CONHEÇA O AUTOR

 

         Depois de estabelecer-se na Internet - em 1999 - escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo, da Editora Abril e, agora, prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando, assim, na literatura de viagens com um livro encantador, segundo o autor, o primeiro de uma série de pelo menos quatro que já planeja produzir, dois deles em plena fase.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de apenas uma "conversa" com o leitor, baseada na informalidade, o livro mistura traços desta coloquialidade e informalidade com os de uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida. 

              Minha ascensão na escrita de viagens com este trabalho literário não é exatamente uma novidade. Ainda que recentemente eu tenha notado a mente lampejar com a ideia: tornar-me um escritor de viagens. Todavia, ela sempre me rondou. Mesmo que a alguma distância. Não foram poucos os amigos, parentes e leitores do blog que há mais de dez anos recorrem à pergunta: “Por que não escrever um livro?”

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti na categoria Reportagens

Ronize Aline:

             "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária, crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

 


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Sexta-feira
Jul112014

ESFAHAN - Para gregos e baianos 

Beleza, unidade e equilíbrio. Irretocáveis

COMO dois e dois são quatro   __________________________________________

          É impossível definir num só parágrafo o que a dinastia safávida representou para a arte islâmica, especialmente na ornamentação arquitetônica. Mas uma vez em Esfahan é fácil para um observador perceber o quanto ela acrescentou e enriqueceu a arquitetura persa, assimilando tendências artísticas do classicismo sírio, do Império Bizantino, do orientalismo persa sassânida e do exotismo turco. E também é perfeitamente aceitável compará-la ao barroco europeu. São do mesmo período. E ambas apresentam lá seus excessos, um certo gosto pela exuberância e pelo luxo. Aplicado à arquitetura e à ornamentação, o "barroco persa" é bem mais discreto e elegante que seu irmão europeu, e foi na Praça Naqsh-e Jahan, em Esfahan, onde atingiu seu apogeu, tornou-se tão notável que terminou consagrando-se um patrimônio inquestionável da humanidade com obras de mestres do urbanismo, da arquitetura e da ornamentação. Não sem motivo consideram esta praça uma das mais espantosamente belas que o homem já projetou e construiu. 

           A arte no período safávida teve desenvolvimento maior do que em qualquer outro período artístico iraniano. Especialmente durante o reinado de Abbas I. Foram tempos de glória artística, mas também de um dinamismo notável no desenvolvimento religioso, social, político e comercial no Irã. A Dinastia safávida durou de 1501 a 1722, pum eríodo em que as artes alcançaram novos patamares na arquitetura, crescendo em brilho e opulência junto com as cidades.

          É nas fachadas e no interior das mesquitas e palácios desta praça que o estilo safávida - de elevado equilíbrio e sentido estéticos - revela-se tão sublime. Ali a beleza é tão surpreendentemente perfeita - no equilíbrio, na forma e no conteúdo -, que é impossível apontar defeitos. A combinação de cores, padrões e desenhos é tão precisa que não seria exagero associá-la à aritmética. Prelo menos não no efeito que provocam no observador: matemáticamentetodos perdem o fôlego. Como dois e dois são quatro.

Masjid Shah (detalhes dos padrões) - Pascal Coste

          OBSERVÁVAMOS tanto para o conjunto quanto para os detalhes com o olhar vívido de encantamento e admiração. É possível que sentíssemos tudo um pouco mais forte porque não conseguíamos conter um indisfarçável orgulho, o priviégio de estarmos ali. Absorvidos por aquela beleza monumental, o que víamos percebíamos não apenas com os olhos, mas com a mente e o coração. E vivemos momentos de absoluta serenidade, de verdadeira doçura na contemplação, de deliciosos prazeres fotográficos.

Tornar o que é monumental em delicado, um dos méritos da arte e da arquitetura safávida

       OS projetistas e idealizadores da Praça Naqsh-e Jahan tornaram estruturas pesadas em obras delicadas, especialmente quando as revestiram com tapetes persas cerâmicos. Onde havia uma parede e teto para cobrir, o faziam com mosaicos cerâmicos. Ao observá-los não precisamos de muita imaginação para associá-los aos espetaculares tapetes persas. 

 Um Tabriz encantador de incomuns tons de azul. Padrões que nos remetem às mesquitas safávidas

        TAPETES que se vendem a poucos passos dali, no Grande Bazar de Esfahan E mesmo sem comprá-los, podem-se vê-los, tocá-los, pisá-los e até mesmo receber lições precisas da arte na tecelagem de tapetes. Basta ir à melhor loja de tapetes da cidade: a Silk Road (*).

    Os efeitos ornamentais e seus efeitos evidentes: admiração e encantamento

           COM bom gosto admirável, habilidade fenomenal e capacidade de trabalho, as enormes mesquitas e palácios tornaram-se delicados edifícios. De tão magnífica expressão quanto a dos tapetes persas. Tais efeitos decorativos ornamentais são particularmente notáveis na Mesquita do Sheikh Lotfollah, a primeira construída pelo Xá Abbas quando mudou a capital de seu império para Esfahan, em 1598.

Mesquita do Sheikh Lotfollah

            E os padrões repetem-se nos lenços de seda que cobrem as cabeças femininas. Belíssimos e em intermináveis formas de expressão artística, praticamente a única estampa possível às iranianas. E também às turistas, obrigadas ao uso dos lenços enquanto estiverem em solo iraniano.

INTRODUÇÃO    __________________________________________________________________________

            MELANCIAS, chá, shirini-e berenji, olhar fotográfico e o deserto de Shiraz a Esfahan

         FOTÓGRAFOS - mesmo amadores e ruins - costumam desenvolver um olhar diferenciado. Um olhar não crítico, quero dizer. Ou complacente. Não é melhor nem pior do que qualquer outro jeito de olhar, é apenas fotograficamente mais atento e receptivo. Diria até condescendente para com o que vê. Exercitam o sentido para ficar de “prontidão”, a serviço de produzir a “melhor composição de sua vida”.  

Com celular ou câmera profissional: puro prazer ao fotografar

           COM esse olhar limpo - que ao contrário do embaçado não impede, facilita a percepção - os que fotografam paisagens, natureza, monumentos, pessoas e coisas por puro prazer, com o tempo vão apurando seu jeito de olhar. Não importa com que câmera, de celular, compacta ou profissional. 

  Atento aos detalhes, procurando pelo que ninguém vê

             COM a prática, esse viajante que escreve e fotografa (com uma pesada câmera Nikon D 800 com uma battery grip pendurada no ombro) segue vivendo seu prazer exercendo (e exercitando) esse tal de "olhar fotográfico", a maneira particular de ver, uma tal  de "apreciação lisonjeira" com que definiu Pierre Verger (ou teria sido Cartier Bresson?). Ao que enxergam com "olhar fotográfico", fotógrafos são recompensados com o que julgam serem bons resultados, além de enormes prazeres. Fotográficos ou não.

            DIZEM por aqui que fotografo bem. Mas também que fotografo mal. Que não tenho sequer noções fundamentais de enquadramento e composição. Que escrevo mal também. Isso eu nem discuto. Ainda assim, ambas são atividades tão prazerosas e valiosas que bem o mal as fazendo consagram-se como alguns entre os melhores prazeres que tenho ao viajar.

  Vivendo um prazer: exercendo o tal de "olhar fotográfico"

          HÁ quem assegure que olhar assim prejudica a atenção e a percepção. Eu não discordo, mas como fotógrafo-viajante-amador considero a atitude o fortalecimento do meu jeito de olhar, o aperfeiçoamento de ver o todo e os detalhes, para então imaginariamente compôr uma fotografia para então clicar. É como se deslimitasse meus horizontes com esse olhar treinado, procurando pelo que ninguém vê. Olhares fotográficos são ativos, observam tudo evitando passividade, que impede, de maneira a observarem todos os seus detalhes que formam o todo.  

Enxergando com "olhar fotográfico": enormes prazeres. Fotográficos ou não

NA ESTRADA de Shiraz a Esfahan, sobre um deserto fosco, sob um céu leitoso   _________

          NAQUELE momento os dois lados da estrada eram um deserto só. A perder de vista. Um solo árido, ocre e fosco dominava os horizontes. Ainda brilhava o Sol, que ali naquela terra tão seca quase não reflete seus raios. E o céu, leitoso, efeito de uma permanente névoa seca que parece impedir parte dos raios solares chegarem ao chão. É permanente esse céu no Irã. E mesmo com toda a condescendência do meu olhar, as nove horas e 500 quilômetros de entediante monocromatismo paisagístico-rodoviário entre Shiraz e Esfahan já se faziam sentir no corpo e no intelecto.    

            A viagem fora medianamente confortável e bastante posotiva do ponto de vista turístico. Desde que saímos de Shiraz, paramos em Persépolis, visitamos Pasárgada e Naqsh-e Rostan, almoçamos na estrada perto de Pasárgada...

... ‘pic-nicamos’ no acostamento no meio do deserto, saboreamos sobre porta-malas do carro uma deliciosa melancia - fruta inteira primorosamente fatiada por Mr. Masjid, homem de muitos talentos revelados ao longo de nossa viagem, um encantador motorista, companheiro inseparável em dois terços de nossa estada no Irã.

               Também tomamos chá preparado por ele e comemos shirini-e berenji, os deliciosos biscoitos de arroz tradicionais que compráramos em Yazd dias antes, na mais tradicional "biscoiteria-de-um-biscoito-só" do país. O timing da viagem fora perfeito: a noite cairia ao chegarmos em Esfahan e terminaria no ponto em que nossas costas já reclamassem repouso. Mas provavelmente ainda com energia para uma volta por seu maior cartão-postal.

 

              Chegando à cidade deixamos tudo no Abbasi Hotel (*), inclusive o cansaço e a decepção com a hospedagem. É o hotel mais famoso do país, mas decididamente, a lendária hospitalidade iraniana não está ali. Para os padrões iranianos é um cinco estrelas, mas como em todos os demais hotéis desta categoria no Irã, não se enquadraria talvez na de três estrelas no Brasil. Mesmo quando tentam ser cinco estrelas, reformando carevanserais antigos - como em Kashan, e ocupando edifícios lindos e antigos, como este em Esfahan, eles têm muito a aprender, muito a percorrer. O hotel é bonito apenas em seu pátio com aparência de caravanserai. É o único lugar agradável, seu único charme. A Recepção e o Lobby são terrivelmente cafonas. Os quartos, esfarrapados. Os empregados não poderiam ser menos preocupados com isso. Talvez tenha sido ali o único lugar onde encontrei iranianos antipáticos. 

                Mas, afinal, eu estava em Esfahan! E de banho tomado, barba feita, seguimos a pé (e entusiasmados!) para conhecer turisticamente a mais importante cidade do Irã.  

               Eu esperava muito do Irã quando viajamos pra lá. Ainda que jamais sem pensar que o destino me surpreenderia como o Uzbequistão, seu parente mais próximo. Muito menos que tiraria da Índia, de Mianmar, do Camboja, da Síria e outros destinos os primeiros lugares entre meus favoritos. O Irã tinha tudo para ser favorito, mas não foi. Tem uma arquitetura bonita, uma civilização antiquíssima e exemplar, tem arte, história, poesia e uma gente bonita e extremamente acolhedora. São tão elegantes, delicados, discretos e educados que conquistam mesmo o mais experiente e exigente viajante. Mas no Irã não há vida nas ruas. Não há música, dança, liberdade, algria, expressividade, Ná há felicidade aparente. Nem animais nas ruas e nas casas. Cães são proibidos! Tudo é soturno, sombrio. Dos mártires aos religiosos pintados nas paredes dos edifícios. Nada jamais me chegou nem distante do que é ser vibrante. Ao contrário, eu só via melancolia em tudo. E pessoas obcecadas por religião. Aquilo era muito perturbador. Os dias passavam lentamente demais, desencantadores demais, frios demais.

  Palácio de Ali Qapu Esfahan

               Em nenhum lugar o Irã aparentou prosperidade. É como Cuba, ainda vive na década de 1970. Só que lá a culpa maior é da religião, que dirige, controla e limita a vida das pessoas, tanto quanto jamais pude constatar em qualuqer outro lugar do mundo. Especialmente o mundo islâmico (ainda não visitei a Arábia Saudita). Tudo aquilo me incomodava. Eu não consegui me conformar porque Irã não me encantou. É claro que vi e vivi inúmeras coisas maravilhosas no Irã. Mas eu vivia imaginando o quanto poderia ser espetacular se fosse livre. E persa na sua excência.

               Eu jamais voltarei ao Irã? Provavelmente não. Ainda tenho em conta cerca de 30 países que adoraríamos visitar. Além de muitos que desejamos retornar. Alguns até mesmo indefinidamente. Como não tenho mais tempo de vida para realizar tais desejos, provavelmente eu jamais voltaria ao Irã.

Abbasi Hotel. Só vale hospedar-se no prédio antigo. No anexo, foi decepcionante

        Então, nada me animava mais vivamente do que estar em Esfahan. A cidade representava a possibilidade de uma redenção, um  resgate, o rompimento de minhas impressões turísticas mornas para com o país. Até então, em certos momentos, até mesmo de desapontamento. Pior, daquela sensação angustiante de falta de encantamento. Sem culpas, claro, mas não me encantar com o Irã me afligia muito, ainda que nunca eu viaje com compromisso de gostar, mesmo extremamente aberto e receptivo para tanto. Mas a ansiedade transbordava, porque Esfahan representava a última chance potencial do Irã revelar-se um pouquinho encantador como destino turístico, o que até então estivera longe de acontecer. Até então, porque  Esfahan fez comigo o que provavelmente faz com todos: agrada a gregos e baianos!

ESFAHAN - Tão bela. De dia ou de noite  _________________________________________

              Que noite perfeita aquela. Minaretes, abóbodas, arcadas, portais e colunas, vendedores de sorvete, turistas de caleches, senhoras de chador, familiares em grupo, bicicletas, namorados discretíssimos, pais e filhos. Foi como vi pela primeira vez Naqsh-e Jahan: uma beleza sem precedentes, tanto na arquitetura monumental quanto na vibração e na vida daquela praça. Havia um contraste encantador entre o céu, com resquícios de luz solar, e as luzes da praça. Havia beleza em tudo. Sobretudo nas pessoas, que tornavam ainda mais sensível uma vibração especial. O clima era magnífico, e assim Esfahan foi se revelando tão acolhedora quanto irressistível que logo estávamos seduzidos por seu encanto.

  Meidam Iman: obra prima de arquitetura e urbanismo, cartão postal de Esfahan

            Seu cartão-postal - a Iman Square -, é a maior atração da cidade. Não levei câmera naquela noite, apenas meu olhar fotográfico. Àquela altura, quinze dias de intensas atividades turístico-fotográficas, com uma câmera pesando nos ombros e uma mochila esquentando as costas, foram suficientes para que eu sentisse grande alívio ao livrar-me de ambas. Nem que fosse por algumas horas.

NAGHSH-e JAHAN - A maior preciosidade monumental de Esfahan  _________________

             A praça, assim como outras obras-primas de arquitetura persa da cidade, tem valor excepcional. Que excede as fronteires do Irã, até mesmo as do mundo islâmico. Tem um valor universal.  Saímos para "viver" a praça, o que significa passear no tempo e na hitória de Esfahan, no mesmo lugar onde europeus, turcos, indianos e chineses reuniam-se na corte persa, então centro de um vasto império que se estendia do rio Eufrates, no atual Iraque, ao rio Oxus, no Afeganistão. No século XVII, a grandeza e riqueza de Esfahan inspiraram uma rima, Isfahan nesf-e jahan, ou "Isfahan é a metade do mundo." E foi no período safávida - entre os séculos XI e XVIII - que a Pérsia destacou-se entre seus vizinhos do Oriente, da Turquia otomana à Índia mogol.

           O apelido - "metade do mundo" - corresponde apenas à metade de seus méritos. A esplêndida capital da dinastia safávida, da antiga Pérsia, era uma espécie de coração cultural do mundo islâmico, especialmente em termos de arte, arquitetura e urbanismo. Em Esfahan estão algumas das obras-primas da arquitetura iraiana islâmica. A Mesquita Sheikh Lutf Allah (ou Masjed-e Sheikh Lotf-ollāh) - na Praça Naghsh-i Jahan - é apenas uma dessas obras de importância absolutamente universal.

Sheikh Lotfallah Mosque

            Não havia muito o que visitar àquela hora, senão tomar um café expresso surpreendentemente bom e nos embrenhamos pelo bazaar, única atração visitável à noite, fora a praça em si. Talvez nada em todo o Irã conseguira evocar tanto a antiga Pérsia quanto as arcadas da praça e as abóbodas do Bazar-e Bozorg. Nos impressionamos antes com os 90 mil metros quadrados da Naghsh-e Jahan, praça que eu percebia absolutamente magnífica, não importava quantas e quais descrições eu houvesse lido.  Sim, eu sabia que estava numa das maiores praças do mundo - a segunda, na verdade -, menor apenas que a Praça da Paz Celestial, em Beijin. Mas a chinesa não tem a graça, a vibração, o astral nem a categoria arquitetônica da Naghsh-e Jahan. Sobretudo sua magia e sedução. De noite ou de dia.

              verdadeiras surpresas turísticas para além de praça, ainda que esta seja onde sentimos imensos prazeres viajantes. Sobretudo porque em quase todos os lugares parecíamos os primeiros e únicos turistas a passarem por ali. Observar a praça ao anoitecer  e observar seu seu esplendor arquitetônico, enquanto turistas iranianos passeiam de charrete em torno da praça, é uma experiência encantadora.

Praça Naqsh-e Jahan (por Eugène Flandin)

             Mas Esfahan deve ter um motivo para ser tão surpreendente, e por certo, deve ir um pouco além de sua praça. Não sei bem porquê, entretanto, além das atrações monumentais,  foram pequenas coisas que me fizeram sentir especialmente atraído pela cidade.

Azadegan Teahouse. Até não parece, mas é um café

         Como a surpreendente Azadegan Teahouse. Numa rua secundária próxima à praça Naqsh-e Jahan, o lugar é extremamente excêntrico. Ainda que mencionado com destaque no Lonely Planet, havia apenas três ou quatro iaranianos e nós dois os únicos estrangeiros entre os clientes. Ali vivemos uma entre tantas experiências marcantes e inesquecíveis. A casa é cusiosíssima, recoberta em todas as paredes e teto por uma coleção de objetos variadíssimos, de lamparinas a rádios antigos. Um verdadeiro "café-antiquário" com cara de brechó. Assim como a igreja e o bairro armênios próximos do Rio Zayandeh, foram surpresas fora do comum.

Holy Savior Cathedral - Սուրբ Ամենափրկիչ Վանք


         Edifícios a circundam inteiramente, construções lineares de dois andares com arcadas, mesquitas, madrassas, um palácio e o imenso bazar da cidade: a Mesquita do Xá (Shah Abbas, o Grande) no lado sul, o Palácio de Ali Qapu, no oeste, a Mesquita de Sheikh Lotf Allah, no lado este, e ao lado norte o Qeysarieh Portal, o grande portão do Grande Bazar de Isfahan

Nas vitrines do bazar, uma infinidade de artesanatos de ótima qualidade

            A partir de 1602, Abbas começou a reconstruir o centro da cidade. Primeiro, a grande Avenida de Chahar Bagh, depois a Meidan (praça) e os edifícios que a rodeiam: o Bazaar (em 1619), o Palácio real de Ali Qapu (em 1602), a Mesquita do Xá (em 1602), a Mesquita do Sheikh Lotfallah (em 1602), a ponte de trinta e três arcos sobre o Zilldeh Rudh, o aqueduto de Jubi para regar os jardins que enfeitam a cidade. Ele também patrocinou uma florescente escola de pintura, de tapetes para o palácio real e outros edifícios. Abbas I foi inigualável nas realizações de urbanismo, arquitetura e arte de Esfahan.  

            Abbas foi um dos xás mais enérgicos da história iraniana, mas também grande entendedor e promotor da arquitetura, literatura, pintura, caligrafia, cerâmica, têxteis, tecelagem de tapetes e arte em metais. Sua paixão pela arquitetura foi parte de um maior fascínio com o planejamento urbano, algo que espelhou-se nas suas ambiciosas atividades políticas, econômicas e sociais. 

Bazar-e Bozorg

           NA entrada do bazar há cafés repletos de apreciadores da bebida e do fumo, e nenhum turista. Então, foi um lugarencantador para nos misturarmos à gente local.

            Era o ciclo de ouro dos safávidas. No centro do deserto o tirano Shah Abbas I criou esta cidade bonita, planejada, desenhada e pensada com base nos conceitos urbanísticos da época, sob a genialidade do arquiteto da corte - Ali Akbar-i-Esfahani. Orientado por seus estudos, vocação e preceitos islâmicos, sob a direção do Xá, Isfahan tornou-se a Capital do império. Sob todos os pontos-de-vista, não importava ali quantas fotos e descrições eu tivesse visto e lido antes de conhecê-la: a cidade me surpreendeu. 

             Ajudado por mercenários britânicos, Abbas I derrotou turcos, expulsou portugueses da ilha de Ormuz e unificou a Pérsia reforçando a adesão ao shiísmo e estabelecendo o farsi como língua oficial. Na política interna dedicou-se a desenvolver a infra-estrutura econômica do reino. Construíu estradas e pontes, desenvolveu o comércio com a Índia e outras nações do oriente. Foi também o maior construtor da era safávida, deixou exemplos do seu ímpeto construtivo e urbanístico por todo o território do império, sobretudo em Esfahan, uma das mais famosas cidades planejadas do mundo antigo. A idealização e o planejamento urbanístico eram uma característica do monarca, provavelmente a mais notável.

            Em Esfahan, o Xá Abbas elevou a característica pessoal e sua competência ao plano máximo: a Praça Naqsh-e Jahan. Ainda que gigantesca nas dimensões e nos seus edifícios, especialmente os que ficam no centro de cada um dos quatro lados, mesmo assim imaginou estruturas que ainda que tão altas e volumosas aparentam ser tão delicadas e modestas.

            O desenho de implantação da praça teve orientação norte-sul. Devido a ele, tanto as mesquitas ao longo do lado sul quanto a do Sheik Lotfolah, do lado leste, tiveram que ser deslocadas perpendicularmente de tal forma que ficassem alinhadas em direção a Mecca.

            O projeto foi desafiador exatamente por este motivo: uma vez que a orientação da qibla (parede de oração virada para Meca) não se alinharia com o eixo da praça, resolveram o problema orientando seu interior na direção correta, criando todavia uma entrada, uma passagem deslocada do alinhamento e fora do eixo da mesquita. A solução não é exatamente o que se poderia chamar de “elegância”, mas é sem dúvidas a maior curiosidade da mesquita e o que lhe dá tanta personalidade.

Implantação deslocada perpendicularmente para alinhar as mesquitas em direção a Mecca

          Essa perspectiva é precisamente o que tornou o conjunto mais atraente e menos monótono, e ainda que tenha sido uma condição religiosa, a solução arquitetônica demonstra a genialidade do autor. Afortunadamente, muito pouco foi adicionado ou modificado desde então. O Shah Abbas I, mais importante imperador dos safávidas, responsável por algumas das obras mais importantes da cidade, como pontes, mesquitas e a praça, segundo historiadores, mandou fazer a praça para agradar a comerciantes, governantes e religiosos, sua tentativa política de centralizar e concentrar o poder num só lugar. Especialmente numa época em que facções militares e provinciais ameaçavam a estabilidade do império, que duraria de 1501 a 1722.  

                     Abbas era um homem de extremos e instável, cujo humor podia rapidamente ir do amor à ira. Tinha um harém com centenas de mulheres e rapazes mas seu foco era o poder. Por ele cegou seu pai, irmão e dois filhos, depois matou um terceiro filho, a quem temia como uma ameaça política. 

Foi construída em 1602, mas os prédios ao seu redor erigiram-se entre 1598 e 1629

  Masjid Shah, view of the courtyard by Pascal Coste (public domain)

                       Ao longo dos anos aquele imenso retângulo urbano no coração de Esfahan vem sendo usado para tudo, servindo como alternativa, e às vezes simultaneamente, como mercado, ponto de encontro social, local de execução pública, de eventos diversos, festivais e exercícios militares. Até para campo de partidas de polo. Shah Abbas era grande jogador do esporte. Não cheguei a vê-los, mas dizem que os postes de mármore que marcam os gols ainda estão de pé em ambos os lados da Maidan-eh Naghsh-eh Jahan.

                       Hoje são jardins, calçamento e um grande espelho d'água, não mais o chão de areia, os vendedores ambulantes e os jogadores de polo que ocupam o centro da praça, mas a vista ao redor dela permanece inalterada. Originalmente, além do que há hoje, funcionavam um caravansarai, banhos públicos, uma real casa da moeda e um hospital.

Para perder-se e comprar, não há melhor lugar

                        Naquele noite estava tomada pelo povo. Locais em sua maioria e uns raros turistas. O amplo gramado que se estende de ponta a ponta pelo centro da praça, tem um grande espelho d´água central, com fontes, limitado em todos os lados por grandes monumentos. A praça tem uma vida vribrante que eu não encontrara em nehuma outra cidade do Irã, exceto Teerã. Mas esta não tem o charme da história de Esfahan. Até então nada no Irã me parecera suntuoso. Nem brilhante arquitetônicamente. Até conhecer aquela fabulosa praça, um perfeito espaço de convivência social e turística da cidade. Todos se misturam. E convivem. Iranianos em maior número, um pouquinho de europeus, americanos e nós brasileiros. Não havia cachorros na praça, como aliás em todo o país. Só cavalos. Puxando charretes.

                        Estar na praça à noite pela primeira vez é como viver um  conto de Sherazade, e ainda que aparentemente incompatível com a vibração da praça, um quê de romantismo que segue o visitante, como a poesia de Hafez e Sa’adi segue quem visita Shiraz. Además, seus moradores parecerem mais acostumados e menos curiosos com os turistas estrangeiros do que seus compatriotas de Teerã. Demonstram sua endêmica hospitalidade e discreta simpatia, isto é, incomum é ouvir o "Hey Mister, where are you from?". Há um motivo: Esfahan é a cidade mais visitada do Irã, nacional e internacionalmente.

                       Esfahan é para se conhecer caminhando, para se perder no bazar, experimentar o convívio nas ruas, fazer pic-nic junto à ponte, admirar a praça monumental e percorrer suas mesquitas. E comprar tapetes. Mágicos tapetes. Belíssimos, variadíssimos tapetes persas. Pessoalmente, numa viagem motivam-me bem mais as construções, os monumentos, a antiguidade, a história, a geografia, os animais e a natureza. Mais até do que as pessoas. Alguns queridos leitores deste blog sabem também que especialmente a arquitetura islâmica. Nenhum lugar tomou tanto de nosso tempo em Esfahan do que a Silk Road Carpet.

                       A loja fica no Grand Bazaar (Bazar-e Bozorg), onde um dos sócios, Bessi, judeu iraniano com um inglês perfeito e sem sotaque nos deu verdadeiras aulas sobre tapetes persas. O Bazaar, além dos tapetes e tudo mais, tem lojas com o melhor e mais fino artesanato, verdadeiras obras de arte, as melhores que encontrei em todo o Irã.

GRANDE Mesquita de Esfahan - A sublime beleza, a perfeição da arte persa  ______________

                       IMAM (Shah) Mosque, ou Royal Mosque ou Masjid-i-Shah é como a chamam. Ela domina o lado sul da espetacular praça Naghsh-e Jahan. É um ponto focal, que atrai e envolve cada espectador daquela praça monumental, com sua beleza e monumentalidade, como exemplo da triunfalidade da arte islâmica expressa em todos os tons de azul-aquarela e amarelo-ouro. Seja em suntuosos, intrincados, gigantescos mosaicos cerâmicos que revestem cada centímetro dos seus quilômetros de paredes e tetos, seja nos estuques de suas abóbodas, no alinhamento de suas colunas. É possível que a tenham chamado de “real” por causa de seu patrono.

          Mas não seria errado pensar que também fizeram a praça assim para enfatizar seu tamanho e esplendor, maior e mais magnífico exemplo de arquitetura da era safávida, modelo máximo de extravagância arquitetônica e ornamental, glória monumental de Esfahan. A data de início de construção da mesquita real é incerta. Algumas fontes dão como 1590, um pouco mais cedo, no contexto do desenvolvimento urbano, iniciado em 1602. Há quem afirme que Abbas a iniciou em 1611. Ali Reza, o calígrafo responsável para as inscrições no prédio, datou a entrada principal em 1616. Embora Abbas exercesse grande pressão sobre seu arquitecto Ostad Abu al-Qasim e sua equipe de trabalhadores, a mesquita estava incompleta quando o Xá morreu em 1628, com setenta de idade. É provável que a obra ainda tenha demorado cerca de dois anos depois disso até completar-se (*).

            Foram dezoito construção, iniciada ou não em 1611, sendo que o suntuoso portal ficou pronto primeiro, provavelmente em 1615, completanto com equilíbrio a contrapartida do o Portal Qeysariyeh - do Grand Bazaar, no lado oposto. 

Com lojas que dão para a praça e para dentro do bazar, uma infinidade de motivos para se perder

        O islã teve impactos notáveis no estilo de arquitetura iraniana, aqui perfeita, incomparavelmente exemplar. Quando vejo um exemplo de arquitetura persa como o desta mesquita sou levado a refletir no que a humanidade é capaz de produzir motivada por religião. Nesta caso - a Mesquita Real, chamada hoje Imam (Shah) Mosque - uma obra-prima, nada mais. Possivelmente não há de se encontrar outro exemplar que a supere em monumentalismo e beleza. Estima-se o uso de 18 milhões de tijolos na sua construção e 472 mil telhas. Com efeito, o edifício deve ser incluído entre feitos arquitetônicos notáveis do mundo. Foram usadas sete cores no telhado e nas paredes: branco, azul, amarelo, turquesa, rosa, beringela e verde, alcançadas com o desenvolvimento extensivo das técnicas de esmaltação durante o século XVII, como a consequente melhoria de sua qualidade. 

                       Nem mesmo o psicodélico interior da pequena mesquita Nasir al-Mulk, de Shiraz, cuja formosura entretanto está no domínio da luz solar, fazendo-a penetrar por vitrais e produzindos reflexos e sombras coloridas, efeitos de iluminação notáveis. Creio que não haja nenhuma obra de edificação mais associável ao islamismo do que uma mesquita. Em tantos exemplos belíssimos arquitetônicos, estruturais, ornamentais espalhados pelo mundo. Da Tailândia à Turquia, do Egito ao Afeganistão, do Irã ao Uzbequistão, da Malásia ao Quirguistão, do Iraque ao Paquistão, do Casaquistão ao Marrocos, de Brunei ao Turcomenistão, da Síria à Jordânia. Sem parar por aqui. Perdi a conta de quantas vezes imaginei estar nesta ou naquela mesquita pela primeira vez e tê-la achado a mais bonita do mundo.

                          Não conheço todas, evidentemente. Mas conheço muitas. E como qualquer um, tenho minhas preferidas: a de Damasco (na Síria), a de Delhi (na Índia), a de Córdoba (na Andaluzia, Espanha), todas as do Uzbequistão (não só de Samarkanda, mas também de Bukhara e Khiva) e, finalmente, a de Esfahan. Não na ordem, necessariamente. Dizem que a mais bonita das mais bonitas é a Mesquita Azul de Mazar e Sarif em Balh, no Afeganistão. Olhando fotografias posso apenas equipará-la às de Samarkanda, mas nunca à de Esfahan. No estilo, todavia, são as que mais me agradam e, provavelmente, também a gregos e bahianos. Mais ou menos como Esfahan, cidade que agrada a todos indistintamente.

                  Mas aqui em Esfahan não apenas nesta mesquita a Pérsia mostrou seus méritos arquitetônicos e ornamentais. O país, e mesmo a cidade, estão cheios de exemplos carregados de arte e perfeição em bom número de mesquitas, praças, palácios que inspirando uma elegante beleza. E ainda que tenham variado em estilo em algumas regiões - especialmente na geometria dos desenhos, nos materiais e no conceito de ornamentação -, com maior freqüência usavam cores em tons de azul turqueza em espetaculares mosaicos de padrões geométricos, florais e com versos do Corão. Alguns são primorosamente revestidos em cada centímetro de suas alvenarias com mosaicos. Outros, revelam o talento de seus projetistas no desenho de suas plantas, nas colunas, abóbodas e nos tetos ornados com estuque em desenhos mais ou menos intrincados.

                   A mesquita de Esfahan é de tirar o fôlego, assim como outros e belos exemplos que vi por todo o Uzbequistão. No Irã, além de Esfahan, da Imam (Shah) Mosque - o melhor exemplo de arquitetura islâmica persa há outras notáveis, como a Sheikh Lotfollah, na mesma praça da cidade, a Nasir al-Mulk, de Shiraz, a Grande Mesquita de Yazd , a Sheikh Safi, de Ardebil, e a Goharshad, de Mashhad.

Primorosa nos mosaicos em sete tons de azul, nas belíssimas inscrições caligráficas

                       A cúpula e o portal monumental são deslocadas no alinhamento da praça, assim como seus quatro minaretes que por si bastariam para torná-la uma entre as mais bonitas que já visitei. No lado oposto à entrada principal do bazar, sua planta tem característica notável, para mim a mais interessante caracterísrtica desta fabulosa construção. O mundo muçulmano contribuiu numa ampla gama de artes com um rico patrimônio cultural da humanidade, mas em particular na arquitetura e na arte islâmica decorativa. Não sem motivo esta obra prima foi tema da fabulosa série Around the World in 80 Treasures, apresentada por Dan Cruickshank na BBC. Digna da classificação, é tão magnífica e impressionante - em todos os detalhes, dos arcos às cúpulas, dos mosaicos às colunas - quanto as de Samarkanda, no Uzbequistão.

                        Dizem que o desenho fundamental de uma mesquita - do ponto de vista da planta baixa - deriva de várias fontes, entre elas algumas até inesperadas: igrejas cristãs e salões de audiências de palácios persas. Mas parte relevante da arquitetura islâmica persa do período safávida foi influenciada pela arquitetura timúrida, do Uzbequistão, feita sob mando e supervisão de Timur. Detalhes que me trouzeram de volta encantadoras lembranças de Samarkanda enquanto visitava Esfahan, das mais lindas mesquitas que já tive o privilégio de conhecer na Ásia Central. Infelizmente esta foi um desafio fotografá-la, de certa maneira uma decepção deparar-me com seu pátio tomado por uma feiosa estrutura de um gigantesco toldo para abrigar os que comemorariam o dia da Ashura, quando xiítas auto-flagelam-se batendo em suas costas e ombros com artefatos metálicos, um ritual de luto pelo aniversário da morte do imã Hussein, neto do Profeta Muhammad.

A estrutura metálica feiosa corrompendo a paisagem

              O Palácio de Ali Qapu, cujo nome significa “sublime portal”, serviu como porta de entrada para um complexo de jardins reais que se estendiam ao longo da Avenida de Chahar Bagh, atrás da praça. Sobre o terraço a corte olhava para a praça e seus jardins, assistia aos eventos, mirava a Mesquita Imperial (agora Mesquita Imam), a Mesquita do Sheikh Lotfollah e o Grande Bazar. O interior é coberto com pinturas atribuídas a Reza Abbassi, pintor oficial da corte de Abbas. Ele e seus alunos criaram cenas naturalistas que incluíam representações de formas humanas e de animais, motivos proscritos na arte islâmica, todavia comumente presentes no período safávida, que tinha tradição na pintura em miniatura.

  Palácio de Ali Qapu

             Contemporâneo deste edifício, ao qual se assemelha, o pavilhão Chehel Soutoun, um prédio construído para entreter delegações, para recepções, festas, recepções e eventos da corte.  Chehel Soutoun é uma das belezas da era safávida de Esfahan. Seu nome significa “quarenta pilares”, porque suas 20 colunas longas de madeira refletem-se na água do lago adiante, dando a ilusão de que são 40. É uma atração importante, ainda que não muito visitada como a praça. 

Palácio Chehel Soutoun (por Eugène Flandin, acima, e por mim, abaixo)

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 NOTAS:

 (*) O livro “Travel Guide to Esfahan, Kashan and More”, publicado no Irã em 2003 pela Rowzaneh Publications de Teherã, edição de 2007 (ISBN 964-334-171-2), com texto e layout de Oksama Beheshti e fotografias de S.A. Hamid Beheshti, conta que o Xá Abbas, presentindo o fim de sua vida aproximar-se, ordenou insistentemente a aceleração dos trabalhos de construção da mesquita. É uma dessas histórias que a gente não sabe se são histórias, estórias ou lendas. Então, Abbas teria ordenado ao arquiteto da corte, Ali Akbar-i-Esfahani, que algumas paredes fossem erigidas antes mesmo da conclusão de suas fundações (!!).

Muito provavelmente é um exagero. Coisa de “quem conta um conto e aumenta um ponto”, porque levantar uma parede antes de suas fundações soa tão ingenuamente elementar quanto incompatível com a inteligência e personalidade do xá. Mesmo que ele fosse quase analfabeto. Todavia, decididamente, o xá não era tolo, e dificilmente um homem com sua visão urbanística e arquitetônica ordenaria tal absurdo. De toda forma, a lenda diz que o arquiteto da corte, Ali Akbar-i-Esfahani, contrariado com a impossibilidade de executar a absurda ordem, e evitando a conhecida ira do tirano, escondeu-se por um lomngo tempo. E quando julgou haver passado tempo suficiente para provar a impossibilidade de executar a ordem do xá, reapareceu e obteve o perdão real (!!).

O homem a quem se atribui a ordem desproposital derrotou turcos, expulsou portugueses da ilha de Ormuz e unificou a Pérsia reforçando a adesão ao shiísmo e estabelecendo o farsi como língua oficial. Na política interna dedicou-se a desenvolver a infra-estrutura econômica do reino. Construíu estradas e pontes, desenvolveu o comércio com a Índia e outras nações do oriente. Foi também o maior construtor da era safávida, deixou exemplos do seu ímpeto construtivo e urbanístico por todo o território do império, sobretudo em Esfahan, uma das mais famosas cidades planejadas do mundo antigo. A idealização e o planejamento urbanístico eram uma característica do monarca, provavelmente a mais notável. Um grande entendedor e promotor da arquitetura, literatura, pintura, caligrafia, cerâmica, têxteis, tecelagem de tapetes e arte em metais, todavia tinha na arquitetura sua paixão maioor, e no planejamento urbano um fascínio. 

 Segundo o arquiteto e arqueólogo francês André Godard a cidade de Esfahan "é acima de tudo um plano urbano com linhas, massas e perspectivas arrebatadoras, um magnífico conceito nascido meio século antes de Versalhes." Para mim, então, é difícil acreditar que um homem que imaginasse tal obra mandasse subir uma parede sem fundações. De todo modo - realidade ou invenção romântica -, a decoração e a ornamentação do interior da mesquita continuaram por algum tempo depois da morte do xá. E mesmo bem depois, em 1630 e 1666, foram dados alguns toques ornamentais.

 (*) Abbasi Hotel -  Aqui não tem jabá,  o que escrevo não tem filtros. Oconteúdo dste blog é um reflexo do que vejo, sou e penso. Não sou blogueiro que escreve por comissão, nem para pagar fam trips ou receber agrados, mimos, presentes e afins. Não faço viagens que não sejam de nossa escolha. Os produtos e serviços aqui mencionados não têm o conhecimento dos mesmos, não são recompensados de qualquer forma - anterior ou posteriormente à publicação - e se o fiz foi por liberalidade, com o intuito de informar o leitor. A hospedagem no Abbasi Hotel foi paga por mim, assim como todas as despesas da viagem. Portanto, não viajamos a convite do hotel. Minhas opiniões são independentes, assim como as escolhas, elogios, críticas, menções e relatos. Não há qualquer compromisso, a não ser com a informação, com a motivação e a inspiração do leitor. Cada link ou produto citado é posto com a suposição de que o leitor saiba identificar e perceber os objetivos do blog, que as verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador doserviço em questão.

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(*) Silk Road Carpet

 

Reader Comments (3)

Olhando essas fotos eu compreendo perfeitamente o sentimento de pequenez e admiração, ao mesmo tempo, deve sentir-se na frente de uma obra arquitetônica que excede imaginado pelo homem.

Em geral, o barroco é uma arte incompreendida. Eu amo a arte barroca europeia, latino-americana com os edifícios e igrejas que estão em Quito, Cuzco, Arequipa e Potosí e este outro oriental. Uma descoberta fascinante.

Gostei das fotos, mais sobre toudo dessas mais cotidianas.

12:43 | Unregistered CommenterCarmen

Obrigado, Carmen, pela visita e comentário.

Como sempre, você nos brinda com uma maravilhosa crônica de viagem. E as fotos; que fotos! Parabéns! Muito obrigada por dividir com seus leitores as impressões de mais esta aventura.

18:17 | Unregistered Commentervera

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