CONHEÇA O AUTOR

          

         Depois de estabelecer-se na Internet desde 1999 escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema e, depois, em 2006, ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - foi convidado a colaborar com matérias suas publicadas na Revista Viagem & Turismo (Editora Abril). Agora, Arnaldo prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando na literatura com um livro encantador que, segundo o autor, é o primeiro de uma série.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui neste blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de uma conversa com o leitor, baseada na informalidade, no livro misturo traços desta coloquialidade e informalidade com uma escrita literária, sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que - de certa forma e por outro lado- é outra maneira de me expressar sobre minhas viagens, transmitindo sem fantasias o mundo que vejo - como ele é, não como o imaginava -, ainda que a leitura revele expectativas muitas vezes não confirmadas sobre o destino. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, ‘Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro’.  A partir deste primeiro livro, considero esta uma nova fase na minha vida."

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo Trindade Affonso é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti 2013 na categoria Reportagens

Ronize Aline:

            "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária e crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista passou pelas redações das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

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Sexta-feira
Jan222016

Etiópia. Clichês, chatices, felicidade, saúde, longevidade e relações humanas 

Entre os muitos motivos porque viajo, experimentar as relações humanas é um dos melhores

                     O que leva alguns amáveis leitores deste blog a sensibilizarem-se com o que escrevo? Ao ponto de às vezes deixarem comentários tão entusisamados? Seria meu jeito de escrever? A franqueza com que o faço? A emoção? Seria por notarem veracidade? Por não tercaptulado à monetização? Não sei ao certo. Mas me faz todo sentido pensar que é pelo conjunto destes motivos. Ainda que no jogo entre quem escreve e quem lê, nada seja previsível. Nem os manuais de redação asseguram jeito infalível de ser eficiente nos relatos de viagens. Especialmente na parte mais difícil deles: a introdução. Dizem as instruções que na abertura devemos ser francos, assim começaremos bem. E atrairemos, contagiaremos o leitor. Já levá-lo até o fim é outra história. E mesmo havendo sucesso na abertura, não será fácil agarrá-lo até a última linha.

                      NADA mais me importa do que isto: captar o leitor. É por ele e por este motivo que escrevo. E o ímpeto que me conduz, quer também levá-lo mais longe na leitura. Ainda que de toda maneira isto me pareça uma pretensão maior que a habilidade. Quero é abrir no leitor os horizontes da mente. E dar-lhe pistas do universo de paixões que povoam a minha. Mostrar-lhe porque me motivam as viagens. E fazer isso não só com o texto, mas auxiliado pelas fotografias. Mas saiba, querido leitor, que aqui também tenho lá minhas dificuldades: selecionar - entre milhares - as fotos que incluirei na matéria para ilustrar o que minhas palavras tentam lhe dizer. Nesse "vale-tudo" na tentativa de transmitir-lhe franqueza (caiba ou não os meios nos manuais de redação), sigo  certo de que pelejo tentando aliar tema aos personagens, ritmo ao tempo, sobretudo interesse à disposição do leitor de ler.

                    E fazer isso sobre alguns lugares e países é ainda mais difícil. No caso da Etiópia, saber por onde começar um resumo é o segredo: primeiro, desmistificando o país, apontando como a Etiópia não é, devido às imagens da fome que tornaram-se o clichê mais evidente do país; segundo, explicar como é de fato, não como o imaginamos.

                    FOI o que me ocorreu quando me preparava para escrever sobre nossa primeira manhã em Addis Abeba: preparar o leitor. Tentar transmitir-lhe a minha sensação de como foi meu espantoso primeiro dia na Capital da Etiópia. ISso quando eu ainda estava lá, não havia sequer pisado fora do hotel, não tinha nada de substancial para dizer. Mas aquela manhã do primeiro dia, o que primeiro me ocorreum foram precisamente os clichês. O país tem muitos. Entre eles, a inquestionável questão da fome. O que me preocupava era saber abordá-la. Sobretudo sem parecer ignorante ou falso. Ignorante por deixá-lo permear meu pensamento, falso por fingir ignorar suas verdades. Depois eu refletia sobre as viagens. Sobre a felicidade de estar ali, e então sobre as relações íntimas das viagens com a felicidade E como conseqüência, com nossa saúde e longevidade. Acredito piamente na relação.

                    ESTAR ali e pensar em coisas assim me deixava um pouco ansioso. Mais ainda como seria minha interação com os etíopes, as relações humanas que eu teria num país tão complexo e radicalmente diferente de qualquer outro. Foi então que percebi fazer sentido partilhar tudo o que senti com você, antes mesmo de contar-lhe minhas impressões sobre Addis.

                      PRIMEIRO, eu queria encontrar um jeito franco e honesto de falar com você sobre os clichês. E não apenas sobre os etíopes, mas o que penso acerca deles. Tenho cá minha interpretação, e se me conhece bem o leitor, não escreverei nada politicamente correto. Especialmente só pra agradar. O falo dirigido pelo que penso e com franqueza. O "politicamente correto” indiscrimidado é apenas mais um jeito que de acabar com a graça de tudo. E o mundo está cheio de chatos politicamente corretor, patrulheiros ideológicos mais chatos que todas as chatices etíopes juntas. Aqui o leitor já sabe que não publico temas polêmicos com opiniões que não correspondam ao que penso, apenas para livrar-me das conseqüências das abordagens politicamente, digamos, "não corretas". A rede já tem chatos demais fazendo o contrário e caga-regras bastantes pra encherem o saco. Então, este blog não faz concessão desse tipo para obter aprovação da galera, da blogosfera, nas redes sociais ou seja lá onde for. Isso é tudo o que não me dirige. Especialmente porque não me integro grupos, associações, coletividades bloguísticas. Sou livre, não preciso escrever para ganhar popularidade para este blog. Aocontrário, até me apetece transgredir suas regras tolas. Já sabe muito bem o leitor que este é um blog marginal, independente e opiniativo. Então, que não encontrará discurso politicamente correto disfarçado sob sectarismos blogosféricos, especialmente o de viagens, o mesmo que tornou alguns bons blogs em medíocres. Não escrevo para provocar "onda" na blogosfera. E não recorro a situações previsíveis para encantar um tipo de leitor que eventualmente se agrade disso. Não preciso ganhar dinheiro com blog, o que é uma grande vanagem. Estou certo de que não faço onda na blogosfera. E que um postezinho como este aqui não faz sequer marolinha. Escrevo para um nicho de leitores especiais e seletivos.

                        AINDA que reconheça que alguns clichês possam estar "errados", que carreguem consigo conotações negativas ou preconceituosas, não os acho nem mentiras nem verdades absolutas. São meias-verdades. A maioria revela efetivamente o fundo de verdade no qual se originaram. Não foram deliberadamene inventados, senão uma visão resumida, ligeiramente distorcida e superficial da realidade mais notável, não do conteúdo mais profundo. O uso frequente dos clichês é que os torna chavões. E rechear relatos de viagens com eles torna tudo tão enfadonho quanto superficial. É cafona basear-se neles tant quanto boboca negá-los para agradar aos leitores e seguidores. Tão bom quanto raro é encontrar textos que os interpretam, cujos autores não se baseiam neles mas os têm como mediadores, não deixam permear-se pelas impressões superficiais mas também não as ignoram.

                        PARA alguns países os clichês são inevitáveis. Formados em evidências verdadeiras e inquestionáveis, como no caso da Etiópia, ali nem é preciso fechar os olhos. É pensar no país e as imagens de fome e pobreza surgirão. Ninguém apagará as inesquecíveis, trágicas, fortíssimas imagens que nos anos 80 circularam o mundo nas revistas e TVs. Mostravam uma realidade brutal - a fome no norte da Etiópia - e consagraram-se num dos momentos mais impactantes do jornalismo televisivo moderno. Se ao invés de imagens nos lembrarmos de uma música, será We Are The World, um dos movimentos em favor de que o mundo olhasse para a Etiópia, assim como o Live Aid, iniciativa do artista e ativista político irlandês Bob Geldof, que na época liderou um esforço de captação de recursos de celebridades para apoiar o combate à fome, porque era "hora de dar uma mão à vida porque pessoas estão morrendo de fome."

                        "FOME na Etiópia" tornou-se o clichê do país. Dos mais amargos. E viajando pelo país percebi que os etíopes não renegam aquela realidade, mas a minimizam afirmando que sua dimensão foi restrita a uma pequena região ao norte do país. E que os estragos que aquelas imagens causaram ao país foram bem maiores do que os que a fome proporcionou. Não gosto de clichês exatamente porque geram tanta superficialidade, mas não sou tolo tentando ignorá-los. Acho ingênuo não reconhecer seus fundamentos, as verdades das situações ou ocorrências que os originaram. Por exemplo, háum fundo de verdade no que falam superficialmente dos cariocas, dos paulistas, dos curitibanos e dos baianos. Ou dos franceses, ingleses e australianos. Gostem eles ou não. É o que os diferencia uns dos outros porque refletem carcaterísticas pessoais, culturais, comportamentais, de gostos, gestuais, de atitudes, de índoles e de personalidade mais proeminentes. Boas ou não.

                      ENTÃO, quando me preparei para viajar à Etiópia, natural seria conhecer seus clichês e compreender suas origens. E lá verifiquei que se já não há a fome devastadora, tudo mais era coerente com a realidade presente ou passada do país. Não apenas as relacionadas à fome e pobreza. Das mentiras e invencionices "históricas" baseadas na religiosidade e na crendice - especialmente as relacionadas à feitura das igrejas de rocha de Lalibela e da Arca da Aliança -, como às ligadas ao Rei Salomão, à Rainha de Sabá, ao Imperador Haile Selassie, à Revolução comunista, à guerra civil. Entre os países da África, a Etiópia é um dos mais misteriosos, mais repletos de clichês, com o perfil mais enigmático e diferente, mais desconhecido paramuito além do que mostram seus clichês e suas meias-verdades.

                       É por isso que para viajar à Etiópia são precisas leitura, análise e avaliações maduras e bem medidas se quisermos chegar ao terreno das consistências e irmos além das superficiailidades dos clichês. Não serei eu, portanto - quer por incompetência, quer por falta de cultura ou por esquecer o bom senso - que "definirei" ou "classificarei" o país e seu povo. Sobretudo com clichês. Ainda que as considerações que o leitor conhecerá no próximo capítulo - Bom dia, Addis. Adeus, Etiópia -, no qual eu relatarei a imensa discrepância entre o que senti no dia de chegada e no da partida, impressões bem ponderadas e baseadas em fatos, não deixo de reconhecer alguma influência de seus clichês e suas meias-verdades sobre o que significou esta viagem à Etiópia para mim. Irei da razão ao nonsense, da pobreza à beleza, do êxtasse ao estresse, da serenidade ao perigo.

Chatices etíopes - Farangi, farangi, farangi! You,you you! Money, money, money!

                       UMA das coisas mais persistentes na Etiópia são as crianças gritando Farangi, farangi! You,you you! Give me money! para os viajantes. Ou uma variante disso. É provável que algumas pessoas irritem-se tanto que até não queiram voltar ao país. Afinal, a “histeria” (como se refere Philip Briggs, autor do Bradt Guide) ou “febre ferangi” (como o faz o Lonely Planet), requer, antes de tudo, conhecer a questão e aprender a administrá-la. Depois, reconhecer que a Etiópia é grandiosa demais pra que isso elimine a vontade de conhecê-la e voltar a ela.  A "histeria farangi" pode parecer inofensiva, e de fato é na maioria das vezes, mas a persistência dela pode esgotar a reservas de bom humor de qualquer viajante que não seja, por exemplo, um monge budista.

Brandindo seus cajados e gritandi farangi, farangi! You,you you!

                       O autor do Bradt Guide nos ensina que a melhor resposta para esse tipo de coisa é zombar gentilmente das crianças, simplesmente gritando de volta: habbishat,  habbishat , habbishat!, que significa "etíope, etíope, etíope!". Nem sempre o bom humor desarma os garotos, mas pode ser uma manobra bem sucedida. O contrário, demostrar raiva e irritação, pode além de incentivar a gritaria, ocasionalmente receber umas pedradas de volta das crianças.

                        FARANGI, farangi, farangi! You,you you! Money, money, money! Stop!, stop!, stop!, às vezes funciona como um mantra e tem efeitos implacáveis nos ouvidos e no cérebro. Claro que não pra todo mundo. Falo de mim. Algumas vezes (não comuns, mas não raras) acompanham-se de pedras e varas jogadas contra os turistas, comportamento não muito compreensivel e até espantoso, que pode ser tanto resultado de aborrecimento, de aversão a estrangeiros, ingenuidade infantil ou curiosidade quanto de frustração, raiva, ódio, expectativa, fascínio, arrogância e excitação. Tudo próprio da histeria.

                        DEPENDENDO do lugar e da situação, as crianças apenas gritam, noutras dançam sacudindo as pernas e gritam. Podem desistir logo, se você estiver trafegando de carro numa estrada, como também persistirem ao máximo com a implicância. Responder qualquer coisa com bom humor e sorriso sempre os acalma. Um aceno e um sorriso, por exemplo os deixa satisfeitos. Ignorá-los, ao contrário, acentua o desejo de importunarem. Manter bom estado de espírito e algum senso de humor é fundamental, coisa que nem sempre eu conseguia, especialmente em Lalibela durante o Timkat. Tudo isso é válido e aplicável também a todas as pessoas que acediam turistas. O perigo de nos fecharmos, de impedirmos a nós mesmos de interagirmos, de responder às intenções genuínas e sinceras de uma simples troca de palavras, um dos maiores prazeres turísticos na Etiópia, é um dos erros mais comuns em que incorremos, porque as experiências de interação podem ser muito agradáveis e encantadoras, ainda que também irritantes e provocativas.

                  OS meninos podem ser genuínos nas suas intenções, e com frequência o são -, ora desejando simplesmente fazer-nos companhia, gozar o simples prazer de caminhar ao nosso lado e de mãos dadas, conversar, exercer sua curiosidade, treinar o inglês, tentarem comunicar-se e eventualmente aprenderem um pouco mais de nós, de nossas vidas e nosso país. Noutras não. Abordam-nos com atitudes sonsas e agressivas, aparentemente apenas por implicância ou por alguma doação de dinheiro. Eu precisaria de muito mais do que quinze dias na Etiópia para aprender a discernir com precisão o que é genuíno do que é esperteza. Não consegui.

                         CRIANÇAS são curiosas em qualquer lugar do mundo. As etíopes que nos digam! Um visitante ocidental sempre será seu foco de suas atenção em qualquer lugar do país. Especialmente no interior. Estrangeiros não são comuns, afinal. Eu não sabia disso antes de chegar à Etiópia. E talvez, depois da Índia, tenha sido o lugar onde éramos mais atraentes. Às vezes vinham sós, noutras num louco turbilhão de crianças gritando e dançando. Certamente há diferentes graus de abordagem e de atuação das crianças nas diferentes regiões do país, mas sempre havia curiosidade sobre nós, quer apenas por olhares e sorrisos discretos e evergnhados, quer comportando-se de maneira estridente. Muitas vezes as crianças eram doces, calmas e infantis, sorridentes e expressavam apenas curiosidade. Engraçado era ouvir seu limitado mas esforçado vocabulário inglês vindo de vozes suave, tímidas. Muitas vezes segurando nossa mão com tamanha doçura que nos desnorteava os sentidos e nos fazia imaginar o que pensavam, nosincentivavam a interagir com elas. Algumas vezes era difícil dizer adeus a essass crianças adoráveis.

                       DE outro lado havia crianças extremamente inconvenientes e irritantes que conseguiam estragar toda nossa simpatia com a experiência anterior. Do jeito delas, corriam em nossa direção gritando birr, birr, birr - a moeda nacional - (dinheiro, dinheiro, dinheiro, em português) depois de faranji, faranji, faranji - estrangeiro em amárico, muito persistentes e teimosas, o que me fez sair do país com uma sensação de que minha relação com as crianças etíopes foi um misto de prazer com iritação.

                      TIVE bom tempo para refletir sobre essas coisas nesta viagem. Algumas ficaram mais claras e compreensíveis, outras ainda mais nebulosas, talvez porque a Etiópia tenha sido o país mais difícil para onde viajei e o que mais exigiu de mim. Físicamente, porque intelectualmente ainda foi a Índia.  Às vezes eu sentia compaixão pela pobreza, noutras raiva quando era hostilizado, quando ouvia provocações em amárico vindas de hordas de crianças em Lalibela  A Etiópia é um país difícil. As pessoas também. Mas ir ao país e explorá-lo é viagem no seu modo mais misterioso e intenso.

                         UM estudo levado a cabo pelo cientista Dr. David Lipschitz - diretor do centro sobre envelhecimento na Universidade de Arkansas para ciências médicas - associa viagens à longevidade, à saúde e à felicidade. Com todo respeito pela ciência, isso pra mim não foi novidade, pois sempre relacionei viagens a estes e tantos outros  benefícios e motivações pessoais. Seria massante descrevê-los todos, por isso pouparei o leitor mencionando apenas dois dos que mais me ocorrem.

                         PRIMEIRO, ter percebido que pessoas são diferentes e assim suas viagens. Alcançar essa consciência equivale a dar um grande salto na própria consciência. Algo fundamental a quem escreve relatos e guias de viagens, aconselha a outros viajantes, dá dicas e sugere roteiros.

Com freqüência queriam só nos dar suas mãozinhas, passear ao nosso lado. Que doçura havia naqueles gestos...

                        FELIZMENTE as pessoas não são iguais. O mundo seria chatíssimo se fossem. Quando comecei a perceber isso passei a discordar vivamente dos que tendo ou não a tal consciência tentam uniformizar gostos e modos de viajar. Padronixá-los. E sugerir que o único e certo jeito de viajar é o deles. Assim como de arrumar malas, o tipo de mala que deve comprar, o que levar dentro delas e tudo mais de linearque não leve em conta o universo tão díspare de necessidades e particularidades, de gostos e objetivos das pessoas quando viajam. Tratar assim países como a Etiópia seria tão prejudicial ao viajante quanto fazê-lo acreditar piamente nos clichês.

                        O segundo motivo foi perceber os benefícios e as motivações que as viagens me proporcionam. Entre tantos, ter a possibilidade de experimentar as interações com as pessoas, o que chamamos de relações humanas. As nossas foram ora tão marcantes quanto tocantes, ora tão inoportunas quanto desagradáveis. Pessoas e costumes diferentes tornam-se algo tão importantes numa viagem quanto as belezas naturais, culturais e as construídas pelo homem. Na Etiópia possibilidades assim são enormes. Também únicas, complexas e difíceis. Com crianças ou adultos, seja por causa do idioma, seja pelos inevitáveis choques culturais. É o desconhecimento e a estranheza de ambas as partes dirigindo e dificultando a interação.

                        NESTE particular eu percebi que um simples abraço, um aperto de mão ou mesmo um olhar carinhoso abria as prtas da receptividade e da doçura. Eliminavam parte das dificuldades e sugeriam que fôssemos mais a fundo para termos experiências notáveis, aidna que curtas, passageiras. Interagir com os locais foi tão marcante nesta viagem à Etiópia uanto tudo mais. Ainda que "interagir" por vezes significasse quase "lutar".

Em Harar, no "olho do furacão" das relações humanas

                         SE para mim não há nada mais estimulante e criativo do que viajar, que escolher para onde vou, que planejar e sonhar com minhas viagens, à Etiópia consagrou-se como um dos melhores investimentos que já fiz em viagens. Por tudo, por todos, por muito mais sou imensamente grato.

  

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A SEGUIR

Bom dia, Addis. Adeus Etiópia.

A PRIMEIRA hora. Na primeira manhã, o dia da "felicidade viajante".

                      A DESPEDIDA.  Sem saber dizer adeus

Notas

 

Philip Briggs, autor do Bradt Guide Ethiopia. Não há cobertura mais recomendável e abrangente, superior até mesmo aos sempre bons Lonely Planet. Para os entusiastas de viagens à África, Philip Briggs precisa ser conhecido: foi autor de 14 guias Bradt e de alguns livros sobre outros países africanos. E ele e sua esposa fotógrafa, Ariadne Van Zandbergen, regularmente contribuem para revistas especializadas em África. O Bradt Guide Ethiopia tornou-se uma 'bíblia' para viajantes que planejam visitar o país e nos acompanhou em cada quilômetro de estrada ou metro de cidade.  

Quinta-feira
Dez172015

Addis Abeba - O prelúdio de uma aventura na Etiópia

INTRODUÇÃO - Uma viagem com "olhos de ver". A chegada e a primeira impressão

                 NÃO sou o tipo que olha mais pro umbigo do que pras paisagens durante as viagens. Longe disso. Mas dizem - e de certo modo concordo - que encarar um destino em profundidade pode levar o espectador também a ir profundamente em si mesmo. Em verdade, para viajar assim é preciso viajar nu. Claro que não no sentido literal, mas no de desvencilhar-se do que é próprio da mente, de si mesmo, dos  conceitos e, então, mergulhar nas profundezas do lugar. É ir pra gostar, para apreciar o desconhecido, os estranhos, os costumes esquitisos, por estar fora do seu tempo, para receber bem as estranhezas, para  administrar bem as dificuldades e os medos, para ser feliz com o inesperado. Mas ser suficientemente bem resolvido para não ter culpas se ao retornar não ter gostado. E então, depois de tudo, gostando ou não, ver-se tomado, fascinado pela idéia de contar a história de sua viagem.

Menina carregando menina...

                  COMIGO e a Etiópia foi assim. E talvez assim seja sempre com todos que viajam com os olhos de ver: percebendo mais do que definindo, recebendo mais do que dando. Como quem olha mais pra fora do que pra dentro de si mesmo. Alguns asseguram que com este olhar sempre voltamos com "outra" cabeça. Independentemente do tipo ou do estilo do indivíduo viajante. É por isso que algumas certas viagens - apenas certas, repito - teem-se consagrado em experiências tão incomuns e marcantes se comparadas às demais. Provavelmente foram as que me levaram às reflexões e concluiram-se nalgo bem menos comum do que comumente eu interpreto sejam as viagens "normais". Não tenho dúvidas de que à Etiópia foi uma destas e que estará sempre entre aquelas mais marcantes de minha vida.

Busto de Hailé Selassié defronte ao National Museun, Addis Abeba

                  FOI em Addis Abeba que compreendi algi tão elementar, mas nem sempre percebido: que tudo  sempre tem dois lados. Opiniões e resenhas de viagens também. Gostos e desgostos em relação a destinos, sobretudo. E que se para uns as primeiras impressões são as mais importantes, para outros a última é a que vale, ainda que isso possa soar como um clichê, não como verdade absoluta.

                   QUEM sabe que nunca tudo é igualzinho pra todos, simplesmente porque reconhece que as pessoas são diferentes, então as suas maneiras de perceber as coisas, provavelmente foi por compreender o mesmo que Paul Theroux - em A Arte da Viagem - organizou os viajantes e narradores de viagens segundo os diferentes roteiros que empreendem, os meios de transporte que usam, as características pessoais, as motivações, suas bagagens, seus medos e neuroses, as companhias que levam co sigo, suas nacionalidades, seus gostos, o amor ou o desprezo pela comida, suas fantasias e até a duração de suas viagens. Ainda que tudo isso para e pelo mesmo destino.  

O alfabeto, feito de sinais que parecem extraterrestres

                 COMIGO funcionou assim: as mais fortes e melhores impressões que tive da Etiópia foram as primeiras. E devo-as muito a Addis Abeba, ainda que também, em grande medida, pelas atitudes, pelo jeito de ser e pelos maneirismos intrigantes dos etíopes, pela incomparável personalidade e vibração da cidade e pelas surpresas que nos concedeu.

FOI assim então. E logo assim que chegamos em Addis Abeba...

              BEM-vindo à Etiópia, 13 meses de sol por ano! Trezes meses?! O enorme cartaz com o rosto de uma mulher sorrindo nos dava boas-vindas. Naturalmente eu leio e me informo sobre um país antes de visitá-lo. Especialmente sobre os tão incomuns. Não fosse dessa maneira eu ignoraria que o calendário etíope tem 13 meses (*). E supondo que a frase fosse mais uma invenção marqueteira para promoção do turismo, a teria achado extremamente criativa. Sabendo, achei-a um pouco, mas só um pouco inventiva. O que a propaganda simpática fez foi acentuar meu prazer de chegar ao país mais diferente do mundo. Depois de ler o cartaz senti-me mais do que bem-vindo ao Bole International Airport tendo voado pela ótima Ethiopian Airlines (**).

 Visto etíope concedido no Bole International Airport, Addis Ababa - Photo by Henrique Bente (Flickr)

https://www.flickr.com/photos/semparadeiro/7218468222/in/photostream/

                    DOIS adesivos depois, colados nos passaportes, ao custo de 40 dólares, de um recibo feito à mão e nenhuma pergunta, terminávamos nossa entrada e o processo de imigração na Etiópia. Escritos em inglês e amárico, deles esperava terem tudo para consagrarem-se entre os mais bonitos do meu passaporte. Afinal, o alfabeto etíope é gracioso e extremamente peculiar, feito de sinais tão distintos que não parecem de nosso planeta. Aoi contrário, foram algo decepcionantes: eram os vistos menos "vistosos" que já obtivemos nas páginas de nossos recheados passaportes.

As calçadas e ruas de Addis são tomadas. De gente, comércio e mercadorias

                  UMA longa fila quase sempre é uma boa pista para processos de imigração complexos, burocráticos, lentos e inquisitivos. Mas aquela foi rápida. Tanto que minha surpresasa terminou depois dela, e logo estávamos recuperando nossa bagagem. Enquanto aguardávamos as malas surgirem na esteira, com um olho lá outro cá nos vistos tão feiosos, eu percebera que o fim da “tensão” da chegada, tão corriqueiro quando desembarco num país tão "diferente" (incomum, diverso, dos mais exclusivos do planeta, onde toda ansiedade é naturalmente aguçada), dei-me conta de uma sensação estranha:  a de estar entrando num museu ou na história, de estar pisando nela, não no solo de um país. Como se entrasse na antiga Abissínia, não na atual Etiópia...

                   MINHA memória vinha carregada de milhões de anos de história. Da incrível história do berço da humanidade, como a que revelou o paleontólogo Donald Johanson, quem descobriu os pedaços de ossos mais importantes para a humanidade até então: com mais de 3 milhões de anos, na região de Afar, eram nada menos que centenas de pedaços do esqueleto, representando cerca de 40 por cento do total do que teria sido o AL 288-1 mais tarde chamada Lucy, a pequena fêmea da espécie Australopithecus Afarensis. Só aquilo me bastava para ter curiosidade pelo país. E ali mesmo eu já contava as horas para “encontrar-me” com Lucy - embora apenas um dos tesouros da Etiópia - no Museu Nacional de Addis Abeba. Eu nem precisei lembrar-me de que visitaria o maior número de exemplares do Patrimônio Mundial da UNESCO em toda a África para ansiar tanto começar logo a exploração daquele gigante cultural, histórico, de tradições  - da comida à religião milenar ortodoxa etíope. Esperar por malas é muito angustiante...

Cena de rua no Merkato, Addis Abeba

                 DESDE a década de 70 tornei-me fascinado pela Etiópia devido a uma viagem de meu pai. E agora percebia que o que eu sabia e estudara sobre o país antes de viajar ainda era muito pouco. Mas felizmente longe daquela Etiópia do regime cruel e comunista do Coronel Mengistu e da fome. Tenho grande prazer de informar ao meu leitor que foi uma das viagens mais espetaculares de minha vida. Nada romântica, confortável ou fácil. A bem da verdade, encontrei uma estrela brilhante no turismo internacional, lugar que transforma os que viajam em viajantes melhores. E eu ainda nem sabia o que me esperava dias mais tarde, quando pisaria de verdade na terra poeirenta do solo do Vale do Omo, de Jinka e de Arba Minch, não no cimento e no asfalto de Addis Abeba. Assim que recuperamos nossa bagagem e cruzamos o portão de saída para o saguão do aeroporto, encontramos Elias, nosso guia etíope. Muito pouco depois estávamos a caminho do Sheraton Addis (**). 

Estátua equestre do imperador Menelik II, Addis Abeba

                  SEREI franco: Addis é uma das capitais mais feiosas que eu já vi. Mesmo com a globalização e os chineses tendo chegado. Nem poderia imaginar que me surpreenderia tanto com o enorme potencial turístico da Etiópia com seu povo tão vibrante, e por ver tão poucos turistas ocidentais. Esperava por um país grande e incrível, com muita coisa para ver, me preparara para a realidade, para aventuras surpreendentes, mas jamais por experiências, descobertas e encontros tão excepcionais e marcantes.

Addis é um canteiro de obras chinesas e indianas

                O país e sua capital são o oposto de qualquer utopia; senão uma das mais originais e fantásticos nações e cidades desse lado da África. Sobretudo muito longe do que habita o subconsciente de quase todo mundo. Ainda assim, em Addis quase sempre o viajante fica menos do que a cidade merece, em estadas técnicas entre os deslocamentos para, estas sim, as atrações mais notáveis no Norte e no Sul. Viajantes com mais tempo, todavia, tendem a gostar mais de Addis quando a exploram com calma, talvez porque esta seja uma cidade com verdadeira personalidade, com um bom senso de auto-definição, isto é, que não se rendeu inteiramente às ações equivocadas de uma urbanidade ocidental, anseio de muitas nações subdesenvolvidas. Addis Abeba, como capital, é bem etíope, singular e inconfundível. Quem não conhece o país pode imaginar uma vastidão árida repleta de crianças esquálidas e desnutridas, como as da década de 1980, quando a tragédia da fome assolou o país e tornou uma verdadeira aventura a de sobrevivência humana. Eu não chegava a pensar assim, mas também não estava preparado para ver um país tão verde e exuberante, povoado de crianças pobres mas extremamente alegres, com energia e curiosidade, aparentemente bem alimentadas. Claro que tinha noções da cultura, mas nunca que fosse tão exclusiva, tivesse uma história tão antiga, uma natureza quase intocada de montanhas, lagos, cachoeiras e planaltos. E que me impressionaria tanto com o grande Vale do Rift e do Omo, com um encantador ecossistema e uma bela diversidade de pássaros. Para quem gosta de aves, aliás, este é um paraíso para observadores. Nem seria preciso ver as espantosas igrejas de Lalibela para que a Etiópia me agradasse tanto.

Sheraton Addis, ótimo 5 estrelas, ponto de encontro de personalidades e diplomatas africanos

                A Capital é uma típica, personalíssima urbe do Nordeste africano, região conhecida do Corno da África, que inclui a Somália, a Etiópia, o Djibouti e a Eritreia, e em cujos arredores há grande variedade de passeios turísticos atraentes. É o que veremos no próximo post:  

 ___ ADDIS, como os meus olhos viram: uma metrópole energética, rústica e autêntica ___

Notas

(*) O calendário etíope é semelhante ao Copta egípcio: tem um ano de 13 meses, mas com 365 dias, ou 366 num ano bissexto, a cada quarto anos. Mas aqui ele é influenciado pela Igreja Ortodoxa Etíope, que segue o calendário antigo e tantas regras e crenças quanto poucos visitantes conseguem acompanhar. Então, o etíope é sempre sete anos e oito meses atrás do calendário gregoriano, o que usamos aqui no Ocidente.

(**) Este não é um blog jabazeiro. Vc já sabe, mas é sempre bom lembrar. Seu autor não escreve por fam trips, não recebe agrados, presentes e afins.  Todos os produtos e serviços aqui mencionados não têm o conhecimento dos mesmos. Tampouco são recompensados de qualquer forma, seja anterior ou seja posteriormente à sua publicação. Os descrevo ou menciono por liberalidade. Nossas viagens são escolhas pessoais e pagas com recursos próprios e a preços de mercado. Viajamos independentemente, assim como com independência emito opiniões e faço escolhas. Cada link ou produto citado mencionado é feito com a suposição de que o leitor já saiba identificar os objetivos do blog, mas sobretudo de que as verificará com o fabricante, o fornecedor ou o prestador do serviço em questão.

Quarta-feira
Dez022015

VIAJAR é bom? Só quando voltar é melhor do que ir

                 OUTRO dia, folheando boas páginas na Internet, encontrei a máxima de um até então para mim desconhecido autor: Leland Stowe, jornalista norte americano, correspondente na Segunda Guerra Mundial. Resolvi, então, compartilhar com você, caro leitor, o que ele disse: "Um visitante é bem-vindo pelo que merece". É algo que permite múltiplas interpretações, mas para mim uma verdade absoluta. Gosto disso, das boas definições do que sejam bons viajantes. A guerra foi o motivo, a função jornalísica o instrumento para que a sensibilidade do autor definisse o que concordo deva ser um bom turista. Durante suas inúmeras viagens pelos quatro continentes, através de paisagens desconhecidas e situações insólitas, o jornalista registrava, ordenava e depois imprimia seus pensamentos. Imaginava que um dia teria leitores, mas talvez não que tornar-se-ia o que eu classifico como "bom definidor do que seja a arte de bem viajar".

               Não por acaso gostei do que li: escrever sobre assuntos ordinários fazendo-os parecer extraordinários não é coisa pra qualquer um; sempre me agrada. Relatos atraentes de passeios - sejam pelo bairro, sejam por trilhas no Himalaia - são motivos suficientes para me cativarem. E para achar tão poucos escritores destacando-se na arte de escrever bem sobre viagens. Lendo-o fui levado a pensar que há mesmo muitos motivos para se viajar. E que viajar é bom apenas quando voltar é melhor do que ir.

              Cada um tem seus motivos. E quem viaja muito, provavelmente também já concluiu que viaja para aprender a viajar melhor: rever valores, preocupar-se menos com banalidades, para ter apenas prazeres, para descobrir, para experimentar, pensar, refletir e sobretudo repensar a vida. Também para compreender que quanto mais modestos e reservados, quanto menos nos destacamos, melhores visitantes nos tornamos. Mas há mesmo uma infinidade de outras razões. E muitos viajaram sobre o tema. Eu mesmo acho que vale a pena viajar até para comer shish kebaab na Ásia Central.

               Mas viajar é sempre bom? Não posso crer que seja para quem se declara orgulhosamente "viciado em viajar". É quase uma tradição entre parte dos viajantes que escrevem na Internet declararem-se assim. E nesse sentido tenho ímpeto de dizer-lhes: "Por vício, nunca!". Mas creio que quem se auto-proclama "viciado", das duas, uma: não sabe o que diz (a maioria) ou sofre mesmo de dromomania: mania de vaguear, pendor mórbido à vida errante, compulsão por viajar constantemente. Ou de ecdemomania: impulso mórbido, obsessão em viajar ou passear, desejo compulsivo de perambular longe de casa. Ou fugir de casa. Como toda compulsão, esta também é nociva. E requer auxílio médico. Toda forma de vício é um empobrecimento. Físico, moral e intelectual. Quem viaja pra fugir do cotidiano não está ou não é feliz. E não deveria cometer o erro de  viajar por "obrigação", coisas que os vícios impõem.

               Já não me importo muito com os motivos porque viajar, senão para onde e de que jeito: se depressa ou devagar, pra perto ou pro outro lado do mundo. Mas já estou muito certo de que quanto mais o faço, menos saciado eu fico e maior a lista de destinos que desejo visitar ou rever. Não sou estudioso de relatos de viagens, mas gosto muito de lê-los e escrevê-los. E o que me falta em talento sobra em esforço para compensar a falta. Leio por gosto, mas também para absorver os que escreve quem escreve bem. Dos que inspiram e motivam. E se viajar é algo tão saudável e positivo, se não consigo associar viagens a vícios, se tenho aversão a eles, se sou feliz quando estou no comando dos meus atos, não consigo mesmo imaginar o quanto deve ser terrível a vida de quem viaja pra tentar ser feliz, por qualquer outra fuga ou por vício.

               Se voltar é sempre melhor do que ter ido, se viajar para mim é apenas uma sede cujo prazer é ver saciada, se sou feliz sendo um viajante ativo aos mais de 60 anos, se a cada nova viagem divirto-me mais e melhor, se toda viagem me faz descobrir um pouco mais de alguma coisa, muito mais de algumas coisas e algo mais de todas as coisas, se mesmo gostando tanto de viajar não encontro melhor lugar (e nem mais divertido!) do que o meu lugar (minha casa, minha família, minha doce Emília e as minhas duas preciosidades, os gêmeos Olívia e João, com eles quero muito viajar. Não importa pra onde, desde que para destinos escolhidos. Sobretudo para quando voltar, ter algo sério, útil, positivo e incomum para dizer aqui. Tal qual disseram Juan José Morosoli ("Viagens tornam-se ainda melhores depois que a gente volta") e Antonio Bivar ("Em certos momentos da vida não há nada que faça mais bem à alma que viajar")

                 VIAJAR é bom? Sim, mas só quando voltar é melhor do que ir. E se você, caro leitor, amigo e familiar, chegou até aqui, obrigado! E até qualquer dia!

Quarta-feira
Nov042015

Indein, o povoado perdido do Lago Inle, Myanmar

Monges artesanais de Indein Village

                 COMECEI a viajar com meus pais, igual a todo mundo, afinal.  Não éramos pobres, mas a família - pai, mãe e três filhos homens - tinha orçamento limitado que continha nossas viagens restritas a humildes escapadas. E dentro dum círculo geográfico modesto e também reduzido. O que significava ir para lugares onde pudéssemos chegar de carro, de trem ou ônibus. Preferencialmente para a casa de parentes. Destas viagens infantis jamais esquecerei das férias que passávamos na fazenda centenária da Tia Manú, em Bicas, Minas Gerais. Nem das que gastávamos no pequeno apartamento de lazer que nos emprestava a saudosa Tia Zuleika, em Teresópolis, Rio de Janeiro. Como era comum na época, passávamos os três meses das férias escolares nesses lugares. Eu amadureci e comigo o desejo de viajar.

Nyaung Ohak, o primeiro complexo

                  AOS 20 anos fiz minha primeira viagem independente. Com barraca, mochila e acampando. Ia para onde meu orçamento apertado dava conta. Mas que eu mesmo escolhia. Não tinha carro. Então era de ônibus ou de carona com amigos ou primos. Lá pelo meio da da década de 70, e do mesmo jeito, conheci boa parte do Brasil: viajando acampando como sócio do Camping Club do Brasil, até o comecinho dos anos 80. Eu trabalhava, mas o dinheiro era curto. Então só viajei pela primeira vez de Varig e dormindo em hotéis ao 27 anos. Pagando em prestações. Guardo até hoje meu carnê de pagamentos de 12 parcelas, orgulhosamente pagas em dia, das primeiras passagens aéreas para a Bahia, via Varig, Varig, Varig.

Povoado de Indein - Lago Inle, Myanmar

                 FOI só aos 35 que pude pegar um avião para o exterior. Hoje, aos 63, lembro de tudo com imensa saudade e carinho. Agradecido por ter pais que nos incutiram o gosto pelas viagens e também imensamente orgulhoso e reconhecido pelo privilégio de ter viajado a 60 países. Ainda que eu tenha estudado e lido razoavelmente, não conhecia nada do mundo. Até bem pouco tempo tinha que procurar com calma no mapa mundi onde ficavam a Ásia Central, a Birmânia e o antigo Ceilão. Entretanto, a cada nova viagem eu me tornava certo de que há coisas maravilhosas não materiais que o dinheiro pode comprar. Entre as primeiras, as viagens. Enriquecido pelas lições de vida que elas me proporcionaram, percebo que algumas estão marcadas para toda a vida. E creio  que outras provavelmente serão eternamente imperceptíveis, mas estão ali na mente. Comecei a perceber que viagens tornaram-se valores para mim. Jamais vício de que não consigo desvencilhar-me. Nunca viajei, nem espero fazê-lo, por vício, senão por gosto e iniciativa, escolha e decisão.

A serena vida no lago Inle

                 JÁ deixe de ir a países por medo. E me arrependi. Pensei bom tempo assim pensando em Myanmar. Afinal, governos, regimes políticos ditatoriais, revoluções, conflitos e guerras costumam tirar do cenário turístico alguns países. Mali e Síria um dos exemplos mais recentes. Mas a vida, muda. Assim como governos, regimes e países. Myanmar foi assim, mudanças radicais tiraram e recolocaram o país do mercado turístico. Para tirar, bastou que uma eleição democrática em que a oposição venceu com boa vantagem um governo militar para que este a rejeitasse. E instaurasse um regime ditatorial repressivo que durou tenebrosas duas décadas. O período manteve o país encerrado por um muro ideológico, político e ditatorial. Para recolocá-lo depois de tantos anos e Myanmar voltar a abrir-se para o mundo, libertando-se povo, oposicionistas e religiosos, uma gente oprimida sob um terrível mando,  bastou o Presidente Obama visitar o país e pôr fim às sanções ocidentais à Birmânia - ou Myanmar. Tornou-se imediatamente um ímã para os turistas. As mídias internacionais apontaram seus holofotes e câmeras para cobrir a tal abertura e revelaram um tesouro. Um belíssimo, curioso e atraente tesouro escondido.  

                  HÁ lugares maravilhosos e inesquecíveis para se visitar em Myanmar, especialmente Bagan, Mandalay e Lago Inle, onde ainda quase não há interferência ocidental num país intocado pela globalização. Deliciosamente parado no tempo, extremamente seguro e com a melhor comida do sudeste asiático! Mas até quando lugares perdidos, como a Aldeia de Indein, escondida num canto do Lago Inle, permanecerá assim?

                 NÃO se poderia então esperar por outro evento senão esta joia turística rara do sudeste asiático surgir e ser desejava com toda a avidez mundial por destinos exóticos e desconhecidos. Visitar Myanmar tornou-se um "chamado". E o país um destino cobiçado, por descobrir, uma necessidade, um desejo, a meta para muitos viajantes. Entre eles, nós.

  Sem luxo, simples e ainda intocável vida sobre as águas do Lago Inle

                   AFINAL, é um país extraordinário, destino turístico simples, sem pompa ou protocolos, sem luxo ou riquezaas, a não ser as que se adquirem em viagens: experiências e recordações. Também, se possível, artesanato, que em Myanmar é fabuloso. Mas ainda não há lojas famosas, jovens usando Abercrombie, Mc Donalds, poluição, Haagen-Dazs ou Starbucks.

Povoado de Indein - Lago Inle, Myanmar

                  COM toda sua rica herança cultural, história longa e importante, qualquer viagem fundamentada nestes interesses é enormemente recompensada. Assim, tão logo o país ficou viável a qualquer viajante, começou a ser invadido por turistas, nós entre estes. Logo consagrou-se na a "bola da vez" do turismo mundial. Não sem motivos, porque em verdade há muito o que se ver, viver, experimentar, descobrir e comer. Além de tudo, governo e povo são extremamente receptivos, simpáticos aos visitantes. Tem-se então, uma vez em Myanmar, umas das mais raras sensações que o turismo pode nos proporcionar: as surpresas das descobertas.  

Povoado de Indein - Lago Inle, Myanmar

                  EM verdade, quando fomos, em fevereiro de 2013, nem todo o país já era bastante acessível. Mas ainda havia lugares fechados a estrangeiros devido a conflitos étnicos violentos. Alguns àquela altura foram resolvidos, então visitamos até bem pouco antes  aldeias proibidas, como as das colinas de Kyaing Tong.  

                NAYPYIDAW, outro exemplo, a despeito de não se ruma atração turpistica, pois é a nova capital completamente desinteressante se comparada a Yangon, equivalente ao estilo brasiliense, também estava fechada à visitação. Entre estas, lamentamos a não visita a Mrauk U, cidade abandonada e com milhares de templos e pagodas, devido à insegurança decorrente de conflitos semelhantes. De todo, e do melhor modo, Myanmar é uma janela nova aberta ao turismo internacional. Por onde o mundo tem olhado e desejado com sua traducional, insaciável e obstinada sede de novidades. O que eu mais gostei foi que ter visto o país ainda gloriosamente preservado, não pervertido pelo turismo de massa. No Lago Inle, por exemplo, presenciei um jeito de viver em toda sua serenidade, admirei a paisagem e tudo mais como o fazem seus moradores.  

Povoado de Indein - Lago Inle, Myanmar

                    MYANMAR tem lugares novos e ótimas possibilidade de viverem-se experiências notáveis e marcantes na vida. Entre eles a Aldeia de Indein. Perdida no tempo e numa ponta do belíssimo Lago Inle, há ruínas misteriosas de templos, florestas de stupas que brotam entre as árvores como se elas também fossem parte natural. Se não inacreditáveis, são surpreendentes mesmo para quem viaja bastante para destinos incomuns. Nosso mundo, cada dia mais plano, não me faz incorrer em exagero. Para além de novidade turística, o destino é um misto do que de um país pode esperar de melhor turisticamente: paisagens naturais, obras milenares construídas pelo homem,  gente encantadora, cultura deliciosamente atraente, exotismos a transbordar e uma comida deliciosa. E chances memoráveis de terem-se momentos felizes e agradáveis durante a estada.

Navegando para o passado

UMA viagem dentro de outra

                 JÁ escrevi antes sobre o Lago Inle. Superficialmente, ainda que chocado (e entusiasmado!) com o fabuloso contraste entre a decadência urbana de Yangon e a serena beleza do lago, e mencionando especialmente suas aldeias flutuantes e a vida sobre as águas, o jeito tão distinto de qualquer outro meio de vida e moradia que eu já tenha conhecido no mundo. Dezenas de milhares de habitantes fazem do lago suas moradias e dele retiram seu sustento. Sobre as águas constroem casas e, pasme, fazendas flutuantes rebocáveis! Em “INLE LAKE, Mianmar - A serena beleza de um lago”, aqui no F&F, mencionei as mini cidades por onde se chegam apenas de barco e se trafegam apenas pela água. Ou a pé, no que bóia ou na terra firme, as margens do lago. Por agora vou contar sobre uma porção do lago ainda mais remota, a Vila de Indein.

 As águas calmas e rasas dos canais navegáveis

 NAVEGANDO para o passado, à Vila Indein

                ACESSÍVEL ao mundo real apenas de barco que navega por uma rede de canais estreitos com oito quilômetros de extensão, um mundo por vezes aparentemente surreal, o caminho até o povoado de In Dein, mais comumente escrito na forma Indein, ocasionalmente referida também como Shan Bagan, por si é uma viagem dentro de outra. Parada no tempo do crescimento, a cada quilômetro vencido nos canais deixávamos atrás os domínios do conhecido. Até mesmo do que possa se imaginar. Usando um longyi e camisa de linho shan, roupas que provavelmnente jamais usarei de novo, extremamente confortável, entrávamos num raro lugar do mundo até bem pouco fechado e ainda tão pouco explorado. Desses que ainda conseguem impactar até os mais experientes viajantes. E possivelmente como a cada dia tornam-se mais raros no mundo. Por isso uma joia preciosa e rara não só no mundo, mas no país.

Mesmo naqueles barcos...

                MESMO naqueles barcos não me lembro de ter experimentado tanta serenidade e paz num só lugar. E ao mesmo tempo, me emocionado com tal marca com o que via. Mesmo a despeito de Bagan e do nosso espetacular voo de balão sobre seus mil templos.

                NO trajeto observamos uma vida rural simples e aparentemente inalterada há séculos. Não há como escapar. E até acaba-se gostando do único meio de transporte para exploração de todo o lago: trafegar pelos caminhos aquáticos em barcos longtail, barulhentos e rapidíssimos, canoas impulsionadas com muita força por motores de popa pesados e potentes. E infernalmente barulhentos. Como um motor de um velho turbo hélice da 2ª Guerra Mundial. Mas sempre conduzidos com maestria por pilotos que trafegam respeitando regras, ora nos largos, ora nos estreitos canais deste impressionante lago.

  

                 A partir deste privilegiado ponto de observação, um camarote dentro do rio, às suas margens observávamos uma vida se desenrolando sem tomar conhecimento ou importar-se conosco. Totalmente alheia a nós, seguimos por curiosos caminhos navegáveis, passando por baixo de pontes de madeira engenhosas e típicas do lago, observando a tudo com respeitosa admiração. Nada me parecia mais apropriado e agradável para um observador que não quer interferir, como expectador de um filme. Não estivesse eu navegando naquela infernalmente barulhenta canoa pelo Lago Inle, pensaria mesmo ser apenas expectador de um bem filmado documentário.  

                  VIA aquilo tudo e me perguntava quantos lugares no mundo ainda haveria como aquele? E se os há em boa conta, quantos acessíveis e seguros? Eu via casas passando, plantações e templos, pontes engenhosas de madeira, represas de bambu, vegetação boiando na superfície seguindo o curso das águas, homens retirando do fundo do lago e dos canais a terra necessária às suas plantações flutuantes, povos que vivem nas redondezas e nas montanhas transportando varas de bambu amarradas como canoas, e de pé sobre elas navegando as águas não tão tranquilas, uma das coisas mais curiosas que vi no Lago Inle. E presenciava cenas incríveis de búfalos, homens, mulheres e crianças banhando-se nas águas ou lavando roupas.

                  QUEM assistiu a Apocalypse Now provavelmente se lembrará do ambiente ao navegar pelos canais estreitos. Mas logo perderá a lembrança ao chegar ao porto da vila e avistar a quantidade de barcos turísticos e as bancas de souvenirs. Mas não importa. O melhor está por vir.

                LOGO que chegamos ao destino, uma baía bem mais aberta que os canais, e aportamos num precário cais de madeira do vilarejo, onde chegam os que veem dos hotéis, os que veem das montanhas e os que o fazem das margens do lago - turistas, moradores e trabalhadores -  voltamos ao nosso tempo e percebemos que o turismo já transforma o lugar. O caminho em terra, através de um improvisado, colorido mercado de bancas de venda de produtos turísticos, onde nativos das aldeias vizinhas vendem produtos artesanais e caseiros - de marionetes a peixes e tofu, de cerveja birmanesa a pratos rápidos da espetacular comida birmanesa -  achamos um convite, mas o deixamos para a volta, um café ou uma cerveja.

O turismo já chegou também ao remoto, quase perdido povoado de

                    EM cinco pontos do Lago Inle, uma vez por semana, pela manhã, há um mercado tradicional  chamado "Five day Market". Visitar ao menos um deles é uma atração, uma das experiências mais notáveis que se pode ter. Estes mercados têm o nome “mercados cinco dias” porque as tribos locais giram entre cinco diferentes pontos em torno do lago pelo período de cinco dias da semada. Naquele dia de nossa visita à Aldeia de Indein, os nativos - predominantemente da etnia Pa’O - vendiam e compravam produtos e artesanato. Vimos laca, estátuas de Buda, marionetes, roupas entre outros. E alimentos, verduras, legumes e frutas, além de comida preparada na hora. É fascinante apreciar as diversas tribos com roupas típicas e coloridas, e viver a atmosfera absolutamente original e exótica dos mercados.  

O povo da etnia Pa’O é predominante no lago Inle

                   OS Pa’O representam a sétima minoria étinica mais numerosa de Myanmar e entre eles são chamados de Taungthu, que na sua lingua significa “povo da montanha”. É um povo bonito e curioso, além de extremamente simpático e receptivo. Segundo o Wikipedia, os Pa’O estabeleceram-se na região em Myanmar por volta de 1000 A.C. Historicamente usavam roupas coloridas, até que o rei Anawratha derrotou o rei Mon, e os Pa’O foram escravizados e forçados a usar roupas pretas ou escuras para definir seu status na sociedade, motivo porque foram chamados de “Black Karen” pelos colonizadores britânicos por causa de suas roupas escuras.

 

                     ACREDITA-SE que sejam povo de linhagem tibeto-birmanesa e compartilhe a língua e a cultura do povo Karen. Compõem dois grupos distintos: os Pa'O que vive nas partes baixas e próximas ao lago, e os baseados nas encostas das montanhas próximas.

Os “Black Karen”, como chamavam os colonizadores britânicos ao povo Pa'O

ENTRE stupas em ruínas e sorrisos abertos

                   SEGUIMOS caminho por um chão de terra crua e chegamos a um belíssimo conjunto de centenas de pagodas e stupas em ruínas. E por que tantas stupas? Ao construí-las, ou doando dinheiro para que alguém o fizesse, recebia-se um mérito: a remissão dos pecados. O primeiro conjunto de stupas, Nyaung Ohak, o mais próximo da Aldeia de Indein, cujo nome traduz-se como "grupo de figueiras".

Nyaung Ohak, o primeiro complexo 

                  A maioria dos pagodas não foi restaurada, o que as torna ainda mais misteriosas, sobretudo devido à vegetação que crescem sobre elas. Muitos estão em completa ruína, poucos em bom estado e alguns em reparação. Decorados com esculturas de seres celestiais e de animais mitológicos - como serpentes Naga e Chinthes. Poucos ainda abrigam imagens originais de Buda. No caminho encontrávamos gente do das etnias locais, especialmente Pa’O a segunda maior do Estado de Shan State. Discretos, mas sempre que cruzavam conosco nos davam sorrisos abertos.

Nyaung Ohak, o primeiro conjunto de stupas, próximo da Aldeia de Indein

                 DE Nyaung Ohak continuamos subindo até o segundo grupo de pagodas - Shwe Inn Thein - no topo de uma colina, por onde se chega cruzando uma passarela de 700 metros, coberta e  suportada por colunas até os pagodas. A passarela é repleta de barracas que vendem artesanato, roupas - longyis e camisas de linho usados pela etinia Shan. O conjunto de pagodas é atribuído aos tempos do imperador indiano Asoka, que enviou monges ao lugar no século III A.C. por toda a Ásia para difundir o budismo. Séculos mais tarde, dois reis do Império de Bagan - Narapatisithu e Anawrahta - construíram outras pagodas no mesmo local. A maioria deles é do século 17 e 18, o mais antigo deles do século XIV.

                  ALGUMAS pagodas e stupas estão em ruínas, no seu estado original de abandono há séculos. Outras em reforma, assim como umas já totalmente renovadas. Todas entre a vegetação que creio ser natural. Chegamos entre essa floresta de stupas ao Shwe Inn Thein Paya, onde estão os mais curiosos e antigos tesouros culturais, arquitetônicos e religiosos do lugar. Algumas pagodas em torno do templo foram ou estão sendo restaurados por doações particulares de birmaneses e estrangeiros, já com seus hti - o elemento ornamental superior em forma de guarda-chuva revestidos de ouro. Mas há ainda bom número de stupas em estado ruinoso também neste lugar. 

            NO Santuário de Shwe Inn Thein há uma imagem de Buda cuja construção é creditado ao rei Ashoka. Do topo da colina os visitantes têm excelentes vistas sobre a aldeia de Indein.

  Shwe Inn Thein


               MAIS cedo do que gostaríamos deixamos a aldeia, de volta ao nosso hotel sobre as águas, num barco. Eu deixava pra trás um dos melhores sabores de Myanmar. E sempre impressionado com os sorrisos que nos davam, os tantos mingalabas - a saudação local – que nos davam gratuitamente ao cruzarem conosco. Para além e um reconhecido privilégio, foi um imenso prazer ter estado ali e conhecido sua gente e costumes. Saí com a sensação de que se há efetivamente muitas coisas boas que se podem comprar com dinheiro, entre as primeiras estão viagens como estas. E Myanmar tornou-se um dos países mais marcantes entre os 60 que já estive.


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Notas

Encontrar e conhecer pessoas em Myanmar é tão recompensador quanto tudo mais que turisticamente se possa fazer no país. O que mais se destacou em todo tempo que passamos em Myanmar foi o incrivelmente receptivo, sorridente, simpático e acolhedor povo. Depois dos uzbeques, foi o povo mais gentil e generoso que conheci em minhas viagens pelo mundo. Mas saí preocupado do país, porque provavelmente o país seguirá o mesmo padrão de desenvolvimento do turismo de massa como seus vizinhos Tailândia e Camboja. Em breve, lugares turísticos passarão a ter a mesma agitação, o mesmo cinismo com que se oferecem verdadeiras roubadas embrulhadas em embalagens turísticas, a mesma descaracterização do que é original, a mesma falsificação que perverte um lugar, seja pela absorção da cultura e de costumes ocidentais, seja por transformar-se exclusivamente num lugar turístico. Como Damnoen Saduack, em Bangkok. Tal qual na Tailândia, saí preocupado com o enorme potencial de desenvolvimento do turismo sexual e da exploração de mulheres jovens por estrangeiros que fazem sexo pagando com dinheiro, o que infelizmente falta para boa parcela da população. Myanmar está à beira de uma mudança marcante. Viajantes chegam cada vez em maior número, ansiosos para conferir as tão propaladas razões para visitar o país antes que grandes operadoras turísticas, grupos de viajantes em massa, Starbucks e McDonalds entrem e provoquem o que todos esperam: o desenvolvimento do país. Então, antes que uma viagem ao país deixe de ser uma refrescante experiência no universo turístico, vá logo, se pensa ir. Se você pretende conhecer pessoas de coração limpo e puro, lugares autênticos, vá logo, antes que seja tarde demais. Especialmente a Inle Lake, que logo será uma atração tão magnífica e visitada quanto Bagan. Turismo em Myanmar ainda é sem pompa e protocolo. Ainda.

A cerveja deixamos pro final...

Quinta-feira
Out292015

ÍNDIA. Muito além das (minhas) palavras

Na estrada para Jaisalmer

               VIAJAR é uma viagem sem retorno. Que não escolhi, aconteceu. Mas sempre foi e continua sendo adorável, apesar da idade que avança e de tantas viagens já feitas. Mas sei bem que um dia vou cansar-me de conhecer o mundo. Penso que muitos viajantes um dia se perguntem o mesmo. Eu não fujo à regra. E também me recordo de como já viajei: de trem, de fusca, de Varig, de ônibus, de excursão, de navio e de carona. Já acampei em praia deserta, fiquei três dias sem tomar banho, comi miojo cozido em água do mar, hospedei-me nos melhores e piores hotéis do mundo e viajei tanto com muito quanto com muito pouco dinheiro. Mas sempre fotografei. E sempre o fiz por gosto. Se tudo foi sempre assim e consinua sendo um grande prazer, que então demore a chegar o inevitável cansaço de viajar. Sobretudo agora, que tanto anseio fazê-lo com nossos gêmeos.

              MAL saem dos berços, é verdade, mas já viajaram boa parte do mundo conosco. Ainda que só nos planos. Afinal, os tempos são de dedicação integral a eles e também de economizar nesses tempos em que o Brasil anda pra trás. Então são eles, nossos pequenos, essas cada dia mais adoráveis criaturinhas, que agora determinarão o estilo de nossas viagens, os destinos, as necessidades, as exigências e todas as demais escolhas. Eles nos condicionam, limitam nossas direções e impedem boa parte delas. Mas há muitos lugares não tão óbvios para onde levá-los dentro e fora do Brasil. Especialmente enquanto ainda podemos impôr-lhes os destinos. Afinal eles ainda não têm escolhas. Por isso pensamos no Velho Mundo antes do Novo, na Índia antes da Disney, no Pantanal antes de Beto Carrero. Se conseguiremos é outra história pra contar aqui. Tenho pensado muito nisso, especialmente em como será bom descrever estas novas viagens, ainda que eu tnha outras tantas já feitas e não descritas. Como esta, a Jaisalmer, no Rajastão.

             DEU-ME agora uma vontade incontornável de falar de Jaisalmer. Nem parece uma viagem feita há tempos. Parece tão fresca e intensa na mente que merece um bom relato. Preciso buscar estímulo e inspiração, porque sou dos que para escrever prestam mais atenção no que os outros escrevem do que na sua falta de talento. É o que me (des)qualifica, mas também o que me impede de recuar no meio do caminho. Enquanto eu me preparava para Jaisalmer, tive a sorte de me deparar com alguns artigos de Paco Nadal. Uma entre tantas preciosidades que enriquecem a literatura odepórica com textos feitos pelas mãos de quem sabe escrever. Assim tomam um dimensão ainda mais inalcançável para simples e mortais "escritores". Para além de dominar as palavras, de saber combiná-las com maestria, é um bom viajante. Daqueles que sabem observar as coisas receptivamente, tornando-os aptos a entenderem o que elas são na essência, para então depois descrevê-las como são, não como as imaginava. Num desses artigos de Nadal ele refletia sobre a Ìndia. Suas reflexões foram o bastante para sacudirem minha mente e impulsionarem minha vontade de escrever. Quer pela semelhança do que sentimos, quer pelo jeito com que descreveu os lugares por onde passou e as coisas que experimentou:

                 Estive viajando toda a minha vida e no entanto tinha uma mancha branca no meu currículo. Era mais destacada do que uma terra desconhecida num mapa do século XIX: eu mesmo nunca tinha estado na Índia. E hoje posso finalmente dizer que preenchi essas linhas na minha história de viajante. Acabo de voltar de lá. Mas como fica o olhar de um viajante à Índia pela primeira vez? Qual a primeira palavra que vem à sua mente quando pretende descrevê-la? Possívelmente "caos". Uma confusão intensa, cansativa, sedutora, mas que pode até ser reparadora, ainda que sempre caos. Não achei nada melhor para dizer agora do que "A Índia é um lugar que não deixa ninguém indiferente".

                 CADA dia sinto mais falta de ler narrativas de viagem bem escritas. Sobretudo as emocionantes. E que revelem olhares sensíveis sobre pessoas e coisas. Fazia tempo que não lia Paco Nadal. E por sorte o jornalista-viajante espanhol ainda viaja e escreve. Tanto e tão bem quanto sempre. Mas leituras assim têm sido cada dia mais raras (1).

                 A Índia estereotipada é um poço alimentador de erros de avaliação e julgamentos para quem escreve. Ou, melhor, uma armadilha. Um sujeito talentoso como Nadal pode elegantemente desvesti-la desses estereótipos, apenas através de simples e precisas palavras originadas de sua observação imparcial e receptiva. Ocasionalmente, pode também oferecer ao leitor atento ferramentas e caminhos para que em suas viagens preparem-se para desvencilhar-se dos embaçamentos. Polidamente, como cabe a um bom viajante-escritor, todavia, Nadal pode ter e tem opinião. E as descreve em reflexões que só contribuem para que seus leitores aprendam a enxergar como ele. Suas letras têm boa dose de verdades, e com freqüência nos levam a pensar. Sobretudo que ele também não escapou de chocar-se com a Índia. E que o país o marcou. Mas há muito mais em suas palavras. Bem mais do que supõe quem as leu com desatenção. Certamente Nadal tem estilo, e não por outro motivo, sucesso em seu país. O que me faz pensar que não seria mal sugerir ao leitor conhecê-lo melhor.

                 VOU então tentar em breve falar da Índia e de Jaisalmer (a inda que ambas estejam muito além das minhas palavras) no próximo post: "A beleza artística e cultural da "cidade dourada". É só aguardar um pouco.

Num templo jainista em Jaisalmer

Nota do autor

(1) Já não leio as revistas de viagens brasileiras faz tempo. Os blogs também, senão uns raros. As primeiras tornaram-se repletas de mesmices intragáveis. Todas às vezes com os mesmos destinos nas capas. De revista de viagem leio apenas a "Volta ao Mundo", portuguesa, excepcional. Não há nada no Brasil sequer semelhante. A blogosfera também. Perdeu o imenso valor que tinha, virou negócio, cresceu, ficou chata, ganhou audiência mas perdeu importância. Nem me refiro à falta de credibilidade, mas ao que já foi um ambiente virtual rico de idéias, inteligente e de ótimos debates tendo tornado-se mais um 'portal cvc' de viagens. No lugar de gente que escrevia bem, agora o fazem os que não têm tempo pra pensar. Alguns blogs estão até recheados de colaboradores esforçados e amadores tentando escrever como jornalistas. Mas abundam matérias bobocas e superficiais sobre viagens gratuitas feitas em troca de resenhas positivas, ilustradas com fotos bem produzidinhas, de avaliações vazias e deslumbradas. E os blogs de viagens vão agora tomando novo rumo, aquele mesmo dos blgs de moda. Tipo assim, 'look do dia'. Ou os de de comidinhas e lugarzinhos 'cool'. Os que tinham qualidade, ao tornaram-se comerciais ficaram cheios de superficialidades e de uma profusão de viagens a lugares comuns, direcioandas ao que o público parece gostar. São populares, recebem milhares de likes nas mídias sociais e  o público agrega-lhes um valor que para os leitores órfãos de narrativas bem escritas nada têm de valioso. Enfim, lamentavelmente é o que temos agora.