CONHEÇA O AUTOR

          

         Depois de estabelecer-se na Internet desde 1999 escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo (Editora Abril). Agora, Arnaldo prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando na literatura com um livro encantador que, segundo o autor, é o primeiro de uma série.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui neste blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de uma conversa baseada na informalidade, o livro mistura traços de coloquialidade e informalidade com uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, mas é apenas uma outra maneira de me expressar sobre viagens, transmitir sem fantasias o mundo que vejo, isto é, como ele é, não como o imagino. A leitura revelará, todavia, aqui e ali, discrepâncias entre minhas expectativas e a realidade confirmada no destino. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". Então, a partir deste meu primeiro, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase da minha vida.

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo Trindade Affonso é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti 2013 na categoria Reportagens

Ronize Aline:

            "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária e crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista passou pelas redações das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

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Quarta-feira
Abr292015

KARAKALPAKSTAN, um outro lado do mundo 

Entre kalas, desertos e yurtas  ______________________________________________________

Acampamento de yurtas Ayaz Kala, em algum lugar no meio do nada no Karakalpakistan

                 HÁ países que se visitam tão pouco que quando descobertos revelam-se verdadeiras joias turísticas. Conhecê-los representa experimentar o que há de mais autêntico neste admirável nosso mundo. O Uzbekistão é uma delas. Maravilha turística exótica e encantadora, pouco explorada, um tesouro de oportunidades a descobrir. Há verdadeiramente muito com o que surpreender-se, sobretudo com a história, a arquitetura, a cultura e os costumes. Mesmo além de suas três de suas cidades mais emblemáticas - as jóias da Rota da Seda: Samarkanda, Bukhara e Khiva - e a capital, Tashkent, com atrações bastantes para entreter o turista. Mas uma escapada ao deserto do Karakalpakstan - tão pertinho de Khiva, tão acessível, ainda que remoto e desolado - é um destino a não peder.

 Complexo de fortalezas Ayaz, na região de Ellikala, no Karakalpakstan

                 MAS para além desse admirável mundo islâmico encantador que é o Uzbequistão, há outro tão surpreendente dentro dele que torna a viagem ainda mais inesquecível: os uzbeques. Há alguns países com pessoas tão excepcionais que transformam a estada assim, numa experiência de vida. E o Uzbequistão está entre os mais notáveis que conheci. Tanto que se eu definisse seu povo como "amigável" estaria sendo injusto. Ou impreciso. Muito além de ser um país com valores turísticos incomuns, há uma excepcionalidade ainda maior (e muito intrigante): seu povo. Por que são tão receptivos e simpáticos? Por que tão genuinamente sorridentes? Por que tão surpreendentemente honestos, generosos e prestativos?

Muito além de seu valor incomum, no Uzbequistão há uma excepcionalidade ainda maior e intrigante: seu povo

                   FORAM muitas as experiências marcantes e surpreendentes com eles. Mesmo os mais simples, ocasionais encontros tornavam-se vivas e doces lembranças de convívio humano. Entre as melhores que já experimentamos em viagens. Ocorriam nos mercados, nas ruas, nos becos, nos transportes e até numa mesquita. Em Khiva, por exemplo, observávamos à distância um grupo mulheres e homens passeando. Vinham de Tashkent, e eram mesmo turistas, soubemos mais tarde. 

   Surpreendentes momentos, doces lembranças de convívio humano

                    VESTIAM sua multicolorida e estampada vestimenta típica e pareciam divertir-se muito. Sorrisos, às vezes discretos, outras largos, exibiam orgulhosos dentes dourados. Falavam uzbeque e tajique - variante da lingua persa, tão sonora quanto exótica e incompreensível - e consagravam-se uma verdadeira atração para nós e mais meia dúzia de turístas encantados. Todos os admiravam. Possivelmente quase mais até mesmo do que o belo pátio interno do Tash-Hauli Palace que todos visitávamos, suntuosamente decorado em mosaicos cerâmicos em estilo persa, com sacadas suportadas por colunas de madeira finamente entalhadas. O conjunto, palácio e turistas uzbeques, era de uma beleza encantadora, uma simpatia cativante que  concluiu-se numa experiência adorável.

                  NAQUELE sítio isolado, a quilômetros de lugar nenhum, o que poderia ter sido uma simples foto que avidamente tirávamos daqueles simpáticos e divertidos uzbeques tornou-se a melhor de todas as nossas mais deliciosas experiências relacionadas com o povo do Uzbequistão: o grupo de animadíssimas mulheres levantou-se, dirigiu-se à minha mulher e 'sequestrou-a' pelos braços, seguindo com ela alguns metros de seu caminho por Ichan Kala, como se da família fizesse parte. A mim só permitiram acompanhar. De longe. E fotografá-las. Mais adiante despediram-se com beijos, com sorrisos, com doces apertos de mão e olhares ainda mais açucarados. Vou guardar pra sempre aquele momento.  

Tash-Hauli Palace e suas colunas e vigas entalhadas

                  E não foi apenas em Khiva, a menos turística das cidades da Rota da Seda uzbeque. Em todo o país percebemos a excepcional característica de sua receptividade. Ali, no entanto, foi onde melhor notamos como o uzbeque reconciliou-se com seu passado, como resgatou sua cultura perdida, como rompeu - discreta e equilibradamente - com tudo o que foi soviético. Mais uma vez nos sentimos afortunados. Por estar ali naquele lindo lugar, rodeados por um patrimônio belissimo, relembrando a história suntuosa e experimentando aquela lendária hospitalidade. Seria justo então dizer que se eu tinha expectativas muito altas em relação ao povo (em razão do que li, mas o que é sempre perigoso), elas foram firmemente excedidas, como nesta incrível experiência dentro do Tash-Hauli Palace.

                  Como se não bastasse toda a beleza do Tash-Hauli Palace , delicadamente ornado com o mesmo naqsh - ou desenho - que aparece nos portões de madeira, nos pilares entalhados, nos mosaicos cerâmicos das paredes, nas pinturas dos tetos e das vigas dos palácios dos khans de Khiva, estávamos encantados por aquele grupo de turistas locais encantando-se com nosso encantamento.

 

No Tash-Hauli Palace, o mesmo desenho aparece nos portões de madeira, nos pilares entalhados, nos mosaicos cerâmicos das paredes, nas pinturas dos tetos e das vigas

No Uzbequistão, a mais bela ornamentação persa islâmica

                   O Uzbequistão em si é uma pérola da Ásia Central. É onde encontram-se formas, estilos e costumes inexistentes em qualquer outro ponto do planeta, mesmo até em outros "stãos".  Por ali ainda não há cidades influenciadas pelo ocidente e a coleção de arquitetura islâmica persa rivaliza - seja em beleza, seja em monumentalidade - com a do próprio Irã, antiga Pérsia, de onde originou-se. Em azuis, intensos azuis de todos os tons. E não parece que foi por acaso os azuis dominarem a nação.

Foi no Uzbequistão que vi os mosaicos cerâmicos persas mais lindos

                   DOS belos tecidos aos tapetes, das cerâmicas às mesquitas, para os uzbeques a cor simboliza a paz e a estabilidade. Se o branco reflete a alma pura, o turquesa a esperança e a prosperidade. Não vi outros tão intensos quanto os das fachadas do complexo de túmulos Shah-i-Zinda, impressionante coleção de mausoléus de Samarkanda, construído no estilo timúrida para muçulmanos devotos. É lugar tão sagrado para eles que três visitas ali equivalem a uma para Meca.

  

Uzbequistão e seus azuis. Complexo de túmulos Shah-i-Zinda, Samarkanda

                 OS uzbeques têm outros símbolos. Fazem parte de sua cultura original, mesmo antes dos islâmicos ou das conquistas russas, essas últimas tratadas de esquecer. Foi um dos raros lugares no mundo onde o zoroastrismo se enraizou fortemente. Arqueólogos e cientistas escavam procurando novos sítios relacionados à religião no Uzbequistão, e apesar de quase extinta, seus símbolos estão incorporados na cultura e na arquitetura uzbeques, tal qual a flor de romã, símbolo do conhecimento e da fertilidade encontrado como padrões não somente em tecidos de seda, mas até mesmo nas fachadas das madraças islâmicas.

                 QUEM aprofundar-se na observação e no tema concluirá que muitos monumentos arquitetônicos do Uzbequistão têm algum elemento originário no zoroastrismo(3) khorezmi numa grande porção de fachadas de estilo timúrida islâmico. Tal detalhe pode ser observado, por exemplo, na torre de Khiva. Um padrão bastante simples transmite uma mensagem khorezmi: o triângulo superior virado para baixo - cujo significado é “bons pensamentos” - e o triângulo inferior voltado para cima - que significa “boas palavras” estão no retângulo central que completa a mensagem em algo como “bons pensamentos levam a boas palavras, que por sua vez levam a boas ações”. Talvez encontrem-se aqui as respostas a tantos porquês que rondam a hospitalidade uzbeque: a combinação única e exclusiva de culturas tornou o país imensamente diferente de seus vizinhos, explicando a simpatia de seu povo.

 DE Urgench a Khiva e dali ao Karakalpakistan(1)

                  VOAMOS de Tashkent a Urgench pela Uzbekistan Airways. Não, não era um Tupolev. Chegamos às 8:40 em Urgench, maior cidade da região. Tem aeroporto, ferrovia e fica a apenas 35km de Khiva pela rodovia A-380, que vai de Bukhara a Khiva, cujo estado é particularmente lastimável e nos impede de ir a mais que 35 km por hora. Mas, afinal, ainda que ambas sejam por prazer, o que distingue as viagens de lazer das de exploração é o desconforto.

A desolação do deserto: cenário nas estradas do Uzbequistão

                  ENTÃO seguimos assim de carro diretamente ao coração antigo e histórico de Khiva - Ichan Kala -, a cidade real. Antiquíssima, fabulosa, cercada por uma muralha impressionante de 10m de altura, é incrivelmente bem preservada e restaurada. Possivelmente jamais esquecerei aquela manhã, quando pela primeira vez cruzei a muralha por uma de seus portões monumentais - o Portão Oeste de Ichan Kala. Khiva, assim como Bukhara e Samarkanda, têm aparência da cidade velha, mas são um produto do século XIX, inclusive resultam de gigantesca restauração.

Kyzyl-Kala - Karakalpakistan

               CAPRICHOSA demais em alguns planos, até mesmo infantil noutros, a restauração aqui e ali peca pela falta de cuidado (ou pela aparente reconstrução apressada): até hoje há fios em balanço, tubulações aparentes, rachaduras, tijolos muito regulares. Projetos imperfeitos. Provavelmente sim, mas antes isso do que ver tesouros mal cuidados como no Irã. Ainda assim não é imaginar o que teriam sido as alternativas. De certa forma, aqui e ali percebem-se reconstruções vendidas como autênticas. Mas Khiva é uma das cidades mais fascinantes do país. Por tudo. Dos resquícios da civilização zoroastra a Itchan Kala, a cidade antiga situada entre as muralhas, com cerca de 4000 habitantes, viva mas pacata, verdadeiro museu de monumentos históricos, de mesquitas a madraçais, de torres a ruas estreitas. Bem menos por Dichan Kala, a cidade localizada fora da muralha.

Sobre o Portão Oeste de Ichan Kala, em Khiva, a vista de uma das cidades mais "mil-e-uma-noites" do mundo islâmico

                  DESDE então, mesmo em todo esse adorável “outro mundo” islâmico, foi a cidade mais “mil-e-uma-noites” que conheci. Não sem razão consideram-na uma das jóias históricas do Uzbequistão, também nomeada Patrimônio da Humanidade. Antiga parada essencial da Rota da Seda, junto com Samarkanda e Bukhara, há muito o que ver, mas explora-se bem a encantadora cidade em dois dias. É o que basta. Daí então pode ser uma boa escolha excursionar à estranha Karakalpakstan, de fato uma região semi-autônoma do Uzbequistão, mas antes de tudo uma terra esquecida, ironicamente só conhecida por causa do Mar de Aral, um dos mais trágicos casos de erro da humanidade destruindo a natureza, decorrência da obsessão soviética em transformar a região numa das maiores produtoras de algodão do mundo.

Ainda podem-se ver os canais de irrigação

                 O mar era alimentado por dois rios formidáveis, redirecionados e sugados para irrigar plantações de algodão recém cultivados entre o Uzbequistão e o Cazaquistão, uma das culturas sedentas de água conhecidas pelo homem. Habitado por karalpaks, Nukus é sua capital. Dispensável, a não ser por seu museu. É cidade poeirenta, relativamente moderna e desinteressante, mas que mesmo assim alguns turistas resolvem visitar. Nela o que atraia é o Igor Savitsky Museum, cujo acervo é uma das mais importantes coleções de pinturas avant garde russas e um acervo com antiguidades do khorezm, de arte popular karakalpak, de arte uzbeque.

O complexo Ayaz Kala

                  O jornal The Guardian chegou a descrever o museu como um dos mais destacados do mundo, com a segunda maior coleção de arte russa avant garde do mundo depois do Museu de St. Petersburg. Há uma visita guiada pelas exposições, também de arte tribal das regiões desérticas. Em Nukus também se pode visitar o Cemitério de Mizdakhan, uma necrópole tradicional funerária do zoroastrismo do século 4 a.C. Os karalpaks são uma minoria turcomana que habita o delta Sul do Mar de Aral, mas originalmente era um povo nômade fascinante. Nas últimas décadas, no entanto, suas terras tornaram-se desérticas por causa de um dos maiores desastres ambientais da nossa geração. Tinham uma florescente cultura artística, produziam têxteis e trajes de cores e desejos vibrantes, joias e mobiliário.

Desertos de Kyzylkum

                 PERCORRER os Desertos de Karakum e Kyzylkum, a sudoeste do Mar de Aral(2), na região de Karakalpakstan, ainda que tenhamos cruzado o Rio Amu Darya - o grande rio Oxus, como os europeus o chamavam -, uma das regiões mais remotas em que já estivemos, pode ser uma experiência excepcional. Para nós foi. Mesmo que historicamente tudo pareça viver à sombra do que foi um mar. Desaparecido, mas um dos maiores do planeta. O deserto tem esse poder, aguça certos instintos. Provavelmente é um dos melhores lugares para compreendermos nossa verdadeira dimensão. E onde deixamos de nos sentir o epicentro do mundo, de um pequenino planeta em torno do qual tudo orbita. Ali somos transportados à realidade do que somos: insignificantes. Ao menos quando individualmente nos enxergamos. 

Portal de Ellikala, Karakalpakstan

                 COMEÇAMOS cedo nossa viagem ao deserto e aos kalas (castelos) da região de Ellikala, no Karakalpakstan. Não se pode afirmar que seja um lugar particularmente atraente. Mas cruzamos alguns por onde passavam as caravanas da Rota da Seda da China e da Rota das Especiarias da Índia, que chegavam extenuadas depois de dias cruzando o deserto - último lugar de descanso antes de seguirem a rota até a Pérsia. Para além de rotas de comércio, eram rotas de comunicação, as maiores contribuintes para o desenvolvimento do Uzbequistão Em Khiva encontravam um oásis. Descansavam e comercializavam suas mercadorias - sedas, especiarias, pedras preciosas e escravos -, compravam outros tecidos e víveres antes de partirem seguindo sua rota. Mas também por ali passavam conquistadores bárbaros - de mongóis a hunos.

                  SEUS kalas, construídos entre os séculos IV A.C. e o 10 D.C., foram bastiões da Rota da Seda. Mas ainda pouco se sabe sobre eles. Visitamos três deles: Kyzyl-Kala, Toprak-Kala e Ayaz-Kala, este último fica numa colina junto ao acampamento de yurtas e foi ao que dedicamos mais tempo. O acampamento é para viajantes que desejam passar uma noite no deserto, sob um céu absurdamente estrelado, ouvindo o silêncio do deserto, Ayaz Kala.

Boston, Uzbequistão

                  Ficam a cerca de 30 quilômetros do povoado de Boston (sim, há uma Boston além dos states, aqui nesse deserto do Uzbequistão), a meio-caminho desde Khiva - e são uma preciosidade curiosa situado na base de um complexo de três fortalezas agrupadas em torno de sua colina.

Ruína com vista

            ESTA ruína tem uma vista excepcional para o deserto e também para o simpático acampamento. Um ótimo ponto para comer e dormir. Não dormimos, apenas almoçamos e descansamos numa yurta, onde dei uma das cochiladas mais deliciosas de minha vida.

 YURTAS

Yurtas. Estrutura e cobertura das habitações típicas dos povos nômades da Ásia Central

                 OS povos nômades da Ásia Central faziam complexas e grandes tendas forradas de couro, pele e lona sobre uma estrutura de madeira trançada. Desmontadas quando preciso, eram transportadas pelos desertos mais inóspitos para serem remontadas num novo lugar ideal para uma nova temporada. Resistentes a condições climáticas extremas de calor e frio, tornaram-se um estilo de vida que resistiu no tempo e representam nesta região um nomadismo autêntico, tanto no Uzbequistão quanto na Mongólia, Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão.

 

Ayaz kala yurta camping

                 NESTE acampamento dirigido por uma simpática senhora, é possível dormir e comer numa yurta, fazê-la de base para a exploração mais calma do deserto e dos kalas. E à noite, escutando o silêncio mais puro, observar o céu mais brilhante à sombra de Ayaz Kala. Junto a este acampamento, onde havíamos apenas nós e um encantador casal de alemães, a algumas centenas de metros das ruínas, paramos nosso carro ao lado das tendas.

Almoçamos na yurta, não me lembro exatamente o que...

                  Não havia outro veículo, a não ser o caminhão soviético de trinta anos de idade que serve ao acampamento. E uns camelos que servem de meio de transporte. Mais ninguém à vista. Era uma mulher com grande energia e personalidade, capaz de converter aquele ligar remoto e solitário num lugar acolhedor.

 AS fortalezas arruinadas no deserto

                  SE o Uzbequistão sintetiza a Rota da Seda, o Caracalpaquistão o deserto. E para quem gosta de lugares desolados, este é um passeio ideal desde Khiva, Uzbequistão. Ocupando boa parte do Deserto de Kyzylkum, uma vasta planície coberta por areia, atravessada por longas e raras rodovias desérticas, viajar por ali significa ver lugares extremamente remotos, ruínas milenares e cidades-oásis. 

                  AYAZ-Khala é uma visita pra lá de exótica no Karakalpakstan, mas há boa oferta de excursões que permitem percorrer todas ruínas, entre as quais estão as três grandes fortalezas, parte de uma cadeia de  cidadelas construídas para a proteção de assentamentos agrícolas do Reino do Khorezm. Estávamos num lugar incrível onde a natureza e as ruínas escondem uma História ainda não muito conhecida.

                  A civilização khoresm surgiu em meados do segundo milênio A.C., onde acredita-se nasceu a religião zoroastriana, e onde há a maior quantidade de assentamentos zoroastras, fortalezas e templos em toda a Ásia Central. Mas as ruínas das fortalezas ainda estão carregadas de mistérios, não apenas pelos desafios de suas construções em deserto tão remotos e sem vida, como os motivos que levaram ás suas contruções. Alguns defendem que as terrar inférteis foram fertilizadas por uma rede de canais de irrigação com a água do Amu Darya, o que atraiu tribos nômades em torno do Khoresm.

O Rio Amu Darya, que outrora atraiu as tribos nômades em torno do Khoresm

                PASSARAM a produzir e vender grãos e outras mercadorias. Para manter a paz no país, precisavam que suas fronteiras fossem protegidas contra invasores. Outros explicam que o Amu Darya também inundava e provocava a morte morte e o caos entre o povo, o que justificaria a construção de cidades em elevações, protegendo com muralhas os palácios, quartéis, templos e residências. Outrora pujante nos dias bem antes da aquisição russa, o Khorezm marginalizou-se lentamente com o colapso dos impérios centro-asiáticos no século XVI e o declínio da Rota da Seda. Khiva então tornou-se um remanso, perdendo seu movimento, importância e vida. Estagnou-se.

                  HÁ cerca de 200 sítios arqueológicos situados nessa região do Karakalpakstan, entre os quais, Toprak-kala e Ayaz-kala os mais surpreendentes. As paredes eram feitas de grandes e pesados tijolos de argila que até hoje estão firmes, sobreviveram a tudo, dos ataques de Qutaybah, árabe que capturou Khoresm em 712, mais tarde pelos mongóis, e ao londo de sua vida pelas intempéries. Os construtores construiram um sistema de abastecimento de água que a transportava de algum um canal próximo para o interior das fortalezas, através de tubulações cerâmicas.

                  CAMINHAMOS pela areia fofa e fina do deserto, sob um céu azul, até o topo da primeira, e maior, das três fortificações que formam o conjunto Ayaz Kala, em forma de retângulo, do terceiro século depois de Cristo. Não havia nada que nos lembrasse o resto do mundo, muito menos a globalização. Estávamos felizes por encontrar apenas pegadas de camelos e de pequenos lagartos. E uma ou outra trilha de pneus e humanas. Nenhum lixo, garrafa de cerveja vazia, sequer uma bituca de cigarro. Só uma estranha, improvável placa de sinalização de trânsito indicando a possibilidade de estacionar. A mais improvável placa de trânsito que já imaginei encontrar.

Camelos, utiliários do desértico do Karakalpakstan

                   AS ruínas são estranhas e impressionantes, e visitando-as compreendemos porque de fato são difíceis de interpretar.  Naquela época, o Rio Amu Darya passava por ali, mas como foi um dos rios de cursos mais instáveis da Ásia Central, antes de morrer no Mar de Aral, o Khorezm que então se parecia com um antigo oásis, por interar um sistema fluvial imprevisível e instável, que podia alternar zonas húmidas, lodosas, barrentas, com lagos pontilhando aqui e ali e desertos, tudo tornava-se instável. As zonas úmidas e férteis podiam virar deserto numa mudança do curso do rio. E o que então era uma região fértil e próspera, tornou-se desértica. O que vivia em função do rio foi abandonado. No caminho, secura, aridez, marcas de patas de animais, camelos e lagartos, especialmente, plantas secas e desolação. Mas beleza. Acima de tudo. Lá de cima avistamos um bonito lago azul distante mas muito convidativo a conhecer. Não fomos, o calor não nos inspirava. Voltamos para o acampamento e comemos pratos preparados na hora pela senhora, à base de batatas e carnes guisadas, rústico, mas algo saboroso e nutritivo.

                 DEPOIS da agradável estada, voltamos a Khiva. Ainda a tempo de observá-la de cima de suas muralhas ao entardecer. É quando a luz mais perfeita incide sobre a cidade, colore em tons dourados, dá-lhe uma beleza quase arrogante. Mas gloriosa. Eu diria, impiedosa. Havia poucos turistas. Especialmente franceses. E algumas lojas e bancas de lembranças turísticas, alguns razoavelmente interessantes.

Khiva ao fim da tarde, esperando o port do sol, vista do Mirante da Muralha

                 SUBIMOS uma escadaria que dava ao fim na passarela sobre a muralha. E então avistamos aquela cidade de cima, aquele mar casas, de palácios, madraças, de torres e minaretes, de mesquitas. Especialmente o que seria o minarete Kalta-Minor, com 26 metros de altura, menos da metade da altura que projetaram. E o completo Minarete Khoja. Tudo cor de terra. Levemente pincelado de azuis. Ficamos ali observando o pôr do sol e todo aquele requinte arquitetônico. Um cenário perfeito para qualquer um dos contos das mil e uma noites.

Notas:

 (1) A república do Caracalpaquistão (em caracalpaque, Qaraqalpaqstan; em uzbeque: Qoraqalpog'iston; em inglês: Karakalpakstan) é uma região autônoma pertencente à ex-república soviética do Uzbequistão, e que possui em sua área a região sul do Mar de Aral (o norte pertence às províncias cazaquistanesas de Aqtöbe e Qyzylorda). A sua capital é Nukus. O Caracalpaquistão sofre vários problemas ambientais, sociais e econômicos devido à secagem do Mar de Aral. Karakalpakstan significa ‘homem do chapéu preto’. Onde ‘stan’ significa país. Fonte: Wikipédia

 (2) O Mar de Aral foi o quarto maior lago do planeta, hoje tem dez por cento do que foi originalmente antes de ser transformado num dos maiores desastres ecológicos promovidos pela URSS em suas repúblicas. O mar que morreu por causa da irrigação de algodão que morreu por causa do fim do mar.

 (3) O zoroastrismo, masdaísmo, masdeísmo ou parsismo é uma religião fundada na antiga Pérsia pelo profeta Zaratustra, a quem os gregos chamavam de Zoroastro. É considerada como a primeira manifestação de um monoteísmo ético. De acordo com historiadores da religião, algumas das suas concepções religiosas, como a crença no paraíso, na ressurreição, no juízo final e na vinda de um messias viriam a influenciar o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Tem seus fundamentos fixados no Avesta e admite a existência de duas divindades (dualismo), as quais representam o Bem (Aúra-Masda) e o Mal (Arimã). Da luta entre essas divindades, sairia vencedora a divindade do Bem, Aúra-Masda. Fonte: Wikipédia


Reader Comments (6)

Lindo post!!! Me deixou ainda com mais vontade de visitar Uzbequistao e as demais belezas da Asia Central!

Por aqui, muito trabalho! Sem tempo nem mesmo para ver as fotos da ultima viagem - Tibet e Butao - ha 7 meses atras.

Beijo grande para voces dois!!

Cara Fê Costta, bom ter notícias suas. Obrigado por sua visita e comentários. Uma observação: agora somos quatro! (estamos grávidos de gêmeos).

Grande abraço, sucesso, saúde para a família e ótimas viagens.

Oi Arnaldo,

Emília comentou sobre essa viagem incrível. Já estou com vontade de conhecer o Uzbekistão faz um tempo. Lendo esse texto espetacular fiquei ainda mais animada e curiosa. Talvez em setembro eu e Marcus tenhamos a chance de ir até lá. Estou torcendo para que a viagem dê certo.

Beijo em vocês. Saudades.

Oi, Claudia,

Fantástico saber que vc e o Marcus planejam ir ao Uzbequistão. Obrigado pela visita, sobretudo pelo comentário, ainda mais pelo "espetacular" para definir meu texto. Muito gentil. Estamos torcendo por vocês.

Vamos ver se depois de os bebês nascerem vocês conseguem vir aqui em casa para uma visita e colocarmos os papos em dia.

Um grande abraço ao casal.

Grande viajante, Arnaldo, como vai você e sua família?

Vez por outra eu passo os olhos pelo seu blog e fico surpreso com suas viagens. É um mundo de cores, de fotos, de comentários, que preciso me policiar para não ficar horas e horas lendo e vendo o que você posta.

Acho de impressionar a riqueza de detalhes, a sua particular e genuína impressão dos lugares, das coisas, dos hotéis (Four Seasons, kkkk). Tenho confiança que estou lendo, no seu blog, coisas honestas e sem interesses comerciais.

Fico com água na boca dos lugares que você visitou, pois acho que são destinos longínquos e CAROS, tanto a viagem até lá, como as demais coisas que tais viagens requerem. Então, viajo nas suas fotos e palavras, e isso já me dá momentos de prazer e alegria.

Outra coisa, vejo que você tem uma veia de escritor muito boa, com português escorreito, interjeições bem aplicadas, gramática apurada. De onde vem esse seu tino linguístico? Pergunto eu.

Por fim, amigo, tenho umas curiosidades a lhe perguntar, as quais, desde já, aceito com serenidade caso não queira me responder.

São elas: 1. Você trabalha em quê, com quê? Você é formado em Direito? Os gêmeos, nasceram?

Peço desculpas pelas perguntas tããããããão pessoais, viu?

Por último, quero dizer-lhe que já comprei as passagens para ir à Europa, novamente, em Fevereiro de 2016, passarei 20 dias por lá, e não tenho um destino fixo ainda. Já conheci Roma(fui lá 4 vezes), Veneza, Firenze, Milão, Lago de como e vizinhanças. Conheci Londres, Paris, Barcelona, Madrid, Lisboa(4 vezes) Praga, Istambul(fui lá depois de ler seus posts). Pois bem, e agora? vou para onde?

Por fim, eu me chamo João Wilson, tenho 51 anos de idade, sou Auditor Fiscal no RN e resido em Fortaleza, tenho dois filhos universitários, um faz Medicina ( O cara.) e o outro, Informática, estou me divorciando de minha ex esposa nesse momento ( coisas da vida)..

Sou formado em Direito e Matemática. Especialista em Direito Penal e Constitucional.

Por fim, SOU LOUCO POR VIAJENS.

Férias, para mim, quer dizer viajar para EUROPA, no frio, pois detesto o calor.

Fortaleza é quente demais, aliás, aqui só temos verão.

Super abraço, meu caro, Arnaldo. e que Deus lhe dê muitos anos de vida feliz, com sua família, para que você nos retribua com suas viagens, suas apreciações meticulosas e matematicamente calculadas.

Tudo de bom.

Sim, ía me esquecendo, dê uma olhadinha na minha assinatura aqui em baixo.

Olá, João Wilson. Obrigado pelo comentário e visita. Sim, vamos bem por aqui, eu e minha família. Os gêmeos ainda não nasceram mas estão na "bica" de fazê-lo. Mais uma semana e creio que estarão fora da barriga da mãe. Está tudo perfeito com os três, felizmente, mas agradeço seus gentis votos. E parabéns por sua família e seus filhos.

Sou formado em administração de empresas e trabalho com hotelaria e admministração de bens. Meu gosto pela escrita vem desde a infância, mas creia, ainda que pareça, não domino a gramática como supões. É apenas questão de ler e tentar aprender repetindo os que sabem efetivamente escrever. Muitos tambpem acham que sou formado em jornalismo ou direito.

Posso sugerir-lhe Hungria, Áustria, Holanda e tantos outros países na Europa, mas acho que uma maneira legal de encontrar e escolher destinos é ver um mapa. "Passeie" extensamente por ele, depois vá procurando informações e vendo fotos dos lugares que for "descobrindo" nessa viagem pelo mapa e estou certo de que se surpreenderá na quantidade que encontrará de lugares que terá vontade de visitar. Experimente.

Agradeço pela confiança no blog, por reconhecer su honestidade e o não interesse comercial.

Lamento muito que esteja se divorciando de sua ex esposa e espero que ambos consigam manter um relacionamento respeitoso e amigo.

Grande abraço, meu caro João Wilson, volte sempre e ótimas viagem!

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