CONHEÇA O AUTOR

          

         Depois de estabelecer-se na Internet desde 1999 escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema e, depois, em 2006, ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - foi convidado a colaborar com matérias suas publicadas na Revista Viagem & Turismo (Editora Abril). Agora, Arnaldo prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando na literatura com um livro encantador que, segundo o autor, é o primeiro de uma série.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui neste blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de uma conversa com o leitor, baseada na informalidade, no livro misturo traços desta coloquialidade e informalidade com uma escrita literária, sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que - de certa forma e por outro lado- é outra maneira de me expressar sobre minhas viagens, transmitindo sem fantasias o mundo que vejo - como ele é, não como o imaginava -, ainda que a leitura revele expectativas muitas vezes não confirmadas sobre o destino. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, ‘Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro’.  A partir deste primeiro livro, considero esta uma nova fase na minha vida."

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo Trindade Affonso é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti 2013 na categoria Reportagens

Ronize Aline:

            "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária e crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista passou pelas redações das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

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Quarta-feira
Nov042015

Indein, o povoado perdido do Lago Inle, Myanmar

Monges artesanais de Indein Village

                 COMECEI a viajar com meus pais, igual a todo mundo, afinal.  Não éramos pobres, mas a família - pai, mãe e três filhos homens - tinha orçamento limitado que continha nossas viagens restritas a humildes escapadas. E dentro dum círculo geográfico modesto e também reduzido. O que significava ir para lugares onde pudéssemos chegar de carro, de trem ou ônibus. Preferencialmente para a casa de parentes. Destas viagens infantis jamais esquecerei das férias que passávamos na fazenda centenária da Tia Manú, em Bicas, Minas Gerais. Nem das que gastávamos no pequeno apartamento de lazer que nos emprestava a saudosa Tia Zuleika, em Teresópolis, Rio de Janeiro. Como era comum na época, passávamos os três meses das férias escolares nesses lugares. Eu amadureci e comigo o desejo de viajar.

Nyaung Ohak, o primeiro complexo

                  AOS 20 anos fiz minha primeira viagem independente. Com barraca, mochila e acampando. Ia para onde meu orçamento apertado dava conta. Mas que eu mesmo escolhia. Não tinha carro. Então era de ônibus ou de carona com amigos ou primos. Lá pelo meio da da década de 70, e do mesmo jeito, conheci boa parte do Brasil: viajando acampando como sócio do Camping Club do Brasil, até o comecinho dos anos 80. Eu trabalhava, mas o dinheiro era curto. Então só viajei pela primeira vez de Varig e dormindo em hotéis ao 27 anos. Pagando em prestações. Guardo até hoje meu carnê de pagamentos de 12 parcelas, orgulhosamente pagas em dia, das primeiras passagens aéreas para a Bahia, via Varig, Varig, Varig.

Povoado de Indein - Lago Inle, Myanmar

                 FOI só aos 35 que pude pegar um avião para o exterior. Hoje, aos 63, lembro de tudo com imensa saudade e carinho. Agradecido por ter pais que nos incutiram o gosto pelas viagens e também imensamente orgulhoso e reconhecido pelo privilégio de ter viajado a 60 países. Ainda que eu tenha estudado e lido razoavelmente, não conhecia nada do mundo. Até bem pouco tempo tinha que procurar com calma no mapa mundi onde ficavam a Ásia Central, a Birmânia e o antigo Ceilão. Entretanto, a cada nova viagem eu me tornava certo de que há coisas maravilhosas não materiais que o dinheiro pode comprar. Entre as primeiras, as viagens. Enriquecido pelas lições de vida que elas me proporcionaram, percebo que algumas estão marcadas para toda a vida. E creio  que outras provavelmente serão eternamente imperceptíveis, mas estão ali na mente. Comecei a perceber que viagens tornaram-se valores para mim. Jamais vício de que não consigo desvencilhar-me. Nunca viajei, nem espero fazê-lo, por vício, senão por gosto e iniciativa, escolha e decisão.

A serena vida no lago Inle

                 JÁ deixe de ir a países por medo. E me arrependi. Pensei bom tempo assim pensando em Myanmar. Afinal, governos, regimes políticos ditatoriais, revoluções, conflitos e guerras costumam tirar do cenário turístico alguns países. Mali e Síria um dos exemplos mais recentes. Mas a vida, muda. Assim como governos, regimes e países. Myanmar foi assim, mudanças radicais tiraram e recolocaram o país do mercado turístico. Para tirar, bastou que uma eleição democrática em que a oposição venceu com boa vantagem um governo militar para que este a rejeitasse. E instaurasse um regime ditatorial repressivo que durou tenebrosas duas décadas. O período manteve o país encerrado por um muro ideológico, político e ditatorial. Para recolocá-lo depois de tantos anos e Myanmar voltar a abrir-se para o mundo, libertando-se povo, oposicionistas e religiosos, uma gente oprimida sob um terrível mando,  bastou o Presidente Obama visitar o país e pôr fim às sanções ocidentais à Birmânia - ou Myanmar. Tornou-se imediatamente um ímã para os turistas. As mídias internacionais apontaram seus holofotes e câmeras para cobrir a tal abertura e revelaram um tesouro. Um belíssimo, curioso e atraente tesouro escondido.  

                  HÁ lugares maravilhosos e inesquecíveis para se visitar em Myanmar, especialmente Bagan, Mandalay e Lago Inle, onde ainda quase não há interferência ocidental num país intocado pela globalização. Deliciosamente parado no tempo, extremamente seguro e com a melhor comida do sudeste asiático! Mas até quando lugares perdidos, como a Aldeia de Indein, escondida num canto do Lago Inle, permanecerá assim?

                 NÃO se poderia então esperar por outro evento senão esta joia turística rara do sudeste asiático surgir e ser desejava com toda a avidez mundial por destinos exóticos e desconhecidos. Visitar Myanmar tornou-se um "chamado". E o país um destino cobiçado, por descobrir, uma necessidade, um desejo, a meta para muitos viajantes. Entre eles, nós.

  Sem luxo, simples e ainda intocável vida sobre as águas do Lago Inle

                   AFINAL, é um país extraordinário, destino turístico simples, sem pompa ou protocolos, sem luxo ou riquezaas, a não ser as que se adquirem em viagens: experiências e recordações. Também, se possível, artesanato, que em Myanmar é fabuloso. Mas ainda não há lojas famosas, jovens usando Abercrombie, Mc Donalds, poluição, Haagen-Dazs ou Starbucks.

Povoado de Indein - Lago Inle, Myanmar

                  COM toda sua rica herança cultural, história longa e importante, qualquer viagem fundamentada nestes interesses é enormemente recompensada. Assim, tão logo o país ficou viável a qualquer viajante, começou a ser invadido por turistas, nós entre estes. Logo consagrou-se na a "bola da vez" do turismo mundial. Não sem motivos, porque em verdade há muito o que se ver, viver, experimentar, descobrir e comer. Além de tudo, governo e povo são extremamente receptivos, simpáticos aos visitantes. Tem-se então, uma vez em Myanmar, umas das mais raras sensações que o turismo pode nos proporcionar: as surpresas das descobertas.  

Povoado de Indein - Lago Inle, Myanmar

                  EM verdade, quando fomos, em fevereiro de 2013, nem todo o país já era bastante acessível. Mas ainda havia lugares fechados a estrangeiros devido a conflitos étnicos violentos. Alguns àquela altura foram resolvidos, então visitamos até bem pouco antes  aldeias proibidas, como as das colinas de Kyaing Tong.  

                NAYPYIDAW, outro exemplo, a despeito de não se ruma atração turpistica, pois é a nova capital completamente desinteressante se comparada a Yangon, equivalente ao estilo brasiliense, também estava fechada à visitação. Entre estas, lamentamos a não visita a Mrauk U, cidade abandonada e com milhares de templos e pagodas, devido à insegurança decorrente de conflitos semelhantes. De todo, e do melhor modo, Myanmar é uma janela nova aberta ao turismo internacional. Por onde o mundo tem olhado e desejado com sua traducional, insaciável e obstinada sede de novidades. O que eu mais gostei foi que ter visto o país ainda gloriosamente preservado, não pervertido pelo turismo de massa. No Lago Inle, por exemplo, presenciei um jeito de viver em toda sua serenidade, admirei a paisagem e tudo mais como o fazem seus moradores.  

Povoado de Indein - Lago Inle, Myanmar

                    MYANMAR tem lugares novos e ótimas possibilidade de viverem-se experiências notáveis e marcantes na vida. Entre eles a Aldeia de Indein. Perdida no tempo e numa ponta do belíssimo Lago Inle, há ruínas misteriosas de templos, florestas de stupas que brotam entre as árvores como se elas também fossem parte natural. Se não inacreditáveis, são surpreendentes mesmo para quem viaja bastante para destinos incomuns. Nosso mundo, cada dia mais plano, não me faz incorrer em exagero. Para além de novidade turística, o destino é um misto do que de um país pode esperar de melhor turisticamente: paisagens naturais, obras milenares construídas pelo homem,  gente encantadora, cultura deliciosamente atraente, exotismos a transbordar e uma comida deliciosa. E chances memoráveis de terem-se momentos felizes e agradáveis durante a estada.

Navegando para o passado

UMA viagem dentro de outra

                 JÁ escrevi antes sobre o Lago Inle. Superficialmente, ainda que chocado (e entusiasmado!) com o fabuloso contraste entre a decadência urbana de Yangon e a serena beleza do lago, e mencionando especialmente suas aldeias flutuantes e a vida sobre as águas, o jeito tão distinto de qualquer outro meio de vida e moradia que eu já tenha conhecido no mundo. Dezenas de milhares de habitantes fazem do lago suas moradias e dele retiram seu sustento. Sobre as águas constroem casas e, pasme, fazendas flutuantes rebocáveis! Em “INLE LAKE, Mianmar - A serena beleza de um lago”, aqui no F&F, mencionei as mini cidades por onde se chegam apenas de barco e se trafegam apenas pela água. Ou a pé, no que bóia ou na terra firme, as margens do lago. Por agora vou contar sobre uma porção do lago ainda mais remota, a Vila de Indein.

 As águas calmas e rasas dos canais navegáveis

 NAVEGANDO para o passado, à Vila Indein

                ACESSÍVEL ao mundo real apenas de barco que navega por uma rede de canais estreitos com oito quilômetros de extensão, um mundo por vezes aparentemente surreal, o caminho até o povoado de In Dein, mais comumente escrito na forma Indein, ocasionalmente referida também como Shan Bagan, por si é uma viagem dentro de outra. Parada no tempo do crescimento, a cada quilômetro vencido nos canais deixávamos atrás os domínios do conhecido. Até mesmo do que possa se imaginar. Usando um longyi e camisa de linho shan, roupas que provavelmnente jamais usarei de novo, extremamente confortável, entrávamos num raro lugar do mundo até bem pouco fechado e ainda tão pouco explorado. Desses que ainda conseguem impactar até os mais experientes viajantes. E possivelmente como a cada dia tornam-se mais raros no mundo. Por isso uma joia preciosa e rara não só no mundo, mas no país.

Mesmo naqueles barcos...

                MESMO naqueles barcos não me lembro de ter experimentado tanta serenidade e paz num só lugar. E ao mesmo tempo, me emocionado com tal marca com o que via. Mesmo a despeito de Bagan e do nosso espetacular voo de balão sobre seus mil templos.

                NO trajeto observamos uma vida rural simples e aparentemente inalterada há séculos. Não há como escapar. E até acaba-se gostando do único meio de transporte para exploração de todo o lago: trafegar pelos caminhos aquáticos em barcos longtail, barulhentos e rapidíssimos, canoas impulsionadas com muita força por motores de popa pesados e potentes. E infernalmente barulhentos. Como um motor de um velho turbo hélice da 2ª Guerra Mundial. Mas sempre conduzidos com maestria por pilotos que trafegam respeitando regras, ora nos largos, ora nos estreitos canais deste impressionante lago.

  

                 A partir deste privilegiado ponto de observação, um camarote dentro do rio, às suas margens observávamos uma vida se desenrolando sem tomar conhecimento ou importar-se conosco. Totalmente alheia a nós, seguimos por curiosos caminhos navegáveis, passando por baixo de pontes de madeira engenhosas e típicas do lago, observando a tudo com respeitosa admiração. Nada me parecia mais apropriado e agradável para um observador que não quer interferir, como expectador de um filme. Não estivesse eu navegando naquela infernalmente barulhenta canoa pelo Lago Inle, pensaria mesmo ser apenas expectador de um bem filmado documentário.  

                  VIA aquilo tudo e me perguntava quantos lugares no mundo ainda haveria como aquele? E se os há em boa conta, quantos acessíveis e seguros? Eu via casas passando, plantações e templos, pontes engenhosas de madeira, represas de bambu, vegetação boiando na superfície seguindo o curso das águas, homens retirando do fundo do lago e dos canais a terra necessária às suas plantações flutuantes, povos que vivem nas redondezas e nas montanhas transportando varas de bambu amarradas como canoas, e de pé sobre elas navegando as águas não tão tranquilas, uma das coisas mais curiosas que vi no Lago Inle. E presenciava cenas incríveis de búfalos, homens, mulheres e crianças banhando-se nas águas ou lavando roupas.

                  QUEM assistiu a Apocalypse Now provavelmente se lembrará do ambiente ao navegar pelos canais estreitos. Mas logo perderá a lembrança ao chegar ao porto da vila e avistar a quantidade de barcos turísticos e as bancas de souvenirs. Mas não importa. O melhor está por vir.

                LOGO que chegamos ao destino, uma baía bem mais aberta que os canais, e aportamos num precário cais de madeira do vilarejo, onde chegam os que veem dos hotéis, os que veem das montanhas e os que o fazem das margens do lago - turistas, moradores e trabalhadores -  voltamos ao nosso tempo e percebemos que o turismo já transforma o lugar. O caminho em terra, através de um improvisado, colorido mercado de bancas de venda de produtos turísticos, onde nativos das aldeias vizinhas vendem produtos artesanais e caseiros - de marionetes a peixes e tofu, de cerveja birmanesa a pratos rápidos da espetacular comida birmanesa -  achamos um convite, mas o deixamos para a volta, um café ou uma cerveja.

O turismo já chegou também ao remoto, quase perdido povoado de

                    EM cinco pontos do Lago Inle, uma vez por semana, pela manhã, há um mercado tradicional  chamado "Five day Market". Visitar ao menos um deles é uma atração, uma das experiências mais notáveis que se pode ter. Estes mercados têm o nome “mercados cinco dias” porque as tribos locais giram entre cinco diferentes pontos em torno do lago pelo período de cinco dias da semada. Naquele dia de nossa visita à Aldeia de Indein, os nativos - predominantemente da etnia Pa’O - vendiam e compravam produtos e artesanato. Vimos laca, estátuas de Buda, marionetes, roupas entre outros. E alimentos, verduras, legumes e frutas, além de comida preparada na hora. É fascinante apreciar as diversas tribos com roupas típicas e coloridas, e viver a atmosfera absolutamente original e exótica dos mercados.  

O povo da etnia Pa’O é predominante no lago Inle

                   OS Pa’O representam a sétima minoria étinica mais numerosa de Myanmar e entre eles são chamados de Taungthu, que na sua lingua significa “povo da montanha”. É um povo bonito e curioso, além de extremamente simpático e receptivo. Segundo o Wikipedia, os Pa’O estabeleceram-se na região em Myanmar por volta de 1000 A.C. Historicamente usavam roupas coloridas, até que o rei Anawratha derrotou o rei Mon, e os Pa’O foram escravizados e forçados a usar roupas pretas ou escuras para definir seu status na sociedade, motivo porque foram chamados de “Black Karen” pelos colonizadores britânicos por causa de suas roupas escuras.

 

                     ACREDITA-SE que sejam povo de linhagem tibeto-birmanesa e compartilhe a língua e a cultura do povo Karen. Compõem dois grupos distintos: os Pa'O que vive nas partes baixas e próximas ao lago, e os baseados nas encostas das montanhas próximas.

Os “Black Karen”, como chamavam os colonizadores britânicos ao povo Pa'O

ENTRE stupas em ruínas e sorrisos abertos

                   SEGUIMOS caminho por um chão de terra crua e chegamos a um belíssimo conjunto de centenas de pagodas e stupas em ruínas. E por que tantas stupas? Ao construí-las, ou doando dinheiro para que alguém o fizesse, recebia-se um mérito: a remissão dos pecados. O primeiro conjunto de stupas, Nyaung Ohak, o mais próximo da Aldeia de Indein, cujo nome traduz-se como "grupo de figueiras".

Nyaung Ohak, o primeiro complexo 

                  A maioria dos pagodas não foi restaurada, o que as torna ainda mais misteriosas, sobretudo devido à vegetação que crescem sobre elas. Muitos estão em completa ruína, poucos em bom estado e alguns em reparação. Decorados com esculturas de seres celestiais e de animais mitológicos - como serpentes Naga e Chinthes. Poucos ainda abrigam imagens originais de Buda. No caminho encontrávamos gente do das etnias locais, especialmente Pa’O a segunda maior do Estado de Shan State. Discretos, mas sempre que cruzavam conosco nos davam sorrisos abertos.

Nyaung Ohak, o primeiro conjunto de stupas, próximo da Aldeia de Indein

                 DE Nyaung Ohak continuamos subindo até o segundo grupo de pagodas - Shwe Inn Thein - no topo de uma colina, por onde se chega cruzando uma passarela de 700 metros, coberta e  suportada por colunas até os pagodas. A passarela é repleta de barracas que vendem artesanato, roupas - longyis e camisas de linho usados pela etinia Shan. O conjunto de pagodas é atribuído aos tempos do imperador indiano Asoka, que enviou monges ao lugar no século III A.C. por toda a Ásia para difundir o budismo. Séculos mais tarde, dois reis do Império de Bagan - Narapatisithu e Anawrahta - construíram outras pagodas no mesmo local. A maioria deles é do século 17 e 18, o mais antigo deles do século XIV.

                  ALGUMAS pagodas e stupas estão em ruínas, no seu estado original de abandono há séculos. Outras em reforma, assim como umas já totalmente renovadas. Todas entre a vegetação que creio ser natural. Chegamos entre essa floresta de stupas ao Shwe Inn Thein Paya, onde estão os mais curiosos e antigos tesouros culturais, arquitetônicos e religiosos do lugar. Algumas pagodas em torno do templo foram ou estão sendo restaurados por doações particulares de birmaneses e estrangeiros, já com seus hti - o elemento ornamental superior em forma de guarda-chuva revestidos de ouro. Mas há ainda bom número de stupas em estado ruinoso também neste lugar. 

            NO Santuário de Shwe Inn Thein há uma imagem de Buda cuja construção é creditado ao rei Ashoka. Do topo da colina os visitantes têm excelentes vistas sobre a aldeia de Indein.

  Shwe Inn Thein


               MAIS cedo do que gostaríamos deixamos a aldeia, de volta ao nosso hotel sobre as águas, num barco. Eu deixava pra trás um dos melhores sabores de Myanmar. E sempre impressionado com os sorrisos que nos davam, os tantos mingalabas - a saudação local – que nos davam gratuitamente ao cruzarem conosco. Para além e um reconhecido privilégio, foi um imenso prazer ter estado ali e conhecido sua gente e costumes. Saí com a sensação de que se há efetivamente muitas coisas boas que se podem comprar com dinheiro, entre as primeiras estão viagens como estas. E Myanmar tornou-se um dos países mais marcantes entre os 60 que já estive.


___________________________________

Notas

Encontrar e conhecer pessoas em Myanmar é tão recompensador quanto tudo mais que turisticamente se possa fazer no país. O que mais se destacou em todo tempo que passamos em Myanmar foi o incrivelmente receptivo, sorridente, simpático e acolhedor povo. Depois dos uzbeques, foi o povo mais gentil e generoso que conheci em minhas viagens pelo mundo. Mas saí preocupado do país, porque provavelmente o país seguirá o mesmo padrão de desenvolvimento do turismo de massa como seus vizinhos Tailândia e Camboja. Em breve, lugares turísticos passarão a ter a mesma agitação, o mesmo cinismo com que se oferecem verdadeiras roubadas embrulhadas em embalagens turísticas, a mesma descaracterização do que é original, a mesma falsificação que perverte um lugar, seja pela absorção da cultura e de costumes ocidentais, seja por transformar-se exclusivamente num lugar turístico. Como Damnoen Saduack, em Bangkok. Tal qual na Tailândia, saí preocupado com o enorme potencial de desenvolvimento do turismo sexual e da exploração de mulheres jovens por estrangeiros que fazem sexo pagando com dinheiro, o que infelizmente falta para boa parcela da população. Myanmar está à beira de uma mudança marcante. Viajantes chegam cada vez em maior número, ansiosos para conferir as tão propaladas razões para visitar o país antes que grandes operadoras turísticas, grupos de viajantes em massa, Starbucks e McDonalds entrem e provoquem o que todos esperam: o desenvolvimento do país. Então, antes que uma viagem ao país deixe de ser uma refrescante experiência no universo turístico, vá logo, se pensa ir. Se você pretende conhecer pessoas de coração limpo e puro, lugares autênticos, vá logo, antes que seja tarde demais. Especialmente a Inle Lake, que logo será uma atração tão magnífica e visitada quanto Bagan. Turismo em Myanmar ainda é sem pompa e protocolo. Ainda.

A cerveja deixamos pro final...

Reader Comments (1)

Quando leio seus textos apaixonados sobre os destinos que têm sido, eu percebo o quão feliz você está viajando. Contempladas as imagens podem me fazer uma idéia do que a vida é diferente dependendo de onde você nasceu. Issa exuberante selva cheia de diferentes verdes. A tranquilidade que respira... a atmosfera desses lugares. Eu não sei nem conosco a vida cotidiana dessas pessoas, mas estão mais próximos da mais pura natureza que nós, no nosso confortável sofá.

A última fotografia, arco-íris de cor, rebosa vida feliz por todos os lados. A sua saúde, eu brindou com uma outra cerveja gelada (chinchín) a milhares de quilômetros de vocês.

Meu marido e eu viajar também nos fazem muito feliz, ensina-nos a olhar, algo que esqueceu-nos de fazer com a rotina diária. A viagem pode ser simple e barato ou mais elaborado e caro, mas sempre viajar educa.
Bjs

17:34 | Unregistered CommenterCarmen

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