CONHEÇA O AUTOR

 

         Depois de estabelecer-se na Internet - em 1999 - escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo, da Editora Abril e, agora, prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando, assim, na literatura de viagens com um livro encantador, segundo o autor, o primeiro de uma série de pelo menos quatro que já planeja produzir, dois deles em plena fase.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de apenas uma "conversa" com o leitor, baseada na informalidade, o livro mistura traços desta coloquialidade e informalidade com os de uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida. 

              Minha ascensão na escrita de viagens com este trabalho literário não é exatamente uma novidade. Ainda que recentemente eu tenha notado a mente lampejar com a ideia: tornar-me um escritor de viagens. Todavia, ela sempre me rondou. Mesmo que a alguma distância. Não foram poucos os amigos, parentes e leitores do blog que há mais de dez anos recorrem à pergunta: “Por que não escrever um livro?”

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti na categoria Reportagens

Ronize Aline:

             "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária, crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

 


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Sexta-feira
Jan222016

Etiópia. Clichês, chatices, felicidade, saúde, longevidade e relações humanas 

Entre os muitos motivos porque viajo, experimentar as relações humanas é um dos melhores

                     O que leva alguns amáveis leitores deste blog a sensibilizarem-se com o que escrevo? Ao ponto de às vezes deixarem comentários tão entusisamados? Seria meu jeito de escrever? A franqueza com que o faço? A emoção? Seria por notarem veracidade? Por não tercaptulado à monetização? Não sei ao certo. Mas me faz todo sentido pensar que é pelo conjunto destes motivos. Ainda que no jogo entre quem escreve e quem lê, nada seja previsível. Nem os manuais de redação asseguram jeito infalível de ser eficiente nos relatos de viagens. Especialmente na parte mais difícil deles: a introdução. Dizem as instruções que na abertura devemos ser francos, assim começaremos bem. E atrairemos, contagiaremos o leitor. Já levá-lo até o fim é outra história. E mesmo havendo sucesso na abertura, não será fácil agarrá-lo até a última linha.

                      NADA mais me importa do que isto: captar o leitor. É por ele e por este motivo que escrevo. E o ímpeto que me conduz, quer também levá-lo mais longe na leitura. Ainda que de toda maneira isto me pareça uma pretensão maior que a habilidade. Quero é abrir no leitor os horizontes da mente. E dar-lhe pistas do universo de paixões que povoam a minha. Mostrar-lhe porque me motivam as viagens. E fazer isso não só com o texto, mas auxiliado pelas fotografias. Mas saiba, querido leitor, que aqui também tenho lá minhas dificuldades: selecionar - entre milhares - as fotos que incluirei na matéria para ilustrar o que minhas palavras tentam lhe dizer. Nesse "vale-tudo" na tentativa de transmitir-lhe franqueza (caiba ou não os meios nos manuais de redação), sigo  certo de que pelejo tentando aliar tema aos personagens, ritmo ao tempo, sobretudo interesse à disposição do leitor de ler.

                    E fazer isso sobre alguns lugares e países é ainda mais difícil. No caso da Etiópia, saber por onde começar um resumo é o segredo: primeiro, desmistificando o país, apontando como a Etiópia não é, devido às imagens da fome que tornaram-se o clichê mais evidente do país; segundo, explicar como é de fato, não como o imaginamos.

                    FOI o que me ocorreu quando me preparava para escrever sobre nossa primeira manhã em Addis Abeba: preparar o leitor. Tentar transmitir-lhe a minha sensação de como foi meu espantoso primeiro dia na Capital da Etiópia. ISso quando eu ainda estava lá, não havia sequer pisado fora do hotel, não tinha nada de substancial para dizer. Mas aquela manhã do primeiro dia, o que primeiro me ocorreum foram precisamente os clichês. O país tem muitos. Entre eles, a inquestionável questão da fome. O que me preocupava era saber abordá-la. Sobretudo sem parecer ignorante ou falso. Ignorante por deixá-lo permear meu pensamento, falso por fingir ignorar suas verdades. Depois eu refletia sobre as viagens. Sobre a felicidade de estar ali, e então sobre as relações íntimas das viagens com a felicidade E como conseqüência, com nossa saúde e longevidade. Acredito piamente na relação.

                    ESTAR ali e pensar em coisas assim me deixava um pouco ansioso. Mais ainda como seria minha interação com os etíopes, as relações humanas que eu teria num país tão complexo e radicalmente diferente de qualquer outro. Foi então que percebi fazer sentido partilhar tudo o que senti com você, antes mesmo de contar-lhe minhas impressões sobre Addis.

                      PRIMEIRO, eu queria encontrar um jeito franco e honesto de falar com você sobre os clichês. E não apenas sobre os etíopes, mas o que penso acerca deles. Tenho cá minha interpretação, e se me conhece bem o leitor, não escreverei nada politicamente correto. Especialmente só pra agradar. O falo dirigido pelo que penso e com franqueza. O "politicamente correto” indiscrimidado é apenas mais um jeito que de acabar com a graça de tudo. E o mundo está cheio de chatos politicamente corretor, patrulheiros ideológicos mais chatos que todas as chatices etíopes juntas. Aqui o leitor já sabe que não publico temas polêmicos com opiniões que não correspondam ao que penso, apenas para livrar-me das conseqüências das abordagens politicamente, digamos, "não corretas". A rede já tem chatos demais fazendo o contrário e caga-regras bastantes pra encherem o saco. Então, este blog não faz concessão desse tipo para obter aprovação da galera, da blogosfera, nas redes sociais ou seja lá onde for. Isso é tudo o que não me dirige. Especialmente porque não me integro grupos, associações, coletividades bloguísticas. Sou livre, não preciso escrever para ganhar popularidade para este blog. Aocontrário, até me apetece transgredir suas regras tolas. Já sabe muito bem o leitor que este é um blog marginal, independente e opiniativo. Então, que não encontrará discurso politicamente correto disfarçado sob sectarismos blogosféricos, especialmente o de viagens, o mesmo que tornou alguns bons blogs em medíocres. Não escrevo para provocar "onda" na blogosfera. E não recorro a situações previsíveis para encantar um tipo de leitor que eventualmente se agrade disso. Não preciso ganhar dinheiro com blog, o que é uma grande vanagem. Estou certo de que não faço onda na blogosfera. E que um postezinho como este aqui não faz sequer marolinha. Escrevo para um nicho de leitores especiais e seletivos.

                        AINDA que reconheça que alguns clichês possam estar "errados", que carreguem consigo conotações negativas ou preconceituosas, não os acho nem mentiras nem verdades absolutas. São meias-verdades. A maioria revela efetivamente o fundo de verdade no qual se originaram. Não foram deliberadamene inventados, senão uma visão resumida, ligeiramente distorcida e superficial da realidade mais notável, não do conteúdo mais profundo. O uso frequente dos clichês é que os torna chavões. E rechear relatos de viagens com eles torna tudo tão enfadonho quanto superficial. É cafona basear-se neles tant quanto boboca negá-los para agradar aos leitores e seguidores. Tão bom quanto raro é encontrar textos que os interpretam, cujos autores não se baseiam neles mas os têm como mediadores, não deixam permear-se pelas impressões superficiais mas também não as ignoram.

                        PARA alguns países os clichês são inevitáveis. Formados em evidências verdadeiras e inquestionáveis, como no caso da Etiópia, ali nem é preciso fechar os olhos. É pensar no país e as imagens de fome e pobreza surgirão. Ninguém apagará as inesquecíveis, trágicas, fortíssimas imagens que nos anos 80 circularam o mundo nas revistas e TVs. Mostravam uma realidade brutal - a fome no norte da Etiópia - e consagraram-se num dos momentos mais impactantes do jornalismo televisivo moderno. Se ao invés de imagens nos lembrarmos de uma música, será We Are The World, um dos movimentos em favor de que o mundo olhasse para a Etiópia, assim como o Live Aid, iniciativa do artista e ativista político irlandês Bob Geldof, que na época liderou um esforço de captação de recursos de celebridades para apoiar o combate à fome, porque era "hora de dar uma mão à vida porque pessoas estão morrendo de fome."

                        "FOME na Etiópia" tornou-se o clichê do país. Dos mais amargos. E viajando pelo país percebi que os etíopes não renegam aquela realidade, mas a minimizam afirmando que sua dimensão foi restrita a uma pequena região ao norte do país. E que os estragos que aquelas imagens causaram ao país foram bem maiores do que os que a fome proporcionou. Não gosto de clichês exatamente porque geram tanta superficialidade, mas não sou tolo tentando ignorá-los. Acho ingênuo não reconhecer seus fundamentos, as verdades das situações ou ocorrências que os originaram. Por exemplo, háum fundo de verdade no que falam superficialmente dos cariocas, dos paulistas, dos curitibanos e dos baianos. Ou dos franceses, ingleses e australianos. Gostem eles ou não. É o que os diferencia uns dos outros porque refletem carcaterísticas pessoais, culturais, comportamentais, de gostos, gestuais, de atitudes, de índoles e de personalidade mais proeminentes. Boas ou não.

                      ENTÃO, quando me preparei para viajar à Etiópia, natural seria conhecer seus clichês e compreender suas origens. E lá verifiquei que se já não há a fome devastadora, tudo mais era coerente com a realidade presente ou passada do país. Não apenas as relacionadas à fome e pobreza. Das mentiras e invencionices "históricas" baseadas na religiosidade e na crendice - especialmente as relacionadas à feitura das igrejas de rocha de Lalibela e da Arca da Aliança -, como às ligadas ao Rei Salomão, à Rainha de Sabá, ao Imperador Haile Selassie, à Revolução comunista, à guerra civil. Entre os países da África, a Etiópia é um dos mais misteriosos, mais repletos de clichês, com o perfil mais enigmático e diferente, mais desconhecido paramuito além do que mostram seus clichês e suas meias-verdades.

                       É por isso que para viajar à Etiópia são precisas leitura, análise e avaliações maduras e bem medidas se quisermos chegar ao terreno das consistências e irmos além das superficiailidades dos clichês. Não serei eu, portanto - quer por incompetência, quer por falta de cultura ou por esquecer o bom senso - que "definirei" ou "classificarei" o país e seu povo. Sobretudo com clichês. Ainda que as considerações que o leitor conhecerá no próximo capítulo - Bom dia, Addis. Adeus, Etiópia -, no qual eu relatarei a imensa discrepância entre o que senti no dia de chegada e no da partida, impressões bem ponderadas e baseadas em fatos, não deixo de reconhecer alguma influência de seus clichês e suas meias-verdades sobre o que significou esta viagem à Etiópia para mim. Irei da razão ao nonsense, da pobreza à beleza, do êxtasse ao estresse, da serenidade ao perigo.

Chatices etíopes - Farangi, farangi, farangi! You,you you! Money, money, money!

                       UMA das coisas mais persistentes na Etiópia são as crianças gritando Farangi, farangi! You,you you! Give me money! para os viajantes. Ou uma variante disso. É provável que algumas pessoas irritem-se tanto que até não queiram voltar ao país. Afinal, a “histeria” (como se refere Philip Briggs, autor do Bradt Guide) ou “febre ferangi” (como o faz o Lonely Planet), requer, antes de tudo, conhecer a questão e aprender a administrá-la. Depois, reconhecer que a Etiópia é grandiosa demais pra que isso elimine a vontade de conhecê-la e voltar a ela.  A "histeria farangi" pode parecer inofensiva, e de fato é na maioria das vezes, mas a persistência dela pode esgotar a reservas de bom humor de qualquer viajante que não seja, por exemplo, um monge budista.

Brandindo seus cajados e gritandi farangi, farangi! You,you you!

                       O autor do Bradt Guide nos ensina que a melhor resposta para esse tipo de coisa é zombar gentilmente das crianças, simplesmente gritando de volta: habbishat,  habbishat , habbishat!, que significa "etíope, etíope, etíope!". Nem sempre o bom humor desarma os garotos, mas pode ser uma manobra bem sucedida. O contrário, demostrar raiva e irritação, pode além de incentivar a gritaria, ocasionalmente receber umas pedradas de volta das crianças.

                        FARANGI, farangi, farangi! You,you you! Money, money, money! Stop!, stop!, stop!, às vezes funciona como um mantra e tem efeitos implacáveis nos ouvidos e no cérebro. Claro que não pra todo mundo. Falo de mim. Algumas vezes (não comuns, mas não raras) acompanham-se de pedras e varas jogadas contra os turistas, comportamento não muito compreensivel e até espantoso, que pode ser tanto resultado de aborrecimento, de aversão a estrangeiros, ingenuidade infantil ou curiosidade quanto de frustração, raiva, ódio, expectativa, fascínio, arrogância e excitação. Tudo próprio da histeria.

                        DEPENDENDO do lugar e da situação, as crianças apenas gritam, noutras dançam sacudindo as pernas e gritam. Podem desistir logo, se você estiver trafegando de carro numa estrada, como também persistirem ao máximo com a implicância. Responder qualquer coisa com bom humor e sorriso sempre os acalma. Um aceno e um sorriso, por exemplo os deixa satisfeitos. Ignorá-los, ao contrário, acentua o desejo de importunarem. Manter bom estado de espírito e algum senso de humor é fundamental, coisa que nem sempre eu conseguia, especialmente em Lalibela durante o Timkat. Tudo isso é válido e aplicável também a todas as pessoas que acediam turistas. O perigo de nos fecharmos, de impedirmos a nós mesmos de interagirmos, de responder às intenções genuínas e sinceras de uma simples troca de palavras, um dos maiores prazeres turísticos na Etiópia, é um dos erros mais comuns em que incorremos, porque as experiências de interação podem ser muito agradáveis e encantadoras, ainda que também irritantes e provocativas.

                  OS meninos podem ser genuínos nas suas intenções, e com frequência o são -, ora desejando simplesmente fazer-nos companhia, gozar o simples prazer de caminhar ao nosso lado e de mãos dadas, conversar, exercer sua curiosidade, treinar o inglês, tentarem comunicar-se e eventualmente aprenderem um pouco mais de nós, de nossas vidas e nosso país. Noutras não. Abordam-nos com atitudes sonsas e agressivas, aparentemente apenas por implicância ou por alguma doação de dinheiro. Eu precisaria de muito mais do que quinze dias na Etiópia para aprender a discernir com precisão o que é genuíno do que é esperteza. Não consegui.

                         CRIANÇAS são curiosas em qualquer lugar do mundo. As etíopes que nos digam! Um visitante ocidental sempre será seu foco de suas atenção em qualquer lugar do país. Especialmente no interior. Estrangeiros não são comuns, afinal. Eu não sabia disso antes de chegar à Etiópia. E talvez, depois da Índia, tenha sido o lugar onde éramos mais atraentes. Às vezes vinham sós, noutras num louco turbilhão de crianças gritando e dançando. Certamente há diferentes graus de abordagem e de atuação das crianças nas diferentes regiões do país, mas sempre havia curiosidade sobre nós, quer apenas por olhares e sorrisos discretos e evergnhados, quer comportando-se de maneira estridente. Muitas vezes as crianças eram doces, calmas e infantis, sorridentes e expressavam apenas curiosidade. Engraçado era ouvir seu limitado mas esforçado vocabulário inglês vindo de vozes suave, tímidas. Muitas vezes segurando nossa mão com tamanha doçura que nos desnorteava os sentidos e nos fazia imaginar o que pensavam, nosincentivavam a interagir com elas. Algumas vezes era difícil dizer adeus a essass crianças adoráveis.

                       DE outro lado havia crianças extremamente inconvenientes e irritantes que conseguiam estragar toda nossa simpatia com a experiência anterior. Do jeito delas, corriam em nossa direção gritando birr, birr, birr - a moeda nacional - (dinheiro, dinheiro, dinheiro, em português) depois de faranji, faranji, faranji - estrangeiro em amárico, muito persistentes e teimosas, o que me fez sair do país com uma sensação de que minha relação com as crianças etíopes foi um misto de prazer com iritação.

                      TIVE bom tempo para refletir sobre essas coisas nesta viagem. Algumas ficaram mais claras e compreensíveis, outras ainda mais nebulosas, talvez porque a Etiópia tenha sido o país mais difícil para onde viajei e o que mais exigiu de mim. Físicamente, porque intelectualmente ainda foi a Índia.  Às vezes eu sentia compaixão pela pobreza, noutras raiva quando era hostilizado, quando ouvia provocações em amárico vindas de hordas de crianças em Lalibela  A Etiópia é um país difícil. As pessoas também. Mas ir ao país e explorá-lo é viagem no seu modo mais misterioso e intenso.

                         UM estudo levado a cabo pelo cientista Dr. David Lipschitz - diretor do centro sobre envelhecimento na Universidade de Arkansas para ciências médicas - associa viagens à longevidade, à saúde e à felicidade. Com todo respeito pela ciência, isso pra mim não foi novidade, pois sempre relacionei viagens a estes e tantos outros  benefícios e motivações pessoais. Seria massante descrevê-los todos, por isso pouparei o leitor mencionando apenas dois dos que mais me ocorrem.

                         PRIMEIRO, ter percebido que pessoas são diferentes e assim suas viagens. Alcançar essa consciência equivale a dar um grande salto na própria consciência. Algo fundamental a quem escreve relatos e guias de viagens, aconselha a outros viajantes, dá dicas e sugere roteiros.

Com freqüência queriam só nos dar suas mãozinhas, passear ao nosso lado. Que doçura havia naqueles gestos...

                        FELIZMENTE as pessoas não são iguais. O mundo seria chatíssimo se fossem. Quando comecei a perceber isso passei a discordar vivamente dos que tendo ou não a tal consciência tentam uniformizar gostos e modos de viajar. Padronixá-los. E sugerir que o único e certo jeito de viajar é o deles. Assim como de arrumar malas, o tipo de mala que deve comprar, o que levar dentro delas e tudo mais de linearque não leve em conta o universo tão díspare de necessidades e particularidades, de gostos e objetivos das pessoas quando viajam. Tratar assim países como a Etiópia seria tão prejudicial ao viajante quanto fazê-lo acreditar piamente nos clichês.

                        O segundo motivo foi perceber os benefícios e as motivações que as viagens me proporcionam. Entre tantos, ter a possibilidade de experimentar as interações com as pessoas, o que chamamos de relações humanas. As nossas foram ora tão marcantes quanto tocantes, ora tão inoportunas quanto desagradáveis. Pessoas e costumes diferentes tornam-se algo tão importantes numa viagem quanto as belezas naturais, culturais e as construídas pelo homem. Na Etiópia possibilidades assim são enormes. Também únicas, complexas e difíceis. Com crianças ou adultos, seja por causa do idioma, seja pelos inevitáveis choques culturais. É o desconhecimento e a estranheza de ambas as partes dirigindo e dificultando a interação.

                        NESTE particular eu percebi que um simples abraço, um aperto de mão ou mesmo um olhar carinhoso abria as prtas da receptividade e da doçura. Eliminavam parte das dificuldades e sugeriam que fôssemos mais a fundo para termos experiências notáveis, aidna que curtas, passageiras. Interagir com os locais foi tão marcante nesta viagem à Etiópia uanto tudo mais. Ainda que "interagir" por vezes significasse quase "lutar".

Em Harar, no "olho do furacão" das relações humanas

                         SE para mim não há nada mais estimulante e criativo do que viajar, que escolher para onde vou, que planejar e sonhar com minhas viagens, à Etiópia consagrou-se como um dos melhores investimentos que já fiz em viagens. Por tudo, por todos, por muito mais sou imensamente grato.

  

______________________________________________________________________

A SEGUIR

Bom dia, Addis. Adeus Etiópia.

A PRIMEIRA hora. Na primeira manhã, o dia da "felicidade viajante".

                      A DESPEDIDA.  Sem saber dizer adeus

Notas

 

Philip Briggs, autor do Bradt Guide Ethiopia. Não há cobertura mais recomendável e abrangente, superior até mesmo aos sempre bons Lonely Planet. Para os entusiastas de viagens à África, Philip Briggs precisa ser conhecido: foi autor de 14 guias Bradt e de alguns livros sobre outros países africanos. E ele e sua esposa fotógrafa, Ariadne Van Zandbergen, regularmente contribuem para revistas especializadas em África. O Bradt Guide Ethiopia tornou-se uma 'bíblia' para viajantes que planejam visitar o país e nos acompanhou em cada quilômetro de estrada ou metro de cidade.  

Reader Comments (3)

Um texto perfeito. Dá que pensar e sem ser, de nenhum modo, politicamente incorreto. As experiências vividas nas viagens, é o que faz que uma viagem seja enriquecedor. Para que isto seja possível, a interação entre as pessoas é importantíssima. Só uma vez tive uma sensação incómoda, diferente. Em uma viagem, percorríamos o centro histórico de uma pequena cidade e de repente um montão de pessoas rodearam-me e pediram-me dinheiro, sem parar. Não sabia que fazer. Não tinha pára todos. Senti-me pressionada e superada. Foi tão triste que quando cheguei ao hotel rompi a chorar.
A cada dia, pela manhã, quando vou trabalhar, observo às pessoas de minha cidade pressionadas, enfadades e/ou tristes. Entram-me vontades de dizer, com um sorriso: ¡bons dias! São tantas as coisas que temos e damos por fato que devemos de ter como água potável, comida saudável e/ou vacinas etc e que isso é algo normal, mas não o é. Muitos milhões de pessoas vivem em meios muito complicados e difíceis, sem acesso ao água...

Não em este o seu post, em nas fotos de algumas reportagens sobre África, incomoda-me muito ver nas fotos as roupas de nosso primeiro mundo ali, em África. Sueters de inverno de pura lana, em pequenos corpos dos meninos a 40 graus de temperatura ou roupas das grandes marcas. Roupas que nós não queremos e atiramos para seguir consumindo sem fim e que rompem sua antiga estrutura de tecer e costurar.Antigamente, em África existia uma importante e boa manufatura de roupa de algodão e que as próprias mulheres teciam e teñían suas próprias teias...

15:39 | Unregistered CommenterCarmen

CARMEN, obrigado pelo comentário, um bom depoimento e um complemento ao posto. Um grande abraço e obrigado pelas visitas.

Arnaldo,

Como sempre seus textos é como um oásis na blogosfera...

"Entre tantos, ter a possibilidade de experimentar as interações com as pessoas, o que chamamos de relações humanas. As nossas foram ora tão marcantes quanto tocantes, ora tão inoportunas quanto desagradáveis. Pessoas e costumes diferentes tornam-se algo tão importantes numa viagem quanto as belezas naturais, culturais e as construídas pelo homem. "

Talvez, seja isso que muitos estão deixando de aprender ao viajar: valorizar as relações humanas, valorizar a cultura local.
Um destino vai muito além que uma praia linda, um museu famoso ou o espetáculo dos sonhos, existe pessoas por trás daquele destino com as quais aprendemos muito.

Parabéns!

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