CONHEÇA O AUTOR

 

         Depois de estabelecer-se na Internet - em 1999 - escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo, da Editora Abril e, agora, prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando, assim, na literatura de viagens com um livro encantador, segundo o autor, o primeiro de uma série de pelo menos quatro que já planeja produzir, dois deles em plena fase.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de apenas uma "conversa" com o leitor, baseada na informalidade, o livro mistura traços desta coloquialidade e informalidade com os de uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida. 

              Minha ascensão na escrita de viagens com este trabalho literário não é exatamente uma novidade. Ainda que recentemente eu tenha notado a mente lampejar com a ideia: tornar-me um escritor de viagens. Todavia, ela sempre me rondou. Mesmo que a alguma distância. Não foram poucos os amigos, parentes e leitores do blog que há mais de dez anos recorrem à pergunta: “Por que não escrever um livro?”

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti na categoria Reportagens

Ronize Aline:

             "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária, crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

 


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Terça-feira
Mar012016

A vida flutua no Lago Inle, Myanmar

PRÓLOGO - A diferença entre "ver" e "olhar"   ________________________________________

A menina e o lago

                    NÃO são os momentos simples, doces e serenos que costumam marcar minhas viagens, senão os energéticos. Coisa de capricorniano. Mas no Lago Inle, deu-se o contrário. Foi contemplando a serenidade da vida no lago, deliciando-me com os ambientes naturais e os costumes, exercitando o simples prazer da observação que percebi estar vivendo um dos momentos mais marcantes daquela preciosa viagem. Pela placidez e fragilidade do meio ambiente e do modo de vida, eu reconheci que nossa simples presença poderia corromper e macular ambos. Ainda que consciente e deliberadamente observássemos sem ousadia, sem interferirência, às vezes o silêncio era tanto que significava bem mais do que a simples ausência de som: tinha significado, valor.

A moça e o lago

                    AO refletir sobre aquele modo de vida tão, digamos, brando, e sobre uma suavidade que já não consigo notar onde quer que eu vá, menos ainda em como e onde vivemos, quando comecei a escrever este post lembrei-me da mesma ternura quando observo o sono de meus gêmos. Costumo olhá-los assim, com o mesmo encantamento, ser tocado por seus repousos ingênuos, do mesmo modo que fazia no Lago Inle: em silêncio, fazendo meu melhor para não interferir. Ali, nas primeiras horas da manhã de nosso primeiro dia de exploração do lago, eu estava tão tocado quanto lembrei-me de como fico ao fitar o sono de meus bebês. Pureza, serenidade e de dó em sentia percebendo que o turismo logo mudaria a autenticidade. E uma certa culpa por servir-me de tudo como turista.

Ver ou olhar? Assistir ou interferir?

                          COMO espectadores discretos e turistas conscientes, como quem olha pela primeira vez, e sabe que o olhar e a presença podem macular o momento, que qualquer movimento e som não natural podem ser agressivoe, alguns até vulgares - como os cliques de minha câmera - sentia-me um pouco me constrangido. Eu não queria, não precisava e não devia interferir, mas sim usufruir, observar e admirar. E terminava por sentir o imenso prazer que uma simples observação com  "olhar viajante", aquele de quem observa com renúncia a si mesmo, entrega-se ao que olha cuidando para não tirar ou acrescenta nada ao que vê, pode nos proporcionar.

O homem e o lago

                          OS anos passam e vou percebendo o quanto agem como conselheiros. E aqui,  especialmente, produzindo virtudes capazes de adicionar mais qualidade às minhas viagens. Por exemplo,  me traz compreensão de que há diferenças entre "ver" e "olhar". O assunto já é abordado pela Filosofia, que analisa os diferentes jeitos de ver e de olhar dos indivíduo, de tal maneira que demonstra estarem vendo as mesmas coisas mas enxergando diferenças e contradições nelas. Conclui, então, que mesmo  sendo sinônimos, "ver" e "olhar" têm significados distintos. O "olhar" é com olho dócil, que capta o que enxerga com discrição, passividade, sobretudo reserva de si e cuidando para não interfererir. “Ver” é diferente, isto é, mais sujeito às virtudes e personalidade do observador, que enxerga de jeito investigativo, com certa superioridade.

Sobre barcos ou em palafitas, a vida flutua no Lago Inle

                       NO Lago Inle a vida é levada por gente simples, mas de talentos incomuns. Na verdade, são tão extraordinárias suas comunidades, a ecologia, o meio ambiente, as tradições, a cultura e o modo de vida que não há como deixar de ser tocado por eles. Vestem-se, plantam, moram, movem-se, transportam-se, pescam, usam adubos orgânicos, enfim, produzem, fabricam, tudo absolutamente único e exclusivo, que não se encontra em nenhum outro lugardo planeta. Nem mesmo em Myanmar. Vivem em aldeias às margens do lago ou sobre ele em palafitas. São pescadores, artesãos, agricultores, trabalhadores, donas de casa, crianças, jovens, adultos e idosos que quando nos vêm acenam com simpatia; cuidam de suas hornas e até pomares em canteiros flutuantes; pássaros sobrevoam todo o tempo em busca de petiscos; senhoras remam decididas, mas lentamente em direção aos seus destinos. E conversam baixinho. Tudo o que uma dedicada observação e reflexão nos faz concluir que como intrusos, devemos observar com extremo cuidado. E depois, creio que assim como nós também nenhum outro olhador cuidadoso, sentir imenso orgulho por ter aprendido a olhar assim: com reverência. E o privilégio por ter vivido mais um dos encantadores momentos que apenas as viagens podem nos proporcionar. Num dos mais bem guardados segredos turísticos do mundo. Mas já há hotéis, restaurantes e serviços turísticos em boa conta também sobre as águas deste lago.

Às vezes o silêncio era mais que a simples ausência de som

INTRODUÇÃO - UMA verdade que continua sendo 

                      O que Zanzibar, Timbuktu, Tiébelé, Ouagadugu e Mandalay têm em comum? Nomes que parecem de lugares abstratos, saídos de obras ficção ou de realismo mágico. E que mesmo certos de que são concretos, têm uma realidade tão surpreendentemente nova e desconhecida que custamos a perceber não serem obras da imaginação. Nas minhas palavras, estes são lugares "memoráveis". Nas de Rudyard Kipling, "que não se parecem com nenhum outro". Foi como o inglês definiu Mandalay no poema do mesmo nome. Quem conhece a cidade - segunda maior de Myanmar, bem no centro do país e às margens do Rio Irauádi - atribuirá justiça ao poeta. E precisão. E além de seu insuspeito talento, reconhecerá sua invulgar capacidade de sintetizar num poema sabiamente economizando adjetivos e superlativos, mas descrevendo um lugar ao ponto de nos fazer a sentir sua atmosfera. Mas há outro lado na história deste poema de Kipling. Ainda mais surpreendente que sua qualidade. E quem sabe dela, ficará ainda mais surpreso com o talento do poeta: ele jamais esteve em Mandalay!    

"Lugar que não se parece com nenhum outro" 

                      KIPLING visitou o país, por certo. Do contrário eu haveria de pensar tratar-se de um competente mentiroso. Definitivamente não. Mas o inglês esteve por apenas três dias. E não além de Yangon - a Capital. Valorizo sua intuição, sua sensibilidade ao descrever com tal precisão um lugar sem nunda ter estado nele. Intuição com notável fidelidade. Qualquer mortal, simples viajante como eu que já estivesse em Myanmar constataria o brilho das palavras de Kipling. E por todo o país, não só em Mandalay. Provavelmente mais do que isso, sentiria verdade nas palavras do poeta, ainda que à sua moda e a seu tempo, de um jeito que roça a fantasia. Todos haveriam de perceber que o autor fora tocado pela estranheza daquele mundo tão diferente, cuja mente prodigiosa fez unir palavras com tal brilho. Por tudo o que vi, o que vivi e experimentei em Myanmar, não ousaria discordar de Kipling. E ainda hoje surpreendo-me que corridos tantos anos ainda correspondam fielmente à realidade.

Mais que beleza, a vida no lago tem certo poder de inebriar o espectador

                       NÃO importa se aqui ou ali o poema revele um sotaque colonialista britânico, que mostre uma visão ocidental do que seja exotismo. Compreendo que haja lugares assim no mundo, para os quais basta pronunciarmos seus nomes para que nos inspirem magia e sedução. Alguns até que nos toquem o coração e a mente e nos preencham de sua atmosfera, de romantismo, de exotismo e mistérios. Tanto que nos convidam a conhecê-los. Provavelmente foi do que o poeta precisou: pronunciar "Mandalay" para sua mente por-se em marcha para produzir poesia. Não tenho como aquilatar a intensidade, mas senti o mesmo que o poeta quando visitei Mandalay. E não apenas lá, mas por todo Myanmar. Reconheço que não sou grande coisa como escritor, mesmos assim, sem sombra de sua capacidade, mas sem também dela ao complexo, atrevo-me exercitando minha liberdade criativa ao descrever minhas impressões do Lago Inle.

Eu aproveitava cada minuto de contemplação como se fosse o último

                      QUANDO saímos da vastidão do centro do Lago Inle e entrarmos nos seus canais estreitos, o momento separava a imensidão belíssima do que é mais notável por ali: o modo de vida de seus habitantes. Absolutamente fascinante. Até aquele momento estávamos apenas imaginando o que seria nossa visita a um dos lugares mais notáveis de Myanmar, e então fomos engolidos pela realidade que qualquer imaginação, por mais criativa e fértil, não é capaz de nos fazer supor. Já havíamos passado por nada menos que Bagan, com seus lendários pagodes, lugar tão fascinante que não consigo imaginar não atrair todos os viajantes do mundo, mas apenas 2, 3 milhões deles. Até chegar ao Inle eu não poderia supor que algo mais  oderia acenar-me tão entusiasmante neste país do sudeste asiático. Enquanto Bagan merece com justiça todas as suas melhores classificações, merecidamente ter-se tornado seu principal cartão de visita, o Lago Inle foi o que mais me marcou. E o que primeiro vem à mente ao me recordar do país. 

                       POR mais breve, por mais leve que fosse o momento, eu pressentia estar sendo marcado por ele. Lugar, tempo e espaço. Algo mudava em mim naquela viagem, não sei bem o que, talvez a consciência simples do quanto viajar é legal. Sobretudo porque nos faz conhecer lugares assim, que levam nosso coração e provocam marcas na mente. E não raro, mudanças na gente. Tenho sorte de ter sido posto nessa vida. E o privilégio de ter visitado lugares encantadores e marcantes, todavia poucos como o Lago Inle.

                       POR isso, e por tantos outros motivos, gosto de viajar. Sem pretensões baratas, sou levado a crer que as viagens são tão importantes para mim que não posso imaginar que não sejam para todas as pessoas que viajam. Mas não mais importantes do que de fato importam. Quero dizer, não superestimo as viagens: se podem eventualmente mudar a vida de algumas pessoas (de alguma forma a minha mudaram), convenhamos, há muita psicologia barata, muito jargão em torno do tema. Nem é preciso investigação profunda: verifica-se - mesmo na superfície - que "viagem" e "viajante" são objetos duma insuspeitada superficialidade de definições. E com tal extensão de conceitos, múltiplas as definições baratas, motivos porque quase sempre recuo ante o desejo de descrever minhas reflexões sobre o tema.

Qualquer som pode ser agressivo, quase vulgar. Mesmo até os cliques da câmera

                       EU só percebi que as viagens estavam mudando minha vida depois que aprendi a viajar: com menos ego. E a olhar: menos cheio de mim. Quanto menos eu, mais o destino e as pessoas tornavam-se melhores. E assim as minhas viagens. Percebia que algo em mim mudava quando tive consciência de que não sou nada, o destino é tudo. Então passei a compreender e valorizar certas citações temáticas sobre as viagens, mesmo as tão desgastadas. Muitos pensadores refletiram sobre o tema. Incontáveis citações encontram-se na literatura e nablogosfera mundial de viagens. Ao ponto de desgastarem-nas. Mas reconheço, foram o mote para inspirar-me na introdução a este capítulo. E por certo já sabe o leitor (tantas vezes eu já lhe disse!), iniciar um texto é sempre a parte mais difícil. Mais que o desenvolvimento e a conclusão. Afinal, é com ela que tento estabelecer o "diálogo" com o leitor.

Era possível notar um meio ambiente pouco alterado

                      AINDA que as viagens de hoje tenham perdido o romantismo aventureiro de outrora, continuam a seduzir pessoas e pensamentos. Sobretudo este, como as viagens podem mudar a vida da gente. Se é mesmo possível que mudem, concordo em parte: há excessos, exageros demais, um jeito meio jargão de definir esse poder todo das viagens sobre as "mudanças de vida". Há bons pensamentos, claro. Desses que além de tudo costumam levar-nos a boas reflexões. E se para quem gosta tanto, "viagem" é assunto naturalmente sedutor, para quem como eu as tem em boa conta, acredita que está entre as melhores coisas que o dinheiro pode comprar, então refletir sobre elas é sempre sedutor e inspirador.

Havia um frescor notável naquela manhã, e um cheiro de antigo ao passarmos perto de um templo antigo

                        NESTE ponto dou razão a John Steinbeck: “As pessoas não fazem as viagens, as viagens é que fazem as pessoas”. Mas há um lado dos pensadores que desgosto. São os que escrevem como Paulo Coelho, os escritores de manuais de auto-ajuda, que embora façam parecer tudo fácil, nada é tão facinho como um estalar de dedos. A vida é complexa demais, inexplicável demais para credibilizar vãs filosofias. Viagens só mudam a alguns. E mesmo assim depois que atingem certa maturidade. E que encham seus tanques de bom conteúdo intelectual, que alcancem boa capacidade de discernimento, que aprendam a viajar olhando com novos olhos. Do contrário, viagens servem “apenas” para entreter. E para todos nós, nos fazerem mais felizes. As minhas viagens, em boa conta, "mudaram" minha vida por causa das relações humanas. E por presenciar comportamentos sociais e modos de vida tão singulares que por vezes me pareciam abstratos, ficcionais. Como a vida no Lago Inle, que diferentemente do que foi para Kipling, para mim um sonho real.


  O Lago Inle e meu sonho real   ____________________________________________________

                       ACORDAMOS cedo. E depois do café nos pusemos na beira do deck aguardando no ancoradouro do hotel o barco que nos levaria a explorar o Lago Inle. Eu observava a tudo com tranquilidade, estava relaxado. Quero dizer, capricornianos "acham" que estão relaxados, mas nunca! Talvez porque experimentem certo constrangimento quando estão a viajar. Algo como certa "culpa" por terem deixado obrigações e deveres por fazer, o que pra nós sempre vem sempre antes da diversão. Mas nada como a visão daquele pequeno pedaço do lago para aplacar sensações digamos, inadequadas. Era muito promissora aquela vista àquela hora. E se não me cabiam ansiedade e dúvidas de que os deveres estavam cumpridos, o que eu espiava tornava-se ainda mais magnífico, mesmo sem saber que tudo era simples amostra de tudo o que eu conheceria ao longo do dia no lago. 

De manhã cedo o céu era fosco no hotel palafita

                        A manhã começou fosca. Nuvens encobriam o Sol e atenuavam a luminosidade e as cores do lago. Mas tinha um frescor notável. Não era a luz cintilante que eu vira nas lindas fotos, daquelas que brilham como lampadinhas de Natal na superfície da água, que mais que iluminam, dão palco para que a beleza do lago desempenhe seu papel. Eu imaginava o que faria com uma luz daquelas e minha câmera nas mãos. Talvez por isso meu pensamento não se debatesse como de costume, contestando-me entre "olhar" ou "fotografar". A luz não era maravilhosa, então eu podia apenas assistir, sem culpas por não fotografar. Como um vagabundo. Sem pressa ou compromisso. Não como um turista com uma agenda a cumprir. Aproveitava cada minuto de contemplação como se fosse o último, não os primeiros daquela manhã. E mal sabia que em poucas horas o dia se tornaria esplendorosamente claro, luminoso, cintilante. E o por do sol, um desbunde!

Logo surgiu uma luz cintilante, que refletida na superfície do lago, brilhava como estrelinhas

                       "Importa-se?", pergunto à minha mulher. "Obrigado". Sentei-me no banco à sua frente e em direção à proa. Seguimos o roteiro previsto para o dia, de manhã até ao pôr do sol: assistir o ritmo sugestivo de vida dos habitantes, as belezas naturais do lago e as construídas pelo homem. Era possível notar um meio ambiente pouco alterado, um cheiro de antigo quando passávamos perto dos mosteiros, e a placidez da vida no lago. Mais que beleza, aquilo tudo tinha um poder inebriante. Além de curioso, encantador e tão impressionista. Lembrei-me da elegância das palavras de Kipling que há tantos anos tocara-se por este país remoto, singular e até então pouco conhecido. Sim, hoje não é mais proibido ou esquecido, o turismo chegou. Mas a globalização ainda parece obra de ficção, e "modernidade" não algo visível. E nem faz falta.

 "Importa-se?", pergunto à minha mulher. "Obrigado"

                      Seguimos no barulhento, veloz barco de rabeta longa, hábilmente conduzido, e logo percebi que ali não é a figura humana quem comanda. Nem que aparenta ditar as regras. Senão a natureza. Mesmo que a engenhosidade humana seja demonstrada na sua inequívocal, incrível capacidade de adaptar-se ao meio ambiente. E especialmente no Lago Inle observada num nível particularmente inventivo: as plantações são feitas em “terrenos” flutuantes...

...a seda é feita de uma planta colhida no lago, há tradicionais ferreiros que fabricam implementos agrícolas simples de ferro forjado e batido, artesãosdejóias de prata, tudo sobre as águas. Pescadores remam com o pé, homens vestem-se com "saias", recolhem-se lodo e algas para servirem de adubo, os pomares flutuantes ancoram-se em bambus fincados no leito do lago, as ruas são canais, os veículos são canoas, as mulheres fumam os "famosos" cheroot, charutos birmaneses feitos de folhas de fumo com ervas e mel embrulhados na folha que lhes dá o nome. Além de toda beleza natural e cultural do povo da etnia intha (*1), há elegantes mosteiros.  

Os homens remam com a perna...

                     JÁ não se trata mais de uma fantasia como descreveu Kipling. Nem se escrevem mais contos de fadas, romances ou aventuras de de viagens. Hoje são relatos. Como estes aqui. Myanmar já não é mais inacessível, perigosa e nem mesmo misteriosa como nos tempos da ditadura. Mas ainda guarda boa capacidade de surpreender. Turisticamente falando, ainda “toma” o viajante de diferentes maneiras.

Os pescadores e sua técnica singular

                     OS curiosos pescadores do Lago Inle, por exemplo. Parecem obra de ficção. Não se encontram em nenhum outro lugar, nem mesmo no país. São símbolo do Lago Inle, tornaram-se imagens das mais divulgadas de Myanmar, provavelmente até mais do que as dos mil templos de Bagan.  Conduzem suas canoas com um remo entrelaçado na perna direita, de pé sob a perna esquerda na popa de suas canoas, manejando uma rede ou um singular artefato de pesca - uma armadilha de madeira ou bambu em forma de cone, revestida de uma rede, cujas dimensões são pelo menos o dobro de sua estatura. De outras maneiras também usam suas embarcações, mas aí não as conduzem do jeito que pescam. Mergulham no lago para recolher algas e plantas lacustres que entulham suas canoas até onde couber. Serão usadas como adubo orgânico nas hortas e fazendas flutuantes.

Os templos também ficam sobre as águas e são encantadores

                         OS mosteiros contam-se mais de 200. Mas todos os turistas vão ao Nga Hpe Kyaung, mais conhecido como "mosteiro dos gatos saltantes". Havia dezenas desse felinos que eram treinados pelos monges para saltarem e passarem através de arcos de metal. Tornaram-se uma das maiores atrações do lago. Então, os monges que mandam no lugar mandaram que os aspirantes a monges parassem com a exibição turística. Os gatos não pulam mais, mas circulam pelo mosteiro como se fossem seus. O que vale mesmo, afinal, é a construção, toda de madeira e sobre estrutura de palafitas desde 1890, além das dezenas de imagens de Budas ornamentados, trazidas ao mosteiro durante a segunda guerra mundial para que ficassem em segurança em vez de em suas casas em santuários particulares.

 

Nga Hpe Kyaung

                       AO todo, cerca de 170.000 pessoas dos diferentes grupos étnicos do país vivem sobre as águas do lago e nos seus arredores. A atividade e negócio principais são a agricultura, daquela forma de produção incomum sobre “terras” flutuantes. Mas também ali há produção artesanal de artigos em prata, de curiosos tecidos de "seda" vegetal...

... e de charutos.

Os "famosos" cheroot, charutos birmaneses

                      DEVIDO à localização pitoresca e à paisagem incomum combinadas ao exclusivo estilo de vida e às tradições dos habitantes, o lago tornou-se um dos destinos turísticos primários no país.  

                        NA última década, todavia, o lago enfrenta ameaças graves, felizmente não pelo turismo de massa e seus infalíveis impactos, mas devido a questões naturais que têm ocasionado a deterioração da qualidade da água e o encolhimento de sua área. Um deles chama-se eutrofização, processo através do qual a água adquire altos níveis de nutrientes químicos - especialmente fosfatos e nitratos - que provocam o acúmulo de matéria orgânica em decomposição no seu leito. Provocam maus odores, mortandade de peixes e alterações importantes na biodiversidade aquática e a redução da capacidade de navegação e de transporte, além de modificações na qualidade, na quantidade de peixes, sobretudo no seu valor comercial.

  No fim daquele luminoso dia chegamos a tempo de admirar o por do sol desde nosso hotel-palafita

                        HÁ estudos e investimentos sérios - levados a cabo por um programa de gerenciamento e monitoramento ambiental do lago - com o objetivo identificar seus problemas e preparar um plano de manejo para sua conservação e recuperação, o que seria profundamente interessante para todos, especialmente para os que nele vivem, como também para o turismo, uma vez que todas as atividades rotineiras e originais se manteriam para o deleite dos visitantes. Especialmente os que dedicam-se ao ecoturismo.

Dourado como poucos, o por do sol no Lago Inle era como uma celebração à nossa visita

                        MYANMAR inteiro é um país surpreendente e especial. Não apenas o Lago Inle. E também repleto de situações raras e inabituais que enchem de prazer qualquer turista. Ao final de nossa estada percebi que aquele foi um destino de onde voltei sem ter voltado. Onde deixei mais um pedaço do meu coração. E para onde sonho um dia retornar. Se eu tinha expectativas sobre o lago, jamais pensei que pudessem ser tão ultrapassadas. E depois de passar os dias vendo a vida passar no lago, no último, enquanto eu assistia ao Pôr do Sol, vivia mais um momento me encorajava a refletir. Não sobre esses doces momentos que vivo em viagens, mas sobre o privilégio de viajar para lugares como o Lago Inle.

NOTAS

Do total da população do Lago Inle, certa de 80.000 são da etnia Intha, famosa pela técnica no uso do remo, mais além, por serem grandes produtores de hortaliças e frutas em terrenos flutuantes. Os Intha e os Pa’O são duas das tribos das montanhas de Mianmar que habitam o em torno do Lago Inle. Ambos falam dialetos e birmanês. O Pa'O são o segundo grupo étnico do estado de Shan, um ramo da etnia Karen, e sua principal fonte de renda é a produção de folhas de thanapet, usada para fazer o ‘famoso” charuto tradicional birmanês.

Apesar de Mianmar só recentemente ter aberto suas portas ao turismo, ele está crescendo fortemente. Com apenas 2 milhões de visitantes em 2013, Mianmar ainda é um país considerável dos menos visitados do mundo, portanto, extremamente interessante deste ponto de vista. O turismo nesta conta em Mianmar ainda é irrisório em comparação com vizinhos como a Tailândia, com mais 26 milhões de turistas ao ano, por exemplo. Mas isso significa que Myanmar seja intocada. Tampouco que não esteja se modificando por causa do turismo. Infelizmente não. Bagan e o Lago Inle, por exemplo, já podem deixar um certo de gosto na boca par aquém esperava deparar-se com um lugar inexplorado. Então, nada melhor do que pensar em visitar o país o mais rapidamente possível, antes que ele se transforme numa Tailândia.

Os agricultores cultivam arroz, frutas e legumes e verduras. Tomate, feijão, couve-flor, repolho, berinjela, alho, cebola, bétel, melão, mamão e banana. Usam plataformas feitas de ervas daninhas e bambu como jardins de flutuação. Estes jardins flutuam, subindo e descendo com as alterações do nível da água. Em resumo, é uma forma hidropônica conjugada com tradicional de cultivo. O princípio é simples. Em vez de crescer na terra, necessitar de um sistema de irrigação, os canteiros flutuam em ilhas feitas de material orgânico emaranhado e misturado a sedimentos do fundo do lago. Ancoradas no lugar, as ilhas são resistentes o bastante para que o que é plantado cresça com êxito, com a característica que após certa profundidade as raízes continuem crescendo dentro da água fresca e com nutrientes. Para criar os campos flutuantes pode-se gastar até 10 anos até que haja quantidade necessária de elementos sólidos e emaranhados que supram de matéria orgânica o que for plantado e lhes dê sustentação física. Acelera-se o processo colocando lodo do fundo lago e adicionando algas e plantas.

Bétel é uma pimenteira cuja folha é chamada de bétele, e apreciada como estimulante leve e por suas “propriedades medicinais” que acreditam ter. Em Myanmar a folha verde é recheada, depois enrolada com uma pasta de ervas, entre elas cravo, anis, coco ralado, canela, cânfora, sementes de cardamomo, cominho e tabaco. Os usuários de bétel revelam seu vício quando sorriem. Seus dentes são manchados de uma cor preto avermelhada, tingidos por anos de mastigação da folha recheada, cuidadosamente dobrada em forma de um pequeno pacote - a que chamam libra - depois posto dentro de um pequeno saco de celofane. Os usuários colocam a libra na boca e a sugam lentamente. O conteúdo se decompõe e os ingredientes vão deixando um sabor de hortelã, que dizem ser agradável, mas amargo. Talvez muitos sem saberem que o costume lhes dará um câncer bucal. É onipresente em Myanmar, e muitas pessoas mastigam bétel incessantemente, apesar das tentativas do governo de frear a prática, sobretudo de cuspir o resultado da mastigação. As calçadas são cobertas de manchas vermelhas porque quando terminam de mastigar longamente suas libras de bétel, cospem no chão o resultado da mastigação, já que ele não é para ser engolido. E tingem permanentemente da cor o concreto. Em Yangon há centenas de barracas de noz de betel com alguém atrás as preparando e vendendo. A da foto a seguir foi no Lago Inle.


Reader Comments (4)

Viajando no tempo com seu post. Muito bom.
Acho que você vai gostar do documentário da BBC de 20/2/2016 Kiplings.Indian.Adventure.

16:48 | Unregistered CommenterElizabeth

Assim, com cuidado de não fazer muito ruído escrevo este comentário. Arnaldo, que bonita maneira de observar a vida tranquila dos habitantes do Lago Inle!. Eu gostei do texto e das fotos. Espero que não chegue nunca esse turismo de massas ruidoso e maleducado.

Dá-me certa pereza ir a Ásia, porque são muitas horas em avião, mas ali existem países que gostaria muito conhecer, como deste de Myanmar, Vietnã, Camboja e alguns outro mais.
Cumprimentos e doces beijos aos bebês

14:54 | Unregistered CommenterCarmen

Não tenho palavras pra descrever a minha identificação e admiração pelo seu texto e sentimento. Estive em Myanmar no ano passado, e também me encantei profundamente pelo Inle, e por tudo isso que você conseguiu colocar tão bem em palavras. Suas fotos lindíssimas me fizeram relembrar uma viagem inesquecível! Grande abraço

Prezado Arnaldo,

Será que alguém consegue ler os seus textos e ver as suas fotos e não ter vontade de pegar o primeiro avião para o mesmo destino?
Eu não consigo. Cada post que leio vem carregado de um imediato desejo de ver ao vivo tudo aquilo que você descreve tão bem.
Esse do Lago Inle, em particular, é encantador. Das fotos não posso dizer nada a não ser "impressionantes".
Você e a Emília são inspiradores!
Abraço.

10:37 | Unregistered CommenterLarissa

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