CONHEÇA O AUTOR

          

         Depois de estabelecer-se na Internet desde 1999 escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo (Editora Abril). Agora, Arnaldo prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando na literatura com um livro encantador que, segundo o autor, é o primeiro de uma série.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui neste blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de uma conversa baseada na informalidade, o livro mistura traços de coloquialidade e informalidade com uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, mas é apenas uma outra maneira de me expressar sobre viagens, transmitir sem fantasias o mundo que vejo, isto é, como ele é, não como o imagino. A leitura revelará, todavia, aqui e ali, discrepâncias entre minhas expectativas e a realidade confirmada no destino. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". Então, a partir deste meu primeiro, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase da minha vida.

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo Trindade Affonso é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti 2013 na categoria Reportagens

Ronize Aline:

            "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária e crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista passou pelas redações das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

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Domingo
Fev022014

VALE do OMO - O que vi além do que se vê com o olhar

Jovem Mursi em sua aldeia no Vale do Omo

             VIAJAR à Etiópia é mais que o simples ato de explorar turisticamente um lugar”. É um desafio. Ao físico e à mente do viajante. Mas não para aquele que busca "lazer em lugares aprazíveis", senão uma cansativa jornada no tempo, uma incursão profunda na história, na geografia, paleontologia, arqueologia e geologia. E se por um lado é ceder incondicionalmente ao desconforto, por outro é ver excedidas suas expectativas. É ter deleites visuais encantadores e experiências quase alucinatórias. É experimentar a antropologia sem ser formado nela. É aborrecer-se com o assédio das crianças, mas logo arrepender-se de sua ignorância, porque o impediu de ter um encontro genuinamente encantador. É presenciar uma pobreza óbvia e permanente, é ter culpas por estar num zoológico humano e ter que pagar para fotografar indivíduos exóticos.

             E ao final de sua visita às tribos primitivas, ver reduzido seu interesse, pois descobriu que não curte safaris humanos, acha aquilo meio estúpido e se sente um pouco ridículo participando daquele voyeurismo constrangedor. E, por fim, perceber que preferia mesmo era conviver com aquela gente, o verdadeiro motivo pra ter ido tão longe, em vez de fotografá-los avidamente  

Quanto mais remotas as estradas, mais gado, menos veículos

               Viajar à Etiópia é sobreviver à ambiguidade de ter ido para ver aquelas tribos mas sentir-se culpado por tê-lo feito. Tudo porque percebe que sua presença influencia as tradições, e ainda assim, consciente de sua culpa, não resistir ao prazer turístico, fotografá-los loucamente.

              É chegar a ter espasmos ao trafegar por certas estradas em carros extremamente inconfortáveis. É perceber que tudo o que vê é único, que tudo é fascinante, tudo é belo e emocionante. É reconhecer que não há nada mais sublime numa viagem do que isso: obter tudo o que esperava, mas em doses muito mais generosas. É estar certo de que vive um privilégio raro: ver o que jamais encontrará noutro lugar.

Rio Omo visto da Tribo Karo

Grandes momentos, do princípio ao fim

         Há de se convir que já não há tantas viagens de onde se possam trazer muito mais do que fotos, recordações, souvenires e prazeres, mas lições de vida, de aprendizado e até de moral. É viver mais que grandes momentos, senão marcar-se por preciosos encontros, por experiências notáveis do começo ao fim. Foi assim na Etiópia, e já não posso dizer que para nós seja tão fácil viver experiências dessamagnitude em viagens.

        O mundo globalizou-se, logo estará plano. Mas a Etiópia não, ainda não. Mesmo que a gente saiba que naquele acampamento Mursi eles saibam direitinho como se vestir e enfeitar seus corpos para ficarem mais atraentes para os turistas. E serem os mais disputados para fotografá-los.

        Na Etiópia não há luxo. É preciso estar preparado para isso. O ar é seco e quente, as estradas são lentas e as trilhas poeirentas. A comida é fraca (mas há quem goste), a infraestrutura é precária e os dias são ricos em desafios. O assédio é constante, e nem sempre amigável. Lamentavelmente, muitas crianças sorriem e pedem uma foto. Seus sorrisos são lindos, você não resiste, tira a foto e elas lhe pedem dinheiro. Algumas trabalham demais, carregam peso demais, são esfarrapadas demais, sujas demais para o que se espera ver numa criança.

 Meninas da tribo Arbore

Mas por motivos óbvios  - sobretudo sólidos - a Etiópia está se tornando um dos mais importantes destinos turísticos na África. Justiça lhe está sendo feita pelo universo viajante. E é um daqueles países especiais, que confundem mais do que se explicam, ainda que isso seja positivo, leve alguns turistas a aprofundarem-se, tentarem respostas, todavia nem sempre muito factíveis. 

Por isso é hora de descobrir a Etiópia. Muito mais do que por Lalibela e suas monolíticas igrejas dos séculos XII e XIII, protegidas pela UNESCO, que ao conhecermos torna incompreensível nossa escala de entendimento do que seja “difícil” executar. E nos pegamos tentando racionalizar,  imaginando que artefatos teriam usado seus escultores. E sem encontrar respostas (ao menos as não as inadmissíveis), senão suposições religiosas, nos lembramos de que possívelmente "Os Deuses eram (mesmo) astronautas!". 

Anciã da tribo Arbore

               Mais do que isso, visitar a Etiópia é também encantar-se com sua beleza natural, ali discretamente visíveis nas montanhas, noutros patrimônios, na história e construções de impérios longínquos no tempo, quase desconhecidos da humanidade, como o dos aksumitas, por exemplo.

               É também perceber o quão incomparável é o encontro com as inúmeras tribos primitivas do Vale do Omo,  mas surpreender-se co o fato de que esta é uma terra meio sem lei, onde armas são usadas regularmente, onde há confrontos tribais, onde pessoas são mortas e o governo não interfere, sendo aceitos assassinatos. Um povo primitivo que luta há séculos pra defender seu gado, suas mulheres, sua tribo, honra e território. Cujos indivíduos escarificam o corpo, deixando-lhes cicatrizes eternas, bem desenhadas, para mostrar quantos inimigos e animais perigosos já mataram ou simplesmente tornarem-se mais atraentes para o sexo oposto.

Quanto mais remotas as estradas, melhores os encontros

             É sobretudo surpreender-se com a reação de pessoas que conheceu. As mais simples mesmo, que por algum motivo lhe prestou um serviço, você agardeceu, tratou com simpatia e educação, trocou  sorrisos e gratificou. E sem saber, no dia seguinte receber presentes em troca e agardecimentos por ter sido assim com eles: educado, civilizado, gentil e receptivo. E presentes caros (para eles)! Depois da Índia eu não imaginava que algum país pudesse me fazer refletir tanto...

O custo e o esforço de chegar ao Vale do Omo

            “HOJE vocês conhecerão nossa african massage!”, disse Elijah ao nos encontrar aquela manhã na portaria do Sheraton Addis. Prontos para embarcar em nosso Land Cruiser com destino ao sul, eu respondi: “Mas ontem à noite fizemos uma ótima massagem no hotel!", ainda sem compreender o que ele queria dizer com “african massage”. Parecia uma brincadeira, mas era o jeito de nosso guia dizer-nos: "preparem-se para o desconforto!".

             A jornada seria um desafio, já sabíamos. Uma longa, cansativa, demorada viagem - parte por bons caminhos, parte por estradas precárias - trepidando, sacudindo e sacolejando. Mas estávamos apropriadamente descansados. E massageados por uma incrível profissional. Entusiasmados com o dia que teríamos pela frente, aceleramos a entrada no carro e a partida rumo ao Sul. Seriam dois dias e duas etapas, para os quais estávamos preparados, contudo sem saber se para algo extraordinário ou um desastre.

"African massage"

           Nosso entusiasmo era notável e o carro confortável. Viajaríamos à nossa maneira favorita: de carro e podendo parar onde e quando quiséssemos. Elijah nem precisava ter alimentado nossa já excitante alegria antecipando-nos o roteiro, descrevendo as belas paisagens que veríamos, as experiências que viveríamos até chegarmos a Arba Minch.

            - Estejam à vontade para pedir ao Rikev (nosso motorista, dublê de ornitólogo amador e observador de pássaros) para as paradas que quiserem para fotos!

             Os dois dias em Addis, nossas câmeras parrudas e a quantidade de cliques já haviam dado a percebcer nosso gosto por fotografia. Rikev nos trouxe dois livros técnicos com as 30 espécies de aves endêmicas e as dezenas de outras muito perto do endemismos na Etiópia mais um potente binóculo! Ao longo de nossa estada no sul jamais tive a oportunidade deobservar tantas e tão lindas e raras aves.

Galinha Vulturina, a maior d'angola, é azul

Mas como vale o Vale do Omo!

           É difícil saber por onde começar um relato resumido (e aceitável) do que foi nossa experiência turística na Etiópia. Especialmente porque aqui eles são escritos pensando no leitor, não na propaganda que sua audiência possa motivar. Ou seja, o que vale quando escrevo é a qualidade, não a quantidade da audiência. Portanto, quando escrevo, o faço me lembrando do que disse Benjamin Franklin: "Escrever sim, mas algo que valha a pena ler e fazer algo sobre o qual valha a pena escrever."  Alguém já disse que ”Para ser um bom escritor, precisamos de 3% de talento e 97% de força de vontade, especialmente para não nos distrairmos com a internet.”  Então, mesmo que nem sempre inspiração venha pra mim em doses adequadas (ainda que o desejo de escrever seja imenso), estou aqui tentando produzir sobre a Etiópia algo de valor, digno e justo com o país, inspirador e motivador para o leitor.

             Não apenas sobre o sul da Etiópia, mas por todo seu território, onde sempre percebemos o quanto este país é desesperadamente pobre e o quanto lhe faltam infra-estrutura rodoviária, hotéis de bom padrão e restaurantes (não turísticos) com mínimas condições de receberem turistas. Mas por outro lado o viajante é regiamente recompensado, tanto pelo que vê de riqueza patrimonial, natural e cultural, quanto pela possibilidade de aprofundar-se numa história substanciosa, pelo acolhimento ao turista e pela quantidade de atrações quenão encontará em qualquer outro rincão do planeta. E sentir o delicioso e notável orgulho de seu povo em poder mostrar o país a nós.

            A propósito, meu amigo Haroldo Castro, jornalista e fotógrafo, autor do Luzes da África, colunista da Época e viajante a mais de 150 países (http://viajologia.com.br/) está agora com a Viajologia Expedições (*) operadora exclusiva para pequenos grupos de brasileiros, preparando uma viagem chamada "Páscoa na Etiópia" que acontecerá em abril. E ainda sobram poucas vagas no grupo! A oportunidade de viajar com o Haroldo como guia vale quanto pesa! Além desta na Etiópia, terão Mongolia em agosto (depois da Copa) e o Safari Fotográfico na Namibia, em novembro. Imagimen poder participar de uma destas viagens fotográficas com o grupo!

“Estejam à vontade para pedir ao motorista quantas paradas quiserem para fotos!”

           Apenas um par de horas depois que saímos de Addis entrávamos neste sem fim de sensações: paisagens rurais, cenas bucólicas, vida dura e difícil, campos cultivados com cereais - especialmente o teff (do que é feito a injera e que só dá na Etiópia) -, bonitos e dourados campos nesta época seca do ano. Os platôs, as cadeias montanhosas, os cerrados de arbustos espinhosos, os cactos, cupinzeiros enormes, homens, mulheres e crianças nas estradas, correndo atrás da vida ou de nós, gritando por alguns birr, nos acompanhando pela janela do carro ou grudando-se nele tentando vender alguma coisa. Especialmente frutas e artesanato. Quase sempre com olhares tristes, genuinamente tristes.

Injera, o prato nacional, feito de teff, que só dá na Etiópia 

            “Quem mata o tempo não é um assassino, é um suicida”, já dizia Millôr Fernandes. Nós passávamos o nosso, intensa mas bem mais lentamente do que a lentidão com que vencíamos os 500 quilômetros de estrada. Trepidando, sacolejando e nos empoeirando (como nos preparara Elijah ao chamar de “african massage” nossa jornada), seguindo nossos caminhos nos esquivando de caminhões, de ônibus, rebanhos de gado e ovelhas, burricos em tropa carregando lenha ou puxando carroças, camelos, pessoas, crianças e bajajs, os triciclos motorizados e de toda sorte de tráfego do que seja possível seguir por uma estrada. Por vezes até aparentemente impossíveis.

Crianças na peira da estrada, uma realidade angustiante

             A cada quilômetro vencido voltávamos uns anos mais no tempo. E de Addis Ababa a Arba Minch - ponto final da primeira etapade dois dias de viagem - foram quinhentos quilômetros de distância e mil anos de volta no tempo. Quando olhávamos para a frente, eram menos quilômetros até o destino, e menos anos no tempo. Arba Minch seria o destino intermediário, onde dormiríamos no Paradise Lodge (*). O final - Turmi - não se pode alcançar de uma só vez. Mas tudo até então parecia valer. Como vale o Vale do Omo!

Terraços de plantio, do norte ao sul do país

            As paisagens de colinas e montanhas já não são verdejantes nesta época do ano. Matas estão secas, rios, cachoeiras e florestas também. Mas continuam abundantes pássaros exóticos, o que além das tribos fascinantes e intrigantes, constituem-se em atrações que rivalizam com as principais: as visitas aos povos Hammer, Mursi, Ari, Arbore, Karo, Konso, Dorze, entre outros, as experiência de conhecer seus mercados semanais, os encontros e sensações cujas palavras quem não as domina não consegue encontrar para descrevê-las.

Os Mursi, um encontro inesquecível

       Estávamos felizes, encantados e satisfeitos com tudo o que víamos e experimentávamos. Sobretudo preparados para os desconfortos das acomodações espartanas que nos esperavam por toda a viagem. Para os contatos humanos, intensos, para suas situações estressantes, todavia não há como preparar-se, senão vivê-las. Não somos mochileiros, mas viajantes bem viajados. Gostamos de luxo e de conforto, mas entendemos que em viagens o maior luxo são as experiências incomuns, as originais, autênticas, genuínas e exóticas. Que cada cena e experiência, como as que começávamos a viver naquela viagem nos agradavam tanto que nos surpreendiam. Só no fim da viagem em contabilizei que não houve um só dia que não tenha sido encantador, intenso e que em nenhum instante me senti entediado, como infelizmente por diversar vezes me senti em nossa viagem anterior, ao Irã. Na Etiópia, jamais me senti entediado.     

Nem tão "paradise" nem tão "lodge", mas em Arba Minch, um vista espetacular

           O padrão do "Paradise" - mesmo com sua toda a estupenda vista sobre o vale e os Lagos Chamo e Abaya - não deixa de conferir pretensiosidade ao nome. Mas estávamos preparados. Afinal, era o que de melhor a Etiópia tinha a nos oferecer. Dali em diante a coisa só pioraria, e no destino final, o Vale do Omo, para onde seguiríamos na manhã seguinte, em Turmi ficaríamos três noites no Buska Lodge (*), não tão "paradise", quanto o hotel de Arba Minch, ainda mais simples e muito mais remoto, mas foi onde tivemos alguns dos nossos mais memoráveis momentos na Etiópia. De viagem, afinal, foram quase onze horas, contando as paradas técnicas-fisiológicas, para comer, fotografar e visitar o que havia de interessante no caminho. Seriam cerca de sete horas líquidas caso fôssemos direto.

Nas estradas, de norte ao sul do país, os carros pedem licença...

            Percorrendo estradas razoáveis e precárias, todas bem vencidas pelo confortável e bem conduzido Toyota Land Cruiser Prado com tração nas 4 da Travel Ethiopia (*), guiado pelo nosso dublê de ornitólogo e excepcional motorista Rikev. Nos dias seguintes visitaríamos e passaríamos por diversas  cidades como Arba Minch, Turmi, Murulle, Dimeka, Alduba, Key Afer, Jinka, Mago NP,  Kocho, o Hamer Market, Omorate, o Lago Chamo - um dos oito lagos do Rift Valley, onde há hipopótamos, crocodilos e a águia-pescadora - Diredawa, entre outros, através da região que chega à fronteira com o Quênia. Tínhamos ido a lugares distantes, sobretudo na África, mas provavelmente nunca num lugar tão remoto e inóspito como Turmi, no Vale do Omo.

Mulher mursi usando seu disco alargador de lábio

             Predominantemente verde, com montanhas e cerca de vinte tribos diferentes, entre elas os Hamer, os Karo e os Mursi, O Vale do Omo talvez seja o pedaço do mundo mais etnicamente rico e diverso. Infelizmente, de acordo com ambientalistas, também sob grave ameaça devido à construção de uma barragem a ser construída no Rio Omo. Seus efeitos seriam dramáticos, pois poderiam destruir o modo de vida original daqueles povos em definitivo.

O sítio arqueológio de Tiya

        De Addis a Arba Minch, paramos em Tiya, um sítio arqueológico classificado como patrimônio mundial pela UNESCO. É pequeno, simples, medianamente curioso. Constitui-se num conjunto simples de stelaes de pedra, instalado entre os séculos 12 e 14, com gravações curiosas cuja origem e serventia ainda são meras suposições.

Banheiro. É preciso se acostumar com eles na Etiópia...

          Tiramos algumas fotos, ouvimos as explicações e sobretudo os detalhes que escapam a quem não está com um guia. A parada serve também à necessária e recomendável ida ao "banheiro" (não sei se posso chamar assim...)

Os Hamer

O Rift Valley e seus lagos - Paraíso natural

            O Vale do Omo é um dos lugares mais exclusivos e fascinantes do mundo. E o Rift Valley uma das mais belas regiões da África. Não há lugar-comum mais comum nem afirmação mais corriqueira sobre a Etiópia. Na Internet sobretudo. Nada mais fazem que exaltar a beleza relativamente incomum desta parte da África, nordeste do continente, conhecido como Chifre da África - que inclui a Somália, a Etiópia, o Djibouti e a Eritreia - mas também eventualmente como Península Somali. Começa a cerca de 180km de Addis e nele um conjunto de lagos - Abaya e Chamo, os que visitamos, e Dambal, Shala, Koka, Langano, Abijatta e Hawasa - reconhecidos como paraísos para observação de aves e, especificamente o Chamo, de hipopótamos e crocodilos do Nilo.

Infra-estrutura precária. Prepare-se para ela

O primeiro contato com uma tribo do Omo – Um desafio

           Entramos mesmo um mundo de surpresas, mas também num lugar que desafia o viajante. Bons e númerosos desafios para os quais é preciso preparar-se. Nosso desesperado desejo de fotografar - por exemplo - foi contido pela evidente aversão dos Tsemay e dos Bana à presença de ocidentais. Provavelmente muitos turistas sairiam mal impressionados com a “receptividade” dos Tsemay e dos Bana, assim como de outros povos do Vale do Omo. Mas foi justamente o que nos atraiu, impressionou e tornou a experiência extremamente mais enriquecedora. Sobretudo porque nos fez perceber a verdadeira dimensão do que representa o turismo para esses povos. Foi este primeiro encontro que nos preparou para os dias seguintes e as visitas às tribos ainda mais remotas.

Banna ou Tsemay?

          É difícil identificar quem pertence a que tribo em alguns casos. Às vezes usam os mesmos enfeites corporais, ou pelo menos bem semelhantes, inclusive o modo de enfeitarem os cabelos. É o caso dos Banna e os Tsemay, facilmente confundíveis com os Hamer

Mulher mursi

            Eles não são simpáticos à nossa presença, apenas nos "engolem" (felizmente não no sentido literal!). Não estão nem aí pra nós, recusam-se a que os fotografemos (mesmo pagando) e se o fizermos sem autorização somos severamente ameaçados e teremos problemas. Esse primeiro contato foi um soco no estômago (ou teria sido nos olhos?). Tenso, relativamente estressante, um pouco “assustador” e ao mesmo tempo fascinante. Ninguém escapa de seus efeitos, seja pela beleza natural, seja pela diversidade cultural de cada tribo e da constatação de que efetivamente levam sua vida primitiva independentemente de estarem no século 21. Para além de um dos lugares mais fascinantes do mundo, onde vivemos as experiências mais incríveis, os momentos mais "National Geographic" que um viajante comum pode almejar. Suas dezenas de tribos vivem remotamente, sem água, luz elétrica ou qualquer tecnologia moderna como carro, celular, TV, panelas de alumínio e eletrodomésticos. Especialmente os do primeiro contato com uma tribo do Omo. Ainda mais se tiver a sorte de ser com os Hamer e num dia de seu mercado semanal. Vestem roupas tradicionais e adornos com tal autencicidade e primitivismo que custamos a crer, mesmo que seja com nossos olhos. "Finalmente, algo autêntico no mundo turístico!", eu não cansava de repetir.

Mulheres mursi

            É uma verdadeira experiência na África, mas a realidade é que o Vale do Omo me preocupou muito enquanto eu usufruía dele. Não há porque não pensar no quanto está sendo estragado pelo turismo. E que nós estamos minando suas culturas tradicionais. Pior, sua própria perspectiva - limitadíssima - do que seja o mundo. Em certas tribos, quando eu dizia que era do Brasil, nosso guia ria de mim e falava: "Brasil? Não adianta! Eles não sabem sequer o que é Etiópia!"

           Mas qual será o futuro dessas tribos?

  Qual será o futuro dessa gente? (Tribo karo)

           O turismo move um mundo de gente que introduz dinheiro numa sociedade que até bem pouco tempo não conhecia o dinheiro e não sabia para o que servia. E ainda não o usa para comprar, mas guarda para mostrar poder. Será que em breve aqueles ateus (ou no máximo animistas) não estarão sendo catequizados por ONGs cristãs?  

            Posso afirmar que depois de cinco dias viajando pelo Vale do Omo, entre outras atividades, visitando várias de suas tribos, impressionaram-me mais os Hamer - cuja cerimônia Evangadi tivemos o privilégio de assistir - e os Mursi, com as decorações corporais, as mais inusitadas e criativas, e estilo algo agressivo, encontrei auntenticidade em tudo. Ainda que as visitas sejam superficiais e nosso voyeurismo controlado. Saí com a sensação de uma autenticidade que está severamente em risco. 

Mulher banna (ou seria hamer?)

            Ainda que difícil de compreender, eles têm sua própria visão do mundo. E um modo de vida primitivo, das roupas tradicionais aos costumes. Mas alguns já começam a seduzir-se por T shirts de times de futebol. E a inflacionar os preços que cobram por fotos, quando as admitem. É justo tentarem sobreviver vendendo a nós o que nós queremos comprar: fotos. Mas até pouco tempo os guias impressos mencionavam o valor de 1Birr, mas hoje custam 5 por foto, por pessoa. Irrisório, claro, especialmente pela qualidade da experiência.

Meninos mursi

        Não posso esperar que turisticamente na vida venha a ter oportunidade igual, sobretudo porque tirando o Brasil e um ou outro povo da África, não há mais povos vivendo assim. E se por um lado o mundo cresce, e a África evidentemente seja parte importante dele, essas questões de perda de identidade e genuinidade cultural são inevitáveis. Provavelmente será sob o que refletirá um viajante consciente e antenado toda vez que viver momentos como este. Definitivamente estamos pondo em risco aquele mundo, e influenciando negativamente seu micro-universo, seu modo de vida, ainda que as surpresas e a sensação de privilégio por estar ali estivessem sempre corrompendo minha consciência. Se desconforto pessoal havia por eu poder estar ali afetando seu futuro, também sentia uma agradável sensação de conhecer algo ainda tão genuíno e primitivo.

Mulher arbore

           Conhecer os povos do Vale do Omo foi um privilégio e uma das experiências mais fantásticas que podemos ter em viagens. Fotografias, o troféu que trazemos deste encontro. Por vezes divertido, outros estressantes, mas a sempre com saldo positivo para o nosso lado. Para o deles, temo que não. O ato da fotografia é predatório, e por vezes sentimos que olham para nós, ricos turistas ocidentais, brancos ridículos clicando desesperadamente para  registrar aquele povo esquisito, primitivo e exótico. Os Mursi especialmente. Com eles não deixei de notar o desconforto e olhares desconcertantes na maioria de nossos cliques e com as poses automáticas e programadas que faziam. Essa "interação" entre visitantes e os Mursi foi tão incômoda para ambas as partes que não consegui suportar por muito tempo sua agressividade.

Mulher hamer

            O processo -  do começo ao fim da visita -  foi intermediado por um guia da comunidade mais próxima, aceito por eles. Falando seu dialeto, traduzia para o amárico e nosso guia o que queríamos. Ele negociava as fotografias e as nossas escolhas de quem queríamos fotografar. Os Mursi, magros e musculosos, pintam seus corpos com desenhos abstratos, brancos, aparentemente com algum significado para eles, enfeitam-se nas cabeças com chifres, cachos de milho seco, aves mortas e qualquer coisa que chame a atenção dos fotógrafos. São tão primitivos e isolados que seus dialetos não têm escrita. Não possuem calendário e não sei se marcam o tempo. E se o fazem, como e onde o fazem.