   O toque colorido dado pelas roupas ácidas e extravagantes das mulheres harari  ___

Às vezes é incrivelmente movimentada, noutras inacreditavelmente serena. Ainda que não se possa chamá-la "bonita", é muito "atraente". E sabemos que suas muralhas foram responsáveis por proteger tanta cultura e originalidade.

___   "Que diabos será isso?"   A curiosidade é genuína, Harar parou no tempo  ___

           Por alguns minutos não consegui processar tanta informação. O coração disparado, a boca seca, o movimento expressivo dos olhos, enfim, a excitação era agradável, não precisava ser contida, afinal, era só prazer. Mas enconstei-me num muro, olhei ao redor como se esperasse tudo se acalmar, ou então me parecer menos frenético.

           Tão intensos eram meus cliques que senti na palma da mão a quentura de seu processador. Desliguei a câmera por um tempo. Era preciso resfriá-la e eliminar meu medo de que eu não pudesse mais registrar aquele momento em que me sentia mais explorador e aventureiro que um simples turista. E não me recordo de ter visto outro ocidental por ali, ao menos não tão entusiasmado quanto eu.

___   Por uns minutos não consegui processar tanta informação   ___

O toque colorido era dado pelas roupas coloridas e extravagantes das mulheres harari. Ácidas, lisas ou estampadas, iam dos laranjas, roxos e vermelhos aos azuis, verdes e amarelos. E aqui as mulheres, como em todo o país, têm importante papel econômico: são especialistas em artesanato. Fabricam uma colorida e bem acabada cestaria, tanto para utilidades domésticas quanto cerimoniais. O que podem, vendem aos visitantes. Muitos trabalham sentados na rua, vendem seus produtos ou os fabricam, como os alfaiates. Açougues que pensei não mais existirem expõem carcaças frescas dependuradas sobre balcões. Sem refrigeração, que isso é coisa de país rico.

___  Nenhum lugar escapa da Coca-Cola   ___

Pela via principal ligeiramente íngreme, sobre calçamento de pedras, sem calçadas, casas antigas de telhados baixos estão próximas, parecem olhos espreitando nossa passagem. Aquele mundo parado no tempo mas de vida vibrante eu não dava conta de assimilar, como num estado alterado de consciência. À medida que nos aprofundávamos na cidade, que entrávamos em seus becos secundários, todavia tudo desacelerava e tornava-se bucólico. E silencioso. Incrívelmente silencioso e calmo. Era ainda mais agradável e encantador.

 "Por fora, bela viola, por dentro pão bolorento"?  Harar é o contrário!

___   Não se possa chamá-la "bonita", todavia muito "atraente"   ___

Escondida do turismo etíope óbvio, Harar mantém seu caráter misterioso. É inexpressiva quando vista de fora, mas fascinante quando se visita por dentro. Extremamente excitante na atmosfera, revela-se logo que cruzamos os portões da muralha. Na verdade Harar é tão genuinamente autêntica e complexa, tão labiríntica e vibrante, cuja uma história é tão intensa e presente que parece viva. E nos segue como sombra os passos enquanto a exploramos. É imprescindível conhecê-la com a ajuda de um guia local, não apenas para descobrirmos suas jóias escondidas, como também para entrarmos em lugares que apenas os locais têm acesso.

___   Além de colorida, a cidade é "tourist friendly"   ___

Dizem que pode haver alguma hostilidade aos estrangeiros, especialmente vindas de crianças. Não percebemos nada que se aproximasse disso. Ao contrário, em toda a Etiópia, Harar foi a cidade mais hospitaleira, a com menor assédio e onde mais carinhosamente fomos recebidos. Se o clichê mais óbvio destaca os hahari pela religião e exotismo, para nós seria classificá-los como simpáticos e hospitaleiros. São descontraídos e com freqüência nos chamavam para um bate-papo.

___   Cores ácidas e padrões extravagantes nas roupas das mulheres harari   ___

“Museu Vivo” da Etiópia é como chamam Harar, a misteriosa. A cidade velha murada é tão bem preservada que suas muitas vezes referem-se a ela como "museu vivo", em cujo interior, num espaço de 3,5 quilômetros quadrados, há 368 becos que servem aos seus 40.000 habitantes. Cidade de mistérios e de grandes histórias, exótica e excitante, mas cuja atmosfera só se percebe quando cruzamos seus portões. É preciso passar para além da muralha que a protege, en então, sob a condição de viajante estrangeiro, experimentar uma incrível mudança, uma volta no tempo. Assim a cidade cresce, e nos domina, logo nos encanta (ou enfeitiça) e pouco depois nos torna apaixonados. Sobre aquela escarpa com vista para a planície que a circunda, a 1850 metros acima do nível do mar, experimentemos o tal clima. Que magicamente nos transforma assim que cruzamos um dos cinco portões, construídos há quase 500 anos.

___   A decrepitude, aqui e ali, contribui para nos lembrar de sua idade e transmitir seu ar misterioso   ___

Cada "bari" - ou portão - dava acesso ao tráfego de caravanas de comércio e de moradores, ligando a pontos diferentes da cidade, ainda hoje têm seus nomes gravados no estuque: Asumyi Bari, Asmadin Bari, Argob Bari, Badro Bari e Sugudati Bari. Esse enclave muçulmano num país majoritariamente cristão ortodoxo não por acaso tornou-se um dos patrimônios mundiais da UNESCO na Etiópia. Mesmo assim ficou fechada aos estrangeiros a maior parte do tempo de sua história: Harar só era alcançada por caravanas de camelos e mulas, e depois de semanas ou meses de jornada. Hoje a cidade murada é acessível com facilidade, especialmente por via aérea. Existe um serviço que liga a capital a Dire-Dawa, e dali pega-se um carro por mais 45 minutos até Harar, única cidade islâmica importante na Etiópia, a cerca de 526 km de Addis.

___   Ruas estreitas, casas coloridas, calçamento de pedra, nehuma viva alma   ___

A cidade é dividida em duas partes: a antiga, murada, onde vivem os muçulmanos, chamada Jugol, e a nova, que se estende ao redor da muralha e é predominantemente cristã. Quem conhece o Iêmem por certo se recordará do país ao cruzar suas muralhas, onde nem bicicletas circulam por seus estreitos caminhos sinuosos, senão pessoas a pé e  burricos de carga. No interior das muralhas, um mundo de caminhos estreitos, sinuosos, labirínticos, de mercados, residênciai, comércio centenário, gente trabalhando na rua, museus e palacetes, o mercado de carne - cujas águias ficam nos telhados em espreitando as sobras - formam um conjunto de atrações fantástico.

Os harari vivem em casas de dois andares, caiadas de cores vivas, situadas num labirinto ruas de estreitas e sinuosas, guardadas por muros e portões altos e decorados. Harar tem de extraordinário o fato de ser tão autêntica que ninguém escapa de citar o clichê mais comum quando a visita: "uma volta no tempo". Tem mesquitas, bem simples, mas numerosas: contam-se 82, três delas do século X. E 102 altares e mausoléus. Foi a quarta cidade santa do islã, depois de Mecca, Medina e Jerusalém. E tem mercados do outro mundo. E palacetes e ruas tão estreitas que por vezes passa apenas um. Chegou até a possuir moeda e lingua próprias.

O estilo de suas casas, reminiscência da arquitetura árabe, chama-se gegar, só existe ali. O quarto principal fica no segundo andar, mas há cômodos internos nos dois pisos que definem o status dos do convidado e dos membros da família. No interior as paredes têm paredes cobertos por enfeites e nichos com objetos decorativos. No piso da "sala" há tapetes e almofadas. Sua planta arquitetônica é típica, única, específica e tremendamente original. Mas no final do século XIX comerciantes indianos construíram casas novas, cujas varandas de madeira definiram a nova paisagem, diferente (e bonita), passaram a influenciar as casas harari dali em diante. Todas têm qualidade arquitetônica e ornamental que ainda hoje são atraentes. Mesmo que a maioria esteja despencando, ainda são um importante patrimônio cultural da cidade.

As origens da cidade são obscuras, como aliás muito da história do país. Muçulmanos teriam se estabelecido na região no tempo do imperador etíope Amda Tseyon, que governou de 1314 a 1344. Mas a cidade é mencionada antes disso. De acordo com um registro árabe, havia sete reinos muçulmanos na região, todos sob a autoridade dos etíopes, entre elas, Harar. Há quem diga que foi estabelecida pelo Sultão Abu Beker Mohammed, em 1520, que moveu sua capital de Dakar para Harar. Seu reinado foi curto:  cinco anos depois for assassinado por Ahmed ibn Ibrahim al Ghazi, que deixou sua terra natal para empreender uma guerra santa, em 1530, contra o cristianismo etíope. Bem sucedido, depois foi derrotado e morto em 1543, como resultado de uma intervenção portuguesa.

A atração principal em Harar é a cidade em si. Mas há dois mercados - o muçulmano, extremamente atmosférico e fotogênico, de especiarias, utilidads domésticas, frutas, cereais, cestas e outros produtos que já não me recordo - e o cristão, separado do muçulmano porque parte dos produtos são proibidos aos muçulmanos. Além de seus mercados lotados, há o comércio de rua, nas vias principais e mais largas, vibrantes no movimento. E nos becos tranquilos, onde há um misto de arquitetura etíope, egípcia, indiana e italiana, a sensação é de estar num lugar incomparável. Perder-se é fácil, é quase certo que você vai se perder, mas será dentro de uma cidade murada, perdido mesmo, então você não estará. Então, não há motivo para preocupar-se: todas as ruas acabam saindo num lugar central ou levam a um dos portões.

Rua "Makina Girgir". Vem de "máquina" (de costura), que faz gir... gir... gir...

A história mais curiosa está relacionada ao poeta francês Rimbaud, libertino de mente inquieta, que viajou intensamente por três continentes antes de morrer de câncer aos 37 anos de idade. Em 1884, ele largou tudo, inclusive trabalho, e tornou-se viajante mercador, chegando em Harar, onde conseguiu entrar disfarçado de árabe, e começou a vender café e armas. Logo fez amizade com o governador de Harar, Ras Makonnen, pai do futuro imperador da Etiópia, Haile Selassie, conquistando-lhe a simpatia e confiança. Durante o governo egípcio, de 1875 a 1884, Arthur Rimbaud viveu na cidade, como representante local de várias empresas comerciais, até que sua doença, provavelmente câncer, o fez voltar à França.

___   Rainbow House, a Casa de Rimbaud    ___

Rainbow House, a casa do arco-íris, construída por indianos, é uma elaborada casa que virou museu. De alguma maneira ela parecerá não encaixada na cidade, assim como também a casa do poeta Rimbaud. Ambas valem muito a pena a visita, o primeiro pelo acervo, a segunda pela excelente vista do piso superior. A Casa de Rimbaud - uma elegante mansão dedicada ao poeta - todavia jamais lhe pertenceu. Nem mesmo residiu nela, pois é posterior à sua morte. É dedicada à sua memória, e tem fotos de Harar antiga, objetos e informações sobre a vida e obra de Rimbaud, que gostava de fotografar a cidade em 1880. Suas fotos são documentos de valor inestimável.  

___   Rainbow House, a Casa de Rimbaud  ___

A casa de Rimbaud foi renovada recentemente com a ajuda da UNESCO. O interior é tão atraente quanto a fachada. Toda em madeira, com mistos de estilos que vão do arte deco ao indiano, é da das janelas do segundo andar que se tem uma bela vista aérea da cidade em três direções. No primeiro andar há uma biblioteca com exemplares escritos em francês, lembrando a conexão entre a Etiópia e a França, que apoiou o país desde a década de 1880 até a Primeira Guerra Mundial, incluindo a construção de uma a ferrovia e o fornecimento de armas, que maistarde, inclusive com o apoio de Rimbaud, ajudaram os etíopes a derrotarem os italianos em 1896.

___   Rainbow House, a Casa de Rimbaud  ___

Alimentando hienas selvagens em Harar

Hienas podem até considerarem-se o mamífero mais odiado no sul da África. Não em Harar. São mesmo feias, bichos agressivos, cheiram mal, comem carcaça e roubam alimentos. Mas aqui elas não apenas circulam na periferia da cidade como inserem-se nas tradições. Os hararis têm relação inusitada com estes animais. Alimentá-las é o grande, esperado e único evento noturno da cidade. Inusitado? Pra lá disso.

O "homem-hiena" e suas hienas. Amestradas? Não!

Yusuf Mumé Salih é um fazendeiro que vive fora da cidade e há anos adotou uma matilha de hienas selvagens. Deu-lhes nomes. E todas as noites religiosamente as chama: "Tika, Butta, Mehai, Jimba..." Quatro hienas saem da escuridão e começam a rodeá-lo. Ele bota a carne no espeto, prende-o entre os dentes e uma hiena fica à sua frente e a pega. Ele pega mais no cesto para alimentar o resto da matilha. Depois olha em direção ao grupo de turistas que pagaram uns trocados para o assistirem; é hora deles alimentarem as hienas. Então, o homem chama os turistas. Poucos, que estão por ali a uns três metros fotografando. Convida-os para ajoelharem-se junto a ele, no outro pano que colocara no chão. Muitos demonstrarm estar ansiosos por ir.  Eu não, afinal, são animais selagens, ainda que "acostumados" com o evento. 

A cena, iluminada pelos faróis de uns cinco carros é uma das mais inusitadas que já presenciei. Essa relação entre pessoas e hienas em Harar, do qual eu havia lido extensamente antes de viajar à Etiópia, primeiramente me pareceu falsa, depois estranha. Concluí tratarem-se de hienas domesticadas. Mas lá conheci a história verdadeira. E depois retirnei e pesquisei. Hienas comem as carcaças de animais que morrem de entre as criações próximas às matas de Harar e mantém a área livre de outros eventuais predadores. Apesar de sofrerem eventuais ataques a pessoas e animais, as hienas são tidas como animais positivos, e acrediam que são um benefício para a área.

Jamais farei isso!, falei à minha doce Emília...

- Quais as chances de ser atacado?, perguntei. "Inexistentes," respondeu o guia.

- Jamais farei isso!, falei à minha doce Emília assim que ela retornou de fazê-lo. Mas fui tão instigado  pela platéia e por nosso guia que em cinco minutos lá estava eu, alimentando uma hiena! Ainda que sem saber se havia feito a escolha certa ou apenas pra não demonstrar medo. Confesso que não achava a escolha sábia, mas logo estava ajoelhado e segurando uma varinha entre os dentes enquanto quatro hienas me rodeavam. Um à minha frente esperava o comando para pegar seu petisco.

"Elas são inofensivas, relaxe", disse o guia. Relaxei. Afinal, até então nenhum turista havia sido comido, por que eu haveria de ser? Fui. Confesso que achei nojento colocar aquele palito na boca, mas um bocado excitante! E fiquei cara a cara com uma hiena. Melhor, boca a boca! Ao ponto de olhar seus olhos a poucos centímetros dos meus. E sentir seu cheiro. A alimentei três vezes. Voltei ao meu lugar. E fui aplaudido. Foi triunfante!

"Elas são inofensivas, relaxe", disse o guia...

Outra experiência notável é - para além de visitar - hospedar-se numa residência de família, em casas antigas, típicas de Harar, parcialmente transformadas em ousadas para os viajantes, onde se oferecem comida, companhia e hospitaidade, além de ajuda no que precisarem os turistas para explorarem a cidade. Um dos que visitamos foi a Anisa Guesthouse.

foto

Na praça central, antes de entrar na cidade antiga, fica a Igreja Ortodoxa etíope Medhane Alem, construída por Menelik no final do século XIX. A igreja tem obras de arte tradicionais religiosas, mas não é exatamene uma atração turística. No centro de Praça Ras Makonnen há sua estátua eqüestre em bronze. Se a Etiópia não está no roteiro de muitos viajantes (mas deveria), Harar muito menos. Mas eu não consideraria completa minha visita sem ter ido a Harar. E em termos de ‘cidade’, ambas, Harar e Bahir Dar, foram as que mais gostei.

NOTAS

(*) Rimbaud, em carta datada de 13 de dezembro de 1880, para sua família, anunciou sua chegada em Harar: Cheguei neste país depois de 20 dias andando a cavalo através do deserto da Somália. Harar é uma cidade que se estabeleceu pelos egípcios, protegida por uma guarnição militar de vários milhares de homens. Aqui farei a minha loja, neste país comerciante café... O país é alto, mas não estéril. O clima é frio, mas não insalubre. Aqui tudo que é importado da Europa chega por camelo. Nos anos 1880-1891 eles eram independentes, e para a antiga cidade de Harar, rica em eventos que mudaram o curso da sua história, a primeira foi a ocupação egípcia, então um efêmero reinado,  para ser finalmente tomada pelo exército de Menelik.

(*) A vinte e nove quilômetros de Dire Dawa, a estrada até Harar cuza a região mais pobre que presenciamos na Etiópia. E também pelo Lago Adele, infelizmente secando, e por aldeias tão precárias que me incomodavam o olhar, onde outrora havia algumas das melhores culturas de café, hoje substituidas pela erva chat, folha que mastigam, exportada para os países próximos, incluindo o Iêmen e  até alguns da Europa, uma nova droga considerada ainda legal.

 (*) Tivemos o nosso guia. Mais que isso, o privilégio de conhecer um sujeito excepcional. Educado, intenso, empolgado, culto, articulado e simpático. Começou a visita por fora, deu-nos uma visão panorâmica (e demorada!) sobre a história. Confesso que não achei nada estimulante e estava mesmo me sentindo entediado. Sobre uma escarpa com vista para a planície que a circunda, a 1850 metros acima do nível do mar, apenas quem passa pelos portões da cidade antiga experimenta o que é Harar. De fora, é feiosa e desinteressante, pobre e suja. E o tal clima que transforma tudo, funciona na velocidade de um clique: assim que colocamos os pés dentro de Jugol.

De Addis Ababa a Diredawa, pelo Bombardier da Ethiopian Airlines

Reader Comments (6)

Animal Planet? Vocês estão, de fato, rompendo/vencendo, se não todas, muitas barreiras.
Muita aventura na vida de vocês e nem podemos duvidar, está registrado.
Parabéns pela coragem!
Eu gostaria de um dia ver aqui textos e fotografias do interior do Brasil, especialmente cidades do Norte e Nordeste, sob os olhos de vocês tudo parece mais encantador, mais mágico, mais vibrante.

15:36 | Unregistered CommenterRosa

Querida Rosa, como sempre, um comentário elegante, educado, que incentiva e promove. Agradeço, pela enésima vez, sua simpatia e carinho, sua visita.

Bem, eu conheço bem o Brasil. O visitei bastante, antes de começar a viajar para o exterior. Acho nosso país um espetáculo, inclusive há algumas matérias sobre cidades brasileiras. O problema é que minhas viagens pelo Brasil têm sido escapadinhas de feriado e fim de semana, a lugares sem grande interesse turístico, onde temos um sítio e nos divertimos na natureza e em família.

As antigas, eram da época da cãmera de papel...

Harar é uma daquelas cidades que captam aos pouquinhos e não te deixam vontade de ir embora! E isso você captou muito bem com o seu lindo texto e fotos. Aliás, que cidade fotogênica!
E gostosa: a única coisa que explica estar fora do radar turístico é estar fora dos circuitos norte e sul. Mas ela vale e muito a pena do vôo até Dire Dawa. E o pernoite no Heritage Plaza :-)
Beijos, meu querido...

14:59 | Unregistered CommenterEmília

Apenas plástico, carros e cabos elétricos mostram que não estamos na Idade Média. A estrutura das ruas e tudo tão rudimentar que te faz pensar que você está em outro planeta, pois seu mundo, ao mesmo tempo atraente e colorido, está longe de tudo sobre nós. É um destino atraente, mas isso me assusta.

As fotos são realistas, impressionantes e muito valentes! Bravo!.

17:59 | Unregistered CommenterCarmen

Obrigado,por me apresentar o mundo. Sempre passo aqui, mas nunca tive coragem de comentar. Agora não me contive.
Obrigado, obrigado

Suas fotos são incríveis e você consegue captar a essência dos locais mais exóticos, com textos que não são de mais um mero turista. Você passa sentimento,realidade em suas palavras.

Ps: vou perder a vergonha e ser mais participativa!

Aline Mello, obrigado por sua visita e ainda mais por seu comentário. Saiba que o "pagamento" de um blogueiro como eu (que não escreve por dinheiro, não vende nada, não veicula anúncios, não viaja patrocinado nem de graça, não recebe doações nem jabá) é precisamente o comentário do leitor. Muito mais do que a quantidade deles, que os índices de audiência e da quantidade de páginas que visita. Comentários são o que realmente importam para blogueiros assim. Então, venha, veja e comente.

Obrigado!

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