CONHEÇA O AUTOR

 

         Depois de estabelecer-se na Internet - em 1999 - escrevendo relatos de viagens em sites relacionados com o tema, e em 2006 ter fundado o blog Fatos & Fotos de Viagens - um dos pioneiros da blogosfera de viagens - Arnaldo foi convidado a colaborar com matérias na Revista Viagem & Turismo, da Editora Abril e, agora, prepara o lançamento de seu primeiro livro - "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" - ingressando, assim, na literatura de viagens com um livro encantador, segundo o autor, o primeiro de uma série de pelo menos quatro que já planeja produzir, dois deles em plena fase.

Assim o autor define esta sua nova fase:

             "Livro é coisa séria. O que o leitor encontrará em "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia" é diferente do que lê aqui no blog. Da narrativa ao estilo. Em vez de apenas uma "conversa" com o leitor, baseada na informalidade, o livro mistura traços desta coloquialidade e informalidade com os de uma escrita literária. Sobretudo com profundo respeito à arte de escrever. Passo a ser um escritor, o que nada mais é do que uma outra maneira de me expressar sobre viagens e de transmitir ao leitor minhas impressões. Segundo o poeta e ensaísta norte-americano Henry David Thoreau, "Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro". A partir deste meu primeiro livro escrito, considero ter ingressado numa nova, deliciosa fase em minha vida. 

              Minha ascensão na escrita de viagens com este trabalho literário não é exatamente uma novidade. Ainda que recentemente eu tenha notado a mente lampejar com a ideia: tornar-me um escritor de viagens. Todavia, ela sempre me rondou. Mesmo que a alguma distância. Não foram poucos os amigos, parentes e leitores do blog que há mais de dez anos recorrem à pergunta: “Por que não escrever um livro?”

Gente que escreve e encanta, fala sobre o autor:

Haroldo Castro:

            "Arnaldo é um dos viajantes equilibrados e sensatos que se lança escritor, o que, num Brasil de pouca leitura e onde a Literatura de Viagem não chega a ocupar meia estante nas livrarias, conta histórias que servirão de grande subsídio para qualquer leitor, além de ajudar a romper os preconceitos de que a África só oferece guerras, doenças e fome. Infelizmente, a riqueza cultural e natural do continente é quase sempre tão abafadas por notícias negativas que considero este livro um raio de luz na região."

Jornalista, fotógrafo, autor de “Luzes da África”, indicado para o Prêmio Jabuti na categoria Reportagens

Ronize Aline:

             "Minha opinião sobre o autor está refletida na resenha que escrevi de seu livro "Bom dia, Addis. Adeus Etiópia": ele escreve com o coração e demonstra respeito por tudo o que viu. Este livro, mais do que o relato de uma viagem à Etiópia, é uma viagem rumo a uma experiência de imersão e contemplação do outro. É como olhar para o diferente sem estranhamento ou indiferença."

Escritora, tradutora, jornalista, professora universitária, crítica literária do jornal O Globo, do Rio de Janeiro

Rachel Verano

             "Neste livro, Arnaldo tem o poder de nos transportar a um dos cantos mais fascinantes e ainda intocados do planeta. Mas de maneira ao mesmo tempo delicada e profunda, pessoal, criando intimidade com os personagens, deixando o leitor perceber cheiros, sabores e sentir as emoções de suas descobertas. Do peso do ar à alegria de dobrar a esquina, o autor consegue transmitir todo seu fascínio de estar diante de algo realmente novo."

 Jornalista das revistas Viagem & Turismo, Veja, VejaSP, Glamour, TAM e Vamos/LATAM

Davi Carneiro

             "Há uma frase atribuída ao grande viajante do século 14, talvez o maior escritor-viajante de todos os tempos, Ibn Battuta: “Viajar, primeiro te deixa sem palavras, depois te transforma num contador de histórias.” Suspeito, caro leito, ser este o caso do Arnaldo, um autêntico viajante que vem se mostrando, cada vez mais, um talentoso contador de histórias. Conheço-o e o sigo desde 1996, através do seu blog, aquele que, na minha opinião, é um dos melhores de viagens da internet brasileira, tanto pela excelência fotográfica quanto pela qualidade dos textos. Com um currículo andarilho de respeito (mais de 60 países, entre eles Quirguistão, Miamar, Irã e Uzbesquistão), Arnaldo tem o mérito de ir na contramão da blogosfera profissional e monetizada: de maneira simples, autêntica e independente, preza, principalmente, a credibilidade e a confiança de seu leitor." 

 Escritor, jornalista e colaborador de diversas revistas nacionais e estrangeiras

 


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Sábado
Out242015

O viajante, o olhar estrangeiro e a arte de viajar e escrever

Angkor ao anoitecer

                 PIERRE Verger - em seu discurso sobre o ato fotográfico - disse que o primeiro instrumento de trabalho de um fotógrafo é o olhar. O segundo, a câmera. O objeto fotografado o terceiro, também aquilo que comanda e dirige tudo mais. Do olhar ao emprego dos recursos da câmera. Verger nos diz além, que o bom fotógrafo deve olhar sem enfrentamentos, ser receptivo. Penso que deva ser também o jeito de olhar de um turista. Como quem "conversa" com o objeto, e conecta-se com ele. Entretanto, o tal "olhar olhador" de um fotógrafo não é um dom raro nem especial. E o olhar fotográfico também não é artístico. Pelo menos não necessariamente. Qualquer um pode ter esse olhar, simplesmente porque é técnico e, como tal, passível de aprender-se. Fazer arte com uma câmera é outra coisa. Este sim, um dom. Refletindo como turista sobre o tal jeito de olhar, percebo que muitas vezes errei não olhando para um lugar como ele merecia. E o negligenciei na medida em que o “enfrentei” com meu “olhar estrangeiro”. Jamais fui arrogante, todavia. Nem prepotente ou preconceituoso. Apenas ingênuo, despreparado ao olhar errado. Muitas vezes de um jeito embaçado, ainda que  não intencional, talvez embalado em clichês, fantasias ou alguma intolerância cultural.

                FOI viajando que compreendi algo importante sobre a arte de viajar. Sobretudo que viajar é mesmo uma arte, e que um turista precisa de tempo e algum treino para “desligar” seu olhar estrangeiro. Aceitar isso é condição fundamental (ainda que difícil, delicada e complexa) para ampliar as possibilidades de gostar do que vê. Afinal, viagens são irmãs da curiosidade, e esta do aprendizado. Qualquer viagem, mas sobretudo a lugares que não têm similares, que não nos concedem antecipadamente referências ao nosso olhar estrangeiro. Se estou certo, e se é mesmo assim, então quem olha estrangeiramente pode enxergar apenas incoerências. Pior, ter mais incômodos que prazeres numa viagem. Olhares isentos costumam abrir caminhos, ainda que nem sempre garantam que o que se olha agradará, algo assim como disse Gabriel Garcia Márquez: "...a vida está nos olhos de quem sabe ver".

                 JÁ quem viaja e escreve, o conhece. E provavelmente também já inspirou-se nas letras de Alain de Botton em A Arte de Viajar. O filósofo e escritor suíço passeia em muitos destinos no universo da filosofia em obras como “A arquitetura da felicidade”, “O movimento romântico: sexo, consumo e o romance”, e “Ensaios de amor”. Mas é seu passeio pelo universo das viagens - e nele suas idéias, pensamentos, inspirações e contribuições para que as dos outros sejam melhores e mais felizes - o que me atrai. Tenho especial predileção pela literatura odepórica, ainda que sempre a encare com cuidado. Possivelmente até com preconceito. Afinal a gente nunca sabe o que vai encontrar num relato de viagem de autor desconhecido. E não é só pela falta de habilidade de produzir coisa boa e gostosa de ler, mas pela afetação.

                   OS tempos são outros. Hoje não. Se hoje viajar é quase obrigatório, certamente corriqueiro, então já não espero encontrar a magia poética dos relatos de viagens de outrora, a atmosfera fantástica das narrativas de séculos atrás, quando então só pessoas especiais, aventureiras e corajosas viajavam. Mas também não ler os que pretendem nos ensinar a viajar. Ou os que determinam como e para onde devo ir. Pior, o que devo ou não ver, fazer e toda essa chatice. Nos relatos de viagens não procuro saber quantos metros quadrados tem aquela praça, quem foram seus desenhistas, em que ano a construiram nem o porquê de seu nome. Tudo isso a gente tem bem nos Lonely Planets da vida e no Wikipédia. Relatos de viagens não precisam ser assim. Nem devem. A mim mesmo sequer importa a maneira com que um autor descreve um lugar, senão sua capacidade de entregar-me sua beleza, o verdadeiro sentido de um relato de viagem. Mas nem toda vontade de descrever uma viagem - sobretudo compartilhá-la - é legítima. Todos conhecemos os que o fazem apenas com objetivos comerciais, o que impede automatica e incondicionalmente  sua legitimidade. Ou se a joga fora, mesmo que algum dia ela houvesse. Precisa ser legítima para ser eficaz. Há muitos autores com tais objetivos e habilidades, e alguns até conseguem transformar relatos de viagens em verdadeiros poemas. São palavras das quais me alimento, estimulo e inspiro ao escrever. E com as quais sonho entreter o leitor. 

  On the road again... Moab, Utah

Segunda-feira
Ago242015

CHIANG MAI, Tailândia - Assim é se lhe parece

Assim é (se lhe parece)...

              COSÍ è (se vi pare) ou "Assim é, se lhe parece", em português, é o título de uma peça de teatro do escritor italiano Luigi Pirandello. Foi escrita em 1917 e definida pelo próprio autor como uma "farsa filosófica". A obra trata da "verdade" como tema. E aborda especialmente o contraste entre realidade e aparência, verdadeiro e falso. Pirandello põe em cheque a ideia de uma realidade objetiva, algo que pode ser interpretado de modo unívoco, com racionalidade.

              Estivemos em Chiang Mai há quase 4 anos e ao retornar para escrever minhas impressões lembrei-me de que um destino jamais me pareceu tão perto do que seja se possa definir como "farsa'. Neste caso, turística. Ainda assim parece que foi ontem. E que dá-me vontade de viver novamente um momento que vivemos ali. Daqueles tão excepcionais que fazem as horas passarem vorazes. Aqueles que "comem" o tempo e nos fazem exclamar: "parece que foi ontem!". Mas não foi por Chiang Mai que vi as horas passarem tão rápidas. Foi uma piscina! que marcou minha estada em Chiang Mai. Não uma qualquer, senão a do Four Seaons Chiang Mai. Ali  vivemos momentos simples, sobretudo singelos. De relaxamento, de êxtase sensorial e de reflexões. Daqueles que todos temos em viagens e que costumam marcá-las ao ponto de os classificarmos como "experiência".  Dela observávamos diante de nós uma riqueza visual, um cenário idílico e exótico de trabalhadores vestidos à moda camponesa tradicional cultivando belíssimos campos de arroz. Observávamos confortável e tranquilamente a tudo. Tão relaxados quanto encantados. Desfrutávamos daquele prazer sabendo que acabaria. Que deixaríamos ao fim da estada tudo de tão lindo e inesperado que fez disso nosso momento mais marcante em Chiang Mai.

               Sobre viagens e destinos, é bem verdade que ambos mudam os viajantes. Mas também é que nós turistas mudamos os destinos. Não raro para pior. Sobretudo quando viajantes e destino não têm ética. Sobre Chiang Mai, devo dizer que as aparências me enganaram. Aainda que à maioria não. Mas viagens e destinos são assim mesmo, como malas e pessoas: particulares. Experiências pessoais são complexas, por isso perigoso de padronizá-las. Entretanto me surpreendi com a quase unanimidade de resenhas extremamente positivas em blogs de viagens sobre Chiang Mai. Sobretudo depois que voltei de lá e notei vivamente que o visto não me pareceu tão autêntico, espontâneo ou natural quanto o lido. Notadamente muito distante de sua classificação homogênea: "paraíso asiático".

                QUE me desculpe o caro leitor que esperava encontrar aqui mais um relato positivo sobre Chiang Mai. Me desculpo porque sei que os freqüentes já sabem que não sou corrompido: escrevo sem compromisso com nada a não ser a verdade. Do que vi e senti. Não sou pago nem recebo mimos para descreever um lugar. Mas há leitores novos. Então para estes preciso dizer que estive muito longe de cair de amores por Chiang Mai, até mesmo que foi um dos lugares de que menos gostei em toda a Tailândia. Ainda que eu tenha me preparado para, afinal, um país todo comandado pela indústria do turismo que oferece aos estrangeiros ávidos por exotismo o que eles parecem procurar: falso travestido de autêntico. É assim com toda a Tailândia. De Bangkok a Chiang Mai, de Damnoen Saduak a Phuket.

 

                LI dezenas de blogs pessoais e profissionais, de revistas turísticas, páginas comerciais (confiáves e não), todos praticamente unânimes nas avaliações de Chiang Mai como "paraíso asiático". Nada mais natural que depois de visitar Chiang Mai algumas me parecessem tão suspeitas. Ingenuamente eu ainda achava que nesse meio virtual bloguístico ena imprensa relatos de viagens revelassem apenas o inequívoco, legítimo gosto, impressões e reflexões legítimas e pessoais de quem os escreve. Eu discordasse ou não delas. Todavia alguns me pareceram típicos exemplos de editores sem coragem de assumir posição crítica, desconforto perceptível de assumirem os riscos de posicionarem-se mal. Com o trade,  com a "comunidade" e com toda a blogosfera. E não me refiro aos blogs desgastados, aqueles já sem qualquerchance de serem confiáveis, exclusivamente comercias e sem opinião, comprometidos apenas com dinheiro. Também não aos blogs fúteis, os blogs vazios, tipo "modinha", "Daslu" ou "look do dia". Faço referência aos relatos deslumbrados. Não raro cheios de excessos que já na leitura parecem mesmo não corresponder à realidade do que viram quem os escreveu. Esses mesmos que recebem prêmio de "Melhor blog do ano"  de premiadores igualmente suspeitos. E assim segue a blogosfera perdendo valor e credibilidade na medida em que ganha audiência.

                 SE a Internet tornou possível a qualquer pessoa opinar sobre qualquer assunto, se esta é uma realidade incontornável no universo das pesquisas turísticas, também é que exige do turista online ser cada vez mais exigente, seletivo, desconfiado. Sobretudo não ingênuo em suas pesquisas. Tudo para não cair em armadilhas. A influência da Internet no processo de decisão da escolha de um destino é inquestionável, mas na medida em que tornou possível a qualquer “idiota da aldeia” (nas palavras de Umberto Eco) sentir-se num patamar superior, e segundo o mesmo escritor "tornar as pesquisas virtuais um drama, em que a Internet promoveu o tal 'idiota da aldeia' a portador da verdade" e os blogs tomaram o lugar que um dia foi privilégio da imprensa e do mau jornalismo nas revistas de viagens, o leitor rpecisa ter cuidado, muito cuidado. Nesse âmbito, na medida em que seus editores podem estar sendo pagos por um destino para descrevê-lo, é preciso atenção para não ser iludido ou emprenhar-se por afirmações suspeitas, fantasiosas, ilegítimas e consequentemente fazerem o leitor tomar de decisões erradas. Hoje, então, na medida em que os blogs perderam valor, nada é mais crucial que a seletividade na sua leitura. Especialmente para que todos saibam identificar o que nem sempre é fácil: promoção turística ou partilha genuína de experiências de viagem.

                 NADA é mais natural do que esperar o melhor de nossas  viagens. Afinal, elas custam caro e nelas colocamos as melhores expectativas. Refiro-me a quem não viaja de graça, pagao para descrever algo. Então, se decepções são naturais, é preciso fazermos nosso melhor para evitá-las. E o que é "fazer o melhor"?  Primeiramente, não sermos ingênuos. Infelizmente a imprensa e a blogsfera não são incorrompíveis. Depois, saber evitar as armadilhas, porque quanto maior o volume de informações, mais o turista está sujeito a elas. Pesquisas e leitura são o melhor modo de aprofundar o julgamento. E aprender a separar joio do trigo. Quanto mais lemos, mais devemos valorizar, incentivar prestigiar e elogiar quem viaja e escreve genuinamente. Quem tem o insano trabalho de publicar suas impressões genuínas e fotos num blog de viagens, Não importa o estilo ou a qualidade da escrita ou da imagem. Devemos impulsionar, incentivar quem o faz. E sugerir a outros viajantes que também escrevam sobre suas viagens. Há anos eu diria que esta é a única forma de recuperar da blogosfera profisisonal a credibilidade perdida. Hoje não. Estou certo de que ela está definitivamente perdida. Por isso é preciso compreender que nem todos que escrevem são independentes, que nem todos publicam opiniões francas e livres e que sobretudo acerca de Chiang Mai, nem tudo o que se lê merece não ter dúvidas quanto à legitimidade. 

             VISITEI alguns destinos sem muito esperar deles. No entanto fui regiamente recompensado. Destaco Cartagena das Índias e a toda a Síria, mas não seria tolo de restringir-me a estes tendo visitado 60 países. Alguns me desagradaram fortemente. Felizmente, poucos. Na verdade, dois. Melhor ainda, dois países num só: St. Martin e St. Maarten, ilha caribenha com muito pouco do que é ótimo no Caribe e excessos do que é infernal. Há dezenas de opções muito mais atraentes no Caribe.

              TAMBÉM tenho países e destinos que não chegaram às "vias de fato" do desapontamento. Mas que também estiveram muito longe de tornarem-se encantadores. O Irã foi um. Apesar de toda sua personalidade, peso hisórico e cultura fenomenais, de um povo extremamente acolhedor, educado e elegante, ainda que contido por viver num regime de cruéis limitações aos indivíduos e aos visitantes. Pior, comandado por religião. O Irã foi até bem entediante nos dois primeiros terços da viagem. Tudo me parecia "beautiful, but overrated", como dizem os americanos. Talvez porque eu tenha comitido o erro de visitar o Irã depois deSamarkanda, Khiva e Bukhara, no Uzbequistão. Todavia, seria uma ingenuidade estúpida dizer a alguém "não vá ao Irã". Seja porque motivo for. Apenas recomendo cuidados com avaliações excessivamente entusiasmadas. Tanto quanto as de Chiang Mai. E reduzir sua primeira visita a poucas cidades, às realmente importantes.  

              NA classe dos "já vistos" menciono Chiang Mai. Não chegou a desagradar, mas também não encantou. Todavia tem tudo para ser o destino perfeito pra quem gosta de boteco. E de "exotismos" como morder rabo de tigre, ver elefante pintar com a tromba, visitar "tribos típicas das montanhas" (pobres coitados fantasiados, morando em barracos montanheses, posando com cara de desgosto e sorriso amarelo para turistas), de bazares noturnos repletos de badulaques chineses (falsos e originais) e de souvenires cafonas. Mesmo que entre tudo isso encontre meia dúzia de barracas interessantes, especialmente de roupas tailandesas, Bem bacanas. E baratinhas. Que no entanto as usará apenas na Tailândia. Ou em casa. Ou no Carnaval. Chiang Mai é para quem não se incomoda com que tudo tenha sido feito para turista. Inclusive seus "bazares". Chiang Mai transforma-se numa Disneylândia asiática. Tal qual Damnoen Saduak, o mercado flutuante a uma hora de Bangkok, maior roubada turística tailandesa. Todavia Chiang Mai tem sua vibe, não posso negar. Creio que deva tocar mais aos jovens, oas mocilheiros, aos pouco viajados e aos não muito exigentes.

               ENTÃO, é possível gostar de Chiang Mai? Sim. Basta ir sem expectativas. E preparado para ver as coisas como elas são, não como sonhou. Ainda assim, quando me recordo de Chiang Mai, costumo exclamar "Parece que foi ontem!". Infelizmente não pelo destino, senão pela experiência com a hospedagem, o que "salvou" Chiang Mai de ir pra lista dos lugares onde eu jamais voltaria por gosto: St. Martin e St. Maarten.

               CHIANG Mai me pareceu tão descaracterizada e pervertida pelo turismo de massa que o desapontamento começou logo no percurso do aeroporto ao hotel. E durou até a saída para o Cambodia, onde visitamos os extraordinários templos de Angkor e a cidadezinha de Siem Riep. Quando retornei desta viagem compreendi porque é preciso desconfiar do que se lê na Internet e na imprensa.

                  SEPARAR o joio do trigo _____________________________________________________

            ESTENDA-SE a pesquisa aos idiomas inglês e espanhol e chagam-se a blogs com classificações maduras, imparciais, inspiradoras e reveladoras. Especialmente da blogosfera de Portugal e Espanha. Diferentemente da nossa, aquelas tornam-se melhores à medida que amadureceram. E mais criativas e inovadoras à medida que se profissionalizaram e comercializam seus espaços e produtos.

         NA blogosfera brasileira encontrei apenas um blog que não classificou Chiang Mai como "paraíso": o 360 meridianos. Neste blog li o seguinte depoimento de seus editores: "Sei que tem gente que morre de amores e eu já até me prometi uma segunda chance assim que eu desembarcar na Ásia de novo. Mas, no fundo, eu acho que ela é um exemplo dos mais nítidos do que a exploração do turismo de massa, sem planejamento e políticas públicas apropriadas, pode fazer com um lugar. "

                 PROCURANDO no Google por  "Chiang Mai a truly tourist trap" ou "Is Chiang Mai overrated?, ou ainda "Tourist Traps in Chiang Mai", encontram-se opiniões, fóruns, depoimentos e relatos de até 31 roubadas (!) não mencionadas sequer de passagem pelos que avaliaram tão bem o destino. Há tantos relatos não positivos que fiquei instigado a aprofundar-me. No blog Adventurous Kate - A solo female travel blog -  a autora avalia o destino com o sugestivo título: “Chiang mai is not for everyone“. E vai além, mencionando que Há muitas coisas para não amar em Chiang Mai, razão porque é hora de pegar pontos de vista alternativos às poéticas visões.”.  Kate também avalia a blogosfera ao dizer que percebe o motivo porque muitos autores de blogs levam seus leitores a sentirem-se tão atraídos por Chiang Mai: “devido à considerável comunidade de blogueiros que só elogia Chiang Mai universalmente bem porque são novos e não querem contestar, porque não escrevem com sinceridade sobre suas experiências para evitarem críticas, porque como novatos querem o apoio dos estabelecidos. É porque preferem mostrar uma Chiang Mai tão doce. Ironicamente, eu tenho muito mais em jogo e mesmo assim falo francamente.”  Mais ou menos o mesmo que conclui o blog Changes in Longitude na matéria "Purple Haze: Pollution in Chiang Mai".

                ISSO não deve confundir o leitor, senão orientá-lo a compreender que muito do que se lê na blogosfera, na Internet e na imprensa não retrata necessariamente o legítimo gosto pessoal de quem escreveu, profissionalmente ou não, porque nem tudo é legítimo, porque há conteúdo preso a compromissos comerciais. Então, antes de perder-se na abundância de “guias definitivos” de Chiang Mai que exploram as mesmas coisas, nos “TOP 10 of Chiang Mai”, em tanta informação subjetiva, compre um Lonely Planet que terá um bom guia. O resto é procurar por fotos e textos descompromissados.

                 POR este motivo não cansarei o leitor com descrições detalhadas, turísticas e exaustivas dos lugares a visitar.mas tentarei transmitir opinião desconectada da maioiria, uma perspectiva diferente de Chiang Mai para que o leitor faça como deve fazer: concluir segundo seu pensamento. 


 Chiang Mai - Verdades e mentiras  ____________________________________________

                  A Tailândia quase inteira tornou-se superestimada. O encanto natural em grande parte foi estragado pelo turismo de massa. O exotismo numa mercadoria a ser explorada turisticamente à exaustão, e o sexo pago andando bem juntinho com tudo isso. Todavia ainda é um país necessário a um turista. Há muita riqueza e enorme patrimônio de elevados interesses turísticos. Afinal, é a mais nova das antigas culturas do Sudeste Asiático e tem história atraente, às vezes romântica. O país é um um grande imã natural com forte capacidade de atrair turistas estrangeiros. Quem depois de visitar a Tailândia sonhar com experiências mais autênticas, deve pensar em Myanmar, no Laos, no Cambodia e no Vietnã também, embora este último esteja seguindo o mesmo processo da Tailândia. Mas ainda são bons exemplos do quanto tudo fica melhor com equilíbrio entre exigências e concessões. 

                    São 26 milhões por ano, segundo a última contabilidade. A Tailândia ocupa o décimo lugar entre os países mais visitados do mundo. Não é pouco. Entretanto é dos mais notáveis exemplos de concessões sobressaindo-se às exigências, onde o turismo atende mais aos interesses comerciais e à ganância sem limites do que ao bom senso e ao planejamento. Chiang Mai, por exemplo, pode ter sido o paraíso que a propaganda lhe atribui, mas se foi, era bem antes de tornar-se um destino turístico de massa. Não dá pra engolir os exageros sem indigestão: marqueteiros chegam a chamá-la de "Suiça do Oriente", uma referência ridícula às montanhas que a rodeiam. E muitos a chamam de uma cidade "tranquila" e "charmosa", ainda que refiram-se à segunda maior cidade da Tailândia.

Do predatório ao sustentável

                  A cidade é superestimada, mas não o bastante para ser dispensável. Absolutamente. Chiang Mai tem em lá seus encantos. Poucos para alguns, suficientes para outros. Eu fui com expectativas boas, mas reconheço que deveria ter ido sem elas, não lido antes os blogs com opiniões tão entusiasmadas deste "paraíso". A concentração de turistas e as lojinhas turísticas na área do "quadrado antigo" tornam sua parte histórica numa Disneylândia asiática, onde o turismo de massa fora de controle provoca ondas de vandalismo e especulações predatórias, que exterminam o genuíno e extraordinário, o meio ambiente e o patrimônio. Transformada numa caixa registradora do grande negócio turístico, num destino cheio de atividades “pega turista”, saturarm-na de mesmices turísticas, de atrações fabricadas, de albergues, de lavanderias, de bares, e cafeterias, de lojinhas de souvenir, de outdoors, de fachadas originais camufladas, de turismo sexual, de passeios em pobres elefantes, de seven elevens, hamburguerias, restaurantes pretensiosos, sujeira, armadilhas, de poluição, preços inflacionados, de aproveitadores que afujentam o povo local amigável. Mas a Tailândia toda é assim: leva do luxo ao lixo turístico em poucos passos.

                 PASSAMOS nossos dias em Chiang Mai entre templos e edifícios modernos ou antigos  descaracterizados, entre Starbucks e barracas de rua de produtos de terceira, tentando encontrar o que diziam ser o paraíso. Vi muitos templos bonitos, alguns entre horríveis edifícios e detrás de uma rede elétrica aérea poluente, parcialmente escondidos por atrações fabricadas para turistas, cartazes e outdoors. Entre mentiras mercadológicas como as "excursões" às tribos das montanhas, entre folhetos de propaganda que classificam alguns tours como “encontros mágicos”.  Mas se existe um lugar que vale a visita ao sul Chiang Mai são os sítios arqueológicos de Sukhotai.

                 O que percebi, não só nas montanhas, foi a consequência inevitável do turismo predatório: perda de autenticidade nos rituais, no folclore, nas cerimônias populares, nos produtos artesanais, em quase tudo do que foi original. Em todaa Tailândia, afinal. É o país dos mercados de rua e dos floating markets autênticos tornando-se eminentemente turísticos. O meljor exemplo, Damnoen Saduak, Onde tudo vai se tornando mercadoria, onde o artesanato antes produzido por comunidades tribais passou a ser em fábricas, com "operários" performáticos para turistas se encantarem com "exibições autênticas". E depois comprarem seus produtos. Onde nada quase parece escapar de uma atmosfera de falsa autenticidade e de franca orientação turística que está se infiltrando em toda a Tailândia. Ainda assim Bangkok está entre minhas sete cidades mais atraentes do mundo: Barcelona, Paris, Praga, Istambul, Sevilha e Rio de Janeiro.

CHIANG Mai vale a pena?  ___________________________________________________

                  ESTIVEMOS em Chiang Mai numa escapada desde Bangkok. Com a melhor das expectativas. Mas o que concluí foi que se um dia ali considerou-se um "paraíso asiático", hoje é cidade ocidentalizada e sem a mais remota associação ao que possa ter sido um paraíso ideal. É verdade que Bangkok também é cheia de turistas. E que em Chiang Mai todavia ainda não é tão aparentemente "sexual" e"alcoólica". E que ainda que ingenuamente, se vá atrás de templos, da natureza montanhosa, de atividades outdoor e sobretudo desejando-se distância das praias. E mesmo acabando vítima de alguma tourist traps como a visita às hilltribes, entre elas as "mulheres girafa", poderá gostar e divertir-se, mesmo que para além dos templos dourados Chiang Mai, encontre 7 Elevens, Starbucks e McDonalds beirando o que é centenário e histórico, valioso e genuinamente admirável. Ainda que andando por ruas sujas de lixo, vendo rios negros de poluentes, que não escape de perceber os efeitos negativos que as concessões inconsequentes da falta de proteção ao zoneamento do quadrado histórico ocasionaram. 

                DA cidade muito se ouve falar e ler. É a segunda maior da Tailândia. O marketing turístico sabe como explorar isso nomeando-a "culturalmente a mais significativa do país". É o que ajuda a levar 5 milhões de turistas por ano. Nacionais e estrangeiros. Apresenta-se uma personalidade e conteúdo autênticos, situados entre o que é urbano e o que é rural no país, e explora o imenso manancial de atividades turísticas da "mágica" de Chiang Mai, quando visitam os templos e vivem “aventuras” outdoor, entre elas trekkings, passeios de elefante (elefante turístico, mas elefante), observá-los pintando com a tromba e jogando futebol (nada menos natural entre os paquidermes), ou então em raftings para gringo ver, daqueles que o "aventureiro" daria nota 0,5 no quesito radicalidade, participando de uma "aventura" entre tigres (enjaulados, mas tigres) no Tiger Kingdom e interagindo com esses belíssimos animais sonolentos, deitando-se sobre eles, fazendo clássicas selfies com caras e bocas, e gracinhas tipo "morder o rabo". Há quem se divirta com isso, devo reconhecer.

Wat Phan Tao 

                SE na cidade os tesouros não estão escondidos, e assim não exigem mapas enigmáticos para que os encontremos, nem guias turísticos locais ou impressos, também é provável haver ao lado deles um aproveitador, um tout, uma futilidade barata à venda e uma roubadinha. De passarinhos presos em gaiolas que uma simpática e "auspiciosa" senhora nos "permite" soltar em troca de uns bhats. Ou lojinhas com imãs de geladeira.

         Chedi Luang

                   MAS como nem tudo costuma ser ruim pra sempre numa viagem, as coisas pra nós melhoravam incrivelmente quando voltávamos ao Four Seasons Chiang Mai.

 O Four Seasons Chiang Mai (*1)  __________________________________________________

                    TODO hotel incrível torna qualquer destino incrível ainda mais. Mas quando a hospedagem resulta mais importante, marcante, inesquecível, deliciosa que o destino, há algo de errado com o segundo. O Four Seasons Chiang Mai é como se fosse a essência da Tailândia. Na forma, nas cores, sabores, perfumes, na arte e na arquitetura. Pisos, tetos e paredes em madeira teca polida, roupas de cama em fino algodão siamês, objetos decorativos artísticos, espaçosas varandas em estilo lanna, vistas para campos de arroz, para montanhas do vale Mae Rim são apenas parte do que hospedar-nos no Four Seasons tornou-se uma de nossas mais inesquecíveis experiências.

             Inesquecíveis e saudosas. Decoração, estilo das espaçosas acomodações, fabuloso cenário, excepcional e belíssimo Spa, comida e serviço impecáveis, tamanho e o conforto dos banheiros, janelas com vistas incríveis, produtos de quarto deliciosos, jardins tropicais, silêncio e uma piscina absolutamente inebriante. Nem precisava daquelas varandas privativas e ao ar livre e cobertas, em madeira e com ventiladores de teto, poltronas e um sofá-cama estilo tailandês, lugar fabuloso para relaxamento com vistas para as montanhas, búfalos e campos de arroz. 

                  O Four Seasons Chiang Mai é extremamente aconchegante. E notável sua ambientação, um delicioso equilíbrio entre rusticidade e luxo. E depois da natureza que o circunda, das instalações, os serviços são suas maiores atrações. Um lindo pavilhão central conecta-se por caminhos inclinados e ajardinados às habitações. À noite - iluminados discretamente por lâmpadas elétricas e centenas de lamparinas a óleo - nada parece interfeir na natureza. E o céu então torna-se notável. O silêncio favorece o coaxar de sapos, o canto dos pássaros e o barulho gostoso dos grilos. Uma serenata!

                 A distância da cidade é ideal a quem procura tranquilidade, um refúgio e descanso, para famílias, viajantes sós e casais em Lua de Mel. Há um micro-ônibus que liga a cidade ao hotel e faz o caminho circular durante todo o dia em horários regulares. Para quem gosta de culinária há uma escola que ministra cursos em uma cozinha especial, onde diferentes programas são definidos para todo o ano. Como a própria rede o define, o Four Seasons Resort Chiang Mai é um novo conceito em resort de luxo, sobretudo porque incentiva a tranquilidade, o conforto, os serviços, a intimidade, as mordomias e o relaxamento.

                A exemplo da Capital, a única dificuldade de hospedar-se é escolher uma entre tantas possibilidades da extensa lista de meios de hospedagem. Para todos os gostos, padrões, exigências, estilos e orçamentos. Depois de algum trabalho reduzimos nossa seleção para cinco, os “big five resorts” de Chiang Mai: The Chedi, Sofitel, Four Seasons, Mandarin Oriental e Shangri-La. Ainda assim a escolha foi difícil, pois há concorrentes menores, muito atraentes e interessantes e a preços bem mais econômicos. Optamos pelo Four Seasons pela simpatia pessoal com a rede, pelas inesquecíveis experiências anteriores e pela ambientação. 

 CHIANG Mai, a cidade dos 300 Wats  __________________________________________________

                 EM 1296 o Rei Mengrai teve presságios. Convenceram-nos a estabelecer a sede do Reino Lanna em Chiang Mai. O início foi auspicioso, tanto que tornou-se segunda maior cidade da Tailândia. Hoje o número crescente de turistas é o que mais preocupa os que cuidam da preservação ambiental e cultural da cidade. São - como em qualquer lugar do mundo - os dois gumes da faca turística: os que temem pela perda de identidade dedicam-se a manter a singularidade, aquela nascida dos presságios do rei. O Lonely Planet - que considerou-a uma das 10 mais no mundo (!) - levou-nos ao encontro dos monumentos, das estátuas, dos templos, santuários, mercados, hotéis, restaurantes, bares e atividades.

                 Cercada por vestígios de sua antiga muralha e fosso, seus tesouros são os templos. Mesmo que para se chegar a eles tenhamos que passar por um centro feioso, moderno e cosmopolita. Dizem que é a mais artística cidade da Tailândia. Não posso afirmar nada mais do que ter notado um bom número de galerias e oficinas de arte e artesanato. A comida também é diferente da capital, mas tão saborosa quanto. Nos campos, há aldeias tribais, uma fazenda de elefantes e o que resta do verdadeiro sentido do que seja “interior” e rural no país. Para além dos prazeres visuais e gastronômicos, Chiang Mai é a “home of massage” na Tailândia: ali muitas técnicas desenvolveram-se e transmitiram-se para o mundo. A tradição ainda é viva, porque não é incomum ser vendida como “Capital dos Spas na Ásia”. onde é possível experimentar o mais completo mundo das massagem e tratamentos. Dos simples aos mais luxuosos.

                 Estrangeiros que aventuravam-se à cidade no auge do turismo de mochila em 1970, encontravam uma pacata vila com muito mais templos do que casas de hospedagem. 30 anos depois os templos tornaram-se menos impressionantes e a hotelaria desenvolveu-se. Do simples ao luxuoso, do exótico ao extravagante.

  Doi Suthep

                 SE é uma cidade ainda em transição, se muito de sua personalidade perdeu-se, se foi engolida pela nova identidade, a turística, pelos ocidentalismos e pela cultura moderna, pelo crescimento urbano, se tornou-se cosmopolita com seus Starbucks e Häagen-Dazs, ganhou infra-estrutura. E há quem ache isso positivo, ainda que a balança entre modernidade e tradição pese mais para a primeira, mantém-se uma atmosfera que atrai muitos para uma uma escapada desde Bangkok

                  Na Cidade Velha, a principal atração de Chiang Mai, uma visita leva a imaginar teria sido exótica há séculos. Tão repleta de templos confinados por um quadrado limitado por um fosso. É a Cidade Velha, mais descaracterizada do que eu poderia imagina, mas ainda com muitos motivos para nos encantarmos com o passado. Algumas das paredes originais permanecem. Foram os bastiões de outrora guardando os quatro cantos da cidade. Aqui e ali podem-se ver aberturas de seteiras por onde observavam-se eventuais exércitos invasores. A cidade velha é fácil de circular a pé e de tuk-tuk, mas também por motonetas e bicicletas que se podem alugar em toda esquina. É uma das explorações turísticas mais fáceis que já experimentei, e não requer nada mais do que informação prévia e boas caminhadas em linha reta co alguns poucos desvios.

                 No meio dos quatro lados da cidade estão as portas originais. A principal delas é a Thapae, de frente para o Rio Ping, reconstruída junto com um trecho do paredão. Ela proporciona uam boa idéia de como teria sido a muralha original. A entrada para o Thapae Gate é atualmente um caminho de pedestres e ponto de partida para o passeio pela Cidade Velha.

                  Há outros portões, como Suan Dok e Puerk Chiang, e o fosso atual é uma atração "moderna" com fontes iluminadas e trânsito de carros. Há muitos templos para visitar na Cidade Velha. Mas o turista precisa selecionar os mais significativos. Não há dificuldade alguma nisso, ainda que entre um e outro sempre haja algum inesperado no caminho que o convide a visitar. Fizemos desse modo e perdemos a conta dos templos que entramos, entre eles o Wat Chiedi Luang, Wat Pan Tao, Wat Phra Singh e Wat Chiedi Man, belos exemplos de arte aplicada à arquitetura e à ornamentação de templos budistas. A maioria está em plena atividade, o que significa uma rígida exigência no modo de vestir-se e de comportar-se pelo turista.

Thapae Gate

                  Cada qual com sua história longa e significativa, o Wat Chiang Man por exemplo é o mais antigo, o Wat Chedi Luang, na Phrapokklao Road, o mais alto antes de ser destruído por um terremoto em 1545 (ou por algum exército invasor, dependendo de onde se pegue informação), cuja reconstrução restituiu parte da antiga glória. Embora aparente ser mais novo, seus ornamentos decorativos originais demonstram a verdadeira idade. Já o Chedi Luang tem significado especial: abrigou o objeto religioso mais importante da Tailândia, o Buda de Esmeralda, que agora está no Grande Palácio de Bangkok.

Thapae Gate

                 Ao lado do Chedi Luang fica o impressionante Wat Pan Tao, notável por ser inteiramente de madeira teca, embora sem o charme dos outros. Mas as elegantes esculturas de madeira que decoram o templo são um destaque que fazem valer a visita. Wat Phra Singh também é importante historicamente. Foi construído no século 14 para abrigar as cinzas de um rei, e por ser um dos maiores e um mais visitados da cidade. Seu nome significa templo do "Buda Leão". Apesar dos seus 600 anos está muito bem conservado, o mais conhecido por causa dos numerosos e extremamente ornados edifícios com telhados impressionantes e intrincada obra mural. O Wat Phra Singh é perfeito para passeios, para contemplação, para relaxamento e admiração. Nele vêm-se monges por toda parte, muitas vezes tímidos, outras ansiosos por treinarem seu inglês com os turistas. Entusiastas do budismo terão templos suficientes para conhecer na cidade: 51 ao todo.

                 O Wat Chiang Man é o mais antigo, construído em 1292, um exemplo excepcional da arquitetura Lanna, cujo chiedi de ouro rodeado por elefantes esculpidos faz dele um dos favorito entre os que estão mais afeitos à arquitetura e ornamentação do que à religião. Os telhados vermelhos, os entalhes ornamentais e o revestimento em folhas de ouro são mais novos que o restante da construção original, mas igualmente excepcionais. 

Doi Suthep

                  Fora dos seus limites fica um dos seus "tesouros", o Wat Phra That Doi Suthep. Phrathat Doi Suthep Rajvoravihara para os íntimos. É um complexo budista de 620 anos de idade. Mas foi o que menos gostei. Provavelmente pro causa de seu piso de porcelanato que quebra qualquer sonho de voltar 620 anos no tempo. Possivelmente não há nada de mais turístico em Chiang Mai do que uma visita ao famoso templo Wat Prah That Doi Suthep, o que significa estar num lugar com multidões que ali ascendem diariamente. Dizem que há uma hora perfeita para visitar o templo: ao nascer do sol, quando não há a massa de gente porque a maioria dos turistas não gosta de acordar cedo. Fica no topo de uma colina, a 1.100 m de altura. Tem vistas para a cidade, mas apenas quando a poluição do ar deixa. Chega-se a ele por uma escadaria de 306 degraus ou por um plano inclinado. Sugiro subir pelo segundo e descer pelo primeiro. Até chegar ao templo, de carro, depois de 40 minutos, dez quilômetros e 92 curvas da sinuosa estrada. Entre as atrações estão uma relíquia de Buda guardada num pagode de ouro. Achei a escadaria a mais interessante por causa das esculturas de serpentes qhe agem como corrimãos.

                 Há mercados organizados por tipo, além do Chiang Mai Night Bazaar. Esse é ruim, mas é bom pra comprar roupa hippie. Há os de alimentos e artigos domésticos, como o Worarot Market, conhecido também como Kad Luang, o principal mercado local, o Muang Markek Mai, atacadista e principal fornecedor de produtos frescos, especialmente interessante para quem gosta de comida e alimentos, o Sompet Market, na Lua Muang Road, um mercado de alimentos frescos particularmente interessante na seção de frutas. O Ton Payorm Market, de alimentos frescos e produtos domésticos, o Sanpakhoy Market, do outro lado do rio, na Charoen Muang, em direção à estação ferroviária, este um dos mais movimentados.

                  Os mercados de rua que funcionam aos sábados e domingos. Como o Walking Street Market, por exemplo. São uma instituição na cidade. Vendem arte e artesanato popular, roupas e comida de rua. Aparentemente coisa falsificada, mercadoria de terceira feita na China e coisa barata e vagabunda de gosto duvidoso. Pode ser uma experiência interessante, quanto mais você gostar de mercados como da 25 de Marçõ em São Paulo. Vale mais pelo convívio com o povo do que pelas compras. Embora o Night Bazaar seja o mais popular, outras opções de compras encontram-se ao longo da Nimmanhaemin Road Soi 1, com lojas de tecidos, galerias de arte e cafés. Na Charoenrat Road, a Vila Cini vende sedas sofisticadas de altíssima qualidade, móveis tradicionais do norte da Tailândia e objetos decorativos.

Maesa Elephant Camp   __________________________________________________________ 

O lado negro do turismo animal na Tailândia

                 Muitos têm o sonho de montar um camelo no deserto, cavalgar numa praia e fazer turismo nas costas de um elefante. Eu também já tive. E já os fiz. Todos eles. Todo mundo que vai Tailândia pensa andar em elefantes. Eu, inclusive. Mas só depois de ter feito isso duas vezes foi que percebi o quanto isso é perturbador.  É preciso saber a realidade por trás desses passeios. Especialmente os feitos em elefantes na Ásia. Eu evitarei a todos que puder daqui por diante. O Maesa Elephant Camp é mais um camp para passeios e atividades com esses animais. É um dos maiores, e dizem que goza de boa reputação no cuidado de seu rebanho, inclusive quanto ao aspecto da fertilidade, considerada alta, um que seria um bom sinal da saúde deles. Mas como toda atividade com animais, também há críticas e controvérsias relacionadas à sua exploração. Neste caso, com as caminhadas e shows nos quais eles são ensinados a dançar, pintar e jogar bola. Nada menos natural, e não notamos sinais de maus tratos evidentes, mas quando se tratam de animais, esses aprendizados e essas tarefas quase sempre estão relacionadas a algum tipo de maus tratos. Me perturba perceber que as pessoas não se sensibilizarem com isso. Estupidamente eu não resisti ao apelo turístico e fui ao Maesa Elephant Camp. Talvez porque fora mal informado, acreditando que ali estaríamos interagindo com os animais e não os montando para um passeio em suas costas e exibições infantis e ridículas que ficariam ma até para crianças executarem. Até hoje eu penso naqueles pobres animais e o que fazem com eles todos os dias nesses passeios e atividades. Não escrevo exatamente focado em turismo responsável, mas gostaria de pedir que oe leitores avaliassem melhor essas atividades em suas viagens. Eu mesmo já tive atividades não responsáveis, algumas especialmente chocantes, como visitar o deprimente zoológico de Karakol, no Quirguistão, por isso creio que ninguém deva visitar e incentivar lugares prejudiciais à vida selvagem.

                   Mas não sou especialista em elefantes. Num dado momento achei preocupante o fato do tratador descer do animal e deixar-nos sós sobre ele, caminhando seguindo o tratador. E dele portar uma ferramenta de ferro para tocar e bater no crânio do animal. É possível ver animais sendo alimentados e acariciá-los.

                 Se eu tivesse pensado melhor, não teria feito a montaria num elefante. Eles não são animais para serem montados por humanos em suas costas. Isso pode provocar-lher lesões nos pés e danos permanentes na coluna. Os animais destinados à exploração turística são abusados, mal tratados e comem mal. E são cheios de problemas psicológicos, além de físicos. Quando não estão trabalhando, são presos por correntes nos pés. Tudo para que nós, turistas, gastemos dinheiro para para enriquecer alguém, não eles. Se quiser ter uma experiência bacana com esses fabulosos animais, vá ao Elephant Nature Park, onde na natureza o turista poderá interagir com os animais alimentando-os e dando-lhes banho. Ou na Patara Elephant Farm, uma fazenda que resgata animais que foram mal tratados ou abandonados. A fazenda vive dos recursos dos turistas, que pagam para um dia de aprendizados e cudados dos animais.

Queen Sirikit Botanical Garden  ____________________________________________________

                 O objetivo deste jardim botânico é promover a investigação botânica, a biodiversidade e a conservação dos recursos naturais botânicos da região. Originalmente chamado jardim botânico Mae Sa, foi renomeada Sirikit, rainha da Tailândia, em 1994. É um lugar interessante, mas só vale a visita se for conjugada com a ida às tribos das montanhas, que não vale a pena. Caso queira arriscar-se a visitar as hill tribes, não deixe de no caminho passar pelo Jardim Botânico Real de Chiang Mai, lindíssimo. 

Hill tribes  ____________________________________________________________________

                Há muitas opções de trekkings próximos a Chiang Mai, sobretudo conjugadas com visitas ás tribos das montanhas. Algumas caminhadas são excelentes e outras horríveis.  A maioria dos roteiros visita quatro diferentes aldeias nas colinas da província de Chiang Mai: Akha, Palong, Karen e Lisu, cada qual com sua própria cultura. Lingua, vestimenta e costumes. Visitamos a Hmong village. Não gostamos.

                Para ser sincero, esta aldeia foi muito afetada pelo turismo, especialmente  porque seus habitantes estão envolvidos no comércio turístico. Optamos por visitar as hill tribes, tribos da montanha, cujos habitantes, dizem os guias de viagens, vivem como há séculos. Foi nossa pior experiência em toda a viagem, pois além de não gostarem de rebecer visitantes, os habitantes saem cedo para a lida na terra e não permitem que entrem em suas casas, nem vendem absolutamente nada do que produzem de artesanato. Evite se puder. Um tosquíssimo museu mostra como vivem, mas o desprezo com que olham os visitantes logo nos fez cair fora dali, constrangidos com o fato de que estávamos perturbando sua paz e atendendo a um apelo das agências e guias turísticos locais.

Por que não visitamos as Mulheres Girafa?  ___________________________________________

                  Porque ainda que o turismo seja uma atividade natural do ser humano, basicamente resulte da  curiosidade, que destinos turísticos tenham cada qual suas vocações, criam-se no seu rastro formas desprezíveis de turismo. A exploração de pessoas é uma delas. E neste caso, as “mulheres girafa” da Tailândia um dos mais notáveis. Costumo respeitar todos os gostos, ainda que discorde de muitos. E não escrevo para incutir responsabilidade social a ninguém. Todavia, quem desejar visitar as refugiadas birmanesas - denominadas “mulheres girafa” (o mau gosto já começa no nome) - deve saber do que se trata. Elas são escravas de um tipo de turismo sedento de qualquer coisa exótica, não importa a que preço. Parte desse mundo cão traz um tipo de turista - genuinamente desinformado ou que não está nem aí pra nada - que vai a Chiang Mai louco para embasbacar-se com algo tão efetivamente exótico quanto deprimente. Alguns tiram fotos ao lado delas, colocam nos seus pescoços os anéis, aprovam tudo e divertem-se pensando estar vivendo uma experiência "cultural" autêntica. Outros saem constrangidos ao conhecerem a realidade. Poucos percebem que nada mais fizeram do que incentivar a exploração humana. A tradição é a única fonte de renda dessas mulheres, com a qual exibem-se para um voyeurismo primitivo e condenável. Se quiser aprofiundar-se no tema, dê uma olhada na matéria "Vaidade, cultura ou tortura?", em Walk and Talk http://walkandtalk.com.br/oquetemotiva/vaidade-cultura-ou-tortura/

                  OUTRA tourist trap de Chiang Mai - o Tiger Kingdom  não sem motivos foi encerrada e seus animais removidos do “templo” por oficiais do Departamento de Parques Nacionais. Para  outro lugar onde  tenham condições mais apropriadas e fiquem longe de turistas 'mordendo' seus rabos. 

 Notas

(*) Così è (se vi pare) ("Assim é, se lhe parece" em português) é o título de uma peça de teatro do escritor italiano Luigi Pirandello, escrita em 1917 e definida por ele mesmo como uma "farsa filosófica". A obra trata o tema da verdade, o contraste entre realidade e aparência, entre verdadeiro e falso. Pirandello põe em cheque a ideia de uma realidade objetiva que possa ser interpretada de modo unívoco através dos instrumentos da racionalidade. Fonte e origem: "Wikipédia, a enciclopédia livre".

O turismo é um importante fator econômico no Reino da Tailândia, contribuindo diretamente um valor estimado em 7,3% para o PIB da Tailândia em 2012. Quando se inclui os efeitos indiretos do turismo, que representaram 16,7% do PIB da Tailândia. Em 01 de junho de 2013, a revista Time relatou que Bangkok foi identificada como a cidade mais visitada do mundo pelo 2013 Destino Global das Cidades Index, enquanto o Aeroporto de Suvarnabhumi foi local mais com geotags do mundo no Instagram em 2013. A Autoridade de Turismo da Tailândia usa o slogan "Amazing Thailand" para promover a Tailândia internacionalmente. (fonte: FINSLAB http://finslab.com/enciclopedia/letra-t/turismo-na-tailandia.php)

(*1) Four Seasons: o conteúdo deste blog não é patrocinado por companhias aéreas, hoteleiras, de seguros de viagem, locadoras de automóvel, de reservas de hotéis ou qualquer outra empresa relacionada ou não com viagens e turismo. Esta matéria não foi revista ou aprovada nem é de conhecimento das cias., entidades, hotéis, serviços ou pessoas citadas em seu corpo. As opiniões expressas são exclusivas do autor e também não endossadas por qualquer pessoa ou entidade. Não escrevo posts patrocinados (clara ou disfarçadamente), não recebo 'brindes' ou mimos, não aceito convites para fazer coberturas positivas de qualquer evento (de lançamento de caminhões a classes executivas de cias. aéreas). Não recebo permuta ou qualquer vantagem, minhas viagens são auto-financiadas, não sou recompensado ou comissionado em nenhuma hipótese e a que título for por qualquer marca de produto ou serviço, mencionado aqui ou não. Tudo o que é publicado aqui é feito com a suposição de que o leitor saiba identificar os objetivos deste blog, sobretudo que verificará com o fabricante, fornecedor ou prestador do serviço em questão. Não publico matérias que não sejam de minha autoria,  não tenho ghost-writers nem escritores colaboradores esporádicos ou permanentes.   

Tenho esse blog desde 15 de Março 2006. O mantenho com o objetivo e princípio de compartilhar textos e imagens de minhas viagens e reflexões de vida pessoal, sobretudo para insiprar e motivar o leitor a viajar. Mas jamais para conduzí-lo nem tirar dele a melhor de todas as maneiras de ver um lugar: com seus própios olhos. A tarefa é prazerosa, ainda que trabalhosa e solitária. Não ganho nada com este blog a não ser satisfação pessoal e reconhecimento de alguns. Não ponho marca d'água nem assinaturas nas fotos porque estragam a imagem e são livres para serem usadas, desde que não comercialmente. Sou simples blogueiro de viagens sem pretensão maior do que continuar a ser assim.  Sigo e admiro blogs que cultuam a espontaneidade e a autenticidade, que prezam o simples prazer de compartilhar experiências de viagens, que não se afastam da simplicidade.

Domingo
Jul192015

SICÍLIA - De Palermo a Catania, uma volta na ilha  

INTRODUÇÃO   _____________________________________________________________________

                 TODA viagem tem suas surpresas. É o que se espera delas, afinal. Mas foi só pisar no solo siciliano pra sentir seu feitiço, logo perceber que seriam boas e inumeras as surpresas. Eu não esperava tantas, nem tão boas, mas nosso roteiro pela Sicília nos fez experimentar além dos típicos prazeres italianos, também mediterrâneos. Da atmosfera ao clima, da paisagem à gente, dos costumes à culinária e na paisagem, tudo é para além de personalíssimo, algo misterioso.

Segesta 

              CADA região italiana tem sua identidade, é verdade, mas na Sicília isso parece se mais contundente. Ainda assim, o destino está  longe de ser popular turísticamente, apesar de seu potencial, de paracer um país dentro do outro. Mais ou menos como a Catalunha está para a Espanha. Seja pelo relevo, seja pelo clima, pelas pessoas, pela comida. Tudo tem sua marca. Quem já esteve em Túnis ou na Alexandria, não se deixará de por vezes sentir-se mais próximo do norte de África do que da Itália.

                NÃO é fácil eleger apenas um lugar para visita conhecer na ilha. Nem mesmo Agrigento - com seus templos dóricos - ou Ortigia - a ilha mágica em Siracusa - seriam um destaque notável em vista de tantas atrações. Circundando ou cruzando a ilha de norte a sul ou de leste a oeste, são necessários pelo menos dez dias. Um pouco mais caso o viajante decida combinar as alternativas.

                PALERMO, a capital - ponto de partida de nossa exploração turística na ilha - tem boas conexões aéreas e marítimas com o continente e pode-se dizer que por ser a síntese do que seja Sicília é o melhor começo. De uma certa atmosfera decrépita, é verdade, mas que não consegue apagar um passado glorioso. Ficamos dois dias ali e antes de seguirmos viagem visitamos o complexo monumental de Monreale: uma Catedral, uma Abadia e um Palácio do final do século XII, cujo exterior tem clara sobreposição de estilos e o interior mosaicos bizantinos surpreendentes, um belíssimo claustro de inspiração árabe e muitos detalhes ornamentais que pedem um olhar mais atento do visitante.

             DALI em diante foram tantas e tão variadas as paisagens, os estilos, os ambientes, os cenários e patrimônios - de templos gregos e romanos a praias, de larguinhos românticos protegidos por algum palacete ou igreja a paisagens de mar e serra, de fazendas agrícolas e pecuárias a lugarejos bucólicos - que não me surpreendi com uma nostálgica, discreta vontade de viver na ilha. Os prazeres foram muitos. Dos mais simples aos perfeitos. Experimentamos o sabor do incrível expresso italiano, da spremuta di arance e de uma comida fabulosa, especialmente quando eram frutos do mar.

Erice

                 Igrejas, pessoas, decadência, esquinas surpreendentes e tudo o que se pode esperar ou imaginar, ainda assim a Sicília sempre é surpreendente. O povo não parece acabar de ter sído de uma loja de griffe em Roma ou Milão. São homens e mulheres bem mais simples. Também informais, com um jeito de famiglia, tanto que observá-los era uma das formas de nos deliciarmos na ilha. 

Cefalu

                   É inegável a ligação histórica da ilha com a Máfia. A Cosa Nostra, como a chamam por lá, dizem que excede sua cidade mestra, Corleone, pequena e no coração da ilha. Se a Máfia existe, não nos preocupamos com ela e por certo também ela não conosco. Se a encontramos, não percebemos.

Corso Vittorio Emanuele e Lambretta. Toda cidade italiana tem as suas

                 A Alitalia tem voos diretos de Roma e Milão até Palermo. Dali aluga-se um carro no aeroporto Falcone, condição não fundamental para conhecer a cidade, mas para a ilha. A cidade tem animação mais discreta,  um mercado central, bons monumentos históricos, além da fundamental Monreale, bela igreja no Conca d'Oro e sobre a encosta do Monte Caputo, com vistas para o vale de laranjais, azeitoneiras e amendoeiras. Depois de Monreale, Cefalu é a cidade de praia, museus e monumentos, escapada mais óbvia desde Palermo

  Palermo

                 DEPOIS disso, Segesta, com as ruínas gregas mais impressionantes do roteiro. Logo a seguir, Erice, bonita e medieval, no topo da montanha, com vista e história dos deuses. Famosa pelas massas, não tão turística, ficou alheia à voracidade turística de um país dos mais visitados do mundo. Também come-se maravilhsamente por lá. Especilamente num restaurante custoso de encontrar, em Mazara del Vallo, do qual não me recordo o nome mas prometo tentar. Tem sabor de mar, por ser um dos mais importantes portos de pesca da ilha, assim como de azeitonas e uvas de mesa e para vinho.

No detalhe ou no todo, a Sicília tem personalidade.  Il Duomo di Palermo

                 JÁ Piazza Armerina, no centro da ilha, tem nos mosaicos romanos da Villa Romana di Casale sua atração fundamental. Depois, Agrigento, cujo complexo de templos gregos - o Vale dos Templos - mais um centro medieval e com influências árabes, Siracusa, com ruínas clássicas e um teatro grego, também um bom lugar para comer, Ragusa e seu deslumbrante centro velho e a vizinha Noto, belas cidades barrocas com sítios patrimônios mundiais da UNESCO.  

Taormina também tem praia

                   DALI seguimos a Taormina, a pequena, extremamente turística cidade com seu belo teatro grego usado ainda hoje para apresentações de verão.Nas encostas do Monte Tauro, a vista para a costa e o Monte Etna são memoráveis. Mas é turística demais. E se isso pode irritá-lo como a mim, resta prepare-se e curtir o que ela tem de bom. Catania, ponto final de nosso roteiro, nem é bonita ou pitoresca, apenas ponto de retorno par ao continente.

                   ALÉM de turística, a Sicília é para apreciadores da boa comida, cuja culinária tem algomuito próprio, ainda que óbviamente italiana, mas bem influenciada por árabes, gregos, espanhóis, franceses, alemães e normandos. O resultado é uma cultura alimentar complexa. Sobretudo saborosa. No final, em Roma, passamos um dia antes de seguir viagem a Malta, a quase desconhecida, mas belíssima ilha do Mediterrâneo. 

Palermo

PALERMO (e Monreale) - A senhora sem vaidade  ___________________________________

                 TRÁFEGO, movimento, segurança duvidosa. A capital da Sicília é um paradoxo turístico. Tem ordem e desordem, uma aparente decadência, é meio árabe, meio européia, tem mar e montanha, não é pacata, provincial ou romântica. É uma velha senhora. E sem vaiddes. Mas é preciso conhecer Palermo para entender a Sicília, porque se esta ilha tem alma, é Palermo.  Pode por vezes aparentar um lugar parado no tempo, aparentemente sem vida ou com esta se acabando. Não. Palermo é grande, movimentada, bonita, respeitável e tem patrimônio de fazer inveja a qualquer país inteiro. Daí o visitante surpreender-se a cada esquina porque passa. Há coisas bacanas de se ver, de patrimônio, de história e de misto cultural.  Palermo, então, vale a visita?

Palermo, a capital

                   NÃO encontro resposta objetiva para a questão, senão generalista: pondero que cada turista tem sua peculiaridade. Quero dizer, se como em todas as viagens, não há uma regra fixa, então, incentivo a cada um seguir seu próprio instinto e cria seu roteiro pesquisando mais para além deste blog as diversar opções de roteiro pela ilha. Este aqui é um simples ensaio do que é a Sicília, uma idéia geral da ilha como nós a vimos. Para mim ficou claro que um roteiro pela Sicília estaria incompleto sem sua capital.  

Grafites nas paredes,cartazes afixados,  fachadas desgastadas, sacadas com varal de roupas improvisado

                 A distância do continente nem é tanta: apenas três quilômetros do Estreito de Messina a separam da bota. Mas ainda que próxima geograficamente, cultural e socialmente a distância no entanto é bem maior. Até na lingua. Fala-se italiano, claro, mas repleto de palavras de origem árabe, grega, francesa e espanhola. Os hábitos, sobretudo o clima são diferentes, mas também no poder econômico, na corrupção, no crime organizado. Seus habitantes consideram-se primeiro sicilianos, depois italianos. Isso e o isolamente geográfico explicam tudo.

A senhora sem vaidade

                Tem aspecto decadente, é verdade. Todavia, ainda que nada tão diferente de toda a Itália, seja por verdadeira falta de recurso, seja por negligência, parece que Palermo está consciente da finitude. E como um senhora sem vaidade, parece não blefar com a aparência, negociar com a plástica. Nos monumentos e nas fachadas parece conformada com ela, ou então vê beleza em celebra a idade. E ainda que a cidade já tenha conhecido melhores tempos, seus edifícios enegrecidos, suas peles ou desgastadas não clamam por restauro. Há beleza na sua decadência. E autenticidade. Compensam-na com um patrimônio artístico arquitetônico notável.  

Quattro Canti e suas quatro fontes

                 O Palácio dos Normandos, por exemplo. Sede do Parlamento Regional, é um dos mais bonitos da Itália. Tem notáveis mosaicos. O centro de Palermo é uma fusão de estilos e culturas que já passaram e ficaram na cidade. No centro histórico estão os principais interesses turístico-histórico-culturais. Segue-se em direção aos Quattro Canti, como chamam o cruzamento das ruas barrocas - a Corso Vittorio Emanuele com a Via Maqueda. Oficialmente chama-se Piazza Vigilena. É ponto central dos quatro bairros Vucciria, La Kalsa, Albergheria e Capo. Segue-se por ali numa boa caminhada pela Vittorio Emanuele até a Porta Nuova, junto ao Palácio dos Normandos.

Palazzo dei Normanni e Cappella Palatina

                 Ali se enconta a Capela Palatina, belíssima por dentro. Em 1130 a mandou construir Ruggero II, primeiro rei normando da Sicília. Dedicaram-na a São Pedro. O interior é revestido por mosaicos bizantinos e árabes que recobrem cada metro da igreja que nos deixaram encantados. Pode-se ficar horas observado as cenas bíblicas, de Jesús Cristo em Jerusalém a  Noé, com direito à representação da arca e dos animais.

Chiesa di San Cataldo

                   Na Via dei Benedettini fica a igreja San Giovanni degli Eremiti, com um campanário cuja construção é atribuída a muçulmanos, pertencentes a uma antiga mesquita. Externamente chama a atenção por sua simplicidade, pelos jardins com um pequeno claustro do antigo convento beneditino.

 

San Giovanni degli Eremiti

San Giovanni degli Eremiti

                   Essencial, Il Duomo di Palermo, com fachada, pórtico, arcos, colunas e elementos ornamentais imponentes. Na Catedral - com as Catacumbas dos Capuchinhos - há os túmulos de normando e peças do século XII No interior ficam as Tumbas da Reais, inclusive as de Ruggero II e sua filha dele, a Imperatriz Constanza de Aragón, decoradas com mosaicos.

                  Durante a caminhada pode-se ir desfrutando do dolce far niente turístico: além de observar, tomar capuccino um gellati ou uma granita al limone siciliana. Piazza Vigliena, a Piazza Pretoria, as igrejas Santa Maria dell'Ammiraglio - ou La Martorana -, de San Cataldo e San Giussepi dei Teatini, a Igreja de San Giovanni, o Palácio de Normando - cujo interior abriga a Cappella Palatina, do século XII, a - e o Mercado de Vucciria e a Piazza Pretoria, todos próximos de Quattro Canti, são essenciais. Também merece uma olhada o Teatro Massimo, obra monumental neoclássica com sua cúpula enorme suportada por grandes colunas, como é próprio do estilo. Era uma espécie de símbolo siciliano no final do século XIX.

Corso Vittorio Emanuele

                  Apenas oito quilômetros separam a capital da Catedral de Monreale, uma das mais bonitas da Europa. Construída pelo rei normando Guillermo II em 1174, é uma maravilha medieval, jóia com quase nove séculos de idade, precioso exemplo de estilo artístico e arquitetônico, sobretudo pelos mosaicos bizantinos. Dedicada a Santa Maria Nuova, constitui-se uma das mais importantes construções sacras da cultura normanda na Itália. Na fachada destacam-se o pórtico renascentista com três grandes arcos construídos entrpostos ali entre 1547 e 1569, o frontispício primitivo, decorado com mosaicos e relevos, as portas de bronze, as duas torres quadradas e assimétricas e o frontão recuado, decorado com arcos entrelaçados e em relevo.

Palazzo dei Normandi (e Cappella Palatina)

                  Arquitetonicamente o interior também é grandioso. São três naves segundo um plano comum nas basílicas católicas italianas. assumem características da arquitetura cristã ortodoxa. A colunata de capitéis coríntios é de pedra monolítica, possivelmente trazida de construções mais antigas. Suporta a série de arcos que separam as naves. Luz natural clareis o interior da nave central, vem do teto e das janelas ao longo das naves laterais. O coro é mais alto e largo do que a nave central e o teto tem caibros de madeira entalhada e decorada. A Capela-mor é separada da nave por um transepto em forma absidal, e um teto em meia-cúpula, possivelmente do século XVIII. Dali estende-se a vista magnífica do vale da Conca d'Oro

Palazzo dei Normanni e Cappella Palatina

Próximo capítulo da SICÍLIA - CEFALU

Segunda-feira
Jul062015

UDAIPUR - Um oásis no Rajastão 

                     UDAIPUR em 3.000 palavras    __________________________________________________

                  QUANDO escrevo percebo o quanto as palavras não me querem, ainda que eu tanto a elas. Gosto tanto de palavras que chego a dormir pensando em algumas. E sempre lhes presto  o devido respeito, seja lá onde eu as tenha conhecido. Sem elas, comprometo minha comunicação, especialmente com meu leitor. Ainda assim, tenho-as em boa conta, mesmo não sabendo juntá-las com o sentido que desejo. Então, se quase nunca elas me são fiéis, se abandonam-me com contumaz freqüência, especialmente quando aqui mais preciso delas, tudo o que vai, volta. E quando o fazem, parecem ainda mais atraentes do que antes de me deixarem. Recebo-as bem. Tiro o véu do orgulho e as perdoo. Afinal, sou o que sou, não o que desejo: um escritor amador. Com imenso amor próprio, mas sem falso pudor, orgulho ou presunção. Não tenho talento ou expressão, apenas esforço e dedicação. Se assim é, o melhor que faço é continuar flertando com elas num eterno drible em rumo ao gol. E entre um olé e outro, juntando-as com algum sentido, escrevo como se não o fizesse, mesmo falando de sensações quentes do coração e da mente, tais como as que senti em Udaipur, cidade marcada para o resto da minha vida de viagens.                      

Eu já me sentia com “experiência”, concedia-me o direito de perceber a vida em Udaipur mais feliz e colorida. Não só de rosas, fucsias ou laranjas. De felicidade mesmo.

                  PRECISO de umas 3.000 delas. Das melhores que puder encontrar. Depois, saber como juntá-las para poder contar-lhes minha paixão por Udaipur. É tarefa soberba. E já não posso dissimular atribuindo à idade a culpa. Não. Não são o tempo e seus sinais que apagam da memória as palavras. Elas sempre me faltaram. Nunca me quiseram como eu a elas.

As cores intensas e ácidas do Rajastão, também eum Udaipur

                   SINTO o tempo passar. Não só na memória, mas na pele, nos cabelos e na carne. Até mesmo onde não vejo, apenas sinto: nos ossos. Mas por instinto ou prazer, vou tirando 'de letra' a fragilidade que ele me impõe, compensando-me algumas vantagens. Entre elas, o apuro do gosto. Mas é só um exemplo. Nas viagens também. Torno-me mais prático, menos exigente. Deixo as superficialidades, ainda que mais seletivo, que perceba mais vivo o instinto de sobrevivência. São coisas afinal que todos sentem nessa altura da vida. Sentimos mais positividade do que na juventude. É o que há de bom em envelhecer. Ao dezoito provavelmente eu diria: "Isso é coisa de velho". Hoje não, tudo fica mais consistente. Reconheço que a passagem do tempo é inexorável. Sobretudo que é superveniente à minha vontade. Vou morrer um dia. E, claro, a contragosto. Mas gosto muito de encarar a vida e a natureza como elas são: que a segunda não está nem aí pra primeira. Não me apego a fantasias e muletas espirituais para escapar dos desígnios da natureza. Nasci, vivo e vou morrer. Não irei pra qualquer lugar a não ser virar cinzas. Isto é, se a família cumprir meu desejo de tornar meu corpo em cinzas. Que serão jogadas a meu pedido ao pé de alguma árvore. Preferencialmente de um jambeiro onde mamãe nos levava para comer seus frutos na infância, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Se o tempo minha memória consegue apagar, espero que não a consciência da finitude da vida. E do quanto é bela, saborosa e um privilégio que só se tem uma vez. 

                          AVALIO melhor se preciso trocar o smartphone a cada novo modelo se ele ainda cumpre bem sua tarefa. Controlo a tentação de substituí-lo e ao carro. Preciso de um mais bacana? Depois de tê-lo, trocá-lo a cada novo modelo porque redesenharam sua lanterna traseira?  Devo atender à propaganda no Dia das mães, dos pais, dos namorados, dos avós, das crianças e do escambau? Permanecer alienado, comprar presentes obrigatórios em datas comerciais como se fossem a maneira sensata de demonstrar amor? Preciso mais do que já tenho? Não é hora de espanar o narcisismo, vaidades tolas, descabidas, de não dar importância às modinhas? E a tudo mais que é desimportante? Isso o tempo muda. Mas algo ele não me altera: a percepção do quanto as viagens tornam minha vida mais atraente. Que por mais que as faça, não me satisfaço. Porque só vejo acentuar  vontades de descobrir novos destinos e rever os conhecidos. Ah, Mianmar!...

               PERCEBO também que o tempo acentua a curiosidade por novos destinos. Quanto mais estranhos, mais novos os jeitos de viajar e olhar o mundo e as pessoas. É um bom modo de levar a vida. Como se o tempo ao passar deixasse recadinhos: "A vida é curta. Então, viaje!"... 

               QUEM sabe um dia eu explique melhor tudo isso? Hoje não. Perdi detalhes e o fio da meada. Mas quero contar-lhe dos efeitos. Não do tempo, mas do que a Índia fez comigo. E porque o saldo de minhas viagens não resultaram só das influências dos destinos sobre mim, mas da combinação dele com as coisas do meu coração e mente. Se não fosse assim, todos gostariam da Índia.

                A Índia é uma combinação única de sensações. De frustrantes a emocionantes. Muitos visitam o país e voltam amando. Outros, não, são derrotados por ele. Só quem consegue penetrar no véu de complexidades que recobre a Índia percebe que ela revela-se como é, não como imagina. Então os momentos de desconforto deixam de ser tão notáveis e quem foi à Índia para gostar encontra paciência para aceitar, compreender e admirar. Ainda que não encontre paz de espírito nem serenidade sensorial. O país exige, mas também ensina. E quem tenta, absorve. Os que não, são deglutidos. Sou infinitamente grato por duas vezes ter visitado a Índia e ter percebido o quanto ela fez por mim.

                GOSTO de ser confrontado nas convicções ao viajar, apesar de meus convencimentos. À Índia foi assim: conseguiu me persuadir. Com socos, e da rejeição à paixão. Especialmente corações pragmáticos e realistas. Tenho cá meus países que não explico porque não me encantaram. O Irã um deles. Não sei se pela falta de liberdades essenciais, por não poder escolher o que vestir ou comer por definições sociais, religiosas e políticas, por negarem o holocausto, por homens praticarem auto-flagelação com chicotes de ferro, se pelas mulheres com olhares deprimidos sob chadores ainda que encantadoras pessoas. Não sei se porque lá me senti não estrangeiro, mas um alienígena. Confortável, bem recebido, mas não bem aceito. Não explico também como a Índia, que cheira mal, tem pobreza milenar, lixo espalhado e tantas coisas mais detestáveis que o Irã e mesmo assim gostei tanto, por ter me sintodo tão atraído quando havia tanto a detestar.

                Talvez porque a Índia seja colorida. E alegre, intensa, chocante, penetrante, entusiasmadora, ter o conjunto de patrimônios mais bonitos que vi, mesmo entre a mais tocante pobreza. Cada dia um novo conjunto de impressões, de sensações, experiências, imagens, sons, desafios e contrastes, tudo uma sobrecarga sensorial, todavia que uma noite bem dormida me fazia despertar refeito e entusiasmado a explorar o dia seguinte e viver de novo aqueles excessos. Todos eu terminava  menos feliz que o seguinte  Como um incentivo, desafio, convite a olhar para tudo com olhos ainda mais bravos e corajosos, receptivos e complacentes, vencendo medos e estranhamentos, complexidades e desconfortos.

                NÃO que se pareçam as cidades na Índia. Umas mais, outras menos, é verdade, cada qual com seus caos, sujeira, poluição e buzinas irritantes. Podem cheirar mal, sempre têm uma pobreza explícita democraticamente distribuída, chocantes e pungentes, gente que nasce pobre, continua um eterno processo de pobreza, mas sob um conformismo desconcertante para seguirem sobrevivendo. Talvez seja porque tenham tanto temor a deuses tão numeros quanto ferozes e vingativos.

                A vaca é sagrada, a comida picante, Gandhi um herói, as estradas surreais, os carros, motos, caminhões, ônibus, tratores, carroças, tuk-tuks e tudo mais que rode ou se arraste são apinhados de gente ou de carga que sempre excede seus limites. Também camelos e elefantes dividem terreno nas estradas. Os monumentos são monumentais, as crianças de rua têm melequinha escorrendo do nariz aos lábios e são sujas como carvoeiros. De roer o coração. Os macacos são desordeiros, ladrões e agressivos. Sempre assustadores e perigosos.

           NÃO sei se há mais mendigos que divindades. São centenas de milhões. De ambos. Há mais animais soltos nas ruas que confinados em fazendas. Porcos, cães, ratos, pombos e galinhas. E vacas, claro. Fazendo o que as vacas fazem, você sabe. Só não vi gatos, mas não sei bem o porquê. Mas gostei muito de tudo. Muito. Vários parágrafos meus não explicariam o que Índia tem pra ter feito isso comigo.

                CHEGÁVAMOS em Udaipur. Como sempre, com a cabeça cheia de confusões. E transbordando de idéias. Sobretudo planos de voltar. Apesar dos socos, conflitos e confrontos de quinze dias de estada na Índia. Mas aquela cidade me tocava especialmente. Tanto pela imensas beleza quanto pobreza, pelas necessidades humanas tão prementes e enraizadas que não sei se solucionam-se. Sentia uma hipocrisia à minha maneira,  mais uma das dúvidas do que viajar à Índia nos provoca. 

O Quarto Azul do Palácio da Cidade

                PODERIA ter sentido antes, mas foi em Udaipur que percebi o que a Índia havia feito comigo. Chegava ao fim uma viagem gloriosa. E começava ali um sentimento jamais tão fortemente experimentado: saudades, tristeza por deixar a Índia sem querer fazê-lo. Era quase noite na última cidade de nosso roteiro pelo Rajastão. Última, mas não por gosto, mas porque viagens têm começo, meio e fim. Entretanto, se havia algum desejo notável era o de ficar mais uns dias naquela joia do lago. Felizmente minha doce Emília inventou de última hora estendermos nossa estada por mais um dia. 

                OS cheiros pungentes já não invadiam tanto minhas narinas. Ou, então, já havia me acostumado com eles. As cores já não me pareciam tão intensas e também não ouvia tantos sons. Tudo parecia mais sereno. E menos invasivo. Só não a curiosidade dos indianos por nós. Udaipur me parecia então a cidade mais sedutora que visitamos na Índia. E mostrava-se um destino esplêndido, de paisagens e monumentos encantadores. Para os olhos e o coração. Foi com muitas olhadas para trás que saímos de Udaipur, que nos despedimos da "Cidade do Lago" e da Índia.

                NA cidade eu me lembrava de que história do mundo é cheia de épicos, especialmente a da Índia. Por tantos anos de civilizações, religiões e conflitos, acabou por tornar-se o país da diversidade cultural, o lugar mais intoxicante que alguém possa visitar. Provavelmente é o que torna a Índia tão viciante. E difícil de explicar. E provavelmente o motivo porque tantos viajantes escritores tentam desmistificar o país.

                PESNO que provavelmente tenha sido encantado pela Índia porque ela quis me retribuir toda a admiração. E não o fez apenas em Udaipur. Tudo ali pareceu mais leve do que nas outras. Imperfeita, como todas que visitamos antes, mas eu enxergava alguma perfeição. Ou então era a mais cidade menos imperfeita. Udaipur tinha uma atmosfera de tranquilidade muito difícil de encontrar nas grandes cidades. E palácios, um grande lago, ruas e templos proporcionando ao visitante um desejo tentador de explorar. Eu gosto de cidades assim. Se o encantamento já me tomara desde que pisei na Índia em Delhi duas semanas antes, se já me sentia com “experiência” bastante, concedia-me o tempo o direito de perceber que vida em Udaipur parecia melhor. Mais feliz e colorida. Não só de rosas, fucsias ou laranjas. Mas de felicidade mesmo.

Mais colorida. Não só de rosas, fucsias ou laranjas. De felicidade mesmo

                UM pouco menos carregada de homens magros e sujos, talvez. E de animais pestilentos e sofredores, de cacas nas ruas e até de buzinas. Creio que por ser mais rica e poderosa cidade, desde da Era do Império Mewar. Mas a “experiência” não passou dos pés. E não me tornou nenhum indianista. Um pouco mais romântico, talvez. Mas aí é fácil. Quem é assim, se pega fácil, não resiste mesmo à mais tola forma de romantismo. Como olhar daquele lago com um palácio no meio. Especialmente às suas margens. Onde James Bond - em 1983, no filme Octopussy - teve várias cenas rodadas. Entre as mais notáveis, no Shiv Niwas Palace (o hotel de Bond), no Taj Lake Palace (hoje um hotel) e no Jag Mandir Palace (onde o personagem Octopussy, de Maud Adams, morava) e no Monsoon Palace (residência de Kamal Khan). Lembram-se da cena clássica (hoje ingênua, por certo) de perseguição num riquixá deliciosamente pilotado por 007? Fez tanto sucesso que “roda” na TV de qualquer boteco turístico da cidade.

Piscinas privativas do exuberante Oberoi Udaivilas

                 A viagem terminava em Udaipur. E com um presente: um hotel soberbo, onde chegamos numa noite extraordinária em que tudo parecia irreal, porque nos surpreendia a cada passo. Tínhamos uma vista linda sobre o cintilante Lago Pichola, para o Lake Palace e para o Palácio da Cidade, do marajá de Udaipur. Estávamos num apartamento deslumbrante. Com uma planta espetacular e incomum, uma piscina gigantesca semi-privativa que só fotografias conseguem descrever. Tudo é empolgante neste hotel. E quase irreal. Tipo de empreendimento que adiciona muitos "uaus!" ao "fator wow" numa viagem. Especialmente à Índia.

Oberoi Udaivilas

                   Em 2013, o exuberante Oberoi Udaivilas recebeu o título de melhor hotel da Índia. Quem sou eu para discordar, ainda que tenha conhecido outros tão espetaculares nesta viagem. Mais do que isso, este Oberoi está sempre na disputa por uma das primeiras posições entre os “melhores hotéis do mundo”. As razões são óbvias, pode estar certo. O quarto é espaçoso e elegantemente decorado, concebido numa planta incomum mas perfeita. E decoram-nos com obras de arte artesanais, com móveis de ótimo padrão feitos na cidade, uma sala de estar grande e próxima da área de dormir, cuja cama de casal tamanho king e vista para o lago é difícil deixar de manhã. Mas isso não é tudo. Os detalhes, a atenção aos detalhes e o bom gosto deles.

Detalhes. O que cativa os hóspedes sem que eles saibam... 

                    O banheiro de mármore tem banheira e box separados. É superequipado. E uma porta saindo para um pátio privativo com acesso à piscina. A vista do nosso quarto no hotel convidava a ficar bem mais tempo. Ainda havia um misto de excitação por estar ali, termos chegado a Udaipur e naquele fabuloso hotel, e cansaço do dia inteiro de viagem. Mas era hora de dormir, descansar para o dia seguinte.

                  A manhã seguinte estava com um sol divino e temperatura agradável. Pareciam acentuar aqueles tons brilhantes e ácidos das mulheres rajastanis em seus saris circulando pelas ruas. Aquelas ruas sempre pulsando de energia, mas aqui com uma atmosfera diferente. Nossa primeira visita foi ao Palácio-Museu de Udaipur. Gigante, belo, imponente, compacto, massivo. Sem dúvidas a mais importante atração da cidade. De carro saímos do hotel, passamos por ruas estreitas e movimentadas até subirmos à colina onde fica o palácio, um enorme complexo cujas fachadas internas e externas evocam o estilo muçulmado natural ao período mogol. E nos fazem supor o poder e riqueza daqueles tempos de marajás e de histórias de batalhas sangrentas.

                COM tempo não é difícil identificar o estilo mourisco fundindo-se com o hindu, mas aqui, sobretudo, também com outros orientais e ocidentais. Tantos palácios rajastanis me impressionaram, mas este teve uma escala especial, grandiosa e impressionante. Talvez pela sua forma compacta e a peculiaridade dos túneis que integravam seu sistema de defesa.

                OS pátios internos cercados, todavia são comuns aos demais palácios do Rajastão. Para onde abrem-se varandas, quartos e salões em dois ou três andares. Os térreos têm paredes de azulejos coloridos e tetos espelhados, mosaicos para refletirem a luz de velas colocadas em nichos.

                NA década de 1970 o governo decidiu que alguns palácios passariam a ser propriedade do governo e transformado em museus. Parte dos palácios foram mantidos como residência dos marajás e suas famílias, e parte, como neste, tranformados em hotéis.  Depois da visita comemos no Raaj Bagh Restaurant, à beira do Lago Fateh Sagar, murado, com jardins e uma área gramada com árvores, fontes e tendas, um ambiente tranquilo e acolhedor para uma refeição. Comemos comida indiana e eu algo italiano, o que não contivesse pimenta.  Mas sinceramente eu sentia saudades do centro de Udaipur, onde a vida me pareceu bem mais atraente.

                À tarde visitamos o Jardim Saheliyon ki Bari, um grande espaço popular com fontes e quiosques, uma piscina de lótus e elefantes de mármore jorrando água, construído pelo Marajá Bhopal Singh. Segundo se conta, o marajá o construiu para que a filha tivesse um lugar privativo onde receber amigas e divertirem-se na piscina, já que o jardim tem muros altos, nadando sem serem olhadas por homens da rua. É um oásis no coração da cidade. 

                 JAG Mandir foi um palácio. Hotel é um hotel palácio, o Taj Lake Palace. Construído em 1620, fica no meio do Lago Pichola e parece flutuar, não uma lha. O Jag Mandir Palace pode ser visitado em um passeio de barco pelo lago, que em gera partem das margens próximas ao Palácio da Cidade, de onde se gastam quinze minutos até chegar. Fomos num barco privativo do hotel onde estávamos, um passeio adorável que não levou dez minutos. O hotel, com bonitos jardins e lagos com fontes em mármore, alguns incrustados com pedras colorida, e oito elefantes de pedra guardando solenemente a entrada. É um hotel de luxo, onde comemos uma boa refeição com vistas para o lago.

               UDAIPUR não é só um destino turístico dos mais importantes no Rajastão. Para estrangeiros, graças à sua serenidade, patrimônio e beleza natural, é perfeito para concluir uma viagem à Índia.

                   MEU leitor sabe: não escrevo postículos com 1500 palavras e textinhos com 140 caracteres como no Tweeter. Consumo de cinco a seis mil em cada post. E não estou certo de que meus textos continuariam a ser cativantes e não burocráticos se cortados à metade. Nem sei bem porquê, se por causa da decadência dos textos das revistas, blogs comerciais e da literatura de viagens comandada pela economia de palavras, se por culta da cultura de curto prazo ou se mesmo pela minha aversão às superficialidades que dela decorrem, o fato é que aceitei meu auto-desafio: concluir um post com 3000 palavras, o dobro do que alguns julgam como um texto perfeito para um blog. 

                  SE você chegou até aqui, saiba: o Word Count do Squarespace contabilizou 3.000!

As aquarelas são do artista ANURAG MEHTA, autodidata, indiano residente em Udaipur

http://anuragwatercolor.blogspot.com.br/

Quinta-feira
Jun252015

MOSCOU - A incomparável beleza de um subterrâneo

“Atenção, portas fechando. Próxima estação...Komsomolskaya

Komsomolskaya

                  NÃO há nada que já não tenha sido dito sobre o Metrô de Moscou. Contudo, quem escreve sobre viagens é teimoso, acredita que não haja nada que não possa ser contado de maneira diferente. Mesmo sobre algo tão batido, com a abundância de guias, mapas, relatos, jornais e revistas abordando o tema. Quem o faz é porque conclui como todos, não escapa da realidade unânime, incontestável: a incomparável beleza das estações do Metrô de Moscou.

                  Se neste universo o turista que pesquisa encontra um poço profundo de informações, se já existe uma coleção de bons guias de viagens a dedicarem capítulos exclusivos ao mais famoso e turístico metrô do mundo, concluí ser desnecessário e entediante produzir mais um “guia” de como explorar o Metrô de Moscou.  O que me motivou foi escrever algo para deixar o leitor curioso.

 O casamento de uma ideologia com um movimento artístico

A foice e o martelo, na Novoslobodskaya

                 O de Moscou não é um Metrô. Ao menos não apenas um meio de transporte de massa. É uma cidade debaixo da terra: 188 estações e 300 quilômetros de extensão. E atração turística. Cada qual com seu estilo, as estações revelam modas, épocas, triunfos e derrotas da metrópole e da própria nação. Mas não se engane, apenas as mais antigas e centrais - da primeira linha - são turisticamente interessantes, sobretudo artisticamente expressivas. Umas dez delas apenas. E da linha circular Kolhtsevaia, são as que devem merecer o interesse do visitante. São os melhores exemplos da extravagância arquitetônica stalinista, sobretudo nas estações Komsomolskaya, Novoslobodskaya e Kievskaya, ainda que a elas não se restrinjam. De resto,são como dos metrôs de todo o mundo: normais. E às vezes feiosas e sujas.

                   Os locais, já acostumados, parecem já nem ligar para a beleza do “palácio subterrâneo. Acostumaram-se a elas, é natural. Nós não. Percorríamos como se fossem salas de um museu de iconografias soviéticas glorificando o proletariado. Se andar de metrô é um ato ordinariamente útil e prático, no de Moscou é também observar espetáculos da arte aplicada à ornamentação arquitetônica.

Uma grande arquitetura para um estado de grande

Novoslobodskaya

                    Construído em fases sucessivas a partir de 1935, o Metrô de Moscou foi projetado para ser além de um sistema de transporte,  um símbolo socialistas da era stalinista, a crença no poder ilimitado da ciência e da tecnologia a serviço da melhoria da qualidade de vida de uma sociedade. Suas primeiras estações são uma interpretação do Realismo socialista aplicada na ornamentação, casando a ideologia política com a do movimento artístico.

                     Turística ou funcionalmente não é lá muito fácil explorar o metrô. Consultarmos o mapa e nos encorajamos na aventura, porque teóricamente tudo parece simples desse ponto de vista. Sobretudo para quem sabe, gosta, tem experiência e se movimenta bem em metrôs. Mas tratando-se do Moscou entra-se numa escala extremamente mais complexa.

Mayakovskaya

                  Além de sua função primordial, há alguns metrôs no mundo com estações que são obras de arte, intencionalmente transformadas em patrimônios arquitetônicos e culturais. Como as do Metrô de Tashkent, Capital do Uzbequistão, um espetáculo curioso, lamentavelmente proibidíssimo de fotografar. Tem estações extremamente bonitas ornamentalmente, a maior parte delas francamente inspiradas na "matriz" - a antiga União Soviética - com painéis propagandísticos e de orgulhosas conquistas. Como a estação Kosmonavtlar, dedicada aos cosmonautas soviéticos, entre eles Vladimir Aleksandrovich Dzhanibekov e Yuri Gagarin, primeiro homem a viajar pelo espaço, em 12 de abril de 1961, então a bordo da Vostok 1. Tive o privilégio de conhecê-las em outubro de 2012. E ainda que carregasse minha câmera no ombro, éramos tão vigiados que não me arrisquei a clicar. Lá em Tashkent são vinte e nove estações de uma linha de 36 km de trilhos, um dos melhores e mais conservados exemplos de arquitetura soviética, em grande parte inspiradas no de Moscou.

Novoslobodskaya

                  Voltando ao Metrô de Moscou, onde estive em abril de 2014, creio ser o único do mundo em que se pode passar uma manhã inteira sem entediar-se com a arte soviética da fase  do Realismo Socialista (*1), estilo (ou movimento) artístico que vigorou entre 1930 e 1960, e que além da arte representava-se na arquitetura e ornamentação.

                 A primeira linha do Moskovsky Metropoliten foi aberta em 1935. era única e tinha 11 km, conectada por treze estações que Stalim apelidou de “Sol subterrâneo” e “Paraíso debaixo do chão”. Artistas e arquitetos desenharam focados na luminosidade e no brilho, simulando o Sol incidindo 35 metros abaixo das ruas, como se fossem clarabóias.

Nem sempre está vazio, às vezes cheio demais

                  Abusaram, com bom gosto, de altos e baixos-relevos, de mármores raros, de símbolos, de estátuas de bronze, de lustres, painéis, mosaicos, vitrais, de imagens que lembram personagens históricos, anônimos ou não, como soldados e suas vitórias, ginastas, esportistas, ou então atividades como a indústria, a agricultura e a guerra. E o povo, claro: trabalhadores, agricultores e estudantes.

Entrada, é Vjod, mas está escrito ВХОД.

                  Confesso que eu não teria sucesso na intenção de percorrer o subterrâneo sozinho, mesmo seguindo o roteiro bem detalhado sugerido pelo Lonely Planet. Não fosse minha doce Emília (*2) compreender (para mim, decifrar) um pouco de cirílico, o passeio no Metrô de Moscou provavelmente teria sido impossível. Mesmo sendo experiente com plantas e metrôs do mundo. Não há indicações ou nomes escritos senão em caracteres cirílicos. Nas saídas das escadas que se unem a outras linhas, tudo se complica: Entrada, é Vjod, mas está escrito ВХОД. Saída, ou Vijod, escrito ВЫХОД. Trânsito, Pyerejod, fica assim: ПЕРЕХОД. A cada partida de estação, uma mensagem sonora avisa: “Atenção, portas fechando. Próxima estação...”, que eu russo soa assim: astarochna, dveri sakryvayutsa, slyeduchalla stantsia... 

Os locais acostumaram-se com a beleza. Nós não, percorríamos como se fosse um museu

                   As mais visitadas são Mayakovskaya (Маяковская) Prospekt Mira (Проспект Мира), Arbatskaya (Арба́тская), Kievskaya (Киевская), Komsomolskaya (Комсомо́льская), Novoslobodskaya (Новослободская), Belorusskaya (Белору́сская).  Gastamos perto de uma manhã no roteiro proposto pelo Lonely Planet, mas o fizemos parcialmente. Começamos pela estação Komsomolskaya, onde a linha Sokolnicheskaya faz ligação com a linha circular, Koltsevaya. Komsomolskaya é uma das mais bonitas, e uma vez nela é possível imaginar quanto trabalho e dinheiro gastaram-se para orná-la. Uma das mais emblemáticas é a Mayakovskaya.

Povos das repúblicas soviéticas representados em cerâmica

                  O imponente teto é de estuque em estilo barroco, pintado de amarelo, ornado com oito painéis de mosaico executados em esmalte e pedrarias, e o chão é de mármore e cerâmicas. O tema dos painéis representa a luta pela liberdade e a independência nação. Na época tornaram-se obra soviética referencial. Mayakovskaya é considerada a mais bonita do sistema. Foi imaginada pelo próprio poeta Mayakovsky como pensava que seria o futuro soviético. Há colunas de mármore e aço e fica a 33 metros de profundidade. Na 2ª Guerra Mundial tornou-se abrigo antiaéreo. Stalin chegou a realizar uma assembleia de líderes do partido no corredor central da estação.

As composições, mesmo as antigas, são limpas e funcionais

                    Ploshchad Revolyvtsil é a estação das estátuas de bronze, em que supersticiosos têm a tradição de acariciá-las em busca de boa sorte. Como resultado, as partes alisadas estão sempre brilhantes, enquanto as demais permanecem escuras. Novoslobodskaya, construída em 1952, tem 32 painéis de vitrais, trabalho de artistas da Letônia, emoldurados em latão com desenhos elaborados. No final da plataforma há um mosaico de Pavel Korin intitulado "Paz em todo o mundo". Elektrozavodskaya é uma homenagem a uma fábrica das proximidades, onde o teto é iluminado por seis fileiras de lustres circulares. Dizem que originalmente eram 318 lâmpadas no total. Há baixos-relevos em mármore sobre os pilares que representam a guerra mundial. A foice e o martelo aqui aparecem mais que em qualquer outra.

Nota:

 (*1) O Realismo socialista foi o estilo artístico oficial da União Soviética entre as décadas de 1930 e 1960, aproximadamente. Foi, na prática, uma política de Estado para a estética em todos os campos de aplicação da forma, desde a Literatura até o Design de produto, incluindo todas as manifestações artísticas e culturais soviéticas (pintura, arquitetura, design, escultura, música, cinema, teatro, etc.). O Realismo Socialista está diretamente associado ao comunismo ortodoxo e aos regimes de orientação ou inspiração stalinista. Nos países da antiga União Soviética (notavelmente a Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia), o estilo do realismo socialista é tomado como sinônimo de jdanovismo, a estética oficial assim batizada em referência a Andrei Jdanov, comissário de Stalin responsável pela produção cultural e propaganda. FONTE: Wikipédia

 (*2) Encontrar um viajante com quem se tenha afinidades é tarefa difícil. E uma bela dose de sorte e acaso. Pode ser com aquele melhor amigo da vida, mas quando viajamos as diferenças aparecem e a viagem pode tornar-se tanto uma perfeição quanto infernal, já que "é viajando que se conhecem as pessoas", o que o conseguimos comprovar viajando. Os fundamentos de uma boa viagem acompanhado são muitos: compatibilidade de gostos, curiosidades, humor, afinidades culturais e sociaie, interesses, ritmo, respeito pelo espaço do outro. Por aí vai. Se então considero uma boa companhia de viagens a perfeição, que dizer  de ser ela, minha esposa, a que nunca sonhei ser possível existir. É um mundo perfeito. Onde tudo o que vejo tem maiores chances de ser atraente.