CONHEÇA O AUTOR

 

         Depois de estabelecer-se na Internet - em 1999 - escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo, da Editora Abril e, agora, prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando, assim, na literatura de viagens com um livro encantador, segundo o autor, o primeiro de uma série de pelo menos quatro que já planeja produzir, dois deles em plena fase.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de apenas uma "conversa" com o leitor, baseada na informalidade, o livro mistura traços desta coloquialidade e informalidade com os de uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida. 

              Minha ascensão na escrita de viagens com este trabalho literário não é exatamente uma novidade. Ainda que recentemente eu tenha notado a mente lampejar com a ideia: tornar-me um escritor de viagens. Todavia, ela sempre me rondou. Mesmo que a alguma distância. Não foram poucos os amigos, parentes e leitores do blog que há mais de dez anos recorrem à pergunta: “Por que não escrever um livro?”

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti na categoria Reportagens

Ronize Aline:

             "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária, crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

 


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Quarta-feira
Fev112015

MOSCOU – Visita à velha senhora

INTRODUÇÃO – Do abstrato ao consistente, a viagem que tinha que ser  ______________

Catedral ortodoxa russa de São Basílio, Moscou. Tão colorida que lembra uma tela de Kandinsky

                 DE Atlântida a Shanadu, de sítios arqueológicos a comunidades primitivas, todos já devem ter sonhado com lugares mágicos. Tive os meus, e nunca esqueci deles. Ainda que vá longe o tempo em que resolveram me grudar na memória. Eu era garoto, razão de serem tão misteriosos, fossem verdadeiros ou imaginários. Eu os “conhecia” de muitas maneiras: livros, filmes, revistas, moedas, músicas e selos. Sobretudo pela a profusão de viagens de um tio querido. Moscou foi um destes. Imaginem! A União Soviética, há 50 anos! Um fruto proibido, fechada, misteriosa, inacessível, recheada de cidades das mais bonitas, tudo o que fazia dela um destino atraente, curioso e extremamente desejável.

              Meus pais gostavam de viajar. A partir dos oito anos viajávamos muito. Para Minas Gerais, sobretudo. Claro que eu ainda não pensava em conhecer o mundo, mas fazia lá minhas viagens cerebrais através dele. Concretamente, todavia, não chegava muito além dos duzentos quilômetros que separavam o Rio de Janeiro da fazenda da Tia Manu, em Bicas. Apesar de destino simples, eram viagens nada simplórias. E me puseram as primeiras sementes do gosto por viajar. Mal ou bem foi assim minha iniciação no mundo das viagens, o que me faz ter muito carinho por essas memórias.

               À parte as questões práticas (minha completa impossibilidade de viajar àquela altura da vida para lugares tão remotos), eu viajava nessas viagens cerebrais. Um estudioso do tema avaliaria o comportamento como um "fuga do plano concreto". E possívelmente me definiria como um "garoto estranho". Vá lá que eu "viajava" demais, mas convenhamos, é fácil definir superficialmente o valor simbólico de uma viagem para uma pessoa, o que elas podem representar, das mais amplas e variadas maneiras. Há tantos motivos pessoais sobre o que nos leva a viajar - do esotérico ao psicológico, das descobertas ao simples prazer de conhecer lugares distintos, do espiritual ao simplemente vocacional, por aventura, procura ou auto-conhecimento - que apenas um tratado daria conta de explicar.

              Sociólogos do turismo e psicólogos dariam melhor conta disso. Carl Jung, por exemplo, referiu-se ao simbolismo das viagens como “uma insatisfação que leva à busca e à descoberta de novos horizontes”. Insatisfação? Inquietude viajante? Jamais me senti assim. Hoje, era do turismo de massa, do mundo plano e reduzido, definições tais soam desconectadas da realidade, ultrapassadas, até mesmo para crianças, que ainda bebês aventuram-se pelo mundo como jamais poderíamos supor há 50 anos.

              Mas para um moleque daqueles tempos, viajar para a União Soviética era um devaneio, ainda que legítimo o desejo. O que me faz avaliar que mesmo os psicólogos erram, simplesmente porque suas definições não resistem ao tempo. A complexidade humana e seu comportamento são bem maiores do que as barreiras dos costumes de qualquer época. Como viajante, identifico-me mais com o que disse o poeta Baudelaire do que Carl Jung: “Viajantes partem por partir”. Simples, não?        

O tempo passa, e felizmente para alguns não deixa marcas

               Àquela altura, todavia, tudo não passava de sonho. Sonho de uma noite adolescente. Tudo remoto demais para um garoto. Entretanto, mesmo sabendo que sonhos não correspondem à realidade, de Moscou a Istambul - meus lugares então abstratos - acendiam a deliciosa descoberta: havia um mundo consistente, por vezes exótico, mas sempre grande e curioso, e bastante maior do que os dos meus sonhos, mais ainda do que eu via pela janela.

Praça Vermelha, a Catedral de São Basílio o Kremilin e o GUM

              Tanta vida já passou, fiquei adulto, comecei a viajar, vieram as rugas (poucas ainda) e no meu mapa já alfinetei 60 países e todos os Estados litorâneos brasileiros - do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte -, além de Minas Gerais.

                Assim como outros lugares de sonho, Moscou tornou-se uma "viagem que tinha que ser". E se já não preciso de muita inspiração, se viajar é um querer natural, há algo especial quando é para lugares de sonho. É como juntar as pontas, da infância com as de adulto, para tornar o abstrato em concreto, para então percebermos que não sonhamos em vão. Por bem o tempo não apagou os meu. Foi bom. Foi muito bom viver mais uma vez o encontro com algo tão desejado - Moscou e St. Petersburg - uma viagem que começo a contar.

  Primavera em Moscou. Os Jardins de Alexandre e os muros do Kremlin

                   Inverno ou Verão? Primavera! É quando os dias são limpos, claros, ensolarados, frescos, extremamente agradáveis. Moscou ou St. Petersburg? Ambas! Indiscutivelmente. Talvez nunca duas cidades tão grandiosas e diferentes de um mesmo país completem-se com tamanha harmonia.

 

Moscou ou St. Petersburg? Ambas! Indiscutivelmente

 MOSCOU   _______________________________________________________________________

                 A velha senhora está incrivelmente preservada. Não sei se mudou tanto nos traços fisionômicos, apesar da idade. Na personalidade sim, em quase nada lembra o cinzentismo soviético, os arranha-céus stalinistas, os desfiles comunistas no palco do poder russo - a Praça Vermelha -  símbolos da União Soviética dissolvidos no ar da história em 1991. Muito menos aquela elegante senhora nos faz recordar da Revolução Russa, que deixou-a completamente sem recursos. Mas a história de Moscou - de Pedro, o Grande, a Lenin e Stalin - dá à cidade a imagem grandiosa que ostenta orgulhosa. A altivez é notável. Mas elegante, ligeiramente indiscreta, nada arrogante. 

                        É uma fusão de esplendor - das igrejas, edifícios neo-clássicos e construções da cidade velha - e feiúra, evidente nos pesados arranha-céus da era stalinista. As ruas, cinzentas e tristes dos tempos comunistas, agora são livres, vibrantes. Nas ruas notamos os contrastes entre o passado e presente. Do modo como se vestem aos carros que dirigem.

De Pedro, o Grande, a Lenin e Stalin - a velha senhora guarda seus traços

                Para muitos Moscou, a Praça Vermelha e o Kremlin ainda estão carregados de simbolismos soviéticos. Para mim não passaram de traços de sua história. O capitalismo já não é ameaçado pelo comunismo nem vigoram as idéias de Karl Marx. Visitar Moscou é viver essa experiência interessante a dualidade entre história e presente: de um lado o imenso peso do passado, de outro a força de uma cidade moderna e pulsante, algo inovadora, que mostra um desejo explícito de integrar-se ao mundo ocidental. Sobretudo o mundo livre e aberto. 

Troca da Guarda

                 Moscou tem apenas amostras do que foi a União Soviética, até mesmo na Praça Vermelha, na Catedral de São Basílio, no Kremlin e no Túmulo de Lênim. Não a achei acinzentada como nos tempos soviéticos, senao colorida e relativamente verde. Para além da Praça Vermelha (que não tem o nome por causa das cores do Kremlin nem do Museu de História da Rússia), é cidade de cores em tons pastel nos bairros charmosos, nas praças e parques, na vida cotidiana. 

Príncipe Dmitriy e Kuzma Minin

                 OS contrastes são evidentes entre os tempos ante e o pós-comunismo: as igrejas cristãs ortodoxas, então proibidas e fechadas, foram restauradas. Novos hotéis, verddeiros templos do luxo, contrastam com prédios de antigas repartições públicas. Perto da Praça Vermelha, do Kremlin e da Catedral de São Basílio, das duas estátuas do Príncipe Dmitriy e de Kuzma Minin, e do Lobnoe Mesto - o púlpito que serviu de palco para os czares e políticos soviéticos discursarem ao público-, está para ser inaugurado um Fours Seasons Hotel absolutamente espetacular, onde num gigantesco prédio reformado possivelmente funcionou alguma repartição pública burocrática dos tempos do politburo.

                Moscou é muito mais russa que soviética. Há Stalins esculpidos em mármore e bronze, aqui e ali. Mas é cosmopolita e européia, mesmo mantendo sua personalidade. O pouco de passado é histórico e arquitetônico, que parecem resistir stalinisticamente à mudança dos tempos. Mas as ruas mostram a verdade: uma imensa transformação alinhada aos novos tempos.

         Há um McDonald’s ‘nada-a-ver’ bem próximo da Praça Vermelha, na Praça Pushkin, denunciando que nem tudo anda bem com o mundo tornando-se plano. Lenin não está vivo, mas por certo deve rolar no túmulo em seu mausoléu nas proximidades. É um choque inesperado, quase um mau gosto para quem preferia um café tradicional a um fast-food de porcarias. Mas nem isso tira da Praça Vermelha e seus arredores o posto de um dos lugares mais lindos que já vi no mundo. Está londe de ser "um enigma envolto em mistério”, como a definiu Winston Churchill durante a Guerra Fria, senão uma cidade fascinante, altamente compensadora turísticamente.

Moscou já não segue as idéias de Karl Marx, o capitalismo está em todo canto, e seu templo maior é o GUM

                 E o GUM, antes uma sinistra loja de departamentos comunista proibida aos nacionais, agora é um centro comercial bonito, arejado, europeu na essência. E consumista capitalista no caráter. Provavelmente será ali que o visitante enterrará definitivamente as cinzas de suas lembranças do que foi a União Soviética.

             Há contrastes. De lojas de grifes européias chiques ao lado de prédios de fachadas e ocupação decadentes a hipsters bem vestidos e senhoras russas pedindo esmola, de Bentleys dividindo espaço com antigos Lada a figuras de personalidades soviéricas esculpidas em fachadas ao lado de vitrines Louis Vuiton.

GUM, antes uma sinistra loja de departamentos comunista, Na Praça Vermelha

               Quem nunca esteve em Moscou não tem com o que se preocupar. Turísticamente, quero dizer. Nem com a segurança. Com o idioma sim, pois de fato ele é uma barreira. É uma das línguas mais difíceis de aprender. Tanto falar quanto ler. O cirílico é um entrave. Seria conveniente aprender a identificar os caracteres cirílicos e dizer algumas palavras chave e úteis.

               Tivemos apenas experiências positivas, mas sei que gostar ou não de um lugar é algo pessoal, que depende essencialmente do preparo e do estado de espírito de cada um. Frustrações podem fazer parte da aventura de viajar pela Rússia, mas por vezes são elas que tornam interessante o lugar, porque desafiam e excitam a mente do turista.

Bonita. De dia ou de noite

                Para um viajante principiante a Rússia eventualmente não será um país dos mais fáceis, o que possivelmente requer um guia. Todavia, muito já se escreveu sobre Moscou e St. Petersburg e há centenas de fontes de consulta, inúmeros guias impressos e eletrônicos, ótima infra-estrutura para acolher o turista, desde agências de viagens a guias e tours privados. Em resumo, ambas são cidades bem abastecidas de recursos e de informações.

O cirílico é um entrave, mas exótico

                 Quanto mais nos aventuramos fora do óbvio em Moscou melhor percebemos que é uma cidade de contrastes muito interessantes: ora desconfortável, ora  charmosa, ora rica e pobre, tranquila e acelerado, na moda ou kitsch. O Kremlin e a Praça Vermelha são dois dos lugares mais famosos e momentais de Moscou, provavelmente também os mais soviéticos, por isso localizados um ao lado do outro.

  O que diria Lenin, se não repousasse embalsamado em seu Mausoléu, ao ver lojas como a Levi´s?

                 O Kremlin de Moscou é um complexo enorme, com quatro palácios e quatro catedrais, o Kremlin Armoury Museum, o museu mais antigo de Moscou, um  lugar onde encontram-se belos exemplares de ovos Fabergé e outros tesouros de ouro e prata. E ainda é residência oficial do Presidente da Federação Russa, razão porque é severamente protegido e parcialmente visitável. Como veremos abaixo.

Portão da Ressurreição

 A Praça Vermelha

                  Começamos então nossa visita pela Praça Vermelha. Nada é mais óbvio. Nem mais indicado. Já que estamos turisticamente, este é o cartão postal da cidade, para além de ser uma das praças mais bonitas e conhecidas já construídas pelo homem. Marco zero da cidade, atrai multidões. De cidadãos russos e turistas, tudo que indica que quanto mais cedo visitá-la, melhor. A praça é bonita. De todo jeito. De dia ou de noite. É belíssima, melhor classificando-a. E segura.

Se arquitetura lhe atrai, Moscou será um delírio. Especialmente na Praça Vermelha

                   Em geral as pessoas são abertas, receptivas e amigáveis com o estrangeiro turista, mas dizem que não muito com o imigrante. Não exatamente sorridentes e simpáticas, mas receptivas e educadas, todavia. Os cuidados que um turista deve ter em Moscou valem para qualquer grande cidade do mundo.

Portão da Ressurreição

                 Entra-se na praça pelo Portão da Ressurreição, com torres vermelhas e cúpulas verdes,  versão de 1995 do original de 1680, demolido em 1931. Nele fica a Capela da Virgem Iverian, sempre visitada pelo czar antes de sua entrada no Kremlin. Bem ao lado direito fica o Museu de História da Rússia, prédio 1883, lindo, vermelho vivo, de frente para a praça, cuja estátua equestre de Vyacheslav Klykov, herói da II Guerra Mundial, parece proteger seu portão.

                  Lembrei-me dos desfiles militares soviéticos enquanto percorria aquela imensidão calçada em pedras, mas confesso que foi por pouco tempo. Não estamos mais na União Soviética e a velha senhora, ainda que bem conservada, está mudada, mesmo mantendo seus traços soviéticos. Se por um lado dou graças a isso, por outro lamento. Teria sido bom conhecer a Moscou soviética.

Rua Nikolskaya: o GUM (esq), a Praça Vermelha, aTorre Nikolskaya e o Museu Histórico (fundo),  Catedral de Kazam (dir)

                Não seria exagero afirmar que se houvesse tempo apenas para a Praça Vermelha e o Kremlin, o visitante teria visto o que há de mais importante turísticamente falando de Moscou. A Catedral de São Basílio, por exemplo, - o mais reconhecido símbolo russo - é de fato uma das mais magníficas construções da cidade, cujas esplêndidas, coloridas cúpolas de formatos e padrões fascinantes são muito mais belas e impactantes do que qualquer uma das milhares de fotos que se podem já ter visto. Defronte às muralhas do Kremlin fica o Mausoléu de Lenin, que abriga seu corpo embalsamado e sepulturas de russos famosos como Stalin, Yuriy Gagarin e Máximo Gorky, que não visitamos.

As torres da muralha do Kremlin

                 A Rua Nikolskaya começa na Praça Vermelha, bem defronte à torre St. Nicolas - ou Torre Nikolskaya - e do Museu Histórico. Foi construída em 1492, um ano depois da Torre Spasskaya. Ambas pertencem ao Kremlin de Moscou. A rua é uma atração. Além de bonita, tem edifícios notáveis. Provavelmente o conjunto de edifícios mais notáveis da cidade.

A Rua Nikolskaya começa na Praça Vermelha

                 Uma alegria para os amantes da arquitetura e ornamentação de fachadas de edificações civis, esta é a Rua Nikolskaya. Ao lado dela fica a colorida (e atraente), pequena Catedral de Kazam, uma reconstrução da original demolida em 1936, dedicada à Virgem de Kazan, vale uma visita.

 Por dentro do Kremlin de Moscou

                  Essência russa, onde tudo é grandioso, guarda oito séculos de história e culturas soviética e russa em oito sedes. Centro de comando do partido comunista, atualmente é a sede presidencial russa, mas não sem motivo o chamam de “Museus do Kremlin”.

                Dentro de suas muralhas estão a Sala das Armas, a Catedral da Assunção que guarda os bancos onde czares e czarinas rezavam, a Catedral do Arcanjo, cuja construção foi feita por ordem de Ivan Kalita, primeiro príncipe moscovita, a Catedral da Anunciação, que abriga os tesouros das famílias reais russas, a Igreja do Manto Sagrado de Nossa Senhora, onde encontra-se uma galeria com esculturas dos séculos 15 a 19, o Palácio do Patriarca e a Igreja dos Doze Apóstolos, onde pode-se ver uma exposição permanente de objetos pessoais dos czares.

                   Há ainda o Campanário de Ivan, o Grande, construção que durou mais de 300 anos, um dos prédios mais altos de Moscou. No campanário adjacente há 21 sinos. E na área do Kremlin uma coleção de sinos, canhões e objetos de guerra. Curiosamente, foram arquitetos italianos, não russos, trazidos por Ivan III mesclaram estilos russo e renascentistas europeus no desenho da Catedral de Assunção, na Câmara das Facetas e nas muralhas e torres do Kremlin.

                 O Kremlin é uma fantástico homenagem arquitetônica à grandeza do império russo. Se houvesse apenas uma obra monumental em Moscou que merecesse o título de Patrimônio Mundial da Unesco, essa seria a residência oficial do Presidente da Federação Russa - ou Kremlin de Moscou -, cuja muralha com vinte torres abriga 30 hectares com alguns dos monumentos mais importantes da cidade.  

                 A fortaleza do século XII, mais que um baluarte feito para proteger e guardar, transformou-se num símbolo. Ainda hoje o mais reconhecido símbolo do poder russo. Ao entrarmos, sentimos que ainda hoje exerce seu poder. Não apenas por guardar tesouros, mas também por a brigar a residência e lugar de trabalho oficial do presidente, continua severamente policiado, afinal, Putin trabalha a pouco metros de onde milhares de turistas circulam visitando essa maravilha moscovita.

                  Trata-se da atração mais popular de Moscou, importantíssima e concorridíssima. Por isso chegamos cedo pela manhã para comprarmos os bilhetes para a visita ao Kremlin, que apesar de ainda fechado já mostrava uma considerável fila de visitantes. Sobretudo porque em pouco tempo chegam as excursões. Há no mapa que se recebe junto com a compra dos ingressos 41 edifícios, mas delas apenas 9 um turista pode visitar. E posso dizer que as achei suficientes, que dão uma percepção razoável do que foi o império russo. Além de tesouros verdadeiros, de obras de arte a jóias em grande quantidade.

                 A primeira construção é de 1156, época em que não passava de uma fortaleza de madeira, quase uma paliçada no topo do monte Borovitsky protegida por um fosso. De adições a modificações sucessivas, entre elas as mais significativas suas muralhas e torres, construídas em 1495 pelo czar Ivan III, o complexo cresceu em poder e beleza: ganhou igrejas e palácios e enfrentou batalhas e ocupações, até tornar-se abrigo e símbolo de um poder misterioso e militarizado. Ali os Romanov terminaram seu reinado de maneira amarga, sendo executado o czar Nicolau II e sua família pelos bolcheviques em 1918.

                  Assim que entramos a impressão foi de estarmos num quartel em atividade. Onde turistas e pessoas que trabalham nele circulam num complexo de ruas largas, turistas admirando palácios, monumentos e igrejas, militares guardando-os e tabalhando em seu interior.  As atrações visitáveis são a Catedral da Assunção, a Torre do Sino, o Canhão e o Sino do Czar, a Catedral do Arcanjo e da Anunciação e o Grande Palácio, a Catedral do Arcanjo São Miguel, esta última construída entre 1505 e 1508. Todavia, a maior parte do Kremlin abriga edifícios governamentais não abertos à visitação.

                  A Armeria é a maior atração do Kremlin e o mais antigo museu de arte da Rússia, onde há carruagens, tronos, coleções raríssimas de artigos de ouro e prata do século XII ao XIX, armamentos dos soldados russos do século XII–XVI, roupas, coroas, ovos Fabergé. Originalmente o lugar onde se guardavam as armas, o arsenal hoje é um museu com verdadeiro tesouro dos tempos dos czares, especialmente pela coleção de ovos Fabergé encomendados pelo Czar Alexander III. Há muitos tipos de ovos feitos sob temas distintos, talvez o mais importante o ovo da Ferrovia Trans-Siberiana com um pequeno trem de ouro. Uma das carruagens é a dourada, usada nos verões por Catarina, a Grande, e o vestido finamente bordado usado em sua coroação, além do cetro, cujo diamante Orlov no seu topo tem 190 quilates, então um presente de seu amante, Conde Orlov, subtraído do olho de uma divindade de um templo indiano.

                    O Palácio Terem tem arquitetura não muito exótica, mas as cúpulas das cinco pequenas igrejas palacianas, erguidas à frente do palácio, ou simultaneamente com ele, elevadas dentro da estrutura do edifício, parecem saídas de uma ilustração de um livro de conto de fadas. São onze torres-cebola delgadas. O palácio foi construído para o czar Mikhail Romanov entre 1635 e 1636. O interior é suntuoso era usado como Sala de trono e Salão de banquetes dos czares.

                O Canhão do czar foi feito em 1586 por ordem do czar Feodor I Ivanovich, tem 40 toneladas, calibre de quase 1 metro, e 5 e meio metros de comprimento. Jamais foi usado. É ornamentado com inscrições e uma imagem do czar. O Campanário de Ivan, o Grande, fica na Praça das Catedrais e foi construído há cerca de 500 anos, tendo sido destruído pelas tropas de Napoleão em 1812 e reconstruído em 1814. A torre principal, com 81 metros, não foi afetada pelo ataque.  O Sino gigante é um símbolo de poder dos czares. Tem algo mais que 6 metros de altura por quase 7 de diâmetro. O maior do mundo, pesa 200 toneladas e foi fundido apenas porque o czar Alexey Mikhailovich quis marcar seu poder. Jamais funcionou, e o que mais chama a atenção é o pedaço quebrado no chão ao seu lado. Só esse pedacinho tem 11,5 toneladas.

                  A Catedral do Arcanjo é um dos melhores exemplos arquitetônicos do complexo e abriga túmulos de figuras ilustres das dinastias Ryurikovich e Romanov. O primeiro czar, Ivan, o Terrível, e dois de seus filhos, também estão sepultados na catedral, num relicário próximo ao altar.

 

 ___________________________________________________

A seguir:

Moscou, além da Praça Vermelha

e

Um passeio pelo Metrô de Moscou

Reader Comments (12)

Arnaldo,
Belíssimo post!
E que fotos são estas!!! Maravilhosas.
Faz tempo que este destino está na minha lista. Acho que logo mais não vou mais resistir.
Abraço.

Diogo, me permita repetir as suas palavras:
Faz tempo que este destino está na minha lista. Acho que logo mais não vou mais resistir.
Esses destinos me fascinam!

9:46 | Unregistered CommenterRosa

ROSA, lembro que há uns meses vc esrceveu um comentário sobre sua alegria de ver que nós estávamos indo a Moscou e St. Petersburgo e que esperava ansiosa pelos relatos. Aqui está o primeiro da série, que espero sirva para ajudar a aguçar seu interesse e despertar ainda mais vontade de ir.

Um grande abraço e obrigado pela visita e comentário.

Caro Diogo Avila, obrigado pela visita e comentário. Espero que ao fim dos três capítulos que pretendo escrever sobre Moscou (2) e St. Petersburgo (1) vc encontre ainda mais motivos para "aventurar-se" pela Rússia. Nós gostamos imensamente.

Grande abraço

Minha mãe sempre me falava que um lugar ao qual ela gostaria de voltar seria a Rússia. Ela, meu pai e meu irmão estiveram lá logo depois da queda do regime e conheceram uma Rússia que já não existe mais, para o bem e para o mal. É muito bom saber que ela continua diferente, mas tão sedutora quanto.
Relembrei muito a nossa viagem com esse post...poucos mas maravilhosos dias!
Um beijo...

20:58 | Unregistered CommenterEmília

Mais apaixonada que eu por esses destinos é a minha sobrinha, antes mesmo de ter a oportunidade de conhecer, ela tatuou uma Matrioska. Ela já visitou duas vezes e também disse que o idioma é uma barreira, mesmo para ela que mora em Belgrado e conhece um pouco o alfabeto cirílico. Estou cada vez mais fascinada! É beleza demais!

15:44 | Unregistered CommenterRosa

Estas fotografias são impressionantes. Não só para aquelas cores intensas, também por enormes dimenensiones do espaço público. Você pode perder em a Praça Vermelha. Isso é certeza.

8:24 | Unregistered CommenterCarmen

Olá Arnaldo,
Daqui deste lado do Atlântico e nesta ponta da Europa continuo seguido “seus passos”. E apraz-me verificar que seu blog continua com vida!
Ainda bem porque continuo me deliciando com seus comentários e suas observações sobre os povos e a sociedades que vai visitando. Aqui então tem um particular porque me estou revendo naquilo que senti quando visitei estes lugares. Estou me retratando naquilo que gostaria de ter escrito e revejo nas suas palavras. Extraordinário, porque tem uma parte em você viaja através da sua infância com as viagens imaginárias que o levavam até estas paragens.
Quer acreditar que eu fazia o mesmo! Na minha infância vivia-se aqui em Portugal, como sabe, um período de subversão mental em que criavam imagens terríveis da Rússia. Um amigo de meu pai dizia que era tudo mentira e me mostrava livros com as grandezas dos czares. Isso alimentava minha imaginação.
Pois Arnaldo, tenho muito boas recordações da viagem que fiz em 2010 através dos rios e canais da bacia do Volga num cruzeiro fluvial de Moscovo a S. Petersburgo. Por aí também foi possível observar a outra parte da Rússia: o mundo rural que, deixe-me dizer não fica atrás dos esplendores das cúpulas douradas de Moscovo ou dos palácios resplandecentes de S. Petersburgo. Aí brilhou a beleza da simplicidade das gentes dos campos e das cidades de província e também a magnificência do território russo. Inenarrável.
Tive uma sorte incrível – acompanharam-nos duas guias falando português corretamente uma delas tinha estado em Lisboa num programa de treinamento e adivinhe lá… também no Rio numa viagem de prémio de fim de curso.
Bom, não me alongo mais. Parabéns e continue nos presenteando com seus comentários.
Gabriel Sousa
P.S. Este ano tenho já planeado a Pérsia antiga (atual Irã) e já estive mirando seus comentários.

Amei o post e a riqueza dos detalhes. Rússia está na minha mira também. Espero chegar por lá em junho numa viagem que pretendo fazer de Helsinki à Riga de carro, passando por St. Petersburgo. Infelizmente devo pular Moscou, porém lendo esse seu post me deu uma tremedeira aqui. Beijos

15:46 | Unregistered CommenterLalai

Obrigado pela visita, sobretudo pelo comentário. Antes de falar sobre ele, preciso lhe dizer que estou encantado com o Chicken or Pasta! Devo dizer que ainda que o tenha explorado tão pouco (estava emn viagem pela França e Espanha na altura de seu comentário), certamente o explorarei e comentarei oportunamente. Isso sim é um blog profissional. Aleluia! EXEMPLAR. Diria que sob todos os pontos de vista (autores, lay out e conteúdo) é o melhor do Brasil, disparado. Equiparo-o ao Guia de Barcelona - do Tony e Cecília Galvez - como os dois únicos exemplos de profisisonalismo, bom gosto, conteúdo admirável. Enfim, virei fã.

Um roteiro bem bacana o seu. Gostamos muito de Helsink (que fomos a partir de Tallin) e de St. Petersburgo, cidade que por si já valeria a visita apenas por seu Museu Hermitage, seja pelo acervo, seja pela arquitetura interior.

Moscou é uma cidade magnífica e extremamente atraente turisticamente, mas compreendo que fique longe desse seu roteiro. Todavia, não é difícil alcançá-la de trem desde St. Petersburgo, o que lhe deixa ainda mais atraente e convidativa.

Muito grato,

Arnaldo

OBS: minha mulher segue e é seguida por um dos autores do Chicken or Pasta no Instagram (se não me engano, Gaía Passarelli.

Olá Gabriel,

Daqui deste lado do Atlântico - entre Rio de Janeiro e São Paulo - continuo a me surpreender, mesmo depois de nove anos de vida deste blog, no quanto ser "seguido” por leitores é um privilégio. Um honroso e magnífico privilégio. Consigo identificar - na área de administração do blog - que vêm de muitos lugares. De dentro e fora do Brasil. Todavia, o prazer (ou talvez orgulho mesmo) multiplica-se quando são vindos de Portugal ou de suas ex-províncias ultramarinas. Se então isso já me bastaria, ainda recebo comentários como o seu. Que admiração me provocastes! O jeito culto e melodioso com que os portugueses se expressam é admirável. Ah!, como me inspiro (e os imito)! Como me incentivam e impulsionam a continuar a manter o blog “com vida”! E ainda bem que o faço, porque não haveria melhor modo de agradecer sem conseguir transmitir a gratidão.

Sou fã dos blogs e de tantos autores portugueses de relatos de viagens, justamente porque escrevem soberbamente. Como diz minha doce Emília, vocês são demais! Não há nada mais inspirador do que ler revistas, sítios e blogs portugueses. Sou assinante da única revista de viagens que leio assiduamente: a Volta ao Mundo, que recebo mensalmente aqui em casa. Como aprendo lendo-os, sobre o que significa escrever bem.

Como expressar o tamanho do meu prazer quando dizes que te retratas “naquilo que gostaria de ter escrito e revejo nas suas palavras? Extraordinário, porque tem uma parte em você viaja através da sua infância com as viagens imaginárias que o levavam até estas paragens.” Sobretudo a coincidência de que fazias o mesmo.

Gabriel, sobre a Pérsia antiga (atual Irã), que planejas visitar para este ano, espero que meus relatos e comentários que encontrares por aqui lhe sejam úteis. Por favor, não deixes de retornar para contar-nos.

Muitíssimo grato, um forte abraço virtual,

Arnaldo,

"Os judiados pela doutrina filosófica da teologia da retribuição afastam-se do mal por medo do castigo e fazem o bem esperando recompensas. Transmudam-se assim, inconscientes em mercenários da religião." Este é o São Basílio que emprestou o nome a uma das mais famosas catedrais ortodoxas do mundo, no centrão da capital russa, ladeando e emoldurando junto com um museu histórico a legendária praça vermelha de Moscou. E de quebra, vigia o vizinho e sisudo kremlim...:)

20:32 | Unregistered CommenterPedro

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