CONHEÇA O AUTOR

 

         Depois de estabelecer-se na Internet - em 1999 - escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo, da Editora Abril e, agora, prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando, assim, na literatura de viagens com um livro encantador, segundo o autor, o primeiro de uma série de pelo menos quatro que já planeja produzir, dois deles em plena fase.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de apenas uma "conversa" com o leitor, baseada na informalidade, o livro mistura traços desta coloquialidade e informalidade com os de uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida. 

              Minha ascensão na escrita de viagens com este trabalho literário não é exatamente uma novidade. Ainda que recentemente eu tenha notado a mente lampejar com a ideia: tornar-me um escritor de viagens. Todavia, ela sempre me rondou. Mesmo que a alguma distância. Não foram poucos os amigos, parentes e leitores do blog que há mais de dez anos recorrem à pergunta: “Por que não escrever um livro?”

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti na categoria Reportagens

Ronize Aline:

             "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária, crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

 


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Terça-feira
Jun032014

JAIPUR, Índia - Doces lembranças, vivas saudades

Uma janela, uma árvore frondosa... BADA GUNBAD - Lodhi Garden, Old Delhi

UMA coisa é ler, outra é experimentar. Para compreender a Índia, é preciso ler. Eu li. Li muito. Tanto quanto pude. Tomei um banho de conhecimento, mas nada igualou-se ao que eu viveria, nada preparou-me sobretudo para enxergar beleza na pobreza. Uma ironia? Talvez.

É possível que àquela altura eu já estivesse ensandecido com a Índia. Ou arrebatado, sei lá. Mas viagens são assim, nos pregam peças: seis dias na Índia e eu pensava já ter experimentado tudo. Mal sabia que a Índia ainda me deixaria tantas marcas, que me revelaria tantas surpresas, traria experiências tão memoráveis e sensações tão inesquecíveis. Àquela altura o coração ainda não apertava de saudades, a viagem ia em meio e os dias eram cheios, mas foi no sexto dia que eu comecei a perceber que teria uma enorme sede de voltar. E um ano depois, ao retornar, que a sede seria insaciável. 

HÁ viagens assim, que entram na gente, grudam, não nos deixam jamais. Parece que nunca regressamos delas. Todas têm suas surpresas, é verdade, mas algumas são mais inquietantes, mexem mais com a gente, alteram nosso estado de espírito, abrem janelas e portas,  passagens suntuosas pelas quais ingressamos e do outro lado saímos transformados. No modo de viajar, no de enxergar o mundo, em como olhar as pessoas e compreender as diversidades. Deve ser assim com todos os que viajam por prazer. E para onde escolhem, onde sentem o êxtase que é viajar. E jamais voltam pra casa inalterados. Os que escrevem, ao voltarem, percebem que precisam de todo cuidado, porque escrevero destino, descrever a viagem e suas experiências é uma sujeição permanente aos excessos, erros mais comuns de quem viaja e encanta-se. À Índia, o exagero é exceder-se nos adjetivos, escorregar nos estereótipos, arriscar-se a descrever o que viu mas não enxergou.

LOTADA, suja, pobre, barulhenta, fedida e estressante, é a mais pura verdade. Mas também encantadora, monumental, bonita e emocionante. Foi assim que eu percebi a Índia, uma terra exótica de história, patrimônio, cultura, cores e sabores em tal diversidade que qualquer viagem pra lá é um sem fim de venturas e aventuras. E todas sublimes.

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JAIPUR, 12 de Novembro de 2010

Forte Amber 

ERA nosso sexto dia na Índia. Depois do cosmopolitismo de Delhi, do romantismo de Agra, das surpresas com Fatehpur Sikri, da escapada à pequena Sikandra - onde visitamos a Tumba de Akbar, obra prima da arquetetura mogol -, fomos a Jaipur, outro esplendor do passado mogol. Sete horas de estrada depois, chegávamos a esse microcosmo da Índi: Jaipur.

Eu não fazia idéia da cidade. Mas me pareceu limpa. Especialmente comparada a Agra, que por vezes parecia uma lixeira com uma cidade dentro. Vacas, cães vadios sarnentos, cabras, lixo, cores, caos de movimento, aromas intrigantes, por vezes nauseantes, gente, vendedores de tudo, sobretudo de pedras "preciosas", miséria, fedor, fezes, esmolés, amputados, deformados.

O céu era leitoso, aquele misto de poluição e névoa característico da Índia. A cidade era só um pouco mais serena, a realidade, todavia, continuava cruel, ainda que menos insistente que a de Agra. Levei mais tempo do que imaginara para curtir-me dos males que a miséria indiana produz. As cenas que meus olhos já andavam se acostumando, o estômago ainda não conseguia digerir.  

Turbante rajastani, safa (*)

FOI em Jaipur que percebi pela primeira vez a diferença entre miséria e pobreza. E o gigantesco contraste entre riqueza e pobreza. Mas ainda não era fácil ignorar as crianças. Continuavam lindas, apesar de toda a sujeira grudada em seus rostos. Os olhos - sempre escuros e grandes - revelavam o mesmo sofrimento, um olhar penetrante, mas doce. Pediam esmola. Metade de mim queria dar-lhes, a outra racionalizava negando o que pediam.

Lindas, doces, apesar de toda a sujeira grudada em seus rostos

O coração apertava diante da aberração, daquele contraste com tantas crianças igualmente lindas, mas saudáveis, bem nutridas, vestidas e amparadas, como tantas que vimos, sozinhas ou em grupos de escolares uniformizados em excursões pelo país.

  AO fim de nosso "ciclo indiano" (o tempo que passamos na Índia), acabei criando um véu. Era uma espécie de proteção, tentativa de evitar desconforto e conflitos. Eu endureci. E me envergonhava disso. A vontade era abraçá-las. Todas. Sobretudo não ignorar seus dedinhos batendo no vidro do carro ou puxando a manga de minhas camisas. Sempre que podia, eu o fazia. 

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Taj Rambagh Palace (*)

- Welcome, sir. Welcome, ma'am... Abriram as portas de ambos os lados do carro e retiraram nossa bagagem. Descemos e fomos conduzidos pelo Lobby à Recepção. Puro êxtase reviver a realeza, chegar ao hotel. Foi quase emocionante, especialmente depois de sete horas de estradas indianas.

O Taj Rambagh Palace é um extrato retificado, o sumo concentrado levado à última fase de apuramento, ao mais alto grau de requinte, auge, cume, quintessência do luxo e da nobreza rajputs. Hoje não é preciso ter sangue azul ou ser convidado dos marajás para viver como eles por uns dias na Índia. No Rajastão, basta hospedar-se num dos inúmeros palácios da época hoje convertidos em hotéis luxuosos. Em Jaipur, o Taj Rambagh Palace, palácio que ocupa 47 hectares, ainda é a mais elegante, icônica e atmosférica construção da cidade. Voltamos no tempo, à realeza de 1835. 

O antigo pavilhão de caça, escola privada da realeza, foi convertido em hotel em 1957, o primeiro num sítio histórico da Índia. Talvez ainda seja favorito das estrelas de Bollywood, de Hollywood e de socialites. O hotel é uma atração, vale tanto visitá-lo quanto dormir nele. Os hóspedes recebem um tratamento que provavelmente era o dispensado à nobreza. A sensação de grandeza nos acompanha por toda estada. O Rambagh Palace foi um dos grandes entre os enormes destaques hoteleiros desta nossa viagem à Índia.  Dos serviços ao "palace room", do spa aos  restaurantes, das instalações à ambientação, tudo foi absolutamente tão fabuloso, uma experiência tão inesquecível...

... que sequer precisávamos cruzar ao fim de cada jornada turística com Judi Dench e Maggie Smith no lobby, quando retornavam do set de filmagem de "O Exótico Hotel Marigold", hospedando-se no mesmo hotel. Não sou chegado a demonstrações típicas de fãs, mas não vou negar que fiquei encantado com aquelas duas damas do cinema. Também não recebermos o convite para um breve passeio pela cidade, no carro original do marajá, conduzido por um motorista atencioso que trajava um belo uniforme e um turbante pag rajastani, comprido, que vai até quase os pés.

O Palácio Rambagh evoca as melhores imagens da nobreza indiana. Por quase dois séculos foi ocupado por gerações de membros dessa realeza. Em 1925 foi convertido em palácio, passou a ser residência do Marajá de Jaipur, onde  permaneceu até 1957, quando então foi convertido em hotel de luxo pelo Marajá Sawai Man Singh II.  Em 1972 a cia. Taj Hotels Resorts and Palaces assumiu a operação do empreendimento. Passou então a ser uma das "jóias da coroa" entre os hotéis-palácios da Índia. E mantém na melhor tradição da hospitalidade a sua majestade.  

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A Cidade de Jai - Doces lembranças, vivas saudades.

CIDADE da inovação, da criação, Jaipur é rosa, toda rosa, a cor que a reveste suas fachadas, uma homenagem ao Príncipe de Gales quando a visitou em 1853. Desde então tornou-se moda, caiu no gosto popular, virou tradição. O monocromatismo pode até sugerir tédio, mas ao contrário, revela-se gracioso e simpático. A cidade de Jai faz parte de um roteiro lógico pelo Rajastão. Seja por sua localização central, seja pelas boas conexões com o restante do país. O nome foi inspirado no de seu fundador, o guerreiro e astrônomo Maharaja Sawai Jai Singh II, de um império - o mogolque nasceu em 1526, começou seu ocaso no início do século XVIII e acabou em 1857, com o início da do domínio britânico.

O projeto urbanístico é de 1727, quando o império mogol enfrentava seu declínio e Jai Singh decidiu mudar-se da fortaleza no alto do morro para um novo lugar na planície. Assim nasceu Jaipur, cidade planejada, desenhada pelo arquiteto bengali Vidyadhar Bhattacharya com nove setores retangulares que simbolizam as nove divisões do Universo. 

O Hawa Mahal. 152 janelas com treliças

A despeito de sua idade, Jaipur tem um plano moderno: a planta é em grade, na qual ficam os edifícios públicos, as residências nobres, os alojamentos e o comércio, com claras divisões reservadas aos ricos, à classe média e às pessoas comuns. Em linhas retas, ruas largas cruzam a cidade. Um muro alto fazia sua defesa, por onde sete passagens monumentais permitiam a entrada controlada. Ainda permanecem, mas quase escondidos por um crescimento que os foi engolindo. 

JAIPUR é uma grande atração turística. Entre os indianos e os estrangeiros. Tem um charme meio romântico, mas sei lá se é assim que todos a vêem. Mas pra mim à algo comum às demais cidades do Rajastão, talvez pelo que resta de uma realeza que já não há, mas que ainda está sedimentada em tradições, história e cultura. Andando por ela, por vezes o passado ganha ares de presente, especialmente ao visitarmos os magníficos palácios e fortalezas onde viviam marajás. Parece que o passado é mais explícito que o presente.

Jaipur e seu plano moderno, com planta em grade 

Palácio do Vento, o Forte Amber, o Observatório e o Palácio da Cidade  

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O Hawa Mahal

Construído em 1799, é o monumento mais reconhecido de Jaipur. Tem cinco andares de uma curiosa arquitetura semi-octogonal composta por 152 janelas com treliças. Um bela peça que mistura arquitetura rajput com arte mogol. Originalmente foi concebido para que as mulheres da côrte pudessem assistir as procissões, cortejos e festivais, assim como a vida cotidiana na rua abaixo, sem misturarem-se a ela. O palacete é apenas um cenário, nada mais que um paredão de janelas com um interior inexpressivo. É apenas um lugar onde as mulheres reais praticavam o voyerismo. 

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O Palácio da Cidade

UMA grande área dividida por uma série de pátios, jardins e edifícios. Jai Singh construiu o muro externo e novas adições foram feitas mais tarde, algumas no início do século XX. O Tripolia Gate - a entrada principal do Palácio - era usado exclusivamente pela realeza. Visitantes entravam pelo Atish Pol, poucos metros adiante.  Pátios, jardins e edifícios abrigam estruturas palacianas como o Chandra Mahal, o Mubarak Mahal, o Taj Badal, o Shri Govind Dev Temple e o City Palace Museum.

 

  Amber Fort

HÁ um portão magnífico, uma pesada estrutura de metal na abertura para o pátio senhorial. Nesse primeiro pátio fica o Mubarak Mahal, ou Palácio Auspicioso, que abriga o setor têxtil do Maharaja Sawai Man Singh II no que é hoje um museu.  É um edifício de dois andares construído em 1890 como casa de lazer e repouso do Maharaja Madho Singh II, mais tarde usado como Khas Mahakma, uma espécie de secretaria geral. Atualmente funciona como aposentos da guarda real do museu, que contém com uma coleção de roupas e têxteis. Há também a Torre do Relógio, perto do Mubarak Mahal, e o pavilhão Sileh Khana, com uma coleção de armas.

O Diwan-E-Am (Sala de Audiência Pública) tem decoração intrincada e uma coleção de manuscritos, seu tesouro. Também se destaca na arquitetura e ornamentação o Diwan-E-Khas (Sala de Audiência Privada),  um grande espaço aberto com uma dupla fileira de colunas de arcos recortados em estilo hindu. Adiante fica o Chandra Mahal, ou o Palácio da Lua, majestosa, graciosa residência de sete andares do ex-governante e ponto central do complexo, com belas vistas dos jardins e da cidade. Os apartamentos são mantidos em ordem, com o mesmo luxo. O museu de Maharaja Sawai Man Singh II tem uma extensa coleção de arte, tapetes, esmaltados e armas antigas. que abriga os presentes ofertados oficialmente ao Marajá de Jaipur. Dali é que se tem a bela vista dos jardins e da cidade. Pinturas, decorações florais, paredes e tetos com espelho adornam o palácio. Todo o lugar tem beleza e luxo.

No piso térreo do Chandra Mahal, fica o museu do Maharaja Sawai Man Singh II, com uma extensa coleção de arte, tapetes, louças e armas do século 15. As pinturas, especialmente, incluem peças do Rajastão, persas e mogóis. Há uma seção com vestidos e trajes dos antigos marajás e maharanis, esposa do marajá, de Jaipur. De frente para o Chandra Mahal ficam o Taj Badal e o templo Govind Devji.  O Pol Atish, portão principal do palácio, leva ao grande pátio no meio do qual fica o Mubarak Mahal, em mármore branco.

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O Amber Fort

Jaipur tem três fortalezas surpreendentes: Amber Fort, Jaigarh Fort e Nahargarh Fort. Mais além dos palácios e das outras atrações da cidade, nossos olhares e curiosidade fixavam-se neles mais do que em qualquer outra atração. Exploramos o fabuloso Amber Fort, o mais imponente e glorioso deles.

Pela estrada que contorna o sopé da colina onde no todo está o forte, magníficas paisagens surgem pela janela do carro. Vez por outra, a superfície do Lago Maota refletia e duplicava a paisagem, formava ângulos, cenários formidáveis. Neste ponto a imponência da muralha se sobrepõe a tudo mais que há no interior do palácio. Quando nos aproximamos, por trás do lago, pudemos ver o vai e vem de elefantes carregando turistas, vencendo o íngreme caminho até a Pol Suraj, portão monumental que dá acesso ao complexo. Uma opção turística às escadarias que o povo usa. Dali vimos o palácio-fortaleza envolto pela bruma indiana, aquele ar leitoso eterno na Índia. E dali mesmo já era possível notar que estávamos para visitar mais um exemplo da notável arquitetura rajput-mogol do século16.

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Os elefantes de Amber

É uma daquelas coisas turísticas que nem Ganesh, Shiva ou Parvati juntos fazem a gente escapar na Índia. Os elefantes de Amber são muitos. Dizem que há pouco mais de 100 deles trabalhando em regime rotativo. Todos os dias, caminham 22 quilômetros para ir e voltar de Mahavaton-ka-Mohalla - na cidade velha de Jaipur - até sua base no Forte Amber. Chegando lá, carregam turistas, dois de cada vez, do sopé ao topo da colina. A viagem dura 20 minutos. É uma subida dura. Para eles, claro. Por isso fazem apenas 5 viagens por dia, segundo determina o Elephant Welfare Office, entidade criada para proteger esses incríveis animais, sobretudo depois que os turistas começaram a protestar contra os maus tratos aos animais. O governo atuou, construiu a base para eles junto ao forte e controla seu trabalho, fazendo com que descansem e recebam tratamento e manejo adequados.

Cada subida custa o equivalente a 13 dólares.  Ficam ainda mais bonitos "vestidos" com pinturas coloridas em suas trombas, faces e traseiros. Sentamo-nos no assento às costas do elefante. As pernas vão pra fora, mas alguns cruzam-nas sobre o assento. Fotografar é quase impossível. Ao menos obter bons resultados. O “passeio” é inconfortável, instável, mas curioso e interessante, mas não vou esconder que tive ímpetos de saltar em movimento, atender à vontade de seguir o caminho a pé.

Assim que chegamos ao ponto de embarque a ansiedade cresceu na mesma proporção da fila de turistas. Estávamos encantados com a vista enquanto aguardávamos nossa vez de embarcar num dos animais. Já podíamos enxergar a escada e a plataforma de embarque, e nem mesmo os insistentes vendedores ambulantes conseguiram subtrair meu entusiasmo por estarmos ali. Dão nos nervos. Afinal, são mil turistas por dia pra embarcarem nos elefantes ao topo da colina. A subida parece organizada, elefantes subindo pela esquerda, descendo pela direita, obedecendo à mão inglesa. Mas a condução é indiana, naquele estilo "indian way of drive" das ruas e estradas: colado ao da frente, pressionando por passagem, sobretudo os mais lentos. Qualquer lacuna, ainda que improvável, para uma ultrapassagem.  

O nome Amer ou Amber deriva de Ambikashwar. Paredões poderosos protegiam o forte contra invasões. É o que dá sua aparência externa áspera, grave, sisuda, fechada. O interior não, é relaxante e acolhedor. O interior é fabuloso: um palácio que tem no seu projeto a melhor expressão das artes decorativas e arquiteturas mogol e hindu, ambas unidas em mais um projeto das Mil e Uma Noites entre tantos que vimos na Índia. Composto por um enorme complexo de portões, praças, escadas, pavilhões e palácios construídos por astutos marajás que assim nestas fortalezas conseguiam proteger seus bens de insasores. No interior do complexo as principais atrações chamam-se Diwan-e-Aam, Diwan-e-Khaas, Ganesh Pol, Jaleb Chowk, Singh Pol, Jai Mandir, Yash Mandir, Sukh Mandir, Sheesh Mahal, Suhag Mandir, Shila Devi Temple, Bhool Bhulaiya e Zanana Dyodhi.

A arte decorativa do interior do forte é encantadora. As paredes são adornadas em estilo rajasthani com belas pinturas retratando a caça - esporte predileto dos rajputs - e a guerra, porque afinal, eram guerreiros, aventureiros, revolucionários e conquistadores. Também há trabalhos decorativos com pedras preciosas, espelhos e estuque.

O Salão dos Espelhos, como no Forte de Agra e tantos outros no Rajastão, me pareceu o mais bonito, delicado e elegante. Dizem que apenas uma vela bastava para iluminar todo o salão, pois a luz refletia-se em milhares de pequenos espelhos que revestem o interior. Mas tem também o Ganesh Pol, caminho para os apartamentos reais, com uma imagem de Ganesha esculpida numa única peça de coral. Sobe-se a escada até o Diwan-i-Am, onde o marajá costumava ouvir o público e suas petições, um lugar que se destaca por duas fileiras de colunas. No terceiro pátio estão outras residências reais, o Jai Mandir (Hall of Victory) com a seus mosiacos e esculturas, e do lado o oposto o Niwas Sukh (Hall of Pleasure), cuja porta de madeira é feita em sândalo, onde um típico canal corre no interior da sala para descer a temperatura no verão.  A partir dali, a vista do Lago Maota é a mais clara. É até possível enxergar patos nadando. O Zenana (Ladies House) ocupa boa parte do forte e abriga os quartos femininos.

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O Observatório Jantar Mantar

Uma coleção de instrumentos astronômicos-arquitetônicos. É curioso, apenas curioso. Entre os outros mais reconhecidos e visitados monumentos turísticos de Jaipur, construído no século 18 pelo Maharaja Sawai Jai Singh II, onde enormes instrumentos que servem à observação dos astros e seu estudo, entre os quais se destaca o enorme Relógio do Sol. Foi neste monumento que achei as pessoas bem mais atraentes e interessantes do que a atração em si.

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O Sri Jagat Shiromani Temple, Amber, Jaipur

Um oásis de tranquilidade, sem turistas. No caminho para o templo construído por Sringar Devi Kankawat, mãe de Jagat Singh, um edifício-escultura em mármore - do torana ao chatri de Garuda e ao templo em si, dedicado a Radha-Krishna - construção iniciada em 1599 e concluída em 1608, passamos por alguns dos lugares mais tranqüilos, serenos desta agradável esticada a um sítio não convencional em Jaipur.

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(*) Aqui não tem jabá. O que escrevo não tem filtros, é um reflexo do que vejo, sou e penso. Não sou blogueiro que escreve por comissão, nem para pagar fam trips ou receber agrados, mimos, presentes e afins. Não faço viagens que não sejam de nossa escolha. Os produtos e serviços aqui mencionados não têm o conhecimento dos mesmos, não são recompensados de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação - e se o fiz foi por liberalidade, com o intuito de informar o leitor. 

A hospedagem no Taj Rambagh Palace foi paga por mim, assim como todas as despesas da viagem. Portanto, não viajamos a convite do hotel. Minhas opiniões são independentes, assim como as escolhas, elogios, críticas, menções e relatos. Não há qualquer compromisso, a não ser com a informação, com a motivação e a inspiração do leitor. Cada link ou produto citado é posto com a suposição de que o leitor saiba identificar e perceber os objetivos do blog, que as verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador doserviço em questão.

Fique seguro: este é um blog gratuito para o leitor. Não é necessário doar dinheiro, desconfiar de que as matérias são pagas, ler anúncios disfarçados ou receber propaganda subliminar enquanto o lê.

 Taj Rambagh Palace 

http://www.tajhotels.com/Luxury/Grand-Palaces-And-Iconic-Hotels/Rambagh-Palace-Jaipur/Photo-Gallery.html

Virtual tour 360 graus

http://taj.photowebasia.com/rambagh-palace/index.html

 (*) Shilpa Shastra é o termo usado para descrever a ciência antiga, cujos textos descrevem as normas para a iconografia religiosa hindu - como por exemplo prescrever as proporções de uma figura humana esculpida - assim como algumas regras da arquitetura. A literatura pertinente à ciência tem sido fonte de estudos de escultores e arquitetos para a compreensão dos projetos de templos e fortalezas por toda a Índia. O Shilpa Shastra é composto por textos principais chamados Mukhya shastras e por versões concisas chamadas Upashilpas. A maioria desses trabalhos foram escritos em sânscrito, mas há muito escrito em tâmil. O Vastu Shastra contém textos antigos, medievais, relacionados ao planejamento urbano e à arquitetura que assumiu enorme importância entre os bem-educados e afluentes na Índia urbana.

(*) São dois tipos de turbantes rajastanis: o safa, tira de tecido de cerca de nove metros de comprimento e um de largura, enrolada na cabeça, e o pag, semelhante, também de tecido, mais comprido, indo até quase os pés.

(*) Venturas e aventuras

 Ventura
ven.tu.ra
f (lat ventura, de venturu) 1 Fortuna boa ou má. 2 Sorte, acaso, destino. 3 Sorte feliz; felicidade. 4 Fortuna próspera. 5 Risco, perigo. Antôn (acepções 3 e 4): desventura. À ventura: ao acaso, à sorte, à toa. Por ventura: por acaso, talvez.

 Aventura
a.ven.tu.ra
sf (lat adventura) 1 Acontecimento imprevisto. 2 Ação ou empresa arriscada. 3 Conquista amorosa. 4 Sucesso romanesco. 5 Patuscada. 6 Risco. 7 Acaso, sorte.
 

Reader Comments (2)

As fotos são impressionantes, tanto dos monumentos, como das paisagens e das pessoas ...

Arnaldo, no outro dia eu li no jornal que os países emergentes tinham implementado as suas realizações de forma diferente. Na Índia, a melhoria social e econômica do país não teve influência sobre a melhoria das pessoas mais pobres, mas tinha beneficiado os ricos. Agora, na Índia, emergente, havia muito mais pobres, porque a diferença social era mais profundo e muito mais. Em contraste China tinha aplicado, muito melhores melhorias sociais e econômicas. A classe pobre na China se beneficiaram dessas melhorias econômicas. Por isso, a consciência está chorando para uma melhor aplicação e mais justas melhorias econômicas em toudos os países...

7:02 | Unregistered CommenterCarmen

Parabéns Arnaldo.
Fomos, minha filha e eu, e nos encantamos. Tudo muito além das nossas expectativas.
Após duas semanas, a vontade era de poder prolongar a viagem e conhecer várias cidades que tivemos que deixar de fora.
Com certeza voltarei, e agora tenho certeza que o meu marido gostará!

21:59 | Unregistered CommenterCláudia

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